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31 de maio de 2010

Festa da Santíssima Trindade - Comentário litúrgico - Dom Gaspar Lefebvre, O.S.B.

Festa da SS. Trindade
D. Gaspar Lefebvre



O Espírito Santo cujo advento celebramos no Pentecostes veio-nos recordar nesta última parte do ano (do Pentecostes ao Advento, 6 meses) o que Jesus nos ensinou já na primeira (do Advento à Santíssima Trindade, 6 meses). O dogma fundamental em torno do qual todo o cristianismo gravita é este da Santíssima Trindade, de Quem tudo nos vem e a Quem todos os que receberam o sinete do Seu nome devem regressar. Depois de nos lembrar no decorrer do ano litúrgico o Pai Criador, o Filho Redentor e o Espírito Santo Santificador e Regenerador das almas, a Igreja recapitula hoje antes de mais os elementos concernentes ao grande mistério em que adoramos a Deus uno em Natureza e trino em Pessoas.
Depois de celebrarmos a efusão do Espírito Santo, dizia S. Roberto no século XII, festejamos logo a seguir, no primeiro Domingo, a Trindade Santíssima; e é bem feita esta escolha, porque logo depois da vinda do Divino Espírito começou a pregação da fé e com a pregação da fé a administração do Batismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
O dogma da Santíssima Trindade aparece constantemente na liturgia. É em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo que se começa e acaba a Missa e o Ofício e se conferem os sacramentos. Todos os salmos fecham pelo Gloria Patri, os hinos pela doxologia, e todas as orações concluem em termos cheios de devoção e de ternura para com as três Pessoas Divinas. O dogma da Santíssima Trindade resplandece ainda nos nossos templos. Os nossos avós compraziam-se em simbolizá-lo na altura, na largura e no comprimento admiravelmente proporcionados das igrejas, no côro, nas naves, no trifório, nas três portas e, muitas vezes, até nas três torres. Sempre e em toda a parte, no mais pequeno pormenor da ornamentação, o número três tem lugar de honra, marca um plano refletido, um pensamento de fé na Santíssima Trindade. A iconografia cristã também nos traduz, de diferente maneira, o mesmo pensamento. Até o século XII era vulgar representar o Pai por uma mão que saía dentre as nuvens do Céu e abençoar. Nos séculos XIII e XIV, começou a aparecer primeiramente a face e depois todo o busto. A partir do século XV começou o Pai a ser figurado por um ancião revestido das vestes pontificais. - Até o século XII a segunda Pessoa da Santíssima Trindade era figurada, com mais freqüência, pela cruz ou pelo cordeiro, e ainda por um gracioso jovem no jeito do Apolo do paganismo. Do século XI ao XV, é o Cristo forte, já no vigor da idade, que nos aparece. A partir do século XVI entra o costumo de lhe pôr a cruz e de o representar freqüentemente pelo cordeiro. - O Espírito Santo aparecia nos primeiros séculos sob a figura tradicional da pomba, tocando com as asas abertas na boca do Pai e na do Filho como argumento de sua precedência. A partir do século XI é na figura dum menino que o encontramos por vezes. No século XV a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, assume as proporções dum homem feito semelhante ao Pai e ao Filho, somente com a pomba na mão ou na cabeça, para se distinguir das outras Pessoas. Depois do século XVI a pomba volta a tomar o lugar exclusivo na representação do Espírito Santo. A geometria concorreu também para simbólica da Santíssima Trindade. O trevo teve, por sua vez, lugar de relevo na simbologia tradicional, e igualmente os três círculos enlaçados com a palavra unidade inscrita no lugar vazio pela intersecção. Foi ainda representada por uma cabeça com três faces distintas. Urbano VIII, porém, em 1628 proibiu reproduzir essa perigosa e ridícula interpretação do grande mistério do cristianismo.
A festa da Santíssima Trindade deve a sua origem ao fato de as ordenações do Sábado das Quatro Têmporas se celebrarem a tarde e se prolongarem até de manhã, não tendo o Domingo por este motivo liturgia própria. Como todos os Domingos são consagrados à Santíssima Trindade, celebra-se no primeiro depois de Pentecostes a Missa Votiva, composta no século VII em honra desse mistério. Façamos hoje, conformando-nos ao espírito da Liturgia, profissão de fé na Santíssima e Eterna Trindade, e na sua indivisível unidade.

29 de maio de 2010

Domingo da Santíssima Trindade: Batizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo

Homilia de São Gregório Nazianzeno

Tratado sobre a fé, após o início

Qual católico ignora que o Pai seja verdadeiramente o Pai, o Filho seja verdadeiramente o Filho, e o Espírito Santo seja verdadeiramente o Espírito Santo, como o mesmo Senhor disse aos Seus Apóstolos: "Ide e batizai todos os Povos em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo."? Essa é a Trindade perfeita consistente na unidade, de que claramente professamos a unidade da substância. Porque não fazemos em Deus divisão segundo a condição dos corpos, mas segundo o poder da divina natureza, que não está na matéria, e cremos que verdadeiramente existem as pessoas correspondentes a cada nome, e somos testemunhas da unidade da essência da divindade. Não dizemos ser o Filho de Deus extensão de uma parte a outra parte de alguma outra pessoa divina, como alguns opinaram, nem dizemos que ele é meramente a "palavra" no sentido do som da voz, mas cremos que os três nomes e as três pessoas sejam unidade de essência, unidade também de majestade e de poder. E do mesmo modo professamos um único Deus, porque a unidade da majestade proibe de chamar "deuses", no plural. Por isso, catolicamente chamamos Pai e Filho, mas dizer que hajam dois Deuses, não podemos nem devemos. Não que o Filho de Deus não seja Deus, senão Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; mas, como conhecemos que o Filho de Deus não provém de outro lugar que não Esse mesmo único Pai, por isso dizemos que Deus é uno. Isso ensinaram os Profetas e os Apóstolos, e isso ensinou o mesmo Senhor, quando disse: "Eu e o Pai somos um". Dizendo "um", refere-se à unidade da divindade, e dizendo "somos", no plural, designa as pessoas.

Louvemos a Santa Trindade e também indivisa unidade, porque fez conosco a Sua misericórdia. (Intr.)

Do livro de São Fulgêncio Bispo (c. 468 - 533) para o diácono Pedro sobre a fé.

Entre as obras de Agostinho, tomo 3

A fé, que os santos Patriarcas e Profetas, antes da encarnação do Filho de Deus, receberam de Deus, a mesma que ouviram os santos Apóstolos d'Esse mesmo Senhor, encarnado, e, instruídos pelo magistério do Espírito Santo, não só pregaram com o sermão, como também deixaram em seus escritos, para salutaríssima instrução da posteridade, essa fé prega a Trindade do Deus único, isto é, Pai e Filho e Espírito Santo. Não seria verdadeiramente uma Trindade se se dissesse que fosse uma e a mesma pessoa o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Se, como é única a substância do Pai e do Filho e do Espírito santo, assim única fosse a pessoa, não haveria em Deus absolutamente nada de que se afirmasse verazmente que fosse Trindade.

