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5 de maio de 2018

São Pio V, Papa e Confessor

Pio nasceu numa cidade chamada Bosco, na Lombardia, mas era descendente dos Ghisleri, uma família nobre da Bolonha. Aos quatorze anos, ingressou na ordem dos Fredes Pregadores (Dominicanos). Era um homem que se destacava pela maravilhosa paciência, profunda humildade, grande austeridade de vida, contínuo fervor na oração, e ardentíssimo zelo pela observação da regra e pela honra de Deus. Estudou Filosofia e Teologia, e de modo tão excelente que foi por muitos anos, com louvor, encarregado do magistério dessas ciências. Pregou publicamente em muitos lugares, com muito proveito dos ouvintes. Desempenhou o ofício de inquisidor com inviolável fortaleza de alma, e conservou muitas cidades imunes da heresia que então grassava, até arriscando a própria vida.

Paulo IV, a quem agradaram suas exímias virtudes, promoveu-o a Bispo de Nepi e Sutri, e, depois de dois anos, ele foi instrito entre os Cardeais da Igreja Romana. Pio IV transferiu-o para a Igreja de Mondovì, no Piemonte, onde, chegado, deparou-se com muitos abusos que haviam surgido na diocese. Ele reformou totalmente sua diocese, e, tendo cumprido seus afazeres, retornou a Roma, onde lhe chamaram a atenção matérias de gravíssimo interesse, para as quais usou da audácia e constância apostólicas. Após a morte de Pio IV, o quinto Pio, para a surpresa de todos, foi eleito para sucedê-lo. Tendo-se tornado Papa, ele não mudou seu modo de viver senão com relação ao hábito exterior. A Propagação da Religião lhe era objeto de cuidado constante; a restauração da Disciplina da Igreja, de trabalho indefectível; a extirpação dos erros, de vigilância assídua; o socorro às necessidades dos pobres, de beneficência infalível; a defesa dos direitos da Sé Apostólica, de firmeza invicta.

O sultão turco Selim se gloriava de muitas vitórias, e ajuntou uma grande frota no Golfo de Lepanto, mas Pio V o destruiu, não tanto pela força das armas quanto pelas orações que fazia a Deus. Na hora em que a vitória era ganha, Pio o soube por uma revelação interior de Deus, e manifestou o fato para seus serventes. Ele se ocupava com os preparativos para uma nova expedição contra os turcos, quando caiu em grave doença. Aturou acérrimas dores pacientíssimamentem em quando chegou o fim, recebeu os Sacramentos da maneira usual, e com grande paz entregou seu espírito a Deus no ano da graça de 1572, com 68 anos de idade e seis anos, três meses e vinte quatro dias de papado. Seu corpo está sepultado na Basílica de Santa Maria, onde o Presépio de Belém é mantido e muitíssimo venerado pelos fiéis, que obteram de Deus, pelas suas orações, muitos e evidentes milagres. Milagres esses que foram provados por investigação judicial pelo Papa Clemente XI, que inscreveu seu nome entre aqueles dos Santos.



"Não paralisaremos o progresso da heresia senão movendo o coração de Deus. Corresponde a nós, luz do mundo e sal da terra, levar caridade aos espíritos e animar os corações com o exemplo de nossa santidade e de nossa virtude."

Discurso de São Pio V à Cúria Romana no primeiro consistório do seu pontificado, com o qual indica a reforma dos costumes que empreenderia.




Pio V foi o primeiro e o mais importante dos chamados "Papas reformadores", isto é, que aplicaram as diretrizes do Sagrado Concílio de Trento.
Aplicou-se à reforma dos costumes, começando pelo seu exemplo de vida e penitência, e pela Cúria Romana. Deu aos pobres grandes somas de dinheiro que os seus predecessores gastavam com banquetes. Lutou contra as festas imorais e suprimiu a usura. Suprimiu totalmente o nepotismo, escolhendo os novos bispos e cardeais por suas qualidades morais. Aplicou a lei de residência dos bispos, ameaçando os desobedientes com o calabouço se permanecessem em Roma. Preocupou-se com a melhora das ordens religiosas. Levou a cabo a redação e publicação do Catecismo Romano. Reformou o Ofício Divino, retirando certos hinos renascentistas abusivos. Publicou o Missale Romanum e a bula Quo Primum. Proclamou São Tomás de Aquino Doutor da Igreja e ordenou a publicação da versão oficial da Suma Teológica.
Atuou na defesa da Fé contra os protestantes e os turcos. O avanço do protestantismo cessou em seu pontificado. Exortou os príncipes dubitativos entre a fidelidade à doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo e a heresia a decidir-se de uma vez, e aderir à reforma católica. Ameaçou com excomunhão Maximiliano II, da Alemanha, que favorecia o protestantismo. Abençoou o duque de Alba, que defendia o cristianismo, e auxiliou Segismundo II, rei da Polônia, a firmar a Religião católica no seu país, assim como trabalhou pela confirmação da Itália na verdadeira Religião. Excomungou Isabel da Inglaterra, filha ilegítima de Henrique VIII com Ana Bolena, que estabelecia o anglicanismo no reino, destruindo assim os resultados dos esforços de Maria Tudor, sua predecessora, para reestabelecer o catolicismo na Inglaterra, sendo esse a única excomunhão de um príncipe na época. Foi apoiado pelos príncipes italianos e pela inquisição espanhola.
Contra o avanço do Islão, constituiu a Santa Liga, entre Veneza, a Espanha e a Santa Sé. Com D. João da Áustria à cabeça desta, venceu gloriosamente para Cristo a batalha naval de Lepanto.
Sua festa é celebrada na Igreja Universal no dia 5 de maio.




Iste est, qui ante Deum magnas virtútes operátus est, et omnis terra doctrína ejus repléta est : Ipse intercédat pro peccátis ómnium populórum, allelúja.
Este é aquele que operou grandes virtudes diante de Deus, e de cuja doutrina se encheu toda a terra. Que ele interceda pelos pecados de todos os povos, aleluia.

8 de julho de 2011

“O mundo sempre nos fará guerra” - São Francisco de Sales

Assim que a tua devoção se for tornando conhecida no mundo, maledicências e adulações te causarão sérias dificuldades de praticá-la. Os libertinos tomarão a tua mudança por um artifício de hipocrisia e dirão que alguma desilusão sofrida no mundo te levou por pirraça a recorrer a Deus.

Os teus amigos, por sua vez, se apressarão a te dar avisos que supõem ser caridosos e prudentes sobre a melancolia da devoção, sobre a perda do teu bom nome no mundo, sobre o estado de tua saúde,sobre a necessidade de viver no mundo conformando-se aos outros e, sobretudo, sobre os meios que temos para salvar-nos sem tantos mistérios.

Filoteia, tudo isso são loucas e vãs palavras do mundo e, na verdade, essas pessoas não têm um cuidado verdadeiro de teus negócios e de tua saúde: Se vós fôsseis do mundo, diz Nosso Senhor, amaria o mundo o que era seu; mas, como não sois do mundo, por isso ele vos aborrece.

Vêem-se homens e mulheres passarem noites inteiras no jogo; e haverá uma ocupação mais triste e insípida do que esta? Entretanto, seus amigos se calam; mas, se destinamos uma hora à meditação ou se nos levantamos mais cedo, para nos prepararmos para a santa comunhão, mandam logo chamar o médico, para que nos cure desta melancolia e tristeza. Podem-se passar trinta noites a dançar, que ninguém se queixa; mas por levantar-se na noite de Natal para a Missa do Galo, começa-se logo a tossir e a queixar de dor de cabeça no dia seguinte.

Quem não vê que o mundo é um juiz iníquo, favorável aos seus filhos, mas intransigente e severo para os filhos de Deus?

Só nos pervertendo com o mundo, poderíamos viver em paz com ele, e impossível é contentar os seus caprichos – Veio João Batista, diz o divino Salvador, o qual não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Ele está possesso do demônio. Veio o Filho do Homem, come e bebe, e dizeis que é um samaritano.

É verdade, Filoteia, se condescenderes com o mundo e jogares e dançares, ele se escandalizará de ti; e, se não o fizeres, serás acusada de hipocrisia e melancolia. Se te vestires bem, ele te levará isso a mal, e, se te negligenciares, ele chamará isso baixeza de coração. A tua alegria terá ele por dissolução e a tua mortificação por ânimo carrancudo; e, olhando-te sempre com maus olhos, jamais lhe poderás agradar.

As nossas imperfeições ele considera pecados, os nosso pecados veniais ele julga mortais, e malícias, as nossas enfermidades; de sorte que, assim como a caridade, na expressão de S. Paulo, é benigna, o mundo é maligno.

A caridade nunca pensa mal de ninguém e o mundo o pensa sempre de toda sorte de pessoas; e, não podendo acusar as nossas ações, condena ao menos nossas intenções. Enfim, tenham os carneiros chifres ou não, sejam pretos ou brancos, o lobo sempre os há de tragar, se puder.

Procedamos como quisermos, o mundo sempre nos fará guerra. Se nos demorarmos um pouco mais no confessionário, perguntará o que temos tanto que dizer; e, se saímos depressa, comentará que não contamos tudo. Espreitará todas as nossas ações e, por uma palavra um pouco menos branda, dirá que somos insuportáveis. Chamará avareza o cuidado por nossos negócios, e idiotismo a nossa mansidão. Mas, quanto aos filhos do século, sua cólera é generosidade; sua avareza, sábia economia; e suas maneiras livres, honesto passatempo. É bem verdade que as aranhas sempre estragam o trabalho das abelhas!

