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11 de fevereiro de 2012

O Amor das Almas, S. Afonso de Ligório. CAPÍTULO XVI.

Do amor do Filho de Deus em ter querido morrer por nós.

1. Et ecce tempus tuum, tempus amantium... Et decora facta es vehementer nimis (Ezech. XVI, 8, 13). Quanto devemos ao Senhor nós, cristãos, que ele fez nascer depois da vinda de Jesus Cristo! O nosso tempo não é mais de temor, como era aquele dos hebreus, mas tempo de amor, tendo visto um Deus morto pela nossa salvação e para ser amado por nós. É de fé que Jesus nos amou, e, por nosso amor, deu-se à morte: Christus dilexit nos, et tradidit semetipsum pro nobis (Eph. V, 2). E quem teria podido fazer morrer um Deus onipotente, se ele mesmo voluntariamente não tivesse querido dar a vida por nós? Ego pono animam meam... Nemo tollit eam a me, sed ego pono eam a meipso (Io. X, 17, 18). Por isso nota S. João que Jesus, na sua morte, nos deu a última prova que podia dar-nos do seu amor: Cum dilexisset suos... in finem dilexit eos (Io. XIII, 1). Jesus, na sua morte, disse um devoto autor, deu-nos o maior sinal do seu amor, após o qual não lhe restou nada mais a fazer para demonstrar-nos o quanto nos amava: Summum dilectionis testimonium circa finem vitae in cruce monstravit (Contens. to. 2, l. 10, d. 4) [1].
Meu amado Redentor, vós, por amor, vos destes todo a mim: eu, por amor, dou-me todo a vós. Vós, pela minha salvação, destes a vida: eu, pela vossa glória, quero morrer quando e como vos agradar. Vós não tivestes mais a fazer para comprar-vos o meu amor: mas eu, ingrato, troquei-o por nada. Meu Jesus, arrependo-me disso de todo o coração, perdoai-me vós pela vossa Paixão; e, em sinal do perdão, dai-me o auxílio para amar-vos. Eu sinto em mim, por vossa graça, um grande desejo de amar-vos, e me resolvo a ser todo vosso; mas vejo a minha fraqueza e vejo as traições que vos fiz; vós só podeis socorrer-me e tornar-me fiel. Ajudai-me, meu amor, fazei que eu vos ame e nada mais vos peço.
2. Diz o B. Dionísio Cartuxo que a Paixão de Jesus Cristo foi chamada um excesso: Et dicebant excessum eius, quem completurus erat in Ierusalem (Luc. IX, 31), porque foi um excesso de piedade e de amor: Dicitur Passio Christi excessus, quia in ea ostensus est excessus dilectionis et pietatis [2]. Ó Deus! E que fiel poderia viver sem amar a Jesus Cristo, se frequentemente meditasse na sua Paixão? As chagas de Jesus, diz S. Boaventura, porque são chagas de amor, são dardos e chamas que ferem os corações mais duros e encendeiam as almas mais gélidas: O vulnera corda saxea vulnerantia et mentes congelatas inflammantia! [3] O B. Henrique Susão, um dia, para imprimir mais no seu coração o amor a Jesus apaixonado, tomou um ferro cortante e esculpiu-se, a caracteres de feridas, sobre o peito, o nome do seu amado Senhor; e, estando assim banhado de sangue, foi à Igreja, e, prostrado diante do Crucifixo, disse-lhe: “Ó Senhor, único amor da minha alma, olhai o meu desejo: eu teria querido inscrever-vos mais adentro no meu coração, mas não posso. Vós, que podeis tudo, supri o que falta às minhas forças, e, no mais profundo do meu coração, imprimi o vosso nome adorado, de tal modo que não se possa mais apagar dele nem o vosso nome nem o vosso amor” [4].
Dilectus meus candidus et rubicundus, electus ex millibus (Cant. V, 10). Ó meu Jesus, vós sois todo cândido pela vossa ilibada inocência; mas estais, sobre esta cruz, todo rubicundo de chagas sofridas por mim. Eu vos escolho como único objeto do meu amor. E quem quero amar, se não vos amo a vós? Que objeto, entre todos, eu posso encontrar mais amável que vós, meu Redentor, meu Deus, meu tudo? Amo-vos, ó Senhor amabilíssimo, amo-vos sobre todas as coisas. Fazei que eu vos ame com todo o meu afeto e sem reserva.
3. Oh si scires mysterium crucis, disse S. André ao tirano! [5] Ó tirano, ele quer dizer, se tu entendesses o amor que te teve Jesus Cristo em querer morrer sobre uma cruz para salvar-te, tu deixarias todos os teus bens e esperanças terrenas, para dar-te todo ao amor deste teu Salvador. O mesmo se deve dizer àqueles fiéis que creem na Paixão de Jesus, mas não pensam nela. Ah, se todos os homens pensassem no amor que Jesus Cristo nos demonstrou na sua morte, quem o poderia não amar? Ele, o amado Redentor, diz o Apóstolo, para este fim morreu por nós: a fim de que, com o amor que nos demonstrou na sua morte, se fizesse patrão dos nossos corações. In hoc Christus mortuus est et resurrexit, ut et mortuorum et vivorum dominetur. Sive ergo vivimus, sive morimur, Domini sumus (Rom. XIV, 9, 8). Quer, pois, morramos, quer vivamos, é justo que sejamos todos de Jesus, que a tanto custo nos salvou. Ó, que pudesse dizer como dizia o enamorado S. Inácio mártir, que teve a sorte de dar a vida por Jesus Cristo: Ignis, crux, bestiae, et tota tormenta in me veniant: tantum ut Christo fruar! [6] Venham sobre mim as chamas, as cruzes, as feras e todos os tormentos, desde que eu adquira e goze o meu Jesus Cristo.
Ó meu caro Senhor, vós morrestes para conquistar a minha alma; mas que fiz eu para conquistar-vos a vós, bem infinito? Ah meu Jesus, quantas vezes vos perdi por nada! Miserável de mim, que já sabia que perdia a vossa graça com o meu pecado, conhecia que vos dava um grande desgosto, e, mesmo assim, o fiz! Consola-me o tratar-se de uma bondade infinita, que se esquece das ofensas quando um pecador se arrepende e o ama. Sim, meu Deus, arrependo-me e vos amo. Perdoai-me vós e vós dominais, de hoje em diante, sobre este meu coração rebelde. Eu a vós o entrego; a vós me dou todo inteiro. Dizei-me o que quiserdes, que eu quero fazê-lo todo. Sim, meu Senhor, quero amar-vos, quero contentar-vos em tudo; dai-me força, e espero fazê-lo.
4. Jesus, com a sua morte, não terminou de amar-nos; ele nos ama e nos vai procurando com o mesmo amor com o qual veio do céu procurar-nos e morrer por nós. - É célebre a fineza de amor que demonstrou o Redentor a S. Francisco Xavier quando, viajando pelo mar, numa tempestade, foi-lhe tirado, por uma onda, o seu Crucifixo. Chegado que foi o santo à costa, estava triste e anelava por recuperar a imagem do seu amado Senhor; e eis que viu um caranguejo que vinha à sua volta com o Crucifixo içado nas suas pinças. Ele, então, foi-lhe ao encontro, e, com lágrimas de enternecimento e de amor, recebeu-o e apertou-o ao peito [7]. Ó, com que amor vai Jesus à alma que o procura! Bonus est Dominus... animae quaerenti illum (Thren. III, 25), mas à alma que o procura com verdadeiro amor. Mas podem pensar ter este verdadeiro amor aqueles que recusam as cruzes que lhe são enviadas pelo Senhor? Christus non sibi placuit (Rom. XV, 3). Christus, expõe Cornélio de Lápide, suae voluntati et commodis non servivit, sed ea omnia et vitam pro nostra salute exposuit [8]. Jesus, por nosso amor, não procurou prazeres terrenos, mas procurou as penas e a morte, apesar de ser inocente: e nós, que procuramos por amor de Jesus Cristo? Lamentava-se um dia S. Pedro mártir, estando no cárcere por uma injusta acusação que lhe fora feita, e dizia: “Mas, Senhor, que fiz eu, para que padeça esta perseguição?” Respondeu-lhe o Crucificado: “E eu, que mal eu fiz, que tive de estar sobre esta cruz?” [9].
Ó meu caro Salvador, dissestes que mal fizestes? Amastes-nos demais, enquanto, por nosso amor, quisestes padecer tanto. E nós, que, pelos nossos pecados, merecíamos o inferno, recusaremos padecer aquilo que vós quereis para o nosso bem? Vós, meu Jesus, sois todo amor com quem vos procura. Eu não procuro as vossas doçuras e consolações: procuro só a vós e a vossa vontade. Dai-me o vosso amor, e então tratai-me como vos agradar. Abraço todas as cruzes que me mandardes, pobreza, perseguições, enfermidades, dores; livrai-me só do mal do pecado, e depois carregai-me de todo outro mal. Tudo será pouco diante dos males que vós sofrestes por meu amor.
5. Ut servum redimeret, nec Pater Filho, nec sibi Filius ipse pepercit, disse S. Bernardo (Ser. in fer. IV hebd.) [10]. Então, para libertar o escravo, o Pai não perdoou o Filho e o Filho não perdoou a si mesmo. E, depois de um amor tão grande para com os homens, poderá haver homem que não ame este Deus tão amoroso? Escreveu o Apóstolo que Jesus morreu por todos nós, a fim de que nós vivêssemos só para ele e para o seu amor: Pro omnibus mortuus est Christus, ut et qui vivunt, iam non sibi vivant, sed ei qui pro ipsis mortuus est (II Cor. V, 15). Mas, ai, que a maior parte dos homens, depois de morrer por eles um Deus, vivem para os pecados, para o demônio, e não para Jesus Cristo! Dizia Platão que o amor é a calamidade do amor: Magnes amoris amor [11]. E Sêneca replicava: Ama, se queres ser amado: Si vis amari, ama [12]. E Jesus, que, morrendo pelos homens, parece que tenha enlouquecido por nosso amor - Stultum visum est, ut pro hominibus auctor vitae moreretur, diz S. Gregório (Hom. 6) [13] - como ocorre que, após tantos sinais de amor, não pode atrair para si os nossos corações? Como, amando-nos tanto, não chegou ainda a fazer-se amar por nós?
Ó, que vos amassem todos os homens, meu Jesus amabilíssimo! Vós sois um Deus digno de amor infinito. Mas, meu pobre Senhor, permiti-me que assim vos chame eu, vós sois tão amável, vós fizestes e sofrestes tanto para ser amado pelos homens, mas quantos, depois, são aqueles que vos amam? Vejo quase todos os homens aplicados a amar, quer os parentes, quer os amigos, quer as carniças, quer as riquezas, as honras, os prazeres, e até as bestas: mas quantos são os que vos amam a vós, amável infinito? Ó Deus, são por demais poucos, mas, entre estes poucos, quero estar eu, miserável pecador, que um tempo também vos ofendi, amando o fogo e apartando-me de vós; mas agora vos amo e vos estimo sobre todos os bens, e só a vós quero amar. Perdoai-me, meu Jesus, e socorrei-me.
6. Portanto, ó cristão, dizia S. Cipriano, Deus se contentou contigo até o ponto de morrer para comprar o teu amor, e tu não serás contente com Deus, de modo que amarás outros objetos fora do teu Senhor? Contentus est te Deus, et tu non eris contentus Deo tuo (S. Cipr. ap. Contens. 1. c.) [14]. - Ah, não, meu amado Jesus, eu não quero outro amor em mim, que não seja por vós; eu me contento convosco: renuncio a todos os outros afetos, basta-me só o vosso amor. Ouço-vos dizer-me: Pone me ut signaculum super cor tuum (Cant. VIII, 6). Sim, meu Jesus crucificado, eu vos coloco, e colocai-vos também vós, como selo sobre o meu coração, a fim de que fique fechado a todo afeto que não tende a vós. No passado, desgostei-vos com outros amores, mas, no presente, não há pena que mais me aflija do que lembrar-me de ter, com os meus pecados, perdido o vosso amor. No futuro, quis... me separabit a caritate Christi? [15] Quem me separará do vosso amor?
Não, meu amabilíssimo Senhor, depois que me fizestes conhecer o amor que me tivestes, eu não quero mais viver sem vos amar. Amo-vos, meu amor crucificado; amo-vos de todo o coração, e vos dou esta minha alma, tão procurada e amada por vós. Pelos méritos da vossa morte, que com tanta dor separou a vossa bendita alma do vosso corpo, separai-me de todo amor que possa me impedir de ser todo vosso e de amar-vos com todo o meu coração.
Maria, esperança minha, ajudai-me vós a amar só o vosso dulcíssimo Filho, de modo que eu possa dizer com verdade, em toda a minha vida: Amor meus crucifixus est, Amor meus crucifixus est [16]. Amém.

Oração de S. Boaventura [17]

Ó Jesus, que, por mim, não vos perdoastes nem a vós mesmo, imprimi em mim a vossa Paixão, a fim de que eu, para onde me volte, veja as vossas chagas, e não encontra outro repouso senão em vós e em meditar as vossas penas. Amém.
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Notas:

[1]: “Summum dilectionis testimonium circa finem vitae suae in ipsa ara crucis monstravit.” Vinc. CONTENSON, O. P., Theologia mentis et cordis, lib. 10, dissertatio 4, cap. 1, speculatio 1, Quartus excessus.

[2]: “Dicitur autem Passio seu mors Christi excessus, quia in eo ostensus est excessus summae dilectionis et pietatis eius ad nos, et propter excessivum eius dolorem pro nobis, atque ob excessivam crudelitatem Iudaeorum in eum. Denique in libro Machabaeorum (II Mach. X, 9) habetur quod Antiochi vitae excessus ita se habuit: quo patet quod per vitae excessum mors designetur.” B. DIONYSIUS CARTUSIANUS, Enarratio in Evangelium secundum Lucam, art. 24 (in cap. IX, 31).

[3]: “O vulnera corda saxea vulnerantia, et mentes congelatas infiammantia, et pectora adamantina liquefacientia prae amore!” Stimulus amoris, pars 1, cap. 1. Inter o era S. Bonaventurae, VII, 194. Lugduni (post editiones Vaticanam et Germanicam), 1668. - Vide Apêndice, 2, 5°.

[4]: “Eia, inquit, Domine, amor unice cordis et animae meae, adspice ingens animi mei desiderium. Equidem non possum te penitus mihi imprimere. Tu igitur obnixe rogatus, perfice, Domine, quod superest, teque mei cordis fundo profundius imprimas, sanctumque nomen tuum adeo in me consignes et insculpas, ut numquam possis aboleri et separari a corde meo.” B. HENRICUS SUSO, O. P., Opera, a Laurentio Surio Cartusiano latine reddita, Coloniae Agrippinae, 1588, pag. 456; Vita, cap. 5.

[5]: “O si velles scire mysterium crucis!” Presbyterorum et diaconorum Achaiae Epistola de martyrio S. Andreae Apostoli. MG 2-1122.

[6]: “Ignis et crux, ferarum catervae, lacerationes, distractiones, disiunctiones ossium, concisio membrorum, totius corporis contusiones, dira diaboli tormenta in me veniant: solummodo ut Iesum Christum consequar.” S. IGNATIUS Antiochenus, Epistola ad Romanos, n. 5. MG 5-691. - “Ignis, crux, bestiae, confractio ossium, membrorum divisio, et totius corporis contritio, et tota tormenta diaboli, in me veniant, tantum ut Christo fruar.” S. HIERONYMUS, De viris illustribus, cap. XVI, ML 23-635.