Por outro lado, sendo verdadeira a mesma Trindade, essa Trindade não seria um só Deus se, do mesmo modo que o Pai e o Filho e o Espírito Santo distinguem-Se entre Si pela propriedade de cada pessoa, assim também fossem separados pela diversidade das naturezas. Mas, como, na Trindade do único verdadeiro Deus, naturalmente é verdadeiro não só o que Deus é único, mas também o que é Trindade, por isso o verdadeiro Deus é Trindade nas pessoas, e uno na natureza única.

Por essa unidade natural, todo o Pai está no Filho e no Espírito Santo; todo o Filho, no Pai e no Espírito Santo; e todo o Espírito Santo, no Pai e no Filhio. Nenhum d'Eles está fora de qualquer Um d'Eles, porque Nenhum dos Outros O precedeu na eternidade, ou excede em magnitude, ou supera em poder; porque nem que o Filho nem que o Espírito Santo, quanto diz respeito à unidade da natureza divina, é maior ou anterior o Pai; nem a eternidade e imensidão do Filho, como se fosse maior ou anterior, poderia naturalmente exceder a imensidão e eternidade do Espírito Santo.

Sábado da Têmpora de Pentecostes: Ordenou à febre, e ela deixou-a.

Homilia de Santo Ambrósio Bispo sobre o Evangelho de hoje: Lucas, 38, 44.

Lib 4 in cap. IV Lucae, sub finem.

Vê a clemência do Senhor Salvador: não deixou a Judeia, nem quando comovido pela indignação, nem ofendido pelas culpas, nem agredido pelas injúrias: antes esquecido das injúrias e lembrado da clemência, já ensinando, já livrando, já curando, move os corações do povo sem fé. Bem lembrou São Lucas que Ele antes livrou um homem de um espírito imundo, e então curou uma mulher, porque o Senhor veio para ambos os sexos que criou, mas antes deveria ser sanado o que primeiro fora criado, e, depois, não negligenciar aquela que, mais pela inconstância de ânimo que por depravação, pecou.

O início da medicina do Senhor num sábado significa que a nova criação começou onde acabou a velha. Além disso, mostra que o Filho não está sob a lei, mas sobre ela, e que não veio para abolir a lei, mas para cumpri-la. De fato, não foi pela lei, senão pelo Verbo que o mundo foi feito, como se lê: Os céus foram firmados pelo Verbo do Senhor (Salmo 32, 6). Portanto, a lei não é abolida, mas cumprida, de modo que se faça a renovação do homem já decaído. Por isso mesmo o Apóstolo diz: Despojai-vos do homem velho, revesti-vos do novo, que foi criado segundo Deus (Efésios 4, 22).

28 de maio de 2010

Sexta-feira da Têmpora de Pentecostes: Vendo-lhes a fé, disse: "Homem, teus pecados estão perdoados".

Homilia de Santo Ambrósio Bispo sobre o Evangelho de hoje: Lucas 5, 17-26, sobre o auxílio espiritual que se deve dar aos doentes.

Lib 5 in cap 5 Lucae post initium

Não foi sem razão nem desproposita essa cura que o Senhor operou com o paralítico, pelo fato de ter orado: isso Ele mandou não por que precisasse, mas por causa do exemplo. Fez isso para dar-nos um modelo a ser imitado, e não porque necessitasse da oração para curá-lo. E aos que ali vieram de toda a Galileia e Judeia, e os doutores da lei de Jerusalém, entre os demais remédios dos débeis, é demonstrada a medicina que ele usou com esse paralítico. Primeiro de tudo, segundo o que dissemos antes, que todo doente convide os seus amigos a rezar pela sua salvação, para que reformem-se, pelo remédio do verbo celestial, os defeitos da estrutura da nossa vida e as pegadas coxas dos nossos atos.

Deve haver, também, admoestadores das almas dos doentes, para que, a despeito da debilidade do corpo exterior, elevem o ânimo dos homens às coisas mais altas. Nas costas desses, ele é facilmente erguido e colocado diante de Jesus, digno de ser olhado pelo Senhor. Porque o Senhor volta sua atenção à humildade: "Porque olhou para a humildade da sua serva" (Lucas 2, 48). "Vendo a fé deles, disse: Homem, teus pecados estão perdoados". Grande é o Senhor, Que, pelo mérito de uns perdoa outros; Que, enquanto prova uns, releva os erros de outros. Por que não valorizas o teu igual, ó homem, se, junto de Deus, o servo tem o mérito da intercessão e o direito de impetrar o que pede?

27 de maio de 2010

Quinta-feira na Oitava de Pentecostes: Deu-lhes virtude e poder sobre todos os demônios e para curar enfermidades.

Homilia de Santo Ambrósio Bispo sobre o Evangelho de hoje: Lucas, 9, 1-6.

Lib. 6. in cap. 9. Lucae.

Pelos preceitos do Evangelho é definido como deve ser aquele que anuncia o Reino de Deus: que, sem vara, sem bolsa, sem calçado, sem pão, sem dinheiro, isto é, que, sem requerer nenhum subsídio secular, e, só pela fé, considere-se como quem de menos precisa, e que mais se satisfaz com o que tem. Se quisermos, podemos dar uma interpretação espiritual para essa questão: que se dispa da carne como de uma roupa, não apenas rejeitando o poder das riquezas desprezadas, mas abdicando também dos prazeres da carne. A esses apóstolos, foi dado, por primeiro, o mandamento geral da paz e concordância [constantia], para que tragam a paz*, conservem a constância, observando as obrigações e normas da casa do hospedeiro: é estranho a um pregador do reino dos céus mudar de casa em casa, e mudar as leis invioláveis da hospedaria.

Por outro lado, de modo a recomendar às pessoas o favor de dar-lhes hospedagem, Ele manda também: se não fordes recebidos, batei o pó e saí da cidade. Ensina ainda Ele que não são pequenos os bens com os quais são remunerados os hospedeiros, pois nós não apenas damos paz à hospedagem, como também, se houver aí alguém ofuscado pela leviandade dos delitos terrenos, será libertado recebendo as pegadas do pregador apostólico. Segundo Mateus, a escolha da casa na qual o apóstolo entrará não deve ser descurada**, para que não seja necessário violar os costumes da hospedagem. Mas tanta precaução não é recomendada àquele que oferece abrigo, para que a sua hospitalidade não seja diminuída, se se puser a escolher o hóspede.

* Mateus, 10, 13: Ao entrardes numa casa, dizei: Paz a esta casa!
** Mateus, 10, 11.

25 de maio de 2010

Terça-feira na Oitava de Pentecostes: Eu sou a porta das ovelhas.

Homilia de Santo Agostinho Bispo sobre o Evangelho de hoje: João, 10, 1-10.

Tratado 45 sobre João, após o início

Na leitura de hoje, o Senhor propôs uma comparação do Seu próprio rebanho, e da porta pela qual se entra ao aprisco. Digam, então, os pagãos: Bem vivemos! Se não entram pela porta, de que lhes serve aquilo de que se gloriam? Para uma só coisa aproveita viver bem: para que se lhe dê viver para sempre - de que adianta, pois, viver bem, àquele a quem não é dado viver para sempre? Porque não são dignos de se dizer que vivam bem os que, pela cegueira, ignoram, ou, pela soberba, desprezam qual seja o fim de um viver bem. Mas ninguém tem por verdadeira e certa a esperança de viver para sempre, senão quem conhece a vida, que é Cristo, e, pela porta, entre no aprisco.

