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3 de setembro de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

  Adeus de São Francisco de Sales ao piedoso leitor.

Digo-vos de todo coração adeus. A Deus pertenceis vós sempre nesta vida mortal, servindo-o fielmente no meio dos trabalhos que tiverdes, levando a cruz, acompanhando-o na vida imortal, bendizendo-o eternamente com toda a corte celeste. É o grande bem das nossas almas o estarem com Deus; é o maior bem pertencer só a Deus.
Quem só pertence a Deus, não se entristece nunca senão por ter ofendido a Deus, e a sua tristeza neste ponto consiste em uma profunda, mas tranquila e pacífica humildade e submissão, depois da qual se eleva para a bondade divina por uma confiança doce e perfeita sem temor nem despeito.
Quem só pertence a Deus, só a Ele busca; e, visto que Deus tanto esta na adversidade como na prosperidade, fica em paz nas adversidades.
Quem só pertence a Deus, pensa muitas vezes nele no meio das ocupações desta vida.
Quem só pertence a Deus, quer que todos saibam que ele o quer servir e que se quer ocupar em exercícios convenientes para ficar a Ele unido.
Pertencei pois completamente a Deus, e só a Ele; não desejareis senão agradar-lhe e não querendo agradar às suas criaturas senão Nele e por Ele. Que maior benção podeis vós desejar? Assim pois, desejando isto para a vossa alma, digo-vos adeus.
A Deus pertençamos nós sem fim, sem reserva, sem medida, como Ele é nosso eternamente. Possamos nós sempre unir as nossas pequenas cruzes à sua grande!
Pertençamos a Deus, e só a Deus, pois que, fora dele, e sem Ele, não somos senão verdadeiros nadas.
Adeus. Desejo-vos a abundância do amor divino, que é e será eternamente o único bem dos nossos corações, que só nos foram dados para Aquele que nos deu o céu.
Seja Jesus a nossa coroa! Maria o nosso mel! Eu sou em nome do Filho e da Mãe, todo vosso.

1 de setembro de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

15/15  -  É preciso esperar ir para o céu.

Se estes bens são verdadeiros, notai se não valem um milhão de vezes mais, tanto para o corpo como para a alma, e então com que fim, vós ó mundanos, vos afastais da celeste habitação? Porque vós não aproximais desta soberana felicidade? Ah! não valeria mais aspirar a este dia delicioso, dirigir os vossos passos para o caminho da virtude, ir para o descanso o infinito, caminhar para esta abençoada terra que vos esta prometida, do que jazer na imundice dos pecados e viver nas trevas obscuras da sociedade dos maus!
Todos vos convidam para o paraíso; o vosso anjo impele-vos com todo o seu poder, oferecendo-vos da parte de Deus mil graças e auxílios; Jesus Cristo, do alto do céu, contempla-vos amorosamente, e convidá-vos com doçura para o trono da glória que vos prepara na abundância de sua bondade; a Santíssima Virgem chama-vos aí maternalmente; os santos, com um milhão de almas santas, exortam-vos a isso afetuosamente e certificam-vos que o caminho da virtude não é tão penoso como o mundo pinta. Não aceitareis os favores que vos oferece o céu? Não auxiliareis vós esses atrativos e inspirações que sentis?
Oh! como deveríamos muitas vezes, pelo menos nas festas, dirigir o nosso espírito para a Jerusalém celeste, essa gloriosa cidade de Deus, onde ouviríamos retinir de toda a parte os louvores pelas vozes duma variedade infinita de santos; e perguntando-lhes como aí chegaram, saberíamos que os Apóstolos chegaram lá, principalmente pelo amor, e os mártires pela constância, e os doutores pela meditação, os confessores pela mortificação, as virgens pela pureza do corpo e coração, e todos geralmente pela humildade.
Deus não nos teria dado uma alma capaz de pensar e desejar esta santa eternidade se não quisera dar-lhe os meios de poder alcançar. Assim pois, enchamos o nosso coração duma doce confiança e depois digamos: nós faremos bastante, não nós, mas a graça de Deus conosco. Quanto maior e mais forte em nós o desejo, tanto mais prazer e contentamento nos trará a sua posse e gozo.
Viva Deus! tenho firme confiança no íntimo do coração, que viveremos eternamente com Deus e nos reuniremos um dia no céu: é preciso coragem; iremos bem depressa para lá. E que faria Nosso Senhor da sua vida eterna se a não concedesse às pobres e mesquinhas criaturas, como nós, que não queremos esperar senão na sua soberana bondade? Oh! Meu Deus! quanta consolação eu sinto na certeza de que o meu coração há de abismar-se eternamente no amor do coração de Jesus! Leve-nos a Providência para onde lhe aprouver; pouco importa. Havemos de chegar a esse porto.

30 de agosto de 2014

Pensamentos Consoladores São Francisco de Sales.

14/15  -  Como será agradável para os pais e amigos conhecerem-se e conversar juntos no céu.

Deveríamos sempre ter em nossos pensamentos os dias eternos, e nada há que não devêssemos fazer em contemplação deles. Não diz Davi: "Por causa das palavras da vossa boca caminhei por vias duras e difíceis?" E que são estas palavras dos lábios de Nosso Senhor, senão palavras da vida eterna? São Pedro tinha razão em dizer: "A quem iremos nós, Senhor? vós tendes as palavras da vida eterna". É esta vida eterna com que Nosso Senhor, no Gênesis, queria mover Caim, quando lhe disse: "Se tu obras bem, não receberás a recompensa?" É esta vida eterna, por cujo desejo o santo Jacó se chama peregrino no Gênesis. "Os dias, respondeu ele a Faraó, da peregrinação da minha vida, assim os bons como os maus, duram cento e trinta anos, que ainda se não se aproximam dos nossos predecessores". "Lembro-me dos dias antigos, diz Davi, e tenho tido em minha alma anos eternos".
A vida eterna, para quem a considera bem, basta para mover os corações mais endurecidos. No princípio, no fervor da ordem de São Domingos, havia um pregador chamado Reginaldo, que pregava em Bolonha com um fruto indizível. Nesta cidade havia um homem sábio e rico, que, com medo de ser por ele convertido não o queria ouvir, como fazem muitos. Aconteceu contudo que tendo-o ouvido uma vez, dia de Santo Estevão, a respeito destas palavras: "Eu vejo os céus abertos", converteu-se e fez-se religioso.
Por causa desta vida eterna, Davi inclinava a sua vontade e coração a guardar os mandamentos de Deus; Santo Agostinho retirou-se com os seus religiosos antes de ser bipo, e São João Batista retirou-se para o deserto.
Todos os bem aventurados se reconhecerão entre si no céu, cada um por seu nome como diz o Evangelho, pois que nesta pequena amostra, que Nosso Senhor quis patentear no Tabor aos seus apóstolos,quis que conhecessem a Moisés e Elias, que nunca tinham visto.
Mas se isto assim é, que alegria receberemos, tornando a ver os que tanto amávamos nesta vida, onde conheceremos os novos cristãos, que agora se convertem à nossa santa fé, nas Índias, no Japão, nos Antípodas! E nas santas amizades, assim como começaram nesta vida, continuar-se-ão por toda a eternidade no outro. Amaremos as pessoas particulares; mas estas amizades particulares não gerarão particularidades; porque todas as nossas amizades terão a origem na caridade de Deus, que conduzindo-os todos, fará com que amemos a cada bem aventurado com este puro amor com que somos amados pela sua divina bondade.
O!Deus! que consolação teremos com esta celeste conversação que mantivermos uns com os outros!  Aí, os nossos anjos bons dar-nos-ão uma consolação maior do que a que se pode explicar e pensar, quando se nos tornarem conhecidos, e quando nos mostrarem com tanto amor o cuidado que tiveram pela nossa salvação, durante o curso da nossa vida mortal, lembramo-nos as santas aspirações que nos trouxeram, como um leite sagrado que foram beber no seio da divina bondade, para nos atrair na busca destas divinas suavidades de que então gozaremos. Não vos lembrais, nos dirão eles, duma inspiração que nos trouxe em tal tempo, lendo tal livro, ouvindo tal sermão, olhando para tal imagem, como de Santa Maria Egipcíaca, inspiração que nos excitou a converter-nos para Nosso Senhor e que foi assunto da vossa predestinação? Oh! Deus! Não se derreterão os nossos corações com um contentamento indizível?
Mas, além disso, cada um dos bem aventurados terá uma conversa particular com outro, segundo a sua categoria e dignidade. Santo Agostinho desejou um dia ver Roma triunfante, no seu triunfo glorioso, São Paulo pregando, e Nosso Senhor ensinando entre o povo, curando doentes, fazendo milagres. Oh! Deus! que consolação teve este grande santo, vendo a Jerusalém celeste no seu divino triunfo, o grande apóstolo São Paulo pregando e entoando com uma melodia sem rival os louvores que consograva eternamente a divina Majestade no céu! Mas, que excesso de consolação para Santo Agostinho o ver fazer este perpétuo milagre da felicidade dos bem aventurados por Nosso Senhor, cuja morte no-la adquiriu! Imaginai o delicioso entretenimento que terão estes dois santos, um com o outro, dizendo São Paulo a Santo Agostinho: Meu caro irmão, não vos lembrais que lendo a minha epístola fostes ferido por uma tal inspiração, que vos obrigou a converter-vos, inspiração que eu tinha obtido da misericórdia do nosso bom Deus pela oração que por vós fazia ao passo que lieis o que eu tinha escrito? Isto não causará uma admirável doçura no coração deste Santo Padre?
Oh! Deus! que consolação teremos nós, estando no céu, onde veremos a bendita face de Nossa Senhora inflamada no amor de Deus? E se Santa Isabel ficou transportada de gozo e contentamento, quando, um dia que a visitou, lhe ouviu entoar este divino canto: Magnificat anima mea Dominum, como terão os nossos espíritos e corações um contentamento inexprimível quando ouvirem entoar por esta sagrada cantora o cântico do eterno amor!
Oh! Deus! que doce melodia! Sem dúvida pasmaremos e nos inebriaremos em raptos inconcebíveis!
Mas, dir-me-eis vós, visto que conversaremos e nos entenderemos com todos os que tiverem nesta Jerusalém celeste, que diremos nós? De que falaremos? Qual será o assunto? Será o da misericórdia que Deus no mundo nos tiver feito, pela qual nos tornou dignos de entrar no gozo desta bem aventurada felicidade, na qual a alma nada mais terá a desejar; porque nesta palavra de felicidade esta compreendida toda a qualidade de bens, os quais contudo só formam um bem único, que consiste no gozo de Deus.
Mas de que trataremos nós na nossa conversação? Da morte e paixão de Nosso Senhor. Não o aprendemos na Transfiguração, onde não falou de nada tanto como do martírio que devia padecer em Jerusalém, martírio que era a morte deste divino Salvador? Oh! se pudéssemos compreender alguma coisa da consolação que terão os bem aventurados falando desta morte.
Passemos avante, eu vô-lo peço, e digamos alguma coisa de honra e graça que teremos em conversar com Nosso Senhor em pessoa. Oh! é aqui, sem dúvida, que a nossa felicidade redobrará indizivelmente.
Que faremos almas queridas, em que nos tornaremos, quando virmos este coração adorável e amabilíssimo do nosso divino Mestre, através da chaga sagrada do seu lado, ardente completamente ao amor que nos tem, coração no qual veremos todos os nossos nomes escritos com letras de amor? Ah! é possível, diremos então ao nosso divino Salvador, que me tenhais amado tanto, que graveis o meu nome em vosso coração e em vossas mãos? Isto contudo é verdade.
O profeta Isaias, falando na pessoa de Nosso Senhor, nos diz o seguinte: "Quando ainda acontecesse que a mãe esquecesse o filho que gerou, eu não te esqueceria, porque gravei o teu nome em minhas mãos". Mas Nosso Senhor, tornando ainda mais doce estas palavras, nos dirá: "Não só gravei o teu nome em minhas mãos, mas ainda em meu coração". Objeto, sem dúvida, de grande consolação é ver que somos tão estreitamente amados por Nosso Senhor, e como nos tem a todos em seu coração. Oh! que admirável gozo, para um dos espíritos bem aventurados, quando virem nesse coração sagrado e muito adorável os pensamentos de paz que tinha a seu respeito, na própria hora da sua paixão, pensamentos por meio dos quais nos preparava, não só os meios principais para a nossa salvação, mas ainda dispunha particularmente, com uma admirável bondade, todos os divinos atrativos, as inspirações e os movimentos bons, dos quais se queria servir este doce Salvador para nos atrair ao seu amor! Estas vistas, estas considerações particulares que fizermos a respeito de tão sagrado amor, com o qual tivermos sido e seremos tão cara e ardentemente amados por nosso soberano Mestre, não inflamarão os nossos corações com um amor e ardor rival? Ah! que não deveríamos fazer para gozar destas suavidades tão doces e agradáveis! 
Se temos tanto contentamento nesta vida mortal em ouvir falar do que amamos, que não nos podemos cansar, que alegria e júbilo receberemos em ouvir por toda a eternidade entoar os louvores da divina Majestade, que devemos amar e amaremos mais do que se pode explicar e compreender? E se, durante a vida, temos tanto gosto na imaginação da felicidade eterna, quanto mais gosto teremos no gozo desta mesma felicidade e glória que não terão fim e duração eternamente, sem nunca podermos ser rejeitados! Oh! como esta confiança aumentará muito a nossa felicidade e consolação!
Caminhemos pois gostosa e alegremente entre as dificuldades desta vida passageira; abracemos com os braços abertos, as mortificações, as penas e aflições, se as encontrarmos em nosso caminho, pois que estamos certos de que estas penas terão fim e terminarão com a nossa vida, depois da qual só haverá alegria, contentamentos e consolações eternas.
Crede-me, para viver contente com a peregrinação, convém ter presente à vista a esperança da chegada a nossa pátria, onde permaneceremos eternamente, e no entanto crer firmemente; porque, é certo que Deus, que nos chama para si, olha como nós vamos, e nunca permitirá que nos aconteça nada senão para nosso maior bem. Ele sabe quem nós somos, e estender- nos-á a sua mão paternal nos maus caminhos, para que nada nos demore.
Meu Deus! que consolação tenho na confiança de vos ver eternamente unidos na vontade de amar e louvar a Deus! Conduza-nos a divina Providência para onde quiser; tenho a esperança e confiança de que conseguiremos o fim e chegaremos ao porto. Viva Deus! tenho esta confiança. Estejamos alegres sem diminuição e seguros sem ignorância.

