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29 de setembro de 2024

Retratos de Nossa Senhora - Apresentação

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

Apresentação

"Que a vida dos cristãos se assemelhe o mais possível à da Santíssima Trindade".
Segundo Sua Santidade Pio XII, este devia ser o fim do Ano Mariano, em que se celebrava o primeiro centenário da definição dogmática da Imaculada Conceição: reproduzir na nossa vida a vida da Santíssima Virgem; copiar em nós a sua imagem.
Porém não é só no Ano Mariano; em todos os anos da nossa vida deveríamos ter esse ideal. Imitá-la a Ela é imitar a Jesus Cristo, que é caminho, verdade e vida.
Para facilitar esse trabalho diário ofereço-te estes Retratos da Santíssima Virgem, retratos de todos os estados da sua vida, pois todos santificou para poder ser imitada.
O retrato é o que melhor supre a ausência de uma pessoa. Por isso os que querem perpetuar a sua memória mandam fazer o seu retrato. Por isso conservamos com o maior cuidado os retratos das pessoas que nos foram queridas e morreram já. Desde que se inventou a fotografia os retratos multiplicaram-se. Tiram-se fotografias dos atos mais importantes da vida. De certo conservas em casa muitos retratos da tua mãe: quando era pequenina, quando era jovem, com o vestido de noiva, quando já era mãe e te tinha pequenino em seus braços. Conservas com carinho esses retratos. Olhas para eles muitas vezes com emoção. Mostra-los muitas vezes às pessoas que te visitam.
Porém além dessa mãe da terra, tens outra Mãe que vive agora no Céu e que há vinte séculos viveu na terra.
Não queres saber como era essa tua Mãe?
Um orfãozinho que não tenha conhecido a sua mãe pergunta com interesse aos que viveram com ela: Como era a minha mãe? E ouve com ternura as coisas boas que lhe dizem dela e até pensa no seu intimo: Eu quero ser como a minha mãe.
Os que acorriam a Fátima ao lugar das aparições perguntavam com vivo interesse aos pequeninos que viam a Santíssima Virgem: Como é Nossa Senhora? E tu, não queres saber como era a tua Mãe do Céu quando vivia na terra? Não queres saber como é agora que vive na glória e espera que vás viver com Ela?
Quanto mais amares a tua Mãe, mais desejarás saber como era.
Para que satisfaças esses desejos ofereço-te esta coleção de retratos da tua Mãe. São de todas as épocas da sua vida.
São da sua alma e do seu corpo.
Para os fazer não quis pedir cores às flores, aos crepúsculos e às auroras, como fazem os poetas.
Não quero que sejam retratos idealizados, quero que sejam reproduções o mais exatas possível da realidade. Para isso pedi cores à teologia e à história.
O retrato tem que ter ambiente e também o cenário onde a figura da Santíssima Virgem pareça real.
Não a vou pintar sobre a esfera do mundo, entre o céu e a terra, em clarões de luz e de glória. Não a vou colocar em palácios de mármore e de jaspe com vitrais policromos. A figura da Santíssima Virgem terá o cunho palestinense em que decorreu a sua vida.
Interessa saber como era a Santíssima Virgem, nossa Mãe, o que fazia quando vivia na terra. Não nos interessa tanto saber como a idealizaram Frei Angélico, Murilho, Ribera e Rafael.
O bom retrato não só reproduz as feições do corpo; através destas deixa transparecer as qualidades da alma.
Ao retratar a Santíssima Virgem não nos devemos contentar com dizer como era fisicamente e como vivia, temos que adivinhar como pensava e como sentia. Em que vou pintar esses retratos?
Não os vou pintar em tela nem em tábua, nem em cobre, vou pintá-los em ti mesma.
Quero que sejas um retrato vivo da Santíssima Virgem; por isso não me contentarei com dizer-te como era tua Mãe, dir-te-ei também o que tens que fazer para te assemelhares a Ela. O que tens que evitar. O que tens que praticar.
 És mulher e apaixona-te a beleza. A Santíssima Virgem é um ideal de beleza.
Oxalá eu tivesse tanta habilidade para pintar os seus retratos que exclamasses deslumbrada: Que formosa é minha Mãe do Céu! Posso parecer-me com Ela. Quero parecer-me com Ela.
Toma o livro, lê-o com frequência. Supre com o teu coração e com a tua imaginação o que nele falte.
Medita. Reproduz em ti os traços formosos da Santíssima Virgem.
Procura ser um retrato vivo da tua Mãe.
Para que a tua vida se assemelhe o mais possível à da Santíssima Virgem tens que trabalhar como o escultor ao modelar um busto.
Tem diante de si o modelo e o tronco de madeira.
Um olhar ao modelo e um golpe ao tronco.
A princípio os pedaços de madeira que tira são grossos.
À medida que se vão aperfeiçoando as feições do rosto, os golpes são mais suaves, os pedacinhos de madeira mais finos.
Nos últimos detalhes é que se mostra o artista: nos olhos, nos lábios, em toda a anatomia.
Assim deves fazer para reproduzir em ti a imagem de Maria.
Um olhar à Virgem e um golpezito em ti, para tirar o que não se assemelhe à imagem da Virgem SS.ma.
Os nossos grandes artistas meditavam muito para moldar as estátuas e pintar os quadros religiosos. Por isso as suas imagens têm algo de sobrenatural, o que não lograram outros artistas estrangeiros embora mais geniais.
Diz-se que Juan de Juanes, antes de pintar a Imaculada meditava como seria a Santíssima Virgem e orava e pedia para poder reproduzir na tela toda a beleza que ele imaginava.
Por fim, pegou nos pincéis e pintou o quadro maravilhoso que se conserva na igreja da Companhia de Jesus de Valência: a Imaculada vestida de sol, pisando a lua, coroada pela Santíssima Trindade; e à volta da Virgem os símbolos com que a Igreja invoca a Maria: rosa mística, torre de David, fonte selada, horto cerrado, espelho sem mancha.
Como se dissesse o pintor: tudo isto e muito mais é Maria, ainda que eu não o tenha sabido expressar na sua imagem.
Murilho, o pintor da Imaculada, meditou muitas horas e muitos dias na formosura da Virgem; queria reproduzir na sua imaginação toda a beleza de Maria ao sair das mãos de Deus e encontrar a imagem que reproduzisse toda essa beleza.
Com esse fim meditava, orava e comungava.
Ensaiou, tateou, até que um dia se sentiu inspirado.
Pegou nos pincéis e pintou a Imaculada com rosto de menina inocente, cabelos de ouro, as mãos juntas diante do peito em atitude de orar, a túnica de neve, o manto de azul celeste flutuando no ar como que agitado por uma brisa celestial, entre nuvens de luz e suspensa por anjos que levam palmas, ramos de oliveira, rosas e açucenas.
O quadro era encantador; porém Murilho não estava satisfeito.
Continuava orando, comungando, tenteando.
Outro dia sentiu de novo a inspiração e pintou outro quadro.
A Virgem estava sobre nuvens, elevando-se suavemente como se não sentisse o peso do corpo de barro, que a nós se apega à terra. Tinha a lua a seus pés; as mãos cruzadas sobre o peito como guardando o tesouro de graça que Deus havia depositado em seu coração, com os olhos fixos no céu, em Deus; toda ela tão formosa, que a legião de espíritos celestiais que a rodeiam formando uma coroa, deixam cair de suas mãos as palmas e as rosas, extasiados ao contemplarem tanta beleza.
Ora, medita, comunga, para que reproduzas em ti com a maior exatidão a imagem da Santíssima Virgem.
Para ajudar-te, ofereço-te este livrinho - Retratos de Nossa Senhora - que te apresentamos em duas séries. Na primeira verás o que fazia a Santíssima Virgem para que faças como Ela; por isso leva o subtítulo de - Ecce Mater Tua - Aí tens a tua Mãe.
A segunda diz como era a Santíssima Virgem, como era o palácio que Deus construiu para si na terra; por isso o subtítulo é - Domus Aurea - Casa de ouro.
Lê, medita, copia. Até que se cumpra em ti o que deseja Sua Santidade Pio XII: " Da mesma maneira que todas as mães sentem um suave prazer quando vêem no rosto de seus filhos uma peculiar semelhança das suas próprias feições, assim também a nossa dulcíssima Mãe Maria, quando olha para os filhos que junto à cruz recebeu em lugar do seu, nada mais deseja e nada lhe é mais grato que ver reproduzidas as virtudes da sua alma nos seus pensamentos, nas suas palavras, nas suas ações."

23 de setembro de 2024

Retratos de Nossa Senhora - Convite

O texto "Retratos de Nossa Senhora" apresenta um convite profundo e poético para que os cristãos se inspirem na vida da Virgem Maria, buscando imitar suas virtudes tanto espirituais quanto morais. Através de uma comparação com a arte do retrato, o autor sugere que, assim como preservamos imagens de nossas mães terrenas, devemos também buscar conhecer e refletir em nossas vidas a imagem da Mãe Celestial, Maria.

Ao longo da reflexão, o autor enfatiza que o retrato de Maria que devemos buscar não é idealizado ou distante, mas real e acessível, extraído da teologia e da história. Ele nos chama a imaginar Maria não em palácios ou cercada de luxos, mas vivendo sua vida simples e piedosa na Palestina, onde seus atos e escolhas eram cheios de significado e santidade.

O convite vai além de uma mera contemplação passiva: o autor exorta o leitor a se transformar em um "retrato vivo" de Maria, copiando suas virtudes, atitudes e pureza. Ao longo da vida, assim como um escultor que gradualmente aperfeiçoa uma obra de arte, devemos lapidar nossas almas para nos aproximar mais da imagem de Maria.