Muitos desses homens procuram até persuadir os homens a viver bem, e não são cristãos. Por outra parte querem entrar, roubar e matar; não querem, como o bom pastor, conservar e salvar. Houveram certos filósofos que, muito detalhadamente, das virtudes e vícios trataram, dividiram, definiram, com agudíssimos raciocínios concluíram, livros encheram, sua sabedoria com estrondo espalharam pelos ventos, que chegaram a dizer aos homens: Segui-nos, guardai a nossa seita, se quereis viver bem-aventuradamente. Mas não entravam pela porta: queriam perder, sacrificar e assassinar.

Que direi desses? Eis que os próprios fariseus liam, e, no que liam, de Cristo diziam, esperavam-n'O por vir, mas, presente, não O reconheceram. Jactavam-se de estar entre os Videntes, ou seja, entre os sábios, e negavam Cristo, e não entravam pela porta. Também esses, se acaso seduzirem alguns, o será para sacrificá-los e assassiná-los, e não para livrá-los. Deixemo-los, e vejamos se talvez entram pela porta os que se gloriam do próprio nome de Cristo. Mesmo entre esses, são inumeráveis os que não apenas se jactam de ser Videntes, mas querem ser vistos como iluminados por Cristo; no entanto, são hereges.

24 de maio de 2010

Segunda-feira na Oitava de Pentecostes: Quem faz a verdade vem à luz.

Homilia de Santo Agostinho Bispo, sobre o Evangelho de hoje: João 3, 16-21.

Tratado 12 sobre João, perto do fim

Tudo o que há num médico, vem no sentido de sarar o doente. E mata-se aquele que não quer observar os preceitos do médico. Da mesma forma, por que Aquele é chamado Salvador do mundo, senão para que salve o mundo, e não o julgue? Não queres ser salvo por ele? Por teus [feitos] serás julgado. E por que eu digo "Serás julagdo"? Vê o que disse [São João]: "Quem crê n'Ele não será julgado. Aquele, porém, que não crer..." Que esperavas que dissesse, senão: "Será julgado"? Porém, ele diz: "Já está julgado". Não aparece o juízo, e no entanto já está feito.

O Senhor conehce os que são d'Ele: conhece os que continuarão até a coroa, e os que continuarão até a chama. Ele conhece, no seu campo, o trigo assim como conhece o abrolho; conhece o cereal, conhece também a cizânia. Já está julgado o que não crê. Por que julgado? Porque não creu no nome do Filho unigênito de Deus. Esse é o juízo: a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas que a luz, porque as suas obras eram más. Meus irmãos, obras de quem o Senhor achará boas? De ninguém. Acha todas obras más. Como, pois, alguns fizeram a verdade e vieram à luz? Porque está escrito: Quem faz a verdade, vem à luz.

"Mas amaram, disse, mais as trevas que a luz." Aí puseram a vontade. Pois muitos amaram os seus pecados, outros muitos, porém, confessaram os seus pecados. E os que confessam e acusam os seus pecados já obram com Deus. Deus acusa os teus pecados: se tu também os acusardes, juntas-te a Deus. Como que duas coisas diferentes são o homem e o pecador. Deus fez o homem, mas o pecador foi feito pelo homem. Destrói o que fizeste tu, para que Deus salve o que Ele fez. Convém que odeies em ti a tua obra, e ames em ti a obra de Deus. Quando começarem a desagradar-te os teus feitos, então começarão as tuas boas obras, porque estarás acusando as tuas obras más. O início das obras boas é a confissão das obras más.

22 de maio de 2010

Domingo de Pentecostes: Nele faremos morada.

Homilia de São Gregório Papa
Homilia 30 sobre os Evangelhos

Convém, caríssimos irmãos, tratar com brevidade das palavras da leitura evangélica, para que, depois, possamos permanecer mais tempo na contemplação de tamanha solenidade. Eis que hoje o Espírito Santo vem sobre os discípulos com um estrondo repentino, mudando as suas idéias das coisas carnais para o seu amor, e, por fora aparentando como línguas de fogo, por dentro se fizeram labaredas no coração, porque, enquanto recebiam Deus na visão de fogo, ardiam suavemente por amor. Este Espírito Santo, pois, é o amor: por isso mesmo diz João: "Deus é amor". Portanto, aquele que deseja a Deus com reta intenção, já possui Aquele Que ama, visto que ninguém poderia amar a Deus se não tivesse Aquele Que ama.

Mas vede: se qualquer um de vós for perguntado se ama a Deus, com toda confiança e segurança responda: Amo. No começo dessa leitura ouvistes o que a Verdade diz: Se alguém Me ama, guardará Minha palavra. A prova do amor, portanto, é a manifestação das obras. Sobre isso, em sua epístola, o mesmo João diz: Quem diz "Amo a Deus" e não guarda os Seus mandamentos é mentiroso. Verdadeiramente amamos a Deus e guardamos os Seus mandamentos se refreamos os nossos apetites. Quem se dissipa pelos desejos ilícitos, por isso mesmo não ama a Deus: porque Lhe diz "Não" com a sua vontade.

"E o Meu Pai o amará, e a ele viremos, e nele faremos morada." Pensai, irmãos caríssimos, quão grande seja esta dignidade: ter à habitação do coração a vinda de Deus. Certamente que se em nossa casa fosse entrar um amigo rico e poderoso, toda a casa seria depressa limpa, para que não ocorresse que houvesse algo que ofendesse os olhos do amigo que entra. Lave, pois, as sujeiras das obras más, aquele que prepara a casa da alma para Deus. Mas vede o que diz a Verdade: Venhamos, e façamos nele morada. Porém, com alguns, vem-lhes ao coração, mas não faz aí morada, porque, ainda que, pela compunção, recebem a atenção de Deus, no tempo da tentação esquecem-se daquilo mesmo de que se tinham arrependido, e voltam a fazer os pecados como se nunca se houvessem arrependido.

9 de maio de 2010

Domingo das Rogações: Tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo dará!

Tract. 102 in Joannem

Agora é oportuno tratar destas palavras do Senhor: Em verdade, em verdade vos digo que tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo dará. Já foi dito nas partes anteriores desse sermão dominical, pelo bem daqueles que muito pedem ao Pai em nome de Cristo, sem receber, que não é pedido em nome do Salvador aquilo cujo fim é contra a salvação. Porque não é ao som das letras e sílabas, mas ao sentido do mesmo som e ao que dele honesta e verazmente se entende, que se referem as palavras: Em meu nome.

Donde se conclui que aquele que pensa em relação a Cristo aquilo que não é próprio de ser pensado em relação ao Filho único de Deus, este não pede em Seu nome, ainda que não deixe de pronunciar, com letras e sílabas, "Cristo", pois pede no nome daquele ser que ele imaginou, no qual pensa enquanto pede. Por outro lado, aquele que sente em relação a Ele aquilo que é próprio de ser sentido em relação a Ele, este pede em Seu nome, e recebe o que pede, se não pedir contra a sua eterna salvação. Recebe, porém, quando deve receber. Portanto, isso que ele pediu não lhe é negado, mas fica pendente até que chegue o tempo oportuno. Esta é a interpretação saudável das palavras: Dar-vo-lo-á: que se saiba que os benefícios significados por estas palavras são aqueles que pertencem propriamente àqueles que pedem. Serão atenditos, portanto, todos os Santos quando pedirem para si mesmos, mas nem sempre quando pelos seus amigos ou inimigos, ou quaisquer outros, porque não é dito simplesmente: Dará, senão: Dar-vo-lo-á.

