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7 de junho de 2009

Símbolos da Fé - Final

AGATÃO: 27 JUN. 678 – 10 JAN. 681



Carta “Consideranti mihi” aos imperadores, 27 mar. 680


No mesmo dia, foram ao imperador Constantino IV Pogonato duas cartas, uma com o nome do próprio Papa (*542-5450), a outra, como epístola sinodal (*546-548). Ambas foram lidas no III Concílio de Constantinopla, na sessão 4ª (15 nov. 680), e aprovadas pelos padres conciliares. Ao imperador foi aconselhada a aceitação dela na sessão 18ª, com as seguintes palavras: “O sumo príncipe dos Apóstolos combatia conosco; de fato, tínhamos no seu imitador e sucessor na Sé um sustentáculo que, em carta, nos ilustrou o mistério divino. Aquela antiga cidade de Roma fez chegar a ti uma profissão de fé escrita por Deus... e por meio de Agatão falava Pedro, e junto com o onipotente co-regente decidias tu, pio Imperador, tu que foste estabelecido por Deus”. (“Summus nobiscum concertabat Apostolorum princeps; illius enim imitatorem et sedis sucessorem habuimus fautorem et divini sacramenti illustrantem per litteras. Confessionem tibi a Deo scriptam illa Romana antiqua civitas obtulit... et per Agathonem Petrus loquebatur, et cum omnipotenti corregnatore pius imperator simul decernebas tu, qui a Deo decretus es”; MaC 11,666CD / HaC 3,1422E-1423A).



A divina Trindade


Eis a posição da fé evangélica e apostólica e da tradição normativa: enquanto professamos que a santa e inseparável Trindade, isto é, Pai, Filho e Espírito Santo, é de uma só divindade, de uma só natureza ou substância ou essência, proclamamos também que ela é de uma só vontade natural, uma só força, operação, domínio, majestade, poder e glória. E qualquer coisa que seja dito, quanto à essência, a respeito da mesma Trindade, instruídos nisto pela doutrina normativa, queremos entendê-lo no singular, como (dito) da única natureza das três pessoas consubstanciais.



O Verbo de Deus encarnado


Ora, ao professarmos a fé a respeito de uma dessas três pessoas desta santa Trindade, o Filho de Deus, Deus Verbo, e a respeito do mistério da sua adorável obra salvífica na carne, segundo a tradição evangélica, declaramos dúplice tudo o que é próprio do único e mesmo Senhor nosso Salvador Jesus Cristo, isto é, proclamamos as suas duas naturezas, a divina e a humana, das quais e nas quais subsiste também, depois, a admirável e inseparável união. Professamos também que cada uma das suas naturezas tem sua propriedade natural: a divina tem tudo o que é divino, e a humana, tudo o que é humano, sem nenhum pecado. Reconhecemos que ambas (as naturezas) são do único e mesmo Deus Verbo encarnado, isto é, feito homem, de maneira inconfusa, inseparável, imutável – enquanto meramente o intelecto distingue o que é unido, em vista do erro da confusão. De fato, rejeitamos de igual modo a blasfêmia da divisão quanto a da confusão.
Ora, se professamos duas naturezas, duas vontades naturais e duas operações naturais no nosso Senhor Jesus Cristo, não as dizemos nem contrárias nem adversas uma à outra..., nem como que separadas em duas pessoas ou subsistências, mas dizemos que o mesmo nosso Senhor Jesus Cristo, como tem em si duas naturezas, assim também duas vontades naturais, isto é, a divina e a humana: na verdade, desde a eternidade ele tem em comum com o Pai coessencial a vontade e operação divina, enquanto a humana, assumida de nós, (ele a tem em comum) com a nossa natureza no tempo. ...

Além disso, a Igreja apostólica de Cristo... reconhece, com base nas propriedades naturais, que cada uma destas naturezas de Cristo é perfeita, e professa como dúplice tudo o que se refere às propriedades das naturezas, já que o próprio nosso Senhor Jesus Cristo é tanto perfeito Deus como perfeito homem, quer de duas, quer em duas naturezas... .
Conseqüentemente, ... ela professa e proclama que nele há também duas vontades naturais e duas operações naturais. De fato, se alguém entendesse a vontade como pessoal, dever-se-ia, já que na santa Trindade se fala de três pessoas, falar (nesta) também de três vontades pessoais e três operações pessoais (o que é absurdo e de todo profano). Se, ao invés, conforme implica a verdade da fé cristã, a vontade é natural, deve-se, ao falar dessa única natureza da santa e inseparável Trindade, conseqüentemente, reconhecer uma só vontade natural e uma só operação natural. Onde, porém, professamos na pessoa do nosso Senhor Jesus Cristo, o mediador entre Deus e os homens [cf. 1Tm 2,5], duas naturezas, isto é, a divina e a humana, nas quais ele subsiste também depois da admirável união, assim como professamos duas naturezas do único e mesmo, assim também (professamos) as suas duas vontades naturais e as suas duas operações naturais.



Sínodo de ROMA: Carta sinodal “Omnium bonorum spes”, aos imperadores, 27 mar. 680



Contra a opinião de que o texto latino seja uma retroversão do grego, H. Quentin sustenta que o latino é o texto original. O texto grego da carta é publicado em G. Kreuzer.


A divina Trindade


Crendo em Deus Pai... e em seu Filho... e no Espírito Santo, Senhor e vivificador, que procede do Pai, e com o Pai e o Filho deve ser adorado e glorificado: a Trindade na unidade e a unidade na Trindade, mas exatamente, a unidade da essência, a Trindade porém das pessoas ou subsistências; professamos Deus Pai, Deus, Filho, Deus Espírito Santo, não três deuses, mas um só Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo; não a subsistência de três nomes, mas a única substância de três subsistências; elas têm uma só a essência, ou substância, ou natureza, isto é, uma só divindade, uma só eternidade, um só poder, um só domínio, uma só glória, uma só adoração, uma só essência vontade e operação da mesma santa e indivisa Trindade, que tudo criou, ordena e sustenta.



O Verbo de Deus encarnado


Professamos, porém, que um da mesma santa coessencial Trindade, Deus Verbo, que antes dos séculos foi gerado pelo Pai, por nós e pela nossa salvação, nos últimos tempos dos séculos desceu dos céus e se encarnou do Espírito Santo e da santa, imaculada e sempre gloriosa virgem Maria, nossa Senhora, verdadeira e propriamente genitora de Deus, já que dela nasceu segundo a carne e se tornou verdadeiramente homem; ele mesmo é verdadeiro Deus e ele mesmo verdadeiro homem e, na verdade, Deus de Deus Pai, homem por sua vez da virgem mãe, encarnado desta carne dotada de alma racional e intelectiva; o mesmo é consubstancial a Deus Pai segundo a divindade e consubstancial a nós segundo a humanidade, e é igual a nós em tudo, sem somente pecado; ele foi crucificado em prol de nós sob Pôncio Pilatos, sofreu, foi sepultado, ressurgiu...

Reconhecemos portanto que o único e mesmo nosso Senhor Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus, subsiste de duas e em duas substâncias de modo inconfuso, imutável, indiviso, inseparável, sem que jamais venha a cessar a diferença das naturezas por causa da união, mas antes, permanecendo a propriedade das duas naturezas e confluindo numa única pessoa e única subsistência; ele não é dividido ou separado numa dualidade de pessoas, nem confuso numa natureza composta, mas reconhecemos que o único e mesmo unigênito Filho, Deus Verbo, nosso Senhor Jesus Cristo, nem (é) um em outro, nem um e outro, mas sim o mesmo em duas naturezas, a saber, na divindade e na humanidade, também depois da união hipostática, já que nem o Verbo foi transformado na natureza da carne, nem a carne foi mudada na natureza do Verbo: permaneceram de fato ambas as realidades assim como eram por natureza; a diferença das naturezas nele unidas, das quais ele de maneira inconfusa, inseparável e imutável é composto, só a reconhecemos mediante a reflexão: um só, de fato, das duas, e ambas mediante um só, já que estão juntas tanto a altura da divindade como a inferioridade da carne, pelo que as duas naturezas, também depois da união, conservam, sem diminuição, as suas propriedades; e “cada uma das duas formas opera em comunhão com a outra aquilo que lhe é próprio: o Verbo opera o que é do Verbo, a carne, ao invés, cumpre o que é da carne: uma destas (realidades) brilha nos milagres, a outra é submetida ao ultrajes”.

Daí, conseqüëntemente, como professamos que ele verdadeiramente tem duas naturezas ou substâncias, isto é, a divindade e a humanidade, de modo inconfuso, indiviso e imutável, assim também professamos que ele tem duas vontades naturais bem como duas atividades naturais, já que a regra da piedade nos ensina que o único e mesmo Senhor Jesus Cristo é perfeito homem; pois demonstra-se que assim nos instruíram a tradição apostólica e evangélica e o magistério dos santos Padres, que a Igreja santa, apostólica e católica e os veneráveis Sínodo têm acolhido.



LEAO IX: 12 FEV. 1049 – 19 ABR. 1054



Carta “Congratulamur vehementer” a Pedro, patriarca de Antioquia, 13 abr. 1053


Pedro de Antioquia tinha pedido a Leão IX uma profissão de fé e lhe tinha mandado a sua. Uma coleção semelhante de artigos de fé está contida nos Statuta Eclesiae antiqua.



Profissão de fé


Creio... firmemente que a santa Trindade, Pai e Filho e Espírito Santo, é um só Deus onipotente, e que toda a divindade está na Trindade coessencial e consubstancial, coeterna e igualmente onipotente, de uma só vontade, poder e majestade; criador de todas as criaturas, do qual tudo, pelo qual tudo, no qual tudo [Rm 11,36] o que há no céu e na terra, as coisas visíveis e as invisíveis. Creio também que as singulares pessoas na santa Trindade (são) um só Deus verdadeiro, pleno e perfeito.
Creio também que o Filho de Deus Pai, o Verbo de Deus, nascido eternamente do Pai antes de todos os tempos, consubstancial, co-onipotente e co-igual ao Pai na divindade em tudo, nasceu no tempo, do Espírito Santo, (do seio) de Maria sempre virgem, com uma alma racional, tendo dois nascimentos, um eterno do Pai, o outro, no tempo, pela mãe; tendo duas vontades e duas operações, (é) verdadeiro Deus e verdadeiro homem, próprio e perfeito numa e noutra natureza; ele não sofreu mistura nem divisão, não é adotivo nem fruto de imaginação; é um único e um só Deus, filho de Deus em duas naturezas, mas na singularidade de uma só pessoa; impassível e imortal na divindade, todavia na humanidade padeceu por nós e por nossa salvação em verdadeiro sofrimento da carne, e foi sepultado, e ressuscitou dos mortos ao terceiro dia com verdadeira ressurreição da carne, e para confirmação desta tomou comida com os discípulos, não por necessidade de alimento, mas unicamente pela (sua) vontade e poder; no quadragésimo dia depois da ressurreição subiu ao céu, com a carne na qual ressuscitara e com a alma, e está sentado à direita do Pai; de lá, no décimo dia, mandou o Espírito Santo, e de lá, assim como subiu, de novo virá, para julgar os vivos e os mortos e retribuir a cada um segundo suas obras.

Creio também (n)o Espírito Santo, plena, perfeita e verdadeiramente Deus, que procede do Pai e do Filho, co-igual, co-essencial, co-onipotente e co-eterno em tudo ao Pai e ao Filho, e que falou por meio dos profetas.

Esta santa e indivisa Trindade, não três deuses, mas, em três pessoas e numa só natureza ou essência, um só Deus onipotente, eterno, invisível e imutável, eu creio nela e a confesso, tanto que proclamo segundo a verdade que o Pai é ingênito, o Filho, unigênito, e o Espírito Santo nem gerado nem ingênito, mas procedente do Pai e do Filho.

[Assuntos diversos:] Creio que a Igreja santa, católica e apostólica é a única verdadeira, e que nela é administrado o verdadeiro batismo e a única verdadeira remissão de todos os pecados. Creio também (n)a ressurreição verdadeira desta mesma carne que agora possuo, e (n)a vida eterna.
Creio também que Deus, Senhor onipotente, é o único autor do Novo e do Antigo Testamento, da Lei, dos Profetas e dos Apóstolos. Creio que Deus predestinou somente o bem, enquanto preconhecia o bem e o mal. Creio que a graça de Deus previne e segue o homem, todavia sem que negue, de modo algum, o livre-arbítrio da criatura racional. Creio e proclamo que a alma não é uma parte de Deus, mas que foi criada do nada e que, sem o batismo, está sujeita ao pecado original.
Anatematizo, outrossim, cada heresia que se ergue contra a santa Igreja católica e, igualmente, todo aquele que crer que se devam considerar autorizadas outras escrituras que não as que a Igreja católica acolhe, ou que as tiver venerado.
Reconheço com todo o respeito os quatro Concílios e os venero com os quatro Evangelhos: pois a Igreja universal, nas quatro partes do mundo, tem neles seu fundamento estável, como sobre uma pedra quadrangular. ...De igual modo acolho e venero os outros três Concílios. ...Tudo quanto os acima citados sete Concílios santos e universais tenham entendido e louvado, também eu entendo e louvo, e anatematizo todo o que eles tenham anatematizado.

3 de junho de 2009

Símbolos da Fé - 9ª Parte

HONÓRIO I: 27 OUT. 625 – 12 OUT. 638

IV Sínodo de Toledo, iniciado a 5 dez. 633: Capítulos

A profissão de fé deste sínodo mostra particular conexão com os símbolos “Fides Damasi” e “Quicumque”.

Símbolo tinitário-cristológico

Em conformidade com as Escrituras divinas e a doutrina que recebemos dos santos Padres, professamos (que) o Pai e o Filho e o Espírito Santo (são) de uma só divindade e substância; crendo a Trindade na diversidade das pessoas e anunciando na divindade a unidade, nem confundimos as pessoas, nem dividimos a substância. Dizemos que o Pai não foi feito ou gerado por ninguém, afirmamos que os Filho não foi feito, mas gerado pelo Pai; do Espírito Santo professamos que não foi nem criado nem gerado, mas procede do Pai e do Filho; e quanto ao próprio Senhor nosso Jesus Cristo, Filho de Deus e criador de tudo, gerado da substância do Pai antes dos séculos, (professamos) que nos últimos tempos desceu do Pai para a redenção do mundo, ele que jamais cessou de estar com o Pai; de fato, encarnou-se, do Espírito Santo e da santa gloriosa genitora de Deus, a virgem Maria, e dela nasceu só ele; o mesmo Cristo, o Senhor Jesus, um da santa Trindade, assumiu sem pecado o homem perfeito, em alma e carne, permanecendo o que era e assumindo o que não era; igual ao Pai na divindade e inferior ao Pai na humanidade, tem numa única pessoa as propriedades de duas naturezas; nele, de fato, há duas naturezas, Deus e homem, não porém dois filhos e dois deuses, mas o mesmo é uma só pessoa em duas naturezas; ele padeceu sofrimento e morte pela nossa salvação, não na força da divindade, mas na fraqueza da humanidade; ele desceu ao ínferos para livrar os santos que ali estavam retidos e, depois de ter vencido o império da morte, ressuscitou; elevado, depois, ao céu, virá no futuro para o juízo dos vivos e dos mortos; purificados pela sua morte e pelo seu sangue, conseguimos a remissão dos pecados, para sermos ressuscitados por ele no último dia, na carne na qual ora vivemos e na forma na qual o mesmo Senhor ressuscitou; uns receberão dele a vida eterna, pelos merecimentos da justiça, os outros, por causa do pecado, a condenação do suplício eterno.
Esta é a fé da Igreja católica; esta confissão de fé, nós a conservamos e sustentamos; quem a tiver guardado com grande firmeza, terá a salvação perpétua.