A comparação com os grandes pintores como Murilho e Juan de Juanes reforça a importância da meditação, oração e busca contínua da perfeição para capturar, ainda que imperfeitamente, a beleza e a pureza da Mãe de Deus. A intenção final é que, assim como Maria, possamos nos apresentar a Deus como "retrato perfeito" de virtudes e santidade, reproduzindo em nossa vida as qualidades da alma da Virgem Maria.

O texto conclui com a oferta de um "livrinho", uma coleção de retratos espirituais que, através da contemplação e meditação, permitirão que o leitor aprofunde sua semelhança com a Santíssima Virgem.

17 de setembro de 2024

Retratos de Nossa Senhora

É com grande alegria que anunciamos a republicação do livro "Retratos de Nossa Senhora" pelo Blog São Pio V, uma obra que tem tocado o coração de muitos devotos. Atendendo às diversas solicitações de nossos leitores, iniciamos agora a publicação de conteúdos importantes em vários idiomas, incluindo inglês, espanhol, francês, italiano e alemão, para que a mensagem de fé e devoção a Maria Santíssima possa alcançar ainda mais corações ao redor do mundo.

Agradecemos profundamente pelo apoio e carinho que temos recebido de cada um de vocês. Pedimos que continuem nos acompanhando e, se possível, divulguem o Blog São Pio V em suas redes sociais para que mais pessoas possam ter acesso ao nosso conteúdo e se aproximar da espiritualidade mariana.

Que Nossa Senhora os abençoe sempre!

 

JUAN REY, S. J.

Trad. M. V. Figueiredo, S. J.






RETRATOS 

DE

NOSSA SENHORA








1957

1 de dezembro de 2018

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

Uma Cópia da Virgem Santíssima


Esta coleção de retratos da Virgem Santíssima encerra-se com o retrato duma sua filha, que copiou em si mesma com perfeição a imagem de sua Mãe:
Santa Maria Goretti, filha de Maria e mártir da pureza.
Sabeis quando recebeu Maria Goretti a medalha de Filha de Maria?
Quando agonizava no hospital, depois de ter sido apunhalada por defender a sua pureza.
Na casa onde morreu a Santa, existe uma lápide com esta inscrição: "Aqui passou Maria as suas últimas horas, aqui perdoou ao seu assassino, aqui recebeu o Viático e a medalha de Nossa Senhora, aqui morreu".
As últimas horas da virgem mártir foram um desfalecer de amor pela Rainha dos Céus.
Beijava com fervor impressionante a imagem da Santíssima Virgem.
Tinha os olhos cravados no quadro de Nossa Senhora que estava pendurado na parede. 
"Nossa Senhora espera-me", repetia com plena consciência e com doce convicção.
Ao ver este carinho que a virgem mártir manifestava pela Virgem das virgens, foi quando o confessor lhe propôs: Gostarias de ser inscrita nas Filhas de Maria? Um clarão de alegria brilhou no seu semblante e respondeu: muitíssimo. Pois então enviarei o teu nome para a Congregação de Roma e entretanto imponho-te a medalha.
Quando a fita de Filha de Maria pendia do seu pescoço, aquele anjo de pureza esquecia as suas dores, pegava na medalha e beijava-a com fervor. Que contente de ter por Mãe a Virgem Santíssima!
E Nossa Senhora, que contente e orgulhosa por receber nos seus braços maternais aquela filha tão parecida com ela, aquela virgem fiel que tinha na mão um ramo de açucenas salpicado com o sangue do martírio!
Amor à virgindade até morrer apunhalada para a defender; e na mesma medida o amor à modéstia, pois o assassino arrependido, confessou depois que durante a luta mortal, mais que evitar as punhaladas ela preocupava-se por cobrir o corpo com os farrapos do vestido, rasgado pelo ferro homicida.
Que rasgo tão emocionante, tão heroico de pudor cristão! 
Pureza e modéstia: as duas irmãs que andam sempre juntas.
O cadáver da santa, ainda que não incorrupto, está vestido segundo o costume romano: a cabeça coberta por uma mascarilha de cera. O resto do corpo vestido com uma túnica branca, como o vestido da primeira comunhão. Sobre o peito, a medalha de Filha de Maria, pendente duma fita azul. A cintura uma faixa também azul, como a de Nossa Senhora de Lourdes. Na mão direita segura o rosário que nunca abandonava em vida, aquele rosário que tinha sempre na mão durante os dias angustiosos em que viveu sob a ameaça do assassino. Numa mão continua segurando o rosário e na outra uma palma de prata, simbolo do triunfo martirial da sua virgindade.
Assim descansa o cadáver da Filha de Maria como os corpos dos santos, debaixo do altar servindo de ara ao esposo das almas virgens que se sacrifica todos os dias sobre o altar; assim passeou triunfante pelas campinas e cidades de Itália; assim passeou em triunfo pelas ruas da Cidade Eterna.
A fita azul e a medalha de Nossa Senhora sobre um corpo crivado de catorze punhaladas, catorze açucenas esmaltadas com a púrpura do seu próprio sangue.
Formosa cópia da Virgem Santíssima menina, da Virgem Santíssima jovem, da Virgem Santíssima mártir, da Santíssima Virgem virgem.
Filha de Maria que teve uma alma e um coração semelhantes aos de sua Mãe e por isso amou as virtudes queridas de sua Mãe: a pureza, a modéstia.
Copia a Virgem Santíssima, tua Mãe, como a copiou esta tua irmã.
Para te ajudar nisso, ponho nas tuas mãos, este livro, Retratos de Nossa Senhora, apesar de muito imperfeito e lembro-te as palavras de Jesus Cristo: "Aí tens a tua Mãe!"

29 de novembro de 2018

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

O Vestido da Virgem Santíssima


Parte 5/5

Não te vou dar normas concretas sobre os vestidos. Dão-nas os Prelados nas suas respectivas dioceses. Observai-as com esmero. Observá-las-ás, se puseres em prática estes últimos conselhos.
Põe na tua alma muito fundo o santo temor de Deus, pensa que a imodéstia é um pecado de escândalo: pecas tu e fazes pecar os outros.
Recorda as terríveis ameaças de Jesus Cristo aos escandalosos: "Ai do escandaloso! mais lhe valia que lhe atassem uma mó ao pescoço e o atirassem ao mar".
Pensa que têm que se desfazer de alguma maneira os efeitos do escândalo e que à hora da morte é difícil desfazê-los. 
Acumula muita virtude na tua alma, porque tens que sustentar uma luta heroica para não te deixares arrastar pela moda e para seres superior aos respeitos humanos.
Cultiva com carinho a virtude da pureza; porque dessa raiz brotará para o exterior a flor da modéstia.
Veste conforme a tua posição social; não pretendas aparentar mais do que és, porque isso é orgulho e acarreta transtornos econômicos à tua família.
Põe nos teus vestidos um pouco de austeridade cristã, cortando por luxos que não puderes suportar economicamente. Dentro da tua posição social veste com elegância, com bom gosto. Nada de desalinho. Nada de esquisitices que tornam a virtude antipática. 
Dirás: E não posso seguir a moda? Sim, podes seguir a moda, enquanto não passar os limites da lei de Deus. A moda e a modéstia deviam andar sempre juntas, como boas irmãs. Até o seu nome é parecido: moda, modéstia. Derivam da mesma raiz latina: modus.
Mas que acontece? Que chega um momento em que a moda diz: vou impor um vestido escandaloso.
Então a modéstia diz: por aí não te posso acompanhar. As duas irmãs discutem, separam-se e a moda vai-se com a imodéstia. Que deve fazer então a jovem cristã? Deve dizer a moda: Eu sou amiga da modéstia. E não quero perder tão boa companhia.
Quero estar sempre com ela. Enquanto a acompanhares, eu acompanho-te. Quando a deixares e te fores com a imodéstia, eu também te deixarei.
A moda replicar-te-á:
 - Rir-se-ão todas de ti.
- Não me importa que ao passar se riam de mim, se Deus e a Santíssima Virgem estiverem contentes comigo.
- As amigas deixar-te-ão.
- Não me importa que as minhas amigas me deixem se tenho a Deus por Pai e à Virgem Santíssima por Mãe e aos anjos e aos santos por irmãos. Nem tão  pouco me faltarão jovens boas que pensem como eu.
"Uma jovem cristã - diz S. S. Pio XII - pode ser moderna, culta, desportiva, cheia de graça, de naturalidade e distinção, sem se submeter à vulgaridade duma moda malsã".
Com estas ideias muito claras na alma, quando fores fazer um vestido, dirige a ti mesma estas perguntas:
Com este vestido poderá escandalizar-se alguma pessoa e pecar? E se paca, como desfarei eu este escândalo? E se alguma alma se condena por minha culpa, salvar-me-ia eu? Com esse vestido posso morrer de repente. Se Jesus Cristo me julgasse, estando eu assim, receber-me-ia no céu?
Se pertences a alguma Congregação, vai à capelinha da Congregação, ajoelha-te aos pés da Santíssima Virgem à qual te consagraste total e plenamente e pergunta-lhe: Minha Mãe, ficais contente se eu fizer este vestido assim? Há nele alguma coisa que não te agrade?
Pergunta também à imagem da Santíssima Virgem que figura na tua medalha, nessa medalha que usas com santo orgulho sobre o teu coração, pergunta-lhe: gostarás que te coloque sobre este vestido?
Jovem, a modéstia impõe-te sacrifícios heroicos; mas recorda-te do que disse Jesus Cristo: os que lutam com valentia, arrebatam o reino dos céus.