Até agora, Ele diz, não haveis pedido nada em Meu nome. Pedi, e recebereis, para que a vossa alegria seja plena. Isso que Ele diz: Alegria plena, entenda-se que não é da alegria carnal, mas da espiritual que Ele diz, a qual, quando tanta for que não seja passível de ser aumentada, então sem dúvida será plena. Sendo assim, tudo aquilo que for pedido, que se refira a atingir essa alegria, isso deve ser pedido em nome de Cristo, se aspiramos à graça divina, se pedimos a vida bem-aventurada. Fora disso, tudo sendo pedido, não é pedido nada - não porque todas as coisas não sejam nada, mas porque, em comparação a isso, é nada tudo o que possa ser desejado.

20 de fevereiro de 2010

Primeiro domingo da Quaresma: Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.

Sermão de Santo Antônio de Pádua

EXÓRDIO - O DESERTO DE ENGADI

1. "Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo", etc. (Mt 4, 1).
Lemos no primeiro livro dos Reis que Davi demorou-se no deserto de Engadi (cf. 1Re 24, 1-2). Davi quer dizer "de mão forte" e indica Jesus Cristo, que, com as mãos pregadas na cruz, destruiu as potências dos ares (diabólicas). Ó maravilhoso poder: vencer o próprio inimigo com as mãos presas! Cristo demorou-se no deserto de Engadi, nome que se interpreta como "olho da tentação".
Observa que o olho da tentação é tríplice. O primeiro é o da gula, do qual se lê no Gênesis: "E a mulher viu que [o fruto] da árvore era bom para comer, belo aos olhos e de aspecto agradável; tomou do seu fruto, comeu dele e deu-o ao seu marido" (Gn 3, 6). O segundo é o da soberba e da vanglória, do qual Jó, falando do diabo, diz: "Olha tudo o que é alto: ele é o rei de todos os filhos da soberba" (Jó 41, 25). O terceiro é o da avareza, do qual fala o profeta Zacarias: "Este é o seu olho em toda a terra" (Zc 5, 6). Cristo, então, permaneceu no deserto de Engadi por quarenta dias e quarenta noites; durante eles, sofreu do diabo as tentações da gula, da vanglória e da avareza.
2. É dito, por isso, no evangelho de hoje: "Jesus foi conduzido ao deserto". Observa que os desertos são três, e em cada um desses foi conduzido Jesus: o primeiro é o seio da Virgem, o segundo é aquele do evangelho de hoje, o terceiro é o patíbulo da cruz. Ao primeiro, foi conduzido só pela misericórdia, ao segundo, para dar-nos o exemplo, ao terceiro, para obedecer o Pai.
Do primeiro diz Isaías: "Mandai, Senhor, o cordeiro dominador da terra, da pedra do deserto ató o monte da filha de Sião" (Is 16, 1). Ó Senhor, Pai, mandai o cordeiro, não o leão, o dominador, não o destruidor, da pedra do deserto, isto é, da bem-aventurada Virgem que é chamada "pedra do deserto": "pedra", pelo firme propósito da virgindade, pelo qual respondeu ao anjo: "Como pode acontecer isso, pois não conheço homem?" (Lc 1, 34), vale dizer: fiz o firme propósito de não conhecê-lo; "do deserto", porque não arável [lat. inarabilis]: permaneceu, de fato, intacta, virgem antes do parto, no parto e depois do parto. Mandai-o ao monte da filha de Sião, isto é, à santa igreja, que é filha da celeste Jerusalém.
Do segundo deserto diz Mateus: "Jesus foi conduzido ao deserto, para ser tentado pelo diabo", etc.
Do terceiro fala João Batista: "Eu sou a voz daquele que clama no deserto" (Jo 1, 23). João Batista é dito "voz" porque, como a voz precede a palavra, assim ele precedeu o Filho de Deus. Eu, disse, dou a voz de Cristo, que clama no deserto, isto é, sobre o patíbulo da cruz: "Pai, nas vossas mãos eu entrego o meu espírito" (Lc 23, 46). Nesse deserto tudo foi cheio de espinhos e ele foi privado de toda forma de humano socorro.