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ADEODATO II: 11 ABR. 672 – 17 (16?) JUN. 676

XI Sínodo de Toledo, iniciado a 7 nov. 675: Profissão de fé

Esta profissão de fé, atribuída no passado a Eusébio de Vercelli (PL 12, 959-968), segundo J. Madoz foi elaborada pelo XI Sínodo de Toledo, servindo-lhe como fonte principal os símbolos dos IV e VI Sínodos de Toledo (633 e 638); cf. *485 490-493. A opinião de alguns de que este sínodo tenha sido confirmado por Inocêncio III se baseia numa explicação errônea da palavra “authenticum”. Cf. H. Lennerz: ZKTh 48 (1924) 322-324.

A divina Trindade

Confessamos e cremos que a santa e inefável Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, por natureza é um só Deus de uma única substância, de uma única natureza, de uma única majestade e força.

E professamos que o Pai não é gerado, não criado, mas ingênito. Pois ele não tem origem de ninguém, ele do qual o Filho teve o nascimento, bem como o Espírito Santo a processão. Ele é, portanto, a fonte e origem de toda a divindade. Ele é também o Pai de sua essência, ele que de sua inefável substância [Ele, o Pai, a saber, a sua inefável substância, da sua substância] inefavelmente gerou o Filho e, contudo, não gerou outra coisa senão o que ele mesmo é: Deus (gerou) Deus, luz (gerou) luz; dele é, por isso, “toda paternidade no céu e sobre a terra”[Ef 3,15].
Professamos também que o Filho é nascido da substância do Pai, sem início, antes dos séculos, porém não criado: pois nem o Pai existiu jamais sem o Filho, nem o Filho sem o Pai. E contudo, o Pai não é do Filho como o Filho do Pai, pois o Pai não recebeu a geração do Filho, mas o Filho do Pai. O Filho é portanto Deus pelo Pai, o Pai ao invés é Deus, mas não pelo Filho; ele é de fato Pai do Filho, não Deus pelo Filho; este ao contrário, é Filho do Pai e Deus pelo Pai. Todavia o Filho é igual em tudo a Deus Pai, já que o seu nascimento nem teve início, nem cessou num determinado momento.
Também se crê que ele é de uma única substância com o Pai, pelo que é chamado também ao Pai, isto é, da mesma substância que o Pai; pois, em grego, significa “um”, “substância”, e os dois juntos significam “uma só substância”. De fato, devemos crer que o Filho não foi gerado nem do nada, nem de qualquer outra substância, mas do seio do Pai, isto é, de sua substância.
Eterno é portanto o Pai, eterno também o Filho. Se sempre, porém, foi Pai, teve sempre o Filho de quem era pai, e portanto professamos o Filho nascido do Pai sem início. De fato, não o chamamos Filho de Deus por ter sido gerado pelo Pai como “porciúncula de uma natureza seccionada”, mas afirmamos, sim, que o Pai perfeito grou, sem diminuição e sem reparação, um Filho perfeito, pois somente à divindade compete não ter um Filho desigual.
Este Filho é também Filho por natureza, não por adoção, ele que Deus Pai, como se deve crer, gerou não por vontade, nem por necessidade, já que em Deus não cabe qualquer necessidade, nem a vontade precede a sabedoria.
Cremos também que o Espírito Santo, que é a terceira pessoa na Trindade, é Deus um e igual com Deus Pai e Filho, da mesma substância e também da mesma natureza; todavia, não é gerado nem criado, mas procede de ambos e é o Espírito de ambos. Este Espírito não é, conforme a fé, nem gerado nem não gerado, para que não apareça que, chamando-o não gerado, estejamos falando de dois Pais e, chamando-o gerado, estejamos pregando dois Filhos; todavia ele não é chamado Espírito só do Pai, nem só do Filho, mas ao mesmo tempo do Pai e do Filho. Não procede de fato, do Pai no Filho, nem procede do Filho para santificar a criação, mas mostra-se que ele procedeu de ambos, já que é reconhecido como caridade ou santidade de ambos. Este Espírito Santo, portanto, cremos, foi mandado por ambos, como o Filho [da parte do Pai]; mas não é tido como inferior ao Pai e ao Filho à maneira em que o Filho dá testemunho de ser inferior ao Pai e ao Espírito Santo por motivo da carne assumida.

Assim é que convém apresentar a santa Trindade: não se deve dizer e crer que ela seja tríplice, mas Trindade. Não se pode dizer corretamente que no único Deus está a Trindade, mas que o único Deus é a Trindade. Pelo nome das pessoas, porém, que exprime uma relação, o Pai é posto em referência ao Filho, o Filho ao Pai e o Espírito Santo a ambos: se bem que, em vista de sua relação, sejam chamadas três pessoas, estas são, todavia, conforme pregamos, uma só natureza ou substância. E como três pessoas não pregamos três substâncias, mas sim uma única substância e três pessoas. De fato, o que é o “Pai”, não o é em relação a si mesmo, mas ao Filho; e o que é o “Filho”, não o é em relação a si mesmo, mas ao Pai; de modo semelhante, também, o Espírito Santo não é referido em relação a si, mas ao Pai e ao Filho, sendo chamado Espírito do Pai e do Filho. Igualmente, quando dizemos “Deus”, isto é dito não em relação a qualquer coisa, como o Pai (em relação) ao Filho, ou o Filho ao Pai, ou o Espírito Santo ao Pai e ao Filho, mas “Deus” é chamado (assim) de modo particular em relação a si mesmo.

De fato, se somos interrogados sobre cada uma das pessoas, devemos professar que é Deus. Por isso, o Pai é chamado Deus, o Filho, Deus e o Espírito Santo, Deus, cada qual singularmente; e todavia não há três deuses, mas um só Deus. Igualmente o Pai é chamado onipotente, o Filho, onipotente, o Espírito Santo, onipotente, cada qual singularmente; e todavia não há três onipotentes, mas um só princípio. Portanto, professa-se e se crê que cada pessoa, singularmente, é plenamente, Deus, e todas as três pessoas são um só Deus: elas têm a única, indivisa e igual divindade, majestade ou poder, sem diminuição em cada uma, nem aumento nas três, pois não há nada a menos quando cada pessoa é chamada singularmente Deus, nem (nada) a mais quando as três pessoas são proclamadas um só Deus.

Esta santa Trindade, que é o único e verdadeiro Deus, nem subtrai-se ao número, nem é captada pelo número. Na relação das pessoas, de fato, se reconhece o número; na substância da divindade, porém, não está compreendido o que se enumera. Por isso, só no que são em referência uma a outra é que insinuam o número; e no que são para si mesmas deixam o número de lado. De fato, a esta santa Trindade convém um nome de natureza que seja único, de modo que não possa se usado no plural para as três pessoas. Por isso cremos também naquelas palavras das sagradas escrituras: “Grande é o nosso Deus e grande o seu poder, e para sua sabedoria não há número” [sl 147,5].

Não poderemos dizer, porém, que, tendo declarado que estas três pessoas são um só Deus, o Pai seja o mesmo que o Filho e o Filho o mesmo que o Pai, ou que quem é o Espírito Santo seja o Pai ou o Filho. Pois quem é o Filho não é ele mesmo o Pai, nem quem é o Pai é ele mesmo o Filho, nem quem é o Pai é ele mesmo o Filho, nem quem é o Pai ou o Filho é ele mesmo o Espírito Santo; todavia o Pai é isto mesmo que é o Filho, o Filho, isto mesmo que é o Pai, o Pai e o Filho, isto mesmo que é o Espírito Santo, isto é, um único Deus por natureza. De fato, quando dizemos que o Pai não é o mesmo que o Filho, isso se refere à distinção das pessoas. Quando, porém, dizemos que o Pai é isto que é o Filho, o Filho isto que é o Pai e o Espírito Santo isto que é o Pai e o Filho, isso se refere evidentemente à natureza da qual Deus é, ou à substância, já que, quanto á substância, são uma só realidade: distinguimos, de fato, as pessoas, (mas) não dividimos a divindade.

A Trindade, portanto, nós a reconhecemos na distinção das pessoas; a unidade, nós a professamos em vista da natureza ou da substância. Estas três, portanto, são uma só realidade, isto é, quanto á natureza, não quanto às pessoas. Todavia, estas três pessoas não devem ser consideradas separáveis, já que, segundo cremos, nenhuma existiu jamais ou tem operado qualquer coisa antes das outras, nenhuma depois das outras, nenhuma sem as outras. De fato, vemos que são inseparáveis quer naquilo que são, quer aquilo que fazem: já que entre o Pai, que gera, e o Filho, que foi gerado, e o Espírito Santo que (dele) procede, não houve, segundo nossa fé, nenhum intervalo de tempo no qual o genitor tivesse precedido o gerado, ou o gerado tivesse faltado ao genitor, ou o Espírito Santo procedente do Pai e do Filho tivesse aparecido mais tarde. Por isso, declaramos e acreditamos inseparável e inconfusa esta Trindade. Se, portanto, de acordo com a doutrina dos antepassados, se fala nestas três pessoas, é para que sejam reconhecidas, não para que sejam separadas. De fato, se prestamos atenção ao que a santa Escritura diz da Sabedoria: “É o esplendor da luz eterna” [Sl 7,26], então, assim como vemos que o esplendor é inseparavelmente inerente à luz, professamos também que o Filho não pode ser separado do Pai. Portanto, assim como não confundimos estas três pessoas, que são de uma só e inseparável natureza, declaramos também que são absolutamente inseparáveis.

Em verdade, a própria Trindade se dignou mostrar-nos isso de maneira tão clara que mesmo com os nomes com os quais segundo o seu querer as pessoas são reconhecidas singularmente, não permite que uma seja compreendida sem a outra: de fato nem o Pai é reconhecido sem o Filho, nem se encontra o Filho sem o Pai. Em verdade, a própria relação (expressão) pelo nome das pessoas proíbe separar as pessoas, pois, se não as nomeia simultaneamente, insinua-se simultaneamente. Ninguém, pois, pode ouvir um destes nomes sem forçosamente entender também o outro. Portanto, se bem que estas três sejam uma só realidade, e a única realidade, três, todavia permanece para cada uma das pessoas o que lhe é próprio. O Pai tem a eternidade sem nascimento, o Filho a eternidade com o nascimento, o Espírito Santo a eternidade com o nascimento, o Espírito Santo a processão sem nascimento, com a eternidade.

A encarnação

Cremos que destas três pessoas só a pessoa do Filho assumiu, em prol da libertação do gênero humano, um verdadeiro homem, sem pecado, da santa e imaculada Virgem Maria, pela qual foi gerado numa ordem nova, num novo nascimento; numa ordem nova, já que, invisível na sua divindade, se mostra visível na carne; num novo nascimento ele foi gerado, já que a virgindade intacta não só desconheceu o coito viril, como fecundada pelo Espírito Santo subministrou a matéria da carne. Este parto da Virgem não pode ser compreendido pela razão e em nada pode ser exemplificado; porque, se pudesse ser compreendido pela razão, não seria maravilhoso; se em algo pudesse ser exemplificado, não seria singular. Todavia, não se deve crer, por que Maria concebeu sob a sombra do Espírito Santo, que o Espírito Santo seja o Pai do Filho, para não parecermos afirmar que o Filho tem dois pais, o que certamente seria inadmissível dizê-lo.

Nesta admirável conceição, na qual a Sabedoria construiu para si uma casa [Cf. Pr. 9,1], “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” [Jô 1,14]. Todavia o Verbo não foi transformado e mudado em carne, como se aquele que quis ser homem cessasse de ser Deus, mas o Verbo se fez carne, de modo que ali não só esteja o Verbo de Deus e a carne do homem, mas também a alma racional do homem; e tudo isso deve ser dito seja de Deus, em vista de Deus, seja do homem, em vista do homem.

Cremos haver neste Filho de Deus duas naturezas, uma da divindade, outra da humanidade, que a pessoa de Cristo uniu em si de tal modo que jamais poderá ser separada nem a divindade da humanidade, nem a humanidade da divindade. Daí, o único Cristo é na unidade da pessoa perfeito Deus e perfeito homem: todavia, por termos dito que no Filho há duas naturezas, não vamos dar lugar a duas pessoas no Filho, para que não pareça aceder à Trindade – longe de nós dizê-lo! – uma quaternidade. Deus Verbo não assumiu a pessoa de um homem, mas sim, a natureza; e na eterna pessoa da divindade acolheu a substância temporal da carne.

Igualmente, enquanto cremos que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são de uma só substância, todavia não dizemos que a Virgem Maria gerou a unidade dessa Trindade, mas só o Filho, o único que assumiu nossa natureza na unidade da sua pessoa. A encarnação deste Filho de Deus, devemos crer ainda, foi operada pela Trindade inteira, já que as obras da Trindade são inseparáveis. Todavia, só o Filho, na singularidade da pessoa, não na unidade da natureza divina, tomou a forma do servo [cf. Fl 2,7] naquilo que é próprio do Filho, não naquilo que é comum à Trindade: e esta forma lhe foi unida na unidade de pessoa, isto é, de modo que o Filho de Deus e o Filho do homem seja o único Cristo; do mesmo modo, o mesmo Cristo nestas duas naturezas é constituído de três substâncias: a do Verbo – o que se deve referir à essência de Deus só -, a do corpo e a da alma – o que faz parte do homem verdadeiro.

