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29 de agosto de 2014

Sermão para o 10º Domingo Depois de Pentecostes - Diácono Pedro Henrique Gubitoso, IBP

[Sermão] O fariseu, o publicano e a humildade, fundamento da vida espiritual

Sermão para o 10º Domingo Depois de Pentecostes
17.08.2014 – Diácono Pedro Henrique Gubitoso, IBP.
Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Reverendo padre Daniel, caro confrade seminarista, caríssimos fiéis,
Um católico que acreditasse estar isento de todo pecado estaria redondamente enganado. Todo homem é pecador, “todo homem é mentiroso” diz o Salmo (s. 116). “ O justo peca sete vezes ao dia” diz o livro dos Provérbios (Pv 24,16). “Não há homem que não peque” diz o Eclesiastes (Ecle 7,21). “Aquele que diz que não tem pecado, faz Deus mentiroso” diz São João (1 Jo 1, 10). Todo homem precisa de Deus, da ajuda de Deus. O pré-requisito básico para qualquer vida espiritual sólida é reconhecer que somos pecadores e que precisamos de Deus, em outras palavras: é preciso ser humilde.
Para ilustrar esse propósito, Nosso Senhor nos apresenta a parábola do fariseu e do publicano, em que figuram duas pessoas e duas atitudes completamente opostas.
“Dois homens subiram ao templo para orar : um fariseu e um publicano”.
Quem eram os fariseus e os publicanos? Os fariseus eram membros de uma seita formada no século segundo antes de Cristo. Eles se caracterizavam pelo cumprimento escrupuloso e minucioso de toda a lei escrita que Moisés tinha deixado. Nosso Senhor muitas vezes no evangelho condenou a hipocrisia dos fariseus que cumpriam rigorosamente a lei exterior mas que não tinham boas disposições no interior de suas almas; ele os chama de “sepulcros caiados” (Mt 23, 27) pois por fora parecem formosos mas por dentro estão repletos de imundície. Muitas vezes, eram também escrupulosos com o pouco (imposto das ervas, entre outras prescrições da lei) ou inventam tradições próprias enquanto negligenciavam o mais importante (ajuda aos pais, por exemplo). Os publicanos, por outro lado, eram uma classe extremamente odiada e desprezada entre os judeus, por dois motivos: primeiro, porque eram cobradores de impostos contratados pelos romanos, ou seja, judeus que recolhiam dinheiro de outros judeus colaborando assim com o poder estrangeiro que dominava naquele momento a Palestina; segundo, porque numa tal função acabavam frequentemente se envolvendo com corrupção, cobrando impostos mais caros do que deveriam. O publicano Zaqueu, por exemplo, havia confessado a Nosso Senhor ter defraudado muitos bens. Outro publicano que conhecemos é Levi, futuro apóstolo São Mateus. Enfim, Nosso Senhor nesta parábola toma como exemplo dois personagens diametralmente opostos. Ele põe frente a frente o orgulho do fariseu e a humildade do publicano.
“O fariseu, de pé, orava no seu interior desta forma: Graças te dou, ó Deus, porque não sou como os outros homens: ladrões, injustos, adúlteros; nem, por exemplo, como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e pago o dízimo de tudo o que possuo.”
O fariseu não pede nada a Deus, somente agradece por todas as virtudes com as quais está ornado. Falta-lhe o essencial da oração: o pedido. Ele está completamente seguro e confiante em seus méritos, está ali como se exigisse um juízo divino, uma certificado de qualidade carimbado por Deus. Ele está de pé, no primeiro lugar da sinagoga, próximo ao altar. Seus olhos estavam fixados no céu quase como se o já tivesse conquistado. O fariseu passa o tempo de sua oração louvando suas próprias virtudes, ele não pensa em Deus mas somente em si mesmo e nas suas obras. Pior ainda, depois de tanto exaltar-se ele ainda por cima despreza o publicano ali presente.