Abandonemos este mundo cego, Filoteia; grite ele quanto quiser, como uma coruja para inquietar os passarinhos do dia. Sejamos firmes em nossos propósitos, invariáveis em nossas resoluções e a constância mostrará que a nossa devoção é séria e sincera. Os cometas e os planetas parecem ter o mesmo brilho; mas os cometas, que são corpos passageiros, desaparecem em breve, ao passo que os planetas brilham continuamente. Do mesmo modo muito se parece a hipocrisia com a virtude sólida e só se distingue porque aquela não tem constância e se dissipa como a fumaça, ao passo que esta é firme e constante.

Demais, para assegurar os começos de nossa devoção, é muito bom sofrer desprezos e censuras injustas por sua causa; deste modo nós nos premunimos contra a vaidade e o orgulho, que são como as parteiras do Egito, às quais o infernal Faraó mandou matar os filhos varões dos judeus no mesmo dia de seu nascimento. Enfim, nós estamos crucificados para o mundo e o mundo deve ser crucificado para nós. Ele nos toma por loucos; consideremo-lo como um insensato.

São Francisco de Sales. Filoteia: Introdução à Vida Devota.  Petrópolis: Vozes, 2008. Ps. 363-367.

27 de junho de 2011

Restaurar tudo em Cristo - São Pio X


Não, Veneráveis Irmãos - é necessário relembrar com energia nestes tempos de anarquia social e intelectual, em que cada um se coloca como mestre e legislador - não se poderá construir a sociedade de uma maneira diferente da que Deus a instituiu; não se edificará a sociedade se a Igreja não estabelece e dirige os trabalhos; não, a civilização não está para ser inventada, nem uma sociedade nova para ser construída das nuvens. Ela foi, ela é a civilização cristã, é a cidade católica. Trata-se somente de instaurar e restaurar sem cessar a civilização em suas bases naturais e divinas, contra os ataques sempre renascentes da rebelião e da impiedade: "omnia instaurare in Christo".

São Pio X. Notre charge apostolique. §11.

16 de maio de 2011

A VIDA DE SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO (1696-1787) COMO BISPO DE SANTA ÁGUEDA

“Depois de despedir-se do Papa e de fazer uma última visita de despedida a seu convento de Pagani, entrou em Santa Águeda, em meio das maiores mostras de deferência dos nobres e das autoridades da cidade e das aclamações do povo. Quase em triunfo foi levado à Catedral, onde, depois de longa oração diante de Jesus Sacramentado, dirigiu aos fiéis sua primeira exortação pastoral, aos que disse que não havia ido ali para levar uma vida cômoda e regalada, mas sim para trabalhar pela saúde de suas ovelhas, que podiam ir buscá-lo em todas as suas necessidades e aflições, embora ele procuraria ser quem as buscaria, como o Bom Pastor, para levá-las ao resguardo da verdade e da vida. Imediatamente anunciou ao seu rebanho que no domingo seguinte começaria a dar uma missão geral na Catedral e um retiro para o Clero, e, dirigindo-se a este, pediu com palavras cortadas pelos soluços, que o ajudasse a levar a pesada carga de suas funções episcopais.

Instalado em seu palácio, rejeitou os quartos que nele haviam sido preparados, escolhendo o aposento mais reduzido e incômodo, onde fez pôr como leito o enxergão de palha que se usava em sua Congregação.

Sua vida em Santa Águeda, segundo o seu biográfo, Pe.Tannoia, achava-se distribuída do seguinte modo:

Assim que se levantava, disciplinava-se rudemente e por longo espaço de tempo; fazia depois, como todos os seus familiares, meia hora de oração, e recitava as horas canônicas; em seguida celebrava o santo sacrifício da Missa e ouvia depois a que rezava seu secretário ou outro cônego da Catedral.

Cumpridos esses piedosos deveres, dava audiência a quantas pessoas quisessem falar-lhe, sem distinção de ricos ou de pobres, pois tinha dado a ordem a seus domésticos de levar à sua presença todas as pessoas que chegassem, segundo fossem se apresentando, por rigoroso controle de chegada. Só existia nesse ponto um privilégio para os sacerdotes empregados no santo ministério, que podiam chegar até ele a qualquer hora sem anunciar-se.

As horas que lhe sobravam livres, até a de comer, dedicava-as a compor seus livros, mas por muito ocupado que estivesse nesse trabalho, deixava a pluma no momento em que qualquer um de seus diocesanos quisesse vê-lo, sem limitar os minutos dos que iam tratar com ele coisas concernentes ao serviço de Deus ou ao bem das almas, e quando algum de seus párocos dizia-lhe, ao abordá-lo: “Monsenhor, não vou dizer-vos mais do que uma palavra”, ele respondia: - Não uma, mas mil.

Por outro lado, aos visitantes que não lhe falavam mais do que futilidades, despedia-os sem nenhum respeito humano, dizendo-lhes: “Basta, não percamos nosso tempo”, ou então: “Encomendai-me a Jesus e a Maria”.

Um mesmo cômodo servia ao santo prelado de oratório, de sala de audiências e de escritório, e nele não havia outra mobília que uma mesa pequena, sobre a qual descansavam uma imagem de Cristo Crucificado e outra de Nossa Senhora do Bom Conselho, a qual nosso bem-aventurado professava grande veneração, sendo uma das devoções mais gratas para ele recitar uma Ave Maria a cada quinze minutos.

Comia frugalmente, e dividia os pratos que se serviam à sua mesa com seus comensais, não comendo ele senão de um. Depois de uma curta recreação e de alguns momentos de repouso requeridos pelo clima, dedicava Santo Afonso uma hora à oração mental, rezava vésperas e completas, e retomava seu trabalho.

Às cinco e meia da tarde ia à Catedral, para fazer a visita ao Santíssimo Sacramento, a qual convidava o povo ao som de sinos. Esse santo exercício durava meia hora, e durante esse período dirigia a palavra aos fiéis para excitar em seus corações fervorosos afetos, e também lhes ensinava cânticos destinados a fazer esquecer as canções profanas e perigosas.

À saída desses exercícios realizava visitas aos doentes, e muito especialmente aos eclesiásticos, e quando regressava a seu palácio escutava ainda aos que queriam falar-lhe, distribuía esmolas aos pobres, rezava as matinas do dia seguinte e fazia, com o irmão leigo, outra meia hora de oração, voltando a trabalhar em seus livros até a hora de jantar, que variava segundo as estações.

Fazia-se em comum a oração da noite, seguida da reza do Rosário, obrigatória para todos os que se encontrassem naquela hora no palácio, fossem clérigos ou seculares e ainda Bispos e Arcebispos, e quando todos se retiravam para descansar, Santo Afonso voltava a trabalhar em suas obras, escrevendo às vezes até às doze da noite.

Nos dias de festa, depois das vésperas, explicava o Catecismo às crianças, assistia, sem exceção alguma, aos ofícios da Catedral, e oficiava como pontifical em todas as grandes festividades. Tal foi a vida de Santo Afonso desde a sua chegada a Santa Águeda até que voltou a reunir-se com seus irmãos da Congregação do Santíssimo Redentor, quer dizer, durante traze anos”.

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FONTE: A vida de Santo Afonso Maria de Ligório. Brasília: Pinus, 2010. p.80-82. (grifo nosso)

3 de maio de 2011

3 de maio: Santa Cruz.

Após aquela insigne vitória que Constantino obteve sobre Maxêncio, quando recebeu de Deus o sinal da Cruz do Senhor, Santa Helena, mãe de Constantino, tendo recebido uma revelação em um sonho, foi a Jerusalém para procurar zelosamente a Cruz; aí ela cuidou de destruir a imagem de Vênus de mármore, que os gentios colocaram no lugar da Cruz, para tirar a memória da paixão de Cristo Senhor, e que aí permaneceu por cerca de 180 anos. O mesmo ela fez no presépio do Salvador, onde fôra posto um simulacro de Adônis, e no lugar da ressurreição, onde o fôra um de Júpiter.

Purgado, assim, o local da Cruz, por meio de profundas escavações foram encontradas três cruzes, e, separado delas, a inscrição que fôra colocada sobre a Cruz do Senhor; como não se sabia sobre qual das três ele deveria ser afixado, um milagre sanou a dúvida. Eis que Macário, bispo de Jerusalém, tendo elevado preces a Deus, levou cada uma das cruzes a três mulheres que sofriam de uma grave enfermidade, e, enquanto as demais nada aproveitaram para as mulheres, a terceira Cruz, levada à terceira mulher, curou-a imediatamente.

Santa Helena, tendo encontrado a Cruz da salvação, construiu aí uma magnificentíssima igreja, na qual depositou parte da Cruz em urnas de prata, e outra parte entregou a seu filho, Constantino, que a levou a Roma, à igreja da santa Cruz de Jerusalém, edificada no palácio Sessoriano. Ela também entregou ao filho os cravos que trespassaram o santíssimo corpo de Jesus Cristo. Naquele tempo, Constantino sancionou uma lei para que, desde então, ninguém fosse condenado ao suplício da cruz, e aquilo que antes era castigo e maldição para os homens, passou a ser glória e objeto de veneração.


Fonte: Breviário Romano

2 de maio de 2011

2 de maio: Santo Atanásio, Confessor e Doutor da Igreja

Atanásio de Alexandria, que lutou bravissimamente pela religião católica, foi ordenado diácono por Alexandro, bispo de Alexandria, cujo lugar ele ocuparia. Ele já antes havia acompanhado esse bispo ao concílio de Niceia; aí, reprovando a impiedade de Ario, foi objeto de tanto ódio por parte dos arianos, que desde aquele tempo nunca deixaram de tramar-lhe ciladas. Uma vez, reunindo em Tiro um concílio cuja maior parte era de bispos arianos, subornaram uma mulherzinha, que acusou Atanásio de estuprá-la quando ela lhe prestou hospedagem em sua casa. Entrou, então, Atanásio, e junto com ele o sacerdote Timóteo, que, fingindo ser Atanásio, perguntou: Fui eu, ó mulher, que me deitei contigo? Fui eu que te violei? Ao que ela respondeu com insolência: Tu me tomaste à força. E, jurando-o, protestava que fosse feita justiça, e que tal maldade fosse vingada. Reconhecida, então, a fraude, rejeitaram a falta de vergonha da mulher.

