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14 de março de 2010

Meditações - textos de Santo Tomás de Aquino

A PAIXÃO DE CRISTO NOS ABRIU AS PORTAS DO CÉU
IV Domingo da Quaresma


«Temos confiança de entrar no santuário pelo sangue de Cristo» (Jo 12, 24)


Portas fechadas são um obstáculo a nos impedirem a entrada. Ora, os homens estavam impedidos de entrar no reino celeste por causa do pecado; pois, como diz a Escritura (Is 35, 8), haverá um caminho que se chamará o caminho santo e não passará por ele o impuro. Ora, há duas espécies de pecado que impedem a entrada no reino celeste:

1. Um é comum a toda a natureza humana, e esse é o pecado de nossos primeiros pais, o qual fechou ao homem a entrada do reino celeste. Por isso, como lemos na Escritura (Gn 3, 24), depois do pecado do primeiro homem, pôs Deus um querubim com uma espada de fogo e versátil para guardar o caminho da árvore da vida.

2. Outro é o pecado especial de cada pessoa, cometido por ato próprio de cada um.

Ora, pela Paixão de Cristo fomos liberados, não só do pecado comum de toda a natureza humana, tanto quanto à culpa como quanto ao reato da pena, porque Cristo pagou o preço por nós, mas também dos pecados próprios de cada um de nós, que comungamos com a sua Paixão pela fé, pela caridade e pelos sacramentos da fé. E assim, pela Paixão de Cristo se nos abriram as portas do reino celeste. E tal é o que diz o Apóstolo (Heb 9, 2): Estando Cristo já presente, pontífice dos bens vindouros, pelo seu próprio sangue entrou uma só vez no santuário, havendo achado uma redenção eterna. O mesmo significa a Escritura (Nm 35, 25) onde diz que o homicida ali ficará, i. é na cidade a que se tinha refugiado, até à morte do sumo sacerdote, que foi sagrado com o óleo santo; e morto este, poderia voltar aquele para sua casa.


*


Os santos Patriarcas, tendo praticado obras justas, mereceram a entrada no reino do céu pela fé na Paixão de Cristo, segundo aquilo do Apóstolo (Heb 11, 33): Os Santos pela fé conquistaram reinos, obraram ações de justiça; pela qual também cada um se purificava do pecado, o quanto condizia com a purificação da pessoa própria. Mas a fé ou a justiça de cada um não bastava para remover o impedimento proveniente do reato de toda a natureza humana. Mas esse impedimento foi removido pelo preço do sangue de Cristo. Por onde, antes da Paixão de Cristo, ninguém podia entrar no reino celeste, i. é, alcançando a beatitude eterna, consistente no gozo pleno de Deus.


*


Cristo pela sua Paixão mereceu-nos a entrada no reino celeste e removeu o obstáculo que no-lo impedia. Mas, pela sua ascensão, como que nos introduzia na posse do reino celeste. Por isso a Escritura diz (Mq 2, 13) que aquele que lhes há de abrir o caminho irá adiante deles.

IIIa q. XLIX a. VI


(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)

13 de março de 2010

Meditações - textos de Santo Tomás de Aquino

PELA PAIXÃO DE CRISTO FOMOS RECONCILIADOS COM DEUS
sábado da terceira semana da Quaresma
«Fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho.» (Rm 5, 10)

Pela Paixão de Cristo fomos liberados do reato da pena de dois modos:

I. — A Paixão de Cristo é a causa de nossa reconciliação com Deus, de dois modos.

Primeiro porque remove o pecado pelo qual os homens são constituídos inimigos de Deus, segundo aquilo da Escritura (Sb 14, 9): Deus igualmente aborreceu ao ímpio e a sua impiedade. E noutro lugar (Sl 5, 7): Aborreces a todos os que obram a iniqüidade.

De outro modo, como sacrifício muito aceito de Deus; assim como perdoamos uma ofensa cometida contra nós quando recebemos um serviço que nos é prestado. Donde o dizer a Escritura (1 Rs 26, 19): Se o Senhor te incita contra mim, receba ele o cheiro do sacrifício. Semelhantemente, o ter Cristo sofrido voluntariamente foi um bem tão grande, que em razão desse bem descoberto em a natureza humana, Deus se aplacou no tocante a qualquer ofensa do gênero humano, contanto que o homem se una com a Paixão de Cristo, segundo a fé e a caridade.

Não se diz que a Paixão de Cristo nos reconciliou com Deus porque de novo nos começasse a amar, pois está na Escritura (Jr 31, 3): Com amor eterno te amei. Mas porque a Paixão de Cristo eliminou a causa do ódio, quer por ter delido o pecado, quer pela compensação de um bem mais aceitável.

IIIa q. XLIX a. 4

II. — Se pensarmos naqueles que O lançaram à morte, a Paixão de Cristo foi verdadeiramente uma causa de indignação. Mas, a caridade de Cristo padecendo foi maior que a iniqüidade dos homens. Por isso a Paixão de Cristo é mais eficaz para reconciliar com Deus todo o gênero humano que para provocar sua cólera.

O amor de Deus por nós se revela nos seus efeitos. Dizemos que Deus faz participar de sua bondade aqueles que ama. Ora, a maior e mais completa participação na sua bondade consiste na visão da sua essência, pela qual privamos com Ele como amigos, pois a beatitude consiste nesta serenidade. Assim, pode-se dizer simplesmente que Deus ama a quem admite a esta visão, quer pelo dom real, quer pelo dom da causa — como ocorre com aqueles a quem Deus deu o Espírito Santo como penhor desta visão. Pelo pecado, porém, ao homem foi retirada esta participação na bondade divina, ou seja, a visão de sua essência; e sob este aspecto, diz-se que o homem estava privado do amor de Deus. Ora, após Cristo ter satisfeito por nós pela sua Paixão, e conseguido que fossemos readmitidos à visão de Deus, diz-se que nos reconciliou com Deus.

2 Dist. 19, q. I, a. 5
(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)

12 de março de 2010

Meditações - textos de Santo Tomás de Aquino

PELA PAIXÃO DE CRISTO FOMOS LIBERADOS DA PENA DO PECADO
sexta-feira da terceira semana da Quaresma
«Ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas e ele mesmo carregou com as nossas dores» (Is 53, 4)

Pela Paixão de Cristo fomos liberados do reato da pena de dois modos:

1. Primeiro diretamente; i. é, porque a Paixão de Cristo foi uma satisfação suficiente e superabundante pelos pecados de todo o gênero humano; ora, dada a satisfação suficiente, eliminado fica o reato da pena.

2. De outro modo, indiretamente; i. é, enquanto a Paixão de Cristo é a causa da remissão do pecado, no qual se funda o reato da pena.