[7]: Giuseppe MASSEI, Vita di S. Francesco Saverio, lib. 2, cap. 9, n. 7.

[8]: “Christus suae voluntati, naturae, quieti et commodis non servivit, ut nos et nostra negligeret, sed ea omnia et vitam suam pro nostra salute exposuit.” CORNELIUS A LAPIDE, In Epistolam ad Romanos (in cap. XV, 3).

[9]: Due volte parlò a quel modo il Crocifisso a S. Pietro martire: THOMAS DE LENTINO, Vita, cap. 1, n. 6; cap. 3, n. 24; inter Acta Sanctorum Bollandiana, die 29 aprilis. - Vide Apêndice, 7.

[10]: S. BERNARDUS, In feria IV Hebdomadae Sanctae, sermo de Passione Domini, n. 4. ML 183-264.

[11]: “Veluti aer et echo a levibus solidisque repulsa corporibus, eodem, unde venerunt, iterum reflectuntur; ita pulchritudinis ille fluxus rursus in pulchrum per oculos refluens, qua penetrare in animam consuevit, adeo pennarum meatur irrigat, ut et possint iam et incipiant pullulare, atque ita amati animum mutuo implet amore.” PLATO, Phaedrus vel de Pulchro (post medium). Opera omnia, interprete Marsilio Ficino, Venetiis, 1556, pag. 309, col. 2.

[12]: “Hecaton ait: “Ego tibi monstrabo amatorium sine medicamento, sine herba, sine ullius veneficae carmine. Si vis amari, ama!” SENECA, Epistola, 9, de sapientis amicitia.

[13]: Stultum quippe hominibus visum est ut pro hominibus auctor vitae moreretur.” S. GREGORIUS MAGNUS, Quadraginta homiliarum in Evangelia lib. 1, hom. 6, n. 1. ML 76-1096.

[14]: “Contentus est te Deus tuus, ait Cyprianus, et tu non eris contentus Deo tuo?” Vinc. CONTENSON, Theologia mentis et cordis, lib. 10, dissert. 4, cap. 1, speculatio 2, Latitudo caritatis. - “(Voluntas autem Dei est nos) Christo nihil omnino praeponere, quia nec nobis quidquam ille praeposuit.” S. CYPRIANUS, Liber de oratione dominica, n. 15. ML 4-529. - “Subiungendum post haec quod, redempti ac vivificati Christi sanguine, nihil Christo praeponere debeamus, quia nec ille quidquam nobis praeposuerit.” S. CYPRIANUS, Epistola ad Fortunatum de exhortatione martyrii, Praefatio, n. 6. ML 4-655.

[15]: Quis ergo nos separabit a caritate Christi? Rom. VIII, 35.

[16]: S. IGNATIUS MARTYR, Epistola ad Romanos, n. 7. MG 5- 694.


[17]: “Domine Iesu Christe, cor meum tuis vulneribus saucia, et tuo sanguine inebria animam meam, ut quocumque me vertam semper te videam crucifixum... ut sic in te totus tendens, nihil praeter te valeam invenire, nihil nisi tua vulnera valeam intueri. Haec mihi consolatio, tecum, mi Domine, vulnerari, haec intima sit mihi afflictio sub te aliquid meditari. Non quiescat cor meum, bone Iesu, donec inveniat te centrum suum... Amen.” Stimulus amoris, pars 1, post caput 2. Inter Opera S. Bonaventurae, VII, p. 196. Lugduni (post editiones Vaticanam et Germanicam), 1668. - Vide Apêndice, 2, 5°.

10 de fevereiro de 2012

O Amor das Almas, S. Afonso de Ligório. CAPÍTULO XV.

Do amor do Eterno Pai em ter-nos dado o seu Filho

1. Sic Deus dilexit mundum, ut Filium suum unigenitum daret (Io. III, 16). A tal ponto, disse Jesus Cristo, Deus amou o mundo, que lhe deu o seu próprio e único Filho. Três coisas devemos considerar neste dom: quem é aquele que dá, o que dá e com que amor o dá. Já se sabe que, quanto mais nobre é o doador, tanto mais estimável é o dom. Se alguém recebe uma flor de um monarca, estimá-la-á mais do que a um tesouro. Ora, quanto devemos nós estimar este dom, que nos vem das mãos de um Deus? E o que nos deu? O seu próprio Filho. O amor deste Deus não se contentou em nos ter dado tantos bens nesta terra, senão quando chegou a dar-se todo na pessoa do Verbo encarnado: Non servum, non angelum, sed Filium suum donavit, diz S. Jo. Crisóstomo [1]. Por isso exclama a santa Igreja: O mira circa nos tuae pietatis dignatio! O inaestimabilis dilectio caritatis! Ut servum redimeres, Filium tradidisti (Exult. in sabb. s.) [2].
Ó Deus infinito, como pudestes dignar-vos a usar conosco uma piedade tão admirável? Quem poderá entender tamanho excesso, que vós, para resgatar o escravo, tenhais querido dar-nos o vosso único Filho? Ah, meu benigníssimo Senhor, já que me destes o melhor que tendes, é razoável que eu vos dê o mais que eu posso. Vós desejais de mim o meu amor: eu não desejo de vós outra coisa senão o vosso amor. Eis o meu mísero coração, todo o consagro a amar-vos. Saí vós, criaturas, do meu coração, dai lugar ao meu Deus, que merece e quer possuí-lo todo, e sem companhia. Amo-vos, ó Deus de amor, amo-vos sobre todas as coisas; e só a vós quero amar, meu Criador, meu tesouro, meu tudo.
2. Deus nos deu o Filho, e por quê? Só por amor. Pilatos, por temor humano, deu Jesus aos judeus: Tradidit voluntati eorum (Luc. XXIII, 25). Mas o Eterno Pai nos deu o seu Filho pelo amor que nos teve: Pro nobis omnibus tradidit illum (Rom. VIII, 32). Diz S. Tomás, que Amor habet rationem primi doni (p. III, q. 38, a. 2) [3]. Quando se nos faz um dom, o primeiro dom que recebemos é do amor que o doador nos oferece naquela coisa que doa; porque, reflete o Angélico, a única razão de todo dom gratuito é o amor [4]; de outro modo, quando se dá por outro fim que o de puro afeto, o dom perde a razão de verdadeiro dom. O dom que nos fez o Eterno Pai do seu Filho foi verdadeiro dom, todo gratuito e sem nenhum mérito nosso; por isso se diz que a Encarnação do Verbo foi feita por obra do Espírito Santo, isto é, só por amor, como fala o mesmo santo Doutor: Ex maximo Dei amore provenit, ut Filius Dei carnem sibi assumeret (III p. q. 32, a. 1) [5].
Mas não apenas por puro amor Deus nos deu este seu Filho, mas no-lo deu com amor imenso. Isso mesmo é o que quer dizer Jesus, falando: Sic Deus dilexit mundum. A palavra sic, diz S. Jo. Crisóstomo, significa a grandeza do amor com que Deus nos fez este grande dom: Verbum sic significat amoris vehementiam [6]. E que amor maior podia um Deus demonstrar-nos, do que condenando à morte o seu Filho inocente para salvar-nos a nós, miseráveis pecadores? Qui proprio Filio suo non pepercit, sed pro nobis omnibus tradidit illum (Rom. VIII, 32). Se o Eterno Pai fosse capaz de padecer, que pena teria provado, quando se viu induzido pela sua justiça a condenar aquele Filho, tão amado quanto si mesmo, a morrer de uma morte tão cruel, entre tantas ignomínias? Et Dominus voluit conterere eum in infirmitate (Is. LIII, 10): Ele quis fazê-lo morrer consumido por tormentos e dores, disse Isaías.
Imaginai, pois, o Eterno Pai com Jesus morto nos braços, dizendo-nos: Homens, este é o meu amado Filho, no qual encontro todas as minhas complacências: Hic est Filius meus dilectus, in quo mihi bene complacui (Matth. XVII, 5). Eis como o quis ver maltratado pelos vossos crimes: Propter scelus populi mei percussi eum (Is. LIII, 8). Eis como o condenei à morte sobre esta cruz, aflito, abandonado até por mim, que tanto o amo. Isto eu fiz a fim de que vós me ameis.
Ó bondade infinita! Ó misericórdia infinita! Ó amor infinito! Ó Deus da minha alma, já que quisestes que morresse por mim o objeto mais caro do vosso coração, eu vos ofereço por mim o grande sacrifício que vos fez de si mesmo este vosso Filho; e, pelos seus méritos, peço-vos que me deis o perdão dos pecados, o vosso amor, o vosso paraíso. Grandes são estas graças que vos peço, mais maior é a grande oferta que vos apresento. Pelo amor de Jesus Cristo, meu Pai, perdoai-me e salvai-me. Se vos ofendi no passado, arrependo-me disso sobre todos os males. Agora eu vos estimo e amo sobre todos os bens.
3. Ah, quem, senão um Deus de infinito amor, poderia amar-nos até este ponto? Escreve S. Paulo: Deus autem, qui dives est in misericordia, propter nimiam caritatem qua dilexit nos, cum essemus mortui peccatis, convivificavit nos in Christo (Eph. II, 4, 5). Muito é esse amor, diz o Apóstolo, que nos demonstrou Deus, dando aos homens, por meio da morte do Filho, a vida da graça, por esses perdida pelos seus pecados. Mas esse amor não foi excessivo para Deus, que é o próprio amor: Deus caritas est (I Io. IV, 16). Diz S. João que, assim, quis ele fazer-nos ver onde chegava a grandeza do amor de um Deus para conosco, mandando o seu Filho ao mundo para obter-nos com a sua morte o perdão e a vida eterna: In hoc apparuit caritas Dei in nobis, quoniam Filium suum unigenitum misit Deus in mundum, ut vivamus per eum (Ibid., 9).
Estávamos mortos, pela culpa, para a vida da graça, e Jesus, com a sua morte, nos deu de novo a vida. Éramos miseráveis, deformados e abomináveis; mas Deus, por meio de Jesus Cristo, tornou-nos graciosos e caros aos seus divinos olhos: Gratificavit nos, escreveu o Apóstolo, in dilecto Filio suo (Eph. I, 6). Gratificavit, isto é, gratiosos nos fecit, diz o texto grego. Por isso, S. Jo. Crisóstomo ajunta que, se houvesse um pobre leproso todo lacerado e deformado, e alguém lhe curasse o corpo da lepra, e, além disso, o tornasse belo e roço, que obrigação ele não conservaria a este seu benfeitor? [7] Ora, quanto mais somos nós obrigados a Deus, pois que, sendo as nossas almas deformes e odiosas pelas culpas cometidas, ele, por meio de Jesus Cristo, não só as livrou dos pecados, mas ainda as tornou belas e amáveis? Benedixit nos, in omni benedictione spirituali in caelestibus in Christo (Eph. I, 3). Comenta Cornélio de Lápide: Benefecit nobis omni dono spirituali [8]. Abençoar, para Deus, é fazer o bem; o Eterno Pai, portanto, dando-nos Jesus Cristo, nos cumulou de todos os dons, não já terrenos no corpo, mas espirituais na alma. In caelestibus, dando-nos, com o Filho, uma vida celestial neste mundo, e uma celestial glória no outro.
Abençoai-me, pois, e fazei-me bem, ó amantíssimo Deus, e o benefício seja atrair-me todo ao vosso amor: Trahe me vinculis amoris tui [9]. Fazei que o amor que me tivestes me enamore da vossa bondade. Vós mereceis um amor infinito; eu vos amo com o amor que posso, amo-vos sobre todas as coisas, amo-vos mais do que a mim mesmo. Dou-vos toda a minha vontade; e esta é a graça que vos peço: fazei-me, de hoje em diante, viver e operar tudo segundo a vossa divina vontade, com a qual vós não quereis outra coisa além do meu bem e da minha eterna salvação.
4. Introduxit me rex in cellam vinariam, ordinavit in me caritatem (Cant. II, 4). O meu Senhor, diz a sagrada Esposa, me introduziu na cela do vinho, isto é, pôs-me ante os olhos todos os benefícios que me fez para induzir-me a amá-lo: Ordinavit in me caritatem. Diz um autor que Deus, afim de conquistar para si o nosso amor, mandou contra nós, por assim dizer, um exército de graças e de amor: Instruxit contra me caritatem tamquam exercitum (Gasp. Sanchez) [10]. Mas dar-nos Jesus Cristo, diz o cardeal Hugon, foi a seta reservada predita por Isaías: Posuit me sicut sagittam electam, in pharetra sua abscondit me (Is. XLIX, 2). Assim como o caçador, diz Hugon, reserva a melhor seta para o último golpe para matar a fera, assim Deus, entre todos os seus benefícios, reservou Jesus, até que veio o tempo da graça, e então o mandou, como último golpe, a ferir de amor os corações dos homens: Sagitta electa reservatur; ita Christus reservatus est in sinu Patris, donec veniret plenitudo temporis, et tunc missus est ad vulneranda corda fidelium [11]. Ferido por esta seta, diz S. Jo. Crisóstomo (Hom. de Turt.), dizia S. Pedro ao seu Mestre: Senhor, vós bem sabeis que eu vos amo: Domine, tu scis quia amo te (Io. XXI, 15) [12].
Ah, meu Deus, eu me vejo cercado de todas as partes pelas finezas do vosso amor. Também eu vos amo, e, se vos amo, sei que também vós me amais. Mas quem me poderá privar do vosso amor? Só o pecado. Mas, deste monstro do inferno, vós, pela vossa misericórdia, me haveis de livrar. Eu me contento com todo mal, com a morte mais cruel, e até com ser destruído antes que ofender-vos com o pecado mortal. Mas vós já conheceis as minhas quedas passadas, conheceis a minha fraqueza; ajudai-me, meu Deus, por amor de Jesus Cristo. Opus manuum tuarum ne despicias (Ps. CXXXVII, 8) [13]: Sou obra das vossas mãos, vós me criastes, não me desprezeis. Se mereço ser abandonado pelas minhas culpas, mereço, porém, que tenhais misericórdia de mim por amor de Jesus Cristo, que vos sacrificou a vida pela minha salvação. Eu vos ofereço os seus méritos, que são todos meus; e, por eles, peço-vos e espero de vós a santa perseverança com uma boa morte, e, até lá, a graça de viver a vida que me resta toda para a vossa glória. Basta o quanto vos ofendi; agora me arrependo de todo o coração, e quero amar-vos o quanto posso. Não quero mais resistir ao vosso amor: todo a vós me rendo. Dai-me a vossa graça e o vosso amor, e fazei de mim o que quiserdes. Meu Deus, eu vos amo, e quero e peço que eu sempre vos ame. Atendei-me pelos méritos de Jesus Cristo.
Minha Mãe Maria, rogai a Deus por mim. Amém, assim seja.


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Notas:

[1]: “His enim verbis, Sic dilexit, et Deus mundum, ingens amor significatur.... Et quae postea sequuntur perinde vehementia sunt; ait enim: Ut Filium suum unigenitum daret; non servum, non angelum, non archangelum ait.” S. Io. CHRYSOSTOMUS, In Ioannem, hom. 27 (al. 26), n. 2. MG 59-159, 160.

[2]: In officio Sabbati Sancti, ad benedictionem Cerei.

[3]: “Amor habet rationem primi doni, per quod omnia dona gratuita donantur.” S. THOMAS, Summa Theol., I, qu. 38, art. 2, c.