Os arianos também acusaram Atanásio de assassinar o bispo Arsênio, e, mantendo preso ocultamente este Arsêno, trouxeram para o julgamento a mão de um homem morto, sustentando que era a de Arsênio, que Atanásio haveria amputado para usar na arte da magia. Mas Arsênio escapou durante a noite, e apareceu em pé diante de todos no concílio, tornando-se, assim, patente o desvergonhadíssimo crime dos inimigos de Atanásio. Por toda a sua vida eles acusaram Atanásio de magia. Por essa acusação ele foi exilado para Trèves, na Gália. Daí em diante, sob o imperador Constâncio, protetor dos arianos, ele foi abalado com fortes e contínuas tempestades, e suportou incríveis calamidades, tendo de vagar por uma grande parte da terra; e, sendo frequentemente expulso da sua igreja, e também muitas vezes restituído a ela por autoridade do Romano Pontífice Júlio, e pelo imperador Constante, irmão de Constâncio, bem como pelos decretos do concílio de Sardica e de Jerusalém. Enquanto isso, os arianos sempre o molestaram: foi fugindo da sua ira pertinaz e do iminente risco de vida que ele se escondeu por cinco anos numa cisterna seca, fato que ninguém conhecia senão apenas um certo amigo de Atanáio, que o sustentava secretamente.

Quando morreu Constâncio, assumendo o império, Juliano, o Apóstata, permitiu que os bispos exilados retornassem às suas igrejas, e Atanásio de Alexandria, voltando, foi recebido com suma honra. Mas, não muito tempo depois, por influência dos mesmos arianos, ele teve de partir novamente, perturbado por Juliano. Este enviou soldados para matá-lo. Atanásio fugia de barco (Nilo acima), seguido pelos soldados, e, antes que estes estivessem à vista, aquele fez a volta e começou a navegar rio abaixo, de modo a encontrar aqueles que o perseguiam; encontrando a barca, os soldados perguntaram quão longe estava a barca de Atanásio, e esse respondeu: Não está longe, e, enquanto os soldados continuavam subindo, Atanásio desceu, voltando a Alexandria, onde permaneceu escondido até a morte de Juliano. Um pouco depois, surgindo contra ele uma nova tribulação em Alexandria, ele se escondeu durante quatro meses no sepulcro de seu próprio pai. Por fim, tendo sido liberdado por Deus de tantos e tão graves perigos, ele morreu em seu leito em Alexandria, sob Valente, e a sua vida e morte foi enobrecida por grandes milagres. Ele escreveu admiravelmente muitas coisas com piedade e para explicar a fé católica, e governou santissimamente a igreja de Alexandria por quarenta e seis anos, em meio a uma grande instabilidade dos tempos.




Fonte: Breviário Romano

1 de maio de 2011

1.º de maio: São Filipe e São Tiago (Menor), Apóstolos.

Filipe, nascido em Betsaida, um dos doze Apóstolos que foram chamados por primeiro pelo Cristo Senhor, veio ao Senhor, trazendo consigo Natanael, dizendo-lhe que viera o Messias prometido pela lei. É fácil notar o quão familiar ele se tornou a Cristo, quando os gentios, desejando ver a Cristo, vieram a Filipe; e, outra vez, quando Cristo, querendo apascentar uma multidão de homens num lugar deserto, disse a Filipe: Onde encontraremos pão para alimentá-los. Ele, tendo recebido o Espírito Santo, tendo sido enviado por esse para pregar o Evangelho da Sícia, converteu todo aquele povo à fé cristã. Finalmente, chegando à Hierápole da Frígia, foi crucificado pelo nome de Cristo, e apedrejado, no final de abril. O seu corpo foi sepultado pelos cristãos naquele lugar, e depois transportado a Roma, e, na basílica dos doze Apóstolos, foi colocado junto com o de São Tiago Apóstolo.

Tiago, irmão do Senhor, chamado Justo, desde a juventude absteve-se de vinho, cerveja e carne, nunca se cortou os cabelos nem usou de unguentos e banhos. Só a ele era permitido entrar no Santo dos santos. Ele usava vestes de linho, e, pela assiduidade da oração, fez calos nos joelhos, de modo que ficaram tão duros como o couro de camelo. Após a ascensão de Cristo, os Apóstolos fizeram-lhe bispo de Jerusalém, e até o príncipe dos Apóstolos enviou-lhe alguém que lhe anunciasse que havia sido liberdado do cárcere por um Anjo. E quando, no concílio de Jerusalém, surgiu uma controvérsia acerca da lei e da circuncisão, Tiago, seguindo a sentença de Pedro, pronunciou um sermão aos irmãos, no qual provou a vocação dos Gentios, e mandou que fosse escrito para os irmãos ausentes, para que não impusessem aos Gentios o jugo da lei mosaica. É também dele que o Apóstolo fala aos Gálatas: Não vi nenhum outro Apóstolo, senão Tiago, irmão do Senhor.
Tanta era, pois, a santidade da vida de Tiago, que certos homens queriam tocar a orla de suas vestes. Tendo ele 96 anos de vida, e presidindo santissimamente por 30 anos aquela Igreja, pregando Cristo Filho de Deus com máxima constância, primeiro foi apedrejado, e, em seguida, conduzido ao lugar mais alto do templo, donde foi precipitado. Com as pernas quebradas e jazendo quase morto, extendia as mãos aos céus e rogava a Deus pela salvação deles com estas palavras: Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem. Estando ele nessa oração, bateram-lhe fortemente na cabeça com um porrete de ferreiro, e ele entregou a alma a Deus, no sétimo ano de Nero, e foi sepultado perto do templo donde fôra precipitado. Escreveu uma das sete epístolas chamadas católicas.
Fonte: Breviário Romano.

25 de abril de 2011

Vida de São João Bosco - CARIDADE, MORTIFICAÇÃO, CASTIDADE E HUMILDADE.

Felizmente aí estava a dar-lhe segurança para o seu modo de julgar, o argumento das obras, dessas múltiplas criações partidas do mais tranqüilo dos mortais, do mais simples dos sacerdotes do Piemonte.
Pela audácia da concepção, pela variedade impressionante das formas, pela solidez da estrutura, elas bem atestavam que o autor bebia na fonte de toda a luz e de toda a força: Deus Nosso Senhor em cujos braços se abandonara e em cuja vida abismara sua mesma vida... A verdadeira palavra que define esta alma pronunciou-a o Cardial Alimonda na oração fúnebre: "A virtude intima e divina que punha em movimento esta vida prodigiosa era a caridade celeste".
Era essa e não outra.
Os biógrafos falam de seu espírito de penitência. E foi sem dúvida prodigioso. Dormia só cinco horas por noite e muitas vezes a aurora surpreendia-o sentado à escrivaninha. Nunca se preocupava com a qualidade dos alimentos. Suportava sem se queixar o duro trabalho do confessionário. Encurtou a vida nas peregrinações que teve que fazer para lá e para cá, a fim de arranjar dinheiro para suas empresas. Tolerou com o coração resignado duras cruzes que lhe pesavam sobre os ombros. Desde 1845 até a morte queimava-lhe a epiderme um eczema quase contínuo que fez exclamar ao salesiano que se encarregou de lhe preparar o corpo para a sepultura: "Que cilício! E quando se pensa que ele o conservou sempre escondido!"
Entretanto esse espírito de penitência não era outra coisa senão o seu modo particular de viver desapegado das criaturas, jamais dominado por elas. A não ser que o queiramos imaginar como a oferta íntima com que ele, no segredo da alma, entregava o corpo atormentado ao Mestre a quem tanto amava.
Surpreendem e comovem seus escrúpulos a respeito da pureza, escrúpulos que lhe faziam evitar até a mesma palavra castidade, para não despertar porventura com ela algum mau pensamento. Até o fim da vida jamais soube da existência de certas formas de desonestidade. É o Cardial Cagliero quem nos garante ter verificado isso. Os que o conheceram de perto atestam que ele levou consigo ao túmulo a inocência batismal. Para certos corações insidiados pelas más tendências bastava que ficassem perto dele para se sentirem logo livres da tentação. Um de seus filhos prediletos, o Padre Julio Barberis, nos diz que Dom Bosco desejou fazer dessa virtude e característica, de sua congregação. De sua pessoa, de seu contato, de sua palavra exalava uma como virtude secreta que por contágio penetrava e purificava as almas. Até pelo modo como ele tomava a mão de um menino ou colocava a própria mão na cabeça dele percebia-se seu imenso respeito para com o corpo batizado. E enfim, misericordioso como era para com qualquer falta, era pelo contrário inexoravelmente severo quando eram faltas contra os bons costumes. A pureza de sua alma era mesmo angélica. E não era isso a fidelidade de um coração e de um corpo a uma beleza, a um amor e a uma alegria superior que o tinham dominado completamente?
Dom Bosco expressava a respeito de si mesmo os juízos mais humildes. Dizia por exemplo: "Se Deus tivesse encontrado para suas obras um instrumento mais mesquinho, tê-lo-ia certamente preferido a mim e teria ficado muito mais bem servido".
Ao voltar dos dias triunfais de Paris, opunha-lhes como a honras fúteis, a humildade de sua origem: "Lembras-te, dizia ao Padre Rua, daquela pequena colina, à direita da estrada de Buttigliera? Nessa colina há uma casa muito pobre com um pequeno campo ao lado.
Nesse campo eu tomava conta de duas vaquinhas. Todos esses distintos senhores que me cumularam hoje de gentilezas mal sabiam que estavam homenageando a um camponês!"
"Qual é a coisa mais bela que já viste em tua vida?" perguntou ume dia no pátio a um menino, sem nem sonhar que provocava esta resposta espontânea: "Dom Bosco". "Ora essa! - replicou então – tu me fazes lembrar um campônio que visitou a exposição dos objetos de nossa última rifa. Enquanto todos se extasiavam a contemplar esta ou aquela obra de arte, nosso homem ficou boquiaberto perante um enorme salame. Para os seus olhos não havia nada de mais belo". Essa confissão sincera e repetida de sua pequenez ele a fazia para não subtrair nada à glória de seu Senhor e Mestre e para cantar o poder, a sabedoria e a bondade daquele que o escolhera para sua obra. E é também esta uma forma autêntica de amor.