27 de novembro de 2018

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

O Vestido da Virgem Santíssima


Parte 4/5

A modéstia tem sido também uma virtude característica da mulher da Península, uma das suas virtudes raciais.
Mesmo agora, apesar da imodéstia que se propaga rapidamente na Península, uma pessoa estrangeira ilustre disse que o melhor da Península eram as suas mulheres pela sua dignidade e modéstia.
Mas este último baluarte da modéstia cristã há anos que é duramente combatido. É ordem dada pelas sociedades secretas e publicada na sua revista internacional: matar o pudor da mulher fomentando para isso a imodéstia no vestir.
Até que ponto? eis a meta: o nudismo completo. 
Há anos esta pretensão parecer-nos-ia absurda; hoje, depois de vermos o avanço da ofensiva, chegamos a crer que em alguns casos se alcançou o objetivo previsto como se alcançou já nalgumas nações.
Também se determinou a tática que se deve seguir: para se evitar a oposição será necessário proceder metodicamente. E a tática está-se a seguir.
Lança-se uma moda atrevida. Apresentam-na pela primeira vez mulheres desvergonhadas e mesmo de má nota. As mulheres mundanas, as que estão sempre de ouvido alerta para recolher o último grito da moda, aceitam-na sem vacilar; as mais piedosas admiram-se, protestam. Esses profetas são refutados por um argumento de valor: é a moda. Ante essa razão guarda-se silêncio. Pouco a pouco as outras vão aceitando a moda. Restam umas poucas que são tidas por extravagantes e antiquadas.
No ano seguinte mais um passo, o mesmo processo, os mesmos protestos, a mesma razão: é a moda. E a moda do ano anterior torna-se já extravagante e antiquada.
E avançando, avançando, até chegar à meta. Quais serão os efeitos desta imodéstia no vestir?
Desastrosos: a corrupção dos costumes e, como consequência, o aniquilamento da fé.
Primeiro, a corrupção dos costumes. A mulher, à medida que vai perdendo a modéstia, perde o pudor, que é a muralha defensiva da pureza; e perde a estima pela mesma pureza; e o que se não estima não se defende. Por outro lado, a nudez excita as paixões do homem. O resultado da imoralidade é a perda da fé; porque as apostasias na fé são precedidas da corrupção do coração.
Por isso Heine, o Voltaire do século XIX, disse: para matar a Igreja é preciso apoderar-se a gente da criança e corromper a mulher.
E o famoso apologista Lacordaire, que subia à cátedra sagrada mais elevada de França no ano de 1844, sob as abóbadas de Notre Dame, que abrigavam milhares de jovens e cavalheiros que atravessavam a mesma crise religiosa por que havia passado o orador, disse estas palavras memoráveis: "o último século não viu perecer a religião em França até que não viu perecer o pudor". A experiência dizia ao zeloso apologista que o pudor tinha sido a última trincheira defensiva da fé.
Se isto é assim, e a imodéstia vai crescendo dum modo alarmante na nossa pátria, dar-se-á o caso tristíssimo de que esta fé da Península, que por espaço de vinte séculos tem resistido aos ataques de todos os hereges e exércitos poderosos, sucumba destruída pela imodéstia das mesmas mulheres peninsulares?
Mulheres, medi a vossa responsabilidade.

25 de novembro de 2018

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

O Vestido da Virgem Santíssima


Parte 3/5

A virtude da modéstia, característica da Virgem Santíssima, foi-o também das jovens cristãs da antiguidade.
Como é emocionante o martírio de Santa Perpétua e Santa Felicidade!
O anfiteatro de Cartago estava repleto. Sob um docel com franjas de ouro presidia à festa o representante dos Césares. Depois os cavaleiros, os cidadãos, o povo, os escravos, uma multidão sedenta de sangue. A um sinal do governador abriu-se a porta e entraram na arena os mártires chefiados por Saturno que caminhava majestosamente. No grupo iam duas mulheres, Perpétua, com o seu manto de patrícia, os seus cabelos presos por uma travessa de ouro, e adornada como se fosse para uma festa. Apoiada a seu ombro, pálida e com o passo vacilante, caminhava a escrava Felicidade, que no dia anterior tinha dado à luz no cárcere. Estavam ambas destinadas a ser joguete duma vaca brava. A vaca assaltou Perpétua primeiro e lançou-a ao ar; depois voltou-se contra Felicidade e pisou-a com furor. Perpétua caiu ao chão, desmaiada, mas sem ferida alguma. Quando voltou a si, não reparou nas dores do golpe; como o seu vestido estava rasgado, juntou as suas pregas para se cobrir e segurou o cabelo com a travessa de ouro. Depois vendo Felicidade por terra, correu para ela, e tomando-a nos braços levantou-a docemente. O povo sentiu um movimento de piedade e gritou: Que se acabe com elas quanto antes, que as matem. Um gladiador correu para Felicidade e enterrou-lhe a espada no peito. Outro gladiador, talvez comovido, dirigiu-se a Perpétua. A sua espada resvalou e descobriu-lhe as costas. Perpétua tomou a ponta da espada, pô-la ela mesma sobre a garganta e disse ao gladiador: aqui.
O verdugo enterrou-a com força e embebeu-a no corpo até aos copos. Uma onda de sangue tingiu de púrpura aquele corpo puro como uma açucena.
Narrei-vos o fato para que repareis naquela frase do cronista: como o vestido estava rasgado, Perpétua juntou as suas pregas para se cobrir e segurou o cabelo com a travessa de ouro.
Assim é a modéstia cristã.

16 de novembro de 2018

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

O Vestido da Virgem Santíssima


Parte 2/5

Como vestiria a Virgem Santíssima?
Nas suas ações nada houve de desordenado; não o houve portanto no seu modo de vestir.
Ora bem; a ordem no modo de vestir, pede que se cumpram os fins que Deus assinalou ao vestido.
Não cumprir esses fins seria desordenado. Que fim são esses? Defender o corpo contra as inclemências do tempo. E sobretudo cobrir: cobrir tudo aquilo que possa excitar as paixões.
Que seja este o fim principal do vestuário,  deduz-se da conduta de Deus com os primeiros homens.
Enquanto Adão e Eva tiveram as paixões tranquilas, submetidas à razão, não precisaram de vestido.
No momento em que pecaram, eles mesmos sentiram a necessidade de se vestirem. Abriram-se os olhos de ambos, diz a Escritura, compreenderam que estavam nus; teceram folhas de árvore e fizeram um vestido. Aquele vestido era insuficiente e imperfeito, por isso o próprio Deus, depois de lançar contra eles o castigo, fez uma túnica de pele e deu-lhas para que se vestissem com elas.
A vontade de Deus é clara: quer que o vestido seja principalmente para cobrir, e a Virgem Santíssima ordenadíssima em tudo, deu aos seus vestidos a finalidade que Deus lhes deu. Por isso foi a mais modesta de todas as mulheres.
Se as mulheres tivessem em conta esta disposição de Deus, procederiam de outra maneira.
Quando uma mulher está a fazer um vestido, quando o está a provar, pensa que esse vestido quer Deus que seja para cobrir tudo o que possa excitar paixões ou pensa tudo ao contrário?
Tem em conta que o outro fim principal do vestido é abrigar?
De ordinário pensa que o fim principal é agradar com ele. Contanto que consiga isto, o mais é secundário e aguentará o frio ainda que daí venham graves prejuízos para a saúde. Depois de cumprir estes fins impostos por Deus ao vestuário, a Virgem Santíssima acomodou-se aos costumes da época e da região.
Digo "depois de cumprir os fins impostos por Deus", porque esses fins hão de ficar sempre de pé, em todas as épocas e em todas as regiões e contra eles jamais deve prevalecer o costume da região.
Em todas as épocas e em todas as regiões os homens têm paixões, têm concupiscência; e sempre e em todas as regiões o nu é o que mais excita as paixões. Por isso, sempre e em todas as regiões o vestido deve empregar-se para cobrir.
Fala-se de climas e de temperamentos frios e alega-se isto, como razão para tolerar neles um nudismo maior. Quando a experiência provar que nessas regiões onde vivem esses temperamentos frios, os homens, no meio do nudismo, são exemplos de pureza, dever-se-á pensar se  se lhes deve tolerar maior liberdade no vestuário; mas se a experiência prova o contrário, se diz que nessas regiões reina a corrupção mais espantosa, então que não falem de temperamentos frios nem de liberdades de vestir.
Sempre deve ficar a salvo este princípio: o fim do vestuário é cobrir o que excita a paixão, e cumprido isto, poder-se-á acomodar aos costumes da região e da época, como fez a Santíssima Virgem.
Acostumados a olhar para os quadros e estátuas, fruto de imaginação dos artistas, facilmente  colocamos a Virgem Santíssima num mundo irreal, diferente daquele em que viveu.
Não situemos a Virgem Santíssima num mundo imaginário; viveu na sociedade palestinense de há vinte séculos e vestiu-se como as mulheres galileias de então, posto que a mais modesta de todas.
Vede-a caminhar pelas ruas de Nazaré. O seu porte é nobre, corre nas suas veias sangue de reis. O seu andar é comedido, reflete o domínio que tem sobre si mesma. Veste uma túnica comprida de cores vistosas, adornada com bainhas e bordados, tudo obra sua, pois aprendeu a bordar no templo de Jerusalém e tem mãos primorosas para isso. Essa túnica é tão comprida que apenas deixa entrever os pés calçados com sandálias. A túnica está cingida com uma faixa. A cabeça vai toucada com uma mantilha que lhe cai sobre os ombros. O rosto podia levá-lo coberto com um véu transparente, segundo o costume oriental; e podia levá-lo descoberto; pois o costume de velá-lo não era frequente nas povoações pequenas.
Aqueles vestidos são feitos e tecidos por suas próprias mãos; pois era uma obrigação e ao mesmo tempo uma glória das mulheres hebreias, mesmo as mais nobres, fazerem os próprios vestidos e os de todos os da sua casa. E ao fazer aqueles vestidos, a alma da Virgem Santíssima punha neles algo de si mesma. O equilíbrio, o bom gosto da alma davam-lhes elegância. O seu espírito de austeridade punha moderação nos adornos. 
A sua rara pureza comunicava-lhes modéstia. Não digais que os costumes da época impediam a Virgem Santíssima de pôr luxo e imodéstia nos seus vestidos. 
Como hoje chega até as nossas povoações o influxo da moda de Paris e dos Estados Unidos, as modas da Grécia e sobretudo da Itália, chegavam até as povoações afastadas da Palestina, e pretendiam harmonizar-se com as velhas tradições judias.
Pelas ruas palestinenses a Virgem Santíssima pode ver muitas vezes senhoras vestidas com luxo, que vestiam trajes ricamente bordados, senhoras e jovens que levavam o cabelo pintado e adornado com jóias e lantejoulas de metais mais ou menos preciosos. Muitas delas levavam no calçado umas ampolazinhas de essência que, agitando-se ao andar, exalavam um delicioso perfume.
À porta da casa da virgem Santíssima deviam chegar muitas vezes os vendedores ambulantes apregoando a sua mercadoria de adornos femininos e perfumes de Jericó.
Foi contemporânea da Virgem Santíssima aquela bailarina Salomé, que na corte de Herodes, rei de Galileia, exibia os bailados e os vestidos provocantes importados da capital do império, e com a sua imodéstia e sensualidade inflamava as paixões do rei, até conseguir dele que mandasse cortar a cabeça de João Batista.
O impudor e a imodéstia são plantas que se dão em todos os climas e em todas as idades.
A Virgem Santíssima era modestíssima, porque a sua alma lho exigia, porque a modéstia é uma planta que brota espontaneamente nas almas puras, e Maria foi a mais pura de todas as almas.