[4]: “Donum proprie est dati irredibilis, secundum Philosophum (Topic. lib. 4, cap. 4, n. 12), id est quod non datur intentione retributionis: et sic importat gratuitam donationem. Ratio autem gratuitae donationis est amor; ideo enim damus gratis alicui aliquid, quia volumus ei bonum. Primum ergo quod damus ei, est amor quo volumus ei bonum. ” S. THOMAS, ibid.

[5]: “Conceptionem corporis Christi tota Trinitas est operata: attribuitur tamen hoc Spiritui Sancto, triplici ratione. Primo quidem quia hoc congruit causae Incarnationis quae consideratur ex parte Dei. Spiritus enim Sanctus est amor Patris et Filii... Hoc autem ex macimo Dei amore provenit, ut Filius Dei carnem sibi assumeret in utero virginali.” S. THOMAS, Sum. Theol., III, qu. 32, art. 1, c.

[6]: “Illud verbum, Sic dilexit, et illud, Deus mundum, immensam amoris significant vehementiam.” S. Io. CHRYSOSTOMUS, In Ioannem, hom. 26: Opera, III, Venetiis, 1574. - In Ioannem, hom. 27 (al. 26), n. 2. MG 59-159.

[7]: “Non dixit.... gratis donavit, sed.... gratos fecit: hoc est, non solum liberavit a peccatis, sed etiam fecit amabiles. Quemadmodum enim si quis scabiosum et peste ac morbo senioque et paupertate ac fame confectum et perditum, statim formosum fecerit iuvenem, omnes homines pulchritudine vincentem, e genis quidem splendorem valde emittentem, et micantium oculorumei aculationibus solis fulgores occultantem: deinde eum constituerit in ipso fiore aetatis, et postea eum purpura induerit et diadema imposuerit, et omni regio ornatu decorarit: ita nostram instruxit et ornavit animam, pulchramque fecit, desiderabilem et amabilem. Cupiunt enim angeli talem aspicere animam, archangeli quoque et omnes aliae Virtutes. Ita nos etiam fecit gratiosissimos, et sibi desiderabiles. Concupiscet enim, inquit, Rex speciem tuam (Ps. XLIV, 12).” S. Io. CHRYSOSTOMUS, In Epistolam ad Ephesios, hom. 1, n. 3. MG 62-14.

[8]: “Qui benedixit nos, id est, qui beneficit nobis.... omni benedictione, id est, omni bono, beneficio et dono, non terreno, ut sunt honores, opes, forma, robur, voluptates: has enim non venit ocnferre nobis Christus; sed spirituali.” CORNELIUS A LAPIDE, Commentaria in Epistolam ad Ephesios, in cap. I, 3.

[9]: Alusão a Os. XI, 4: In funiculis Adam traham eos, in vinculis caritatis.

[10]: “Et ordinavit in me caritatem. Adhuc perseverat sponsa reddere rationem cur non potuerit non amori succumbere. Nam talis sponsi officiis et blandimentis, aut eius voluntati, infiammatae pariter atque infiammanti, non obsequi, eius esset qui non officii modo curam, sed etiam humanitatem prorsus ac mentem exuisset. Id vero optime explicatur his verbis: ordinavit in me caritatem. Quod ut intelligatur magis, observandum est, omnium fere consensu hic metaphoram esse militarem: est eim, pro ordinavit, hebraice Diglo alai, id est: vexillum eius super me caritas, id est, instruxit contra me caritatem tamquam aciem. Sumitur autem hic vel pars pro toto, vel signum pro re significata, vexillum nempe pro exercitu.” Gaspar SANCHEZ, Centumputeolanus, S. I., Comment. in Canticum Canticorum (in cap. II, 4, n. 19), Lugduni, 1616, pag. 93.

[11]: “Et posuit me sicut sagittam electam: quasi sicut sagittarius optimas sagittas abscondit, donec tempus veniat extrahendi.... (Mystice de Christo: nota marginalis): Sagitta electa reservatur usquedum necesse sit; ita Christus quasi reservatus est in sinu Patris, donec venit plenitudo temporis, ut dicitur Gal. IV, 4. Et tunc missus est ad vulnerandum corda fidelium promissione bonorum et comminatione poenarum.” HUGO A SANCTO CHARO, O. P. Cardinalis primus, Postilla super Isaiam, in cap. XLIX, 2, gol. 110, col. 3. Opera, Venetiis, 1703.

[12]: “Ista sagitta vulneratus Petrus dicebat Christo: Domine, tu nosti quia diligo te.” Sermo (d' ignoto autore) de turture seu de Ecclesia. Inter Opera S. Io. Chrysostomi, MG 55-600.

[13]: Opera manuum tuarum ne despicias. Ps. CXXXVII, 8.

8 de fevereiro de 2012

O Amor das Almas, S. Afonso de Ligório. CAPÍTULO XIV.

Da esperança que temos na morte de Jesus Cristo.

1. Jesus é a única esperança da nossa salvação: fora dele, non est in alio aliquo salus (Act. IV, 12). Eu sou a única porta, ele nos diz, e quem entrar por mim encontrará certamente a vida eterna: Ego sum ostium. Per me si quis introierit, salvabitur (Io. X, 9). E qual pecador teria jamais podido esperar o perdão, se Jesus não tivesse, por nós, satisfeito a justiça divina com o seu sangue e com a morte? Iniquitates eorum ipse portabit (Is. LIII, 11). Então nos encoraja o Apóstolo, dizendo: Si sanguis hircorum et taurorum... sanctificat ad emundationem carnis, quanto magis sanguis Christi, qui, per Spiritum Sanctum seipsum obtulit Deo, emundabit conscientiam nostram ab operibus mortuis ad serviendum Deo viventi (Hebr. IX, 13, 14)? Se o sangue dos bodes e dos touros sacrificados tiravam dos hebreus as manchas exteriores do corpo, a fim de que pudessem ser admitidos aos sagrados ministérios; tanto mais o sangue de Jesus Cristo, que, por amor, se ofereceu para pagar por nós, tirará das nossas almas os pecados, para podermos servir o nosso sumo Deus?
Não vindo ao mundo o nosso amoroso Redentor para outro fim senão o de salvar os pecadores, e vendo já escrita contra nós a sentença de condenação pelas nossas culpas, que fez? Ele, com a sua morte, pagou a pena a nós devida; e, cancelando com o seu sangue a escritura da condenação, a fim de que a divina justiça não procurasse mais de nós a devida satisfação, afixou-a à própria cruz onde morreu: Delens quod adversus nos erat chirographum decreti, quod erat contrarium nobis, et ipsum tulit de medio affigens illud cruci (Coloss. II, 14).
Christus... introivit semel in sancta, aeterna redemptione inventa (Hebr. IX, 12). Ah, meu Jesus, se não tivestes encontrado este modo de obter-nos o perdão, quem teria podido encontrá-lo? Teve razão Davi em exclamar: Annuntiate... studia eius (Ps. IX, 12): Publicai, ó nações, os zelos amorosos do nosso Deus, de que usou para nos salvar. Já que, pois, ó meu doce Salvador, tivestes tanto amor por mim, não deixeis de usar de piedade para comigo. Resgatastes-me das mãos de Lúcifer com a vossa morte: eu, nas vossas mãos, entrego a minha alma, para que vós a salveis. In manus tuas commendo spiritum meum, redemisti me, Domine Deus veritatis (Ps. XXX, 6).
2. Filioli... haec scribo vobis, ut non peccetis; sed et si quis peccaverit, advocatum habemus apud Patrem, Iesum Christum iustum, et ipse propitiatio est pro peccatis nostris (I Io. II, 1, 2). Jesus Cristo não terminou, com a sua morte, de interceder por nós junto ao Eterno Pai; ele também no presente é o nosso advogado, e parece que, no céu, como escreve S. Paulo, não sabe fazer outra coisa além do ofício de comover o Pai a usar de misericórdia para conosco: Semper vivens ad interpellandum pro nobis (Hebr. VII, 25).
E acrescenta o Apóstolo que o Salvador subiu ao céu para este fim: Ut appareat nunc vultui Dei pro nobis (Hebr. IX, 24). Assim como os rebeldes fogem da face do rei, nós, pecadores, nunca teríamos sido dignos de ser admitidos diante de Deus, nem mesmo para lhe pedir perdão; mas Jesus, como nosso Redentor, comparece ele à divina presença por nós, e, pelos seus méritos, obtém-nos a graça por nós perdida. Accessistis ad mediatorem Iesum, et sanguinis aspersionem, melius loquentem quam Abel (Hebr. XII, 22, 24). Ó, quanto melhor implora para nós a divina misericórdia o sangue do Redentor, do que implorava o castigo contra Caim o sangue de Abel! “A minha justiça, disse Deus a S. Maria Madalena de’ Pazzi, se mudou em clemência com a vingança tomada sobre as carnes inocentes de Jesus Cristo. O sangue deste me Filho não procura de mim vingança, como o sangue de Abel, mas só procura misericórdia e piedade: e, a esta voz, não pode a minha justiça não se aplacar. Este sangue lhe liga as mãos de modo que não se pode mover, por assim dizer, a tomar aquela vingança dos pecados que antes se tomava” [1].
Gratiam fideiussoris ne obliviscaris (Eccli. XXIX, 20). Ah, meu Jesus, eu já era incapaz, depois dos meus pecados, de satisfazer a divina justiça, mas vós, com a vossa morte, quisestes satisfazer por mim. Que ingratidão seria, então, a minha, se eu me esquecesse desta tão grande misericórdia? Não, meu Redentor, não quero esquecer-me jamais dela: quero sempre agradecer-vos, e ser sempre grato amando-vos a fazendo o quanto eu posso para dar-vos gosto. Socorrei-me com aquela graça que merecestes para mim com tantos sofrimentos. Amo-vos, meu Jesus, meu amor, minha esperança.
3. Veni: columba mea in foraminibus petrae (Cant. II, 13, 14) [2]. Ó, que refúgio seguro encontraremos sempre nestas sagradas fendas da rocha, isto é, nas chagas de Jesus Cristo! Foramina petrae, diz S. Pedro Damião, sunt vulnera Redemptoris, in his anima nostra spem constituit (Epist. 41) [3]. Aí seremos livres da desconfiança pela vista dos pecados cometidos; aí encontraremos as armas para nos defendermos quando formos tentados a pecar novamente. Confidite, filii, ego vici mundum (Io. XVI, 33). Se não tendes bastante força, exorta-nos o nosso Salvador, para resistir aos assaltos do mundo que vos oferece os seus prazeres, confiai em mim, porque eu o venci, e assim também vós vencereis. Orai, disse, ao Eterno Pai, que, pelos meus méritos, vos dê força, e eu vos prometo que tudo o que lhe pedirdes em meu nome, tudo ele vos concederá: Amen, amen dico vobis, si quid petieritis Patrem in nomine meo, dabit vobis (Io. XVI, 23). E, em outro lugar, confirmou-nos a promessa, dizendo que qualquer graça que peçamos a Deus por seu amor, ele mesmo, que é uma e a mesma coisa com o Pai, no-la dará: Quodcumque petieritis Patrem in nomine meo, hoc faciam; ut glorificetur Pater in Filio (Io. XIV, 13).
Ah, Pai Eterno, eu, confiado nos méritos e nestas promessas de Jesus Cristo, não vos peço bens da terra, mas somente a vossa graça. É verdade que eu, pelas injúrias que vos fiz, não mereceria nem o perdão nem a graça; mas, se eu não as mereço, merece-as para mim o vosso Filho, oferecendo o sangue e a vida por mim. Pelo amor, pois, deste Filho, perdoai-me. Dai-me uma grande dor dos meus pecados e um grande amor a vós. Iluminai-me para que eu conheça o quanto é amável a vossa bondade, e quanto é o amor que desde a eternidade me tivestes. Fazei-me entender a vossa vontade, e dai-me força de cumpri-la perfeitamente. Senhor, eu vos amo, e quero fazer tudo o que quiserdes.
4. Ó, que grande esperança de salvar-nos nos dá a morte de Jesus Cristo! Quis est qui condemnet? Christus Iesus qui mortuus est... qui etiam interpellat pro nobis (Rom. VIII, 34). Quem há a ser condenado?, diz o Apóstolo. É o próprio Redentor, que, para não nos condenar à morte eterna, condenou-se a si mesmo a morrer cruelmente sobre uma cruz. Por isso nos anima S. Tomás de Vilanova, dizendo: Que temes, ó pecador, se queres deixar o pecado? Como te condenará o Senhor, que morre para não te condenar? Como te expulsará quando tu retornas aos seus pés, aquele que veio do céu para procurar-te, quando tu fugias dele? Quid times, peccator? Quomodo damnabit poenitentem, qui moritur ne damneris? Quomodo abiiciet redeuntem, qui de caelo venit quaerens te? [4] Mas mais ânimo nos dá o próprio Salvador nosso, dizendo, por Isaías: Ecce in manibus meis descripsi te: muri tui coram oculis meis semper (Is. XLIX, 16) [5]. Minhas ovelhinhas, não desconfieis, vede o quanto me custais: eu te tenho escrita nas minhas mãos, nestas chagas que sofre por ti: estas me lembram sempre de ajudar-te e defender-te dos teus inimigos; ama-me, e confia.
Sim, meu Jesus, eu vos amo, e em vós confio. Resgatar-me custou-vos muito caro, salvar-me não vos custa nada. A vossa vontade é que todos se salvem e que nenhum se perca. Se os meus pecados me afligem, conforta-me a vossa bondade, porque ele deseja fazer-me bem mais ainda do que eu desejo recebê-lo. Ah, meu amado Redentor, dir-vos-ei com Jó: Etiam si occiderit me, in ipso sperabo... et ipse erit salvator meus (Iob XIII, 15, 16). Ainda que me tenhais expulso, meu amor, da vossa face, eu não deixarei de esperar em vós, que sois o meu Salvador. As vossas chagas e este sangue me dão muito ânimo para esperar todo bem da vossa misericórdia. Amo-vos, ó caro Jesus, amo-vos e espero em vós.
5. O glorioso S. Bernardo, estando uma vez fraco, viu-se diante do tribunal de Deus, onde o demônio o acusava dos seus pecados e dizia que ele não merecia o paraíso. O santo respondeu: “É verdade que eu não mereço o paraíso, mas Jesus tem dois méritos a este reino, um por ser Filho natural de Deus, outro por tê-lo conquistado com a sua morte: ele se contenta com o primeiro, e o segundo o cede a mim; e por isso eu peço e espero o paraíso” [6]. O mesmo podemos dizer de nós, escrevendo S. Paulo que Jesus Cristo quis morrer consumido pelas dores, para obter-nos o paraíso a todos os pecadores arrependidos e resolvidos a se emendar. Et consummatus factus est omnibus obtemperantibus sibi causa salutis aeternae (Hebr. V, 9). Por isso, acrescenta o Apóstolo: Curramus ad propositum nobis certamen aspicientes in auctorem fidei, et consummatorem Iesum, qui proposito sibi gaudio sustinuit crucem, confusione contempta (Hebr. XII, 1, 2): Corramos com coragem para combater com os nossos inimigos, olhando Jesus Cristo, que, com os méritos da sua Paixão, nos oferece a vitória e a coroa.
Ele disse que foi ao céu preparar-nos o lugar: Non turbetur cor vestrum... quia vado parare vobis locum (Io. XIV, 1, 2). Ele disse e está dizendo ao seu Pai que, enquanto nos uniu a ele, ele nos quer consigo no paraíso: Pater, quos dedisti mihi, volo ut ubi sum ego, et illi sint mecum (Io. XVII, 24). E que misericórdia maior poderíamos esperar do Senhor, diz S. Anselmo, que, a um pecador já condenado pelos seus crimes ao inferno e que não tem como libertar-se das penas, tenha dito o Eterno Pai: Toma o meu Filho, e oferece-o por ti? E o mesmo Filho diga: Toma-me, e livra-te do inferno? Quid misericordius intelligi valet, quam quod peccatori, unde se redimere non habenti, Deus Pater dicat: Accipe Unigenitum meum, et da pro te: et Filius dicat: Tolle me, et redime te? [7]
Ah, meu Pai amoroso, agradeço-vos por me terdes dado este Filho como meu Salvador; ofereço-vos a sua morte, e, pelos seus méritos, peço-vos piedade. E agradeço-vos sempre, ó meu Redentor, o terdes dado o sangue e a vida para livrar-me da morte eterna. Te ergo, quaesumus, tuis famulis subveni, quos pretioso sanguine redemisti [8]. Socorrei, pois, nós, servos rebeldes, já que a tanto custo nos redemistes. - Ó Jesus, minha única esperança, vós me amais, vós sois onipotente, fazei-me santo. Se estou fraco, dai-me vós força; se estou doente pelas culpas cometidas, aplicai vós à minha alma uma gota do vosso sangue, e curai-me. Dai-me o vosso amor e a perseverança final, fazendo-me morrer na vossa graça. Dai-me o paraíso: eu, pelos vossos méritos, vo-lo peço e o espero. Amo-vos, meu Deus amabilíssimo, com toda a minha alma, e espero sempre amar-vos. Ajudai um miserável pecador que vos quer amar.
6. Habentes ergo pontificem magnum qui penetravit caelos, Iesum Filium Dei, teneamus confessionem. Non enim habemus pontificem, qui non possit compati infirmitatibus nostris, tentatum autem per omnia pro similitudine absque peccato (Hebr. IV, 14, 15). Já que temos, diz o Apóstolo, este Salvador, que nos abriu o paraíso, um tempo fechado pelo pecado, confiemos sempre nos seus méritos; pois, tendo querido, por sua bondade, padecer também ele as nossas misérias, bem sabe compadecer-se de nós: Adeamus ergo cum fiducia ad thronum gratiae, ut misericordiam consequamur, et gratiam inveniamus in auxilio opportuno (Ibid., 16). Vamos, pois, com confiança ao trono da divina misericórdia, ao qual, por meio de Jesus Cristo, temos acesso, a fim de que aí encontremos todas as graças de que temos necessidade. E como podemos duvidar, acrescenta S. Paulo, que Deus, tendo-nos dado o seu Filho, não nos tenha dado, com o Filho, todos os seus bens? Pro nobis omnibus tradidit illum; quomodo non etiam cum illo omnia nobis donavit? (Rom. VIII, 32). Comenta o Cardeal Hugon: Dabit minus, idest vitam aeternam, qui dedit maius, idest Filium suum: Não nos negará o menos, que é a glória eterna, aquele Senhor que chegou a nos dar o mais, que é o seu próprio Filho [9].
Ó, meu sumo bem, que vos darei eu, miserável, por tamanho dom que me fizestes, do vosso Filho? Dir-vos-ei com Davi: Dominus retribuet pro me (Ps. CXXXVII, 8). Senhor, eu não tenho como recompensar-vos: só o vosso próprio Filho pode agradecer-vos dignamente; que ele vos agradeça por mim. Meu piedosíssimo Pai, pelas chagas de Jesus, peço-vos, salvai-me. Amo-vos, bondade infinita, e, porque vos amo, arrependo-me de vos ter ofendido. Meu Deus, meu Deus, eu quero ser todo vosso, aceitai-me por amor de Jesus Cristo. Ah, meu doce Criador, é possível que, tendo-me dado o vosso Filho, me negareis depois os vossos bens, a vossa graça, o vosso amor, o vosso paraíso?
7. S. Leão afirma que Jesus Cristo, com a sua morte, nos trouxe mais bem do que nos trouxe de dano o demônio, com o pecado de Adão: Ampliora adepti sumus per Christi gratiam, quam per diaboli amiseramus invidiam (Serm. I de Asc.) [10]. E disse claramente o Apóstolo, quando escreveu aos romanos: Non sicut delictum, ita et donum... Ubi... abundavit delictum, superabundavit gratia (Rom. V, 15, 20). Explica o Cardeal Hugon: Christi gratia maioris est efficaciae, quam delictum [11]. Não há comparação, diz o Apóstolo, entre o pecado do homem e o dom que nos fez Deus, dando-nos Jesus Cristo. Grande foi o crime de Adão, mas foi muito maior a graça que nos mereceu Jesus Cristo com a sua Paixão. Ego veni, ut vitam habeant, et abundantius habeant (Io. X, 10). Eu vim ao mundo, protestou o Salvador, a fim de que os homens, mortos pelo pecado, não só recebam por mim a vida da graça, mas uma vida mais abundante do que aquela que, pela culpa, tinham perdido. Por isso a Igreja chama feliz a culpa que nos mereceu um tal Redentor: O felix culpa, quae talem ac tantum meruit habere Redemptorem [12].
Ecce Deus salvator meus, fiducialiter agam, et non timebo (Is. XII, 2). Portanto, ó meu Jesus, se vós, que sois Deus onipotente, sois também o meu Salvador, que temor terei de condenar-me? Se, no passado, vos ofendi, arrependo-me de todo o coração. No futuro, quero servir-vos, obedecer-vos e amar-vos; e espero firmemente que vós, meu Redentor, que fizestes e padecestes tanto pela minha salvação, não me negareis graça alguma que for necessária para salvar-me. Fiducialiter agam, immobiliter sperans nihil ad salutem necessarium ab eo negandum, qui tanta pro mea salute fecit et pertuli, comenta S. Boaventura [13].
8. Haurietis aquas... de fontibus Salvatoris, et dicetis in illa die: Confitemini Domino, et invocate nomen eius (Is. XII, 3, 4). As chagas de Jesus Cristo são já as felizes fontes das quais podemos receber todas as graças, se lhe pedirmos com fé. Et fons de domo Domini egredietur, et irrigabit torrentem spinarum (Ioel III, 18). A morte de Jesus é precisamente, diz Isaías, esta fonte prometida, que regou com águas de graça as nossas almas, e, de espinhos de pecados, mudou-as, pelos seus méritos, em flores e frutos de vida eterna. O amante Redentor, diz-nos S. Paulo, fez-se pobre neste mundo, a fim de que nós, pelo mérito da sua pobreza, nos tornássemos ricos: Propter vos egenus factus est... ut illius inopia vos divites essetis (II Cor. VIII, 9). Éramos, pelo pecado, ignorantes, injustos, iníquos e escravos do inferno; mas Jesus Cristo, diz o Apóstolo, morrendo e satisfazendo por nós, Factus est nobis sapientia a Deo, iustitia, sanctificatio et redemptio (I Cor. I, 30). Isto é, explica S. Bernardo, Sapientia in praedicatione, iustitia in absolutione, sanctificatio in conversatione, redemptio in Passione (Serm. XXII in Cant.) [14]. Fez-se nossa sabedoria instruindo-nos, nossa justiça, perdoando-nos, nossa santidade com o seu exemplo, e nosso resgate com a sua Paixão, livrando-nos das mãos de Lúcifer. Em suma, diz S. Paulo, os méritos de Jesus Cristo nos enriqueceram de todos os bens, de tal modo que não nos falta mais nada para podermos receber todas as graças: In omnibus divites facti estis... ita ut nihil vobis desit in ulla gratia (I Cor. I, 5, 7).
Ó meu Jesus, meu Jesus, e que belas esperanças me dá a vossa Paixão! Meu amado Senhor, quanto vos devo! Ó, se nunca vos tivesse eu ofendido! Perdoai-me todas as injúrias que eu vos fiz; inflamai-me todo do vosso amor, e salvai-me eternamente. E como posso temer não receber o perdão, a salvação e todas as graças de um Deus onipotente, que me deu todo o seu sangue? Ah, meu Jesus, minha esperança, vós, para não me perder, quisestes perder a vida; eu não quero jamais perder-vos, ó bem infinito. Se vos perdi no passado, arrependo-me disso; no futuro, não vos quero perder mais; vós me haveis de ajudar, a fim de que eu não vos perca mais. Senhor, eu vos amo, e quero sempre vos amar.
Maria, depois de Jesus, vós sois a minha esperança; dizei ao vosso Filho que vós me protegeis, e serei salvo. Amém, assim seja.