Do livro Dom Bosco, de A. Auffray SDB
Tradução de D. João Resende Costa,
Arcebispo de Belo Horizonte

19 de abril de 2011

Excertos - Confissões de Santo Agostinho

[Em Deus reside toda a esperança]

XXIX. 40. E toda a minha esperança não está senão na imensidão da tua misericórdia. Concede-me o que ordenas e ordena-me o que queres. Exiges de nós a continência. Diz alguém: E sabendo eu que ninguém pode ser continente se Deus não lho conceder, era já fruto da sabedoria o saber de quem era este dom 226. Efectivamente, pela continência saímos da dispersão e somos  reconduzidos à unidade, da qual nos dissipámos em muitas coisas. Na verdade, ama-te menos aquele que, ao mesmo tempo que a ti, ama alguma coisa, que não ama por causa de ti. Ó amor que ardes continuamente e nunca te extingues, caridade, ó meu Deus, inflama-me! Ordenas a continência: concede-me o que ordenas e ordena-me o que queres.

[Agostinho confessa como enfrenta as tentações da carne]

XXX. 41. Sem dúvida, ordenas-me que me abstenha da concupiscência da carne, e da concupiscência dos olhos, e da ambição do século227. Ordenaste-me que me abstenha do prazer da carne, e, em relação ao próprio matrimónio, que tu permitiste, aconselhaste-me uma coisa melhor228. E, porque mo concedeste, aconteceu, ainda antes de eu me tornar administrador do teu mistério229. Mas ainda vivem na minha memória, sobre a qual tanto falei, imagens dessas tais coisas que o meu hábito nela fixou, e, embora desprovidas de forças, vêm ao meu encontro quando estou acordado, mas, durante o sono, chegam não só ao deleite, mas também ao consentimento e a um efeito absolutamente igual. A ilusão na minha alma tem tanto poder na minha carne que, estando eu a dormir, as falsas visões levam-me àquilo que, estando acordado, as verdadeiras não conseguem. Acaso, Senhor meu Deus, não sou eu nesse momento? E, todavia, é tão grande a diferença entre mim e mim mesmo, naquele momento em que passo da vigília ao sono e volto a passar do sono à vigília! Onde está, pois, a mente, graças à qual uma pessoa acordada resiste a tais sugestões e, se as próprias coisas se lhe deparam, permanece inabalável? Porventura fecha-se a mente ao mesmo tempo que os olhos? Porventura adormece com os sentidos do corpo? E porque é que, muitas vezes, mesmo no sono, resistimos, e, lembrados do nosso propósito, e nele permanecendo castissimamente, não damos nenhum assentimento a tais tentações? E, todavia, é tão a grande a diferença que, quando sucede de outro modo, ao acordarmos, voltamos à tranquilidade da consciência, e, pela mesma diferença, descobrimos que não fizemos aquilo que todavia lamentamos de certo modo ter sido feito em nós.


42. Acaso não é poderosa a tua mão, ó Deus omnipotente 230, para sarar todas as enfermidades231 da minha alma e até para extinguir, por maior abundância da tua graça, todos os movimentos lascivos do meu sono? Aumentarás, Senhor, mais e mais, em mim, os teus dons para que a minha alma, liberta do visco da concupiscência, me siga até junto de ti, para que ela não seja rebelde para consigo, e para que, mesmo no sono, não só não cometa tais torpezas de corrupção, por meio de imagens sensuais, até ao fluxo da carne, mas nem sequer nelas consinta. Na verdade, que tal coisa nada me deleite, ou tão pouco quanto possa ser impedido pela vontade, também no casto afecto de quem dorme, não só nesta vida mas também nesta idade, não é grande coisa para ti, tu que és omnipotente e podes ir além daquilo que pedimos e compreendemos232. Agora, porém, o que ainda sou, neste género de mal que é o meu, já to disse, a ti que és o meu bom Senhor, exultando com tremor 233 naquilo que me deste, e lamentando-me naquilo que ainda não consegui, esperando que completes em mim as tuas misericórdias234, até à paz total que em ti terá tudo aquilo que eu sou dentro e fora de mim, quando a morte for absorvida na vitória 235.
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226 Sabedoria 8:21.
227 1 João 2:16.
228 1 Coríntios 7:38.
229 1 Coríntios 4:1.
230 Números 11:25.
231 Salmo 102:3; Mateus 4:23.
232 Efésios 3:20.
233 Salmo 2:11.
234 Salmo 102:6.
235 Isaías 25:8; 1 Coríntios 15:54.

CONFISSÕES de Santo Agostinho - Livros VII, X e XI
Tradutores : Arnaldo do Espírito Santo / João Beato / Maria Cristina Castro-Maia de Sousa Pimentel
http://www.lusosofia.net/textos/agostinho_de_hipona_confessiones_livros_vii_x_xi.pdf


 

7 de abril de 2011

A sabedoria do Beato Egídio de Assis - 2

[Ditos do Beato Egídio de Assis (+ Perusa, 1262), discípulo de São Francisco de Assis]

A fé e a incompreensibilidade de Deus

Tudo o que se pode pensar, ver, falar e tocar com as mãos nada é diante do que não se pode pensar, ver, falar e tocar com as mãos.

Todos os sábios e santos do passado, do presente e do futuro que falaram ou falarão de Deus não disseram, nem jamais dirão, o que Deus realmente é nem tanto quanto a ponta de uma agulha é em relação à terra e ao céu e a todas as criaturas que neles existem, e mil vezes menos. De fato, toda a Sagrada Escritura nos fala como que balbuciando. Como a mãe faz com seu filhinho, que de outra forma não entenderia as palavras.

Uma vez, Frei Egidio disse a um juíz secular; 'Crês que sejam grandes os dons de Deus?' 'Creio que sim', respondeu o juiz. E Frei Egidio: 'Pois vou mostrar-te que não crês". E acrescentou: 'Quanto valem todos os teus bens?' Ele respondeu: 'Talvez mil moedas de ouro'. Frei Egidio disse: 'Trocá-las-ias por cem mil?' E o outro: 'Com muito prazer'. Então disse Frei Egidio: 'A verdade é que as coisas deste mundo nada são diante das coisas do céu. Por que, então, não trocas as coisas do mundo pelas do céu?' O juíz replicou: 'Pensas que um homem realmente ponha em prática aquilo que crê?' E frei Egidio concluiu: 'Os santos e as santas procuraram praticar as coisas em que acreditavam e que podiam realizar. As que não puderam praticar de fato, praticaram-nas pelo desejo. E assim o santo desejo cumpriu o que faltou à ação. Se alguém tiver uma fé integra, chegaria ao ponto de ter certeza absoluta. Portanto,se realmente crês, deves agir bem'.

Ao homem que tem certeza de receber um grande e eterno bem, que dano pode causar um breve mal? E de que serve um breve bem a quem espera um grande e interminável mal? Que bem poderão dar os anjos e os santos do céu a quem perde o maior de todos os bens? Como e quem poderá consolá-lo? Ninguém, senão a presença divina.

Todavia,enquanto viver, o pecador jamais deve perder a esperança na misericórdia de Deus. Pois simplesmente não existe tronco tão áspero e nodoso que os homens não consigam aplainar, polir e embelezar. Muito menos existe no mundo um pecador tão grande que Deus não possa enriquecer com as mais variadas graças e virtudes.

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Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Sabedoria de um simples: os ditos do Beato Egídio de Assis. Petrópolis: Vozes, 1997

24 de março de 2011

A sabedoria do Beato Egídio de Assis - 1

[Ditos do Beato Egídio de Assis (+ Perusa, 1262), discípulo de São Francisco de Assis]

AS GRAÇAS, AS VIRTUDES E SEUS EFEITOS E OS VÍCIOS


As graças de Deus e as virtudes são a escada e o caminho para subir ao céu. Os vícios e os pecados, porém, são a escada e o caminho para descer ao inferno. 

Os vícios e os pecados são veneno; as virtudes e as boas obras são remédio.  

Uma graça atrai outra graça; e o vício puxa outro vício.

A virtude não quer ser elogiada, como o vício não quer ser desprezado. Isso quer dizer que o homem virtuoso não procura ser elogiado nem deseja o louvor das pessoas; e o mau não quer ser desprezado nem repreendido. E isso provém da soberba. 

O espiríto repousa na humildade. A paciência é sua filha.

Se amares, será amado. Se temeres, será temido. Se servires, será servido. Se te comportares bem com os outros, os outros comportar-se-ão bem contigo. 

Bem-aventurado aquele que ama sem desejar ser amado. Bem-aventurado aquele que teme sem querer ser temido. Bem-aventurado aquele que serve sem querer ser servido. Bem-aventurado aquele que se comporta bem com os outros sem desejar que os outros se comportem bem com ele. Estas coisas são grandes; os tolos não conseguem entendê-las.