Ele tem em si, portanto, a dupla substância da sua divindade e da nossa humanidade. Todavia, enquanto saído de Deus Pai sem início, se entende que ele é somente nascido, não feito, nem predestinado; mas enquanto nascido da Virgem, é preciso crer que ele é nascido, feito e predestinado. Ora, ambos os nascimentos são nele admiráveis, já que ele foi gerado pelo Pai antes dos séculos, sem a mãe, quer gerado ao fim dos séculos pela mãe, sem pai: enquanto Deus, ele criou Maria, enquanto homem, foi criado por Maria; ele mesmo é da mãe Maria tanto pai como filho.
Igualmente, pelo fato de ser Deus, é igual ao Pai; pelo fato de ser homem, é inferior ao Pai. De igual modo, deve-se crer que ele é maior do que si mesmo e inferior a si mesmo: na forma de Deus, de fato, o mesmo Filho é maior que si mesmo, pois assumiu a humanidade, em comparação com a qual a divindade é maior; na forma de servo, porém, isto é, na humanidade, é inferior a si mesmo, pois que esta é inferior à divindade. Como, de fato, mediante a carne assumida é considerado não somente inferior ao Pai, mas também a si mesmo, assim na divindade, mediante a qual é igual ao Pai, tanto ele como o Pai são maiores que o homem, que só a pessoa do Filho assumiu.

Dom mesmo modo, à pergunta se o Filho possa ser também igual ao Espírito Santo e menor do que este, assim como, segundo a nossa fé, ora é igual e ora inferior ao Pai, respondemos: na forma de Deus ele é igual ao Pai e ao Espírito Santo, na forma do servo é menor que o Pai e que o Espírito Santo; já que nem o Espírito Santo, nem Deus Pai, mas só a pessoa do Filho assumiu a carne, pela qual cremos que seja menor do que as outras duas pessoas. Igualmente, segundo a nossa fé, este Filho é distinto, porém não separado de Deus Pai e do Espírito Santo quanto à pessoa, e (distinto) do homem assumpto quanto à natureza. Igualmente, com o homem subsiste na pessoa, com o Pai e o Espírito Santo, na natureza ou substância da divindade.

Todavia é preciso crer que o Filho foi mandão não só pelo Pai, mas também pelo Espírito Santo, pois ele mesmo disse, mediante dos profetas: “E agora me mandou o Senhor e o seu Espírito” [cf. Is 48,16]. Foi mandado, assim aceitamos, também por si mesmo; pois não só a vontade, mas também o operar da inteira Trindade é, como reconhecemos, indiviso. De fato, aquele que é chamado unigênito antes dos tempos, se tornou primogênito no tempo: unigênito por causa da substância da divindade, primogênito por causa da natureza da carne assumida.

A redenção

Nesta forma do homem assumpto, assim cremos a verdade do Evangelho, foi concebido sem pecado e morreu sem pecado aquele que, como único, em prol de nós “se tornou pecado” [cf. 2 Cor 5,21], isto é, sacrifício pelos nossos pecados. E todavia, salvaguardada a sua divindade, suportou esta paixão pelos nossos delito, foi condenado à morte e aceitou na cruz uma verdadeira morte da carne; e ao terceiro dia, suscitado por sua própria força, ressurgiu do sepulcro.

A sorte do homem depois da morte

Professamos que segundo este exemplo da nossa Cabeça acontecerá a verdadeira ressurreição da carne de todos os mortos. Cremos que não ressuscitaremos numa carne etérea ou em outra qualquer (como alguns deliram), mas naquela na qual vivemos, subsistimos e nos movemos. Depois de ter realizado o exemplo desta santa ressurreição, o nosso Senhor e Salvador, mediante a ascensão, voltou ao trono do Pai, do qual na sua divindade jamais se tinha afastado. Lá ele se assenta à direita do Pai e é esperado no fim dos tempos como juiz de todos os vivos e mortos.
De lá virá, com todos os santos, para realizar o juízo e dar a cada um o ajuste pelas suas obras, segundo o que, no corpo, tiver feito de bem ou de mal [Cf. 2Cor 5,10]. Cremos que a santa Igreja católica, que ele conquistou com o preço de seu sangue, reinará com ele para sempre. Reunidos no seio dela, cremos e professamos um só batismo para a remissão de todos os pecados. Nesta fé, cremos verdadeiramente na ressurreição dos mortos e aguardamos o gozo do tempo futuro, Só por isto devemos rezar e isto devemos pedir: que o Filho, quando entregar, efetuado e terminado o juízo, o reino a Deus Pai [cf. 1Cor 15,24], nos faça participar do seu reino, para que mediante a fé que nos une a ele, com ele reinemos sem fim.

Esta é a exposição da fé que professamos e pela qual é aniquilada a doutrina de todos os hereges, pela qual são purificados os corações dos fiéis, pela qual, também, se chega gloriosamente a Deus.

31 de maio de 2009

Símbolos da Fé - 8ª Parte

ANASTÁSIO I: 27 DE NOV. 399 – 402 (19 DEZ. 401?)


I Sínodo de Toledo, set. 400 (405?)

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a) ...


b) “Symbolum Toletanum I” 9400) e sua forma longa, chamada “Libellus in modum Symboli”, do bispo Pastor de Palência (447)


Profissão de fé contra os erros dos priscilianos

Cremos no único Deus verdadeiro, Pai e Filho e Espírito Santo, que fez as coisas visíveis e invisíveis, por quem tudo foi criado no céu e sobre a terra. Este é o único Deus e esta é a única Trindade do nome divino [da divina substância]. (Cremos que) o Pai [porém] não é o Filho mesmo, mas há um Filho que não é o Pai. O Filho não é o Pai, mas é Filho de Deus por natureza [pela natureza do Pai]. E o Espírito é o Paráclito, e não é nem o Pai nem o Filho, mas procede do Pai [e do Filho]. O Pai é, portanto, não-gerado; gerado é o Filho; não gerado é o Paráclito, mas procede do Pai [e do Filho]. É do Pai a voz ouvida nos céus: Este é meu Filho amado, no qual me comprouve: a este [a ele] escutai [Mt 17,5; 2Pd 1.17; cf. Mt 3,17]. É o Filho quem diz: Eu saí do Pai e vim de Deus a este mundo [cf. Jô 16,28]. O próprio Paráclito [o Paráclito Espírito] é de quem o Filho diz: Se [eu] não vou para o Pai, não virá a vós o Paráclito [Jô 16,7]. Esta Trindade, distinta pelas pessoas, (é) uma substância única [unida], força, poder e majestade [na força, poder e majestade] indivisível e sem diferença; [cremos] que fora dela [desta] não haja natureza divina ou de anjo ou de espírito ou de qualquer força que se creia seja Deus.

Portanto, este Filho de Deus, Deus, nascido do Pai antes de qualquer início, santificou, no útero da bem-aventurada Virgem Maria [o útero de Maria virgem], e assumiu dela um homem verdadeiro, gerado sem sêmen do homem [viril]; [encontrando-se duas naturezas, isto é, a da divindade e a da carne, totalmente em uma única pessoa,] isto é, o Senhor [nosso] Jesus Cristo. [E] não um corpo imaginário ou composto só de forma [de alguma aparição], mas sólido [e verdadeiro]. Também [-!] teve fome e sede e sentiu dor e chorou e sentiu dor e chorou e sentiu todas as feridas do corpo [suportou todos os agravos do corpo]. Finalmente foi crucificado [pelos judeus], morto [-!] e sepultado, [e] ressuscitou ao terceiro dia; permaneceu depois com [seus] discípulos, ao quadragésimo dia [depois da ressurreição] subiu aos céus [ao céu]. Este filho do homem é chamado também “Filho de Deus”; o Filho de Deus, porém, é chamado “Deus”, não “filho do homem” [o Filho de Deus, porém, é chamado Deus, filho do homem].

Cremos na ressurreição [futura] da carne humana. Afirmamos que a alma do homem não é substância divina ou parte de Deus, mas criatura que, não por vontade divina, caiu [chamamo-la de criatura que por vontade divina foi criada].

1. Se alguém, portanto [porém], disser e [ou] crer que este mundo e aquilo que o adorna não foi feito por Deus onipotente, seja anátema.
2. Se alguém disser e [ou] crer que Deus Pai é o [próprio] Filho ou Paráclito, seja anátema.
3. Se alguém... crer que Deus Filho [o Filho de Deus] é o próprio Pai e o Paráclito, seja anátema.
4. Se alguém... crer que o Espírito [-!] Paráclito é o Pai ou o Filho, seja anátema.
5. Se alguém... crer que o homem Jesus Cristo não foi assumido pelo Filho de Deus [só a carne sem uma alma foi assumida pelo Filho de Deus], seja anátema.
6. Se alguém... crer que o Filho de Deus padeceu enquanto Deus [Cristo não podia nascer], seja anátema.
7. Se alguém... crer que o homem Jesus Cristo foi homem impassível [a divindade de Cristo foi mutável ou passível], seja anátema.
8. Se alguém... crer que o Deus da antiga Lei seja diferente daquele dos Evangelhos, seja anátema.
9. Se alguém... crer que o mundo foi feito por um outro Deus que [e não] por aquele de quem está escrito: No princípio Deus fez o céu e a terra [cf. Gn 1,1], seja anátema.
10. Se alguém... crer que os corpos humanos depois da morte não ressuscitarão [ressuscitam], seja anátema.
11. Se alguém... crer que a alma humana seja porção de Deus ou substância de Deus, seja anátema.
12. Se alguém crer que algumas escrituras fora daquelas que a Igreja católica acolhe devam ter autoridade, ou (as) venerar [Se alguém... crer que outras escrituras fora daquelas que a Igreja católica acolhe, devam ter autoridade ou ser veneradas], seja anátema.
[13. Se alguém... crer que em Cristo há uma só natureza da divindade e da carne, seja anátema.]
[14. Se alguém... crer que exista alguma coisa que possa se estender para fora da divina Trindade, seja anátema.]
[15. Se alguém julgar dever crer na astrologia e na matemática [sic!], seja anátema.][cf. *460]
[16. Se alguém... crer que as relações conjugais humanas tidas licitamente segundo a lei divina sejam execráveis, seja anátema.]
[17. Se alguém... crer que se deva abster de carne de aves ou de gado que foram dadas para nutrição, não apenas por causa da disciplina do corpo, mas porque sejam execráveis, seja anátema.]
[18. Se alguém segue ou professa a seita de Prisciliano nestes erros, de modo a fazer na ação salutar do batismo outra coisa, que seja contrária à sé de São Pedro, seja anátema.]


ANASTÁSIO II: 24 NOV. 496 – 17(19?) NOV. 498

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Carta “In prolixtate epistoale”, ao bispo Lourenço de Lignido (Ilíria ou Eslavonia), ano 497


Profissão de fé

Professamos portanto que o nosso Senhor Jesus Cristo é Filho unigênito de Deus, nascido do Pai segundo a divindade, sem início, antes de todos os séculos; o mesmo, porém, encarnado, nos últimos dias, da Santa Virgem Maria e homem perfeito, tendo uma alma racional e tendo assumido um corpo, é consubstancial ao Pai segundo a divindade e consubstancial a nós segundo a humanidade. De fato, de maneira inefável foi feita, das duas naturezas perfeitas, uma unidade. Por isso professamos um só Cristo igualmente Filho de Deus e do homem, unigênito do Pai e primogênito dentre os mortos, sabendo que, decerto coeterno com seu Pai segundo a divindade, segundo a qual é artífice de tudo, se dignou também – depois do consenso da Santa Virgem, quando ela disse ao anjo: “Eis a serva do Senhor, aconteça a mim segundo a tua palavra” [Lc 1,38] – edificar para si, inefavelmente, por ela, um templo que uniu a si; e não transferiu este corpo, como coeterno, da sua substância do céu para cá, mas o tomou da matéria da nossa substância, isto é, da Virgem. Acolhendo-o e unindo-o a si, Deus Verbo não se mudou em carne nem se mostrou como aparição imaginária, mas, conservando imutável e invariavelmente a sua essência, uniu a si as primícias da nossa natureza. De fato, o princípio, Deus Verbo, dignou-se unir a si, na sua grande bondade, estas primícias da nossa natureza: ele se mostrou não misturado, mas único e o mesmo em ambas as substâncias, segundo o que está escrito: “Destruí este templo e em três dias o reerguerei” [Jô 2.19]. Foi destruído, de fato, Cristo Jesus segundo a minha substância que ele assumiu, e ele mesmo ressuscita o seu próprio templo destruído, a saber, segundo a substância divina, segundo a qual é também o artífice de tudo.
Depois da ressurreição da nossa natureza a ele unida, nunca se separou do seu próprio templo, nem se pode separar, por causa da sua inefável benignidade, mas ele é o mesmo Senhor Jesus Cristo, tanto passível como impassível, passível segundo a humanidade e impassível segundo a divindade. Deus Verbo ressuscitou, portanto, o seu templo e operou em si a ressurreição e a renovação da nossa natureza. E esta, o Senhor Cristo, depois de ressuscitado dos mortos, mostrava-a aos discípulos, dizendo: “Tocai-me e vede, já que um espírito não tem carne e ossos como vós vedes que eu tenho” [Lc 24,39]. Não disse “como dizeis que eu sou”, mas “que eu tenho”, para que, considerando tanto quem tem quanto quem é tido, possas notar que não houve mistura, nem transformação, nem mudança, mas unidade. Por isso, ele mostrou também as perfurações dos cravos e a ferida da lança e comeu com o seus discípulos, para ensinar por meio de todas estas coisas a ressurreição, nele renovada, de nossa natureza; e, já que, segundo a santa divindade, ele é sem transformação ou mudança, impassível, imortal, necessitado de nada, suportando todos os sofrimentos, ele permitiu que estes fossem infligidos ao seu templo, que suscitou com a própria força, bem como operou, mediante a própria perfeição do seu templo, a renovação da nossa natureza.Aqueles, ao contrário, que dizem que Cristo é um simples homem, ou que é Deus passível, ou que se mudou em carne, ou que teve um corpo não unido a si ou que o fez descer do céu, ou que foi uma aparição imaginária, ou – afirmando que Deus Verbo é mortal – (dizem) que ele teve necessidade de ser ressuscitado pelo Pai, ou tomou um corpo sem alma ou uma humanidade sem a faculdade do sentido, ou que as duas substâncias de Cristo, confusas por mistura, foram reduzidas a uma só substância, e não professam que nosso Senhor Jesus Cristo é duas naturezas inconfusas, porém uma única pessoa, portanto, um só Cristo, igualmente um só Filho: a Igreja católica e apostólica os anatematiza.