28 de agosto de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

13/15  -  Como o pensamento do céu é próprio para nos consolar.

O Fim do homem é a visão clara e o gozo de Deus que espera obter no céu. Bem aventurado pois aquele que emprega esta curta vida mortal em adquirir este bem eterno, preferindo o dias passageiros desta vida ao da imortalidade e aplicando todos os seus momentos mortais, que lhe restam, à conquista da santa eternidade. A verdadeira luz do céu não lhe faltará, para lhe fazer ver e tomar o caminho seguro e conduzi-lo com felicidade a este porto de eternas delícias.
Os rios correm incessantemente e volvem como diz o sábio, para o mar, que é o lugar do seu nascimento e do último repouso; todo o seu movimento só tende a uni-los à sua origem. "Oh! Deus, diz Santo Agostinho, criastes o meu coração para vós e só em vós encontrará repouso; mas que tenho eu no céu, senão a vós, ó meu Deus, e que mais quero sobre a terra? Sim, Senhor, porque vós sois o Deus do meu coração o meu quinhão e partilha na eternidade". Eis, em particular, alguns pontos que devemos crer neste assunto.
Primeiro, que há um paraíso ou glória eterna; estado perfeitíssimo, no qual se reúnem todos os bens e onde não há mal algum; mundo de maravilhas, cúmulo de felicidade, gozo incomparável ultrapassando infinitamente todo o desejo; casa de Deus e palácio dos bem aventurados; cidade apeticível e amável e tão preciosa, que todas as belezas do mundo juntas nada são, comparadas com a sua excelência, e ninguém pode conceder a grandeza infinita dos abismos das suas delícias.
Considerai que, por uma eternidade, estas almas felizes gozam desta felicidade de Deus, entregando-se completamente a todas, e o Eterno Filho que diz benignamente a seu Pai: "Meu Pai, eu quero que os que me destes fiquem eternamente comigo, e vejam a claridade que eu tive em Ti antes da formação do mundo". E, dirigindo-se a seus caros Filhos: "Não vos tinha eu dito que o que me amasse seria amado por meu Pai e que nós nos manifestaríamos a ele?" Então esta santa companhia, abismada em prazer no seio da Divindade, canta o aleluia eterno de gozo e louvor ao seu Criador.
Em segundo lugar, cremos que a alma, entrando no céu limpa de todo o pecado, no mesmo instante verá a Deus sem sombras, a ele mesmo, face a face, como é, contemplando, por uma vista de verdadeira e real presença a própria essência divina, e nele as suas infinitas bondades.
O dulcíssimo São Bernardo, estando ainda jovem em Chatillon-sur-Seine, na noite de Natal esperava na Igreja que começasse o sagrado ofício, e esperando, adormeceu dum leve sono, durante o qual (oh! Deus meu! que doçura!) viu um espírito, e com uma visão muito distinta e clara, como o Filho de Deus tendo desposado a natureza humana, tendo-se tornado criancinha no seio de sua Mãe, nascia virginalmente em seu sacrossanto seio, com uma humilde suavidade, misturada com majestade celeste; visão que encheu com tal forma seu coração de satisfação e júbilo, que toda a vida sentiu sentimentos extremos, e a memória deste mistério da natividade de seu Mestre dava-lhe um gosto espiritual e uma suavidade sem igual.
Ah! mas se uma visão imaginária do nascimento temporal do Filho de Deus enlevou e contentou tanto o coração duma criança, ah! que será quando os nossos espíritos, gloriosamente alumiados com a feliz claridade, verem este nascimento eterno, pelo qual o Filho procede, Deus de Deus, divina e eternamente? É então que a alma será deificada, cheia de Deus, e feita como Deus, por participação, eterna e imutável de Deus, unindo-se com ela, como o fogo inflama o ferro e o penetra, comunicando-lhe a sua luz, esplendor, calor, e outras propriedades; de maneira que o toma pelo mesmo fogo.
Como Deus nos deu a luz da razão, pela qual o podemos conhecer como autor da natureza, e a luz da fé, pela qual o consideramos autor da graça, do mesmo modo nos dará a luz da glória, pela qual o contemplaremos como fonte de beatitude e da vida eterna; mas fonte que não só de longe contemplaremos, como fazemos agora pela fé, mas que veremos pela luz da glória, mergulhados e abismados nela.
Em terceiro lugar, a alma será para sempre bem aventurada entre a nobreza, a beleza e a multidão dos cidadãos e habitantes desta ditosa pátria, com os seus milhões de anjos, querubins e serafins, esta multidão de apóstolos, mártires, confessores, virgens, santas mulheres, cuja quantidade é inumerável.
Oh! como é ditosa esta companhia! O menor dos bem aventurados é mais belo do que todo o mundo; que será vê-los, todos? Eles cantam o doce cântico do eterno amor, gozam sempre duma alegria constante, compartilham de contentamentos indizíveis, e vivem na consolação duma infeliz e indissolúvel sociedade.
Mas, oh! Deus! se a boa amizade humana é tão agradavelmente amável, que será ver a suavidade sagrada do amor recíproco dos bem aventurados? De certo, os corações dos cidadãos do paraíso estarão abismados em amor e admiração de beleza e doçura dum tal amor.
Em quarto lugar, no paraíso, Deus dar-se-á completamente a todos; e não em parte por ser um todo que não tem partes; mas dar-se-á diversamente e com tantas diferenças como forem os bem aventurados. Assim como uma estrela é diversa das outras em claridade, assim serão diferentes os homens uns dos outros na glória, à proporção que o tiverem sido em graça e méritos; e como nenhum homem talvez é igual em caridade a um outro neste mundo, assim nenhum bem aventurado será igual a outro em glória no céu.
Considerai como é bom ver esta cidade em que o grande rei tem a sede na sua majestade, cercado de todos os seus bem aventurados servos; aí estão as multidões de anjos, que cantam hinos, e à companhia dos cidadãos celestes; aí se encontra a multidão veneranda dos profetas, o sagrado número dos apóstolos, o vitorioso exército dos inumeráveis mártires, a augusta assembléia dos pontífices, o sagrado rebanho dos confessores, os verdadeiros e perfeitos religiosos, as santas mulheres, as humildes viúvas, as puras virgens. A glória de cada qual não é igual, mas contudo recebem todos um igual prazer, porque é aí que reina a plena e perfeita caridade.
Um fio de glória, uma gota de amor dos bem aventurados vale mais, tem mais força e merece mais estima do que todos os outros amores e conhecimentos que possam ter os corações dos homens mortais.
Em quinto lugar, apesar de grande diversidade e diferença de glória, contudo cada alma bem aventurada, contemplando a infinita beleza de Deus, e o abismo do infinito que fica por ver nessa mesma beleza, fica perfeitamente satisfeita e saciada, e contenta-se com a glória de que goza, segundo o lugar que tem no céu, por causa da amabilíssima Providência divina que assim o ordenou.
Que alegria o estar cercado por toda a parte de prazeres incríveis, e como uma ave bem aventurada, voar, cantar para sempre no ambiente da Divindade!
Que favor e contentamento, depois de um milhão de desgostos, penas e trabalhos, sofridos nesta vida mortal, depois dos desejos infinitos do verdadeiro bem nunca satisfeitos neste mundo, ver-se no porto de toda tranquilidade e ter enfim encontrado a viva e poderosa fonte das frescas águas da vida imortal e a santíssima Divindade, que só podem apagar e satisfazer o desejo humano? 

