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28 de janeiro de 2015

Sermão para o 3º Domingo depois da Epifania – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] Sentido Espiritual das Cerimônias da Missa – Parte 5: Do Gradual ao Sermão

Em nome do Pai, e do Filho, e do espírito santo. Amém.
Ave Maria…
Aviso
A propósito de algumas palavras do Santo Padre – depois corrigidas, mas sem o mesmo efeito – e que fizeram das famílias católicas numerosas motivo de chacota.  É evidente que católicos não devem reproduzir como coelhos porque isso é impossível. Devem seguir a lei natural e da Igreja, o que leva a famílias numerosas. Nunca é lícito a um casal católico fazer uso de métodos contraceptivos ou consumar o ato conjugal de modo inapto à geração da prole. Aliás, fazer isso é um pecado mortal. A primeira finalidade do matrimônio é a geração dos filhos. Se, em determinado caso, a geração não pode se fazer em virtude de uma esterilidade natural ou pela idade, não há problema. O importante é que o ato seja em conformidade com a natureza que Deus nos deu, isto é, que ele seja apto para a geração dos filhos. Mesmo os chamados métodos naturais só podem ser usados licitamente quando existem razões graves para isso. Portanto, os católicos devem ter em alta conta uma família numerosa. Como diz o Salmo 126: “Eis que os filhos são um dom do Senhor, o fruto das entranhas é uma recompensa. Como setas na mão do guerreiro, assim são os filhos da juventude. Ditoso o homem que delas (dessas setas, que são os filhos) encheu a sua aljava (estojo para as setas).” O católico que tem uma família numerosa não é um coelho. Ele é, simplesmente, católico.
Sermão
Continuemos, caros católicos, o nosso breve percurso pelos ritos e orações da Missa no Rito Romano Tradicional.  Terminada a Epístola, o celebrante recita o Gradual e o Aleluia na mesma posição da Espístola, tocando o Missal ou porta-missal. Quando acaba de recitá-los, se a Missa é cantada, vai sentar-se, enquanto a Schola Cantorum canta essa parte. Essa parte da Missa, entre a Epístola e o Evangelho, é como um prolongamento do “Deo Gratias” com que se respondeu à Epístola. E como são belos esses cantos nessa parte da Missa e o canto gregoriano, em geral. Santo Isidoro de Sevilha diz: “o canto sagrado (gregoriano) produz um grande número de efeitos salutares: ele enfatiza a solenidade e a majestade do culto, eleva o espírito, alegra a alma e produz nela uma santa alegria, acalma as paixões, nos leva à devoção e ao arrependimento, chama as lágrimas, nos leva à conversão, nos eleva acima das coisas terrestres e nos faz mergulhar na meditação dos bens celestes.” Infelizmente, com o abandono do canto gregoriano, o canto atual nas nossas liturgias produz exatamente o inverso do que fala Santo Isidoro. Esse canto moderno que se usa nas liturgias tira a solenidade do culto, tornando-o profano, impede a elevação do espírito, deixando-o escravo da mera emoção, não nos leva à conversão, mas à satisfação da nossa sensibilidade e nos impede de meditar nos bens celestes, fazendo-nos meditar somente em nós mesmos e nos nossos gostos. Que falta faz na Igreja, caros católicos, o canto gregoriano, marcadamente presente em uma Missa cantada no Rito Romano Tradicional.
Entre a Epístola e o Evangelho, pode-se ter, dependendo do tempo litúrgico: 1) o Gradual e o Aleluia, 2) o duplo Aleluia, 3) o Gradual e o Trato. Em certas Festas, tem-se também a Sequência. Habitualmente, como na Missa de hoje, do Tempo depois da Epifania, tem-se o Gradual e o Aleluia. Na Septuagésima e na Quaresma, tem-se o Gradual e o Trato. No Tempo da Páscoa, tem-se o duplo Aleluia. Em algumas circunstâncias, tem-se só o Gradual.