27 de maio de 2009

Símbolos da Fé - 7ª Parte

SÍMBOLO DA FÉ CONSTANTINOPOLITANO

Desde o fim do século XVII, este Símbolo da fé é conhecido com o nome de “niceno-constantinopolitano”, como se fosse só um desenvolvimento ou ampliação do Símbolo niceno. Não está claro se foi composto no concílio mesmo ou se já existia anteriormente; podemos sustentar esta última hipótese em vista do Símbolo mais breve de Epifânio (*42), que se encontra no Ancoratus (escrito em 374!) e que é muito semelhante ao Símbolo constantinopolitano. No século VI, foi adotado, em grande parte do Oriente, como Símbolo bastismal. Logo teve importância maior do que o Símbolo niceno, chegando a ser introduzido na liturgia da missa (primeiro pelo ano 480 por parte dos monofisitas em Antioquia; em Constantinopla, antes de 518). Na Igreja ocidental aparece como profissão de fé dentro da missa pela primeira vez no III Sínodo de Toledo (589), cân. 2 (MaC 9, 992s). Nesta versão encontra-se também – pela primeira vez num documento do magistério -, o “Filioque”, talvez acrescentado só depois da conclusão do sínodo; cf. *470. O “Filioque” do século VII em diante, causou fortes controvérsias teológicas. Depois que o uso desse acréscimo já estava amplamente difundido 9cf. a liturgia gálica na pesquisa de F.J. Mone, o Sínodo de Friuli em 791 e o Sínodo de Frankfurt em 794), o Sínodo de Aachen, em 809, pediu a Leão III que o “Filioque” fosse acolhido no Símbolo de toda a Igreja. O Papa não acolheu o pedido, não porque repudiasse a fórmula, mas porque não queria acrescentar algo ao Símbolo transmitido pela tradição. Mais tarde, o imperador Henrique II, por ocasião de sua coração no ano 1014, obteve de Bento VIII que, em Roma, durante a missa se cantasse o Símbolo da fé com o acréscimo do “Filioque”. Enfim, nos concílios ecumênicos de Lião II (1274) e de Florença (1439), foi reconhecido tanto pelos latinos como por alguns gregos (cf. *853 1302).


[Versão grega]

Cremos em um só Deus, Pai onipotente, artífice do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.

E em um só senhor Jesus Cristo, filho unigênito de Deus,

gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai; por meio do qual tudo veio a ser;

o qual, em prol de nós, homens, e de nossa salvação, desceu dos céus, e se encarnou, do Espírito Santo e Maria, a Virgem, e se en-humanou; que também foi crucificado por nós, sob Pôncio Pilatos, e padeceu e foi sepultado e ressuscitou no terceiro dia, segundo as Escrituras, e subiu aos céus e está sentado à direita do Pai; e virá novamente na glória para julgar os vivos e os mortos; cujo reino não terá fim.

E no Espírito Santo, Senhor e vivificador, que procede do Pai, que junto como o Pai e o Filho é co-adorado e conglorificado, que falou por meio dos profetas. Na Igreja una, santa, católica e apostólica. Confessamos um só batismo para a remissão dos pecados. Esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do século vindouro. Amém


[Versão latina]

Creio em um só Deus, Pai onipotente, artífice do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.

E em um só senhor Jesus Cristo, unigênito Filho de Deus,

e nascido do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai; por meio do qual tudo foi feito;

o qual, em prol de nós, homens, e de nossa salvação, desceu dos céus, e se encarnou, do Espírito Santo, de Maria Virgem, e se fez homem; que também foi crucificado por nós, sob Poncio Pilatos, padeceu e foi sepultado, e ressuscitou no terceiro dia, segundo as Escrituras, e subiu ao céu, está sentado à direita do Pai e virá novamente para julgar os vivos e os mortos; cujo reino não terá fim.

E no Espírito Santo, Senhor e vivificador, que procede do Pai e do Filho, que com o Pai e o Filho simultaneamente é adorado e conglorificado, que falou por meio dos profetas. E a Igreja una, santa, católica e apostólica. Confesso um só batismo para a remissão dos pecados. E espero a ressurreição dos mortos e a vida do século vindouro. Amém.

22 de maio de 2009

Símbolos da Fé - 6ª Parte

LIBÉRIO: 17 MAI. 353 – 24 SET. 366


Atas do Papa Libério na questão dos semi-arianos, ano 357

No exílio, o Papa Libério subscreveu o Símbolo composto pelo sínodo semi-ariano e excomungou Atanásio, o defensor da fé nicena. Disto dão testemunho cartas do mesmo Libério conservadas entre os fragmentos da obra histórica Adversus Valentem et Ursacium de Hilário de Poitiers, cuja autenticidade no passado foi impugnada sem razão. Coloca-se assim a questão da ortodoxia do Papa Libério. As fórmulas de fé por ele a aceitas evitam o conceito niceno de homoousios. Trata-se sobretudo da primeira fórmula sirmiense, definida no II Sínodo de Sírmio (Panônia Inferior), em 351, contra Paulo de Somosata e Fortino, fórmulas que Libério, no exílio em Beréia, em 357, teve de subscrever. Esta fórmula foi benignamente interpretada no sentido da ortodoxia por Hilário de Poitiers, servo crítico de Libério: De synodis, 39-62. Muito provavelmente, Libério, levado em 358 para Sírmio, subscreveu também a 3ª fórmula sirmiense, estabelecida no IV Sínodo (depois da Páscoa de 358). Esta é composta da supracitada 1ª fórmula sirmiense, estabelecida no IV Sínodo (depois da Páscoa de 358). Esta é composta da supracitada 1ª fórmula sirmiense, da 2ª fórmula do Sínodo – também semi-ariano – de Antioquia (no período da festa da Encênia de 341) e dos 12 anatematismos extraídos dos 19 artigos do Sínodo semi-ariano de Ancira (antes da Páscoa de 358) pelo IV Sínodo de Sírmio (omitidos os cânones 1-5, 18 e 19, particularmente suspeitos de heresia). Destas fórmulas apresentamos só a 1ª sirmiense.


Condenação de Atanásio e Símbolos de fé

a) Carta “Studens paci”, aos bispos orientais, primavera de 357

Empenhado na paz e concórdia das Igrejas, depois de ter recebido da Vossa Caridade a carta sobre a pessoa de Atanásio e dos outros, endereçada à pessoa do bispo Júlio, de feliz memória, eu, seguindo a tradição dos predecessores, enviei os meus assessores Lúcio, Paulo e Heliano, presbíteros da cidade de Roma, a Alexandria, ao sobredito Atanásio, para que viesse à cidade de Roma, a fim de que, na sua presença, fosse estabelecido a seu respeito o que consta da disciplina da Igreja. Mediante os supracitados presbíteros mandei-lhe também uma carta, comunicando que, se não viesse, soubesse que estava excluído da comunhão com a Igreja de Roma. Ora, ao retornarem, os presbíteros informaram que não queria vir. Segui então ao pé da letra a carta de vossa caridade, que nos enviaste a respeito do sobredito Atanásio, e saibais, mediante a presente carta, mandada no intuito da unanimidade convosco, que estamos em paz com todos vós e com todos os bispos da Igreja católica, enquanto o sobredito Atanásio é excluído da comunhão comigo, ou seja, com a Igreja de Roma, bem como da comunicação escrita e da incumbência eclesiástica.


b) 1ª Profissão de fé de Sírmio (351), subscrita pro Libério no ano 357

Cremos em um só Deus, Pai onipotente, o criador e artífice de todas as coisas, do qual deriva o nome de toda paternidade no céu e na terra [cf. Ef 3.15],
e no seu filho unigênito, nosso Senhor Jesus, o Cristo, gerado pelo Pai antes de todos os tempos: Deus de Deus, luz de luz, por meio de quem vieram a ser todas as coisas, tanto no céu como na terra, as visíveis e a invisíveis; sendo ele é (o) Verbo, (a) Sabedoria, (a) luz verdadeira e (a) Vida; o qual, nos últimos dias, por nós se en-humanou, nasceu da Santa Virgem, foi crucificado, morto e sepultado; e ressuscitou dentre os mortos, ao terceiro dia, e foi elevado aos céus, e está sentado à direita do Pai, e virá, no final do tempo, para julgar os vivos e os mortos e retribuir a cada um de acordo com suas obras; cujo reino, sendo infindável, permanecerá pelos tempos sem fim; pois ele estará sentado à direita do Pai só neste tempo, mas também vindouro;
e no Espírito Santo, isto é, o Paráclito, que, conforme prometera aos Apóstolos, depois de sua subida aos céus, enviou para ensinar e recordar a eles todas as coisas; e por meio dele são também santificadas as almas daqueles que sinceramente tem crido nele.


1. Mas os que dizem que o Filho vem daquilo que não é, ou de uma outra hipóstase e não de Deus, e que houve um tempo ou um éon em que ele não era, a Igreja santa e católica os considera estranhos.
2. De novo, pois, dizemos: se alguém disser que o Pai e o Filho são dois deuses, seja anátema.
3. E se alguém chamar de Deus a Cristo, Filho de Deus antes dos séculos, mas não professar que ele adjuvou ao Pai na produção de todas as coisas, seja anátema.
4. Se alguém ousar dizer que o não-gerado ou parte dele nasceu de Maria, seja anátema.
5. Se alguém disser que o Filho existe antes de Maria segundo a presciência, e não que ele foi gerado pelo Pai antes dos séculos e que tudo veio a ser por meio dele, seja anátema.
6. Se alguém disser que a substância de Deus se dilata ou se contrai, seja anátema.
7. Se alguém disser que a substância dilatada de Deus constitui o Filho ou então chama o Filho a dilatação da sua substância, seja anátema.
8. Se alguém disser que o Filho de Deus é a palavra interior ou proferida, seja anátema.
9. Se alguém disser que o Filho de Maria é somente homem, seja anátema.
10. Se alguém, chamando o de Maria Deus e homem, com isso entende o Deus não gerado, seja anátema.
11. Se alguém entender a frase: “Eu Deus, o primeiro, e eu depois destas coisas, e fora de mim não há Deus” [Is 44,6], dita para destruição dos ídolos e dos que não são deuses, no sentido de excluir, à maneira dos judeus, o Unigênito de Deus antes dos séculos, seja anátema.
12. Se alguém, escutando a frase “O Verbo veio a ser carne” [Jô 1.14], entender que o Verbo tenha se transformado em carne ou diz que, ao assumir a carne, tenha sofrido mudança, seja anátema.
13. Se alguém, ouvindo que o Filho de Deus foi crucificado, disser que sua divindade sofreu corrupção, ou paixão, ou mudança, ou diminuição ou eliminação, seja anátema.
14. Se alguém disser que a frase: “Façamos o homem” [Gn 1,26], não a diz o Pai ao Filho, mas o próprio Deus a tenha dito a si mesmo, seja anátema.
15. Se alguém disser que não o Filho apareceu a Abraão [Gn 18,1-22], mas o Deus não-gerado, ou uma parte dele, seja anátema.
16. Se alguém disser que não o Filho como homem lutou com Jacó [Gn 32,25-31], mas o Deus não-gerado, ou parte dele, seja anátema.
17. Se alguém tomar a frase: “O Senhor fez chover fogo pela força do Senhor” [Gn 19,24], não como referida ao Pai e ao Filho , mas diz que ele mesmo tenha feito chover por si mesmo seja anátema; pois o Senhor o Filho fez chover da parte do Senhor o Pai;
18. Se alguém, ouvindo que o Pai é Senhor e que o Filho é Senhor, e que o Pai e o Filho são Senhor, porque o Senhor da parte do Senhor, diz haver dois deuses, seja anátema. Pois não o Filho coordenado ao Pai, mas subordinado ao Pai. De fato, não desceu a Sodoma sem a vontade do Pai, nem fez chover por si mesmo, mas da parte do Senhor, tendo portanto incumbência do Pai; nem está sentado à direita por si, mas ouve o Pai que diz: “Assenta-te à minha direita” [Sl 110,1].
19. Se alguém disser que o Pai e o Filho e o Espírito Santo são uma só pessoa, seja anátema.
20. Se alguém, chamando Paráclito ao Espírito Santo disser que ele é o Deus não-gerado, seja anátema.
21. Se alguém, como nos ensinou o Senhor, não disser que o Espírito Santo é outro, diferente do Filho, já que disse: “O Pai vos mandará um outro Paráclito, que eu pedirei” [Jô 14,16], seja anátema.
22. Se alguém disser que o Espírito Santo é parte do Pai ou do Filho, seja anátema.
23. Se alguém disser que o Pai e o Filho e o Espírito Santo são três deuses, seja anátema.
24. Se alguém disser que o Filho de Deus veio a ser, por vontade de Deus, como uma das coisas feitas, seja anátema.
25. Se alguém disser que o Filho foi gerado sem que o Pai o queria, seja anátema. De fato, o Pai não gerou o Filho sendo constrangido, movido por necessidade física, como se não o quisesse, mas, ao mesmo tempo o quis e o apresentou, tendo-o gerado por si mesmo fora do tempo e sem sofrimento.
26. Se alguém disser que o Filho é não-gerado e sem início, como para afirmar dois sem-início e dois não-gerados, e fazendo dois deuses, seja anátema. O Filho, de fato, é a cabeça que é o princípio de todas as coisas. Deus, por sua vez é a cabeça que é o princípio de Cristo. Assim reconduzimos, conforme a piedade, mediante o Filho, todas as coisas a um só princípio-sem-início de tudo.
27. E resumindo cuidadosamente o exame da compreensão do cristianismo, dizemos: Se alguém não disser que Cristo Deus, o Filho de Deus, existe antes dos tempos e adjuvou o Pai na criação de todas as coisas, mas que, desde que nasceu de Maria, então chamado e Cristo e Filho e recebeu o início do seu ser Deus, seja anátema.


c) Carta “Pro deifico”, aos bispos orientais, primavera 357

[Texto introdutório de Hilário de Poitiers:] Depois de tudo isso que tinha feito e prometido, Libério, mandado para o exílio, anulou tudo, escrevendo aos hereges arianos prevaricadores, que tinham emitido uma sentença injusta contra o santo bispo ortodoxo Atanásio (Post haec omnia, quae vel gesserat vel promiserat Liberius missus in exilium, universa in irritum deduxit scribens praevaricationibus Arianis haereticis, qui in sanctum Athanasium orthodoxum episcopum injuste tulere sententiam).