Existem três coisas muito grandes e úteis que, possuindo-as, não nos deixarão cair no mal. A primeira é suportar em paz e por amor a Deus todo o sofrimento que aparecer. A segunda, ter grande humildade por tudo que se fizer e receber. A terceira, amar com fidelidade os bens que o olho humano não pode ver.

As coisas mais ridicularizadas e negligenciadas pelas pessoas do mundo são as mais consideradas e veneradas por Deus e por seus santos. E as coisas mais amadas, abraçadas e reverenciadas pelas pessoas do mundo são as mais odiadas, negligenciadas, desprezadas por Deus e por seus santos. Acontece que as pessoas odeiam tudo o que deve ser amado e amam tudo o que deve ser odiado.

Uma vez, Frei Egídio perguntou a um frade: "Tens tu uma alma boa?" Respondeu o frade: "Meu irmão, não sei." Então Frei Egídio disse: "A santa contrição, a santa humildade, a santa caridade, a santa devoção e a santa alegria tornam a alma santa e boa".

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Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Sabedoria de um simples: os ditos do Beato Egídio de Assis. Petrópolis: Vozes, 1997.

19 de março de 2011

FESTA DE SÃO JOSÉ - 19 DE MARÇO

Oraçao para todos os dias do mês de março
(composta pelo Papa Leão XIII)

A vós, S. José, recorremos em nossa tribulação e (depois de ter implorado o auxílio de vossa santíssima esposa) cheios de confiança solicitamos (também) o vosso patrocínio. Por esse laço sagrado de caridade que vos uniu à Virgem imaculada, Mãe de Deus, e pelo amor paternal que tivestes ao Menino Jesus, ardentemente suplicamos que lanceis um olhar benigno sobre a herança que Jesus Cristo conquistou com o seu sangue, e nos socorrais em nossas necessidades com o vosso auxílio e poder.

Protegei, ó guarda providente da divina família, a raça eleita de Jesus Cristo.

Afastai para longe de nós, ó pai amantíssimo, a peste do erro e do vício. Assisti-nos do alto do céu, ó nosso fortíssimo sustentáculo, na luta contra o poder das trevas, e assim como outrora salvastes da morte a vida ameaçada do Menino Jesus, assim também defendei agora a Santa Igreja de Deus das ciladas de seus inimigos e de toda a adversidade.

Amparai a cada um de nós com o vosso constante patrocínio, a fim de que, a vosso exemplo e sustentados com o vosso auxílio, possamos viver virtuosamente, morrer piedosamente, e obter no céu a eterna bem-aventurança. Amém.

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FONTE: Manual da Paróquia. Petrópolis: Vozes, 1950. p.217-218.

23 de fevereiro de 2011

São Cesário de Arles - Sermão 13 (para uma paróquia rural)

Sermão 13 (para uma paróquia rural)
São Cesário de Arles

I

Eu vos rogo, irmãos caríssimos, que reflitamos sobre o significado de sermos cristãos e sobre o sinal da cruz de Cristo que trazemos na fronte. Não nos basta - bem devemos saber - termos recebido o nome de cristãos se não agimos como cristãos, conforme disse o próprio Senhor no Evangelho: "De que adianta dizer: "Senhor, Senhor", se não fazeis o que eu digo?" (Lc 6,46). Se mil vezes te proclamas cristão e fazes o sinal da cruz, mas não dás esmola de acordo com tuas possibilidades e não queres ter amor, justiça e pureza, de nada te aproveitará o nome "cristão".


Sim, é uma grande coisa o sinal de Cristo e a cruz de Cristo, mas, precisamente por isso, grande e preciosa deve ser também a realidade assinalada por tão precioso sinal. De que adianta fazer um selo de ouro, se o que está por dentro é palha podre? De que adianta andar com o sinal de Cristo na fronte e na boca se o que ele encerra são nossos pecados e delitos? Pois, quem pensa mal, fala mal e age mal e, se não quiser corrigir-se, a cada sinal da cruz seu pecado não só não diminuirá como aumentará.

É o caso de muitos que, ao furtar, adulterar ou agredir a pontapés, fazem o sinal da cruz e nem por isso deixam de fazer o mal. Ignoram esses infelizes que, com isso, atraem mais demônios para dentro de si em vez de expulsá-los.

Já quem, com a ajuda de Deus, afasta de si os vícios e os pecados, lutando por pensar o bem e realizar o bem, este imprime de verdade o sinal da cruz sobre seus lábios: pois esse agir, sim, é digno de receber o sinal de Cristo. E já que está escrito: "O reino de Deus não consiste em palavras mas em virtudes" (ICor. 4,20) e também: "A fé sem obras é morta" (Tg 2,26), não usemos, pois, o nome de cristãos para nossa condenação, mas para nossa cura e dediquemo-nos às boas obras enquanto ainda podemos lançar mão dos remédios.

II

E para que, com o auxílio de Deus, possais seguir esse caminho, convivei em paz e chamai à concórdia os que estão em discórdia. Fugi da mentira e temei o perjúrio como a morte perpétua. Não digais falso testemunho e não furteis. E, sobretudo, como já dissemos, dai esmolas aos pobres de acordo com vossas possibilidades. Apresentai vossas oferendas ao altar: um homem abastado deveria ter vergonha de agregar-se à oferenda do outro, dispensando-se de sua própria oferenda. Os que podem ofereçam círios ou óleo para as lâmpadas. Memorizai o Símbolo e o Pai-Nosso, e ensinai-os a vossos filhos, pois não sei como pode alguém dizer-se cristão e não se empenhar sequer em saber os poucos artigos do Símbolo e o Pai-Nosso.

Sabei que sois responsáveis diante de Deus pelos filhos, que trouxestes ao Batismo: deveis ensinar e corrigir tanto os vossos próprios filhos como os afilhados para que vivam uma vida pura, justa e sóbria. E vós mesmos agi de tal maneira que, querendo vossos filhos imitar-vos, não acabem ardendo convosco no fogo eterno mas, a vosso lado, atinjam o prêmio da vida eterna.

Que os juízes julguem justamente e não aceitem presentes para decidir contra os inocentes, "pois os presentes cegam os corações dos sábios e corrompem as palavras dos justos" (Dt 16,19), e temam ganhar dinheiro à custa de perder a alma. Ninguém obtém um lucro injusto sem a justa perda: onde o lucro, aí a perda - lucro para os cofres, perda para a consciência...

Que ninguém se embebede ou induza outros, num repasto, a beber mais do que convém: não venha a perder sua alma pela bebedeira própria ou alheia.

III

Aos domingos, reuni-vos na igreja. Se os infelizes judeus celebram o sábado com tamanha devoção que nesse dia não realizam nenhum trabalho, quanto mais não deve o cristão dedicar o domingo somente a Deus e vir à igreja em benefício de sua alma? Quando vierdes às reuniões da igreja, orai por vossos pecados e não entreis em discussões nem provoqueis discórdias ou escândalos. Quem vem à igreja para tais coisas agrava a ferida de sua alma, precisamente onde, pela oração, poderia curá-la.

Na igreja, não fiqueis tagarelando, mas ouvi pacientemente as leituras da palavra de Deus. Quem fica conversando na igreja deverá prestar contas, não só do mal que causa a si mesmo, mas também do que causa aos outros: pois nem ele ouve a palavra de Deus nem deixa que os outros a ouçam.

Dai o dízimo de vossos proventos à Igreja. Aquele que foi soberbo seja humilde; o que era adúltero seja casto; o que costumava furtar ou apropriar-se das coisas alheias que comece a dar de seu próprio patrimônio aos pobres. Quem foi invejoso seja benevolente; seja paciente o iracundo, quem ofendeu apresse-se a pedir perdão e o ofendido apresse-se em ser misericordioso.

Toda vez que sobrevier uma doença, o que a sofre receba o corpo e o sangue de Cristo; peça humildemente e com fé ao sacerdote a unção com o óleo bento a fim de que se cumpra nele o que está escrito: "Algum de vós está doente? Chame os presbíteros para que orem sobre ele, ungindo-o com óleo, e a oração da fé salvará o enfermo, elevando-o ao Senhor. Se tiver cometido pecados, ser-lhe-ão remitidos" (Tg 5,14-15).

Vede, irmãos, como quem recorre à Igreja em sua doença obtém a saúde do corpo e a remissão dos pecados. Se é possível, pois, encontrar este duplo benefício na Igreja, por que há infelizes que se empenham em causar mal a si mesmos, procurando os mais variados sortilégios: recorrendo a encantadores, a feitiçarias em fontes e árvores, amuletos, charlatães, videntes e adivinhos?

IV

Como disse há pouco, exortai vossos filhos e parentes a viver uma vida pura, justa e sóbria. Não só com palavras mas também com a força do bom exemplo.

Antes de mais nada, onde quer que estejais, em casa, em viagem, comendo ou em reuniões, não profira vossa boca palavras torpes e obscenas, e exortai os vizinhos e vossos próximos a que falem sempre o que é bom e belo, e não palavras más ou maledicência. Evitai as danças organizadas nas festas religiosas, com suas canções torpes e obscenas: a língua, com a qual o homem deveria louvar a Deus, é então usada para ferir a si mesmo.

Esses infelizes e miseráveis que, sem vergonha e sem temor, promovem seus bailes e danças bem diante das próprias basílicas dos santos, tendo vindo à igreja como cristãos, dela saem como pagãos: pois tais bailes são restos de paganismo. E dizei-me que tipo de cristão é esse que veio à igreja para orar, mas se esquece da oração e não se envergonha de entoar cânticos sacrílegos pagãos. Considerai ainda, irmãos, se é justo que a boca cristã, que recebe o próprio corpo de Cristo, entoe cânticos obscenos, um veneno do diabo.