26 de agosto de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

12/15  -  Como é vantajosa a devoção para com as almas do purgatório.

Quando morria algum de seus amigos ou conhecidos, São Francisco de Sales era insaciável em dizer e bem e recomendá-los às orações de todos. A sua frase ordinária era: Não nos lembrarmos bastante dos nossos mortos, dos nossos fiéis falecidos; e a prova é que não falamos muito deles. Apartamo-nos desse discurso, como de um propósito funesto, deixamos os mortos enterrarem os mortos; a sua memória parece entre nós com o som dos sinos, sem nos lembrarmos que a amizade que pode terminar pela morte nunca foi verdadeira, pois diz-nos a Escritura santa que o amor verdadeiro é mais forte do que a morte.
Acrescento que costumava dizer que só com esta obra de misericórdia se encontram as outras.
Não é certo modo, dizia ele, visitar os enfermos, o obtermos por nossas orações o alívio das pobres almas que estão no purgatório? 
Não é em dar de beber a quem tem sede grande da visão de Deus e que esta entre ardentes chamas, fazer-lhe participar do orvalho das nossas orações?
Não é dar de comer a quem tem fome auxiliar a sua soltura por meios que a fé nos sugere? 
Não é remir os cativos?
Não é vestir os nus, procurar-lhes um vestido de luz e de glória?
Não é uma insigne hospitalidade procurar a sua  introdução na Jerusalém celeste e torná-los cidadão, santos, e servos de Deus na eterna Sião?
Não é maior serviço levar almas para o céu que enterrar corpos?
Quanto às espirituais, não é uma obra cujo mérito se pode comparar com o de ensinar os ignorantes, castigar os que erram dar bons conselhos, perdoar as injúrias?
E que consolação grande se pode dar aos aflitos deste mundo que se possa comparar à que levam as preces a estas pobres almas, que estão em tão penosos sofrimentos?

24 de agosto de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

11/15  -  Pensamentos consoladores sobre o purgatório.

A opinião de São Francisco de Sales, diz o Bispo de Belley, era que do pensamento do purgatório pudéssemos tirar mais consolações do que temor.
A maior parte dizia ele, dos que tanto temem o purgatório, fazem-no em vista do seu interesse e do amor que têm a si mesmos mais do que por interesse de Deus e isto origina-se dos que falam nos púlpitos, não representando ordinariamente senão as penas deste lugar e não as felicidades e a paz que gozam as almas que aí estão.
É verdade que os tormentos são tão grandes, que as maiores dores desta vida se lhes não podem comparar; mas também as satisfações interiores aí são tais, que não há prosperidade nem contentamento na terra que os possam igualar.
1 - As almas estão em uma contínua união com Deus.
2 - Estão perfeitamente submissas à sua vontade, ou para melhor dizer, a sua vontade esta por tal forma transformada na de Deus, que só podem querer o que Deus quer; de forma que, se o paraíso lhes estivesse aberto, antes quereriam precipitar-se no inferno do que aparecer diante de Deus com as manchas que ainda notam em si.
3 - Purificam-se aí, voluntária e amorosamente, porque tal é o agrado divino.
     As almas que estão no purgatório, estão aí, sem dúvida, pelos seus pecados, pecados que detestaram e detestam soberanamente; mas, quanto à objeção e pena que lhes fica de estarem postas neste lugar e privadas por algum tempo do gozo do bem aventurado amor do paraíso, sofrem-no amorosamente e pronunciam com devoção o cântico da justiça divina: "Vós sois justo, Senhor, e os vossos juízos são cheios de equidade".
4 - Querem permanecer da forma que agradar a Deus e por todo o tempo que Ele quiser.
5 - São invencíveis e não podem ter o menor movimento de impaciência, nem cometer a menor imperfeição.
6 - Amam a Deus mais do que a si mesmas e que tudo, com um amor completo, puro e desinteressado.
7 - São consoladas pelos anjos.
8 - Estão certas de sua salvação com uma esperança que as não pode enganar.
9 - A sua penosa amargura tempera-se com uma profunda paz.
10 - Se é uma espécie de inferno, quanto a dor, é um paraíso, quanto a doçura que derrama a caridade mais forte do que a morte, mais poderosa do que o inferno e cujas lâmpadas são fogo e chamas.
11 - Feliz estado, mais desejável do que temível, pois que as suas chamas são chamas de amor.
12 - Temíveis no entanto, porque retardam o termo de toda a consumação, que consiste em ver a Deus e amá-lo, e, por esta vida e amor, louvá-lo e glorificá-lo por toda a duração da Eternidade. A este respeito São Francisco de Sales aconselhava muito a leitura do admirável Tratado do Purgatório, que escreveu Santa Catarina de Gênova.
Se isto assim é, me dirão, para que recomendar tanto as almas do purgatório.
É que, apesar destas vantagens, o estado destas almas é muito doloroso e em verdade digno de compaixão, e além disso é que retardam a glória que renderão a Deus no céu. Estes dois motivos devem mover-nos a procurar-lhes um pronto livramento, por nossas orações, jejuns, esmolas e toda espécie de boas obras, mas particularmente pela oferta do sacrifício da Santa Missa.

22 de agosto de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales

10/15  -  O agrado divino, única consolação dos aflitos.