14 de novembro de 2018

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

O Vestido da Virgem Santíssima


Parte 1/5

O retrato da Virgem Santíssima ficaria incompleto, se não disséssemos alguma coisa sobre o seu vestir. O vestido, ainda que acidental, completa o retrato duma pessoa. Completa o retrato do corpo que se apresenta coberto com o vestido. Por isso, quando ides tirar o retrato escolheis bem o vestido. Por isso, os pintores estudam muito os vestidos que hão de usar as personagens dos seus retratos.
Mas o vestido também completa o retrato da alma. Se a alma transparece no rosto e nas atitudes do corpo, também transparece no vestido; e por ele podemos deduzir alguma coisa do que é uma pessoa interiormente.
Vestido elegante e modesto ao mesmo tempo, alma pura, judiciosa, equilibrada.
Vestido extravagante, ridículo, alma singular, excêntrica, desequilibrada.
Vestido provocante, alma frívola, leviana e talvez sensual.
Isto é tão verdade, que o vestir de algumas pessoas passou a história como qualquer coisa de peculiar e característico da sua personalidade.
Esta influência da alma no vestido é evidente; por isso a virtude da modéstia, essa virtude que modera todo o exterior do homem, não é uma virtude superficial, como poderia parecer à primeira vista. É uma planta que esconde as suas raízes no mais intimo da alma e que brota para o exterior e desdobra a beleza das suas pétalas à vista dos homens.
Santo Agostinho define-a acertadamente: "modus animi", a moderação da alma, que se traduz em "modus corporis", na moderação dos atos exteriores do corpo.
Por isso diz também Santo Ambrósio, que os atos exteriores do corpo são "vox quaedam animi"; são como que a linguagem que tem a alma para nos dizer o que é.
A modéstia no vestir tem as suas raízes na alma e no coração, mas nem todas as almas, nem todos os corações são terra adequada para produzirem essa planta; são unicamente as almas puras, os corações puros.
Quando virdes que a virtude da modéstia mostra todo o esplendor da sua beleza, podeis deduzir: que alma tão pura a desta jovem!
Quando virdes que a planta da modéstia não aparece no exterior, podeis temer que as raízes donde devia brotar tenham secado.
Que complicado e que difícil é vestir-se uma mulher! Complicado e difícil procurar o corte do vestido. Mais complicado ainda escolher as cores de todas as peças de vestuário, para que digam bem umas com as outras e com a cor do rosto, do cabelo e dos olhos.
Mesmo que não o pretendas, o teu modo de vestir estará sempre de acordo com o teu coração e com a tua alma.
Pelo que foi dito deduzireis que o modo de vestir de uma pessoa forma parte do seu retrato, do retrato do seu corpo e mais ainda do retrato da sua alma.
E se queremos fazer um retrato completo da Virgem Santíssima temos necessariamente de fixar-nos no seu vestido. 

12 de novembro de 2018

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

O Corpo da Virgem Santíssima


Parte 6/6

O homem ama o seu corpo, mas não  compreende bem esse amor. Julga que lhe faz bem quando lhe proporciona todos os prazeres que ele pede e com isso ocasiona-lhe toda a espécie de males.
É como um pai que não castiga o filho, que condescende com todos os seus caprichos, pensando que assim lhe demonstra o seu amor, e está a preparar-lhe a ruína.
O que ama o seu corpo com um amor mal compreendido, procurando prazeres, perdê-lo-á.
Perdê-lo-á ainda nesta vida, porque o prazer que afaga o corpo, destrói-o.
A fome de gozar não se acalma com as concessões; pelo contrário, aviva-se mais como o fogo com o combustível. E o que acontece quando se quer saciar essa fome insaciável?
Os órgãos do corpo gastam-se, os nervos enfraquecem-se, os sentidos exaustos negam-se a dar a satisfação que se lhes pede; e como a ânsia de gozar cresce mais e mais, o homem recorre aos meios mais violentos e desastrosos, e como resultado, o sistema nervoso fica desfeito, destroçado; e nesse organismo desequilibrado e tarado desenvolvem-se os germens de todas as doenças e sobrevêm a morte prematura.
O amor mal compreendido ao corpo ocasiona-lhe a sua ruína temporal e, o que é pior, a sua ruína eterna; porque esse corpo, instrumento do prazer, terá que expiar sofrendo na outra vida o que gozou nesta pecando. Pelo contrário, o que compreende bem o amor ao seu corpo, castiga-o nesta vida e com isso prepara-lhe uma exaltação e uma felicidade eterna.
O corpo maltratado de Jesus Cristo ressuscitou glorioso e subindo aos céus.
O corpo dorido da Virgem Santíssima não sofreu a corrupção do sepulcro e foi também transportado para os céus.
O corpo mortificado dos santos ressuscitará glorioso, como o de Jesus Cristo e o da Virgem Santíssima e será levado aos céus. Mais ainda, aqui na terra recebe a maior exaltação como prêmio do seu sacrifício.
Os mártires desprezaram o seu corpo e entregaram-no às torturas; e os ossos desses mártires servem de trono a Jesus Cristo quando baixa do céu aos altares; pois a pedra de ara de todos os altares deve encerrar as relíquias de algum santo.
Essas relíquias são um dos tesouros que a Igreja mais aprecia; por isso as coloca em urnas de ouro e de prata; envolve-as em panos finíssimos, encerra-os em relicários de pedrarias e todos os cristãos se ajoelham para as beijar e venerar.
O próprio Deus quis glorificar algumas vezes o corpo de alguns santos concedendo-lhes o privilégio da incorrupção. Conserva-se incorrupto o corpo de São Francisco Xavier, aquele corpo flagelado pelas chuvas e ventos, pelo sol abrasador e pelos gelos dilacerantes, pelas inclemências de todas as regiões.
Incorrupto está o corpo de Santa Teresa de Jesus, maltratado pelas macerações de todas as penitências.
Incorruptos estão esses corpos; encerrados em riquíssimos relicários e venerados pelos católicos de todo o mundo que acodem a visitá-los. Os santos mortificaram o seu corpo, tornando-o instrumento da virtude e agora recebem a glorificação dele.
Maior glorificação que a de todos os santos está desfrutando o corpo da Santíssima Virgem, que foi levado aos céus sem sofrer a corrupção e ali está gozando e recebendo a homenagem dos bens aventurados.
É o prêmio dos sofrimentos. Amai o vosso corpo, mas amai-o razoavelmente. Se lhe quereis bem, não lhe concedais prazeres ilícitos, porque terá de sofrer depois dores eternas. Se lhe quereis bem, refreai as suas tendências desordenadas, porque a dor sofrida na terra é semente de felicidade.