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Notas:
[1]: Grande poder operou este meu Verbo, abaixando-se até ser um cadáver, que foi chegar ao maior sinal de humildade ao qual podia, por vós, chegar o meu Verbo nas carnes mortais, e, fazendo-o, por assim dizer, adormecer para vós a minha divina justiça, a qual, aplacada e satisfeita pelos pecados do mundo com a vingança tomada sobre a sua carne inocentíssima, e sobre o seu puríssimo sangue, derramado para satisfazer as culpas do homem, agora a minha justiça parece que se tenha mudado em clemência. - E sabe, ó filhinha, que aquele sangue derramado não grita como o sangue de Abel, ou como aquelas almas santas, como refere o amante do meu Verbo, João, no seu Apocalipse, Vindica sanguinem nostrum, mas grita apenas por misericórdia e piedade, e a esta voz não pode a minha justiça não ficar aplacada e satisfeita. E quero dizer-te mais, que este sangue liga, por assim dizer, as mãos da minha justiça, de modo que ela não se pode mover, por assim dizer, a tomar aquela vingança dos pecados, que antes tomava no mundo, quando não ouvia a voz deste sangue ainda não derramado; porque, ora com dilúvios, ora com fogos e incêndios, ora com abrir-se a terra e engolir os pecadores, punia a minha justiça os criminosos; e sabes que ela o fez com as águas no dilúvio, com fogos nas cidades infames, e com outros castigos no deserto e alhures, de tal modo que ela me mostrava como o Deus das vinganças; mas agora, que ela parece não saber mover-se a castigar, como satisfeita no rigoroso castigo tomado por vós no meu Verbo, ou se ainda se move, é mais uma correção de mãe amorosa com os seus filhinhos descrentes, do que uma de severo Juiz com os malfeitores e culpáveis, e agora se cumpre aquilo que está escrito: Cum iratus fueris, misericordiae recordaberis. Mercê desta voz do sangue derramado pelo Verbo.” PUCCINI, Vita, Firenze, 1611, parte 6, cap. 3.

[2]: Surge, amica mea, speciosa mea, et veni: columba mea in foraminibus petrae. Cant. II, 13, 14.

[3]: “Petra, sicut dicit Apostolus, est Christus (I Cor. 4). Et foramina ergo petrae, sunt vulnera Redemptoris. In his itaque foraminibus quaeque fidelis anima commoratur, quia totam suae salutis summam in Salvatoris sui Passione constituit, et in ea spem suam collocans, de gloria sempiterna fida securitate confidit”. S. PETRUS DAMIANUS, Sermo 51, De sancto Matthaeo sermo 3. ML 144-792, 793.

[4]: “Quid times peccator?... Quomodo te damnabit poenitentem, qui propter hoc moritur ne damneris? Quomodo te abiiciet redeuntem, qui de caelo venit quaerere te?” S. THOMAS A VILLANOVA, Conciones, In Dominicam I Adventus, concio 5, n. 13.

[5]: Nas edições posteriores a 1751, encontramos “occideris” e “eris”. Quis o Autor mudar o texto de Jó usando uma linguagem direta, ou então, incautamente, os tipógrafos?

[6]: “Ego ipse inter ceteros adfui.... Cumque extremum iam trahere spiritum videretur (Bernardus), in excessu mentis suae ante tribunal Domini sibi visus est praesentari. Adfuit autem et Satan ex adverso improbis eum accusationibus pulsans. Ubi vero ille omnia fuerat prosecutus, et viro Dei esset pro sua parte dicendum, nil territus aut turbatus, ait: “Fateor, non sum dignus ego, nec propriis possum meritis regnum obtinere caelorum. Ceterum duplici iure illud obtinens Dominus meus, hereditate scilicet Patris et merito Passionis, altero ipse contentus, alterum mihi donat, ex cuius dono iure illud mihi vindicans, non confundor.” In hoc verbo confusus inimicus, conventus ille solutus, et homo Dei in se reversus est.” GUILLELMUS, ex Abbate S. Theoderici monachus Signiacensis, Sancti Bernardi Vita prima, liber primus, cap. 12, n. 57. ML 185-258.

[7]: “Quid misericordius intelligi valet, quam cum peccatori tormentis aeternis damnato, et unde se redimat non habenti, Deus Pater dicit: Accipe Unigenitum meum, et da pro te; ipse Filius: Tolle me, et redime te?” S. ANSELMUS, Cur Deus homo, lib. 2, cap. 21. ML 158-430.

[8]: Ex cantico Te Deum.

[9]: “Hic probat quod dabit minus, id est vitam aeternam, quia dedit maius, id est Filium suum.” HUGO DE SANCTO CHARO, O. P. Cardinalis primus, Postilla super Epistolam ad Romanos (in cap. VIII, 32). Opera, VII, fol. 50, col. 3. Venetiis, 1703.

[10]: “Hodie enim non solum paradisi possessores firmati sumus, sed etiam caelorum in Christo superna penetravimus: ampliora adepti per ineffabilem Christi gratiam quam per diaboli amiseramus invidiam.” S. LEO MAGNUS, Sermo 73, De Ascensione Domini sermo 1, cap. 4. ML 54-396.

[11]: “Donum Christi, id est gratia, maioris est efficaciae quam delictum.” HUGO DE SANCTO CHARO, O. P. Cardinalis primus, Postilla super Epistolam ad Romanos (in cap. V, 15). Opera, VII, fol. 34, col. 3. Venetiis 1703.

[12]: In officio Sabbati Sancti, ad benedictionem Cerei.

[13]: “Imploratio misericordiae, circa quamcumque gratiam invocetur, debet esse... cum fiducia spei, quam habemus a Christo, qui mortuus est pro nobis omnibus.” S. BONAVENTURA, De triplici via, cap. 2, § 2, n. 3. Opera, VIII, ad Claras Aquas, 1898, pag. 8, col. 2. - Cf. § 5, n. 12, pag. 11. col. 2.

[14]: “Sapientia in praedicatione, iustitia in absolutione peccatorum, sanctificatio in conversatione, quam habuit cum peccatoribus; redemptio in Passione, quam sustinuit pro peccatoribus.” S. BERNARDUS, In Cantica, sermo 22, n. 6. ML 183-880.

4 de fevereiro de 2012

O Amor das Almas, S. Afonso de Ligório. CAPÍTULO XIII.

Das últimas palavras de Jesus na cruz e da sua morte.