“O publicano, porém, conservando-se a distância, nem sequer se atrevia a levantar os olhos ao céu; o que fazia era bater no peito, dizendo: Meu Deus, tende piedade de mim, que sou pecador!”
O publicano treme, teme e confessa que é pecador. Ele se conserva à distância, não se atreve a levantar os olhos aos céus. Santo Agostinho explica que o publicano não se atrevia a olhar pois esperava que Deus olhasse primeiro para ele. Enquanto que o fariseu atribuía a si todo o bem que tinha feito, o publicano se reconhecia como autor exclusivo de seus pecados. Sua oração é simples, mas perfeita e fervorosa : “Meu Deus, tende piedade de mim que sou pecador”. Assim devem ser nossas disposições quando vamos rezar ou nos confessar. Por maiores que sejam nossos pecados, devemos ter absoluta confiança na misericórdia divina. Deus ama nos perdoar, pois, como nos diz a colecta da missa de hoje, é perdoando e exercendo sua misericórdia que Deus manifesta maximamente a sua onipotência. O que Deus pede acima de tudo é um coração contrito.
“Afirmo-vos que foi este que voltou justificado para sua casa, e não o outro: Porque quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.” 
São Bernardo diz: “O fariseu, que acreditava estar pleno, saiu vazio. O publicano, que se apresentou vazio pela absoluta indigência, foi repleto de misericórdia e de graça”. O fariseu, apesar de todas as obras que tinha realizado, saiu do templo pior do que quando entrou, não voltou justificado para a casa. Já o publicano, graças ao seu espírito de penitência e de humildade sai do templo completamente justificado. O que devemos aprender com esta parábola é que a humildade é um dos fundamentos da vida espiritual. São Tomás explica que há dois fundamentos da vida espiritual: a Fé e a humildade. A virtude de Fé é um fundamento positivo enquanto a humildade é um fundamento negativo. O que isto quer dizer? Se comparássemos a nossa vida da graça à construção de um prédio, a Fé seria o alicerce desse prédio pois é pela adesão às verdades reveladas que se começa qualquer vida cristã. Entretanto, a humildade é também fundamento da vida espiritual, mas num outro sentido, isto é, enquanto remove os primeiros obstáculos à perfeição cristã. Não é possível construir sobre um terreno cheio de destroços. A humildade, sendo uma virtude que modera o apetite desordenado da própria excelência, nos permite de limpar o terreno de nossa alma para que Deus possa começar em nós a sua obra de santificação. Enquanto nossa alma está repleta de amor-próprio como a alma do fariseu, é impossível progredir na vida espiritual pois neste caso a alma está muito cheia dela mesma e não há espaço para Deus.
Portanto, após ter recebido a Fé pelo batismo, o primeiro passo na busca da perfeiçã cristã é reconhecer nossa dupla pequenez: somos criaturas e ainda por cima pecadores. Em seguida, devemos reconhecer que tudo aquilo que temos de bom procede de graça de Deus. “Que tens tu que não tenhas recebido?” nos diz São Paulo (2Cor 4, 7). É precisamente por esta razão que as virtudes heróicas de alguns santos não somente podem, mas devem coexistir com a humildade; por mais que sejam perfeitos sempre reconhecerão que a santidade vem de Deus. A humildade, segundo a definição de Santa Teresa d’Avila, consiste em “caminhar na verdade”. Reconhecer o bem e o mal onde estão. Por mais que sejamos bons e pratiquemos a virtude devemos sempre ter em mente que estes bens nos vêm de Deus; exatamente como o faz Nossa Senhora no Magnificat: “Fecit mihi magna qui potens est”, isto é : “Aquele que é poderoso fez em mim grandes coisas”. Uma vez reconhecida por nós mesmos a nossa fraqueza e a nossa indigência diante de Deus, aí sim se abrem diante de nós os caminhos para progredirmos no exercício das outras virtudes.
Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