Os condenados, contudo, não estão liberados da pena, pois a Paixão de Cristo somente produz o seu efeito naqueles a quem se aplica pela fé, pela caridade e pelos sacramentos da fé. Ora, os condenados ao inferno, que não estão unidos à Paixão de Cristo ao modo que acabamos de referir, não lhe podem colher o efeito.

E apesar de termos sido liberados da pena do pecado, é preciso, no entanto, impor aos penitentes uma pena satisfatória; pois, para se beneficiar do efeito da Paixão de Cristo, é preciso estarmos configurados ao Cristo.

Ora, configuramo-nos sacramentalmente a Ele no batismo, segundo aquilo do Apóstolo (Rm 6, 4): Fomos sepultados com ele para morrer ao pecado pelo batismo. Por isso aos batizados não se lhes impõe nenhuma pena satisfatória, por estarem totalmente liberados pela satisfação de Cristo. Mas porque Cristo uma só vez morreu pelos nossos pecados, no dizer da Escritura (1 Pd 3, 18), não pode o homem uma segunda vez se configurar à morte de Cristo pelo sacramento do batismo. E por isso, os que depois do batismo pecam hão de assemelhar-se com Cristo, padecente por alguma penalidade ou sofrimento, que suportem na sua pessoa. Mas essa penalidade basta, apesar de muito menor que a merecida pelo pecado, por causa da cooperação da satisfação de Cristo.

Mas, se a morte, que é pena do pecado, ainda subsiste, é porque a satisfação do Cristo só tem efeito em nós enquanto fomos incorporados ao Cristo, como os membros à cabeça. Pois é preciso que os membros estejam em conformidade com a cabeça. Por onde, assim como Cristo teve primeiro a graça na alma com a passibilidade do corpo, e chegou pela Paixão à glória da imortalidade, assim também nós, que somos os seus membros, somos pela sua Paixão liberados do reato de qualquer pena. Mas, para isso, devemos primeiro receber na alma o Espírito de adoção de filhos, pelo qual adimos a herança da glória da imortalidade, enquanto ainda temos um corpo passível e mortal. Mas depois assemelhados aos sofrimentos e à morte de Cristo, chegaremos à glória imortal segundo aquilo do Apóstolo (Rm 8, 17): Se somos filhos somos também herdeiros; herdeiros verdadeiramente de Deus e co-herdeiros de Cristo, se é que todavia nós padecemos com ele para que sejamos também com ele glorificados.

IIIa q. XLIX a. 3

(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)

10 de março de 2010

Meditações - textos de Santo Tomás de Aquino

A PREGAÇÃO DA SAMARITANA
Quinta-feira da III Semana da Quaresma


«A mulher, pois, deixou o seu cântaro, e foi à cidade» (Jo 4, 28)

Após ter sido instruída por Cristo, a samaritana fez trabalho de apóstolo. Três coisas podemos sublinhar de suas palavras e atos.

I

A devoção que sentia se manifestou dos dois modos seguintes:

a) Movida por intensa devoção, a samaritana como que se esqueceu da razão pela qual viera à fonte e abandonou água e cântaro. É o que diz o texto: "a mulher deixou o seu cântaro, e foi à cidade", para anunciar a grandeza de Cristo, sem cuidar das necessidades do corpo. Nisso seguiu o exemplo dos Apóstolos que, após terem tudo deixado para trás, seguiram o Senhor. Ora, o cântaro significa a concupiscência das coisas do século, com o qual do fundo das trevas significado pelo poço, i.é, do trato com as coisas terrenas, os homens extraem os prazeres. Portanto, os que abandonam as concupiscências do século por Deus, abandonam o cântaro.

b) A intensidade de sua devoção manifesta-se ainda pela multidão daqueles a quem anuncia o Cristo, pois não foi a um, nem a dois ou três, mas a toda a cidade. Diz o texto: "...e foi à cidade".

II

A qualidade de sua pregação: "e disse àquela gente: vinde ver um homem...".

a) Ela convida todos a ver o Cristo: "Vinde ver um homem". Ela não diz imediatamente para que viessem ao Cristo, para não dar ocasião a blasfêmia; ao contrário, começa dizendo coisas que eram críveis e patentes, a saber, que era um homem. Ela não diz: crede, e sim: vinde ver, pois sabiam que, se bebessem daquela fonte, vendo-o, experimentariam o mesmo que ela experimentou. Por fim, a samaritana segue o exemplo do verdadeiro pregador, e não chama os homens para si, mas para o Cristo.

b) Oferece uma prova da divindade do Cristo, ao dizer: "que me disse tudo o que eu tenho feito", ou seja, quantos homens tivera a samaritana. Ela não se envergonha de contar aquilo que lhe é motivo de confusão, pois a alma abrasada com o fogo divino não se importa mais com nada terreno, nem com a glória, nem com a vergonha, mas apenas com essa chama que nela queima.

c) Conclui confessando a majestade de Cristo, ao dizer: "será este porventura o Cristo?" Ela não ousou afirmar que era o Cristo, para que não aparentasse ensinar os outros: temia que, irritados, eles se recusassem a ir ao Cristo. Tampouco o silenciou totalmente, mas o propôs sob a forma de pergunta, como se submetesse o seu julgamento ao deles. De fato, este era o meio mais fácil de persuadi-los.

III

O fruto de sua pregação.

"Saíram, pois, da cidade, e foram ter com ele". Por onde se vê que, se quisermos ir ao Cristo, devemos também deixar a cidade, i. é, abandonar o amor da concupiscência carnal. "Saiamos, pois, a ele fora dos arraiais", diz são Paulo (Heb 13, 13)

In Joan., IV.

(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)

Meditações - textos de Santo Tomás de Aquino

O PREÇO DA NOSSA REDENÇÃO

Quarta-feira da III Semana da Quaresma


«fostes comprados por um grande preço» (1 Cor 6, 20)


A injúria ou sofrimento mede-se pela dignidade do lesado: sofre maior injúria o rei, se esbofeteado, do que sofreria alguma pessoa privada. Ora, a dignidade da pessoa de Cristo é infinita, pois é uma pessoa divina. Portanto, qualquer sofrimento seu, por menor que seja, é infinito. Por conseqüência, qualquer sofrimento seu seria suficiente para a redenção de todo o gênero humano, mesmo sem sua morte.


Diz S. Bernardo que a menor gota de sangue de Cristo bastaria para a redenção do gênero humano. Ora, Cristo poderia ter derramado uma única gota de seu sangue sem morrer, logo, era possível que, mesmo sem morrer, redimisse todo o gênero humano com algum sofrimento seu.


Para se efetuar uma compra, duas coisas fazem-se necessárias: o montante do preço e sua destinação para a compra. Se alguém dá um valor inferior ao da coisa que se quer adquirir, não se diz que houve compra, mas que houve compra em parte e doação em parte: por exemplo, se alguém comprar um livro que vale vinte libras com apenas dez, em parte comprou o livro e em parte, o livro lhe foi dado. Do mesmo modo, se desse um valor mais alto mas não o destinasse à compra do livro, não se poderia dizer que houve compra.