1. Diz S. Lourenço Justiniano que a morte de Jesus foi a mais amarga e dolorosa entre todas as mortes dos homens; pois o Redentor morreu sobre a cruz sem nenhum mínimo alívio: Crucifixus fuit, carens omni doloris temperamento [1]. Nos outros pacientes, a pena é sempre mitigada por pelo menos algum pensamento de consolação; mas a dor e a tristeza de Jesus paciente foi pura dor, e pura tristeza sem alívio: Magnitudo doloris Christi consideratur ex doloris et maestitiae puritate, escreveu o Angélico (III, p. qu. 46, a. 6) [2]. Por isso S. Bernardo, contemplando Jesus moribundo na cruz, chora dizendo: Meu caro Jesus, eu, admirando-vos sobre este lenho da cabeça aos pés, não encontro outra coisa além de dor e tristeza. A planta pedis usque ad verticem capitis non invenio nisi dolorem et maerorem [3].
Ó meu doce Redentor, ó amor da minha alma, e por que quisestes derramar todo o sangue? Por que sacrificar a vossa vida divina por um verme ingrato como eu? Ó meu Jesus, quando será que eu me unirei a vós de tal modo que não possa mais me separar e deixar de amar-vos? Ah, Senhor, enquanto eu vivo sobre esta terra, estou em perigo de negar-vos o meu amor e perder a vossa amizade, como fiz no passado. Meu caríssimo Salvador, se, vivendo, devo eu no futuro padecer este grande mal, pela vossa Paixão vos peço, fazei-me morrer agora, que espero estar na vossa graça. Eu vos amo e quero sempre vos amar.
2. Lamentava Jesus, pela boca do profeta, que, estando moribundo sobre a cruz, procurava quem o consolasse, mas não o encontrava: Et sustinui... qui consolaretur et non inveni (Ps. LXVIII, 21). Os judeus e os romanos, até enquanto ele estava para morrer, o amaldiçoavam e blasfemavam. Estava sim Maria SS. sob a cruz, a fim de dar-lhe algum alívio se tivesse podido; mas esta aflita e amante Mãe, com a dor que ela sofria por compaixão das suas penas, mais afligia este Filho que tanto a amava. Diz S. Bernardo que as penas de Maria iam todas atormentar mais o Coração de Jesus: Repleta Matre ad Filium redundabat inundatio amaritudinis [4]. De tal modo que o Redentor, vendo Maria em tantas dores, sentia que a sua alma era transpassada mais pelas dores da Mãe que pelos seus, como a própria B. Virgem revelou a S. Brígida: Ipse videns me, plus dolebat de me quam de se (Ap. P. Sinisc. cons. XXVIII) [5]. Por isso diz S. Bernardo: O bone Iesu, tu magna pateris in corpore, sed multo magis in Corde ex compassione Matris [6].
Que afãs, pois, deveram provar aqueles Corações enamorados de Jesus e de Maria, até que chegou o ponto no qual o Filho, antes de espirar, teve de se separar da Mãe! Eis as últimas palavras com as quais Jesus se despediu, neste mundo, de Maria: Mulier, ecce filius tuus (Io. XIX, 26), apontando-lhe João, que, em seu lugar, lhe deixava como filho.
Ó rainha de dores, as lembranças de um filho amado que morre são muito caras, e não deixam nunca a memória de uma mãe. Lembrai-vos que o vosso Filho, que tanto vos amou, na pessoa de João deixou-vos a mim, pecador, como filho. Pelo amor que tendes a Jesus, tende piedade de mim. Eu não procuro bens da terra; vejo o vosso Filho que morre com tantas penas por mim; vejo-vos a vós, minha inocente mãe, que ainda por mim suportais tantas dores; e vejo que eu, mísero réu do inferno pelos meus pecados, não padeci nada por vosso amor: quero padecer alguma coisa por vós antes de morrer.
Esta graça vos peço, e digo-vos, com S. Boaventura, que, se vos ofendi, é justo que eu padeça como castigo, e, se vos servi, é razão que eu padeça como recompensa: O domina, si te offendi pro iustitia cor meum vulnera; si tibi servivi pro mercede peto vulnera [7]. Impetrai-me, ó Maria, uma grande devoção e uma memória contínua à Paixão do vosso Filho. E, por aquele afã que sofrestes vendo-o espirar na cruz, obtende-me uma boa morte. Assisti-me, minha rainha, naquele último instante; fazei-me morrer amando e proferindo os vossos SS. Nomes de Jesus e de Maria.
3. Vendo Jesus que não achava quem o consolasse nesta terra, levantou os olhos e o coração ao seu Pai, pedindo-lhe alívio. Mas o Eterno Pai, vendo o Filho coberto com a veste de pecador: “Não, Filho, disse, não te posso consolar agora que estás satisfazendo a minha justiça por todos os pecados dos homens; convém que também eu te abandone às penas e te deixe morrer sem conforto”. E então foi que o nosso Salvador, gritando em voz alta, disse: Meu Deus, meu Deus, por que vós também me abandonastes? Clamavit Iesus voce magna, dicens: Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me? (Matth. XXVII, 46). Explicando essa passagem, o B. Dionísio Cartuxo diz que Jesus proferiu gritando estas palavras para dar a entender a todos a grande dor e tristeza com que morria [8]. E quis o amante Redentor, ajunta S. Cipriano, morrer abandonado de toda consolação para demonstrar-nos o seu amor e para atrair a si todo o nosso amor: Derelictus est ut amorem suum erga nos ostenderet, et amorem nostrum ad se raperet (De Pass. Dom.) [9].
Ah, meu amado Jesus, vós vos lamentais errado ao dizer: Por que, meu Deus, me abandonastes? “Por quê”, dizeis vós; e por que, digo-vos eu, quisestes encarregar-vos de pagar por nós? Não sabíeis que nós merecíamos, pelos nossos pecados, ser abandonados por Deus? Com razão, pois, o vosso Pai vos abandonou e vos deixa morrer num mar de dores e de amarguras. Ah, meu Redentor, o vosso abandono me aflige e me consola: aflige-me vendo-vos morrer com tanta pena; mas me consola, dando-me ânimo para esperar que, pelos vossos méritos, eu não ficarei abandonado pela divina misericórdia, como mereceria, por ter-vos abandonado tantas vezes para seguir os meus caprichos. Fazei-me entender que, se a vós foi tão duro estar privado da sensível presença de divina por breve tempo, qual seria a minha pena, se tivesse de estar privado de Deus para sempre? Por este vosso abandono sofrido com tanta dor, não me deixeis, ó meu Jesus, principalmente no momento da minha morte! Quando todos me tiverem abandonado, não me abandoneis vós, meu Salvador. Ai, meu desolado Senhor, sede vós o meu conforto nas minhas desolações. Entendo já que, se eu vos amar sem consolação, contentarei mais o vosso Coração. Mas vós conheceis a minha fraqueza; ajudai-me com a vossa graça, infundi em mim, então, perseverança, paciência e resignação.
4. Aproximando-se Jesus da morte, disse: Tenho sede, Sitio (Io. XIX, 28). Senhor, fala Drogão Ostiense: dizei-me, de que tendes sede? Não falais das penas imensas que sofreis na cruz, e vos lamentais somente da sede? Domine, quid sitis? De cruce taces, et de siti clamas? (De Dom. Pass.) [10]. Sitis mea salus vestra, faz-lhe dizer S. Agostinho (In Ps. XXXIII) [11]. Almas, diz Jesus, esta minha sede outra coisa não é senão o desejo que tenho da vossa salvação. O amante Redentor desejava as nossas almas com muito ardor, e por isso anelava por dar-se todo a nós com a sua morte. Esta foi a sua sede, escreveu S. Lourenço Justiniano: Sitiebat nos, et dare se nobis cupiebat [12]. Diz ainda S. Basílio de Selêucia que Jesus Cristo disse estar com sede para dar-nos a entender que ele, pelo amor que nos tinha, morria com desejo de padecer por nós mais ainda do que tinha padecido: desiderium passione maius! [13]
Ó Deus amabilíssimo, vós, porque nos amais, desejais que nós vos desejemos: Sitit sitiri Deus, escreveu S. Gregório [14]. Ah meu Senhor, vós tendes sede de mim, vilíssimo verme, e eu não terei sede de vós, meu Deus infinito? Pelos méritos desta sede sofrida na cruz, dai-me uma grande sede de amar-vos e de agradar-vos em tudo! Prometestes atender-nos em tudo o que vos pedirmos: Petite et accipietis (Io. XVI, 24). Eu vos peço apenas este dom, o dom do vosso amor. Sou indigno dele, mas esta há de ser a glória do vosso sangue, o tornar vosso amante um coração que um tempo vos desprezou tanto; tornar todo fogo de caridade um pecador todo cheio de lodo e de pecados. Muito mais do que isto fizestes morrendo por mim. - Ó Senhor infinitamente bom, eu queria amar-vos o quanto mereceis. Comprazo-me no amor que vos têm as vossas almas enamoradas, e mais ainda no amor que tendes a vós mesmo; com ele uno o meu mísero amor. Amo-vos, ó Deus eterno, amo-vos, ó amável infinito. Fazei que eu sempre cresça mais no vosso amor, repetindo-vos freqüentes atos de amor, e empenhando-me em dar-vos gosto em todas as coisas, sem intervalo e sem reserva. Fazei que eu, mísero e pequeno como sou, seja ao menos todo vosso.
5. O nosso Jesus, já próximo de espirar, com voz moribunda disse: Consummatum est (Io. XIX, 30). Enquanto dizia estas palavras, percorreu com a mente toda a série da sua vida; contemplou todas as fadigas padecidas por si, a pobreza, as dores, as ignomínias sofridas; e ofereceu-as todas de novo ao seu Eterno Pai para a salvação do mundo. Então, voltando-se a nós, parece que repetia: Consummatum est, como se dissesse: Homens, tudo está consumado, tudo está cumprido: foi feita a vossa Redenção, a divina justiça está satisfeita, o paraíso está aberto. - Et ecce tempus tuum, tempus amantium (Ez. XVI, 8). É tempo, finalmente, ó homens, de vós vos renderdes e me amardes. Amai-me, pois, amai-me, porque nada mais posso fazer para ser amado por vós. Vede o que fiz para comprar o vosso amor: eu, por vós, vivi uma vida tão atribulada, e no fim, antes de morrer, contentei-me em me fazer sangrar, escarrar nas faces, lacerar as carnes, coroar de espinhos, até agonizar sobre este lenho, como me vedes. Que resta? Resta apenas que eu morra por vós. Sim, quero morrer: vem, ó morte, dou-te licença, tirai-me a vida pela salvação das minhas ovelhinhas. E vós, minhas ovelhinhas, amai-me, amai-me, porque não tenho mais nada a fazer para me fazer amar por vós. Consummatum est, fala o B. Taulero, quidquid iustitia exigebat, quidquid caritas poscebat, quidquid esse poterat ad demonstrandum amorem [15].
Meu amado Jesus, ó, se eu pudesse também morrer dizendo: Senhor, cumpri, fiz tudo o que me impusestes, carreguei com paciência a minha cruz, agradei-vos em tudo.
Ah, meu Deus, se eu devesse morrer agora, morreria descontente, porque nada disso poderia dizer-vos com verdade. Mas haverei eu de viver sempre assim ingrato ao vosso amor? Concedei-me a graça de contentar-vos nos anos de vida que me restam, a fim de que, quando me vier a morte, possa dizer-vos que, ao menos desde agora, eu cumpri a vossa vontade. No passado, se vos ofendi, a vossa morte é a minha esperança. No futuro, não quero mais vos trair, mas por vós espero a minha perseverança: pelos vossos méritos, ó meu Jesus Cristo, vo-la peço e a espero.
6. Eis que Jesus finalmente morre. Admira-o, minha alma, como já está agonizante, nos últimos suspiros de sua vida. Admira aqueles olhos moribundos, a face empalidecida, o Coração, que, com lânguido movimento, palpita, o corpo, que já se abandona à morte, e aquela bela alma que já está perto de deixar o corpo lacerado. O céu já se obscurece, treme a terra, abrem-se os sepulcros. Ai, que horrendos sinais são estes! São sinais de que morre o Criador do mundo.
Eis, por último, como o nosso Redentor, depois de ter encomendado a sua alma bendita ao seu Eterno Pai, dando, primeiro, do aflito Coração um grande suspiro, e depois inclinando a cabeça em sinal de obediência, e oferecendo a sua morte pela salvação dos homens, finalmente, pela violência da dor, espira e entrega o espírito na mão do seu amado Pai: Et clamans voce magna, ait: Pater, in manus tuas commendo spiritum meum: et haec dicens, exspiravit (Luc. XXIII, 46).
Chega-te, minha alma, ao pé daquele santo altar, onde já morreu sacrificado o Cordeiro de Deus para salvar-te. Chega-te, e pensa que ele morreu pelo amor que te tinha. Pede o que quiseres ao teu Senhor morto, e tudo espera. Ó Salvador do mundo, ó meu Jesus, eis, no fim, a que vos reduziu o amor para com os homens. Agradeço-vos o terdes querido, nosso Deus, perder a vida, a fim de que não se perdessem as nossas almas. Agradeço-vos por todos, mas especialmente por mim. E quem mais do que eu gozou do fruto da vossa morte? Eu, pelos vossos méritos, mesmo sem o saber, primeiro fui feito filho da Igreja pelo batismo; pelo vosso amor fui, depois, tantas vezes perdoado e recebi tantas graças especiais; por vós tenho a esperança de morrer na graça de Deus e de vir a amá-lo no paraíso.
Meu amado Redentor, quanto vos sou obrigado! Nas vossas mãos trespassadas entrego a minha pobre alma. Fazei-me entender bem quão grande amor foi um Deus morrer por mim. Quero, Senhor, morrer também eu por vós; mas que compensação pode dar a morte de um escravo iníquo à morte do seu Senhor e Deus? Quero, ao menos, amar-vos o quanto posso; mas, sem a vossa ajuda, ó meu Jesus, não posso nada. Ajudai-me vós, e, pelos méritos da vossa morte, fazei-me morrer a todos os amores terrenos, a fim de que eu vos ame só a vós, que mereceis todo o meu amor. Amo-vos, bondade infinita, amo-vos, meu sumo bem, e vos peço, com S. Francisco: Moriar amore amoris tui, qui amore amoris mei dignatus es mori [16]. Morra eu a tudo, ao menos por gratidão ao vosso grande amor, que vos dignastes morrer por meu amor e para ser amado por mim.
Maria, minha mãe, intercedei por mim. Amém.


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Notas:
[1]: “Erat quippe Mediator confixus in cruce omni carens doloris temperamento.” S. LAURENTIUS IUSTINIANUS, De triumphali Christi agone, cap. 18. Opera, Venetiis, 1721, p. 267, col. 1.

[2]: “Tertio, magnitudo doloris Christi patientis potest considerari ex doloris puritate. Nam in aliis patientibus mitigatur tristitia interior, et etiam dolor exterior, ex aliqua consideratione rationis, per quamdam derivationem seu redundantiam a superioribus viribus ad inferiores. Quod in Christo patiente non fuit: unicuique enim virium permisit agere quod est sibi proprium, sicut Damascenus dicit (De fide orthodoxa, lib. 3, cap. 19. MG 94-1079). ” S. THOMAS, Sum. theol., III, q. 46, art. 6, c.

[3]: “Bernardus: “ Respice a planta pedis usque ad verticem capitis, ubique maeror, ubique dolor.” S. Bonaventurae Opera, III, Lugduni, 1668, sermo 5 (non genuino) in Parasceve.

[4]: Siniscalchi (Il martirio del Cuore di Maria Addolorata, consideração 39) assim cita S. Bernardo, de lament. Virginis: “Tantus erat impetus passionis, ut Christo impleto in Matrem conflueret patientem; qua similiter impleta, in Filium similiter redundaret. O ineffabilis reciprocatio! O dolor inexplicabilis!”

[5]: S. Afonso diz em nota: “Apud P. Siniscalchi (Il martirio del Cuore di Maria Addolorata), considerazione 28.” Aí se lê: ‘Por isso S. Bernardo assim fez dizer à Virgem Mãe: Stabam ego videns eum, et ipse videns me, et plus dolebat de me quam de se.” Mais seguramente, S. Afonso, no texto, se refere a S. BRÍGIDA, em cujas Revelações esta sentença é expressa muitas vezes, ainda que às vezes com termos diversos. Lib. 4, cap. 70: “ (Maria loquitur:) Quam (vocem : Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me? ) plus ex compassione mea, quam sua permotus, protulit.” - Lib. 6, cap. 19: “(Loquitur Christus: “Dolor matris meae) plus afflixit cor meum quam dolor proprius.” - Lib. 7, cap. 15: “Cor eius (Christi morientis) ex compassione matris penetrabatur acutissima sagitta doloris immensi.” E alhures.