22 de agosto de 2014

Sermão para o 9º Domingo depois de Pentecostes – Diácono Pedro Henrique Gubitoso, IBP.

[Sermão] A esperança, o desespero e a presunção

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Reverendo padre Daniel, caro confrade seminarista, caríssimos fiéis !
A nossa vida sobre esta terra é uma sucessão de alegrias e tristezas, de contentamentos e decepções. Nossa vida espiritual é dividida entre consolações e desolações. O bom católico é aquele que, com a ajuda da graça de Deus, vive esses momentos com uma santa indiferença e mantém, apesar da agitação do quotidiano, um ânimo firme e constante. O exemplo por excelência dessa constância na Fé é o mártir, que apesar de todas as adversidades não abandona sua Fé. Um capitão que deixasse seu navio ir para lá e para cá junto com o movimento das ondas seria um péssimo capitão pois não levaria seu barco até o seu fim.
A este propósito justamente, São Paulo nos deixa hoje na sua epístola um precioso ensinamento. Há especialmente dois conselhos nesta epístola que devemos gravar profundamente em nossas inteligências e corações para que nos sirvam de guia seguro na nossa batalha quotidiana pela santidade. Estão indicados aí dois excessos que devem ser absolutamente evitados : a presunção e o desespero. Eis as primeiras tentações que enfrentamos quando começamos a busca pela perfeição cristã.
Pois bem. Em primeiro lugar, São Paulo nos adverte contra toda forma de orgulho e de presunção dizendo : “aquele que julga estar de pé, que tome cuidado para que não caia.” A presunção é um vício oposto à virtude teologal de Esperança. A presunção pode ser de dois tipos : o primeiro tipo de presunção é a presunção de salvação, mais grave, que consiste em acreditar que podemos nos salvar sem o arrependimento pelos nossos pecados e obter a bem-aventurança eterna sem nenhum mérito. Os téologos a chamam de pecado contra o Espírito Santo. Já o segundo o tipo de presunção, bem mais comum, não tão grave quanto o primeiro mas mesmo assim muito perigoso, consiste em acharmos que não precisamos da graça divina e que podemos cumprir os mandamentos de Deus somente com nossas próprias forças. Isso é evidentemente um absurdo. Entretanto, infelizmente, nossa soberba pode nos levar até uma tal presunção. O católico que entra por este caminho só encontrará decepção e tristeza quando se der realmente conta da sua fraqueza. Nosso Senhor bem nos disse em outra ocasião: “Sem mim nada podeis fazer”. São Tomás de Aquino nos ensina que sem a graça de Deus é impossível ao homem cumprir a integridade dos mandamentos.  Nossa natureza humana, machucada pelo pecado original, se tornou extremamente inconstante e volúvel. “Aquele que julga estar de pé, que tome cuidado para que não caia.” Por mais que sejamos grandes e importantes, podemos cair extremamente baixo. Lembremo-nos do rei Salomão, que, mesmo tendo sido escolhido por Deus para escrever o santo livro dos Provérbios e mesmo tendo reinado com extrema sabedoria, entregou-se por fim às paixões mais baixas e caiu na mais grosseira idolatria. Quantos cedros do Líbano que caíram por terra. De fato, naquele em que a graça de Deus fez grandes coisas, é grande a tentação de subverter todo mérito para si mesmo esquecendo-se de todos os bens que Deus lhe dera.
Se por um lado a presunção nos dá uma falsa segurança sobre nosso estado de graça, por outro lado o desespero nos faz desconfiar de Deus e acreditar que mesmo com a graça de Deus não podemos nos salvar. É por isso que após nos ter exortado a uma extrema vigilância, São Paulo nos ensina que Deus nunca permite uma tentação mais forte do que nossas forças podem suportar. Com efeito, São Paulo nos diz: “Deus, por seu lado, é fiel, e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças; ao contrário, até fará que tireis proveito da tentação, podendo-a aguentar.” Deus é fiel. Segundo São Paulo, essa fidelidade de Deus se manifesta de duas maneiras: primeiramente, não permitindo que sejamos tentados acima de nossa forças; em segundo lugar, dando-nos sempre a graça suficiente para superarmos a tentação. É muito normal, sobretudo na sociedade atual, diante dos preceitos da Lei de Deus, ser tentado pelo desencorajamento e acabar considerando impossível a prática desses preceitos. Quando nos sobrevier um tal desânimo lembremo-nos de que se “até mesmo de pedras Deus pode suscitar filhos de Abrãao”, Ele pode também fazer algo com nossas pobres almas; o Espírito Santo através de seus dons nos faz realizar obras que sozinhos nunca poderíamos realizar.
Entre esses dois excessos – presunção e desespero – encontra-se a atitude católica, nem presunçosa nem desesperada, mas confiante. Assim como Deus é fiel, nós devemos também ser fiéis.  Quando no evangelho de hoje, Nosso Senhor chora diante de Jerusalém profetizando sua destruição pelos romanos, ele está chorando por causa da infidelidade do povo judeu que desperdiçou tantas graças. Quando não cumprimos as promessas feitas no nosso batismo, somos como o povo judeu que recusou os ensinamentos e milagres de Jesus Cristo.
O modelo perfeito de uma tal confiança em Deus é Nossa Senhora, que responde ao anjo Gabriel: “Faça-se em mim segundo a vossa palavra”. A Encarnação do Verbo estava suspendida nos lábios da Virgem Maria. Ela sabe que aquilo que vai se operar nela é um milagre da graça e uma obra do Espírito Santo. Ela sabe que aquilo que vai se realizar está além das suas forças, entretanto sua resposta é confiante. Além disso, Nossa Senhora não somente não se deixou levar por um falso entusiasmo na Anunciação como também não se deixou abater e desencorajar no momento da Paixão de seu Filho; pelo contrário, permaneceu de pé junto à cruz com uma Fé inabalável.
Enfim, para concluir, ter confiança em Deus não quer dizer poupar todo e qualquer esforço esperando que Deus faça todo o trabalho… muito pelo contrário. Deus exige nossa cooperação. Como diz Santo Agostinho : « Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti ». Como essa cooperação entre Deus e o homem se dá concretamente? É o que Santo Inácio de Loyola resume com muita sabedoria e simplicidade: “Rezemos como se tudo dependesse de Deus, e trabalhemos como se tudo dependesse de nós.”
Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.