Gradual. Entre os 150 Salmos, temos os sete salmos chamados graduais, que se denominam assim porque eram cantados nos degraus do Templo de Jerusalém. O nome dessa parte vem daí, mas também porque, em certo momento da história, eram cantados, nas Igrejas, nos degraus do altar ou nos degraus do ambão da Epístola. Esses degraus, que o cantor subia entre a Epístola e o Evangelho, significavam as virtudes pelas quais é preciso subir para praticar o Evangelho. Em geral, o texto do Gradual é tirado dos salmos, mas, às vezes, é tirado também de outros livros da Sagrada Escritura ou pode ser até mesmo de composição eclesiástica.
Trato, como mencionamos, canta-se após o gradual durante a Septuagésima e a Quaresma. Os autores medievais viam no Trato a tristeza dos judeus cativos na Babilônia, que, às margens do Eufrates, tinham suspendido os instrumentos musicais. Assim, o que o roxo significa para os olhos, o Trato significa para os ouvidos. Antigamente, se recitava o Salmo inteiro, como ainda se faz no 1º Domingo da Quaresma e no Domingo de Ramos.
Mas é o Aleluia que está geralmente presente junto ao Gradual nos textos das Missas. Aleluia é palavra do hebreu, transmitida sem tradução para o grego e para o latim. Aleluia quer dizer “louvai ao Senhor” e é uma expressão de alegria. Canta-se duas vezes Aleluia, segue o texto e canta-se novamente o Aleluia. Três vezes, pois três são as pessoas da Santíssima Trindade. Tripla a nossa alegria pela nossa criação, pela encarnação do Verbo e pela nossa redenção.  No tempo Pascal, entre a Epístola e o Evangelho, só se canta o Aleluia, dobrado, pois multiplicada deve ser a nossa alegria com a ressurreição de Nosso Senhor. Nos tempos penitenciais, o Aleluia, como manifestação de alegria, é omitido. O Aleluia é continuação da ideia contida no Gradual. O canto da palavra Aleluia é bem prolongado, acompanhado de várias notas porque a alegria dos santos no céu é sem fim, nos diz São Boaventura. São João (Ap. 19, 1-4) diz que o aleluia é o canto dos céus: “depois disso, ouvi no céu como uma grande voz de uma grande multidão que dizia: aleluia. (…) E eles disseram uma segunda vez: aleluia. (…) E os 24 anciãos e os quatro animais se prostraram e adoraram Deus sentado sobre o trono dizendo: Aleluia, aleluia.” No Aleluia, a Igreja toma um pouco mais de liberdade e se limita menos aos textos dos Salmos.
Em certas Missas, pode haver, entre a Epístola e o Evangelho o que se chama Sequência. A Sequência, como o próprio nome diz, é sequência, é prolongamento do Aleluia, tratando do mistério celebrado na Santa Missa. Só subsistem cinco Sequências na liturgia romana tradicional: a Sequência de Páscoa (Victimae Paschali laudes), a de Pentecostes (Veni Sancte Spiritus), a de Corpus Christi (Lauda Sion), a de Nossa Senhora das Dores (Stabat Mater) e a da Missa de Requiem (Dies irae). Cada uma dessas Sequências são tesouros inestimáveis de doutrina e espiritualidade católicas.