[6]: Ludolphus de Saxonia, Vita Iesu Christi, pars 2, cap. 63, De sexta, in Passione Domini, n. 25: “Unde Bernardus: “ O bone Iesu, magna pateris exterius in corpore; sed multo maiora interius in corde, ex compassione Matris omnia tecum participantis!”

[7]: Stimulus amoris, pars 1, cap. 3. Inter Opera S. Bonaventurae, VII, p. 196, col. 2: Lugduni (post Vaticanam et Germanicam editiones), 1668. - Vide Apêndice, 2, 5°.

[8]: “Hoc Christus non ex impatientia, sed ad insinuandum vehementissumum esse suum dolorem clamavit.” B. DIONYSIUS CARTUSIANUS, Enarratio in Evangelium secundum Matthaeum, art. 44.


[9]: S. Afonso, em nota: De Pass. Dom. Entre as obras de S. Ciprião ou atribuídas a ele, não há nenhum opúsculo que tenha este título, nas várias edições que pudemos encontrar. Corria, porém, pelas mãos, um tratadinho semelhante: um outro trecho dele foi referido por Siniscalchi, op. cit., Considerazione 29.

[10]: “Domine, quid sitis? Ergone plus cruciat sitis quam crux? de cruce siles, et de siti clamas? Sitio: quid? Vestram fidem, vestram salutem, vestrum gaudium; plus animarum vestrarum quam corporis mei cruciatus me tenet.” DROGO Cardinalis, Ostiensis (e não Astiense, como, por erro tipográfico, escreveu Migne no título) Episcopus, Sermo de sacramento Dominicae Passionis. ML 166-1518. - Questo medesimo Sermone, sob o título de Meditatio in Passionem et Resurrectionem Domini, e privado das últimas páginas, se encontra entre as obras erroneamente atribuídas a S. Bernardo: ML tom. 184, col. 741-768.

[11]: “Sitis ipsius erat, quando dixit mulieri: Sitio, da mihi bibere (Io. IV, 7); fidem quippe ipsius sitiebat. Et de cruce cum diceret: Sitio (Io. XIX, 28), fidem illorum quaerebat pro quibus dixerat: Pater, ignosce illis, quia nesciunt quid faciunt (Luc. XXIII, 34). ” S. AUGUSTINUS, Enarratio in Psalmum 68, sermo 1, n. 14. ML 36-851.

[12]: “Fons vitae erat, et tamen sitiebat. Aquam promittebat, et bibere cupiebat. Sitiebat nos, et dare se nobis desiderabat. Sitit, inquam, nos, in suum nos vult mysticum traiicere corpus. Sitis haec de ardore dilectionis, de amoris fonte, de latitudine nascitur caritatis. ” S. LAURENTIUS IUSTINIANUS, De triumphali Christi agone, cap. 19. Opera, Venetiis, 1721, pag. 273, col. 2.

[13]: “O desiderium passione maius! O desiderium in solam futuri cogitationem intentum!” BASILIUS SELEUCIENSIS, Oratio 24. MG 85-283. - Ciò dice Basilio di Seleucia, non di Cristo, ma della madre dei figli di Zebedeo, “ (quae) antevertit latronis voces... Ille in cruce orationes offerebat: Memento mei in regno tuo. Haec ante crucem pro regno supplicat: Dic ut sedeant hi duo filii mei, unus ad dexteram tuam, et unus ad sinistram tuam.”

[14]: S. GREGORIUS NAZIANZENUS, Carminum lib. 1, sectio 2, XXXIII (Tetrastichae Sententiae), Sententia 37, v. 145-148, MG 37-938, 939:

Deo et supernis rebus haud umquam satur

Esto: dat illis plura qui iam sumpserint,

Sitiens sitiri, largus et conctis fluens;

Vinci at moleste ne feras in ceteris.

[15]: “Ó quantos maravilhosos mistérios, e vitórias, compreende esta breve e sutil palavra: Está, diz, consumado. Tudo aquilo que a eterna sabedoria tinha ordenado; tudo aquilo que a rígida e severa justiça requeria pelos pecados de cada um; tudo aquilo que a caridade de Deus pedia: tudo aquilo que aos antigos Padres fora prometido: tudo aquilo que os mistérios, as figuras, as cerimônias e a Escritura havia demonstrado sob sombras e significado: tudo aquilo que, pela nossa redenção, era conveniente e necessário; tudo aquilo que era útil para cancelar as nossas dívidas; todas aquelas coisas que podiam ajudar a suprir as nossas negligências: tudo aquilo que poderia parecer amigável e glorioso para demonstrar um extremo e sublime amor: e todas as coisas que nós teríamos podido desejar para a nossa instrução e formação espiritual: tudo aquilo, finalmente, que era honrável e conveniente para celebrar o digno triunfo e para obter a gloriosa vitória da nossa redenção: todas aquelas coisas, digo, nesta só palavra estão contidas. Está consumado.” Gio. TAULERO, O. P., Meditazioni (non genuine) sopra la Vita e Passione di Gesù Cristo, cap. 49.

[16]: “Absorbeat, quaeso, Domine, mentem meam ab omnibus uqae sub caelo sunt, ignita et melliflua vis amoris tui; ut amore amoris tui moriar, qui amore amoris mei dignatus es mori: per temetipsum Dei Filium qui cum Patre, etc. Amen.” Oratio ad impetrandum divinum amorem. S. FRANCISCI Opera, tom. 1. Pedeponti, 1739, pag. 19, 20.

3 de fevereiro de 2012

O Amor das Almas, S. Afonso de Ligório. CAPÍTULO XII.

Da Crucifixão de Jesus.

1. Eis-nos na crucifixão, no último tormento, que deu morte a Jesus Cristo; eis-nos no Calvário feito teatro do amor divino, onde um Deus deixa a vida num mar de dores. Et postquam venerunt in locum, qui vocatur Calvariae, ibi crucifixerunt eum (Luc. XXIII, 33). Chegado que foi o Senhor apenas vivo sobre o monte, rasgam-lhe pela terceira vez com violência as vestes, coladas nas chagas das suas carnes flageladas, e o jogam sobre a cruz. O Cordeiro divino se estende sobre aquele leito de tormento; apresenta as mãos e os pés aos carnífices para ser nela pregado; e, levantando os olhos ao céu, apresenta ao seu Eterno Pai o grande sacrifício da sua vida pela salvação dos homens. Pregada uma mão, repuxaram-se os nervos; por isso foi necessário que, à força, com cordas, como foi revelado a S. Brígida, estirassem a outra mão e os pés até o lugar dos pregos; e então os nervos e as veias vieram a distender-se e romper-se com grande espasmo. Manus et pedes cum fune trahebant ad loca clavorum, ita ut nervi et venae extenderentur et rumperentur [1]. Assim a revelação. - De tal modo que se lhe podiam contar todos os ossos, como já predissera Davi: Foderunt manus meas et pedes meos, dinumeraverunt omnia ossa mea (Ps. XXI, 17, 18).
Ah, meu Jesus, por quem foram pregadas as vossas mãos e pés neste lenho, senão pelo amor aos homens? Vós, com a dor das mãos trespassadas, quisestes pagar todos os pecados que os homens cometeram com o tato, e, com a dor dos pés, quisestes pagar todos os passos que nós demos para ofender-vos. Meu amor crucificado, com estas mãos trespassadas, abençoai-me! Pregai aos vossos pés este meu coração ingrato, a fim de que eu não vos deixe mais, e permaneça sempre presa em vos amar esta minha vontade que tantas vezes se rebelou contra vós. Fazei que nenhuma outra coisa me mova senão o vosso amor e o desejo de dar-vos gosto. Apesar de ver-vos pendente deste patíbulo, creio-vos por Senhor do mundo, por verdadeiro Filho de Deus e Salvador dos homens. Por piedade, meu Jesus, não me abandoneis nunca em toda a minha vida, e especialmente no momento da minha morte; naquelas últimas agonias e combates com o inferno, que vós me ajudeis e conforteis, para que eu morra no vosso amor. Amo-vos, meu amor crucificado, amo-vos com todo o coração.
2. S. Agostinho diz que não há morte mais acerba que a morte de cruz: Peius nihil fuit in genere mortium (Tract. XXXVI in Io.) [2]. Pois, como reflete S. Tomás (P. III, qu. 46, a. 6), os crucificados são trespassados nas mãos e nos pés, lugares que, por ser todos compostos de nervos, músculos e veias, são sensibilíssimos à dor; e o próprio peso do corpo que pende faz com que a dor seja contínua e aumente cada vez mais até a morte [3]. Mas as dores de Jesus superaram todas as outras dores, enquanto diz o Angélico que o corpo de Jesus Cristo, sendo perfeitamente composto, era mais vivaz e sensível às dores [4]: corpo que lhe foi dado pelo Espírito Santo especialmente para padecer segundo ele predisse, como atesta o Apóstolo: Corpus autem aptasti mihi (Hebr. X, 5) [5]. Ademais, diz S. Tomás que Jesus Cristo sentiu uma dor tão grande que foi proporcionada a satisfazer a pena que mereciam temporalmente os pecados de todos os homens [6]. O Tiepolo diz que, na crucifixão, foram-lhe dadas vinte e oito marteladas nas mãos e trinta e seis nos pés [7].
Minha alma, olha o teu Senhor, olha a tua vida que pende daquele lenho: Et erit vita tua quasi pendens ante te (Deut. XXVIII, 66). Vê como, sobre aquele doloroso patíbulo, pendurado naqueles cruéis ganchos, não encontra alívio nem repouso. Ora se apóia sobre as mãos, ora sobre os pés, mas, onde se apóia, aumenta o espasmo. Vai virando a cabeça dolorida ora para uma parte, ora para outra; se a abandona sobre o peito, as mãos, com o peso, rasgam-se mais; se a abaixa para as costas, as costas são perfuradas pelos espinhos; se a apóia na cruz, os espinhos entram mais para dentro da sua cabeça. Ah meu Jesus, e que morte amarga é essa que morreis!
Meu Redentor crucificado, eu vos adoro sobre este trono de ignomínias e penas. Leio escrito sobre esta cruz que sois rei: Iesus Nazarenus rex Iudaeorum (Io. XIX, 19). Mas, além deste título de zombaria, que sinal mostrais de rei? Ah, que estas mão pregadas, esta cabeça espinhosa, este trono de dor, estas carnes dilaceradas, dão-vos bem a conhecer como rei, mas rei de amor. Achego-me, pois, humilhado e consternado, para beijar os vossos sagrados pés trespassados por meu amor, abraço esta cruz, na qual, feito vítima de amor, quisestes sacrificar-vos por mim à divina justiça: Factus obediens usque ad mortem, mortem autem crucis (Philip. II, 8). - Ó feliz obediência que nos obtém o perdão dos pecados! E que seria de mim, ó meu Salvador, se vós não tivestes pago por mim? Agradeço-vos, meu amor, e, pelos méritos desta sublime obediência, peço-vos me concedais a graça de obedecer em tudo a divina vontade. Desejo o paraíso só para amar-vos sempre e com todas as minhas forças.
3. Eis o rei do céu, que, pendente daquele patíbulo, está morrendo. Perguntemos-lhe com o profeta: Quid sunt plagae istae in meio manuum tuarum? (Zach. XIII, 6). Dizei-me, meu Jesus, que são estas chagas no meio das vossas mãos? Responde por Jesus Ruperto abade: Sunt monumenta caritatis, pretia redemptionis [8]. São sinais, diz o Redentor, do grande amor que vos tenho; são o preço com o qual vos livro das mãos dos inimigos e da morte eterna. - Ama, pois, ó alma fiel, ama o teu Deus que tanto te amou, e, se duvidas do seu amor, olha, diz S. Tomás de Vilanova, olha aquela cruz, aquelas dores e aquela morte acerba que ele por ti padeceu, que tais testemunhos bem te farão saber o quanto te ama o teu Redentor: crux, testes dolores, testis amara mors quam pro te sustinuit (Conc. III) [9]. Acrescenta S. Bernardo que grita a cruz, grita cada chaga de Jesus que ele nos ama com verdadeiro amor: Clamat crux, clamat vulnus, quod ipse vere dilexit [10].
Ó meu Jesus, como vos vejo doloroso e triste! Ah, tendes muito razão em pensar que sofrestes tanto até morrer de espasmo neste lenho, e que depois tão poucas almas haverão de amar-vos! Ó Deus, no presente, quantos corações, até consagrados a vós, ou não vos amam, ou vos amam pouco demais! -
Ah, belas chamas de amor, vós que consumastes a vida de um Deus sobre a cruz, consumai também a mim, consumai todos os afetos desordenados que vivem no meu coração, e fazei que eu viva ardendo e suspirando só por aquele meu amante Senhor que quis, consumado por tormentos, acabar a vida por meu amor sobre um patíbulo infame! Meu amado Jesus, eu quero sempre vos amar, e só a vós, só, só a vós quero amar, meu amor, meu Deus, meu tudo [11].
4. Erunt oculi tui videntes praeceptorem tuum (Is. XXX, 20). Foi prometido aos homens ver com os próprios olhos o seu divino Mestre. Toda a vida de Jesus foi um contínuo exemplo e escola de perfeição, mas em nenhum lugar ensinou ele melhor que sobre a cátedra da cruz, as suas mais belas virtudes. Aí, ó, como bem nos instruiu na paciência, especialmente em tempo de enfermidade; pois que, sobre a cruz, Jesus enfermo sofreu com suma paciência as dores da sua amaríssima morte. Aí, com o seu exemplo, nos ensinou uma exata obediência aos divinos preceitos, uma perfeita resignação à vontade de Deus, e, sobretudo, nos ensinou como se deve amar. - O Pe. Paulo Segneri Jr. escreveu a uma sua penitente para que essa escrevesse ao pé do crucifixo as seguintes palavras: Eis como se ama [12].
Eis como se ama, parece que nos diz a todos o próprio Redentor lá da cruz, quando nós, para não sofrer alguma moléstia, abandonamos as obras do seu gosto, e às vezes chegamos a renunciar até a sua graça e o seu amor. Ele nos amou até a morte, e não desceu da cruz senão depois de lá ter deixado a vida. Ah, meu Jesus, vós me amastes até a morte: até a morte quero amar-vos também eu! No passado eu vos ofendi e traí muitas vezes. Meu Senhor, vingai-vos de mim, mas com vingança de piedade e de amor; dai-me uma tal dor dos meus pecados que me faça viver sempre doído e aflito pela pena de vos ter ofendido. Protesto que quero padecer todo mal, de agora em diante, antes que vos dar desgosto. E que mal maior poderia acontecer-me que vos dar desgosto, meu Deus, meu Redentor, minha esperança, meu tesouro, meu tudo?
5. Et ego si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum. Hoc autem dicebat, significans qua morte esset moriturus (Io. XII, 32, 33). Disse Jesus Cristo que, quando fosse elevado na cruz, ele, com os seus méritos, com o seu exemplo e com a força do seu amor, atrairia a si os afetos de todas as almas. Omnes mundi gentes ad amorem sui traxit sanguinis sui merito, suo exemplo et amoré, comenta Cornélio de Lápide (In Io. 1. c.) [13]. O mesmo escreveu S. Pedro Damião: Dominus mox ut in cruce pependit, omnes ad se per amoris desiderium traxit (De inv. cruc.) [14]. E quem, acrescenta Cornélio, não amará Jesus, que morre por nosso amor? Quis enim Christum ex amore pro nobis morientem non redamet? (Loc. c.) [15]. Olhai, ó almas redimidas, exorta-nos a santa Igreja, olhai o vosso Redentor sobre aquela cruz, onde toda a sua figura espira amor e convida a amá-lo: a cabeça curvada para nos dar o beijo da paz, os braços abertos para abraçar-nos, o Coração aberto para amar-nos: Omnis figura eius amorem spirat, et ad redamandum provocat: caput inclinatum ad osculandum, diz S. Agostinho, manus expansae ad amplexandum, pectus apertum ad diligendum (Resp. I noct. off. dol. B.V.) [16].
Ah, meu amado Jesus, como a minha alma podia ser assim tão cara aos vossos olhos, vendo as injúrias que receberíeis de mim? Vós, para cativar o meu afeto, quisestes dar-me as demonstrações mais extremas de amor. - Vinde vós, flagelos, vós, espinhos, pregos e cruz, que atormentastes as sagradas carnes do meu senhor, vinde ferir o meu coração. Lembrai-me sempre que todo o bem que eu recebi e que espero, tudo me veio dos méritos da sua Paixão. Ó mestre de amor, os outros ensinam com a voz, mas vós, sobre este leito de morte, ensinais com o padecer; os outros ensinam por interesse, vós, por afeto, não pedindo outra recompensa além da minha salvação. Salvai-me, meu amor, e que o salvar-me seja o dar-me a graça de que eu sempre vos ame e vos dê contento. Amar-vos é a minha salvação.
6. Enquanto Jesus morria sobre a cruz, os homens não cessavam de atormentá-lo com reprovações e zombarias. Outros lhe diziam: Alios salvos fecit, seipsum non potest salvum facere. Altri: Si rex Israel est, descendat nunc de cruce (Matth. XXVII, 42). E Jesus, enquanto aqueles o injuriam, que faz na cruz? Roga, talvez, ao Eterno Pai que os puna? Não, ele lhe roga que os perdoe: Pater, dimitte illis, non enim sciunt quid faciunt (Luc. XXIII, 34). Sim, diz S. Tomás, para demonstrar o imenso amor que tinha para com os homens, o Redentor pediu a Deus perdão para os seus próprios crucificadores: Ad ostendendam abundantiam suae caritatis, veniam persecutoribus postulavit (III p. qu. 47, a. 4, ad 1) [17]. Pediu-o e obteve-o; de modo que eles, depois de o ter visto morto, arrependeram-se do seu pecado: Revertebantur percutientes pectora sua (Luc. XXIII, 48).
Ah, meu caro Salvador, eis-me aos vossos pés; eu fui um dos vossos mais ingratos perseguidores: rogai também por mim ao vosso Pai, para que me perdoe. É verdade que os judeus e os carnífices não sabiam, crucificando-vos, o que faziam; mas eu bem sabia que, pecando, ofendia um Deus crucificado e morto por mim. Mas o vosso sangue e a vossa morte mereceram a divina misericórdia também para mim. Eu não posso desesperar de ser perdoado, vendo-vos morrer para obter para mim o perdão. Ah, meu doce Redentor, olhai-me com um daqueles olhares amorosos com que me olhastes morrendo por mim na cruz; olhai-me e perdoai-me todas as ingratidões de que usei para com o vosso amor. - Arrependo-me, ó meu Jesus, de vos ter desprezado. Amo-vos com todo o coração; e, à vista do vosso exemplo, porque vos amo, amo também todos aqueles que me ofenderam. Desejo a eles todo o bem, e proponho servi-los e socorrê-los o quanto posso por amor de vós, meu Senhor, que quisestes morrer por mim, que tanto vos ofendi.
7. Memento mei (Luc. XXIII, 42), disse-vos, ó meu Jesus, o bom ladrão, e foi consolado quando ouviu dizerdes: Hodie mecum eris in paradiso (Luc. XXIII, 43). Memento mei vos digo também eu: lembrai-vos, Senhor, que eu sou uma daquelas ovelhinhas, pelas quais destes a vida. Consolai também a mim, fazendo-me sentir que me perdoais, dando-me uma grande dor dos meus pecados. - Ó grande sacerdote que vos sacrificais a vós mesmo por amor das vossas criaturas, tende piedade de mim. Eu vos sacrifico, de hoje em diante, a minha vontade, os meus sentidos, as minhas satisfações e todos os meus desejos. Eu creio que vós, meu Deus, morrestes crucificado por mim. Escorra, peço-vos, também sobre mim o vosso sangue divino: ele me lave dos meus pecados. Ele me incendeie de santo amor e me faça todo vosso. Eu vos amo, ó meu Jesus, e desejo morrer crucificado por vós, que morrestes crucificado por mim.
Eterno Pai, ofendi-vos; mais eis o vosso Filho, que, suspenso neste lenho, satisfaz por mim com o sacrifício que vos oferece da sua vida divina. Eu vos ofereço os seus méritos, que são todos meus, enquanto ele a mim os deu; e, por amor deste Filho, rogo-vos que tenhais piedade de mim. A maior piedade que vos peço é que me deis a vossa graça, que eu, infeliz, tantas vezes voluntariamente desprezei. Arrependo-me de ter-vos ultrajado, e amo-vos, amo-vos, meu Deus, meu tudo; e, para dar-vos gosto, estou pronto para padecer qualquer opróbrio, qualquer dor, qualquer miséria, qualquer morte.