Se eu não soubesse que a vossa virtude pode dar consolação e resolução necessárias para suportar com coragem cristã a perda que sentistes, tentaria apresentar-vos algumas razões nesta carta, e se fosse preciso eu vô-la levaria. Mas suponho que tendes tanta caridade e amor de Deus, que vendo o seu agrado e santa vontade acomodar-vos-eis a ela, e dulcificareis o vosso desgosto pela consternação do mal deste mundo miserável que se não fosse a nossa fragilidade deveríamos louvar a Deus do que afligir-mo-nos quando nos leva os nossos amigos; porque convém que todos, uns após outros, daqui saiamos segundo a ordem que Ele estabeleceu; e os primeiros são os que se acham quando viverem com cuidado da sua salvação e da sua alma, como fizeram meu tio e meu irmão mais velho, cuja conversação foi tão doce e útil para todos os seus amigos, que nós que fomos dos seus familiares e íntimos não poderíamos deixar de ter muito pesar da separação que se fez; e este pesar não nos é proibido, contanto que o moderemos com a esperança que temos de não ficarmos sempre separados, mas que em pouco tempo os seguiremos ao céu lugar de nosso repouso, se Deus nos fizer esta graça; será aí que nós cumpriremos e completaremos as boas e cristãs amizades que apenas começamos neste mundo. É o principal pensamento que os nossos amigos de nós requerem no qual vos súplico que vos demoreis, deixando as desmedidas tristezas para os espíritos que não têm tais esperanças.
Tenho notado com compaixão o estado do vosso coração desde que soube o pesar que sofreu há poucos dias; pois, embora eu bem sabia que, graças a Deus, a experiência e o costume que tendes há anos a esta parte em sofrer os desgostos terá fortalecido a vossa alma e animado a vossa coragem para não serdes tão extraordinariamente sensível a estes golpes inevitáveis da nossa condição mortal; contudo temo que esses combates tão frequentes espantem a vossa resolução; contudo, senhora, não deixo de esperar que, depois de tantas renúncias da vossa vontade na de Deus, depois de terdes considerado tanto na vaidade desta vida, e na verdade da futura, depois de tantos pretextos de vos querer desligar irrevogavelmente a Providência celeste, só encontreis uma sólida consolação aos pés da cruz de Nosso Senhor, onde a morte se tornou para nós melhor do que a vida; e esta ilusão da vida deste mundo não terá tido poder, creio, para vos deixar as resoluções que Deus vos fez tomar sobre os acontecimentos passados.
Em suma, é necessário sujeitar-se à necessidade, e torná-la útil à nossa felicidade futura, à qual devemos só aspirar pelo caminho da cruz, dos espinhos, e aflições. E na verdade, não importa pouco, mas importa muito aos que nós amamos que a sua demora seja pequena entre as tramas e misérias desta vida. E quanto a nós, não nos importaria, se considerássemos que só à eternidade é que devemos dirigir os nossos desejos por Deus. Minha querida tia, e para falar segundo o meu coração, minha querida filha, não vos deixeis levar pela torrente de adversidade mas uni-vos aos pés de Nosso Senhor, e dizei-lhe que sois sua; que disponha de vós e do que quis que fosse vosso, à sua vontade certificando-vos não só a vós como aos vossos da santa eternidade do seu amor; estes momentos não merecem o cuidado que pensamos para conseguir este bem.
Não podeis crer quanto me foi sensível a aflição que tivestes. Eu amava com um afeto particular esse caro senhor falecido, por muitos respeitos; mas o de sua virtude e piedade era o principal. Que lástima que em uma estação em que há tanta falta de tais almas, entre as pessoas dessa condição, vejamos e soframos destas perdas tão terríveis para o público!
No entanto, minha querida senhora, considerando tudo bem, é preciso sujeitarmos os nossos corações à condição da vida em que estamos; é uma vida mortal, e a morte que domina nesta vida não segue um caminho ordinário; toma ora aqui ora ali, sem escolha nem método algum bons entre os maus e os jovens entre os velhos.
Oh! como são bem aventurados, os que vivendo com uma contínua desconfiança da morte, estão sempre prontos para morrer, para que possam reviver eternamente para a vida onde não há mais morte! O nosso querido defunto era deste número eu bem sei.
Isto só, senhora, basta para nos consolar; porque enfim, dentro de poucos dias, cedo ou tarde, dentro de poucos anos, o seguiremos neste passo, e as amizades e sociedades começadas neste mundo, renovar-se-ão para não haver mais separação.
No entanto, tenhamos paciência e esperemos com coragem que soe a hora da nossa partida, para onde estão os nossos amigos; e já que os amamos cordialmente, continuemos a amá-los, fazendo por amor deles o que desejaríamos que nos fizessem e que no entanto desejam de nós para nós.
Sem dúvida, minha senhora, o maior desejo que o vosso falecido teve à sua morte foi que não tivésseis um grande pesar pela sua ausência, mas que vos esforçásseis por moderar, por seu amor, a paixão que o seu amor vos causava; e agora na felicidade de que goza, desejá-vos uma santa consolação, é que, moderando a vossa tribulação, conserveis os olhos para coisa melhor do que as lágrimas e o vosso espírito para melhores ocupações do que a tristeza.
Deixou-vos penhores preciosos do vosso matrimônio; conservai a vida para provê-los do alimento e da piedade do espírito para sufragar a sua alma. Fazei isto, senhora, por amor de vosso marido, e suponde que ele vô-los pediu ao morrer e que vos pede  este ofício; porque em verdade, te-lo-ia feito se pudesse e deseja isto de vós agora; todo o resto das vossas paixões pode estar como vosso coração que ainda esta neste mundo, mas não segundo o seu, que esta no outro. E já que a verdadeira amizade se compraz em agradar ao justo recreio do espírito para agradar a vosso marido, alegrai-vos a vós mesma, aliviai o vosso coração e reanimai a vossa coragem. E se o conselho que vos dou com uma sinceridade sem igual vos é agradável, praticai-o prostrando-vos ante Nosso Senhor, conformando-vos com as suas ordens e considerando a alma desse caro falecido, que deseja para a vossa uma verdadeira e cristã resolução; e entregando-vos completamente a celeste Providência do Salvador da vossa alma e vosso celeste Protetor, que vos auxiliara e socorrerá, e vos unirá enfim ao vosso querido falecido, não na qualidade de mulher com seu marido, mas de herdeiro do céu com seu co-herdeiro e de fiel amante com seu fiel amante.
Ora, ânimo, minha cara filha! é preciso que o vosso coração sofra desde já a separação do vosso bom esposo, pois que enfim a Divina Providência o chamou a si e levou desta vida mortal, na qual vivemos morrendo e morremos continuamente vivendo.
Quanto a mim, minha querida filha, não quero apresentar-vos outra consolação senão a Jesus Cristo crucificado, à cuja vista vos consolará a vossa fé; porque depois da morte do Salvador, toda a morte é feliz para aqueles que, como o falecido de que falo morrem no grêmio da Santa Igreja; todo o que se glorifica da morte de Nosso Senhor nunca se afligirá demasiadamente com a morte dos que Ele remiu e recebeu por seus.
Quem aspira a eternidade, consola-se com as adversidades desta vida, que só dura poucos, vis e curtos momentos. Nesta eternidade gozamos da sociedade dos nossos, sem nunca temermos a separação.
Costumo dizer a todas as almas que se dirigem a mim, mas digo mui particularmente a vós, que sois tão especialmente minha filha, que é preciso elevar os nossos corações para o céu, como diz a Igreja no santo sacrifício. Vivei com pensamentos gloriosos e magníficos, que vos unam a esta eternidade e a esta grande Providência, que só dispôs dos momentos mortais para esta vida eterna.
O coração, elevado assim generosamente, é sempre humilde, porque esta firmado na verdade e não na vaidade; é doce e pacífico, porque lhe não importa o que o pode perturbar; mas quando eu digo que é doce e pacifico, não quero dizer que não sinta dor, nem sentimento de aflição. Não, de certo, minha filha, não digo isso; mas digo que os sofrimentos, as penas e as tribulações são acompanhados por uma resolução tão forte de os sofrer por Deus, que toda esta amargura, por amarga que seja é pacifica e tranquila.
Acabo de saber a dolorosa, mas bem aventurada morte da vossa cara esposa. De certo o meu coração foi tocado tanto mais vivamente quanto maior foi a perda que sofri; porque a bondade, a virtude, a piedade que via naquela bela alma me tinham obrigado por tal forma a honrá-la, que agora disso faço uma profissão solene.
Como é ditosa, essa querida senhora, por ter, entre tantas dores e trabalhos, conservado a fidelidade que devia ao seu Deus! e quanto me consolo por saber uma parte das palavras de caridade que o seu espírito proferiu com os seus últimos suspiros, no seio da divina Misericórdia! Mas o Senhor, não terei em uma obrigação imortal pelo favor que me fazia, pois que nos últimos dias da sua vida mortal tantas vezes mostrou que se lembrava de mim, como de quem sabia lhe era dedicado em Nosso Senhor? Nunca sairá de minha alma esta recordação, e não podendo oferecer-lhe o serviço fidelíssimo que tinha jurado à sua virtude e devoção, peço-vos, Senhor, que o aceiteis com o que a honra da vossa benevolência tenha adquirido sobre os meus afetos; e no entanto, nesta, ocasião, empregai a magnitude da vossa coragem em moderar a grandeza do pesar que essa grande perda vos deu. Submetemo-nos aos decretos da soberana Providência, decretos que são sempre justos, sempre santos, sempre adoráveis, embora impenetráveis e obscuros à nossa inteligência. Esta alma bela e devota morreu em um estado de consciência, no qual, se Deus nos fizesse a honra de morrermos, seríamos ditosos em morrer, fosse em que tempo fosse.
Acedamos a esta graça que Deus lhe fez e tenhamos paciência pelo pouco tempo que aqui temos para viver sem ela, pois temos esperança de estar com ela eternamente no céu, em uma amizade indissolúvel e invariável.
Que desgosto acabo de receber com a triste notícia da morte de vossa tia, que me amava com tanta ternura e carinho; à qual tinha um afeto tão justo! Iria eu próprio mostrar este sentimento se julgasse por este meio poder aliviar o vosso, ou que este embaraço que me trás o negócio da minha visita me permitisse; mas pelo menos eis meu irmão que vai receber as vossas ordens para ele e para mim e certificar-vos como eu honrei de todo o meu coração a vida desta querida defunta, e como estimo a sua honrosa memória, tanto como nenhum dos parentes que a deixou. Agora esta tão terrível separação é tanto menos dura quanto será pouco duradoura, o que não só esperamos, mas aspiramos a este feliz descanso, no qual esta bela alma, esta ou estará em breve.
Tomemos, eu vô-lo peço, de bom grado, esta pequena demora que nos faz ter aqui; e em lugar de multiplicar os meus suspiros e as nossas lágrimas por ela, derramemo-las por ela ante Nosso Senhor, para apressar a sua recepção nos braços desta divina bondade, se ainda lhe não concedeu esta graça.
Quanto a mim, tenho muita consolação no conhecimento que tenho do interior desta boa tia, a qual muitas vezes, com uma extrema confiança, me tinha comunicado na sagrada confissão; porque estou certo de que a divina Providência, que lhe tinha dado um coração tão piedoso e tão cristão a terá enchido de bençãos na sua partida.
Bendigamos e louvemos a Deus; adoremos a disposição das suas ordens; reconheçamos o procedimento e a instabilidade desta vida e esperemos em paz a futura.
Compadeço-me da dor que sofrestes e exorto-vos contudo a não vos deixardes levar pela tristeza; porque a graça que Deus vos fez de o querer servir vos obriga a consolar-vos nele; as filhas do amor de Deus têm tanta confiança na sua bondade, que nunca se afligem muito tendo um refúgio onde encontram contentamento. Quem dele beber nesta fonte divina não pode ficar sequioso nas paixões desta miserável vida.
Sei que estais doente; mas, minha cara filha, ao passo que redobram as vossas penas, deve redobrar a vossa coragem, pensando que Aquele que, para mostrar o seu amor para conosco, escolhe a morte na cruz, vos atrairá cada vez mais para o seu amor e para a sua glória pela cruz das tribulações que vos envia.
O meu espírito não pode cessar de pensar em vós, minha querida prima, minha filha, e só quereria falar-vos da maneira que pode, e contudo não sabe que dizer-vos, estando como o vosso, ainda amedrontado, se não fora vontade do divino Esposo de nossas almas que contemplamos todos os nossos sucessos no seio da celeste Providência, e dirijamos os nossos afetos para a eternidade onde todos nós haveremos de encontrar para nunca mais nos separarmos. Oh! minha filha! porque estamos tão seguros, e confiamos na vaidade desta vida mortal? Os nossos desejos são mais altos, e convém para ai dirigir os nossos afetos. Em suma, eis-nos, minha querida filha, no ensaio de fidelidade que deveis a Deus, no qual resignastes todas as vossas aventuras.
Minha querida prima, dirigi o vosso coração para o céu, e colocai o vosso crucifixo no peito, para que apazigue os vossos soluços e suspiros. Pertencei-lhe completamente, e crede-me, Ele será todo vosso.

20 de agosto de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

9/15  -  O agrado divino, única consolação dos aflitos.