A TRÍPLICE TENTAÇÃO DE ADÃO E DE JESUS CRISTO

3. "Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto". Frequentemente se pergunda por quem Jesus foi conduzido ao deserto. Lucas o diz claramente: "Jesus, cheio do Espírito Santo, retirou-se do Jordão e foi conduzido pelo Espírito ao deserto" (Lc 4, 1). Foi conduzido por aquele mesmo Espírito do qual estava cheio, e do qual ele mesmo diz, pela boca de Isaías: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me consagrou com a unção" (Is 61, 1). Por aquele Espírito, pelo qual foi "ungido" (consagrado) mais que os seus companheiros (cf. Hb 1, 9), foi conduzido ao deserto, para ser tentado pelo diabo.
Como o Filho de Deus, o nosso Zorobabel, nome que se interpreta como "mestre da Babilônia", viera reconstruir o mundo arruinado pelo pecado, e, como médico, para curar os doentes, foi necessário que ele curasse os maus com os remédios opostos: como na arte médica as coisas quentes se curam com o frio, e as coisas frias com o calor.
A ruína e a fragilidade do gênero humano foi o pecado de Adão, constituído de três paixões: a gula, a vanglória, a avareza. Diz, de fato, o verso: "A gula, a vanglória e a ganância venceram o velho Adão" (autor desconhecido). Esses três pecados os achas escritos no Gênesis: "Disse a serpente à mulher: No dia em que comerdes deste fruto, abrir-se-ão os vossos olhos", eis a gula; "sereis como deuses", eis a vanglória; "conhecereis o bem e o mal", eis a avareza (Gn 3, 4-5). Esses foram as três lanças com as quais foi assassinado Adão junto com os seus filhos [com a sua descendência].
Lemos no segundo livro dos Reis: "Joab tomou na mão três lanças e as meteu no coração de Absalão" (2Re 18, 14). Joab quer dizer "inimigo" e justamente indica o diabo, que é o inimigo do gênero humano. Ele, com a mão da falsa promessa, "tomou três lanças", isto é, a gula, a vanglória e a avareza, "e as meteu no coração", no qual está a fonte do calor e da vida do homem - "dele, diz Salomão, procede a vida" (Pr 4, 23) -, para apagar o calor do amor divino e tirar completamente a vida; "no coração de Absalão", nome que quer dizer "paz do pai". E esse foi Adão, que foi posto num lugar de paz e de delícias a fim de que, obedecendo o Pai, conservasse eternamente a su apaz. Mas, já que não quis obedecer o Pai, perdeu a paz e, no seu coração, o diabo meteu as três lanças e o privou completamente da vida.
4. O Filho de Deus veio, portanto, no tempo favorável e, obedecendo a Deus Pai, reintegrou aquilo que estava perdito, curou os vícios com os remédios opostos. Adão foi posto no paraíso no qual, imerso nas delícias, caiu. Jesus, pelo contrário, foi conduzido ao deserto, no qual, persistindo no jejum, derrotou o diabo.
Observai como concordam entre si, no Gênesis e em Mateus, as três tentações: "Disse a serpente: No dia em que comerdes dele"; "e, aproximando-se, o tentador lhe disse: Se és o Filho de Deus, dize que estas pedras se tornem pães" (Mt 4, 3): eis a tentação da gula. Da mesma forma: "Sereis como deuses"; "então o diabo levou-o à cidade santa, e o pôs sobre o pináculo do templo" (Mt 4, 5), eis a vanglória. E enfim: "Conehcereis o bem e o mal"; "novamente, o diabo levou-o para sobre um monte altíssimo, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, e lhe disse: Tudo isto eu te darei, se, prostrando-te, me adorares" (Mt 4, 8-9). O diabo, quanto é pérfido, tanto perfidamente fala: essa é a tentação da avareza.
Mas a Sabedoria, por sempre agir sabiamente, superou as três tentações do diabo com as três sentenças do Deuteronômio.
Jesus, quando o diabo o tentou pela gula, respondeu: "O homem não vive somente de pão" (Mt 4, 4; cf. Dt 8, 3), como se dissesse: Como o homem exterior vive de pão material, assim o homem interior vive do pão celeste, que é a palavra de Deus. A Palavra de Deus é o Filho, que é a Sabedoria que procede da boca do Altíssimo (cf. Eclo 24, 5). A sabedoria* é chamada, assim, de sabor. Assim o pão da alma é o sabor da sabedoria, com o qual assabora os dons do Senhor e prova quão suave é o próprio Senhor (cf. Sl 33, 9). Desse pão é dito no livro da Sabedoria: "Preparaste-lhes um pão do céu, que contém toda delícia e todo suave sabor" (Sb 16, 20). E isso pretende quando diz: "Mas de toda palavra que sai da boca de Deus" (Mt 4, 4; cf. Dt 8, 3). "De toda palavra", porque a palavra de Deus e a sabedoria têm todo sabor suave, que torna insípido todo prazer da gula. E, como Adão teve nojo dese pão, cedeu à tentação da gula. Justamente, então, é dito: Não só de pão, etc.
Da mesma forma, quando o diabo o tentou pela vanglória, Jesus respondeu: "Não tentarás o Senhor, teu Deus" (Mt 4, 7; cf. Dt 6, 16). Jesus Cristo é Senhor pela criação, é Deus pela eternidade. E esse Jesus o diabo tentou, quando exortou a atirar-se abaixo, do pináculo do templo, o próprio criador do templo, e prometeu a ajuda dos anjos ao Deus de todas as potências celestes. "Não tentarás, então, o Senhor, teu Deus!". Também Adão tentou o Senhor Deus, quando não observou o mandamento do Senhor e Deus, mas prestou fé com leviandade à falsa promessa: "Sereis como deuses". Que vanglória, crer poder tornar-se deuses! Ó miserável! Em vão te enalteces acima de ti mesmo, e, por isso, ainda mais meseravelmente cais abaixo de ti. Não tentes, então, o Senhor, teu Deus.
Enfim, quando o diabo o tentou pela avareza, Jesus respondeu: "Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a Ele servirás" (Mt 4, 10; cf. Dt 6, 13; 10, 20). Todos aqueles que amam o dinheiro ou a glória do mundo, ajoelham-se diante do diabo e o adoram.
Nós, pelo contrário, por quem o Senhor veio ao seio da Virgem e sofreu o patíbulo da cruz, instruídos pelo seu exemplo, caminhamos no deserto da penitência e, com a sua ajuda, reprimimos a concupiscência da gula, o vento da vanglória e o fogo da avareza.
Adoramos também nós aquele que os próprios arcanjos adoram, servimos aquele que os anjos servem, aquele que é bendito, glorioso, louvável e excelso pelos séculos eternos. E todo o criado diga: Amém!

* Do lat. sapere: sentir sabor. (N. do T.)

Traduzido por nós de http://www.santantonio.org/portale/sermones/indice.asp?ln=IT&s=0&c=6&p=0

Ver também:
http://www.saopiov.org/2009/03/primeiro-domingo-da-quaresma-para-tras.html

13 de fevereiro de 2010

Domingo da Qüinquagésima: Eis que subimos a Jerusalém...

2.ª Homilia sobre os Evangelhos, do Papa São Gregório Magno

O nosso Redentor, prevendo a perturbação que a sua paixão provocaria nos ânimos dos discípulos, predisse-lhes muito antes a pena dessa mesma paixão e a glória da sua ressurreição, para que, enquanto Ele estivesse morto, eles fossem capazes de entender que era como Ele predissera, e, assim, não duvidassem da ressurreição. Mas, porque os discípulos, demasiado carnais, não podiam chegar a entender as palavras deste mistério, Ele recorreu a um milagre. Diante dos seus olhos, um cego recebeu a luz. Destarte, aqueles que não podiam entender os mistérios através de palavras, por meio de feitos, foram persuadidos, a crê-los.

Mas os milagres de nosso Senhor e Salvador devem ser recebidos, caríssimos irmãos, de modo que sejam cridos como tendo sido feitos, mas também como pretendendo significar-nos alguma coisa. As obras, pois, de Deus, pelo seu poder, ostentam uma coisa, e, pelo seu mistério, dizem outra. Eis, portanto, que ignoramos quem fosse historicamente esse cego, mas conhecemos quem ele significa no mistério. Porque o cego é a raça humana, que, nos primeiros pais, foi expulsa das alegrias do paraíso, e, ignorando a claridade da luz eterna, padece a desventura das suas trevas. Mas, ao mesmo tempo, é iluminada pela presença do seu Redentor, de modo que já veja, pelo desejo dela, as alegrias da luz interna, e, por meio de boas obras, ponha seus passos no caminho da vida.

É notável que o cego tenha sido iluminado justo quando se diz que Jesus se aproximava de Jericó. O nome "Jericó" significa "lua", e lua, na linguagem sagrada, simboliza a carne defectível, porque seu decréscimo no ciclo mensal se compara ao defeito da nossa mortalidade. Então, aproximando-se o nosso Criador de Jericó, restitui a luz a um cego, isto é: quando a divindade assumiu a defectibilidade da nostra carne, o gênero humano recebeu a luz que perdera. Por isso, em sofrendo Deus sob o fardo de ser um humano, o homem é elevado até Deus. Além disso, descreve-se o cego como estando sentado mendigando junto ao caminho, e eis que a própria Verdade disse: Eu sou o caminho.

Quem, pois, não conhece a claridade da luz eterna, é cego. Mas, se já crê no redentor, senta-se junto ao caminho. Porém, se já crê mas de modo que deixa de rogar que quer receber a luz eterna, e pára de rezar, então é um cego que se senta junto ao caminho, mas quase não mendiga. Se, todavia, crê e ora, senta-se junto ao caminho e mendiga.

31 de janeiro de 2010

Domingo da Septuagésima: O Reino dos Céus é semelhante a um pai de família...

Abaixo consta uma homilia do Papa São Gregório Magno sobre o Evangelho deste domingo (Mt XX 1-16). Uma pesquisa na internet não encontrou nenhuma outra versão em português desta homilia, além desta nossa, que publicamos aqui:

Homilia XIX Sancti Gregori Papæ in Evangelia
19.ª Homilia sobre os Evangelhos, do Papa São Gregório Magno

[Para sua explicação, a leitura do santo evangelho requer muito o que falar. Por isso quero, o quanto possível, falar com brevidade para não vos molestar onerando-a com um tempo muito longo e uma exposição muito prolixa.]