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Notas:
[1]: “Rapuerunt eum saevi tortores, et extenderunt in cruce, primo dexteram manum eius affligentes stipiti, qui pro clavis perforatus erat. Et manum ipsam ex ea parte perforabant, qua os solidius erat. Inde trahentes cum fune aliam manum eius, ad stipitem eam simili modo afflixerunt. Deinde dextrum pedem crucifixerunt, et, super hunc, sinistrum, duobus clavis, ita ut omnes nervi extenderentur et rumperentur.” Revelationes S. BIRGITTAE... a Card. Turrecremata recognitae, lib. 1, cap. 10. - “Manum postulatus primo dexteram extendit. Et inde alia manus ad reliquum cornu non attingens distenditur. Et pedes similiter ad foramina sua distenduntur.” Idem opus, lib. 4, cap. 70. - Vedi pure lib. 7, cap. 15.

[2]: “Illa morte peius nihil fuit inter omnia genera mortium.” S. AUGUSTINUS, In Ioannem, tract. 36, n. 4. ML 35-1665.

[3]: “Mors confixorum in cruce est acerbissima, quia configuntur in locis nervosis et maxime sensibilibus, scilicet in manibus et pedibus; et ipsum pondus corporis pendentis continue auget dolorem.” S. THOMAS, Sum. Theol., III, qu. 46, art. 6, c.

[4]: “Dolor in Christo fuit maximus inter dolores praesentis vitae... Secundo potest magnitudo considerari ex perceptibilitate patientis. Nam et secundum corpus erat optime complexionatus, cum corpus eius fuerit formatum miraculose operatione Spiritus Sancti: sicut et alia quae per miracula facta sunt, sunt aliis potiora, ut Chrysostomus (in Ioannem hom. 22, al. 21, n. 2 - in fine - et 3: MG 59-136) dicit de vino in quod Christus aquam convertit in nuptiis. Et ideo in eo maxime viguit sensus tactus, ex cuius perceptione sequitur dolor.” S. THOMAS, ibid.

[5]: Do Salmo XXXIX, 7. Assim leem os Setenta, e, com eles São Paulo, I, c.; enquanto no texto hebraico, e conforme uma outra edição dos Setenta, na nossa Vulgata, lê-se: Aures autem perfecisti mihi. Cf. Cornelius a Lapide, Commentaria in Epist. ad Hebr., l. c.

[6]: “Quarto potest considerari magnitudo doloris Christi patientis ex hoc quod passio illa et dolor fuerunt assumpta voluntarie propter finem liberationis hominum a peccato. Et ideo tantam quantitatem doloris assumpsit quae esset proportionata magnitudini fructus qui inde sequebatur.” S. THOMAS, Sum. Theol., III, qu. 46, art. 6, c.

[7]: Giovanni TIEPOLO, Le considerazioni della Passione di N. S. Gesù Cristo, Venezia, 1618, ed. II, tratt. 6, cap. 34, pag. 396: “Alguns devotos tiveram, em revelação, que os golpes das marteladas que foram dadas sobre os pregos com os quais foram trespassadas as mãos de Cristo na cruz fossem no número de 28, e aqueles que foram dados para pregar-lhe os pés fossem no número de 36”. Em outro lugar da mesma obra, p. 461, afirma que as marteladas foram 26 e alude ao Lanspérgio, com o qual concorda. - Também A. dell' Olivadi, Anno doloroso, Napoli, 1735, pag. 326, é da primeira opinião.

[8]: “Dicetur ei.... ab hominibus quos morte sua redemit....: Quid sunt plagae istae in medio manuum tuarum? ... .Testimonia sunt obedientiae, signa voluntatis et iussionis paternae... Monumenta sunt paternae caritatis, signa sunt obedientiae meae, quia ille mihi proprio Filio suo non pepercit (Rom. VIII, 32), et ego factus sum obediens illi pro omnibus usque ad mortem , mortem autem crucis (Philipp. II, 8).” RUPERTUS Abbas, Commentaria in XII Prophetas minores, in Zachariam liber 5, ML 168-802, 803. - “Et cum haec dixisset, ostendit eis manus et latus (Io. XX, 20).... Et haec livoris signa sempiterna, margaritae victoris et splendida nostrae, quam attulit, pacis ornamenta vel testimonia sunt. Nam poterat quidem, virtute qua resurrexit... clavorum et lanceae penitus exstirpare vel explanare vestigia; sed servanda erant et oculis paternis decentia Filium Dei caritatis et obedientiae signa, veneranda causae nostrae patrocinia nostrique amoris aeterna incitamenta et horroris impiorum perpetua incendia”. IDEM, In Ioannem, lib. 14. ML 169-809.

[9]: “Quod si... qua te Deus tuus dilectione prosequatur ignoras, testimonia eius credibilia facta sunt nimis. Testis crux, testes clavi, testes dolores, testes sanguinis inundantes fluvii, testis amara mors et acerbissima quam pro te sustinuit.” S. THOMAS A VILLANOVA, In dominicam 17 post Pentecosten concio 3, n. 7. Conciones, I.

[10]: “Clamat clavus, clamat vulnus, quod vere Deus sit in Christo mundum reconcilians sibi.... Patet arcanum cordis per foramina corporis; patet magnum illud pietatis sacramentum, patent viscera misericordiae Dei nostri.... In quo enim clarius quam in vulneribus tuis eluxisset, quod tu, Domine, suavis et mitis, et multae misericordiae?” S. BERNARDUS, In Cantica, sermo 61, n. 4. ML 183-1072.

[11]: A última invocação “meu amor, meu Deus, meu tudo” foi acrescentada nas ed. posteriores a 1754.

[12]: “Escrevendo o Padre (Paulo Segneri) à senhora Bianca Buonvisi, sugeriu-lhe tal meio: ‘Neste tempo da Quaresma, imagine ver escrito ao pé do Crucifixo: Eis como se ama’.” GALLUZZI, Vita del P. Paolo Segneri iuniore, lib. 4, cap. 2.

[13]: “Omnes totius mundi gentes ad fidem et amorem sui traxit.... Traxit, inquam, primo, sanguinis sui merito et pretio; secundo, suo exemplo; tertio, suo amore.” CORNELIUS A LAPIDE, Commentaria in Ioannem, in cap. XII, 32.

[14]: “Dominus... mox ut in cruce pro nostra salute pependit, omnes electos ad semetipsum per amoris desiderium traxit.” S. PETRUS DAMIANUS, Sermo 18, De inventione sanctae Crucis. ML 144-606.

[15]: “Quis enim Christum ex amore pro nobis ultro morientem non redamet?” CORNELIUS A LAPIDE, Comment. in Ioannem, in cap. XII, 32.

[16]: “Omnis enim figura eius amorem spirat et ad redamandum provocat: caput inclinatum, manus expansae, pectus apertum.” Officium Septem Dolorum B. M. V., ad Matutinum, Resp. 1. - “Aspicite vulnera Salvatoris nostri in ligno pendentis... Quid aliud videre poterimus, nisi caput inclinatum ad vocandum et parcendum, cor apertum ad diligendum, brachia extensa ad amplexandum, totum corpus expositum ad redimendum?” Sermones ad fratres in eremo (non genuini), sermo 32. Inter Opera S. Augustini, ML 40-1293.

[17]: “Christus, ad ostendendam abundantiam caritatis suae, ex qua patiebatur, in cruce positus veniam persecutoribus postulavit.” S. THOMAS, Sum. theol., III, qu. 47, art. 4, ad 1.

2 de fevereiro de 2012

O Amor das Almas, S. Afonso de Ligório. CAPÍTULO XI.

Da condenação de Jesus Cristo e sua viagem ao Calvário.