Embora eu não tivesse a felicidade de conhecer quando recebi a primeira noticia de vossa aflição não deixei por isso de me compadecer muito do vosso coração, imaginando como devia ser forte o abalo inesperado; e se os mesmos desejos fossem tão eficazes como são sinceros, afetivos e ternos, creio que logo sentireis algum alívio.
Mas os pensamentos dos homens são vão e inúteis em si mesmos; só Deus é o consolador e o senhor dos corações; é só Ele que alivia as almas de boa vontade. Ora, as de boa vontade são aquelas a quem Deus mostra o seu agrado; e mostra o seu agrado às que segundo a sua boa vontade esperam nele. Foi um bom aviso que recebestes da sua inspiração, propondo-vos a retirar-vos por um pouco do tumulto da consolação do mundo, embora bom consolador, para em repouso entregardes a chaga do vosso coração aos cuidados do médico e operador celeste, pois que os próprios médicos da terra confessam que nenhuma cura se pode efetuar senão com inquietação e tranquilidade! As palavras interiores que Deus dirige ao coração aflito que recorre à sua bondade são mais doces do que o mel, mais salutares do que o bálsamo precioso para curar toda a qualidade de úlceras. O coração que se une ao de Jesus Cristo não pode deixar de aceitar suavemente as setas que a mão de Deus lhe dispare. A vossa santa Blandina não achava maior alívio para as feridas do seu martírio do que no doce pensamento que exprimiu suspirando estas três doces palavras: "Eu sou cristã". Bem aventurado o coração que emprega bem este suspiro! 
Eu vos direi de boa vontade, para remédio da vossa dor que quem quer isentar o coração dos males da terra deve transportá-lo ao céu e como diz Davi: "É preciso ocultar o nosso espírito no segredo da face de Deus e no fundo do seu santo tabernáculo".
Considerai bem a eternidade para onde tendeis e achareis que tudo o que não pertence à sua infinita duração não deve mover a nossa coragem. O esposo amado passou deste mundo para o outro sob bons auspícios, cumprindo o seu dever para com Deus e para com o rei; não contempleis esta passagem senão na eternidade.
Que vos direi, filha minha, vendo-vos nesta amargura? Oh! coragem, eu vô-lo rogo: o esposo que escolhestes depois que separastes do que vos tinha dado, é um feixe de mirra; todo o que o ama não pode deixar de amar a amargura; e os que Ele favorece com o mais apertado amor, estão sempre feridos pela tribulação. Como poderíamos apertar ao peito Nosso Senhor crucificado sem que os cravos e os espinhos que os traspassaram não nos firam?

18 de agosto de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

8/15  -  Como uma viúva cristã deve chorar seu esposo.

Deus meu! como é enganadora esta vida, minha querida prima! e como são curtas as suas consolações! Aparecem em um momento e outro momento as leva; e se não fora a eternidade, para a qual se dirigem os nossos dias, teríamos a rezão de lamentar a condição humana. 
Sabei que vos escrevo com o coração cheio de desgosto pela perda que tivestes, mas ainda mais pela viva imaginação que tenho do golpe que o vosso receberá quando soube a triste noticia da vossa viuvez, tão pronta, tão súbita   e tão lamentável.
É preciso que seja Deus quem sustente o vosso espírito e que lhe sirva de auxílio e sustentáculo. Ora, sem dúvida, que esta soberana  Bondade, minha querida prima, se inclinará para vós e virá ao vosso coração para o ajudar e socorrer nesta tribulação, se vos lançardes em seus braços e vos resignardes em suas mãos paternais.
Foi Deus, minha querida prima, que vos deu esse marido; foi Ele que o chamou para si; tem obrigação de vos ser propício nas aflições, que os justos afetos, que se desenvolveram pelo vosso matrimônio, vos causarão dora avante por esta privação. É em suma tudo o que vos posso dizer. A nossa natureza é de tal modo feita, que morremos na hora imprevista, e não poderemos escapar a esta condição; eis porque é preciso ter paciência e empregar a nossa razão em adoçar o mal que não podemos evitar; depois considerar a Deus e a sua eternidade, na qual serão separadas todas as perdas e nossa sociedade, desunida pela morte, será restaurada.
Inspire-vos Deus e o vosso anjo da guarda uma santa consolação. Eu o suplicarei à sua divina Majestade e contribuirei para o repouso de além do vosso querido defunto por muitos santos sacrifícios.

16 de agosto de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

7/15  -  Os lutos cristãos - Passamos como uma sombra.

Eis como, enfileirados, passamos o rio Jordão para entrar na terra da promissão, onde Deus nos chama uns após outros.
Oh! Viva Jesus! Nada há neste mundo pelo que devamos desejar que os nossos amigos nele permaneçam muito.
Fazei pouco caso deste mundo, porque ele só nos serve de ponto para passarmos para outro melhor.
Oh!Deus, querida filha, a medida que vemos este mundo e os bens que nele temos desfazerem-se ante nossos olhos, é preciso recorrermos com mais ardor a Nosso Senhor e confessar que não colocamos as nossas esperanças nem esperamos os nossos contentamentos senão dele e da eternidade que nos destinou. É preciso que eu profira esta pequena frase de confiança; não há homem no mundo que tenha o coração mais terno e afetuoso para as amizades do que eu, e que tenha sentimento mais vivo nas separações; no entanto tenho em tão pouca conta esta vaidade da vida, que passamos, que nunca me volto para Deus com mais sentimento de amor do que quando me fere, ou quando permite que eu seja ferido.
Elevemos os nossos pensamentos ao céu, e estaremos isentos dos acidentes da terra. Esta boa irmã tinha orado bem a Deus; para isso foi arrebatada para Ele. Devemos crer que Deus dispôs isto para seu melhor bem. Permaneçamos em paz, esperando que Ele disponha de nós.
Seríeis muito temerária, minha querida filha, se pretendêsseis estar isenta dos embates que a inconstância desta vida dá de quando em quando aos homens. Quero que choreis essa perda, porque isso é razoável; mas desejo que não choreis desordenadamente, e que nesta ocasião demonstreis que já aproveitastes tanto na virtude que tendes mais fundamento na eternidade do que na imagem deste mundo.
Contemplai esta morte súbita que não deu tempo à falecida para se despedir dos que amava; e, esperando que ela passasse para a graça de Nosso Senhor, digamos a tempo o adeus, renunciando de coração ao mundo e à toda vaidade; e coloquemos os nossos corações na bem aventurada eternidade que nos espera.
Ah! minha pobre filha! o meu coração compadece-se do vosso, e conjuro-o que pertença completamente Aquele que o ressuscitará da morte para a vida e que nos preparou as suas eternas bençãos.
Seja sempre bendito o seu santo nome!
Sim, minha querida filha, chorai o vosso falecimento, porque Nosso Senhor chorou a Lázaro, seu amigo; mas não sejam lágrimas de pesar, mas duma simples compaixão cristã e dum coração que, como o de São José chora de ternura e não de arrogância como Esaú. É nestas ocasiões que convém submeter-mo-nos ao agrado do doce Jesus.
Mas dizei-me: e nós quando iremos para essa pátria que nos espera? Ah! eis-nos a espera da nossa partida, e choramos os que já partiram! Bom presságio são para essa alma as muitas aflições que ela sofreu; porque, tendo sido coroada de espinhos, devemos crer que será coroada de rosas. Vá pois esta bela irmã, vá possuir o seu eterno repouso no grêmio da misericórdia de Deus.
Se as minhas preces lhe podem apressar este bem, prometo-lhes de todo o coração; e se pudesse ter na vossa amizade, pedir-vos-lo-ia de todo o coração; pelo menos permiti-me que ocupe o que tenho, e que a medida que os vossos parentes temporais vos vão faltando, o afeto mais que paternal que vos consagro e tenho fielmente dedicado, se torne maior em ternura e ardor santo.
Tomai as faixas de Nosso Senhor, ou o sudário no qual foi envolvido para o sepulcro e enxugai com ele as lágrimas. Eu na verdade também choro nessas ocasiões, e o meu coração, de pedra para as coisas celestes, derrama lágrimas nesses casos; mas seja Deus louvado, e faço com doçura e para vos falar como a uma filha querida, sempre com um sentimento de dileção amorosa para com a Providência de Deus; porque depois que Nosso Senhor amou a morte e que a ela se entregou por nosso amor, não posso querer mal à morte, nem de minhas irmãs, nem de ninguém, contanto que se faça por amor da sagrada morte do meu Salvador. Viva pois e reine Ele, sempre em vossos corações. Amém.

14 de agosto de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

6/15  -  Consolações a uma senhora a respeito da morte de seu marido.