[Carta de Libério:] Pelo deífico temor, vossa santa fé é conhecida por Deus e pelos homens de boa vontade [Lc 2.14]. Como diz a Lei: Julgai retamente, ó filhos dos homens [Sl 58,2], eu não defendi Atanásio, mas desde que o meu predecessor, o bispo Júlio, de santa memória, o acolhera, eu temia em algum aspecto ser julgado prevaricador. Logo, porém, que reconheci, no momento em que a Deus aprouve, que vós o tínheis condenado justamente, sem demora procurei conformar minha opinião ao vosso julgamento. Bem mais, mandei ao nosso irmão Fortunaciano uma carta a respeito da sua pessoa, mas exatamente, acerca de sua condenação, para ser entregue ao imperador Constâncio. Removido, pois, Atanásio da comunhão com todos nós – e dele nem vou querer receber as cartas -, digo ter paz e unanimidade com todos vós e com todos os bispos orientais, ou seja, em todas as províncias.
Desejo, pois, que saibais ainda mais exatamente que, por meio desta minha carta, eu exprimo a verdadeira fé. Já que o meu senhor e irmão comum Demófilo, na sua benevolência, se dignou expor-me a vossa fé católica, que em Sírmio por muitos nossos irmãos e bispos foi tratada, exposta e aceita (- este é o erro ariano, isto o anotei eu, não o apóstata, Libério; o seguinte: -) por todos aqueles que estavam presentes, eu com ânimo disposto a acolhi (- Santo Hilário pronuncia sobre ele o anátema: O anátema expresso por mim esteja sobre ti, Libério, e sobre os teus companheiros -), não (a) contradisse em nenhum ponto e dei o meu consenso; esta (fé) eu sigo, esta vem sendo mantida por mim. (- Outra vez anátema a ti, e também uma terceira vez, prevaricador Libério -). Assim pensei em pedir à Vossa Santidade, já que agora claramente vedes que estou de acordo convosco em tudo, que vos digneis providenciar, com comum procedimento e empenho, que eu volte do exílio e reassuma a sé que me foi confiada por Deus.


d) Carta “Quia scio”, a Ursácio, Valente e Germínio, ano 357

Já que eu sei que vós sois filhos da paz e que igualmente amais a concórdia e a unanimidade da Igreja católica, por este motivo, não impelido por nenhum constrangimento – Deus é testemunha -, mas para o bem da paz e da concórdia, que tem precedência sobre o martírio, me dirijo a vós, caríssimos irmãos do Senhor, com esta carta. A Vossa Prudência saiba que Atanásio, que foi bispo da Igreja de Alexandria, [foi por mim condenado] antes [que eu escrevesse], de acordo com a carta dos bispos do Oriente à corte do santo imperador, [que ele] é separado também da comunhão com a Igreja de Roma, como disso é testemunha o corpo de presbíteros da Igreja romana. Este foi o único motivo pelo qual eu pareci mandar, tarde demais, aos nossos irmãos e coepíscopos orientais, uma carta relativa à pessoa dele, para conseguir que os legados que tinha enviado da cidade de Roma à corte, e igualmente os bispos que tinham sido exilados, e nós mesmos juntamente com eles, fôssemos revogados do exílio.
Mas desejo também que saibais que pedi ao irmão Fortunaciano, que [fizesse chegar] ao clementíssimo Imperador a minha carta, [que escrevi aos bispos orientais, para que eles também soubessem que eu, junto com eles, me separei da comunhão com Atanásio. Creio que sua piedade a receberá com alegria, por amor da paz. ...Reconheça a Vossa Caridade que fiz isto com ânimo benévolo e inocente. Por isso me dirijo a vós com a presente carta e vos conjuro por Deus onipotente e por Jesus Cristo, seu Filho, nosso Deus e Senhor, que vos digneis solicitar e requerer junto ao clementíssimo imperador] Constâncio Augusto que ele, belo bem da paz e da concórdia, em que sua piedade sempre se alegra, me faça retornar à Igreja a mim confiada por Deus, para que a Igreja de Roma não tenha de sofrer tribulação alguma durante o seu governo. ...


e) Carta “Non doceo”, a Vicêncio, ano 357

Acreditei dever comunicar à Tua Santidade que me retirei da discussão acerca da pessoa de Atanásio e que mandei uma carta relativa à sua pessoa aos nossos irmãos e coepíscopos orientais. Por isso, já que pela vontade de Deus nos foi dada por toda parte a paz, te dignarás visitar todos os bispos da Campânia e lhes dar a saber estas coisas. Juntamente com uma carta vossa, fazei chegar ao clementíssimo Imperador algum escrito por parte de alguns deles acerca da unanimidade e da paz conosco, para obter que também eu possa ser livrado da tristeza. ... Pois temos paz com todos os bispos orientais e convosco. ...

20 de maio de 2009

Símbolos da Fé - 5ª Parte

I CONCÍLIO DE NICÉIA (1º ECUMÊNICO): 19 JUN. – 25 AGO. 325


Este concílio dos “318 Padres”, convocado pelo imperador Constantino, o Grande, condenou sobretudo os arianos. Começou em 19 jun. (não em 20 mai.; Cf. E. Schwartz, in: Nachr. der Gesellsch. Göttingen [1904] 398; Turner 1/I/II [1904] 105: “XIII Kal. Iul”). Encontram-se conservados somente o Símbolo da fé, 20 cânones e uma carta sinodal.


SÍMBOLO NICENO, 19 JUN. 325

É contado entre as definições de fé mais significativas. O texto melhor é oferecido por Eusébio de Cesaréia, Carta aos seus diocesanos (PG 20, 1540BC); Atanásio de Alexandria, Carta ao Imperador Joviano, c. 3 (PG 26, 817B); De decretis Nicaenae synodi 37, § 2 (cf. a ed. infra citada de Opitz, 36); Basílio Magno, Carta 125, c. 2(PG 32, 548C). Os testemunhos textuais posteriores não valem como originários, por exemplo, o do Concílio de Calcedônia (ACOe 2/I/II, 79 16-23). O exemplo deste Concílio deu origem ao costume de redigir “Símbolos sinodais”. Entre as traduções latinas do Símbolo sobressaem por antiguidade as versões de Hilário de Poitiers, das quais vem aqui apresentada, ao lado do texto grego, a que consta da obra De Synodis 84 (PL 10, 36ª) (incluído o anatematismo).


[Versão grega]

Cremos em um só Deus, Pai onipotente, artífice de todas as coisas visíveis e invisíveis.

E em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado unigênito do Pai, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai, por meio do qual vieram a ser todas as coisas, tanto no céu como na terra;

o qual, por causa de nós homens e da nossa salvação, desceu e se encarnou, se en-humanou, padeceu, e ressuscitou ao terceiro dia, [e] subiu aos céus, havendo de vir julgar os vivos e os mortos;

e no Espírito Santo.


Aqueles, porém, que dizem: “Houve um tempo em que não era”, e: “Antes de ser gerado não era”, e que veio a ser do que não é, ou que dizem ser o Filho de Deus de uma outra hipóstase ou substância ou criado [-!], ou mutável ou alterável, anatematiza a Igreja católica.


[Versão latina]

Cremos em um só Deus, Pai onipotente, artífice de todas as coisas visíveis e invisíveis.

E em um só nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, nascido unigênito do Pai, isso é, da substância do Pai, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, nascido, não feito, de uma só substância com o Pai (o que em grego se diz homoúsion); por meio do qual foram feitas todas as coisas que no céu e as na terra;

o qual, por causa de nossa salvação desceu, se encarnou e se fez homem, e padeceu, e ressuscitou ao terceiro dia, e subiu aos céus, havendo de vir julgar os vivos e os mortos;

E no Espírito Santo.


Aqueles, porém, que dizem: “Houve um tempo em que não era” e: “Antes que nascesse não era”, e que foi feito do que não era, ou que dizem ser de outra substância ou essência, ou que Deus é mutável ou alterável, a eles anatematiza a Igreja católica.

18 de maio de 2009

Símbolos da Fé - 4ª Parte

SÍMBOLOS CONTIDOS EM COLEÇÕES ORIENTAIS DE CÂNONES


Síria e Palestina
Constitutiones Apostolorum, por volta de 380

Esta coleção grega de cânones pseudo-apostólico foi compilada ou na região siro-palestina ou em Constantinopla. O livro VIII remonta, na verdade, à Traditio apostólica de Hipólito de Roma (cf. *10), mas não assim o Símbolo contido no livro VII, c. 41, que parece ter estado em uso na Igreja do compilador.

E eu creio e sou batizado num só não gerado, o único verdadeiro Deus onipotente, o Pai do Cristo, criador e demiurgo de tudo, do qual tudo.
E no Senhor Jesus o Cristo, o seu Filho unigênito, o primogênito de toda a criação, o qual, antes dos séculos, pelo beneplácito do Pai, foi gerado, não feito; por meio do qual tudo veio a ser, tanto no céu como na terra, o visível e o invisível; o qual, nos últimos dias, desceu dos céus e assumiu carne, gerado da santa virgem Maria, e viveu retamente como cidadão segundo as leis de seu Deus e Pai, e foi crucificado sob Pôncio Pilatos e morreu por nós, e ressuscitou dos mortos ao terceiro dia, depois de ter sofrido, e subiu aos céus e está sentado à direita do Pai, e vem de novo, no término do século, com glória, para julgar vivos e mortos; e cujo reino não terá fim.
Eu sou batizado também no Espírito, isto é, o Paráclito, que operou em todos os santos desde sempre, posteriormente mandado também aos Apóstolos da parte do Pai, segundo a promessa do nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo, e depois dos apóstolos a todos os que, na santa Igreja católica e apostólica, crêem na ressurreição da carne e na remissão dos pecados, e no reino dos céus e na vida do século a chegar.


Testamentum Domini Nostri Iesu Christi

Trata-se de uma compilação de cânones e de textos litúrgicos tomados de Hipólito de Roma, oriunda da Síria por volta do séc. V. O livro II, c.8 contém um Símbolo da fé em forma interrogatória.

Crês em Deus Pai onipotente?
Crês também em Jesus Cristo, Filho de Deus, que vem do Pai, que está desde o princípio com o Pai, que nasceu de Maria virgem, pelo Espírito Santo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, morreu, ressuscitou ao terceiro dia, revivendo dos mortos, subiu aos céus, está sentado à direita do Pai e virá julgar os vivos e os mortos?
Crês também no Espírito Santo, na santa Igreja?


Egito
Constituições da Igreja egípcia

Cf. *3°, onde constam informações prévias e os títulos completos das edições.


a) Versão copta: profissão de fé depois do batismo

Tu crês no Senhor nosso, Jesus Cristo, Filho único de Deus Pai; que ele, admiravelmente, se fez homem por nós, numa unidade incomparável, pelo seu Espírito Santo, de Maria, a santa virgem, sem sêmen viril, e que em prol de nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e ao mesmo tempo morreu segundo a sua vontade pela nossa salvação, ressuscitou ao terceiro dia, livrou os prisioneiros, subiu aos céus, está sentado à direita de seu bom Pai nas alturas e vem de novo para julgar os vivos e os mortos, segundo sua revelação e seu reino.
E crês no Espírito Santo, bom e vivificante, que tudo purifica, na santa Igreja.


b) Versão etíope: profissão de fé depois do batismo

Crês no nome de Jesus Cristo, nosso Senhor, Filho único de Deus Pai, que ele, por milagre incompreensível, se fez homem, do Espírito Santo e da virgem Maria, sem sêmen viril, e que foi crucificado nos dias de Pôncio Pilatos, e ao mesmo tempo morreu segundo a sua vontade pela nossa salvação; e ressuscitou dos mortos ao terceiro dia, e livrou os prisioneiros e subiu aos céus, e sentou-se à direita do Pai e virá para julgar os vivos e os mortos segundo sua revelação e seu reino?
Crês no Espírito Santo, bom e que purifica, e na santa Igreja? E crês na ressurreição da carne, que aguarda todos os homens, e no reino dos céus, e no juízo eterno?


Cânones Hippolyti

Esta coleção de cânones, que remonta talvez já à metade do séc. IV, é uma reelaboração egípcia da Traditio apostólica de Hipólito de Roma (cf. *10). Dela são conservadas somente as traduções árabe e etíope. O Símbolo aqui apresentado se encontra na tradução árabe, cân. 19.

Crês em Deus Pai onipotente?
Crês em Jesus Cristo, Filho de Deus, que Maria virgem, do Espírito Santo, deu à luz, [que veio para salvar o gênero humano] que [em prol de nós] foi crucificado sob Pôncio Pilatos, que morreu e ressuscitou dos mortos ao terceiro dia e subiu aos céus, e está sentado à direita do Pai, e virá para julgar os vivos e os mortos?
Crês no Espírito Santo [, o Paráclito, que procede do Pai e do Filho]?


II. ESQUEMA BIPARTIDO TRINITÁRIO-CRISTOLÓGICO


Fórmula chamada “Fides Damasi”

Esta fórmula foi atribuída no passado a Damaso I ou a Jerônimo. Na realidade, surgiu no fim do séc. V, provavelmente na França meridional (como também os Símbolos *73s e 75s). Parece que inicialmente faltavam algumas palavras, particularmente “et Filio”(“e do Filho), referentes à processão do Espírito Santo: cf. A.E.Burn, I. c. infra 245, no aparato crítico à linha 9 (com base em manuscrito dos séculos VIII-X).

Cremos em um só Deus Pai onipotente e em um só Senhor nosso, Jesus Cristo, Filho de Deus, e em [um só] Espírito Santo, Deus. Não cultuamos e professamos três deuses, mas Pai e Filho e Espírito Santo um só Deus; não um só Deus no sentido de que seja solitário, nem que o mesmo que é em si Pai, ele mesmo seja também Filho, mas que o Pai é aquele que gerou, e o Filho, aquele que foi gerado, e o Espírito Santo, não gerado nem não-gerado, não criado nem feito, mas procedente do Pai e do Filho [-!], coeterno e co-igual e cooperador com o Pai e com o Filho, porque está escrito: “Pela palavra do Senhor os céus foram firmados”, isto é, pelo Filho de Deus, “ e pelo Espírito de sua boca, toda a sua força” [Sl 33,6], e alhures; “Envia teu Espírito, e serão criados, e renovarás a face da terra” [cf. Sl 104,30]. Por isto, no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, professamos um só Deus, pois [deus] é o nome do poder deus [-!], não da propriedade. O nome próprio para o Pai é Pai, o nome próprio para o Filho é Filho, o nome próprio para o Espírito Santo é Espírito Santo. E, nesta Trindade, cremos um só Deus, pois o que é de uma só natureza e de uma só substância e de um só poder com o Pai do único Pai. O Pai gerou o Filho, não pela vontade ou pro necessidade, mas por natureza.
O Filho, no último tempo, desceu do Pai para nos salvar e para cumprir as Escrituras, ele que jamais cessou de estar com o Pai, e foi concebido do Espírito Santo e nasceu de Maria [-!] virgem, assumiu uma carne, uma alma, uma inteligência, isto é, um homem perfeito; não renunciou ao que era, mas começou a ser o que não era; porém de modo que fosse perfeito no seu e verdadeiro no . De fato, ele que era Deus nasceu como homem, e aquele que nasceu como homem atua como Deus; e aquele que atua como Deus morre como homem, e aquele que morre como homem ressurge [surge] como Deus. Ele que, vencido o domínio da morte com aquela carne na qual tinha nascido, sofrido e morrido, ressuscitou ao terceiro dia [-!], subiu ao Pai e está sentado à sua direita, na glória que sempre teve e tem. Cremos que nós, purificados na sua morte e sangue, haveremos de ser ressuscitados por ele, no último dia, nesta carne na qual agora vivemos, e temos a esperança de que dele haveremos de alcançar ou a vida eterna como recompensa do bom mérito, ou a pena do suplício eterno pelos pecados. Lê estas coisas, guarda-as, submete tua alma a esta fé. Do Cristo Senhor obterás e a vida, e a recompensa [as recompensas].