O Reino dos céus é dito semelhante a um homem pai de familia, que conduz operários para trabalhar na sua vinha. Quem mais diretamente a um pai de familha se assemelha que o nosso Criador, Que rege aqueles que criou, e, neste mundo, possui os seus eleitos de tal modo qual um senhor na sua casa? Ele Que tem uma vinha, claramente a Igreja universal, que, desde o justo Abel até o último eleito que nascer no mundo, tantos Santos dá à luz, como uma videira de que brotam muitos ramos.

Este pai de familha, pois, conduz os operários para trabalhar na sua vinha de manhã, na hora terça, sexta, noa e undécima, isto é, desde o início até o fim do mundo não desiste de congregar pregadores para educar o povo de fiéis. A manhã do mundo aconteceu desde Adão até Noé; a hora terça, de Noé a Abraão; a sexta, de Abraão a Moisés; a noa, de Moisés até a vinda do Senhor; e a undécima desde a vinda do Senhor até o fim do mundo - hora essa em que foram enviados como pregadores os santos Apóstolos, que, mesmo tendo chegado tarte, receberam a recompensa inteira.

Para educar, pois, o Senhor a sua plebe, como se fosse para cultivar a sua vinha, em tempo nenhum desiste de enviar operários, porque, primeiro pelos Patriarcas, depois pelos Doutores da lei e Profetas, e por último pelos Apóstolos, para emendar os costumes do seu povo, trabalhou como que por operários na vinicultura. Todo aquele que, em qualquer pouquinho e em qualquer medida, com reta fé constituiu-se num pregador, por meio de boas ações, este foi operário da vinha. Assim, o operário da manhã e das horas terça, sexta e noa designa aquele povo antigo e os hebreus que com reta fé louvaram a Deus com Seus eleitos, não desistiram de trabalhar na cultura da vinha. Na hora undécima, então, foram chamados os Gentios, aos quais se disse: Por que ficais aí o dia todo ociosos?

23 de janeiro de 2010

Terceiro domingo depois da Epifania: Se queres, podes limpar-me - Quero, sê limpo.

Homilia de São Jerônimo, Presbítero
Livro 1 dos Comentários, sobre o capítulo 8 de Mateus

Descendo o Senhor da montanha, acorrem a Ele as turbas, que não conseguiram subir até as alturas. E o primeiro que Lhe chega é o leproso - devido à sua lepra, não pudera estar no monte ouvindo o sermão do Salvador. Note-se que esse é o primeiro milagre de cura mencionado; o segundo, o filho do centurião; o terceiro, a sogra de Pedro, febril, em Cafarnaum; o quarto, o que Lhe trouxeram, perturbado por demônios, que expulsou com sua palavra, na mesma ocasião em que curou todos os que tinham males.

E eis que o leproso, chegando, falou adorando-O. Logo após a pregação e a doutrina, oferece-se uma ocasião de realizar um sinal, para que, por força do milagre, o precedente sermão fosse firmado junto aos ouvintes. Senhor, se queres, podes limpar-me. Aquele que roga a vontade, não duvida do poder para fazê-lo. E, estendendo Jesus a mão, tocou-o, dizendo: Quero-o, sê limpo [Volo, mundare]. Ao estender da mão do Senhor, a lepra imediatamente foge. Considera, ao mesmo tempo, quão humilde e sem jactância foi a resposta. Ele dissera: Se queres - o Senhor respondeu: Quero. Ele declarara: Podes limpar-me - o Senhor juntou: Sê limpo. Essa frase não deve ser lida toda junta, como muitos latinos julgam, como se fosse "Quero limpar", mas separadamente, como foi dito primeiro: Quero, ordenando depois: Sê limpo.

E diz-lhe Jesus: Vê que não o digas a ninguém. E, na verdade, que necessidade teria de pregar sermões, aquele que dava preferência ao corpo? Mas vai, e mostra-te ao sacerdote. Por várias causas enviou-o ao sacerdote: primeiro, pela humildade, para que se veja a honra que se deve deferir aos sacerdotes. O preceito da lei estabelecia que aqueles que fossem limpos da lepra oferecessem dons aos sacerdotes. Além disso, para que, vendo o leproso limpo, os sacerdotes cressem no Salvador, ou não cressem: se cressem, seriam salvos; se não, seriam inescusáveis. E, por fim, para que, como muito amiúde tentavam incriminá-l'O, não se O visse infringir a lei.

16 de janeiro de 2010

Segundo domingo depois da Epifania: Guardaste o vinho melhor até agora!

Homilia de Santo Agostinho, Bispo
Tratado 9 sobre João, depois do começo

O fato de o Senhor, convidado, ter vindo às núpcias, além do seu significado místico, quer confirmar que Ele é autor do casamento. Porque estavam por vir aqueles, de que disse o Apóstolo, que proibiriam o desposar-se, dizendo que o diabo fosse o seu autor. Além disso, diz o Senhor no Evangelho, ao ser interrogado se por alguma causa é lícito ao homem dispensar a sua esposa, que não é lícito, exceto por causa de fornicação. Nessa resposta, se vos lembrais, ajuntou: O que Deus uniu, o homem não separe.

E aqueles que foram bem formados na fé católica aprenderam que o casamento foi inventado por Deus, e, tanto quanto as núpcias por Deus, o divórcio o foi pelo diabo. Mas por causa de fornicação é lícito dispensar a esposa, porque aquela que não conservou a fidelidade conjugal ao marido, antes já não queria ser esposa. Aquelas que fazem voto de virgindade a Deus, adquirindo, assim, um maior grau de honra e santidade na Igreja, não devem ser consideradas como não casadas, porque pertencem às núpcias com a Igreja toda, em cujas núpcias o Esposo é Cristo.

Também por isto o Senhor, convidado, veio às núpcias: para firmar a castidade conjugal, e pôr à luz o sacramento do matrimônio, porque, naquelas núpcias, a pessoa do Senhor era figurada pelo esposo, ao qual foi dito: Guardaste o vinho melhor até agora. Cristo, pois, guardou até então o vinho melhor, isto é, o Seu Evangelho.

9 de janeiro de 2010

"E Ele lhes era submisso"

Homilia de São Bernardo Abade
Homilia 1 supra Missus est, n. 7-8

"E Ele lhes era submisso". Quem era submisso a quem? Deus ao homem! Deus, repito-o, a Quem os Anjos são submissos, Que os Principados e Potestades obedecem, era submisso a Maria, e não somente a Maria, mas a José também, por causa de Maria. Maravilhemo-nos, pois, com os dois, e escolhamos o que maravilha mais: se é a benigníssima condescendência do Filhio, ou a excelentíssima dignidade da Sua Mãe. Ambas nos estupefazem, e ambas são milagres. Que Deus obedeça uma mulher, é humildade ímpar; que uma mulher reja Deus, uma elevação incomparável. Em louvor às virgens, canta-se, particularmente, que seguem o Cordeiro por onde quer que Ele vá. De que louvor, portanto, é digna Aquela que até vai diante d'Ele?