Terminados o Gradual e Aleluia ou Trato, o celebrante se prepara para o Evangelho. Ele vai ao meio do altar, eleva os olhos para a cruz pela primeira vez durante a Missa, e recitas duas orações (Munda cor meum e Iube Domine benedicere), profundamente inclinado. Nelas, o sacerdote ou o diácono (na Missa solene) reconhece que é indigno de anunciar o Santo Evangelho e reconhece que precisa do auxílio divino. A oração Munda cor meum faz menção ao profeta Isaías, que se desesperava diante da sua missão de profeta por ter os lábios manchados, por ser pecador. Veio um serafim, e com um carvão tirado do altar tocou os lábios de Isaías dizendo-lhe: “tua iniquidade foi retirada e teu pecado foi perdoado”. Nessa oração, o padre pede a purificação dos lábios, mas também do coração, claro, pois nada adianta louvar a Cristo com os lábios se o coração está longe dele. Tendo pedido a purificação de seu coração e de seus lábios, o sacerdote pede a bênção divina, a fim de que o Senhor esteja em seus lábios, para que possa anunciar digna e competentemente o Santo Evangelho. Na Missa Solene, é o diácono que canta o Evangelho. Nessa Missa, o diácono coloca o Evangeliário sobre o altar. Ele coloca no altar, que é Cristo, como já falamos, para indicar que o Evangelho vem de Cristo, que aquilo que ele vai anunciar veio de Cristo. Em seguida, o diácono se ajoelha no primeiro degrau do altar e recita a oração Munda cor meum. Em seguida, pega o Evangeliário no altar e pede a benção ao sacerdote. Dada a bênção, o sacerdote coloca a mão direita sobre o Evangeliário e o diácono oscula a mão do padre. O sacerdote envia visivelmente o diácono para que ele cante o Evangelho. Ele dá a bênção ao diácono antes do canto do Evangelho, ao contrário do que ocorre na Epístola, em que ele dá a bênção ao subdiácono somente depois do canto. A Epístola, como dissemos, significa o Antigo Testamento. No Antigo Testamento, Nosso Senhor não enviou visivelmente ninguém, pois não estava entre os homens. Já no Novo Testamento, Nosso Senhor enviou visivelmente os Apóstolos. Depois da bênção, faz-se a procissão do diácono, subdiácono, turiferário, cerimoniário e dois acólitos. As velas e o incenso são marcas de honra dadas a Cristo. Velas e incenso acompanham o sacerdote na procissão de entrada e saída porque ele é outro Cristo. Velas e incenso acompanham o Evangelho porque é Nosso Senhor que está ali presente espiritualmente na sua Revelação. (Claro, presença muito distinta e inferior à presença substancial na Eucaristia, mas uma presença verdadeira). Na Missa Cantada, em torno do Evangelho estão o sacerdote, o cerimoniário, o turiferário e os acólitos. É bom lembrar que, na Missa, mesmo as leituras não têm por finalidade primeira a instrução, a catequese. Não, a finalidade das leituras é, antes de tudo, prestar culto a Deus, e venerar sua bondade ao nos revelar a sua própria vida. Por isso, as leituras são feitas em latim e não são feitas voltadas para o povo. A instrução é na homilia. As velas são a luz que os ensinamentos de Cristo representam para nossa inteligência. Cristo quer iluminar nossas inteligências com sua doutrina sublime. As velas são também fogo. Nosso Senhor quer colocar o fogo do amor a Ele em nossas almas. Ele mesmo falou que veio trazer o fogo ao mundo. O incenso representa o bom odor da doutrina, dos ensinamentos, dos exemplos e das virtudes de Cristo. O Incenso representa também o Sagrado Coração de Jesus, ardendo de caridade, querendo nos transmitir a vida da graça. O Evangelho é incensado com as mesmas honras que o Santíssimo Sacramento, com as mesmas honras que o sacerdote, com as mesmas honras que a Cruz. O Santíssimo Sacramento é o próprio Cristo. As outras coisas – sacerdote, Evangelho, cruz – estão intimamente ligados a Ele. Na Epístola, como dissemos, aquele que a canta é acompanhado só pelo cerimoniário, por uma só pessoa, o que significa a pequena quantidade de judeus que seguiram, de fato, as profecias, aceitando o Messias. No Evangelho, o Padre ou o diácono está cercado de quatro ou cinco pessoas, com muita solenidade, evidenciando a grande quantidade de pessoas que se converteram ao Evangelho. Como todos percebem, o Missal muda de lado no momento do Evangelho. O Evangelho é cantado para o norte, ao menos para o norte espiritual, já que o altar está voltado para o leste. Canta-se para o norte porque era sobretudo para o norte que o Evangelho tinha que ser anunciado nos tempos antigos, pois no norte estavam os pagãos, os bárbaros, no mundo então conhecido. Voltado para o norte, para os países gelados dos infiéis, que devem ser embrasados pela pregação apostólica. Na Missa cantada ou rezada, é impossível que o Missal, que está sobre o altar, esteja completamente voltado para o norte. Ele fica, então, na diagonal. Na Missa Solene, durante o canto do Evangelho, o livro é sustentado pelo subdiácono, é o Antigo Testamento que dá a base ao Novo Testamento. O subdiácono representa também aqueles judeus que aceitaram Nosso Senhor Jesus Cristo.