Se, portanto, tratamos da redenção do gênero humano quanto ao preço, qualquer sofrimento de Cristo, mesmo sem morte, seria suficiente, pela infinita dignidade da sua pessoa.


Se, porém, falamos quanto a destinação do preço, então é preciso dizer que os demais sofrimentos do Cristo não foram destinados por Deus Pai e pelo Cristo para a redenção do gênero humano sem sua morte.


E isto por tríplice razão:


1. Para que o preço da redenção do gênero humano não fosse apenas de valor infinito, mas também do mesmo gênero; isto é, para que fossemos redimidos da morte, pela morte.

2. Para que a morte de Cristo não fosse apenas preço da redenção, mas também exemplo de virtude, para que os homens não temessem morrer pela verdade. E estas duas causas são assinaladas pelo Apóstolo: «a fim de destruir pela sua morte aquele que tinha o império da morte» (Heb 2, 14), quanto ao primeiro ponto e «para livrar aqueles que, pelo temor da morte, estavam em escravidão toda a vida» (Heb 2, 15), quanto ao segundo

3. Para que a morte de Cristo fosse também sacramento de salvação; pois, em virtude da morte de Cristo, morremos para o pecado, para as concupiscências da carne e para o amor próprio. E esta causa está assinalada nas Escrituras: «também Cristo morreu uma vez pelos nossos pecados, ele, justo pelos injustos, para nos oferecer a Deus, sendo efetivamente morto segundo a carne, mas vivificado pelo Espírito» (1 Pd 3, 18).


E, por isso, o gênero humano não foi redimido sem a morte de Cristo.


Mas, permanece verdade que Cristo, que não apenas deu sua vida, mas ainda sofreu tanto quanto se pode sofrer, teria pago um preço suficiente pela redenção do gênero humano, ainda que a menor parcela de sofrimento tivesse sido divinamente destinada a este fim; e isto, por causa da infinita dignidade da pessoa do Cristo.


Quodl. II, q. I, a. II


(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)

8 de março de 2010

Meditações - Textos de Santo Tomás de Aquino

PELA PAIXÃO DE CRISTO FOMOS LIVRADOS DO PODER DO DIABO
Segunda-feira da III Semana da Quaresma

O Senhor disse, na iminência da Paixão: «Agora será lançado fora o príncipe deste mundo, e eu, quando for levantado da terra, todas as coisas atrairei a mim mesmo» (Jo 12, 31). Ora, o Senhor foi levantado da terra pela Paixão da cruz. Logo, por ela o diabo foi privado do seu poder sobre os homens.

Sobre o poder que o diabo exercia sobre os homens, antes da Paixão de Cristo, devemos fazer tríplice consideração:

1. A primeira, relativa ao homem, que pelo seu pecado mereceu ser entregue ao poder do diabo, por cuja tentação fora vencido;

2. A outra, relativa a Deus, a quem o homem ofendera pecando, e que na sua justiça abandonou o homem ao poder do diabo.

3. A terceira é relativa ao diabo, que com sua vontade perversíssima impedia o homem de alcançar a sua salvação.

Assim, pois, no tocante à primeira consideração, o homem foi libertado do poder do diabo pela Paixão de Cristo, porque a Paixão de Cristo é a causa da remissão dos pecados.

Quanto à segunda, a Paixão de Cristo nos livrou do poder do diabo, por nos ter reconciliado com Deus.

No tocante à terceira, a Paixão de Cristo nos liberou do diabo, porque nela o diabo ultrapassou a medida do poder que Deus lhe conferira, maquinando a morte de Cristo, que não merecera morte por não ter nenhum pecado. Donde o dizer Agostinho: «Pela justiça de Cristo foi vencido o diabo, porque apesar de nada ter encontrado nele digno de morte, contudo o matou. E portanto era justo que os devedores que detinha em seu poder fossem mandados livres, crentes em Cristo, que o diabo matou, apesar de não ter nenhum débito.»

É verdade que o diabo pode, ainda agora, com a permissão de Deus, tentar os homens na alma e vexar-lhes o corpo; contudo, foi-lhe preparado ao homem o remédio da Paixão de Cristo, com o qual pode defender-se contra os ataques do inimigo, a fim de não ser arrastado à perdição da morte eterna. E todo os que, antes da Paixão, resistiam ao diabo, assim o puderam fazer pela fé na Paixão de Cristo. Embora, não estando essa Paixão ainda consumada, de certo modo ninguém pudesse escapar às mãos do diabo, livrando-se assim de descer ao inferno; ao passo que depois da Paixão de Cristo todos podemos nos defender contra o poder diabólico.

Deus permite ao diabo enganar certas pessoas, em certos tempos e lugares, por uma razão oculta dos seus juízos. Mas sempre, pela Paixão de Cristo está preparado aos homens o remédio para se defenderem das perversidades dos demônios, mesmo no tempo do Anticristo. E o fato de certos descuidarem de servir-se desse remédio em nada faz diminuir a eficácia da Paixão de Cristo.

III, q. XLIX, a. II

(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)

6 de março de 2010

Meditações - textos de Santo Tomás de Aquino

PELA PAIXÃO SOMOS LIBERADOS DO PECADO
III Domingo da Quaresma


«Amou-nos e nos lavou dos pecados no seu sangue» (Ap 1, 5)


A Paixão de Cristo é a causa própria da remissão dos pecados, por três razões:

1. Primeiro, como causa que provoca caridade. Pois, no dizer do Apóstolo, «Deus faz brilhar a sua caridade em nós, porque ainda quando éramos pecadores, em seu tempo morreu Cristo por nós» (Rm 5, 8). Ora, pela caridade conseguimos o perdão dos pecados, conforme o Evangelho: «Perdoados lhe são seus muitos pecados, porque amou muito.» (Lc 7, 47).

2. Segundo, a Paixão de Cristo causa a remissão dos pecados a modo de redenção. Pois, sendo Cristo a nossa cabeça, pela Paixão que sofreu por obediência e caridade, liberou-nos, como a seus membros, do pecado, como pelo preço da sua Paixão; como no caso de alguém que, por uma obra meritória manual, se resgatasse do pecado que com os pés tivesse cometido. Assim como, pois, o corpo natural é uno, na diversidade dos seus membros, assim a Igreja na sua totalidade, que é o corpo místico de Cristo, é considerada quase uma mesma pessoa com a sua cabeça que é Cristo.

3. Terceiro, o modo de eficiência, enquanto a carne, na qual Cristo sofreu a sua Paixão, é o instrumento da divindade; pelo qual os padecimentos e as ações de Cristo agem com virtude divina, com o fim de delir o pecado.