E, principalmente, fazei aos outros tudo o que quiserdes que os outros vos façam, e não façais aos outros o que não quiserdes que vos façam. Se cumprirdes isto, podereis preservar vossas almas de todo o pecado. E todos, mesmo aqueles que são analfabetos, devem guardar estas duas sentenças na memória e, com a ajuda de Deus, podem e devem pô-las em prática.

V

E ainda que eu creia que, com a ajuda de Deus e graças a vossos esforços, erradicados estão daqui aqueles desgraçados costumes herdados do paganismo, no entanto, se ainda souberdes de alguém que pratique a torpeza sordidíssima das annicula ou do cervulus [2] , repreendei-o severamente para que se arrependa de ter cometido sacrilégio. E, se conhecerdes quem ainda lança clamores à lua nova, exortai-o e mostrai-lhe quão grande é este pecado de ousar confiar-se à proteção da lua - que, simplesmente, por ordem de Deus, esconde-se de tempos em tempos - por meio de seus gritos e imprecações sacrílegas.

E se virdes alguém dirigir votos junto a fontes ou a árvores e ir procurar, como já dissemos, charlatães, videntes e adivinhos, pendurar no próprio pescoço - ou no de outros - amuletos diabólicos, talismãs, ervas ou âmbar, repreendei-o duramente, dizendo que quem cometer estes males perderá a consagração do Batismo.

Ouvi dizer que ainda há certos homens e mulheres tão assolados pelo diabo que, às quintas-feiras, não fazem eles seus trabalhos nem elas fiam. Diante de Deus e de seus anjos, nós os admoestamos: todo aquele que persistir nessas observâncias, e não expiar por dura e longa penitência esse grave sacrilégio, será condenado ao fogo em que arde o demônio. Esses infelizes e miseráveis que não trabalham às quintas-feiras, em honra de Júpiter, são os mesmos, não duvido, que não temem nem se envergonham de trabalhar aos domingos. Se conhecerdes algum desses tais, repreendei-o duramente e, se ele não quiser se emendar, não o admitais em vossa mesa nem em vosso trato. Se são vossos escravos, castigai-os com o açoite: que temam a chaga do corpo, já que não se preocupam com a salvação de sua alma.

Nós, caríssimos irmãos, conscientes de nossa responsabilidade, advertimo-vos com solicitude paterna: se de bom grado nos ouvirdes, dar-nos-eis uma grande alegria e chegareis felizmente ao reino de Cristo. Que Ele se digne vo-lo conceder, Ele que, com o Pai e o Espírito Santo, vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.

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[1] . O texto latino encontra-se em CCL 103, Sermones Sancti Caesarii Arelatensis - Pars Prima, studio D. Germani Morin O.S.B., ed. altera, Turnholti, Brepols, 1953.

[2] . Cervulus e annicula - facere ou exercere cervulum ou agniculas -eram práticas pagãs que envolviam fantasias (de cervo/cordeirinha). Em outro sermão - 129,2 - , Cesário investe duramente contra o hábito - próprio das calendas de janeiro - de fazer cervulum: os que assim procedem, querem não só se vestir de animal, mas transformar-se em animal ("Qui cervulum facientes in ferarum se uelini habitus commutari").

19 de fevereiro de 2011

Santa Catarina de Sena: "A sede de alma nos pastores"

SANTA CATARINA DE SENA - CARTA 16
A sede de almas nos pastores

Para um importante prelado

1. Saudação e objetivo
Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, reverendo e caríssimo pai [1] no Cristo Jesus, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo crucificado, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver sedento da salvação das almas para a glória de Deus.

2. A sede das almas em Jesus
O primeiro mestre neste assunto é Jesus Cristo, que por sua sede da nossa salvação morreu na cruz. Nisto, o Cordeiro imaculado parece insaciável. Saturado de dores, clamou na cruz: "Tenho sede" (Jo. 19,28). Sem dúvida ele estava com sede corporalmente, mas bem maior era sua sede da salvação das almas. Ó inestimável caridade! Embora sofrendo muito, até parece que não sofres o suficiente; parece que não esgotas o desejo que tens de padecer. E de tudo, o impulso vem do amor! Já não me maravilho disso, pois teu amor era infinito, ao passo que a dor era finita. Eis por que o desejo de sofrer superava o martírio do corpo.

3. Instruções de Jesus a Catarina
Recordo-me que certa vez o bom Jesus instruiu uma sua serva sobre esse assunto. [2] Vendo ela os sofrimentos físicos de Jesus e seu desejo de padecer, perguntou: "Bom Jesus, qual foi o teu sofrimento maior: a dor corporal ou a dor do desejo?" Jesus lhe respondeu: "Milha filha, digo-te e não duvides: é impossível comparar o finito com o infinito. Meu sofrimento físico foi finito, mas o desejo de sofrer não tinha limites. Carreguei também a cruz do desejo santo. Lembras-te de que um dia te fiz ver meu nascimento? Enxergavas uma criancinha, nascida com uma cruz no peito! Afirmo-te: logo que fui semeado no ventre de Maria como semente encarnada, iniciou-se meu desejo de cumprir a vontade do Pai para o bem da humanidade. Isto é: eu desejava que a humanidade recuperasse a graça divina e atingisse a finalidade para a qual fora criada. O sofrimento desse desejo era maior que todo outro que padeci durante a vida. Meu espírito alegrou-se, pois, quando me vi conduzido à paixão, especialmente na hora da Ceia na quinta-feira santa. Na ocasião eu disse: com desejo desejei fazer esta Páscoa (Lc. 22, 15), quer dizer: desejei muito oferecer ao Pai meu corpo em sacrifício. Senti uma grande alegria e grande consolação quando vi chegar o momento de tomar a cruz esperada. Quanto mais eu sentia aproximarem-se o flagelo e os tormentos físicos, mais diminuía minha pena. A dor corporal expulsava a dor do desejo, pois eu via realizado o que esperava".

A serva lhe perguntou: "Senhor, tu dizes que na cruz cessou o sofrimento do teu desejo. De que modo? Então, agora já não me queres?". O Senhor lhe respondeu: "Não, minha doce filha! Quando morri na cruz, terminou com a vida a dor do desejo; mas não cessaram o meu desejo e a minha sede da vossa salvação. Se houvesse acabado o amor que tive e tenho pela humanidade, vós nem existiríeis mais. Foi meu amor que vos tirou do seio do Pai, quando vos criou na sua sabedoria; esse mesmo amor vos conserva em vida; vós nada mais sois que fruto do amor. Se o Pai retirasse seu amor, dado no poder e na sabedoria, voltaríeis ao nada. Eu, Filho unigênito do Pai, sou um aqueduto que vos traz a agua da graça. Eu manifesto o amor do Pai. De fato, o que o Pai possui, eu também possuo, pois sou um com o Pai e o Pai um comigo. Por meio de mim o Pai se revela. Por isso afirmei: o que recebi do Pai, eu vos comuniquei. A razão de tudo é o amor".

Bem vedes, reverendo pai! Jesus, que é amor, morre de sede e fome da nossa salvação. Por amor a Cristo crucificado, peço que mediteis sobre tal sede do Cordeiro. Minha alma gostaria de vos ver morrendo de desejo santo, ou seja, tudo fazendo com amor pela glória de Deus e a salvação das almas, pela exaltação da santa Igreja.

Gostaria de vos ver crescendo em tal sede e por causa dela morrendo, como fez Jesus. Que morressem a vontade pessoal e o amor sensível. Que morrêsseis às honras, satisfações sociais e todo tipo de grandeza humana. Tenho certeza de que, se olhardes para o vosso íntimo, compreendereis que nada sois; entendereis que tudo vos foi dado por Deus numa grande chama de amor; vosso coração não oporia resistência ao ímpeto da caridade, mas eliminaria, todo amor próprio, não procuraria o que é útil à própria pessoa. Vós amaríeis a Deus por ele mesmo e também amaríeis o próximo, não por interesses pessoais, mas a fim de promover sua salvação eterna e a glória divina. Deus ama demais a humanidade. Também os servos de Deus devem amá-la, imitando o Criador. É condição da amizade que eu ame tudo aquilo que meu amigo ama. E os servos querem bem a Deus, não por interesse pessoal, mas porque Deus, bondade infinita, merece ser amado.

4. O exemplo de Paulo apóstolo
De fato, pai, os servos de Deus como que se esquecem da própria vida. Não pensam em si mesmos. Desejam sofrimentos, dificuldades, torturas, injúrias. Desprezam as dificuldades do mundo. A maior cruz e a maior dor, para eles, é ver Deus ofendido e as almas que se condenam. Por isso, deixam no esquecimento as preocupações pessoais. Não evitam as dificuldades, até as procuram e alegram-se com elas. Pensam no apóstolo Paulo, que se gloriava nos sofrimentos por amor a Cristo crucificado (Rm. 5, 3). Pois bem, quero que vós os imiteis.

5. Triste situação na hierarquia
Ai de mim, ai de mim! Como é infeliz a minha alma! Olhai e vede a realidade que caiu sobre o mundo, especialmente sobre a hierarquia da Igreja. Ai de mim! Explodem nossos corações e nossas almas ao perceber tanta ofensa feita a Deus. Vede, pai, o lobo infernal leva consigo pessoas que vivem na hierarquia da santa Igreja, e ninguém procura libertá-las. Dormem os pastores, cuidando de si mesmos na ganância e na impureza. Dormem ébrios de orgulho, sem notar que o lobo infernal, o diabo, lhes retira a graça, bem como aos seus súditos. Dessas coisas, pouco se preocupam. Tudo lhes serve de ocasião para a maldade e o egoísmo. Como é prejudicial o egoísmo nos prelados e nos súditos! Nos prelados, porque não corrigem os defeitos dos súditos. De fato, quem vive no egoísmo ama a si mesmo e nada corrige nos outros. Mas quem ama a si mesmo em Deus, foge do amor interesseiro, denuncia corajosamente os defeitos nos súditos, nunca se cala ou finge não ver.