10 de novembro de 2018

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

O Corpo da Virgem Santíssima


Parte 5/6

Costuma dizer-se que o espírito e o corpo são como o cavalo e o cavaleiro.
Se o corpo está acostumado a reger-se pela lei do prazer, é como um cavalo por domar e sem freio que vai para onde quer, que salta todos os valados e acaba por derrubar o cavaleiro. Se o corpo está mortificado, é como um cavalo dócil e governado por cavaleiro experiente.
Na frase de Tertuliano, é como um prisioneiro que se entrega ao espírito para que faça dele o que quiser. Dá-lhe as mãos, para que faça o bem e as estenda ao necessitado cheias de esmolas. Dá-lhe os pés, para que vá pelo caminho do apostolado.
Dá-lhe os olhos, para que os encha de lágrimas de arrependimento, para que os pouse amorosos sobre o crucifixo ou os crave extáticos no sacrário.
Dá-lhe o coração, para que o inflame de amor por Jesus Cristo. Dá-lhe todos os seus membros para que os lavre e semeie de violetas da humildade, de açucenas da castidade, ou para que os queime como grãos de incenso sobre as brasas da santa penitência e faça dele uma vítima santa e agradável ao Senhor.
Numa palavra, o homem tem que refrear os impulsos do corpo que se lança para o prazer; e tem que levá-lo a que se abrace à dor quando lho pedir o cumprimento da Lei divina e o exercício da virtude.
Assim o fizeram os santos.
Assim fez São Paulo que exclamava: "castigo o meu corpo e submeto-o à escravidão, não vá acontecer que enquanto prego aos outros eu venha a condenar-me".
"Levo impressos no meu corpo os estigmas da paixão de Jesus Cristo".
Assim o fizeram todos os mártires que entregaram o seu corpo a todos os suplícios.
Assim o fizeram todos os anacoretas.
Assim o fez São Pedro de Alcântara de quem Santa Teresa dizia que o seu corpo parecia feito de raízes de árvores; mas que em paga o seu espírito estava robusto.
Assim o devem fazer todos os bons cristãos.
Por isso Deus não quis que a Virgem Santíssima fosse insensível à dor, como o não quis ser o próprio Filho de Deus.
O exemplo de Jesus paciente e da Virgem dolorosa tinha de ser um modelo e um estímulo para que os verdadeiros cristãos se abraçassem com a dor e com o sofrimento. 

8 de novembro de 2018

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

O Corpo da Virgem Santíssima


Parte 4/6

Queres ter inteligência de anjo? Pede antes ao céu coração de anjo.
Nada aclara tanto a inteligência como o perfume das açucenas, disse um escritor moderno. A lei do prazer, se é possível, causa ainda maiores estragos na vontade. A vontade deve ser a rainha das faculdades humanas. Deve mandar na inteligência, na imaginação e nos sentidos.
E essa vontade, que se robustece com o exercício do seu domínio, enfraquece-se com a abdicação da sua autoridade.
Os sentidos gritam: queremos prazer. E a vontade cobarde condescende. Então a que devia ser rainha dos sentidos converte-se em sua escrava.
Efeito dessa escravidão, é esse rebanho de homens abúlicos, vítimas de todas as paixões, incapazes de se imporem um sacrifício, impotentes para tomarem uma decisão enérgica.
Homens aos quais não se pode confiar um assunto de responsabilidade, uma empresa que exija algum esforço. Homens sem caráter. Homens do perpétuo "quereria" que nunca se converte em "quero".
A essa raça de abúlicos pertencem a multidão de jovens indolentes que só respondem sim, quando o prazer chama às portas dos seus sentidos. Que têm sempre nos lábios o gesto do desgosto quando a mais leve contrariedade por eles roça ligeiramente; que não se importam de manchar a sua alma com um pecado imortal, se a preguiça ou a temperatura desagradável lhes exige um pequeno esforço para ouvirem a missa aos domingos.
Jovens que dão como razão suprema dos seus atos: apetece-me ou não me apetece.
A essas jovens escravas do prazer pedi-lhes caridade, pedi-lhes amor aos pobres! . . .
  Os pobres... que repugnância! Se entrassem num hospital cairiam desmaiadas à porta de algumas salas de doentes.
A essas jovens pedi-lhes apostolado difícil, sacrificado . . . Quando muito, dar- vos- ão uma moeda para que não as incomodeis e as deixeis em paz. Com isso contribuem para o apostolado. Mas sacrifício pessoal . . .
O ritmo voluptuoso dum baile, os estofos do cinema ou do teatro, é esse o posto dessas almas moles; não as procureis nas avançadas da virtude e do apostolado.
Dessas jovens, que hoje são legião, que são maioria absoluta, saem as modernas esposas, as mães modernas. Mães?! Estou em dizer que mães, não. Porque a palavra mãe significa dor, significa martírio; e a dor e o martírio horroriza-as.
Que ideal levam para o matrimônio? O ideal do prazer que regeu a sua vida. Prazer sem dor.
Por isso, renunciarão aos trabalhos da maternidade, frustarão os planos de Deus sobre o seu lar.
Quando muito, admitirão na sua casa um bonequito para se divertirem, um ser que será tão desgraçado como elas. 
Nem mães, nem sequer esposas. Porque uma esposa é uma dona de casa e essa jovem quando se casa continua a gozar, continua a divertir-se e deixa a casa na mão das criadas.
Lei do prazer, maldita lei do prazer, lei imposta pelas paixões, lei que arruína as almas, que arruína os lares, que arruína as nações. De um povo efeminado, criado no prazer, a pátria não pode esperar grandes glórias.
 O corpo pode ser instrumento do mal e instrumento do bem. O corpo amimado, ataviado, é instrumento de todos os vícios. O corpo mortificado pode ser instrumento de todas as virtudes.

6 de novembro de 2018

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

O Corpo da Virgem Santíssima.


Parte 3/6

A Virgem Santíssima não devia sofrer a dor porque era inocente, mas nós é que deveríamos sofrer: e o vê-la sofrer seria para nós um exemplo e um alento. 
É condição inerente à natureza humana evitar ao corpo todo o incomodo e procurar-lhe o maior prazer possível.
Esta inclinação acentuou-se extraordinariamente na vida moderna, em que a indústria se orienta para proporcionar aos homens o maior conforto e o maior prazer.
O corpo do homem converteu-se num ídolo a quem a maior parte das pessoas rende adoração. Ter por ídolo uma coisa é servi-la, é fazer o que deseja, é dar-lhe o que ela pede.
Muitos, muitíssimos homens têm por ídolo o dinheiro e vivem continuamente ao seu serviço: os seus pensamentos para o dinheiro, os seus desejos de dinheiro, as suas atividades para ganhar dinheiro. É mau ter por ídolo o dinheiro; é pior ter por ídolo o corpo. É tão exigente que pede tudo e tem que se lhe sacrificar tudo. Diz esse ídolo: Sacrifica-me o tempo e pede todo o tempo para que o arranjem e o afaguem. Dá-me prazer, toda a classe de prazeres..., e exige até os mais baixos e degradantes.
E que tirano é ao exigi-los, mesmo que tenha de sacrificar a paz do lar, a tranquilidade da consciência, o dinheiro, a saúde, a vida e a bem aventurança eterna; porque a maior parte dos que se condenam vão para o inferno por se terem deixado arrastar pelo instinto do corpo que pede prazer.
O mundo rege-se por uma lei a que poderíamos chamar a lei do prazer e que se poderia enunciar desta maneira: "O fim supremo da vida é gozar."
Por conseguinte, em todas as ações deve-se perguntar: onde gozarei mais? como gozarei mais? Esta é a pergunta que fazem a si mesmas as jovens quando traçam o plano para um dia de festa ou um dia de trabalho e podemos dizer que para toda a sua juventude e para toda a sua vida. 
Isto é o que as pessoas mundanas chamam gozar a vida. A lei do prazer causa espantoso estragos no indivíduo e na sociedade. O jovem ou a jovem que se rege por ela embrutece a sua inteligência.
Um rapaz, uma rapariga nos primeiros anos do liceu tira notas brilhantes, ocupa os primeiros lugares. No quinto ano, no sexto ano, as notas baixam lastimosamente. O que sucede? Os pais procuram afanosamente a causa. Essa causa pode ser múltipla; mas muitas vezes a causa é muito íntima. Esse jovem, essa jovem são vítimas das paixões que pedem prazer. Essa paixão absorve-os por completo.
Gozar, divertir-se, todas as suas energias se gastam nisso. Quando se deita e quando se levanta, quando está a mesa de estudo com o livro aberto, e quando assiste a aula com o corpo, em que pensa? Em tudo menos em estudar. Pensa no romance que leu, no filme que viu, no baile a que assistiu; pensa no que se divertiu ontem, como se divertirá amanhã e em outras coisas menos inocentes. 
Não peçam a esse jovem interesse pelo estudo; não peçam a essa jovem afeição pelas coisas de casa; só pensa em viver a vida, em pôr em prática a lei do prazer. O prazer, convertido em norma de vida, causa ainda maiores estragos na inteligência.
Os psiquiatras dir-vos-ão que o maior contingente de crianças anormais o dão as crianças mimadas, as crianças que nunca foram contrariadas nos seus caprichos.
Dir-vos-ão, que os frutos da intemperança são, entre muitas outras misérias: a debilidade mental e mesmo a demência paralítica, essa horrível paralisia geral das faculdades mentais, que vem a ser como que um aglomerado de todas as decadências.