Cristo, pela sua Paixão nos livrou dos pecados casualmente, i. é, por ter instituído a causa da nossa liberação, em virtude da qual pudesse perdoar num momento dado quaisquer pecados — passados, presentes ou futuros. Tal o médico que preparasse um remédio capaz de curar quaisquer doenças, mesmo futuras.

Mas, sendo a Paixão de Cristo a causa universal antecedente da remissão dos pecados, é necessário aplicá-la a cada um a fim de delir os pecados próprios. O que se dá pelo batismo, pela penitência e pelos outros sacramentos, que tiram a sua virtude da Paixão de Cristo.

Pela fé também nos é aplicada a Paixão de Cristo, a fim de lhe colhermos os frutos, segundo aquilo do Apóstolo: «Ao qual propôs Deus para ser vítima de propiciação pela fé no seu sangue» (Rm 3, 25). Mas a fé, pela qual nos purificamos do pecado, não é uma fé informe, que pode coexistir com o pecado, mas a fé informada pela caridade. De modo que a Paixão de Cristo nos é aplicada, não só quando ao intelecto, mas também quanto ao afeto. E também deste modo os pecados são perdoados por virtude da Paixão de Cristo.

III q. XLIX, a. I

(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)

2 de novembro de 2009

PURGATÓRIO

AS PENAS DO PURGATÓRIO
Santo Tomás de Aquino
(Compêndio de Teologia, Tratado I, cap.CLXXXI e CLXXXII)

Bem que algumas almas imediatamente após a separação do corpo consigam a beatitude eterna, como foi dito, alguma há que só a consiga após certo tempo. Acontece que alguns não completaram nesta vida a penitência exigida pelos pecados cometidos, dos quais, contudo, se arrependeram. Como a justiça divina exige que as culpas sejam punidas, deve-se afirmar que, após esta vida, as almas devem cumprir a pena que neste mundo não cumpriram. Não, porém chegando ao estado de extrema miséria dos condenados, pois pela penitência reintegraram-se no estado de caridade, no qual aderiram a Deus como seu fim último, e pelo qual mereceram a vida eterna. Resta, pois, afirmar que, após esta vida, há algumas penas purgatórias, pelas quais são completadas as penitências que aqui não o foram.
Acontece também que alguns deixam esta vida sem pecado mortal, mas com pecado venial, o qual não os afastou do fim último, bem que tenham pecado, devido à adesão indevida a coisas que levam ao fim último. Esses pecados são purgados, nos homens perfeitos, pelo fervor da caridade. Mas os que não são perfeitos devem purgá-los por alguma pena, porque não conseguem a vida eterna senão quem esteja imune de todo pecado e de todo defeito. É, portanto, necessário que existam penas purgatórias após esta vida. São elas purgatórias, devido à condição daqueles que as sofrem, pois, havendo neles caridade, pela qual têm a própria vontade conformada com a vontade divina, em virtude dessa mesma caridade, as penas que sofrem lhes são purgatórias. Por esse motivo, naqueles (como nos condenados) nos quais não há caridade, as penas não purgam, permanecendo neles para sempre a imperfeição proveniente do pecado, nos quais também a pena dura para sempre.

24 de setembro de 2009

SANTO TOMÁS DE AQUINO E A SANTÍSSIMA EUCARISTIA

A SANTÍSSIMA EUCARISTIA NA
VIDA ESPIRITUAL DE SANTO TOMÁS DE AQUINO
- I -
Os outros doutores da Sorbonne apresentaram a Santo Tomás um problema a respeito da permanência dos acidentes eucarísticos “sine subjecto”:

Santo Tomás “(...) escreveu logo, como era costume seu, uma demonstração muito cuidada e lúcida, com a sua opinião. Escusado é dizer que sentiu, com simplicidade de coração, a pesada responsabilidade e a gravidade de tão judicial decisão, e parece, naturalmente, ter-se preocupado muito mais do que costumava com a sua obra. Buscou luz na oração e intercessão mais prolongada que de costume, e por fim, com um desses poucos mas impressionantes gestos corporais que caracterizam as ocasiões importantes da sua vida, depôs a tese aos pés do crucifixo do altar, e ali a deixou ficar como à espera de julgamento. Depois se virou, desceu os degraus e ficou submerso uma vez mais em oração; diz-se, no entanto, que os demais frades estavam à espreita, e que tinham boas razões para o fazer, pois declararam mais tarde que viram, com os seus olhos mortais, a figura de Cristo descer da cruz e deter-se junto do manuscrito, dizendo:
- Tomás, escreveste bem a respeito do meu Corpo.
Depois desta visão é que dizem ter-se dado o incidente da levitação miraculosa.”

(fonte: CHESTERTON, G.K.“Santo Tomás de Aquino”. São Paulo: LTr, 2003)
- II -


“... resta dizer algo a respeito do ministro que serve à Santa Missa. Em nossa época dá-se aos meninos e a ignorantes este encargo, de que nem os próprios reis seriam dignos (...) São Tomás de Aquino, o sol da Escolástica, conhecia bem o valor inestimável deste ofício de servir no divino Sacrifício, e não se dava por satisfeito se, depois de ter celebrado a Santa Missa, não ajudava a outra”.

(fonte: “As excelências da Santa Missa” – São Leonardo de Porto Maurício)
- III -

“Após se ter confessado a Reginaldo, Tomás recebeu o viático em 4 ou 5 de março; como era costume, pronunciou uma profissão de fé eucarística (...)

“Recebo-te, preço da redenção de minh’alma, recebo-te, viático de minha peregrinação, por cujo amor estudei, realizei vigílias, sofri; preguei-te, ensinei; jamais disse algo contra ti, e se o fiz foi por ignorância e não insisto em meu erro; se ensinei mal a respeito desse Sacramento ou de outros, submeto-o ao julgamento da Santa Igreja Romana, em obediência à qual deixo agora esta vida”

(...) Tomás recebeu a Extrema-Unção no dia seguinte, respondendo ele próprio às palavras rituais. Morreu três dias depois, após ter recebido o Corpo do Senhor, ou seja, na quarta-feira, 7 de março, nas primeiras horas da manhã”.

(fonte: TORREL, Jean-Pierre, OP. “Iniciação a Santo Tomás de Aquino – sua pessoa e obra”. São Paulo: Edições Loyola, 2004. pp.342-344)
- IV -

“(..) parece-nos possível deduzir com um mínimo de certeza três traços característicos da maneira de orar de Tomás. O vínculo entre prece e estudo é evidentemente o primeiro (...). O segundo é certamente a devoção à Eucaristia (...). A atestação de duas Missas cotidianas – uma que celebra, outra à qual assiste – é repetida com uma freqüência que impede de pó-lo em dúvida. Ele, ao que parece, tinha também o hábito de recitar no momento da elevação a segunda parte do “Te Deum: Tu rex glorie Christe, Tu Patris sempiternus et Filius”, até o final. Isso poderá ser facilmente compreendido se nos lembrarmos que, de forma resumida, o cântico lembra nesse momento os “mistérios” da vida de Cristo. Mas é sobretudo na celebração da Missa que ele apresenta os êxtases prolongados que marcaram seus últimos meses: o do domingo da Paixão (26 de março de 1273) e o de São Nicolau, oito meses depois (6 de dezembro de 1273) (...)”.