Para iniciar o Evangelho, diz-se ou canta-se o Dominus Vobiscum. Em seguida vem o Sequentia ou Initium Sancti Evangelii secundum… Faz-se, nesse momento, um dos mais antigos sinais da cruz de que se tem notícia. O sacerdote faz um sinal da cruz no início do texto do Evangelho que será cantado, para nos lembrar de que o Evangelho é o Evangelho de um Deus crucificado. Em seguida, ele faz um sinal da cruz na testa, porque não devemos ter vergonha do Evangelho, mas confessá-lo. O que está na testa é evidente, vide o dito popular: “está escrito na sua testa”. Por isso, o santo crisma se recebe na testa, quando a pessoa se torna soldado de Cristo e, por isso, as cinzas se recebem na testa, pois é um lugar que nos expõe aos outros. Portanto, sinal da cruz na testa: não se envergonhar do Evangelho e aderir inteiramente a ele. Faz-se o sinal da cruz na boca, para poder confessar o Evangelho e transmiti-lo. No coração, para que o Evangelho seja impresso no nosso coração, para que nossa vontade possa amá-lo profundamente, colocando-o em prática. Também os fiéis fazem esse sinal da cruz na testa, na boca e no peito. O sacerdote se volta para o Evangelho, que se torna o centro da Igreja. No final do Evangelho, o sacerdote oscula o início do texto, em sinal de adesão completa ao que acabou de ser dito. Ao beijar/oscular o Evangelho, ele pede também que os nossos delitos sejam perdoados. O Evangelho na Santa Missa é um sacramental que perdoa as faltas veniais, se estamos arrependidos delas. Na Missa Solene, é o subdiácono que carrega o Evangelho para que o padre o oscule, simbolizando os judeus que se converteram pela pregação do Evangelho e que se dirigiram a Cristo. A reverência ao Evangelho é tanta que o subdiácono ao levá-lo ao padre, para que ele o oscule, não faz nenhuma genuflexão ou reverência ao santíssimo, apesar de passar diante do sacrário. Alguns ainda ousam dizer que a Sagrada Escritura não é devidamente venerada na liturgia tradicional. Ao contrário, ela é venerada com grandes honras, mas sempre abaixo, claro, do Santíssimo Sacramento. Na Missa Solene, o sacerdote é incensado. No final do Evangelho, diz-se Laus tibi Christe, “Louvor a Vós, ó Cristo”, por ter habitado entre os homens e por ter falado com eles.  O Evangelho se ouve de pé, pois é o Evangelho também da Ressurreição. De pé, para mostrar a determinação e prontidão em praticar o que foi lido. De pé, prontos para o combate por Cristo. De pé, prontos para pregar o Evangelho depois de ouvi-lo.
Depois do Evangelho, pode vir o sermão. Ele é obrigatório aos domingos e festas de preceito. Na liturgia tradicional, o sermão não faz parte do rito da Missa propriamente dito. Por isso, o sacerdote tira o manípulo para pronunciar o sermão, pois o manípulo se usa exclusivamente na Missa. Convém que o sermão se faça de lugar alto, pois a doutrina que deve sair da boca do sacerdote deve ser uma doutrina celestial. Esse lugar elevado é também um lembrete ao sacerdote de que sua pregação não será eficaz por causa da sua eloquência, mas por causa da origem celestial dela.  Esse lugar elevado é igualmente um lembrete ao sacerdote de que a eficácia da sua pregação dependerá também da altura de suas virtudes. A elevação do púlpito de onde o padre profere o sermão indica, ainda, que ele tem autoridade para ensinar. Esse lugar significa as montanhas sobre as quais Nosso Senhor tantas vezes subiu para pregar as verdades eternas.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

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