4 de novembro de 2018

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

O Corpo da Virgem Santíssima


Parte 2/6

A Virgem Santíssima como mãe dos homens convinha que sofresse também.
A auréola mais gloriosa que circunda a fronte de uma mãe é o sofrimento. Tirai a uma mãe a dor e ter-lhe-eis tirado a sua maior beleza. Se a Virgem Santíssima não tivesse sofrido, tinha perdido para nós um dos seus maiores encantos. "É nossa mãe; mas não é como nós" - teríamos dito decepcionados. "Não sofria, como nós sofremos".
A Virgem Imaculada tem para nós encantos; mas mais tem a Nossa Mãe dolorosa. 
A dor torna uma mãe merecedora do amor de seus filhos.
Porque é que os filhos amam tanto as mães? Porque conhecem o que sofreram por eles.
Porque é que alguns filhos de agora amam menos suas mães do que os de antes? Porque algumas mães de agora procuram sofrer o menos possível pelos seus filhos e por conseguinte são menos merecedoras do seu amor.
Porque amamos tanto a Virgem Santíssima? Porque os seus dons naturais e sobrenaturais são dignos de serem amados, é verdade; mas, mais que por isso, amamo-la pelo que sofreu por nós durante toda a sua vida e sobretudo aos pés da Cruz.
A própria Santíssima Virgem não nos amaria tanto, se não lhe tivéssemos custado tanto. Para que Maria nos amasse mais ardentemente, convinha que sofresse por nós.
Convinha também que a Virgem Santíssima padecesse para que se compadecesse das nossas dores e procurasse remediá-las. É um fato que nos compadecemos mais das dores alheias, quando nós próprios as experimentamos. "Eu sei bem o que isso é", costumamos dizer quando alguém padece duma doença que nós mesmos já sofremos e compadecemo-nos do que sofre o que nós já experimentamos.
É uma das razões que alega São Paulo para que confiemos na intercessão de Jesus Cristo: "temos um Pontífice que experimentou as nossas misérias".
De maneira semelhante podemos nós dizer: temos uma mãe que experimentou as nossas próprias dores; por isso compadecer-se-á delas e procurará remediá-las.
O mundo é um vale de lágrimas e os olhos rasos de lágrimas buscam alguém com quem compartilhar a sua dor.
Por isso vereis tantas pessoas ajoelhadas aos pés de Nossa Senhora das Dores. Essas pessoas estão a dizer à Santíssima Virgem: "Vós, que compreendeis as dores, tende compaixão das minhas".

2 de novembro de 2018

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

O Corpo da Virgem Santíssima Passível


Parte 1/6

O corpo da Virgem Maria era formosíssimo. Tinha a beleza que dá a integridade, e proporção de todos os seus membros; tinha a beleza da cor natural e a beleza que transparece da beleza da alma.
Tinha a beleza dum corpo tão puro que nem sequer tinha as raízes do pecado, a concupiscência. Para que esse corpo fosse completamente belo, faltava-lhe contudo outra fonte de beleza, o sofrimento.
Os vestígios dum sofrimento heroico dão ao rosto uma beleza sobre humana. Mais belas que as cores artificiais, mais belas que os sorrisos alegres, são as lágrimas, quando saem dum coração inocente e amoroso; e quando rolam por um rosto cinzelado pelo sofrimento.
Por isso o que não consegue uma mulher ataviada e sorridente consegue-o uma mulher chorando. Que brilho e que beleza dão ao rosto as lágrimas inocentes e amorosas!
Esta fonte de formosura não podia faltar no corpo da Virgem Santíssima. O corpo da Virgem Santíssima foi passível. O corpo da Virgem Santíssima sofreu como nós.
Deus concedeu à Virgem Santíssima todos os privilégios que exigia a sua dignidade de Mãe de Deus e livrou-a de tudo o que estava em oposição com essa dignidade. A essa dignidade altíssima opunha-se o pecado; e livrou-a do pecado original, do pecado atual e fê-la impecável.
A essa dignidade opunha-se tudo o que fosse inclinação ao pecado e extinguiu nela a concupiscência; mas a dor não só não se opunha à dignidade de Maria, mas era conveniente para a missão que devia desempenhar no mundo.
O Filho de Deus vinha expiar os pecados dos homens com o sofrimento. Vinha pagar com a sua dor o que os homens gozam quando pecam.
Por isso devia possuir um corpo passível apto ao sacrifício: "corpus autem aptasti mihi", dizia o Filho de Deus a seu Eterno Pai. Era necessária uma vitima e deste-me um corpo apto para o ser.
E quem havia de dar esse corpo passível ao Filho de Deus? Havia de lho dar sua Mãe. Logo, o corpo da Virgem Maria devia ser passível como o de seu Filho. Mais ainda, Jesus Cristo associava a Virgem Santíssima à sua obra expiatória. Jesus seria o Redentor. Maria a Corredentora. Jesus remiria o mundo com a dor, Logo, com a dor devia colaborar sua Mãe na Redenção; e para isso devia ter um corpo passível. A dor seria também para a Virgem Santíssima uma fonte de merecimentos. Deus inundaria a sua alma de graça santificante; mas aquela graça podia crescer, e nada melhor que a dor para multiplicar o tesouro da graça.

31 de outubro de 2018

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

O Corpo da Virgem Santíssima Livre de Concupiscência


Parte 4/4

Quantos jovens e quantas jovens sentem esta mesma luta de Agostinho. Cinema, leituras, conversas, despertaram muito depressa a concupiscência; e foi-se muito longe, mais longe do que a própria jovem podia suspeitar. Esta jovem por acaso envergonha-se de si mesma. Queria voltar para trás. O vício é tão degradante! A pureza é tão formosa!
À vista de sua alma apresenta-se a Virgem Imaculada e com ela sob o seu manto, tantas jovens inocentes, puras, alegres, e a Virgem Santíssima estende os braços para aquela filha extraviada para a atrair ao seu regaço e diz-lhe: "o que fazem estas tuas irmãs não o podes tu fazer?"
Que coisa impedia Agostinho de dar o último passo?
A fera da concupiscência que estava muito agarrada à presa. Da carne do corpo - dizia ele - saíam como uns angustiosos chamamentos. Eram as paixões que lhe diziam: Deixas-nos? E desde este momento para sempre não te será lícito isto ou aquilo?!
E que coisas, meu Deus, que coisas me vinham à mente no que eu digo: isto e aquilo!
Que era isto e aquilo que as vozes da sua carne sugeriam a Agostinho? Era o isto e o aquilo do seu desejo.
As leviandades, as diversões ilícitas, as comodidades, as desonestidades. O que custa tanto a deixar a tantas jovens mundanas e a tantos jovens. Eu seria pura, eu comungaria, eu seria filha da Virgem Maria. Mas as paixões clamam: terás que deixar isto ou aquilo?
Sabeis muito bem o que significa isto e aquilo: as leituras, as imodéstias, as estroinices, as companhias, os bailes, os costumes viciosos. Pobres jovens, que dominadas estão por estas ferinhas!
Deus queria fazer de Agostinho um luminar da Igreja. Para acabar de o converter, um dia que estava no horto de Milão, sentado debaixo duma figueira, Deus pôs ao alcance de sua mão um livro. Viu-o Agostinho e ao mesmo tempo ouviu uma voz que lhe dizia: Toma, lê; toma, lê. Aquele livro era o Novo Testamento, as cartas de São Paulo. Abriu o livro ao acaso e leu aquelas palavras: "Não em banquetes, nem embriaguezes, não em vícios nem desonestidades, não em contendas nem emulações, mas revesti-vos de Jesus Cristo e não empregareis o vosso cuidado em satisfazer os apetites do corpo". Agostinho lia aquelas palavras e meditava. E entretanto sua santa mãe chorava e orava por ele. Quanto tinha chorado e orado aquela mãe por seu filho extraviado! Aquelas lágrimas e aquelas orações, moveram o coração de Jesus Cristo e enviou à alma de Agostinho uma graça poderosíssima para que pudesse romper as cadeias que o aprisionavam. O jovem extraviado rompeu a chorar e caiu rendido aos pés de Jesus Cristo.
Jovens metidas no mundo, vós não tendes uma mãe santa como a mãe de Agostinho que chore e peça por vós; tendes uma mãe néscia,  uma mãe criminosa que vos empurra para a vida do mundo e do pecado, que faz coro com as vossas paixões e vos repete também; "e vais deixar isto e aquilo?!"
Não tendes na terra uma mãe como Santa Mônica; mas tendes no céu uma mãe que pede por vós. Quanto sofre, quanto pede pelas jovens mundanas e pelos jovens extraviados também. 
À intercessão da Virgem Santíssima devem as almas extraviadas esses chamamentos, esses desejos de sair do pecado, que umas ouvem como Santo Agostinho, e que outras, a maioria, desprezam.
Que fez Agostinho depois de tomar a última resolução? O filho pródigo exclamou: "Levantar-me-ei e irei ter com meu pai".
Agostinho exclamou; "Levantar-me-ei e irei ter com minha mãe". Tinha pensado em sua mãe durante a luta e queria que sua mãe fosse a primeira a ter a notícia da vitória.
Ele sabia a consolação que lhe iria proporcionar. Com que emoção, com que ternura fala Santo Agostinho de sua santa mãe quando narra a história da sua conversão! Estava sua mãe nos seus aposentos e Agostinho com os olhos rasos de lágrimas apresentou-se diante dela. Referiu-se à sua conversão com todas as circunstâncias e pormenores. Ela - disse o Santo - não cabia em si de contentamento, nem sabia que fazer de alegria, nem sabia como bendizer e dar graças a Deus, pois lhe havia concedido muito mais do que costumava suplicar para mim, por meio dos seus lamentos e lágrimas afetuosas.
Tu que sentes a luta cruel da carne contra o espírito; que queres ser bom e não acabas de sê-lo, porque a concupiscência que vive em ti se alimentou muito dos prazeres do mundo, - porque ouve a voz das paixões, e a voz de teus pais que te dizem: vais deixar isto ou naquilo? Enquanto lutas, a Virgem Santíssima pede por ti e envia-te inspirações interiores: é a graça de Deus para a tua conversão.
Se tomares uma resolução enérgica como a de Agostinho, se disseres: adeus frivolidades, adeus pecados, adeus ocasiões de pecado, adeus jogo, adeus bebidas, adeus tertúlias pecaminosas, se tomares esta resolução generosa, corre aos pés de tua Mãe e conta a tua luta e a tua vitória e pede-lhe que te recolha sob o seu manto e que te conserve sob ele todos os dias da tua vida.