Meu Deus! Quanto é frágil esta vida, e como são curtas as suas consolações! Aparecem em um momento, e outro momento as leva; e se não fora a santa eternidade, para qual os nossos dias se dirigem, teríamos rezão para lastimar a nossa condição humana.
Os pensamentos dos homens são vãos e inúteis em si mesmos para consolar um coração como o vosso. Deus só é consolador e Senhor dos corações, é só Ele que apazígua as almas de boa vontade, isto é as que nele esperam. As palavras interiores que Deus dirige ao coração aflito, que recorre à sua bondade, são mais doces do que o mel e mais salutares do que o bálsamo mais precioso.
O coração que se une ao coração de Deus, não pode deixar de amar e aceitar amorosamente as setas que sua mão sobre ele dirige.
Há tempo que servis a Deus e que aprendestes na escola da cruz que não só deveis aceitá-la pacientemente, mas ainda com doçura e amor em consideração daquele que levou a sua e sobre ela foi pregado até a morte; e daquela que, não tendo senão um Filho de amor incomparável, o viu morrer sobre a cruz, com os olhos cheios de lágrimas e o coração cheio de dor, mas dor doce e suave em favor da nossa salvação e da de todo o mundo.
Ora esta bondade soberana sem dúvida se inclinará para nós e virá ao nosso coração, para o ajudar e socorrer desta tribulação se nos lançarmos em seus braços e nos resignarmos em suas paternais mãos.
Foi Deus que vos deu este esposo; foi Ele que o chamou e retirou para si; é obrigado a favorecer-vos nas aflições.
Considerando tudo isto, é preciso sujeitarmos os nossos corações à condição da vida em que estamos. É uma vida perecível e mortal, e a morte, que domina nesta vida, não tem marcha regrada: toma ora aqui ora ali, sem nenhuma escolha nem método, os bons entre os maus e os jovens entre os velhos.
Oh! como são ditosos os que, vivendo com a continua desconfiança da morte, se acham sempre prontos para morrer, para que possam reviver eternamente na vida em que não há mais morte!
Sem dúvida, minha senhora, o maior desejo que o vosso falecido teve à sua partida, foi que vós não vos magoásseis muito com a ausência que ele vos causava, mas que procurásseis moderar por amor dele a paixão que o seu amor vos causava; e agora, na felicidade de que goza, ou espera com confiança, deseja vos uma santa consolação, e que, suavizando a vossa tribulação, conserveis os vossos olhos para um objeto melhor do que as lágrimas, e o vosso espírito para ocupações mais desejáveis do que a tristeza.
E visto que a amizade verdadeira se compraz em  agradar as justas recreações do espírito, para agradar a vosso marido, consolai-vos, alegrai o vosso espírito e reanimai a vossa coragem. Porque se o conselho que vos dou, com uma sinceridade sem igual, vos é agradável, praticai-o prostrando-se ante Nosso Senhor, conformando-vos com as suas ordens considerando a alma deste querido defunto, que deseja à vossa uma resolução cristã e verdadeira, e abandonando-vos completamente à celeste Providência do Salvador da vossa alma, vosso protetor, que vos ajudará e socorrerá, e enfim vos unirá ao vosso falecido, não na qualidade de esposa com seu marido, mas na de herdeiro do céu com seu co-herdeiro. 
A pouco e pouco Deus nos aparta dos contentamentos deste mundo; é preciso pois aspirar ardentemente aos da imortalidade e de ter os nossos corações elevados para o céu onde estão as nossas pretensões e onde presentemente temos uma parte das almas que amamos.
Seja para sempre bendito o nome de Nosso Senhor, e viva e reine sempre o seu amor em nossas almas.

12 de agosto de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

5/15  -  A uma senhora - consolações sobre a morte de seu pai.

Ânimo,  filha; é preciso que o vosso coração sofra agora a ausência de vosso pai, pois que enfim a divina Providência o chamou para si e tirou-o desta miserável vida mortal, na qual vivemos morrendo e morremos continuamente vivendo.
Quanto a mim, minha querida filha, não quero apresentar-vos outra consolação senão a Jesus Cristo crucificado, cuja vista a vossa fé vos consolará; porque depois da morte do Salvador toda a morte é feliz para os que, como o falecido de que falo, morrem no aprisco e com o socorro da santa Igreja; e todo o que se glorifica na morte de Nosso Senhor nunca se afligirá dos que ele reuniu e recebeu para si.
Tenho costume de dizer a todas as almas que se dirigem a mim, que é preciso elevar o coração para o céu, como diz a Igreja no santo sacrifício. Vivei com pensamentos gloriosos e magníficos, que só dispôs os seus momentos mortais para esta vida eterna.
Este coração, assim elevado generosamente, é sempre humilde porque esta estabelecido na verdade e não na vaidade! É doce e pacífico porque não se importa com o que o pode perturbar. Mas quando eu digo que é doce e pacífico, não quero dizer que não sinta dor, nem sentimentos de aflição. Não, por certo, minha filha, não digo isso; mas digo que os sofrimentos, as penas, as tribulações são acompanhados com uma forte resolução de sofrer por Deus, que toda a amargura, por custosa que seja, esta em paz e tranquilidade.
Além disso esta terrível separação é tanto menos dura que pouco tempo leva e nós não só esperamos mas aspiramos a este repouso no qual esta bela alma esta ou estará em breve. Tomai eu vô-lo peço, de vontade, esta pequena demora que deveis ter na terra e em lugar de multiplicar por ela as nossas lágrimas, lancemo-las  ante Nosso Senhor, para que sirva apressar a sua recepção nos braços da divina bondade, se ainda não lhe fez esta graça.

10 de agosto de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

4/15  -  A uma mãe a respeito da morte de seu filho na guerra.

Como a minha alma se compadece do vosso coração, minha querida mãe! Porque me parece ver esse coração maternal cheio desse excessivo pesar; pesar que contudo não devemos estranhar nem censurar se considerarmos como esse filho era amável. E o segundo afastamento dele é o assunto da vossa amargura. Minha querida mãe, é verdade, esse querido filho era um dos mais desejáveis que existiam; todos os que trataram o reconheceram e reconhecem ainda. Mas não é isto uma grande parte de consolação que devemos ter agora, minha querida mãe? Porque parece que aqueles cuja vida é mais digna de memória e de estima ainda vivem depois da morte, pois tanto prazer sentimos em os recordar e representar ao espírito dos que ficam.
Partiu deste mundo para ir para o que é mais desejável de todos e para o qual devemos ir cada um em ocasião própria e onde o vereis mais depressa do que se ficasse neste novo mundo, entre os trabalhos da conquista que ele queria fazer para o seu rei e para a igreja.
Em suma, terminou, seus dias mortais no seu dever e na obrigação do seu juramento. Esta espécie de fim é excelente, e não devemos duvidar de que o grande Deus lhe tenha tornado feliz pois que desde o berço o tinha favorecido continuamente com a sua graça para o fazer viver cristãmente. É preciso compreender esta admirável Providência de Deus e conformarmo-nos com suas ordens com uma santa confiança em que Ele terá cuidado daquela boa alma, que terá talvez purificado com este fogo para lhe evitar o do purgatório.
Em suma, é preciso dar passagem às aflições para dentro do coração; mas não convém deixá-las aí permanecer. Deus, o nosso anjo da guarda e a sabedoria que granjeastes com a experiência sugerir-vos-ão melhor tudo isso do que eu. Enfim eis-vos despojada e despida do precioso vestido que possuíeis. Bendizei a Deus, que vô-lo tinha dado e que vô-lo tirou, e a sua Majestade ocupará o lugar do vosso filho.
Consolai-vos pois, minha querida mãe, e aliviai o vosso espírito, adorando a divina Providência, que tudo faz com suavidade; e embora nos sejam ocultos os motivos de seus decretos, a verdade de sua bondade é nos manifesta e obriga-nos a crer que tudo faz por sua divina bondade. Dizer-vos-ei de boa vontade para  remédio da vossa dor, que quem quer isentar o seu coração dos males da terra, precisa de o ocultar no céu; e como disse Davi: "É preciso ocultar o espírito no segredo da face de Deus e no fundo dos santos tabernáculos".
Considerai bem na eternidade onde ides; e achareis que tudo o que não pertence a esta infinita duração não deve morrer a vossa coragem. Esse filho querido passa deste mundo para o outro com bons auspícios, cumprindo o seu dever para com Deus e o rei; não contempleis esta passagem senão na eternidade.
Não nos aflijamos por isso, minha filha; em breve nos reuniremos. Caminhamos incessantemente e dirigi- mo-nos para onde estão os nossos falecidos e em dois ou três instantes lá estaremos; pensemos só em caminhar bem e em seguir todo o bem que neles tivermos notado. Colocai o vosso coração, eu vô-lo peço minha filha, ao pé da cruz e aceitai de bom grado a morte ou a vida de todos os que amais por amor d'Aquele que deu a sua vida e recebeu a morte por vós. Estais quase a partir para onde esta o vosso amável filho; mas esperando a hora de navegar, apaziguai o vosso coração maternal pela consideração da santa eternidade na qual ele esta e da qual vós vos aproximais; e em lugar de lhe escreverdes algumas vezes, falai a Deus por ele e ele saberá prontamente tudo o que quiserdes que saiba, e receberá todo auxílio que lhe prestardes por vossos votos e orações logo que as fizerdes e vos entregardes nas mãos da divina Majestade.
Reprimi o desejo violento que tendes de saber onde esta o vosso falecido na outra vida, e quando encontrardes o vosso espírito nisto entretido convém que de repente e mesmo por palavras, vos volteis para o lado de Nosso Senhor, e lhe digais: Oh! Senhor! como é doce a vossa Providência e quanto é boa a vossa misericórdia! Ah! como é feliz este filho, por ter caído em vossos braços paternais, nos quais só pode estar bem, seja em que lugar for! 
Sim, porque não devemos senão pensar que esta no paraíso ou no purgatório, pois que, graças a Deus, não podemos pensar outra coisa. Retirai-vos pois assim o vosso espírito e depois ocupai-vos em ações de amor para com o Nosso Senhor crucificado.
Quando recomendardes esse filho à divina Majestade, dizei-lhe simplesmente: Senhor, recomendo o filho de minhas entranhas, mas ainda com mais razão filho das entranhas da vossa misericórdia gerado pelo meu sangue, mas regenerado pelo vosso.

8 de agosto de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

3/15  -  A um pai acerca da morte de seu filho.

Fareis bem em considerar que esse querido filho pertencia mais a Deus do que a vós, que só o possuíeis por causa da soberana liberalidade. Se a Providência julgou que era tempo de levar para si, devemos crer que o fez para seu bem, com que um pai cristão como vós se deve conformar docemente. O nosso século não é tão agradável que devemos lamentar os que o deixam. Este filho para si, segundo me parece, ganhou muito em sair quase logo que chegou.
A palavra morte é espantosa, como no-la propõem: porque vêm dizer-vos: Morreu vosso pai, morreu vosso filho. E isto não se diz assim entre nós cristãos porque deveríamos dizer: Vosso pai e vosso filho retiraram-se para o seu país e para o vosso, e, por ser preciso, passaram pela morte, na qual não estacionaram. Não sei, com certeza, como podemos, com bom juízo julgar este mundo, em comparação com o céu onde devemos permanecer eternamente. Nós vamos, e estamos mais certos da presença dos nossos queridos amigos que lá estão, do que dos que estão na terra; porque aqueles deixaram-nos ir e ficaram ao pé de nós o mais que possam, e se vão como nós, é contra sua vontade.
Se algum resto de tristeza atormenta ainda o vosso espírito pela partida desta sua alma, lançai-vos diante do Coração de Jesus crucificado e pedi-lhe auxílio. Ele vô-lo dará, e vos inspirará o pensamento e o propósito firme de vos preparardes para dar bem esse passo, à hora que ele marcou, nesta temível passagem de sorte que chegueis felizmente ao lugar onde devemos esperar que esteja o nosso pobre, mas feliz defunto.

