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27 de fevereiro de 2020

A ALMA DE TODO APOSTOLADO

J. B. Chautard

Parte 2/2

O homem, ai! amiúde separa oque Deus uniu; por isso é que tão rara é essa união perfeita. Demais, para ser realizada, exige ela um conjunto de precauções de frequente negligenciadas.  Nada empreender que exceda as próprias forças. Ver em tudo habitual, mas simplesmente, a vontade de Deus. Não nos metermos em obras senão quando Deus quer, e na medida exata em que lhe apraz ver-nos consagrados a elas, e somente com o desejo de exercer a caridade. Logo no princípio, oferecer-lhe nosso trabalho e, no decurso de nossos labores, reanimar amiúde, por meio de pensamentos santos, por meio de ardentes orações jaculatórias, nossa resolução de não trabalhar senão por Ele e para ele. Em suma, seja qual for a atenção que devemos prestar a nossos trabalhos, conservar-nos sempre em paz, perfeitamente senhores de nós mesmos. Quanto ao bom êxito, deixá-lo unicamente nas mãos de Deus e aspirarmos a ver-nos livres de todos os cuidados apenas para nos reencontrarmos sós por sós com Jesus Cristo. Tais são os sapientíssimos conselhos dos mestres da vida espiritual, para chegarmos a essa união.
Por vezes, as ocupações hão de multiplicar-se a ponto tal que exijam o dispêndio de todas as nossas energias, sem que, por outro lado, nos possamos desembaraçar do fardo, ou mesmo aligeirá-lo. A consequência poderá ser a privação, por um tempo mais ou menos longo, do gozo da união a Deus, mas essa união somente sofrerá algum dano se nós assim o quisermos. Prolongando-se este estado, é necessário por tal motivo gemer, sofrer e temer acima de tudo o habituarmo-nos a ele. O homem é fraco, inconstante. Se descuida a sua vida espiritual, depressa perde o gosto dela. Absorvido pelas ocupações materiais, acaba por comprazer-se nelas. Pelo contrário, se o espírito interior manifesta a sua vitalidade latente por meio de suspiros e gemidos, esses lamentos contínuos, como provêm de uma ferida que se não fecha mesmo no meio de uma atividade transbordante, constituem o mérito da contemplação sacrificada, ou melhor, a alma realiza essa admirável e fecunda união da vida interior e da vida ativa. Oprimida por essa sede de vida interior que não logra apagar a seu bel prazer, a alma há de voltar com ardor, logo que possa, à vida de oração. Nosso Senhor sempre lhe há de reservar alguns instantes de entretenimento com ele. Exige, porém, que a alma os não despreze e há de então compensar-lhe com o fervor a brevidade desses felizes momentos.
Como as vias de Deus se assinalam pela sabedoria e pela bondade! Que maravilhosa direção não dá Ele as almas por meio da vida interior! Conservada no seio da ação e sem embargo generosamente oferecida, essa pena profunda de termos de consagrar tanto tempo às obras de Deus, e tão pouco ao Deus das obras, tem a sua compensação. Graças a ela, desvanecem-se todos os perigos de dissipação, de amor próprio, de afeições naturais. Essa disposição da alma longe de prejudicar a liberdade do espírito e a atividade, dá-lhes um caráter mais ponderado. É ela a forma prática do exercício da presença de Deus, porque a alma, na graça do momento presente encontra Jesus vivo, oferecendo-se oculto sob a obra a realizar. Jesus trabalha com ela e ampara-a. Quantas pessoas, que desempenham cargos, hão de dever a essa pena salutar bem compreendida, a esse desejo sempre sacrificado e sempre vivo de ter mais momentos livres para estar junto do sacrário, e essas comunhões espirituais desde então quase incessantes, hão de dever, repetimos, a fecundidade de sua ação e ao mesmo tempo assim a salvaguarda da sua alma como seus progressos na virtude!

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