6. Maldito o pastor que se cala. Conclusão
De semelhante amor desejo vos ver livre, querido pai. Rogo-vos não vos comporteis assim, a fim de que, não se aplique a vós aquela dura palavra divina: "Maldito sejas, porque te calaste". Ai de mim! Calar, jamais! Gritai em cem mil línguas! Vejo que, por ter alguém calado, o mundo se arruinou e a santa Igreja encontra-se sem cor, sem sangue nas veias. Quero dizer: sem o sangue de Cristo, derramado por nós gratuitamente, sem mérito algum nosso. Devido ao orgulho, os pastores roubam a Deus a honra, atribuindo-a a si mesmos. Rouba-se por simonia com a venda de dons espirituais, a nós concedidos gratuitamente pelos méritos do sangue de Cristo. Ai de mim, morro e não consigo morrer! Não durmais por negligência. Aproveitai o tempo presente quanto possível. Outros tempos virão, acredito, em que podereis fazer outras coisas. Convido-vos ao tempo atual. Afastai da alma todo egoísmo, revesti-a com a sede de almas e com verdadeiras virtudes, para a glória divina e a salvação das almas. Fortalecei-vos no amor de Cristo. Logo veremos aparecer as flores. Esforçai-vos para que logo se erga o estandarte da Cruzada. [3] Que o vosso coração não se esfrie diante de nenhuma dificuldade emergente. Fortalecei-vos pensando que Jesus crucificado realizará os inflamados desejos dos seus servidores.

Nada mais digo. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Afogai-vos no sangue de Cristo, pregai-vos na cruz com ele, banhai-vos no seu sangue. Pai, perdoai minha presunção. Jesus doce, Jesus amor.

[1]: Pedro Cardeal d'Estaing, criado cardeal e nomeado legado pontifício pelo Papa Gregório XI (1370-1378), que residia em Avinhão, para governar o patrimônio de São Pedro na Itália.
[2]: A serva de que fala o texto e a própria Catarina, que conta ao prelado um diálogo com Jesus no tempo da sua juventude.
[3]: Em 1375 o papa Gregório XI (1370-1378) promulgou uma bula em favor de uma Cruzada para libertar os Lugares santos da Palestina. Catarina tornou-se grande estimuladora da idéia.

Santa Catarina de Sena. Cartas Completas. São Paulo: Paulus, 2005. Ps. 54-57.

17 de fevereiro de 2011

Conselho de Santa Catarina de Sena sobre a Santa Paciência

"Deveremos afirmar, então, que nenhum sofrimento é grande? De modo algum. E se a sensualidade se revoltar, lembremos-lhe: 'Atenção, pois o fruto da impaciência é o castigo eterno, que receberás no dia do juízo. É melhor para ti querer o que Deus quer, amar o que Ele ama, ao invés de querer o que preferes e amar o que agrada à sensualidade. Quero que suportes virilmente a dor, já que os sofrimentos desta vida não têm comparação com a glória futura, preparada por Deus aos que o temem (Rom. VIII, 18; ICor. II, 9) e cumprem sua vontade".

Santa Catarina de Sena. Carta 5. Para Francisco de Montalcino.

15 de fevereiro de 2011

Nosso Senhor Jesus Cristo a São Pio de Pietrelcina: "Minha casa tornou-se, para muitos, um teatro de divertimentos"

[282] Ouça, caro padre, os justos lamentos de nosso dulcíssimo Jesus: deixam-me sozinho de noite, sozinho de dia nas igrejas. Não cuidam mais do sacramento do altar; nunca se fala desse sacramento de amor; e mesmo os que falam, infelizmente, com que indiferença, com que frieza! (342)

[283] "O meu coração", diz Jesus, está esquecido. Já ninguém se preocupa com o meu amor. Estou sempre triste. Minha casa tornou-se, para muitos, um teatro de divertimentos; mesmo os meus ministros, que sempre considerei com predileção, que amei como a pupila de meus olhos, deveriam consolar o meu Coração cheio de amargura, deveriam ajudar-me na redenção das almas. Em vez disso, quem o acreditaria?, devo receber deles ingratidão e falta de reconhecimento. Vejo, meu filho, muitos desses que... (aí se calou, os soluços lhe apertaram a garganta, chorou em segredo), sob aparências hipócritas, me traem com comunhões sacrílegas, esmagando as luzes e as forças que continuamente lhes dou...". Jesus continuou ainda a lamentar-se. Padre, como me faz mal ver Jesus chorar! Também o senhor passou por isso? (342)

[284] Sexta-feira de manhã (28-03-1913) eu ainda estava na cama quando me apareceu Jesus, totalmente maltratado e desfigurado. Mostrou-me um grande número de sacerdotes regulares e seculares, entre os quais diversos dignatários eclesiásticos; destes, alguns estavam celebrando, outros se paramentando, e outros retirando as sagradas vestes. Ver jesus angustiado causava0me grande sofrimento, por isso quis perguntar-lhe por que sofria tanto. Não obtive nenhuma resposta. Porém, o seu olhar voltou-se para aqueles sacerdotes. Mas, pouco depois, quase horrorizado e como se estivesse cansado de observar, desviou o olhar e quando o ergueu para mim, com grande temor, verifiquei que duas lágrimas lhe sulcavam as faces. Afastou-se daquela turba de sacerdotes, tendo no rosto, uma expressão de profundo pesar, gritando: Carniceiros! E voltando para mim disse: "Meu filho, não creias que a minha agonia tenha sido de três horas, não. Por causa das almas por mim mais beneficiadas, estarei em agonia até o fim do mundo. Durante o tempo da minha agonia, meu filho, não convém dormir. Minha alma vai a procura de algumas gotas de piedade humana; mas ai de mim! Deixam-me sozinho sob o peso da indiferença. A ingratidão e os meus ministros supremos tornam opressiva minha agonia. Ai de mim! Como correspondem mal ao meu amor! O que mais me aflige é que, à sua indiferença, esses homens acrescentam o desprezo, a incredulidade. Quantas vezes eu estive a ponto de fulminá-los, se não tivesse sido detido pelos anjos e pelas almas enamoradas de mim... Escreve ao teu padre narrando o que viste e ouviste de mim esta manhã. Diz a ele que mostre a tua carta ao padre provincial...". Jesus ainda continuou mas o que disse não poderei revelar a criatura alguma deste mundo. Essa aparição me causou tal dor no corpo, porém ainda mais na alma, que durante o dia todo fiquei prostrado e acreditaria estar morrendo, se o dulcíssimo Jesus já não me tivesse revelado... Infelizmente, Jesus tem razão de nossa ingratidão! (350)

Padre Pio. Florilégio do Epistolário. Ps. 182-184.

31 de janeiro de 2011

31 de janeiro: São João Bosco, Confessor

João Bosco, nascido num local humilde em Caltelnuovo, em Asti, e, perdendo o pai, foi bem santissimamente educado pela mãe; desde a primeira idade se previa a maravilha de Santo que haveria de ser. De caráter manso e inclinado à piedade, gozava de uma especial autoridade entre os seus pares, entre os quais ele, maduramente, resolvia as brigas, acabava com as rixas, e combatia as palavras torpes e jogos lascivos. Ocupava-se com eles atraindo-os com seu modo gracioso de falar, inserindo-os nas orações por meio de brincadeiras, repetindo-lhes a doutrina sagrada que ouvia na igreja com um admirável número de doces sermões, e instigando os menininhos a, o quanto antes e amiúde, frequentar os sacramentos da Penitência e Eucaristia. Sendo modesto no falar e na aparência, atraía todos a si pela beleza dos seus costumes e pela candura da sua inocentíssima vida. Entretanto, devido à penúria da família, passou toda uma adolescência de trabalhos e tribulações, nos quais, porém, sempre esteve alegre e em Deus confiando que se tornaria sacerdote.

Feitos os votos, esteve primeiro na cidade de Chieri, e depois na Augusta de Turim, sendo seu mestre São José Cafasso, com grande aplicação, fez progressos na ciência dos santos, e no aprendizado de teologia moral. Aí também, sua vontade se inclinava, como por uma inspiração sobrenatural, a dedicar-se aos jovens, para ensinar-lhes os rudimentos da doutrina cristã. Quando o número deles cresceu, fundou, com inspiração celestial, uma sede estável para reuni-los, na cidade chamada Valdocco, tendo de superar ásperas e quotidianas dificuldades, e gastava todas as suas energias nisso. Um pouco depois, com o auxílio da Virgem Mãe de Deus, que lhe aparecera quando criança, revelando-lhe o seu futuro, João fundou a Sociedade dos Salesianos, cujo principal fim fosse ganhar para Cristo as almas dos jovens; fondou ainda uma outra congregação, de virgens consagradas, chamada de Nossa Senhora Auxiliadora, para dirigir as jovens nos caminhos do Senhor; por fim, fundou a Ordem Terceira dos Cooperadores, para, com zelo e piedade, ajudar na obra Salesiana. Assim, em breve tempo, fez grandes contribuições tanto à sociedade cristã quanto à civil.