O terceiro aspecto é a “devoção ao crucifixo: quando é apresentado em prece ou em levitação, é diante da imagem do crucificado ou do altar, símbolo litúrgico de Cristo. Se fosse necessário justificar ainda mais esse último ponto, bastaria consultar a maneira pela qual ele se refere a Cristo em seu ensino ou pregação:

“Quem quiser levar uma vida perfeita não tem outra coisa a fazer senão desprezar o que Cristo desprezou na Cruz, e desejar o que ele desejou. Com efeito, não há um só exemplo de virtude que a cruz não nos dê. Buscas um exemplo de caridade? Não existe amor maior do que dar sua vida por seus amigos, e Cristo o fez na cruz ... Buscas um exemplo de paciência? O mais perfeito encontra-se na cruz ... Buscas um exemplo de humildade? Olha o Crucificado ... Um exemplo de obediência? Pôe-te a seguir Aquele que se fez obediente até a morte ... Um exemplo de desprezo pelas coisas terrestres? Caminha atrás Daquele que é o Senhor dos senhores e Rei dos reis, no qual se encontram todos os tesouros da sabedoria e que, no entanto, na cruz, aparece nu, objeto de zombarias, conspurcado, batido, coroado de espinhos, recebendo de beber fel e vinagre, levado à morte” (Expositio in Symbol.; art.4, nº920-4) ”

Santo Tomás lembra com insistência que “toda ação de Cristo é para nós um ensinamento”, e isso foi uma regra de vida para ele próprio.

(fonte: TORREL, Jean-Pierre, OP. “Iniciação a Santo Tomás de Aquino – sua pessoa e obra”. São Paulo: Edições Loyola, 2004. pp.335-337)

26 de julho de 2009

EFEITOS DA SANTÍSSIMA EUCARISTIA - SANTO TOMÁS DE AQUINO

A SANTÍSSIMA EUCARISTIA APROVEITA A
OUTRAS PESSOAS ALÉM DAS QUE A RECEBEM
Santo Tomás de Aquino
(Suma Teológica, III, q.79, a.7)
“A Eucaristia não é somente um sacramento, mas também um sacrifício. Enquanto ela significa a paixão de Cristo, pela qual ele “se entregou a si mesmo a Deus por nós em oblação” (Ef V, 2), como está na Carta aos Efésios, tem o caráter de sacrifício. No entanto, enquanto na Eucaristia se comunica a graça invisível de modo visível, tem o caráter de sacramento. Assim, portanto, a Eucaristia aproveita a quem a recebe pelo seu duplo caráter de sacramento e de sacrifício, porque é oferecida pelos que a recebem, como se reza no Cânon da Missa: “Quotquot ex hac altaris participatione sacrosanctum Corpus et Sanguinem Filii tui sumpserimus, omni benedictione caelesti et gratia repleamur” (“Todos quantos participarmos deste altar, recebendo o Corpo e o Sangue de vosso Filho, sejamos repletos de todas as graças e bênçãos do Céu”). Entretanto, a Eucaristia aproveita àqueles que não a recebem pelo seu caráter de sacrifício, no sentido de que ela é oferecida pela salvação deles. Por isso, também se reza no Cânon da Missa: “Memento, Domine, famulorum famularumque tuarum, pro quibus tibi offerimus, vel qui tibi offerunt, hoc sacrificium laudis, pro se suisque omnibus, pro redemptione animarum suarum, pro spe salutis et incolumitais suae” (“Lembrai-vos, Senhor, de vossos servos e servas, pelos quais vos oferecemos, e eles vos oferecem este sacrifício de louvor por si e por todos os seus, para a redenção de suas almas, pela esperança da sua salvação e segurança”). O Senhor se refere a ambos os modos ao dizer (Mt XXVI, 28): “Qui pro vobis” (“que por vós”), a saber os que recebem, “et pro multis” (“e por muitos”), isto é os outros, “effundetur in remissionem peccatorum” (“será derramado para remissão dos pecados”) ” (resp.).

“A paixão de Cristo traz proveito a todos para a remissão da culpa, a obtenção da graça e da glória, mas o efeito só é produzido naqueles que se unem à paixão de Cristo pela fé e caridade. Assim também este sacrifício, que é o memorial da paixão do Senhor, só produz efeito naqueles que se unem a este sacramento pela fé e caridade. Daí, o ensinamento de Agostinho: “Quem oferecerá o Corpo de Cristo a não ser por aqueles que são membros de Cristo?” Por isso, no Cânon da Missa, não se reza por aqueles que estão fora da Igreja. Aproveitam, no entanto, mais ou menos segundo a medida de sua devoção” (ad 1).

“A comunhão pertence à razão do sacramento, mas a oblação à do sacrifício. Por isso, o fato de que um ou muitos recebam o Corpo de Cristo não traz para os outros o aumento de alguma ajuda. De igual modo, pelo fato de o sacerdote consagrar muitas hóstias numa única Missa, não se multiplica o efeito deste sacramento, porque se trata de um único sacrifício. Com efeito, não existe nenhum poder maior em muitas hóstias consagradas do que em uma só, já que sob muitas ou sob uma só está contido Cristo todo inteiro. Portanto, se alguém recebe simultaneamente muitas hóstias consagradas numa única Missa, nem por isso participará de uma maior eficácia do sacramento. A oferta do sacrifício se multiplica, sim, em um número maior de Missas. Por isso, também o efeito do sacrifício e do sacramento” (ad 2).

22 de julho de 2009

O MODO DE EXISTÊNCIA DE CRISTO NO SACRAMENTO DA EUCARISTIA - SANTO TOMÁS DE AQUINO

Cristo está todo neste sacramento [da Eucaristia]
(Suma Teológica, III, q.76. a.1)

É absolutamente necessário confessar, segundo a fé católica, que Cristo está todo neste sacramento. A realidade de Cristo está presente neste sacramento de dois modos: pela força do sacramento e por uma concomitância natural. Pela força do sacramento, está sob as espécies sacramentais aquilo em que diretamente se converte a substância do pão e do vinho anteriormente existente. Isso vem significado pelas palavras da forma, que são eficazes neste e nos outros sacramentos, por exemplo, quando diz “Isto é o meu Corpo”, “Isto é o meu Sangue”. Por uma concomitância natural, está presente neste sacramento o que realmente está unido àquilo em que termina a conversão. Se duas coisas estão realmente unidas, onde uma estiver realmente, a outra estará também. Somente por uma operação mental se distinguem as coisas que estão realmente unidas” (resp.).