29 de outubro de 2018

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

O Corpo da Virgem Santíssima Livre de Concupiscência


Parte 3/4

Ao ouvir esta conclusão, exclamareis talvez desanimados: se isso foi um privilégio especial concedido por Deus a sua Mãe, não poderemos imitá-la nisso.
É verdade que não podes ser igual a Ela; mas podes assemelhar-te muito a tua Mãe, mesmo neste privilégio.
Ao receberes o batismo, o pecado original deixou a tua alma; mas no teu corpo não se extinguiu a concupiscência, efeito do pecado original.
 Há na natureza humana, entre outros, dois instintos. Na alma, o desejo de amar e de ser amado. No corpo, o desejo de prazeres sensuais, quer dizer, a concupiscência. Estes dois desejos, estes dois instintos existem no homem e na mulher; mas de maneira diferente. No homem existe certamente esse instinto elevado da alma: esse desejo de amar e ser amado. Também ele sente a solidão da vida e a necessidade de uma companheira que o compreenda e que com o seu caráter suave, bondoso e jovial lhe torne leves os trabalhos e lhe suavize os dissabores da vida. Uma companheira que vele pelos seus interesses, que cuide dele, que lhe dê alento, que o anime; numa palavra, que lhe prepare um lar comodo e atraente. Este instinto da alma é tanto mais forte, quanto mais puro é o jovem.
Que obcecadas estão as raparigas, que gosto tão estragado manifestam, quando preferem para companheiro um jovem que tenha vivido muito! Mas, se é verdade que o homem tem este instinto elevado, tem-no mais forte ainda a mulher. E ao contrário, na mulher não é tão forte o instinto baixo para os prazeres sensuais. Por isso é costume dizer-se: o homem é mais corpo, a mulher mais alma.
Haverá exceções, mas é esta a regra geral. Regra que a rapariga deve ter em conta.
Engana-se e engana-se lastimosamente a rapariga quando pensa que o jovem com quem trata tem a mesma condição que ela; engana-se lastimosamente quando crê que aquilo que a ela não lhe faz mal, não impressiona o seu companheiro.
Por isso a jovem não suspeita muitas vezes as tormentas que podem desencadear-se no seu companheiro. Por isso não repara nos efeitos desastrosos que as suas imodéstias e provocações podem produzir. Por isso também não repara no perigo que lhe podem criar certas situações difíceis. Depois vêm as lágrimas.
Ainda que não seja tão forte como no homem, também existe a concupiscência na natureza da mulher. Existe na jovem e existe na criança. Na menina normal e inocente essa tendência, esse desejo está silencioso e latente. É como uma ferinha; mas está adormecida. Deixai-a dormir, dormir o maior tempo possível; porque, se acorda, o seu furor pode ser espantoso
 Como desperta a ferinha? Às vezes por si mesma, sozinha. Uma natureza degenerada, um temperamento apaixonado recebido em herança, é causa suficiente para que a ferinha desperte muito depressa, às vezes antes do uso da razão.
Nas meninas normais a concupiscência desperta de ordinário porque a provocam estímulos exteriores: o cinema, as leituras, as conversas atrevidas.
Porque é que as jovens, as crianças de agora são incomparavelmente mais precoces que há cinquenta anos? Porque os estímulos exteriores são maiores e fazem despertar muito depressa a ferinha. As meninas lêem tanto, vêem tanto cinema, falam de tais coisas, que a ferinha não tem outro remédio senão despertar e a luta desencadeia-se muito depressa nessas infelizes. A ferinha desperta, tem fome de prazeres sensuais e pede de comer, ruge e lança-se para eles. 
Como é difícil contê-la ! Quem a pode conter?
O santo temor de Deus; é essa a única jaula de ferro que não pode romper. Ai da jovem que tenha a fera da concupiscência muito desperta e não tenha um temor de Deus muito grande, muito forte para a conter! Se se acalmasse com um pouco de alimento! Mas, é de tal natureza que quantos mais prazeres se lhe dá, mais robusta se torna e mais fome tem. Dizei a uma jovem: vai uns quantos dias ao cinema e ao baile; e com isso já ficas satisfeita e não voltes mais.
Que ilusão! sabeis por experiência, que quanto mais se lê, mais se deseja ler; quanto mais se olha, mais se deseja olhar; quanto mais se dança, mais se deseja dançar; e continuai enumerando esse quanto mais; aplicai-o a tudo, mesmo aos prazeres mais grosseiros.
É difícil conter a concupiscência, quando deseja prazeres e ainda não os provou; mas mais difícil ainda é arrancá-la deles, quando se começou a satisfazer. Arrancai a uma fera o pedaço de carne que está a comer. Quando uma jovem se meteu no meio do mundo, quem a arranca dele! Isso é o que retém tantas almas na vida de pecado; quereriam, mas não podem. Chegam uns exercícios, conhecem o seu estado lastimoso, mas não têm forças para sair dele. A ferinha cresceu muito e está muito bem alimentada.
Era isto que retinha Santo Agostinho na sua vida de pecado. Agostinho tinha tido um pai pagão e vicioso. Dele havia herdado uma natureza inclinada aos vícios. Que fome de prazeres tinha a ferinha. de Agostinho mesmo quando era pequeno!
A sua santa mãe procurou domar aquela ferinha com uma educação cristã, quis enjaulá-la com o santo temor de Deus; mas não o conseguiu. Quando Agostinho era jovem, a concupiscência rompeu todas as grades do temor de Deus, da honra da família e lançou-se sobre a presa. Quanto mais comia, mais fome tinha. Agostinho queria afastar-se da sua vida pecaminosa e dizia para si: "hoje mesmo", e estava já quase, quase a ponto de romper, o vício parecia-lhe tão degradante, a pureza tão bela! "A continência apresentava-se-me - disse ele - com rosto alegre e majestoso, abria-me os braços para me receber. Com ela havia uma grande multidão de almas de todas as classes e condições, que eram castas. E ela mesma como sorrindo-se de mim, com um sorriso gracioso convidava-me a segui-la, e parecia dizer-me: Porque não hás de poder tanto como estes e estas?

27 de outubro de 2018

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

O Corpo da Virgem Santíssima Livre de Concupiscência.


Parte 2/4

Conhecida já a natureza da concupiscência, vem a propósito perguntar: Recebeu a Virgem Santíssima esta triste herança de seus pais? Teve a Virgem Santíssima concupiscência?
Sem dúvida alguma que antes de a inteligência ver as razões, o vosso coração vos diz que não; que a Mãe de Deus não devia ter estado submetida a esta escravidão degradante.
É verdade que a concupiscência não é pecado, mas a inclinação para o pecado, e seria indigno, indecoroso, que a Mãe de Deus tivesse essa inclinação.
A Virgem Santíssima foi impecável, não cometeu nem a mais ligeira imperfeição; Deus teve que a fazer assim; porque assim o pedia a sua dignidade. Pois se deus queria que sua Mãe não tivesse nem sombra de pecado, teve que tirar as causas dele, e a causa principal é a concupiscência.
O que queira ter um campo limpo de abrolhos, que nunca brote nele nem o mais ligeiro renovo, tem que arrancar até as raízes; de contrário, essas raízes brotarão novamente.
A concupiscência é raiz do pecado, Deus não quis na Santíssima Virgem a mais leve culpa; logo teve que afogar nela a raiz.
A Virgem Santíssima teve a castidade no grau mais perfeito. Uma castidade superior a dos anjos que não têm corpo, e por conseguinte uma castidade que nunca sente tentações, que nunca sente afetos desordenados. O coração da Virgem Santíssima tinha que ser só para Deus, e uma castidade assim, mais que angélica, não teria podido existir se não estivesse sufocada na sua natureza essa inclinação ao pecado.
Existem ainda mais razões. É um fato que quanto mais forte é a virtude duma pessoa, mais débil é nela a concupiscência. A graça santificante e as virtudes que a acompanham, à medida que vão crescendo em intensidade, vão sufocando as inclinações más da carne; e como as virtudes da Virgem Santíssima foram incomparavelmente mais excelentes que as de todos os santos, e como a graça da Virgem foi imensa, não só impediram como extinguiram todos os impulsos da concupiscência.
Tem havido santos e até pessoas canonizadas, que tendo concupiscência, ou não sentiram ou sentiram muito debilmente os seus efeitos; pois a Rainha dos santos tinha que receber de Deus um privilégio maior que o dessas almas escolhidas.
É, pois, certíssimo que o corpo da Virgem Santíssima não só foi perfeitíssimo, não só foi formosíssimo, mas também teve um privilégio de que os outros homens carecem, o ter coibido, mais ainda, extinguido essa inclinação para o pecado, essa tendência ao pecado que se chama concupiscência. 