Cheio de zelo pelas almas, ele não se poupava nenhum trabalho e nenhum gasto para construir centros recreacionais para os jovens, orfanatos, escolas para crianças trabalhadoras, escolas e casas para a instrução dos jovens, e igrejas longe e largamente pelo mundo. Ao mesmo tempo, ele não cessou de espalhar a Fé por todo o país Subalpino, por palavra e pelo exemplo, e por toda a Itália, escrevendo e editando bons livros e distribuindo-os, e nas missões estrangeiras, às quais enviou numerosos pregadores. Um homem simples e reto, inclinado a toda boa obra, ele brilhou em todas as virtudes, principalmente por sua intensa e ardente caridade. Com a alma sempre aplicada a Deus, e agraciada com dons celestiais, esse santo homem de Deus não tinha medo das ameaças, nem se cansava com o trabalho, nem era oprimido pelos cuidados, nem se perturbava pela adversidade. Ele recomendou três obras de piedade aos seus seguidores: receber tão frequentemente quanto possível os sacramentos da Penitência e da Santa Eucaristia, cultivar a devoção a Nossa Senhora Auxiliadora, e ser um fidelíssimo filho do Soberano Pontífice. Também deveria ser mencionado que João Bosco, nas circunstâncias muito difíceis, ia ao Papa mais de uma vez, para consolá-lo nos males vindos de leis que naquele tempo foram promulgadas contra a Igreja. Com uma vida de tantas realizações, ele morreu no dia 31 de janeiro de 1888. Ilustre por seus muitos milagres, o Sumo Pontífice, Pio XI, beatificou-o em 1929. Cinco anos depois, no dia solene da Páscoa, no nongentésimo aniversário da Redenção do gênero humano, ele foi canonizado, em meio a uma multidão vinda a Roma de todas as partes do mundo.

Fonte: Breviário Romano

30 de janeiro de 2011

30 de janeiro: Santa Martina, Virgem e Mártir

Martina, donzela romana, filha de um cônsul, nascida numa família ilustre, órfã desde a infância, encendida do ardor da piedade cristã, distribuía em profusão aos pobres as riquezas que ganhava. Sob o imperador Alexandre, foi mandada sacrificar aos falsos deuses, e recusou-se firmemente a cometer tão grande crime. Por isso, foi muitas vezes molestada por palavras, ganchos, unhas de ferro, cacos de louças; cortada, membro por membro, com espadas afiadíssimas; escaldada em gordura fervente; mandada para o anfiteatro para ser publicamente devorada por feras. Saindo ilesa, por Deus, dessas torturas, foi jogada numa pira ardente, da qual saiu igualmente incólume.

Alguns dos seus torturadores, edificados pela notícia dos milagres, por graça de Deus, abraçando a fé de Cristo, mereceram a gloriosa palma do martírio, após serem torturados. À oração da santa, terremotos e fogos do céu trovoante derrubaram os templos dos deuses e demoliram os simulacros. Enquanto isso, das suas chagas, além do sangue, saía um certo leite, e emanavam do seu corpo um resplendor nitidíssimo e um suavíssimo odor, e, enquanto isso, foi vista num trono real, louvando a Deus junto com os bem-aventurados.

Esses prodígios, e, principalmente, a sua repetição, moveram fortemente o juiz a mandar decapitar a virgem. Cumprida a ordem, e ouvida do céu uma voz como que a chamando para o Paraíso, toda a cidade tremeu, e muitos idólatras se converteram à fé de Cristo. O corpo sagrado de Martina, martirizado no pontificado de Urbano I, foi descoberto pelo Sumo Pontífice Urbano VIII, na antiga Igreja da santa, perto da prisão de Marmetino, ao pé da colina do Capitólio, junto com os corpos dos santos mártires Concórdio, Epifânio e seus companheiros, e, com grande concurso de povo e toda a cidade feliz, foi reposto com solenidade e pompa, no mesmo lugar, reformado e mais formoso.

Do Breviário Romano.

29 de janeiro de 2011

29 de janeiro: São Francisco de Sales, Bispo, Confessor e Doutor da Igreja

Francisco, nascido na cidade de Salésio, donde o sobrenome da família, desde os tenros anos mostrou indícios da futura santidade, pela inocência dos costumes e pela gravidade. Adolescente, foi educado nas disciplinas liberais, e então empenhou-se em estudar filosofia e teologia em Paris, e, para que nada faltasse à cultura de sua mente, graduou-se ainda, em Pádua, com sumo louvor, em leis civil e eclesiástica. Na Santa Casa de Loreto, renovou o voto de virgindade perpétua com que se ligara já em Paris, propósito de virtude que não pôde vencer nenhum engano do demônio, nenhuma excitação dos sentidos.

Recusando uma enorme dignidade no senado de Sabaudia, inscreveu-se à milícia clerical. Iniciado no sacerdócio e encarregado da igreja de Genebra, cumpriu seu papel com tanta perfeição que Granier, o Bispo, para retomar da heresia calvinista os povos de Chablais e das proximidades de Genebra, dedestinou-o à pregação da divina palavra. Tomando essa missão, tomada com agudeza de alma e asperamente levada a cabo, amiúde foi perseguido pelos hereges para matá-lo, e vexado com muitas calúnias e insídias. Porém, entre tantas oposições e lutas, sempre evidenciou-se a sua constância insuperável, e, protegido pelo poder de Deus, consta que converteu setenta e dois mil hereges à fé católica, entre os quais muitos insignes por sua nobreza e cultura.

Morto Granier, que o procurara como coadjutor, e sendo ele sagrado Bispo, espalhou por toda a volta os raios da sua santidade, notável pelo zelo da disciplina eclesiástica, amor pela paz, misericórdia para com os pobres, e todas as virtudes. Para o engrandecimento do culto divino, instituiu uma nova ordem de freiras, chamada da Visitação da Bem-Aventurada Virgem, sob a regra de Santo Agostinho, a cujas constituições conferiu sabedoria, discrição e suavidade admiráveis. Também ilustrou a Igreja por seus escritos, plenos da celeste doutrina, que mostram, seguro e reto, o caminho da perfeição cristã. Com 55 anos de idade, retornando da França para Annecy, após celebrar em Lião a festa de São João Evangelista, acometido de uma grave moléstia, passou ao céu no dia seguinte, no ano do Senhor de 1622. Seu corpo foi levado a Annecy, e honrosamente sepultado na igreja das monjas da referida ordem, e imediatamente começou a se fazer notar pelos milagres. Esses foram comprovados, e, pelo Sumo Pontífice Alexandre VII, ele foi admitido no número dos santos, marcada sua festa para o dia 29 de janeiro; e, pelo Sumo Pontífice Pio IX, consultando a Congregação dos Sagrados Ritos, foi declarado Doutor da Igreja.


O Doctor óptime, *
Ecclésiæ sanctæ lumen,
beáte Francísce, divínæ legis amátor,
deprecáre pro nobis Fílium Dei.



Ó Doutor boníssimo, luz da Santa Igreja, bem-aventurado Francisco, amante da divina lei, rogai pro nós ao Filho de Deus.



Fonte: Breviário Romano

28 de janeiro de 2011

28 de janeiro: São Pedro Nolasco, Confessor

Pedro Nolasco, nascido de nobres pais em Recaudun, perto de Carcassonne, na França, distinguiu-se pela excelência da sua caridade com o próximo. Houve um presságio da sua virtude quando ele ainda estava no berço: um enxame de abelhas voou até ele, e construiu um favo de mel na sua mão direita. Feito órfão na adolescência, por ódio à heresia albigense, que então grassava na França, vendeu o patrimônio, e partiu para a Espanha, e cumpriu um voto que havia feito à Santa Virgem de Monserrat. Indo, depois, a Barcelona, gastou todo o seu dinheiro para libertar os fiéis cristãos da escravidão dos inimigos (mouros), e dizia que gostaria de vender-se a si mesmo para isso, ou ir para as cadeias desses.

Deus, numa ocasião seguinte, declarou o quanto ficou agraciado com o desejo deste santo homem: rezando durante uma noite, e aplicando-se com muito ânimo aos meios de livrar os cristãos cativos, apareceu-lhe a Virgem, e disse-lhe que lhe agradaria muitíssimo a Ela e a Seu Filho, se ele instituísse uma ordem religiosa, cujo principal cuidado fosse libertar os cativos da tirania dos infiéis. Conformando-se com esse conselho celestial, uniu-se a São Raimundo de Peñafort e Tiago I, rei de Aragão, aos quais a mesma revelação havia sido feita na mesma noite, e instituiu a Ordem Religiosa de Nossa Senhora das Mercês da Redenção dos Cativos. Com seus companheiros, ligou-se por um quarto voto: o de permanecer na prisão, sob o poder dos pagãos, se fosse útil para a libertação dos cristãos.

Desde que fez o voto de virgindade, conservou perpetuamente imaculada a castidade. Aproveitou admiravelmente na paciência, humildade, abstinência, e demais virtudes. Iluminado pelo dom da profecia, predisse coisas futuras: delas, a mais famosa é que fez ao rei Tiago, de que tomaria Valência, ocupada pelos mouros, feita antes que houvesse certeza da vitória. Era frequentemente recreado com a aparição do Anjo da Guarda e da Virgem Mãe de Deus. Ancião, sendo-lhe revelado que a morte era iminente, caiu doente, e, tomando os santos sacramentos, exortou os seus irmãos à caridade para com os cativos, e, recitando devotissimamente o Salmo "Confitebor tibi Domine in toto corde meo" (Professar-Vos-ei, Senhor, de todo o meu coração), quanto chegou às palavras "Redemptionem misit Dominus populo suo" (O Senhor mandou a redenção para o seu povo), entregou o espírito a Deus, na meia-noite da Vigília do Natal do Senhor, do ano 1256. Alexantre VII mandou que sua festa fosse celebrada no dia 31 de janeiro.
Fonte: Breviário Romano