6 de agosto de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales..

 2/15  -  Consolações a uma pobre mãe acerca da morte de seu filho de tenros anos.

Eis, minha querida filha, que esta seguro o vosso filho; possui o talento eterno. Ei-lo escapado, e garantido do acaso de se perder, ao qual vemos expostas tantas pessoas. Dizei-me; não poderíeis tornar-se devasso com a idade? Não poderíeis receber dele muitos desgostos no futuro, como tantas outras mães recebem dos seus? Porque minha filha, muitas vezes recebem-se daqueles de quem menos se esperava. E eis que Deus o retirou de todos os perigos e fez-lhe conquistar o triunfo sem batalha e colher o fruto da glória sem trabalho. No vosso entender, minha querida filha, não estão recompensados os vossos votos e devoções? Vós o fazíeis por ele; mas para que ficasse convosco neste vale de misérias. Nosso Senhor, que entende melhor o que nos convém, ouviu as vossas súplicas em favor da criança por quem as fazíeis, mas apesar dos contentamentos temporais que pretendíeis.
Na verdade, aprovo a confissão que fazeis; que é por vossos pecados que morreu esta criança, porque isto procede da humildade; mas não creio que se funde na verdade. Não, minha cara filha, não é para vos castigar; é para favorecer esta criança que Deus a salvou a tempo. Tendes dor nesta morte, mas vosso filho tem muito proveito recebestes um grande desgosto temporal e vosso filho um prazer eterno. No fim da nossa vida, quando os nossos olhos estiverem desvendados, veremos que esta vida vale tão pouco, que não devemos chorar os que a deixam em breve; a mais curta é a melhor, contando que conduza à eterna.
Tende coragem; eis pois o vosso filho no céu com os anjos e os santos inocentes. Ele conhece bem o trabalho que com ele tivestes, e mais que tudo das orações que por ele recitastes; e em troca, ele pede por vós a Deus que espalhe mil bons desejos sobre a vossa vida, para que cada vez mais se conforme com a vontade celeste e por ela possais ganhar a que ele goza. Ficai em paz minha querida filha, e elevai o vosso coração ao céu onde  tendes esse santinho. Perseverai em querer amar sempre fielmente a vontade soberana.
Oh! como é feliz esta criança por ter voado para o céu como um anjinho, antes de quase haver tocado a terra! Que penhor tendes vós lá em cima, minha querida filha! Mas vós tereis, eu o creio, tratado deste negócio particularmente com o nosso Salvador, e ele terá pacificado santamente a ternura natural da vossa maternidade, e vós tereis pronunciado muitas vezes de todo coração o protesto filial que Nosso Senhor nos ensinou; "Sim, Eterno Padre, já que assim vos agrada, assim, se faça". Oh! minha filha, se assim fazeis, estais felizmente morta no divino Salvador como essa criança, e a vossa vida esta oculta com ele em Deus; e quando aparecer o Salvador, que será a vossa vida, então aparecerá com ele na glória. É a maneira de falar do Espirito Santo na Escritura.
Padecemos, sofremos, morremos com aquele que amamos, pelo amor que a ele nos une; e quando eles sofrem ou morrem no Senhor, é que nos conformarmos aos seus padecimentos e morte por amor daquele que por nosso amor quis sofrer e morrer, sofremos e morremos com ele; tudo isto junto, minha cara filha, são riquezas espirituais incomparáveis, e conheceremos isto um dia, quando por estes ligeiros trabalhos conquistarmos recompensas eternas.
Nesta ocasião empregai a grandeza da vossa coragem para moderar a grandeza do desgosto que a magnitude da vossa perda nos tiver dado. Conformemo-nos com os decretos da soberana Providência, decretos que são sempre justos, sempre adoráveis, embora impenetráveis e obscuros ao nosso entendimento.

5 de agosto de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

 Pensamentos Consoladores na Perda de Parentes e Amigos.


1/15  -  Como se deve chorar cristãmente as pessoas que perdemos.

Se perdemos os nossos parentes e amigos, não devemos entristecer-nos muito; porque nada há no mundo pelo que devemos desejar que aqueles que amamos aqui permaneçam muito tempo, e ele é tão miserável que devíamos antes louvar a Deus quando os leva e não nos afligirmos. Assim convém que uns após outros deles saiamos, segundo a ordem que Deus estabeleceu; os primeiros que saem são os que estão melhor, quando viveram com cuidado da sua salvação. E depois, na eternidade, tais perdas são reparadas, e a nossa sociedade, desfeita pela morte, será restaurada.
Uma consolação bem suficiente aos filhos de Deus, é quando seus parentes e amigos têm recebido os remédios eficazes dos santos sacramentos antes de morrer, o que lhes devem procurar sem demora.
Repousemos os nossos corações sem amargura; mas tenhamos a coragem, tão necessária neste estado, de fechar os olhos ao nosso querido moribundo, dando-lhes o ósculo da paz. Depois disto, façamos-lhe as honras que o costume cristão exige, segundo o estado e condição de cada um. Porém, mais do que tudo, ordenemos que o mais cedo possível se façam com exatidão por intenção do falecido as orações, e outros exercícios piedosos, com medo que ele tenha precisão de alguma expiação, segundo a severidade do juízo divino; e que ainda esteja privado do gozo da plena e gloriosa liberdade, e que tenha a alma ainda condenada à estada por algum tempo no fogo do purgatório, por um segredo inescrutável de Deus, antes de ser recebida no céu entre os braços da divina bondade. Nesta sociedade, as amizades e sociedades começada neste mundo continuar-se-ão para não haver mais separação.
No entanto tenhamos paciência e esperemos com coragem que soe a hora da nossa partida, para irmos para onde já estão os nossos amigos; e já que cordialmente os amamos, continuemos a amá-los; façamos por amor deles o que eles desejariam que fizéssemos e o que agora por nós almejam.
Entretanto não vos direi: Não choreis, não, porque é justo que choreis um pouco em testemunho do afeto sincero que tendes aos vossos queridos defuntos. Isto será imitar a Jesus Cristo, que chorou por um pouco a Lázaro, seu bom amigo; mas com condição de serem moderadas estas demonstrações exteriores, e que esses suspiros e gemidos não sejam tantas lágrimas de pesar como sinais de compaixão e ternura.
Não choremos como os que pertencendo completamente a esta miserável vida, não se lembram de que caminhamos para a Eternidade, onde, se vivemos bem neste mundo, nos reuniremos às pessoas queridas para nunca mais a deixarmos. Não poderíamos impedir que o nosso pobre coração sentisse a perda dos que aqui eram os nossos amáveis companheiros; mas convém que não desmintamos a solene resolução que fizemos de ter a nossa virtude inseparavelmente unida a de Deus, e que não cessemos de dizer à divina Providência: Sim, vós sois bendita, porque tudo o que vos agrada é bom.
Eu choro em tais ocasiões; e o meu coração, que é de pedra nas coisas do céu, funda-se em lágrimas por tais acontecimentos. Esta insensibilidade imaginária dos que não querem que estejamos homens, pareceu-me sempre que era uma quimera; mas também, depois de ter pago o tributo à parte inferior da nossa alma, é preciso prestar as honras à superior, onde brilha, como em um trono, o espírito da fé, que nos deve consolar em nossas aflições e por elas próprias.
Bem aventurados os que se alegram por estar aflitos e convertem o absinto em mel! Deus seja louvado! É sempre com tranquilidade que eu choro, sobretudo com um grande sentimento de amor para com a Providência de Deus; porque depois, que Nosso Senhor amou a morte e a deu por objeto ao nosso amor, não posso querer mal a morte por me levar minhas irmãs ou qualquer outra pessoa, contanto que morra no amor da santa morte do Salvador. Tenho em tão pouca conta esta vida frágil, que nunca me volto para Deus com mais sentimento de amor do que quando me fere, ou permite que eu seja ferido.
Estimo que tenhais tanta caridade e temor de Deus, que, vendo o seu agrado e a sua santa vontade, a ele vos acomodeis e odieis o vosso desprezo pela consideração do mal deste mundo. Não podemos evitar ter muita pena com a separação dos nossos amigos, e este desgosto não nos é proibido com tanto que o moderamos pela esperança que temos de não nos separarmos deles senão no pouco tempo que medeia até os seguirmos ao céu, lugar do nosso repouso, se Deus nos fizer essa graça.
Alongai muitas vezes a vossa vista até ao céu e vede que esta vida não é senão uma passagem para a eternidade. Quatro ou cinco meses de ausência passarão depressa. Se o nosso costume e os nossos sentidos, entretidos em estimarem este mundo e esta vida, nos fazem sentir o que nos é contrario, corrijamos muitas vezes este defeito pela claridade da fé que nos deve fazer julgar por muito felizes os que em poucos dias terminarem a sua viagem.
Oh! como é desejável a eternidade comparada com as vicissitudes deste mundo!... Todos os dias a minha alma se abrasa em amor e estima das coisas eternas... Deixemos correr o tempo, com o qual corremos a pouco e pouco para nos transformarmos na glória dos filhos de Deus... Quanto incomparavelmente mais amável não é a eternidade, cuja duração não tem fim, com os dias sem noite e os contentamentos invariáveis! Oh! se duma vez compenetrássemos bem os nossos corações nesta santa e bem aventurada eternidade! Ide, diríamos nós a todos os nossos amigos, ide para este Rei da eternidade: nós nos reuniremos a vós, e já que o tempo só para isso nos foi concedido e que o mundo só se povoa para povoar o céu, façamos tudo o que pudermos para disso nos tornarmos dignos...
Sim, com certeza, a passagem de nossos amigos para uma vida melhor é estimável, pois que se faz para povoar o céu e engrandecer a glória do nosso Rei; um dia justar-nos-e-mo a eles e no entretanto aprendamos o cântico do santo amor, para o cantarmos com mais perfeição na eternidade. Bem aventurados os que não confiam na vida presente e que só a julgam como uma taboa para passarem à vista celeste, na qual unicamente devemos colocar as nossas esperanças!
Deixemos chorar Davi a morte do seu Absalão enforcado e perdido; mas na morte do que tomou por vontade, que recebeu os remédios eficazes da Igreja antes de morrer, há mais ocasião para nos consolarmos do que para nos entristecermos; porque, tendo vivido bem, não morreu, mas salvou-se da morte; porque os homens virtuosos não morrem, vivendo no céu pela magnifica recompensa de seus méritos, e na terra pela gloriosa memória de seus benefícios.
Oh! se ouvíssemos as doces e amáveis palavras de algum falecido já bem aventurado, ele nos diria: Meus amados, peço-vos que noteis que estou no lugar que desejo, e que me consolo dos meus passados trabalhos que me conquistaram esta gloriosa imortalidade! Por que não consolais comigo? Quando eu estava convosco nesse mundo, era vosso empenho vos regozijardes comigo em todas as minhas consolações, até mesmo caducas e ilusórias... Ah! não sou eu mesmo? Por que vos afligis para com minha morte visto ter-me Deus dado tanta glória? Não, eu desejo de vós coisas bem diferentes desses vossos pesares! Se tendes lágrimas, guardai-as para chorar as desgraças do vosso século e conjuntamente os vossos pecados. Não sabeis que os males desta vida miserável em que viveis são tais, que devereis antes louvar a Deus por delas vos livrar, do que afligir-vos?  Os primeiros que dela saem são os mai felizes, contanto que tenham vivido bem. Um só pesar sinto agora; é que desprezeis, estando em vossos corpos, as coisas de que não necessitais não as possuindo; e que vivais por tal forma, entre as prosperidades da vida, que não temais as adversidades, confiando que em breve vos unireis aos vossos caros defuntos para os não deixardes por toda a eternidade.
Prouvera a Deus que todos os filhos de Adão pensassem bem nestas verdades! De certo não estariam tão ardentes e ásperos para os prazeres e vaidades,  porque conheceriam perfeitamente que tudo o que agora amaram não era senão um nada, despojo da morte, o fruto de  Satanás e o engôdo do inferno; e por este conhecimento claro, junto a uma resolução firme e sólida, tirariam da  morte temporal auxílio e socorro para evitar a eterna.
Dizem que Alexandre o grande, navegando no mar alto, descobriu a Arábia Feliz só pelo cheiro de madeira aromática que aí há; e assim só ele tinha pretensão de conquistar esse país. Assim os que pretendem o país eterno, embora navegando no mar alto dos negócios deste mundo, têm um certo gosto antecipado do céu, que os anima e conforta maravilhosamente; mas convém dirigir a proa para esse sítio.