25 de outubro de 2018

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

O Corpo da Virgem Santíssima Livre de Concupiscência


Parte 1/4

O corpo da Virgem Santíssima foi perfeitíssimo e formosíssimo. Mas ainda não dissemos tudo desse relicário que guardou o Filho de Deus.
O corpo da Virgem Santíssima não herdou de seus pais nenhuma tara, nenhum desequilíbrio; porém todos os homens recebem de seus pais uma triste herança: a concupiscência.
Tê-la-ia recebido também a Virgem Santíssima? Deus, ao criar os primeiros homens, livrou-os desta fonte de tentações e de pecados.
Ainda que a natureza humana, dada a sua constituição, tivesse que a sentir, Deus, gratuitamente fez ao primeiro homem a graça de afogar na sua natureza a concupiscência. Os primeiros homens pecaram, e Deus tirou-lhes esse privilégio, e desde então todos os descendentes de Adão sentem esta inclinação para o pecado. Suposto isto, apresenta-se uma questão ao falar da Virgem Maria. Suposto isto, apresenta-se uma questão ao falar da Virgem Maria.
A Virgem Santíssima era descendente de Adão, como todos os homens; por conseguinte, devia receber essa herança de seus pais. Mas a Virgem Santíssima não herdou, como todos os homens, o pecado original; foi imaculada na sua conceição e, se não herdou o pecado, herdaria esta consequência do pecado?
Estaria o seu corpo sujeito à concupiscência?  Comecemos por conhecer a natureza da concupiscência. Concupiscência equivale a desejo. A concupiscência, num sentido lato, significa o desejo do bem em geral.
A sabedoria é um bem; o desejo da sabedoria seria uma concupiscência no sentido lato.
Mas não é este o significado próprio da palavra concupiscência. A concupiscência de que falamos agora é uma faculdade que tem raízes no corpo e se chama apetite sensitivo, faculdade que deseja os objetos bons, mas sensíveis, quer dizer, aqueles objetos apreendidos pelos sentidos; e depois dos sentidos pela imaginação. É o desejo do bem, mas não do bem espiritual, intelectual, moral, mas do bem sensível, do bem que se apresenta aos sentidos e à imaginação.
Esta faculdade de desejar o bem sensível, não seria má, se fosse sempre ordenada. Mas que sucede? que muitas vezes deseja um bem que agrada aos sentidos: à vista, ao ouvido, ao tato; mas que é mau moralmente, porque é indigno do homem e porque é proibido por Deus. Que o homem deseje contemplar belas paisagens, monumentos artísticos, isso não é mau; mas que deseje ver objetos desonestos, isso é desordenado. Que o homem deseje ouvir música delicada, conversas dignas, não é mau; mas que deseje ouvir chistes grosseiros, conversas impuras, canções obscenas, isto é desordenado. E o que dizemos do ouvido e da vista, podemos dizer do gosto e do tato e podemos dizer da imaginação.
Esse desejo, essa inclinação que sente o homem para o bem sensível, para o que agrada aos sentidos, mas que é indigno da natureza humana e, por conseguinte, é proibido por Deus, isso é o que chamamos concupiscência.
A concupiscência, neste sentido próprio, chama-se também "fomes pecati", instinto do pecado, estímulo do pecado; não porque essa tendência seja pecado, mas porque incita ao pecado, arrasta ao pecado, impele para o pecado. A concupiscência tem raízes no corpo do homem, por isso lhe chama São Paulo corpo de pecado, corpo de morte.
O homem que não quiser pecar, tem que lutar contra ela; e esta luta do espírito que não quer pecar, contra a carne que tende para o pecado, é a luta que têm que sustentar todos os homens. É a luta que experimentava São Paulo e que ele descreve dizendo que sente dentro de si dois inimigos continuamente em guerra: o espírito que quer subir para o céu e a carne que tende para a terra. Luta encarniçada que fazia o apóstolo exclamar: "quem me livrará deste corpo de morte?!". 
Esta inclinação com mais ou menos força sentem-na todos os homens. Até os santos a sentiram e para a enfraquecerem, e não chegar a vencer o espírito, fizeram penitências horrorosas. São Pedro Damião mergulhava-se em água gelada. São Jerônimo no deserto jejuava e martirizava tanto o seu corpo, que parecia um molho de raízes. São Bento atirava-se para o meio dos silvados.
Assim conseguiram reprimir e amortecer os ímpetos da concupiscência.

23 de outubro de 2018

Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,

RETRATOS DE NOSSA SENHORA

O Pudor, esplendor da Beleza Corporal


Parte 8/8

Compreenderam bem estas leis psicológicas os corrompidos e os corruptores da sociedade e pensaram: Para dominarmos as vítimas das nossas paixões, é necessário destruir o pudor, defesa da pureza. Só assim cairão nas nossas redes as avezinha incautas.
Destruamos esse pudor, vestígio dos séculos passados. Temos de tirar os travões a todos os instintos da carne. Porque não, se todos eles são bons? Para que violentá-los? Deixar que a natureza se expanda e vá onde a leve o impulso da paixão. Mas como se destrói o freio do pudor tão arraigado na natureza humana e mais ainda nas almas cristãs?
Como? A psicologia ensina-nos o procedimento. Por meio do exemplo.
Que as crianças e os jovens se acostumem a olhar para atitudes desenvoltas; que se despojem desse sentimento que as torna retraídas e recatadas; e quando o comportamento exterior é desenvolto, insolente, os sentimentos internos terão desaparecido também e a defesa da castidade estará desfeita.
Digamos à mulher: Porque não hás de ser atrevida como o homem? Porque não hás de frequentar  os bares e os cafés a ali adotar as mesmas atitudes que o homem?  Porque não hás de praticar os mesmos desportos que o homem? Porque não hás de fazer os mesmos exercícios ginásticos? Porque não hás de beber e fumar como o homem? Que é que isso tem de mau?
É verdade, isso não tem nada de mau, repete a mulher. Porque não me hei de colocar ao mesmo nível que o homem?
E não repara que todo esse plano de campanha é destinado a destruir o seu pudor e a deixá-la inerme nas mãos do homem corrompido.
Sabeis onde vos conduzem essas liberdades? À escravidão dos vossos maiores inimigos, às garras dos libertinos que vos converterão em joguete das suas paixões.
Perguntareis se realmente esta conduta criminosa teve êxito. Olhai em redor. Que vedes? Por toda a parte a jovem típica a que se acostuma chamar moderna.
Os seus traços são inconfundíveis: andar desenvolto, olhar descarado, riso estridente, modos provocantes, rosto desfigurado pelas pinturas, vestidos curtos, ajustados, transparentes, com alguma novidade que atraia os olhares. Entra no café e as suas atitudes em nada se diferenciam das do jovem que a acompanha; como ele fuma e como ele bebe. Vê-la-eis nos campos de desporto e nas praias, onde possa chamar a atenção, sempre provocante, desenvolta, sempre só ou melhor mal acompanhada, porque isso de andar sempre com uma pessoa de confiança ao lado, diz  Santo Ambrósio da Santíssima Virgem, e dizem-no as senhoras do século passado que não compreendem a geração atual, isso hoje em dia é uma coisa ridícula. Se vos aproximais dum grupo dessas jovens modernas e a vossa delicadeza o aguentar, ouvireis conversas tão escabrosas, tão cruas como não as têm talvez um grupo de rapazes. Uma palavra inconsiderada faz estremecer uma jovem digna e cobre-lhe o rosto de carmim. Essas jovens modernas, pelo contrário, essas são as que fazem corar os outros e gabam-se disso.
Pintura exagerada? - Não. Vós mesmos dizeis: realidade um pouco mitigada, porque eu ainda podia dizer mais.
Diz-se que o pudor natural não desaparece nunca por completo. Seja assim. Mas quanto pudor ficará nessas jovens e nessas senhoras que se gabam de ser modernas?
Se a Santíssima Virgem saísse por essas ruas, se pudesse andar por elas sem manchar a sua pureza, se a Virgem Imaculada pudesse entrar nessas tertúlias, nessas salas de recreio, nesses salões de espetáculos, a cujas portas ficam chorando os anjos da guarda, e pudesse ouvir aquelas conversas e ver aqueles gestos de jovens cristãs e presenciar tudo isso que sabeis . . . Que horror! . . . Tu, irmã do meu Filho Jesus! . . . Tu, minha filha! . . . Afasta-te, não te conheço.
E se desapareceu o pudor, que pensar da pureza?
Se sabeis que há uma praça forte cobiçada por inimigos poderosos e sabeis que essa praça já esta cercada pelos inimigos e que a mesma cidade retirou as suas defesas, não podeis deduzir com razão que o inimigo ou entrou nessa praça ou esta a ponto de entrar? Pois bem, todos sabeis que a pureza é cobiçada por muitos inimigos e esses inimigos cercam-na e estão em posição de a assaltarem . . .  E sabeis também que a posição avançada, a defesa da pureza é o pudor. Se vedes que essa defesa desapareceu já, que tendes direito a suspeitar? Que a pureza ou sucumbiu, ou esta a ponto de sucumbir.
O pudor não é a própria natureza, é verdade, mas é o seu rebento espontâneo; se esse rebento não aparece, que pensar da raiz? Não estranheis, portanto, que a jovem sem pudor seja menosprezada pelas pessoas prudentes. Não estranheis que lhe percam o respeito.
Aparece na rua com a atitude provocante; e para ela se dirigem olhares dos licenciosos, e com os olhares, o comentário soez e a frase maliciosa. E que tem de espacial? Se as pessoas vêem que a jovem não se respeita a si mesma, como a vão respeitar? Pelo contrário. Passa pela rua uma jovem recatada, modesta. O olhar, os gestos, o vestido tudo parece que vai dizendo: respeitai-me E à sua passagem, os olhos e as línguas atrevidas refreiam-se. A virtude infunde sempre respeito.
Com razão Santo Ambrósio, depois de apresentar às jovens cristãs o retrato da Virgem Maria, lhe dirige estas palavras: "Aprendam as virgens a ser vigilantes de si mesmas e guardas do seu recato, se desejam que as pessoas as venerem".
Aprendam, sim, as jovens cristãs a conservar o pudor e serão respeitadas pelas pessoas, serão admiradas pelos anjos, serão queridas da Santíssima Virgem, serão estimadas por Jesus Cristo, serão amadas por Deus.