“Portanto, deve-se dizer que como a conversão do pão e do vinho não termina na divindade nem na alma de Cristo, consequentemente estas não estão aí pela força do sacramento, mas por real concomitância. Porque a divindade nunca abandonou o corpo de Cristo que ela assumiu, onde estiver tal corpo, aí necessariamente estará a divindade. Portanto, neste sacramento a divindade de Cristo deve acompanhar forçosamente o seu corpo. Por isso, no Símbolo efesino se lê: “Participamos do corpo e sangue de Cristo, não como recebendo uma carne comum, nem como homens santificados e unidos ao Verbo por uma união moral, mas como recebendo a verdadeira carne vivificante e própria do mesmo Verbo”.

A alma se separou realmente do corpo. Por isso, se naqueles três dias, em que Cristo esteve na sepultura, se celebrasse este sacramento, não estaria nele a alma, nem pelo poder do sacramento nem pela concomitância real. Ora, porque “ressuscitado dentre os mortos, Cristo não morre mais”, como está em Romanos (Rm VI, 9), a sua alma está sempre realmente unida ao corpo. Por conseguinte, neste sacramento o Corpo de Cristo está presente pelo poder do sacramento, a alma, porém, por concomitância real” (ad 1).

“Pela força do sacramento está presente nele no caso da espécie de pão não só a carne, mas o corpo inteiro de Cristo, isto é, os ossos, os nervos, etc. E isso aparece da própria forma deste sacramento, que não diz: “Esta é a minha carne”, mas “Isto é o meu Corpo”. Por isso, quando o Senhor diz “a minha carne é verdadeira comida”, a palavra carne tem o sentido de todo o corpo, porque, conforme o costume humano, tal palavra se apropria melhor ao gesto de comer. Pois, os homens comem comumente a carne animal e não os ossos ou coisa semelhante” (ad 2).

“Depois da conversão do pão no corpo de Cristo ou do vinho no sangue, os acidentes de ambos permanecem. Daí se segue evidentemente que as dimensões do pão e do vinho não se convertem nas dimensões do corpo de Cristo, mas uma substância em outra substância. Assim, pela força do sacramento, está presente nele a substância do corpo de Cristo ou do sangue, não, porém, as dimensões do corpo ou do sangue de Cristo. Por isso, é claro que o corpo de Cristo está neste sacramento segundo o modo de substância e não segundo o modo de quantidade. No entanto, a própria totalidade da substância está presente indiferentemente numa quantidade pequena ou grande: assim como toda a natureza do ar está numa quantidade grande ou pequena dele ou toda a natureza humana está num homem grande ou pequeno. Por isso, toda a substância do corpo de Cristo e do sangue está presente neste sacramento depois da consagração, como antes dela estava aí a substância do pão e do vinho” (ad 3).

21 de julho de 2009

A SANTÍSSIMA EUCARISTIA E A OBTENÇÃO DA GLÓRIA - SANTO TOMÁS DE AQUINO


A SANTÍSSIMA EUCARISTIA E A OBTENÇÃO DA GLÓRIA
Santo Tomás de Aquino
(Suma Teológica III, q.79, a.2)
“Diz o Evangelho de João: “Quem comer deste pão viverá para a eternidade” (Jo VI, 52). Ora, a vida eterna é a vida da glória. Logo, efeito deste sacramento é a obtenção da glória”.

“Pode-se considerar neste sacramento de uma parte, aquilo de onde ele produz o seu efeito, a saber o próprio Cristo, que ele contém, e a sua paixão, que ele representa. De outra parte, aquilo pelo que ele produz seu efeito, a saber o uso do sacramento e as espécies sacramentais. Por esse duplo título, este sacramento causa a obtenção da vida eterna. Pois, o próprio Cristo abriu-nos, pela sua paixão, os átrios da vida eterna, como se lê na Carta aos Hebreus: “Ele é mediador de uma nova aliança, de um testamento novo; tendo a sua morte intervindo, os que são chamados podem receber a herança eterna já prometida’ (Hb IX, 15). Por isso, diz-se na forma deste sacramento: “Este é o cálice do meu sangue, da nova e eterna aliança”.

De igual modo, a refeição espiritual da comida e a unidade significada pelas espécies do pão e do vinho são possuídas já na vida presente, mas imperfeitamente. No estado da glória, o serão perfeitamente. Por isso, Agostinho, ao comentar o texto de João: “Minha carne é verdadeiramente comida” (Jo VI, 56), diz: “Já que os humanos procuram com a comida e a bebida não ter mais fome nem sede, isto só é concedido verdadeiramente pela comida e bebida que tornam aqueles que as consomem imortais e incorruptíveis na sociedade dos santos, onde haverá a paz e uma unidade completa e perfeita” ” (resp.).

“A paixão de Cristo, por cujo poder este sacramento age, é causa suficiente da glória, não de maneira que por ela sejamos imediatamente introduzidos na glória, pois devemos antes “com ele sofrer” para “com ele ser glorificados”, como diz Paulo (Rm VIII, 17). Assim também, este sacramento não nos introduz imediatamente na glória, mas alcança-nos a força de chegar à glória. Por isso, ele se chama “viático”. De maneira figurada, lê-se no livro dos Reis que Elias “comeu e bebeu e depois, fortificado por aquele alimento, caminhou quarenta dias e quarenta noites até a montanha de Deus, o Horeb” (III Rs XIX, 8)” (ad 1).

“Como a paixão de Cristo não surte efeito naqueles que se relacionam com ela de maneira indevida, assim também não obtém a glória eterna aqueles que recebem este sacramento de maneira indigna. Por isso, Agostinho, ao comentar o texto de João, diz: “Uma coisa é o sacramento, outra coisa sua força. Muitos participam do altar, e, ao participar, morrem. Comei pois de maneira espiritual o pão celeste: aproximai-vos do altar com inocência. Desta sorte, não nos devemos admirar se aqueles que não guardam a inocência, não obtenham o efeito do sacramento” ”(ad 2).

19 de julho de 2009

CANTO LITÚRGICO - SANTO TOMÁS DE AQUINO

CANTO LITÚRGICO
Santo Tomás de Aquino
(Suma Teológica, II-II, q.91, a.2)


“O louvor pela voz é necessário para estimular a afeição humana para Deus. Por isso, qualquer coisa que seja útil para isso, é assumido convenientemente no louvor divino. Também é verdade que, segundo as diferenças das melodias, as pessoas são levadas a sentimentos diferentes. A essa conclusão chegaram Aristóteles e Boécio. Por isso, foi salutar a introdução do canto nos louvores divinos para que os espíritos mais fracos fossem mais incentivados à devoção. A respeito, escreve Agostinho: “Inclino-me a aprovar a prática do canto na Igreja para que, pelo deleite auditivo, as almas fracas se elevem em piedoso afeto”. E diz de si mesmo: “Chorei ouvindo os teus hinos e cânticos, profundamente emocionado pelas vozes de tua Igreja, que suavemente canta”!” (resp.)
“Deve-se dizer que os cantos espirituais [Cl III, 16] poderão significar não somente o que se canta interiormente, como também o que as palavras sonoras dizem externamente: assim a devoção é estimulada por esses cantos” (ad 1).