Símbolo “Clemens Trinitas”

Esta fórmula foi chamada também “Fides catholica Sancti Augustini episcopi” (Codex Augiensis [de Reichenau] XVIII, séc. IX, ed. KüBS). Teve origem no séc. V/VI na França meridional e foi depois introduzida na Espanha.

A Trindade clemente é uma só divindade. Por isso, Pai e Filho e Espírito Santo é uma só fonte, uma só substância, uma só força, um só poder. Dizemos que o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus, não três deuses, mas professamos com toda piedade um só . Pois, nomeando três pessoas, professamos com voz católica e apostólica que somente uma é a substância. Portanto, Pai e Filho e Espírito Santo, e “os três são um só” [cf. IJo 5.7]. Três, não confusos nem separado, mas distintamente unidos e unidamente distintos; unidos quanto à substância, mas distintos quanto aos nomes, unidos quanto à natureza, distinto quanto às pessoas, iguais quanto à divindade, semelhantes na majestade, concordes na Trindade, partícipes no esplendor. Eles são um, num modo tal que não devemos duvidar que são também três; são três, num modo tal que devemos dizer que não se podem separar entre si. Pelo que não há dúvida de que a injúria a um é insulto a todos, já que o louvor de um concerne à glória de todos.

“Isto é, pois o ponto principal de nossa fé segundo a doutrina evangélica e apostólica: que Jesus Cristo, Senhor nosso e Filho de Deus, não se separa do Pai, nem pelo reconhecimento da honra, nem pelo poder da força, nem pela divindade da substância, nem pela diferença de tempo”. E por isso, se alguém diz que o Filho de Deus, que é tão verdadeiramente Deus como é verdadeiro homem, porém sem pecado, tenha tido alguma coisa a menos quanto à humanidade ou quanto a divindade, deve ser considerado ímpio e estranho à Igreja católica e apostólica.


Símbolo pseudo-atanasiano “Quicumque”

Entre os estudiosos predomina a convicção de que o autor deste Símbolo não é Atanásio de Alexandria, mas deve ser procurado entre os teólogos do Ocidente. A maioria dos manuscritos mais antigos alega como autor Atanásio, outros, o Papa Anastásio I. Mas como não remontam a um período anterior ao séc. VIII, com razão se questiona sua confiabilidade. Os textos gregos ainda existentes são traduções do latim, não vice-versa; por este motivo não são aduzidos aqui. Entre os possíveis compositores deste Símbolo são mencionados particularmente: Hilário de Poitiers, + ca. 367 (assim M. Speroni); Ambrósio de Milão, + 397 (H. Brewer, B. Schepens, A. E. Burn 1926); Nicetas de Remesiana, + ca. 414 (M. Cappuyns, cf. *19); Honorato de Arles, + 429 (Burn 1896); Vicente de Lérins, + antes de 450 (G.D.W. Ommaney); Fulgêncio de Ruspe, + 532 (I. Stiglmayr); Cesário de Arles, + 543 (G. Morin antes de 1932); Venâncio Fortunato, + ca. 601 (L.A. Muratori). A hipótese de uma origem hispânica antiprisciliana (K. Künstle) atualmente não é mais sustentada, prevalecendo a opinião de que este Símbolo tenha surgido, entre 430 e 500, no sul da Gália, possivelmente na região de Arles, por obra de um autor desconhecido. No decorrer do tempo, este Símbolo adquiriu tal autoridade, no Ocidente como no Oriente, que na Idade Média chegou a ser equiparado aos Símbolos apostólico e niceno e a ser usado na liturgia.

(1) Todo o que quiser ser salvo, antes de tudo é necessário que mantenha a fé católica; (2) se alguém não a conservar íntegra e inviolada, sem dúvida perecerá para sempre.
(3) A fé católica é que veneramos um só Deus na Trindade e a Trindade na unidade, (4) não confundindo as pessoas, nem separando a substância; (5) pois uma é a pessoa do Pai, outra a [pessoa] do Filho, outra a [pessoa] do Espírito Santo; (6) mas uma só é a divindade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, igual a glória, coeterna a majestade.
(7) Qual o Pai, tal o Filho, [e] tal o Espírito Santo: (8) incriado o Pai, incriado o Filho, incriado o Espírito Santo; (9) incomensurável o Pai, incomensurável o Filho, incomensurável o Espírito Santo; (10) eterno o Pai, eterno o Filho, eterno o Espírito Santo; (11) e, no entanto, não três eternos, mas um só eterno; (12) como também não três incriados nem três incomensuráveis, mas um só incriado [incomensurável] e um só incomensurável [incriado]. (13) Semelhante, onipotente o Pai, onipotente o Filho, onipotente o Espírito Santo; (14) e, no entanto, não três onipotentes, mas um só onipotente. (15) Assim Deus o Pai, Deus o Filho, Deus o Espírito Santo; (16) e, no entanto, não três deuses, mas um só Deus. (17) Assim, Senhor o Pai, Senhor o Filho, Senhor o Espírito Santo, (18) e, no entanto não três Senhores, mas um só é [-!] o Senhor: (19) pois, como somos obrigados pela verdade cristã a professar cada pessoa em sua singularidade como Deus e Senhor, (20) assim a religião católica nos proíbe falar de três Deuses e Senhores.
(21) O Pai não foi feito por ninguém, nem criado nem gerado; (22) o Filho é só pelo Pai, nem feito nem criado, mas gerado; (23) o Espírito Santo <é> do Pai e do Filho, nem feito, nem criado, nem gerado, mas procedente. (24) Portanto, um só Pai, não três Pais; um só Filho, não três Filhos; um só Espírito Santo, não três Espíritos Santos. (25) E [-!] nesta Trindade nada é antes ou depois, nada maior ou menor, (26) mas todas as três pessoas são entre si coeternas e coiguais. (27) De modo que, em tudo, como já foi dito acima, deve ser venerada e a unidade na Trindade e a Trindade na unidade [a Trindade na unidade e a unidade na Trindade]. (28) Quem, pois, quiser ser salvo pense assim a respeito da Trindade.
(29) Mas é necessário para a salvação eterna que também creia fielmente na encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo. (30) É, portanto, reta fé que creiamos e professemos que nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, é Deus e homem [tanto Deus como igualmente homem]: (31) é Deus gerado antes dos séculos da substância do Pai, e é homem nascido no século da substância da mãe; 932) perfeito Deus, perfeito homem, subsistente de alma racional [dotada de razão] e carne humana; (33) igual ao Pai segundo a divindade, inferior ao Pai segundo a humanidade; (34) ele, apesar de ser Deus e homem, contudo não é dois mas um só Cristo; (35) um só, porém não pela transformação da divindade em carne [na carne], mas pela assunção da humanidade em Deus; (36) absolutamente um só não por confusão da substância mas pela unidade da pessoa. (37) Pois, como o homem uno é alma racional [dotada de razão] e carne, assim o Cristo uno é Deus e homem. (38) Ele padeceu pela nossa salvação, desceu aos infernos, ao terceiro dia [-!] ressurgiu dos mortos, (39) subiu aos céus, está sentado [sentou-se] à direita do Pai, de onde virá para julgar os vivos e os mortos. (40) À sua vinda, todos os homens devem ressuscitar com [em] seus corpos e hão de prestar contas de suas ações; (41) e os que fizeram o bem irão para a vida eterna, aqueles, porém [-!], que o mal, para o fogo eterno.
(42) Esta é a fé católica; se alguém não crer nela fiel e firmemente, não poderá ser salvo.

11 de maio de 2009

Símbolos da Fé - 3ª Parte

FÓRMULAS INTERROGATÓRIAS BREVES DO SÍMBOLO BATISMAL


SACRAMENTARIUM GELASIANUM

Apresenta a praxe litúrgica romana por volta do séc. VI, mas a sua fórmula batismal (livro I, 44) data de um período mais antigo.

Crês em Deus Pai onipotente [OR MA: , o criador do céu e da terra]?
Crês também [MA: e] em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, que nasceu e padeceu?
Crês também no Espírito Santo, a santa Igreja [OR MA: católica] a remissão dos pecados, a ressurreição da carne [OR MA: , a vida eterna]?


FÓRMULAS ORIENTAIS

São apresentados os Símbolos batismais das Igrejas da Síria, Palestina, Ásia Menor e Egito. Aqui não é considerada a reconstituição da forma que se convencionou chamar “O” (a equivalente da forma “R” ocidental), que na opinião de alguns estudiosos, é considerada a base dos Símbolos orientais.


SÍMBOLOS LOCAIS

Entre os Símbolos aqui apresentados, os de Cesaréia e de Jerusalém (talvez também os de Macário, o Egípcio), têm forma pré-nicena, mesmo que os documentos que os transmitem não remontem a tempos anteriores ao Concílio de Nicéia. Nos outros Símbolos foram acrescentados alguns elementos da teologia nicena, sem que isso tenha modificado fortemente sua versão original.


Cesaréia da Palestina, fim do séc. III
Eusébio, bispo de Cesaréia: Carta à sua diocese, ano 325

Dado que Eusébio afirma ter sido batizado com esta fórmula, o Símbolo por ele apresentado pode datar da metade do séc. III. O Concílio de Nicéia, ao qual Eusébio o apresentou para que fosse confirmado, colheu deste Símbolo alguns elementos para a confecção do seu próprio Símbolo.

Cremos em um só Deus, Pai onipotente, artífice de todas as coisas visíveis e invisíveis, e em um só Senhor Jesus Cristo, o Verbo de Deus, Deus de Deus, luz da luz, vida da vida, Filho unigênito, primogênito de toda criatura, gerado antes de todos os séculos pelo Pai; e por meio do qual tudo veio a ser; o qual se encarnou pela nossa salvação e viveu como cidadão entre os homens, e padeceu e ressuscitou ao terceiro dia, e subiu ao Pai, e virá de novo em glória para julgar os vivos e os mortos.
Cremos também em um só Espírito Santo.


Jerusalém, meados do séc. IV
Cirilo, bispo de Jersusalém: Catequese VI-XVIII, por volta do ano 348

O texto do Símbolo foi recolhido de diversos trechos das Catequeses; por isso, às vezes é reconstituído de outro modo. Segundo J.G. Davies (VigChr9[1955]218-221), deve-se ler “desceu”, em analogia a “subiu”. Cirilo rejeitou o conceito niceno de “homoousios” por julgá-lo suspeito de sabelianismo.

Cremos em um só Deus Pai onipotente, artífice do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis, [e] em um só Senhor, Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus, Deus verdadeiro gerado do Pai antes de todos os séculos, por meio do qual tudo veio a ser, o qual [desceu e se encarnou e] se en-humanou, foi crucificado [e sepultado] e ressuscitou [dos mortos] ao terceiro dia, e subiu aos céus, e sentou-se à direita do Pai, e vem com glória para julgar os vivos e os mortos; cujo reino não terá fim.
[E] num só Espírito Santo, o Paráclito, que falou por meio dos profetas; e num só batismo de conversão para a remissão dos pecados, e numa só santa Igreja católica, e na ressurreição da carne, e na vida eterna.


Ásia Menor (localidade incerta), fim do séc. IV
Epifânio, bispo de Salamina: Ancoratus, ano 374

Nesta obra encontram-se duas fórmulas do Símbolo, a primeira mais breve, a outra mais longa. A forma breve (c. 118, 9-13), que é muito próxima do Símbolo constantinopolitano (*150), foi intercalada por um copista tardio no Símbolo niceno que Epifânio originariamente apresentava aqui: B.M. Weischer, Qêrellos IV: Traktate dês Epiphanius von Zypern und des Proklos von Kyzikos (Äthiopische Forschungen t; Wiesbaden 1979)49-51. A forma longa (c. 119, 3-12) era destinada ao uso na catequese ou como Símbolo batismal para os hereges e tem a forma do Símbolo niceno, ampliado pelo próprio Epifânio. Não é único no seu gênero, encontrando-se versões muito semelhantes no Símbolo Hermeneia (cf. *46) e no grande Símbolo armênio (cf. *48).

a) Forma breve

Cremos em um só Deus, Pai onipotente, artífice do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.
E em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos, isto é, da essência do Pai, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai, por meio do qual tudo veio a ser, tanto o que há no céu como na terra; o qual, por causa de nós homens e da nossa salvação, desceu dos céus e se encarnou do Espírito Santo e Maria, a virgem, e se en-humanou, foi crucificado por nós sob Pôncio Pilatos e padeceu, e foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e subiu aos céus, e está sentado à direita do Pai, e vem de novo com glória para julgar os vivos e os mortos; cujo reino não terá fim.
e no Espírito Santo, o Senhor e vivificante, que procede do Pai, que com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, que falou por meio dos profetas; em uma só santa Igreja católica e apostólica; reconhecemos um só batismo para a remissão dos pecados, aguardamos a ressurreição dos mortos e a vida do século vindouro. Amém.

Aqueles, porém, que dizem: “Houve um tempo em que ele não existia” e: “Antes de ser gerado, não existia”, ou então que veio a ser do nada, ou então que é de uma outra hipóstase ou substância, ou que o Filho de Deus é mutável ou alterável, a eles anatematiza a Igreja católica e apostólica.

b) Forma longa

Cremos em um só Deus Pai onipotente, artífice de todas as coisas visíveis e invisíveis, e em um só Senhor, Jesus Cristo, o Filho de Deus, unigênito, gerado de Deus Pai, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai; por meio dele todas as coisas vieram a ser, tanto no céu como na terra, as visíveis e as invisíveis; o qual, por causa de nós homens e da nossa salvação, desceu e se encarnou, isto é, foi gerado perfeitamente da santa Maria, a sempre virgem, por meio do Espírito Santo; en-humanou-se, isto é, assumiu o homem perfeito, alma e corpo e mente e tudo que seja um homem, fora o pecado; não do sêmen do varão, nem em um ser humano, mas em si, plasmou carne para uma só santa unidade; não do modo como inspirou, falou e operou nos profetas, mas en-humanou-se perfeitamente (“pois o Verbo veio a ser carne”, não sujeitou a mudança, nem transformando sua divindade em humanidade), unificando em uma só a sua santa perfeição e a divindade (pois um só é o Senhor Jesus Cristo e não dois; ele mesmo Deus, ele mesmo Senhor, ele mesmo rei); ele mesmo sofreu na carne, e ressuscitou, e subiu aos céus com esse mesmo corpo, sentou-se na glória à direita do Pai e virá com o mesmo corpo na glória para julgar os vivos e os mortos; cujo reino não terá fim.
Cremos também no Espírito Santo, que falou na Lei, pregou nos Profetas e desceu sobre o Jordão; fala nos Apóstolos, habita nos santos; cremos nele neste sentido, que ele é Espírito santo, Espírito de Deus, Espírito perfeito, Espírito Paráclito, incriado, que procede do Pai e é recebido do Filho e é crido; cremos em uma só Igreja católica e apostólica, em um só batismo de conversão, na ressurreição dos mortos e o justo juízo de alma e corpos, no reino dos céus e na vida eterna.