1. Seguia Pilatos escusando-se com os judeus que não podia condenar à morte aquele inocente; mas aqueles o aterrorizaram dizendo-lhe: Si hunc dimittis, non es amicus Caesaris (Io. XIX, 12). Por isso, o miserável juiz, cegado pelo temor de perder a graça de César, depois de ter conhecido e declarado Jesus Cristo tantas vezes inocente, finalmente o condenou a morrer crucificado.
Tunc ergo tradidit eis illum, ut crucifigeretur (Io. XIX, 16).
Ó meu amado Redentor, aqui chora S. Bernardo, e qual crime cometestes, que tenhais que ser condenado à morte, e morte de cruz? Quid fecisti, innocentissime Salvator, ut sic iudicareris? Quid commisisti? Mas bem compreendo, responde o santo, a causa da vossa morte: entendo o pecado que cometestes. Peccatum tuum est amor tuus [1]: o vosso crime é o muito amor que tivestes para com os homens; é este, e não Pilatos, que vos condena à morte. Não que não vejo, ajunta S. Boaventura, outra justa razão da vossa morte, ó meu Jesus, senão o afeto excessivo que por nós tendes: Non vídeo causam mortis, nisi superabundantiam caritatis [2]. Ah, que um tal excesso de amor, replica S. Bernardo, por demais nos constrange, ó enamorado Senhor, a consagrar-vos todos os afetos dos nossos corações: Talis amor amorem nostrum omnino sibi vindicat [3].
Ó meu caro Salvador, só o entender que vós me amais deveria fazer-me viver esquecido de qualquer outra coisa, para preocupar-me somente com amar-vos e contentar-vos em tudo. Fortis... ut mors dilectio (Cant. VIII, 6). Se o amor é forte como a morte, pelos vossos méritos, meu Senhor, dai-me um tal amor a vós que me faça abominar todas as afeições terrenas! Fazei-me compreender bem que todo o meu bem consiste em agradar-vos, ó Deus todo bondade e todo amor. Maldigo aquele tempo em que não vos amei. Agradeço-vos por me dardes tempo de amar-vos. Amo-vos, meu Jesus infinitamente amável e infinitamente amante; amo-vos com tudo o que sou, e prometo-vos que quero antes mil vezes morrer que tornar a deixar de amar-vos.
2. Lê-se a iníqua sentença de morte ao condenado Jesus; ele a escuta e, humildemente, aceita-a. Não reclama da injustiça do juiz, não apela a César como fez S. Paulo: mas, todo manso e resignado, submete-se ao decreto do Eterno Pai, que o condena à cruz pelos nossos pecados. Humiliavit semetipsum, factus obediens usque ad mortem, mortem autem crucis (Philip. II, 8). E pelo amor que tem aos homens, contenta-se em morrer por nós: Dilexit nos, et tradidit semetipsum pro nobis (Eph. V, 2).
Ó meu piedoso Salvador, quanto vos agradeço! Quanto vos sou obrigado! Desejo, meu Jesus, morrer por vós, já que vós com tanto amor aceitastes a morte por mim. Mas, se não me é concedido dar-vos o meu sangue e a vida por mão de carnífice, como fizeram os mártires, aceito ao menos com resignação aquela morte que me espera; e aceito-a no modo e no tempo que a vós comprazer. Desde agora vo-la ofereço em honra da vossa majestade e em reparação dos meus pecados: e, pelos méritos da vossa morte, peço-vos me concedais a sorte de morrer amando-vos e na vossa graça.
3. Pilatos entrega o inocente Cordeiro nas mãos daqueles lobos, para fazerem o que querem: Iesum vero tradidit voluntati eorum (Luc. XXIII, 25). Os ministros o agarram com fúria, tiram-lhe aquele trapo de púrpura colocado pelos judeus, e colocam-lhe de volta as suas vestes: Exuerunt eum chlamyde, et induerunt eum vestimentis eius, et duxerunt eum, ut crucifigerent (Matth. XXVII, 31). E isso fizeram, diz S. Ambrósio, a fim de que Jesus fosse reconhecido ao menos pelas vestes, pois a sua bela face estava tão deformada pelo sangue e pelas feridas que, sem as suas vestes, dificilmente teria sido possível reconhecê-lo: Induunt eum vestibus, quo melius ab omnibus cognosceretur: quia cum facies eius esset cruentata et deformata, non poterat facile ab omnibus agnosci [4]. Então tomaram duas toras brutas e compuseram logo a cruz, com quinze pés de comprimento, como refere S. Boaventura [5] com S. Anselmo [6], e a impuseram sobre os ombros do Redentor.
Mas não esperou Jesus, diz S. Tomás de Vilanova, que a cruz lhe fosse imposta pelo carnífice, ele mesmo estendeu as mãos, tomou-a avidamente e se a pôs sobre os ombros chagados: Non exspectavit ut imponeretur sibi a milite, sed laetus arripuit (Conc. III, de uno M.) [7]. Vem, disse então, vem, minha querida cruz; eu há trinta e três anos, suspiro por ti e venho-te procurando; eu te abraço, te aperto ao meu coração, enquanto és o altar no qual quero sacrificar a minha vida por amor das minhas ovelhinhas.
Ah, meu Senhor, como pudestes fazer tanto bem a quem vos fez tanto mal? Ó Deus, quando penso que chegastes a morrer à força de tormentos para obter-me a divina amizade, e que eu tantas vezes, depois, a perdi voluntariamente por minha culpa, queria morrer de dor! Quantas vezes vós me perdoastes e eu tornei a ofender-vos? Como poderia eu esperar perdão, se não soubesse que vós morrestes para perdoar-me? Por esta vossa morte, pois, espero o perdão e a perseverança no vosso amor. - Arrependo-me, meu Redentor, de vos ter ofendido. Pelos vossos méritos, perdoai-me, que eu vos prometo não mais vos dar desgosto. Eu estimo e amo mais a vossa amizade que todos os bens do mundo. Não permitais que eu torne a perder-vos: dai-me, ó Senhor, todo castigo antes que isso. Meu Jesus, não quero mais vos perder, não; quero antes perder a vida; quero amar-vos sempre.
4. Saem os agentes da justiça com os condenados, e entre estes vai também à morte o rei do céu, o Unigênito de Deus carregado da cruz: Et baiulans sibi crucem exivit in eum qui dicitur Calvariae locum (Io. XIX, 17). Saí também vós do paraíso, bem-aventurados serafins, e vinde acompanhar o vosso Senhor, que vai ao Calvário para ser aí condenado junto com malfeitores sobre um patíbulo infame.
Ó espetáculo horrendo! Um Deus condenado! Eis aquele Messias que poucos dias antes fora aclamado como Salvador do mundo, e recebido pelo povo com aplausos e bênçãos, gritando: Hosanna filio David, benedictus qui venit in nomine Domini (Matth. XXI, 9); e depois vê-lo ser amarrado, zombado e maldito por todos, com uma cruz nas costas, morrendo como patife! Ó excesso do amor divino! Um Deus condenado pelos homens! E se encontrará quem não ame este Deus! Ó meu eterno amante, eu tarde começo a amar-vos: fazei que, na vida que me resta, eu compense o tempo perdido. Já se que tudo o que eu fizer é pouco diante do amor que me tivestes; mas ao menos quero amar-vos com todo o meu coração. Muito vos seria injurioso se, depois de tantas finezas, o meu coração se dividisse, e desse uma parte de si a qualquer objeto fora de vós. Eu vos consagro, de hoje em diante, toda a minha vida, a minha vontade, a minha liberdade: disponde de mim como vos aprouver. Peço-vos o paraíso para amar-vos lá com todas as minhas forças. Quero amar-vos muito nesta vida, para amar-vos muito na eternidade. Socorrei-me com a vossa graça: pelos vossos méritos, peço-a e a espero.
5. Imagina, minha alma, que te encontras vendo Jesus que passa naquela dolorosa viagem. Assim como um cordeiro é levado ao matadouro, assim o amante Redentor é conduzido à morte: Sicut ovis ad occisionem ducetur (Is. LII, 7). Está ele assim tão dessangrado e cansado pelos tormentos, que mal pode ficar em pé pela fraqueza. Olha-o todo em feridas, com aquele ramo de espinhos sobre a cabeça, com aquele pesado lenho sobre as costas, e com um daqueles ministros que o puxa com uma corda. Vê-o como vai com o corpo curvado, com os joelhos vacilantes, escorrendo sangue; e caminha com tanta pena que parece que, a cada passo, expira a alma.
Pergunta-lhe: Ó Cordeiro divino, não estais ainda saciado de dores? Se pretendeis com elas conquistar o meu amor, cessai de padecer, que eu quero amar-vos como desejais!
Não, ele te diz, não estou ainda contente; estarei contente apenas quando me verei morto por teu amor. - E, então, onde vais, ó meu Jesus? - Vou, responde, morrer por ti.
Não me impeças. Só isso te peço e te ordeno: Quando me vires morto sobre a cruz por ti, lembra-te do amor que te tive; lembra dele, e ama-me.
Ó meu agonizante Senhor, quão caro vos custou fazer-me compreender o amor que tivestes por mim! Mas que lucro podia dar-vos o meu amor, que, para comprá-lo, quisestes dar o sangue e a vida? E como eu, então, preso por tanto amor, pude viver tanto tempo sem amar-vos, esquecido do vosso afeto? Agradeço-vos por me terdes agora dado luz para me fazer conhecer com quanto amor me amastes. Amo-vos, bondade infinita, sobre todo bem. Gostaria de sacrificar-vos mil vidas, se pudesse, já que quisestes sacrificar a vossa vida divina por mim. Concedei-me aqueles auxílios para amar-vos, que merecestes para mim com tantas penas! Dai-me aquele santo fogo que viestes acender na terra morrendo por nós. Lembrai-me sempre da vossa morte, a fim de que eu nunca mais me esqueça de amar-vos.
6. Factus est principatus eius super humerum eius (Is. IX, 6). A própria cruz, diz Tertuliano, foi o nobre instrumento com o qual Jesus Cristo comprou tantas almas [9]. Sim, porque, morrendo nela, pagou a pena dos nossos pecados, e assim nos resgatou do inferno e nos fez seus: Qui peccata nostra ipse pertulit in corpore suo super lignum (I Petr. II, 24). - Então, ó meu Jesus, se Deus vos carregou de todos os pecados dos homens - Posuit Dominus in eo iniquitatem omnium nostrum (Is. LIII, 6) - eu, com os meus pecados, tornei mais pesada a cruz que carregavas ao Calvário.
Ah, meu dulcíssimo Salvador, já víeis todas as injúrias que eu haveria de fazer-vos, e, apesar disso, não deixastes de amar-me e de preparar-me tantas misericórdias, que depois usastes comigo. Se, pois, a vós fui eu tão caro, eu, vilíssimo e ingrato pecador que tanto vos ofendi, é justo que também vós sejais caro a mim, vós, meu Deus, beleza e bondade infinita, que tanto me amastes. Ah, que eu não vos tivesse nunca vos dado desgosto! Agora conheço, meu Jesus, o erro que vos fiz. Ó meus malditos pecados, que fizestes? Vós me fizestes amargurar o Coração enamorado do meu Redentor, Coração que tanto me amou. Meu Jesus, perdoai-me, que eu me arrependo de ter-vos desprezado! De agora em diante, vós haveis de ser o único objeto do meu amor. Amo-vos, ó amável infinito, com todo o meu coração, e decido-me a não amar outra coisa fora de vós. Senhor, perdoai-me e dai-me o vosso amor, e nada mais vos peço: Amorem tui solum, digo com S. Inácio, cum gratia tua mihi dones, et dives sum satis [10].
7. Si quis vult post me venire, abneget semetipsum... et sequatur me (Matth. XVI, 24). Já que, ó meu Redentor, vós, inocentes, vades adiante de mim com a vossa cruz e me convidais a seguir-vos com a minha, caminhai, que eu não quero deixar-vos. Se, pelo passado, vos deixei, confesso que fiz mal: dai-me agora a cruz que quiserdes, que eu a abraço qualquer que seja ela, e com ela quero acompanhar-vos até a morte. Exeamus... extra castra improperium eius portantes (Hebr. XIII, 13). E como podemos, Senhor, não amar, por vosso amor, as dores e os opróbrios, se vós tanto os amastes pela nossa salvação?
Mas, já que nos convidais a seguir-vos, sim, queremos seguir-vos e morrer convosco, mas dai-nos fortaleza para consegui-lo; esta fortaleza vos pedimos e esperamos pelos vossos méritos. Amo-vos, meu amabilíssimo Jesus, amo-vos com toda a minha alma, e não quero mais deixar-vos. Baste-me o tempo em que andei longe de vós. Prendei-me agora na vossa cruz. Se desprezei o vosso amor, arrependo-me disso com todo o coração: agora o estimo sobre todo bem.
8. Ah meu Jesus, e quem sou eu, que me quereis como vosso seguidor, e me ordenais que vos ame? E, se não quero amar-vos, ameaçais-me com o inferno? Mas para que, dir-vos-ei com S. Agostinho, ameaçar-me com as misérias eternas? [11] Que miséria maior me pode acontecer do que não vos amar, Deus amabilíssimo, meu Criador, meu Redentor, meu paraíso, meu tudo? Vejo que, por justo castigo das ofensas que vos fiz, mereceria ser condenado a não vos poder amar; mas vós, porque ainda me amais, continuais ordenando que eu vos ame, repetindo sempre ao meu coração: Diliges Dominum Deum tuum ex toto corde tuo, et ex tota anima tua, et ex tota mente tua (Marc. XII, 30). Agradeço-vos, meu amor, por este doce preceito: e, para obedecer-vos, eu vos amo com todo o coração, com toda a alma, e com toda a minha mente. Arrependo-me de não vos ter amado no passado. No presente, prefiro toda pena antes a viver sem vos amar, e proponho sempre procurar o vosso amor. Ajudai-me, meu Jesus, a fazer sempre atos de amor a vós, e a sair desta vida com um ato de amor, a fim de que eu venha a amar-vos face a face no paraíso, onde então vos amarei sem imperfeição e sem intervalo, com todas as minhas forças, por toda a eternidade.
Ó Mãe de Deus, rogai a Jesus por mim. Amém.


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Notas:

[1]: S. ANSELMUS, Orationes, Oratio 2 ML 158-861. - Vide Apêndice, 3, B.

[2]: “Non enim in te video causam mortis, nisi superabundantiam caritatis.” Stimulus amoris, pars 1, cap. 2. Inter Opera S. Bonaventurae, VII, p. 195, col. 2: Lugduni (post editiones Vaticanam et Germanicam), 1668. - Vide Apêndice, 2, 5°.

[3]: “Sed est quod me plus movet, plus urget, plus accendit. Super omnia, inquam, reddit amabilem te mihi, Iesu bone, calix quem bibisti, opus nostrae redemptionis. Hoc omnino amorem nostrum facile vindicat totum sibi.” S. BERNARDUS, In Cantica, sermo 20, n. 2. ML 183-867.

[4]: Não encontramos este texto nas obras de S. Ambrósio; Cornélio de Lápide, no seu comentário, e o Lirano na sua “Postilla” (in Matt. XXVII, 31) dão esta razão pela qual foram restituídas a Jesus Cristo as suas vestes. S. Ambrósio indica uma outra: “Pulchre ascensurus crucem regalia vestimenta deposuit; ut scias quasi hominem passum esse, non quasi Deum regem; etsi utrumque Christus, quasi hominem tamen, non quasi Deum cruci esse suffixum.” S. AMBROSIUS, Expositio Evangelii secundum Lucam, lib. 10, n. 108. ML 15-1830, 1831.

[5]: “Ut dicitur in historiis, opinio est crucem Domini quindecim pedes habuisse in altum.” Meditationes vitae Christi, cap. 77. Inter Opera S. Bonaventurae, VI, 387, Lugduni (post editiones Vaticanam et Germanicam) 1668. - Vide Apêndice, 2, 7°.

[6]: “Crux vero adeo magna erat, quod habebat quindecim pedes in longitudine.” Dialogus de Passione Domini, cap. 8. Inter Opera S. Anselmi, (opusculum insertum non genuinis), ML 159-281.

[7]: “Non enim expectavit ut imponeretur sibi (crux) a milite: sed viso salutis signo, ut fortis athleta laetus arripuit.” S. THOMAS A VILLANOVA, In festo unius martyris, concio 1, n. 4. Conciones, II, 749: Mediolani, 1760.

[8]: Esta expressão setecentesca significa que os agentes do Tribunal abrem o cortejo e se encaminham para o lugar da execução capital. - S. Afonso, em 1725-1732 foi membro da Congregação dos Brancos da Justiça: em tal ofício ele assistiu as últimas horas dos condenados à morte, junto ao machado erigido na praça do Mercado em Nápoles.

[9]: “Age nunc, si legisti penes David (Ps. XCV, 10), Dominus regnavit a ligno, exspecto quid intelligas... Cur Christus non regnasse dicatur a ligno, ex quo crucis ligno mortuus, regnum mortis exclusit?... Cuius imperium super humerum eius (Is. IX, 6). Qui omnino regum insigne potestatis suae humero praefert, et non aut capite diadema, aut manu sceptrum, aut aliquam propriae vestis notam? Sed solus novus rex novorum aevorum Christus Iesus, novae gloriae et potestatem et sublimitatem suam humero extulit, crucem scilicet, ut... exinde Dominus regnaret a ligno.” TERTULLIANUS, Adversus Marcionem lib. 3, cap. 19. ML 2-347, 348.

[10]: S. IGNATIUS LOYOLA, Exercitia spiritualia, Hebdomada 4, Contemplatio ad amorem spiritualem in nobis excitandum. - Versão literal do original espanhol (edição Roothaan, Prep. Gen. d. C. d. G.): “Da mihi amorem tui et gratiam, nam haec mihi sufficit.”

[11]: “Quid tibi sum ipse ut amari te iubeas a me, et nisi faciam irascaris mihi et mineris ingentes miserias? Parvane ipsa est, si non amem te? ” S. AUGUSTINUS, Confessiones, lib. 1, cap. 5, n. 5. ML 32-663.