Aprende, ó homem, a obedeceres! Aprende, ó terra, a te submeteres! Aprende, ó pó, a seres submisso! O Evangelista, falando de teu Criador, disse : "E Ele lhes era submisso". E não há dúvida de que isso nos evidencia que Deus era submisso a Maria e José. Que vergonha para ti, ó ser de pó e cinzas! Deus Se abaixou, e tu, ó criatura tirada da terra, te exaltas? Deus Se submeteu ao homem, e tu, sempre tão ávido por te fazer senhor dos homens, ousas desmandar teu próprio Criador? Porque todas as vezes que Eu desejo preeminência sobre os homem, me esforço para superar Deus. Porque d'Ele foi dito : "Ele lhes era submisso". Se tu desdenhas, ó homem, seguir o exemplo do homem, pelo menos poder seguir o exemplo do teu Criador sem desonra. Se, por acaso, não podes segui-l'O onde quer que Ele vá, digna-te, ao menos, segui-l'O nesse ponto no qual Ele Se rebaixou, desprezando a própria reputação pelo bem daqueles como tu.

Se não podes entrar para os caminhos sublimes da virgindade, ao menos segue Deus pela estrada seguríssima da humildade. Quem se desvia desse caminho reto, mesmo que seja virgem, a verdade seja dita, não segue o Cordeiro por onde quer que Ele vá. O homem humilde, mesmo que manchado de pecado, segue o Cordeiro ; a virgem, se é orgulhosa, também segue ; mas nenhum dos dois O segue por onde quer que Ele vá. O primeiro não pode atingir a pureza do Cordeiro, porque Ele é sem mancha ; a última não se digna descer à Sua mansidão, que cala não diante do tosquiador, mas fica mudo diante do próprio assassino. Ainda assim, o pecador que segue em humildade escolheu um caminho mais salvífico do que o homem orgulhoso que segue em virgindade ; porque o humilde presta satisfação, e é limpo de sua impureza, mas a castidade do orgulhoso é manchada pela sua soberba.

2 de janeiro de 2010

Festa do Santíssimo Nome de Jesus: Foi chamado Jesus, como o fora pelo Anjo, antes de ser concebido no seio materno.

Homilias de São Bernardo Abade

Sermão 1 sobre a Circuncisão

Ó mistério grande e admirável! É circuncidado o Menino, e chamado Jesus. Como estão conectadas essas duas coisas? Obviamente, a circuncisão cabe melhor aos que estão para ser salvos, do que ao Salvador; e ao Salvador convém mais circuncidar do que ser cincuncidado. Mas reconhece o mediador de Deus e os homens, Que, desde o Seu nascimento, liga as coisas humanas às divinas, as mais baixas às mais altas. Nascido de mulher, mas Cuja fecundidade dá o fruto de tal sorte que não perde a flor da virgindade. É envolvido de panos, mas esses mesmos panos são objetos da honra de louvores angélicos. Esconde-Se no presépio, mas produz uma radiante estrela no céu. Assim também, pela circuncisão, atesta a humanidade que assumiu, e o Nome que está acima de todo nome indica a glória de Sua majestade. É circuncidado qual verdadeiro filho de Abraão; é chamado Jesus qual verdadeiro Filho de Deus.

Ao contrário das figuras antecedentes que tinham o nome "Jesus", o meu Jesus não leva esse nome em vão ou debalde, não há n'Ele as sombras de um nome superior, mas a verdade. O Evangelista atesta que foi indicado pelos Céus o nome pelo qual foi chamado pelo Anjo antes que fosse concebido no seio materno. E atentai para a profundidade da palavra: Depois que nasceu Jesus, foi chamado Jesus pelos homens, Ele Que assim foi chamado pelo Anjo, antes que fosse concebido no seio materno. Isso porque igualmente Ele é Salvador do Anjo e do homem: do homem pela encarnação, do Anjo desde o início da criação dele. Foi chamado, diz, Jesus, como fora chamado pelo Anjo. No testemunho de dois ou três, mantém-se qualquer palavra: assim Ele, como indicado pelo Profeta, de modo mais manifesto se lê no Evangelho que Se fez carne.

Sermão 2 sobre a Circuncisão

Convém que, quando foi circuncidado o Menino Que nasceu para nós, fosse chamado Salvador, porque evidentemente já desde aquele momento começou a obrar a nossa salvação, derramando por nós Aquele Sangue imaculado. Já não se pergunte o cristão o motivo por que quis ser circuncidado o Cristo Senhor. Foi circuncidado pela mesma razão que nasceu, pela mesma razão que padeceu. Nada disso para Si mesmo, mas tudo pelos eleitos. Não foi gerado no pecado, nem foi circuncidado do pecado, da mesma forma que não morreu por causa do Seu pecado; antes, devido aos nossos delitos. Fora chamado Jesus, diz o Evangelho, pelo Anjo, antes que fosse concebido no seio materno. Chamado justamente, e não por atribuição: na verdade esse é Seu nome desde eternamente. Tem por própria natureza o ser Salvador: esse é Seu nome inato, não imposto por criatura humana ou angélica.

31 de dezembro de 2009

Circuncisão do Senhor: Pôs-se-Lhe o nome de Jesus.

Homilia de Santo Ambrósio, Bispo
Livro II sobre o capítulo 2 de Lucas, perto da metade.

Então o Menino foi circuncidado. Quem é Este Menino, senão Aquele de Quem foi dito: "Um Menino nos nasceu, um Filho nos foi dado"(1)? "Submeteu-Se à lei para ganhar aqueles que estavam submetidos à lei." (2) Para apresentá-l'O ao Senhor. O que significa ser apresentado ao Senhor em Jerusalém, já o disse no comentário a Isaías. Aquele que circuncidou seus vícios, será achado digno de contemplar o Senhor, porque "Os olhos do Senhor estão sobre os justos".(3) Vês que toda lei antiga era um símbolo da futura: a circuncisão simboliza a purgação dos delitos.

Mas, porque a fragilidade do corpo e da mente humanos, envolvidos em invencíveis vícios, conservam a tendência ao pecado, a circuncisão do oitavo dia prefigura a futura purgação de toda culpa, no tempo da ressurreição. Isso deve-se entender do seguinte: "Todo varão, saindo à luz, será chamado santo para o Senhor"(4). Essas palavras só são literalmente verdadeiras para o nascido da Virgem. E Ele era verdadeiramente santo, porque imaculado. E podemos dizer, ainda, que esse era o sentido da lei, porque as palavras são repetidas do mesmo modo pelo Anjo, que diz: "O Santo que nascer de Vós será chamado Filho de Deus"(5).

O único, portanto, santo, entre os nascidos de mulher, é o Senhor Jesus, Que, isento do contágio da terrena corrupção, que não atingiu o parto imaculado, nem a majestade celeste. Se, pelo contário, entendermos literalmente, como chamar santo todo varão, se não é segredo que muitos sejam maculadíssimos? Acaso é santo Acab? Acaso são santos os falsos profetas, sobre quem Elias justamente fez cair fogo do céu(6)? Mas é santo Aquele Que os piedosos mandatos da divina lei figuravam futuramente, Aquele único a abrir o secreto seio da sua santa virgem Igreja, para, com imaculada fecundidade, gerar povos para Deus.

NN. do T.:
(1) Is 9: 5.
(2) Gl 4: 4-5.
(3) Sl 32: 18.
(4) Nm 18: 15.
(5) Lc 1: 35.
(6) 2Rs 1: 10.