Aqueles, porém, que dizem que houve um tempo em que não existia o Filho ou o Espírito Santo, ou que vieram a ser do que não existia ou de outra hipóstase ou substância, afirmando ser mutável ou alterável o Filho de Deus ou o Espírito Santo, a eles anatematiza a Igreja católica e apostólica, Mãe vossa e nossa; e anatematizamos ainda aqueles que não confessam a ressurreição dos mortos, bem como todas as heresias, que não são desta reta fé.


Hermeneia [pseudo?-]atanasiana do Símbolo

A Hermeneia, ou interpretação do Símbolo, foi pela tradição atribuída a Atanásio de Alexandria (+373), mas hoje, geralmente, lhe é negada. É muito semelhante às formas longas do Símbolo de Epifânio e do Símbolo armênio. Sobre a questão da dependência mútua dos três Símbolos há diversas opiniões. Uns afirmam que a Hermeneia deriva do Símbolo de Epifânio e, do séc. VII em diante, foi a base do Símbolo armênio maior; outros, ao contrário, invertem a ordem da dependência (cf. *48°).

Cremos em um só Deus Pai onipotente, artífice de todas as coisas visíveis e invisíveis.
E em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado do Pai, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai; por meio do qual vieram a ser todas as coisas, tanto no céu como na terra, as visíveis e as invisíveis; o qual, por causa de nós homens e da nossa salvação desceu, encarnou-se, en-humanou-se, isto é, gerado perfeitamente de Maria, a sempre virgem, por obra do Espírito Santo, possui, verdadeiramente e não só em aparência, corpo e alma e mente e tudo quanto é dos homens, menos o pecado; padeceu, isto é, foi crucificado, sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, e subiu aos céus nesse mesmo corpo; sentou-se na glória à direita do Pai, vem nesse mesmo corpo, na glória, para julgar os vivos e os mortos; cujo reino não terá fim.
E cremos no Espírito Santo, que não é estranho ao Pai e ao Filho, mas consubstancial ao Pai e ao Filho, o incriado, o perfeito, o Paráclito, que falou na Lei e nos Profetas e nos [Apóstolos e] Evangelhos, desceu sobre o Jordão, será pregado [pregou] ao Apóstolos, habita nos santos. E cremos nesta única uma só Igreja católica e apostólica [-!], em um só batismo de conversão e de remissão dos pecados, na ressurreição dos mortos, no juízo eterno das almas e dos corpos, no reino dos céus e na vida eterna.

Aqueles, porém, que dizem que houve um tempo em que não existia o Filho, ou que houve um tempo em que não existia o Espírito Santo, ou que foi feito do que não existe ou de uma outra hipóstase ou substancial, afirmando ser o Filho de Deus ou o Espírito Santo mutável ou alterável, a eles anatematizamos, porque os anatematiza a nossa católica Mãe e apostólica Igreja; e anatematizamos todos aqueles que não reconhecem a ressurreição da carne [dos mortos], e cada heresia, isto é, aqueles que não são desta fé da santa e única Igreja católica.


Símbolo maior da Igreja armênia

Este Símbolo, segundo A. Ter-Mikelian, era usado não para o batismo (como a forma breve *6), mas no contexto da liturgia eucarística. O texto original, indubitavelmente grego, se perdeu, mas pode ser reconstituído com suficiente segurança por retroversão do texto armênio. Pequenas divergências na reconstrução derivam do fato de os armênios unidos à Igreja Romana usarem uma forma que alguns pontos se diferencia da forma usada pelos ortodoxos armênios. Foi introduzido, p. ex., o “Filioque”. O texto grego principal, aqui apresentado, corresponde amplamente à reconstituição grega feita a partir da tradução alemã muito rigorosa do texto armênio por F.X. Steck, Die Liturgie der Katholischen Armenier (Tübingen 1845) 43; com indicação [entre colchetes] das variantes importantes propostas por Ter-Mikelian e Hort. – Acerca da origem deste símbolo, os pareceres divergem notavelmente. Alguns afirmam que é mais antigo que o Símbolo longo de Epifânio (*44s) e que foi, da Capadócia, introduzido na Armênia, pela metade do séc. IV. Outros o consideram simplesmente uma forma mais recente e inferior da hermeneia (*46s), que se tornou de uso comum na Armênia a partir do séc. VII: cf. G. Winkler, A Remarkable Shift in the 4th Century Creeds. An Analysis of the Armenian, Syriac and Greek Evidence, in: Studia Patrística 17/III (Oxford 1982) 1396-1401.

Cremos em um só Deus Pai onipotente, artífice do céu e da terra, das coisas visíveis e invisíveis.
E em um só Senhor, Jesus Cristo, o Filho de Deus, unigênito, [o] gerado do Pai [isto é, da substância do Pai] antes de todos os séculos [-!], Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai; por meio do qual vieram a ser todas as coisas, tanto no céu [nos céus] como na terra, as visíveis e as invisíveis; o qual, por causa de nós homens e da nossa salvação, desceu dos céus, se encarnou, se en-humanou [, gerado] perfeitamente de Maria, a santa Virgem, por meio do Espírito Santo; dela assumiu carne, mente, alma [desta corpo e alma e mente] e tudo o que há no homem [um homem é], verdadeiramente e não em aparência; padeceu, foi crucificado, sepultado, ressuscitou ao terceiro dia e subiu ao céu [aos céus] com este mesmo corpo, sentou-se à direita do Pai, vem com este mesmo corpo e na glória do Pai para julgar os vivos e os mortos; cujo reino não terá fim.
[E] cremos no Espírito Santo, incriado, perfeito, que falou por meio da Lei e dos Profetas e dos Evangelistas [na Lei, nos Profetas e nos Evangelhos] e que desceu ao Jordão, pregou o Apóstolo [aos Apóstolos] e habitou [habita] nos santos. E cremos em uma só Igreja católica e apostólica, em um só batismo para a conversão, na dispensa [expiação(?)] e remissão dos pecados, na ressurreição dos mortos, no juízo do século [eterno] de almas e corpos, no reino dos céus e na vida eterna.

Aqueles, porém, que dizem: “Houve um tempo no qual não existia o Filho de Deus [-!]”, ou então: “Houve um tempo em que não existia o Espírito Santo” ou afirmam que o Filho de Deus ou também [-!] o Espírito Santo vieram a ser [veio a ser] do que não existe ou de uma outra hipóstase ou substância, e que são mutáveis ou alteráveis [é mutável ou alterável], a eles anatematiza a Igreja católica e apostólica.


Antioquia, fim do séc. IV
Símbolo batismal de Antioquia (fragmentos)

Deste Símbolo batismal, distinto daquele do sínodo de 341 contra Atanásio de Alexandria, foram conservados três fragmentos, nos três seguintes autores: [A] Eusébio, (posteriormente) bispo de Dorileu, [B] João Cassiano e [C] João Crisóstomo.

[Cremos em um só e único Deus verdadeiro, Pai onipotente, artífice de todas as coisas visíveis e invisíveis.
e em nosso Senhor Jesus Cristo, seu Filho unigênito e primogênito de toda a criação, gerado por ele antes de todos os séculos, não feito,]

[A:] Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, consubstancial ao Pai, por meio do qual e os céus foram ordenados, e todas as coisas vieram a ser; o qual, por causa de nós veio [desceu] e foi gerado de Maria, a santa [sempre] virgem, e foi crucificado sob Pôncio Pilatos, [e foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e subiu aos céus e virá de novo para julgar os vivos e os mortos...]

[C:] e na remissão dos pecados, e [n]a ressurreição dos mortos e na vida eterna.

[B:] Creio em um só e único Deus verdadeiro, Pai onipotente, criador de todas as criaturas visíveis e invisíveis.
E em nosso Senhor Jesus Cristo, seu Filho unigênito e primogênito de todo o ser criado, nascido dele antes de todos os séculos, e não feito.
Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, consubstancial ao Pai, por meio do qual e os séculos foram ordenados, e todas as coisas foram feitas: o qual por causa de nós veio e nasceu de Maria virgem, e foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e foi sepultado, e ao terceiro dia ressuscitou, segundo as Escrituras, e subiu aos céus e virá de novo para julgar os vivos e os mortos...


Mopsuéstia da Cilícia, fim do séc. IV
Teodoro, bispo de Mopsuéstia: Catequeses I-X, entre 381 e 392

A forma apresentada por Teodoro, segundo ele mesmo testemunha, foi ampliada sob a influência do Concílio de Constantinopla e do seu Símbolo.

Cremos em um só Deus Pai onipotente, artífice de todas as coisas visíveis e invisíveis.
E em um só Senhor, Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus, o primogênito de toda a criação, gerado pelo seu Pai antes de todos os séculos, não feito, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, consubstancial ao seu Pai; por meio do qual foram ordenados os séculos e tudo veio a ser, o qual, por causa de nós homens e da nossa salvação, desceu dos céus e se encarnou, e se fez homem, gerado de Maria, a virgem; e, crucificado sob Pôncio Pilatos, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e subiu aos céus, está sentado à direita de Deus, e de novo vem para julgar os vivos e os mortos.
E em um só Espírito Santo, que procede do Pai, Espírito vivificante; professamos um só batismo, uma só santa Igreja católica, a remissão dos pecados, a ressurreição da carne e a vida eterna.


Egito, metade do séc. IV
Apotegmas de Macário, o Grande

Num manuscrito vienense (séc. IX) dos apophtegmata Patrum e nos manuscritos gregos de Paris nn. 1627 e 1628 (séc. XIII e XIV) da Historia Lausiaca de Paládio de Helenópolis, está consignada uma historieta de Macário, o Egípcio ou o Grande (ca. 300-390), na qual é recitado o Símbolo. Sua forma é provavelmente local egípcia, e substancialmente já pré-nicena. Elementos nicenos foram acrescentados mais tarde. Pelo fim, porém, uma paráfrase um tanto livre do Símbolo substitui a forma oficial. Enquanto E. Preuschen considera esta historieta parte autêntica do c. 19 da Historia Lausiaca, C. Butler nega-o em sua edição crítica dessa obra (The Lausiac History of Palladius 2 [Cambridge 1904] 194s, nota 28). Em vista disso, nem ele, nem os editores ulteriores (A. Lucot [Paris 1912]; Ramón y Arrufat [Barcelona 1927]) trazem o texto do Símbolo.

Creio em um só Deus Pai onipotente
E no seu Verbo consubstancial, por meio do qual ele fez os séculos; o qual, no término dos séculos, para abolição do [de] pecado, veio residir na carne que para si preparou da santa Virgem Maria [; o qual se encarnou da santa Virgem e ]; o qual [-!] foi crucificado por nós, e morreu, e foi sepultado, [-!] e ressuscitou ao terceiro dia, [e subiu aos céus,] e sentou-se à direita do [Deus e] Pai, e de novo virá no século vindouro [-!] para julgar vivos e mortos.
E no Espírito Santo, consubstancial ao Pai e a seu Verbo [ao Verbo de Deus]. Creiamos [!] porém [!] também na ressurreição de alma e corpo [dos mortos], como diz o Apóstolo: “[Semeia-se na corrupção, ressuscita-se na glória,] semeia-se um corpo psíquico, ressuscita um corpo espiritual]” [cf. I Cor 15,42-44].

4 de maio de 2009

Símbolos da Fé - 2ª Parte

PROFISSÕES DE FÉ ARTICULADAS

ESQUEMA TRIPARTIDO TRINITÁRIO

A estrutura gramatical dos Símbolos deste esquema corresponde à tríplice pergunta do batismo acerca da fé na Trindade divina. São compostos de três partes principais, referindo-se a cada pessoa divina. É difícil a conexão dos artigos que exprimem a fé na Igreja, na remissão dos pecados, na ressurreição etc. Geralmente ligam-se aos artigos sobre o Espírito Santo. Tal explicação, porém, não leva em conta o desenvolvimento histórico. Como fica claro a partir dos Símbolos simples, estes artigos primeiro tinham um lugar próprio, ao lado daqueles sobre as três pessoas divinas. Depois que as secções trinitárias foram desenvolvidas e ampliadas, original caráter de acréscimo ficou esfumado ou ocultado. Do ponto de vista histórico, portanto, é melhor entender estes artigos como “apêndice” ou “cláusula final” de um Símbolo tripartido. Não obstante, os textos dos Símbolos são aqui apresentados como o requer a estrutura gramatical.


FÓRMULAS OCIDENTAIS

SÍMBOLO DOS APÓSTOLOS

Este nome designa uma determinada fórmula de fé que por muitos foi tida como composta pelos próprios Apóstolos e que, por isso, gozava de maior autoridade. Os indícios mais antigos dessa convicção se encontram no fim do séc. IV: cf. a carta do Sínodo de Milão (presidido por Ambrósio), mandada em 390 ao Papa Sirício, na qual aparece pela primeira vez o nome “Símbolo dos Apóstolos.
O Símbolo se desenvolveu em duas formas: a forma mais antiga, romana (designada com “R”), foi introduzida em Roma e se encontra em grego e em latim. A forma mais recente é o texto geralmente aceito(“T”), que provavelmente se formou pelo séc. VII na Gália meridional e que mais tarde foi introduzido também em Roma. Em seguida, também o resto da Igreja latina acolheu a forma “T”. Com a publicação do Catecismo Romano (1566) e do Breviário Romano (1568) se pôs fim à evolução.


Roma, início do séc. III (forma paralela ou próxima a “R”)
Hipólito de Roma: Traditio Apostolica (versão latina)

Hipólito de Roma (presbítero; de 217 a 235 antibispo) escreveu, em 215 ou 217, a obra Traditio apostolica. O texto original grego foi perdido; há porém compilações orientais de cânones nos quais a obra está contida em parte, embora com ampliações ou lacunas: as Constituições da Igreja Egípcia, os Canones Hippolyti, as Constitutiones Apostolorum VIII e o Testamentum Domini Nostri Iesu Christi. No Ocidente, foi conservada somente uma tradução latina, fragmentária, mas fidedigna, no código palimpsesto de Verona LV 53 (por volta do ano 400). A profissão de fé nele contida está em forma interrogatória, mais antiga que a proclamatória. A primeira parte do Símbolo, cheia de lacunas, pode ser completada com os Canones Hippolyti. Esta versão não se pode fazer derivar da forma romana antiga que conhecemos, mas talvez tenha uma raiz comum subjacente.