“Deve-se dizer que Jerônimo não condena absolutamente o canto, mas repreende aqueles que na Igreja cantam de modo teatral, não para excitar a devoção, antes para se exibirem e se deleitarem. Pelo que Agostinho diz: “Quando atendo mais à melodia do que ao significado das palavras cantadas, confesso que faço e devo me penitenciar: prefiro então não ouvir o cantar” ” (ad 2).

“Deve-se dizer que é mais excelente aumentar a devoção das pessoas pelo ensino da doutrina e pela pregação do que pelo canto. Por isso, os diáconos e os bispos, aos quais compete excitar as almas para a devoção a Deus, pelos ensinamentos doutrinários e pela pregação, não devem se dedicar aos cantos, para que por eles não descuidem das tarefas mais importantes (...) Gregório afirma: “É muito repreensível o costume dos diáconos de se dedicarem aos cânticos, pois a eles compete ofício da pregação e da distribuição das esmolas aos pobres”” (ad 3).

“Deve-se dizer, como ensina Aristóteles: ”Para ensinar não se deve usar flautas nem instrumentos semelhantes, como a cítara e outras, mas tudo que possa contribuir para os ouvintes serem bons”, até porque esses instrumentos musicais movem mais a alma para o deleite do que para a formação da boa disposição interior. No Antigo Testamento, usavam-se esses instrumentos, quer porque o povo era mais grosseiro e carnal, e por isso deviam ser estimulados por tais instrumentos, como também pelas promessas terrenas; quer porque, esses instrumentos materiais eram figurativos” (ad 4).

“Deve-se dizer que quando dá muita atenção ao canto para se deleitar, o espírito deixa de considerar as palavras cantadas. Mas, se a pessoa canta por causa da devoção, mais atentamente perceberá o sentido das palavras, porque demora-se mais nelas, e porque, como diz Agostinho: “Todos os afetos de nosso espírito, conforme a sua diversidade, descobrem modalidades próprias da voz e do canto com as quais se movem, por uma secreta familiaridade”. O mesmo se aplica aos que ouvem os cânticos, os quais, embora às vezes não entendam o que se canta, todavia, entendem a razão do canto, isto é, o louvor a Deus. E isto é suficiente para despertar a devoção” (ad 5).

11 de julho de 2009

O PRIMADO DO PAPA - SANTO TOMÁS DE AQUINO

SOBRE O PODER DOS BISPOS E O SUPREMO ENTRE ELES
Santo Tomás de Aquino
(Suma contra os Gentios, Livro IV, Cap.LXXVI)


1. A transmissão de todas as ordens é feita por determinado sacramento e os sacramentos da Igreja são dispensados pelos ministros da Igreja. Por isso, é preciso haver na Igreja um poder de ministério mais elevado que confira o sacramento da Ordem. Esse poder é o poder episcopal. Embora, quanto à consagração do Corpo de Cristo ele não exceda o poder sacerdotal, contudo o excede naquilo que é atinente aos fiéis. Ora, o próprio poder sacerdotal deriva do episcopal, e tudo que de árduo se deva fazer em relação ao povo é reservado aos bispos, e também é pela autoridade deles que os sacerdotes podem fazer o que lhes é confiado. Por isso, os sacerdotes, nas suas tarefas, usam de coisas consagradas pelos bispos. Assim é que, por exemplo, na consagração da Eucaristia usam o cálice, o altar e a pala consagrada pelo bispo. Assim, pois, fica demonstrado que o auge do regime do povo fiel pertence à dignidade episcopal.

2. É manifesto que o povo está distribuído pelas dioceses e cidades, mas como só há uma Igreja, também só há um povo cristão. E assim como para determinado povo de uma igreja se requer um bispo, também para todo o povo cristão se requer um bispo que seja a cabeça de toda a Igreja.

3. Além disso, exige a unidade da Igreja que todos os fiéis sejam concordes na fé. Ora, nas coisas da fé, acontece que devem ser solucionadas dúvidas, mas a Igreja se dividiria por causa da diversidade de sentenças, a não ser que seja conservada na unidade pela sentença de um só. Por conseguinte, para a conservação da unidade da Igreja é exigido que um só presida toda a Igreja. Ora, é manifesto que Cristo não desampara a Igreja nas questões necessárias, pois ele a amou, por ela derramou o seu sangue, e também porque incluindo a Sinagoga, o Senhor disse: “Que mais poderia fazer pela minha vinha que não fiz?” (Is V, 4). Logo, não se deve duvidar que por ordem de Cristo um só preside toda a Igreja.

4. Além disso, não há dúvida alguma de que o regime da Igreja é otimamente ordenado, por ser disposto por aquele por quem “os reis reinam e os juízes distribuem a justiça” (Pr VIII, 15). É ótimo o regime político quando o povo é governado por um só, e isto se depreende da finalidade do regime político que é a paz, pois a paz e a união dos súditos é a finalidade da ação dos governantes. Ora, um só consegue melhor a paz do que muitos. Por isso, o regime da Igreja foi disposto de modo que um só presida toda a Igreja.

5. Além disso, a Igreja militante vem da triunfante e a ela se assemelha. Por isso, diz João: “Vi a Jerusalém vindo do céu” (Ap XXI, 2). Foi também dito a Moisés que tudo fizesse “segundo o exemplar que lhe fora mostrado no monte” (Ex XXV, 40). Ora, um só Deus preside a Igreja triunfante, ele que também preside todo o universo, pois está escrito: “Eles serão o seu povo e o mesmo Deus estará com eles” (Ap XXI, 3). Por isso, também um só preside a Igreja em tudo. Daí Oséias dizer: “Unir-se-ão juntamente os filhos de Judá e de Israel, e estabelecerão uma só cabeça” (Os I, 11). E disse também o Senhor: “Haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo X, 16).

6. Se alguém, porém, disser que Cristo é a única cabeça e o único pastor, ele que é o único esposo de uma só Igreja, não se expressa suficientemente. É evidente que Cristo perfaz todos os sacramentos da Igreja: ele batiza, ele perdoa os pecados, ele é o verdadeiro sacerdote que se ofereceu no altar da Cruz, em virtude da qual o seu Corpo é diariamente consagrado no altar. No entanto, como no futuro não estaria corporalmente presente aos fiéis, escolheu os ministros pelos quais dispensaria os sacramentos àqueles (...). E assim, pelo mesmo motivo de haver de retirar a sua presença corpórea da Igreja, foi conveniente que confiasse a alguém o governo da Igreja universal e que este a governasse em seu lugar. E foi justamente a isso que se referiu quando, antes da Ascensão, disse a Pedro: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo XXI, 17); e antes da Paixão: “Tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos” (Lc XXII, 32). E só a Pedro prometeu: “Dar-te-ei as chaves do reino dos céus” (Mt XVI, 19). Tudo isso foi dito para mostrar que o poder das chaves deverá ser transferido dele para os outros, para a conservação da unidade da Igreja.