Antífonas das Vésperas da Festa da Circuncisão do Senhor, na Oitava do Natal.

O admirábile commércium : * Creátor géneris humáni, animátum corpus sumens, de Vírgine nasci dignátus est; et procédens homo sine sémine, largítus est nobis suam Deitátem.

Quando natus es * ineffabíliter ex Vírgine, tunc implétæ sunt Scriptúræ : sicut plúvia in vellus descendísti, ut salvum fáceres genus humánum : te laudámus, Deus noster.

Rubum, quem víderat Móyses * incombústum, conservátam agnóvimus tuam laudábilem virginitátem : Dei Génitrix, intercéde pro nobis.

Germinávit radix Jesse, * orta est stella ex Jacob : Virgo péperit Salvatórem ; te laudámus, Deus noster.

Ecce María génuit * nobis Salvatórem, quem Joánnes videns, exclamávit, dicens : Ecce Agnus Dei, ecce qui tollit peccáta mundi, allelúja.



Ó comércio admirável : * O Criador do gênero humano, tomando um corpo animado, dignou-Se nascer de uma Virgem; e, sendo concebido sem o concurso de varão, dispensou-nos Sua Divindade.

Quando nascestes * inefavelmente de uma Virgem, então se cumpriram as Escrituras : como a chuva descestes, para salvar a raça humana : louvamos-Vos, ó Deus nosso.

Na sarça que viu Moisés * incombusta, reconhecemos conservada a Vossa louvável vingindade : Mãe de Deus, intercedei por nós.


Germinou a raiz de Jessé, * apareceu a estrela de Jacó : a Virgem deu à luz o Salvador ; louvamos-Vos, ó Deus nossos.

Eis que Maria gerou * para nós o Salvador, Que, vendo-O, João exclamou, dizendo : Eis o Cordeiro de Deus, eis Aquele Que tira os pecados do mundo, aleluia.
(Tradução nossa.)

27 de dezembro de 2009

Domingo na Oitava do Natal: E uma espada transpassará a tua alma...

Homilia de Santo Ambrósio, Bispo - Livro 2 sobre o capítulo 2 de Lucas, perto do fim.

Vê a graça abundante distribuída a todos pelo nascimento do Senhor, e a profecia ser negada aos incrédulos, mas não aos justos. Eis que também Simeão profetiza que o Senhor Jesus Cristo veio para ruína e ressurreição de muitos, para distinguir o merecido pelos justos e pelos iníquos; e, de acordo com a qualidade dos nossos atos, o juíz verdadeiro e justo retribua os suplícios ou os prêmios.

E uma espada transpassará a tua própria alma. Nem a letra nem a história diz que Maria tenha deixado essa vida mediante um grande sofrimento corporal. Uma espada material não pode atravessar a alma, mas unicamente o corpo. E vemos também aqui a prudência de Maria, Que não era ignorante dos mistérios celestes. O Verbo vivo de Deus é mais forte e mais afiado que toda espada afiadíssima, e penetra até a divisão da alma e do espírito, dos membros e das medulas, perscruta os pensamentos dos corações e os segredos das almas, porque tudo é nu e aberto a Deus Filho, a Quem os segredos da consciência não enganam.

Quando Simeão profetizou, já haviam profetizado a Virgem e a esposa [Isabel]; deveria profetizar, ainda, a viúva, que não precisasse de status nem de sexo. E assim Ana, revestida dos dons da viuvez e de costumes tais que fosse crida perfeitamente digna de ter vundo anunciar o Redentor de tudo. Os seus méritos, já os descrevemos quando, em outra parte, exortávamos as viúvas, e por isso não repetiremos agora.

19 de dezembro de 2009

Quarto Domingo do Advento: Dai frutos dignos de penitência!

Da Homilia 20 sobre os Evangelhos, do Papa São Gregório Magno.

O tempo em que tomou o ofício da pregação o Precursor do nosso Redentor é designado mencionando-se o príncipe da república romana e os reis da Judeia. Visto que ele vinha pregar Aquele Que havia de redimir alguns da Judeia e muitos das Nações, o tempo da sua pregação é indicado pelo rei das Nações e os príncipes dos judeus. E visto que Ele haveria de congregar as Nações, e dispersar a Judeia, devido à culpa da perfídia, o Evangelista dá essa descrição do principado terreno, citando um só na república romana, e, no reino da Judeia, vários: um para cada quarta parte.
Diz-se, pois, pela voz do nosso Redentor: Todo reino dividido contra si mesmo será destruído. Provado, portanto, que o reino da Judeia chegara ao fim, sob tantos reis se encontrava dividida. Observa-se também que, além dos reis, os sacerdotes são mencionados. Porque João Batista pregava Aquele Que é, ao mesmo tempo, Rei e Sacerdote, Lucas Evangelista designa o tempo de sua pregação pelos reinos e sacertodes.
Veio, pois, a toda a região do Jordão, pregando um batismo de penitência em remissão dos pecados. Fica provado para todos os que lerem que João não apenas pregou um batismo de penitência, senão que de fato também o deu; porém, um seu batismo em remissão dos pecados, não o poderia dar. A remissão dos pecados só nos é dada no batismo de Cristo. Deve-se reparar também no que é dito: Pregando um batismo de penitência em remissão dos pecados: aquele que não podia dar o batismo que perdoa os pecados, pregava-o. Pois, quanto o Verbo do Pai superava o pregador, tando o Seu batismo, pelo qual os pecados são perdoados, supera o batismo de João, que não podia perdoar os pecados.
Dizia João às turbas que saíam para ser batizadas por ele: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira vindoura? A ira vindoura é a punição da vingança final, da qual, naquele tempo, não conseguirá fugir o pecador que agora não recorrer aos lamentos da penitência. Note-se que a a raça má, dos que imitam os males dos pais, é chamada gênero de víboras, porque, invejando os bons e perseguindo-os, retribuíam males com males, procurando modos de lesar os próximos, nisso tudo seguiam os caminhos de seus pais carnais, do mesmo modo que filhos venenosos nascem de pais venenosos.
Mas, porque temos pecado, porque estamos envolvidos pelo hábito dos maus costumes, que ele nos diga o que devemos fazer para conseguir fugir da ira vindoura. Segue-se: Dai, pois, frutos dignos de penitência. Nessas palavras percebe-se como o amigo do Esposo não só frutos de penitência, mas dignos de penitência, admoesta que se façam. Porque uma coisa é fazer frutos de penitência, e outra e fazer frutos dignos de penitência. Quando se fala em frutos dignos de penitência, deve-se entender que: Quem não se empenha em nenhum prazer ilícito, por isso tem o direito de fazer uso dos lícitos - assim também faça as obras de piedade, sem deixar de fazer justamente as coisas do mundo. Porém, quem está em culpa de fornicação ou, o que é muito pior, de adultério, este, na mesma medida em que perpetrou as coisas ilícitas, deve se abster dos prazeres lícitos. Portanto, os frutos de boas obras não devem ser na mesma quantia para aquele que pecou mais e aquele que pecou menos, ou para aquele que em nenhum, e aquele que em alguns crimes caiu, e aquele que teve muitos tropeços. Por isso que ele diz: Fazei frutos dignos de penitência: cada qual, de acordo com a consciência, tanto maiores lucros de boas obras adquira pela penitência, quanto mais graves danos retraiu pela culpa.