[Crês em Deus Pai onipotente?]
Crês em Jesus Cristo, Filho de Deus, que nasceu do Espírito Santo, da Virgem Maria,
e foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e morreu, e foi sepultado, e ao terceiro dia ressuscitou vivo dos mortos, e subiu aos céus, e está sentado à direita do Pai, e virá para julgar os vivos e os mortos?
Crês no Espírito Santo e a santa Igreja e a ressurreição da carne?


Roma, séc. III (“forma romana antiga” = “R”):
Saltério do rei Etelstano

Símbolo da fé incluído como conclusão do saltério num livro litúrgico monástico do início do séc. IX, escrito em grego com caracteres anglo-saxões. O Símbolo faz parte das formas mais antigas do tipo “R”.

Creio em Deus Pai [- !] onipotente,
e em Cristo Jesus, seu Filho unigênito, nosso Senhor,
que nasceu do Espírito Santo e Maria Virgem,
que sob Pôncio Pilatos foi crucificado e sepultado, e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos, subiu aos céus e está sentado à direita do Pai, de onde vem para julgar os vivos e os mortos:
e em Espírito Santo [no Santo Espírito], a santa Igreja, a remissão dos pecados, a ressurreição da carne [, a vida eterna].


Codex Laudianus

O códice Laudiano grego 35 (séc. VI-VII), conhecido como códice “E” dos Atos dos Apóstolos, pelo fim contém um símbolo da fé, latino, da forma “R”.

Creio em Deus Pai onipotente,
e em Cristo Jesus [Jesus Cristo], seu único Filho, nosso Senhor,
que nasceu do Espírito Santo e Maria Virgem,
que sob Pôncio Pilatos foi crucificado e sepultado, ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu nos [aos] céus,está sentado [sentou-se] à direita do Pai, de onde virá julgar os vivos e os mortos:
e no Espírito Santo, a santa Igreja [Católica], a remissão dos pecados, a ressurreição da carne.


Milão, fim do séc. IV (forma “R” modificada):
Ambrósio, bispo de Milão: Explanatio Symboli

Esta Explanatio foi desenvolvida por um escriba que a colheu da boca de Ambrósio (+ 397). A afirmação do autor de ter transcrito o Símbolo romano não deve ser tomada muito rigorosamente; ele não tem em vista uma transcrição literal, mas só o segundo sentido.

Creio em Deus Pai onipotente,
e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, que nasceu do Espírito Santo, de Maria Virgem, padeceu sob Pôncio Pilatos, morreu e foi sepultado, ao terceiro ressuscitou dos mortos, subiu aos céus, está sentado à direita do Pai, de onde virá julgar os vivos e os mortos;
e no Espírito Santo, a santa Igreja, a remissão dos pecados e a ressurreição da carne.


Agostinho: Sermão 213 (= Sermo Guelferbytanus 1), na entrega do Símbolo


Aurélio Agostinho, bispo de Hipona (396-430), nos dá a conhecer profissões de fé de diversos tipos [[em linguagem técnica: “formas”]]. Os sermões 212-214, se bem que pronunciados em Hipona, apresentam a forma oriunda de Milão. O sermão 215 traz a forma de Hipona. O sermão 214, do ano 391 ou 392, é o mais antigo. No Liber de Fide et Symbolo, Agostinho não oferece a forma exata do símbolo, como ele mesmo diz nas Retractationes I, 16. Seguimos como texto principal o sermão 213, chamado, segundo o manuscrito mais antigo, Sermo Guelferbytanus, sendo assinaladas [entre colchetes] as diferenças com os sermões 212 e 214.

Creio em Deus Pai onipotente,
e em Jesus Cristo seu único filho, nosso Senhor, que nasceu do Espírito Santo e da Virgem Maria [212 214: de Maria Virgem], [212 214: padeceu] sob Pôncio Pilatos [,] foi crucificado e sepultado, ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu aos céus, sentou-se à direita do Pai, de onde virá julgar os vivos e os mortos:
e no Espírito Santo, na [212 214: a] santa Igreja, a remissão dos pecados, a ressurreição da carne.


Ravena, séc V (forma “R” modificada)
Pedro Crisólogo: Sermões 57-62

Nos sermões 57-62 de Pedro Crisólogo, bispo de Ravena (433-458), nos é transmitido o Símbolo inteiro. Apresenta, contudo, ligeiras variantes.

Creio em Deus Pai onipotente,
e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, que nasceu do Espírito Santo, de Maria virgem, que sob Pôncio Pilatos foi crucificado e sepultado, ao terceiro dia ressuscitou dos mortos [58 60 61:-!], subiu aos céus [62: nos céus], está sentado à direita do Pai, de onde virá julgar os vivos e os mortos:
Creio [60: Cremos] no Espírito Santo, a santa Igreja [62: católica], a remissão dos pecados, a ressurreição da carne, a vida eterna [61: -!].


Aquiléia, fim do séc. IV (forma “R” modificada)
Tirânio Rufino: Expositio (ou Comentarius) in symbolum

O autor escreve por volta do ano 404. Na explanação do Símbolo de sua cidade natal, Aquiléia, presta conta dos raros pontos em que este diverge do Símbolo romano. A fórmula da descida aos infernos, inicialmente difundida entre os semi-arianos, aparece aqui, pela primeira vez, num Símbolo não ariano.

Creio em Deus Pai onipotente, invisível e impassível,
e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, que nasceu do Espírito Santo, de Maria virgem, crucificado sob Pôncio Pilatos e sepultado, desceu aos infernos, ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu aos céus, está sentado à direita do Pai, de onde virá julgar os vivos e os mortos:
e no Espírito Santo, a santa Igreja, a remissão dos pecados, a ressurreição desta carne.


Florença, séc. VII (forma “R” modificada)
Missal e sacramentário florentino

O livro data do séc. VII e contém um tratado sobre o Símbolo.

Creio em Deus Pai onipotente,
e em Jesus Cristo, seu único filho, nosso Senhor, nascido do Espírito Santo e de Maria virgem, sob Pôncio Pilatos foi crucificado e sepultado, ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu ao céu, está sentado à direita do Pai, de onde virá julgar os vivos e os mortos;
e no Espírito Santo, na santa Igreja, na remissão dos pecados, a ressurreição da carne.


Mésia, ou Dácia, séc. IV (forma “R” ampliada)
Nicetas, bispo de Remesiana: Explicação do Símbolo

Esta explicação encontra-se no livro V da obra fragmentária Competentibus ad baptismum instructionis libelli VI, no passado atribuído a Nicetas, bispo de Aquiléia, hoje a Nicetas, bispo de Remesiana (ou Romaciana/Mésia Superior), + depois de 414.

Creio em Deus Pai [, Criador do céu e da terra,]
e no seu Filho Jesus Cristo, [nosso Senhor (?),] nascido do Espírito Santo da Virgem Maria, tendo padecido sob Pôncio Pilatos, crucificado, morto, ao terceiro dia ressuscitou vivo dentre os mortos, subiu aos céus, está sentado à direita do Pai, de onde virá julgar os vivos e os mortos;
e no Espírito Santo, a santa Igreja católica, a comunhão dos santos, a remissão dos pecados, a ressurreição da carne e a vida eterna.


África, séc. V-VI
Agostinho: Sermão 215, na devolução do Símbolo

Esta versão era usada muito provavelmente em Hipona (Hippo Regius), a sede episcopal de Agostinho.

Cremos em Deus Pai onipotente, criador de tudo, rei dos séculos, imortal e invisível.
Cremos também em seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, nascido do Espírito Santo, da virgem Maria, foi crucificado sob Pôncio Pilatos, morto e sepultado, ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu aos céus, esta sentado à direita de Deus Pai, de onde virá julgar os vivos e os mortos.
Cremos também no Espírito Santo, a remissão dos pecados, a ressurreição da carne, a vida eterna por meio da santa Igreja católica.


Pseudo-Agostinho [Quodvultdeus de Cartago]: Sermões sobre o Símbolo

A versão africana foi reconstituída por G. Morin na base de quatro sermões pseudo-agostinianos, por ele atribuídos a Quodvultdeus.

Creio em Deus Pai onipotente, criador de tudo, rei dos séculos, imortal e invisível.
Creio também em seu Filho [-!] Jesus Cristo [, seu Filho único, nosso Senhor], que nasceu do Espírito Santo, da Virgem Maria; [que] foi [-!] crucificado sob Pôncio Pilatos e [foi] sepultado, ao terceiro dia ressuscitou dos mortos [-! (?)], foi assunto aos céus [subiu ao céu] e está sentado à direita do Pai [sentou-se à direita de Deus], de onde virá julgar os vivos e os mortos.
Creio também no Espírito Santo, a remissão dos pecados, a ressurreição da carne para a [e a] vida eterna por meio da santa Igreja.


Espanha, séc. VI I VII (forma intermédia entre “R” e “T”)
Ildefonso de Toledo: De cognitione baptismi

O Símbolo do arcebispo Ildefonso de Toledo (659-669) é colhido dos cc. 36-83 desta obra.

Creio [MBr: Crês...?] em Deus Pai onipotente,
e em Jesus Cristo, seu único Filho, Deus e Senhor nosso,
que nasceu do Espírito Santo e [MBr: de] Maria virgem,
padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado e sepultado, desceu aos infernos, ao terceiro dia ressuscitou vivo dos mortos, subiu aos céus, está sentado à direita de Deus Pai onipotente [MBr: do Pai], de onde virá julgar os vivos e os mortos.
Creio [MBr: Crês...?] no Santo Espírito [MBr Eth: Espírito Santo], a santa Igreja católica, a remissão de todos os pecados, a ressurreição da [LOMoz: desta] carne e a vida eterna.


Gália meridional, séc VI I VII (forma intermédia entre “R” e “T”
Fragmentos de um Símbolo gálico antigo

Cipriano, bispo de Toulon, carta ao bispo Máximo de Genebra, escrita entre 516 e 533.
Fausto, bispo de Riez (de 450 a 480), na sua obra De Spiritu Sancto I, 2, relata um fragmento, antes atribuído ao diácono Pascásio.
Não obstante sua distância no tempo, os dois fragmentos são tão próximos um do outro pela estrutura do texto e pelo lugar de procedência, que chegam a se completar e a formar um único Símbolo.

Creio em Deus pai onipotente.
Creio também em Jesus Cristo, seu Filho unigênito, nosso Senhor, que foi concebido do Espírito, nasceu de Maria virgem, tendo padecido sob Pôncio Pilatos, morto e sepultado, subiu aos céus, está sentado à direita do Pai, de onde virá para julgar os vivos e os mortos.
Creio também no Espírito Santo, a santa Igreja, a comunhão dos Santos, a remissão dos pecados, a ressurreição da carne, a vida eterna.


Gália e Alamânia, séc VII I início VIII (forma inicial “T”)
Missale Gallicanum Vetus: Sermão [9 de Cesário de Arles] sobre o Símbolo

O Missale Gallicanum Vetus (do início do séc. VIII) contém duas versões do Símbolo, pouco divergentes uma da outra; aqui é representada só a primeira, tomada do Sermo de Symbolo de Cesário de Arles (+543).

Creio em Deus onipotente, criador do céu e da terra.
Creio também em Jesus Cristo [var. acus./ablat.], seu filho unigênito sempiterno, que foi concebido [concebido] do Espírito Santo, nasceu [nascido] de Maria virgem, padeceu [padecido] sob Pôncio Pilatos,crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos, ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu aos céus, está sentado à direita de Deus Pai onipotente, de onde virá para julgar os vivos e os mortos.
Creio no Santo Espírito [var. acus./ablat.], a santa Igreja católica, a comunhão dos santos, a remissão dos pecados, a ressurreição da carne, a vida eterna.


Pirmínio: Compilação de textos canônicos

Pirmínio (melhor: Primínio), originário da Septimânia ou Gália Narbonense, bispo missionário e abade do convento de Reichenau sobre o lago de Constança, divulgou o Símbolo de sua região de origem na obra Scarapus, chamada também Dicta Sancti Pirminii abbatis, escrita entre 718 e 724. Este Símbolo, que aparece duas vezes em forma declamatória (cc. 10 e 28ª) e uma vez em forma interrogatória (c. 12 = *28), oferece todos os elementos do texto que foi depois comumente recebido (“T”). Tem a forma do último estágio de desenvolvimento, que ainda hoje vigora.

Crês em Deus, Pai onipotente, criador do céu e da terra?
Crês também em Jesus Cristo, seu Filho único, nosso Senhor, que foi concebido do Espírito Santo, nasceu de Maria virgem, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos, ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu aos céus, sentou-se à direita de Deus Pai onipotente, de onde virá para julgar os vivos e os mortos?
Crês no Espírito Santo, a santa Igreja católica, a comunhão dos santos, a remissão dos pecados, a ressurreição da carne, a vida eterna?


Irlanda, fim do séc. VII (forma “T” modificada)
Antifonário de Bangor

Manuscrito litúrgico produzido entre 680 e 691 no mosteiro de Bangor (Ulster do Norte).

Creio em Deus Pai onipotente, invisível, criador de todas as criaturas visíveis e invisíveis.
Creio também em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, Deus onipotente, concebido do Espírito Santo, nascido de Maria virgem, que padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado e sepultado, desceu aos infernos, ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu aos céus e sentou-se à direita de Deus Pai onipotente, de onde virá para julgar os vivos e os mortos.
Creio também no Espírito Santo, Deus onipotente, que tem uma só substância com o Pai e o Filho, que santa é a Igreja católica, a remissão dos pecados, a comunhão dos santos, a ressurreição da carne. Creio a vida depois da morte e a vida eterna na glória de Cristo.
Tudo isto creio em Deus.


Gália, Alamânia, séc. VIII e seguintes; Roma, séc. X em diante (forma “T”)
Ritual batismal romano (Ordo Romanus XI ed. Andrieu = VII ed. Mabillon)

O texto do Símbolo deste Ordo, originalmente indicado só com as palavras iniciais, por ser usado com os livros cerimoniais, encontra-se copiado na íntegra, em forma vernácula, nos manuscritos gálicos do séc. IX em diante. Quando, no séc. X, a antiga tradição litúrgica romana se interrompeu, Roma recebeu juntamente com outros elementos da liturgia gálica também esta forma do Símbolo.

Creio em Deus Pai onipotente, criador do céu e da terra, e em Jesus Cristo, seu Filho único, nosso Senhor, o qual foi concebido do Espírito Santo, nasceu de Maria virgem, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos, ao terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu aos céus, está sentado à direita de Deus Pai onipotente; de onde virá [PsG: havendo de vir] para julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo, [Cat: creio] a santa Igreja católica, a comunhão dos santos, a remissão dos pecados, a ressurreição da carne, [ORA: e] a vida eterna.