7. Porém, não se pode dizer que, embora tenha dado essa dignidade a Pedro, ela não se estendesse aos outros. Ora, Cristo instituiu a Igreja para que ela dure até os fins dos tempos, segundo se lê: “Sobre o trono de Davi e sobre o seu reino assentar-se-á, para firmá-lo e consolidá-lo no direito e na justiça, desde então e para sempre” (Is IX, 7). Disso se depreende que constituiu ministros seus os que então viviam, para que, em vista da utilidade da Igreja, o poder fosse transmitido aos pósteros até o fim dos séculos, até porque também dissera: “Eis que estarei convosco até a consumação dos séculos” (Mt XXVIII, 20).

8. Pelo exposto acima fica refutado o erro presunçoso de alguns que procuram eximir-se da obediência e da submissão a Pedro, não reconhecendo o Romano Pontífice como sucessor de Pedro e como Pastor da Igreja Universal.

27 de janeiro de 2009

AS CINCO QUALIDADES REQUERIDAS PARA TODAS AS ORAÇÕES - S. TOMÁS DE AQUINO

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“O PAI NOSSO E A AVE MARIA”

SERMÕES DE S. TOMÁS DE AQUINO


PRÓLOGO


AS CINCO QUALIDADES REQUERIDAS PARA TODAS AS ORAÇÕES


1. — A Oração Dominical, entre todas, é a oração por excelência, pois possui as cinco qualidades requeridas para qualquer oração. A oração deve ser: confiante, reta, ordenada, devota e humilde.


2. — A oração deve ser confiante, como São Paulo escreve aos Hebreus (4, 16): Aproximemo-nos com confiança do trono da graça, a fim de alcançar a misericórdia e achar a graça para sermos socorridos no tempo oportuno.


A oração deve ser feita com fé e sem hesitação, segundo São Tiago. (Tg 1,6): Se algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus... Mas peça-a com fé e sem hesitação.


Por diversas razões, o Pai Nosso é a mais segura e confiante das orações. A Oração Dominical é obra de nosso advogado, do mais sábio dos pedintes, do possuidor de todos os tesouros de sabedoria (cf. Cl 2, 3), daquele de quem diz São João (I, 2, 1): Temos um advogado junto ao pai: Jesus Cristo, o Justo. São Cipriano escreveu em seu Tratado da oração dominical: «Já que temos o Cristo como advogado junto ao Pai, por nossos pecados, em nossos pedidos de perdão, por nossas faltas, apresentemos em nosso favor, as palavras de nosso advogado».

A Oração Dominical parece-nos também que deve ser a mais ouvida porque aquele que, com o Pai, a escuta é o mesmo que no-la ensinou; como afirma o Salmo 90 (15): Ele clamará por mim e eu o escutarei. «É rezar uma prece amiga, familiar e piedosa dirigir-se ao Senhor com suas próprias palavras» diz São Cipriano. Nunca se deixa de tirar algum fruto desta oração que, segundo santo Agostinho, apaga os pecados veniais.

3. — Nossa oração deve, em segundo lugar, ser reta, quer dizer, devemos pedir a Deus os bens que nos sejam convenientes. «A oração, diz São João Damasceno, é o pedido a Deus dos dons que convém pedir».


Muitas vezes, a oração não é ouvida por termos implorado bens que verdadeiramente não nos convêm. «Pediste e não recebeste, porque pediste mal», diz São Tiago. (4,3).


É tão difícil saber com certeza o que devemos pedir, como saber o que devemos desejar. O Apóstolo reconhece, quando escreve aos Romanos (8, 26): Não sabemos pedir como convém, mas (acrescenta), o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis.


Mas não é o Cristo que é nosso doutor? Não foi ele que nos ensinou o que devemos pedir, quando seus discípulos disseram: Senhor, ensinai-nos a rezar? (Lc 11, 1).


Os bens que ele nos ensina a pedir, na oração, são os mais convenientes. «Se rezamos de maneira conveniente e justa, diz Santo Agostinho, quaisquer que sejam os termos que empregamos, não diremos nada mais do que o que está contido na Oração Dominical».


4. — Em terceiro lugar, a oração deve ser ordenada, como o próprio desejo que a prece interpreta.

A ordem conveniente consiste em preferirmos, em nossos desejos e preces, os bens espirituais aos bens materiais, as realidades celestes às realidades terrenas, de acordo com a recomendação do Senhor (Mt, 6,33): Procurai primeiro o reino de Deus e sua justiça e o resto — o comer, o beber e o vestir — ser-vos-á dado por acréscimo.

Na Oração Dominical, o Senhor nos ensina a observar esta ordem: primeiro pedimos as realidades celestes e em seguida os bens terrestres.


5. — Em quarto lugar, a oração deve ser devota.


A excelência da devoção torna o sacrifício da oração agradável a Deus. Em vosso nome, Senhor, elevarei minhas mãos, diz o Salmista, e minha alma é saciada como de fino manjar.


A prolixidade da oração, no mais das vezes, enfraquece a devoção; também o Senhor nos ensina a evitar essa prolixidade supérflua: Em vossas orações não multipliqueis as palavras; como fazem os pagãos, (Mt 6,7). S. Agostinho recomenda, escrevendo a Proba: «Tirai da oração a abundância de palavras; no entanto não deixeis de suplicar, se vossa atenção continua fervorosa».


Esta é a razão pela qual o Senhor instituiu a breve oração do Pai Nosso.


6. — A devoção provém da caridade, que é o amor de Deus e do próximo. O Pai Nosso é uma manifestação destes dois amores.


Para mostrar nosso amor a Deus, o chamamos «Pai» e para mostrar nosso amor ao próximo, pedimos por todos os homens justos, dizendo: «Pai nosso», e empurrados pelo mesmo amor, acrescentamos: «perdoai as nossas dívidas»


7. — Em quinto lugar, nossa oração deve ser humilde, segundo o que diz o Salmista (Sl. 101, 18): Deus olhou para a prece dos humildes.


Uma oração humilde é uma oração que certamente será ouvida, como nos mostra o Senhor, no evangelho do Fariseu e do Publicano (Lc 18, 9-15) e Judite, rogando ao Senhor, dizia: Vós sempre tivestes por agradável a súplica dos humildes dos mansos.


Esta humildade está presente na Oração Dominical, pois a verdadeira humildade está naquele que não confia em suas próprias forças, mas tudo espera do poder divino.