23 de julho de 2014

Pensamentos consoladores de São Francisco de Sales.

5/5  -  É preciso entregar-mo-nos à Deus na vida e na morte.

Entre os louvores que os santos dão a Abraão, São Paulo eleva acima de todos os outros, este:" que ele creu, esperando contra toda a esperança". Deus tinha-lhe prometido multiplicar a sua posteridade como as estrelas do céu e as areias do mar e no entanto recebeu ordem de sacrificar o seu único filho. Abraão não perdeu por isto a esperança, e creu que obedecendo, não deixaria de manter a sua promessa.
Grande, com certeza, foi a sua esperança; porque nada via em que a apoiasse senão a palavra de Deus.
Oh! como é um alicerce forte e sólido esta palavra de Deus! oh! como é um alicerce forte e sólido esta palavra, visto ser infalível!
Abraão vai pois cumprir a ordem de Deus com simplicidade nunca vista; porque não considerou nem replicou como quando Deus lhe ordenou que saísse da sua terra e dentre os seus parentes. Caminhando três dias e três noites com seu filho, sem saber precisamente para onde ia, levando a lenha para o sacrifício, seu filho lhe perguntou onde estava o holocausto, ao que respondeu Abraão: "Meu filho o Senhor proverá a isso".
Oh! Meu Deus! como seríamos felizes se nos acostumássemos a dar esta resposta aos nossos corações, quando se afligem por qualquer coisa: Nosso Senhor proverá; e depois disso não tivéssemos mais ansiedade e perturbação que Isaac! porque se calou logo, crendo que o Senhor proveria a isso como seu pai lhe tinha afirmado.
Grande é com certeza a confiança que Deus nos pede que tenhamos no seu cuidado paternal e da sua divina Providência; mas porque razão a não teremos nós visto que ninguém pode ser enganado e que ninguém confia em Deus sem tirar os frutos desta confiança?
Considerai que o Nosso Senhor disse aos seus apóstolos para estabelecer com eles esta santa e amorosa confiança: "Quando eu vos enviei ao mundo, sem dinheiro e sem provisão alguma, faltou-vos alguma coisa?" E eles disseram: Não." Ide lhes disse Ele, e não vos inquieteis nem do que comereis, nem mesmo do que bebereis, nem com o que vos cobrireis, e nem do que direis perante os magistrados; porque em todas as ocasiões meu Pai que esta no céu vos dará tudo o que é necessário e ensinar-vos-á o que haveis de dizer".
Mas eu sou tão pouco espiritual, me dirá alguém: não posso tratar com os grandes e não tenho ciência. É o mesmo: Ide e confiai em Deus, porque Ele disse: "Embora uma mãe se esqueça de seu filho, eu não vos esquecerei; porque vos tenho gravado no coração e nas mãos".
Pensais que aquele tem cuidado em provar ao alimento das aves do céu e dos animais da terra, que não semeiam nem recolhem, não proverá de tudo o que é necessário aquele que confiar plenamente na sua Providência? Ele que esta unido a Deus, que é o sumo bem?
Convém saber que abandonar a sua alma e entregar-se a si próprio nada mais é do que deixar a própria vontade para a entregar a Deus: porque de nada serviria renunciarmos a nós mesmos se não fosse para nos unirmos à divina bondade: fazer outra coisa, seria parecer-nos com esses filósofos que abandonaram tudo e a si mesmo para se entregarem a vãs pretensões e ao estudo da filosofia. Sirva de exemplo Epíteto, que sendo escravo, e querendo libertá-lo o seu Senhor por causa da sua grande sabedoria, não quis a liberdade por uma das maiores renúncias, e ficou na escravidão, com uma tal pobreza que depois de morrer só lhe encontraram uma lâmpada, que foi vendida muito cara por ter pertencido a um tal homem. Quanto a nós não queiramos deixar-nos senão para nos entregar-nos à mercê da vontade de Deus. Há muitos que dizem a Nosso Senhor: Entrego-me a vós sem reserva; mas há poucos que pratiquem este abandono, que é uma perfeita submissão em receber toda a sorte de acontecimentos, logo que seja por ordem da Providência de Deus, seja aflição ou consolação, doença ou saúde, pobreza ou riqueza, desprezo ou honra, opróbrio ou glória.
Isto entendo eu relativamente à parte superior do nosso ser; porque quanto à parte inferior, ninguém dúvida que ela e a inclinação natural tendem antes para o lugar da honra do que do desprezo; das riquezas do que da pobreza; embora ninguém ignore que o desprezo e a pobreza são mais agradáveis a Deus do que a honra e a abundância,
Vivamos, enquanto agradar a Deus, neste vale de misérias com uma inteira submissão à sua vontade. Noutro dia me recordava do que dizem os autores a respeito do alcião, ave pequena, que põe na margem do rio. Estas aves fazem ninho tão redondos e apertados, que as águas do mar não podem penetrar, e somente em cima deixam um orifício por onde podem respirar; dentro alojam os filhinhos, para que, se o mar os surpreender possam nadar com segurança e flutuar sobre as águas sem se encherem nem submergirem; e o ar que entra por esse pequeno orifício serve de contrapeso e é balanço por tal forma a estas barquinhas, que nunca se viram.
Oh! como eu desejo que os nossos corações estejam calafetados por toda a parte, para que, se a tempestade e as tormentas do mundo os agitarem, lhes não penetrem, e que só haja uma abertura para o céu, para respirarmos e aspirarmos ao nosso Salvador! E por quem será feito este ninho? Pelos filhinhos d'Aquele que o fez por amor de Deus, por afetos divinos e celestes. Mas, enquanto os alciões fabricamos seus ninhos e os seus filhinhos ainda estão tenros para suportar o embate das vagas, ah! Deus terá disso cuidado e usará de compaixão, impedindo que o mar entre neles e os leve.
Oh! Deus! eis a vossa bondade soberana, que manterá o ninho dos nossos corações, pelo seu santo amor contra os assaltos do mundo, e garantirá que eles sejam vencidos. Ah! como eu amo essas aves que estão carcadas pelo mar, e não vivem senão dar e só vêem o céu?
Nadam como peixes e cantam como aves; e o que mais me agrada é que a âncora é lançada da parte superior e não da inferior, para os garantir contra as vagas.
Queria o doce Jesus tornar-nos assim de maneira que, cercados pelo mundo e pela carne, vivamos do espírito; que, entre as vaidades da terra, contemplemos sempre o céu que, vivendo entre os homens, o louvemos com os anjos, e que o fundamento das nossas esperanças esteja sempre no paraíso; que em tudo por tudo o amor santo seja o nosso grande amor. Ah! mas quando será que nos consumirá e quando consumirá a nossa vida para fazer morrer a nós mesmos o fazer-nos reviver para o nosso Salvador? A ele só sejam dados glória, honra e louvor. Já que o nosso propósito inviolável tende incessantemente para o amor de Deus, nunca serão fora de propósito as palavras do amor de Deus.
Nada mais vos direi, nem sobre grande o abandono de tudo e de nós mesmos a Deus, nem sobre a saída do nosso país e da casa de nossos pais. Não, não quero falar. Queira Deus esclarecer-nos e mostrar-nos o seu gosto; porque embora perigue tudo o que há em nós, segui-lo-e-mo para toda parte onde nos conduza.
Oh! como é bom estar com Ele seja em que lugar for! Eu penso na alma do bom ladrão. Nosso Senhor tinha-lhe dito que naquele dia estaria com Ele no paraíso e apenas a sua alma se apartou do corpo, eis que o conduz ao inferno. Sim, porque devia estar com Nosso Senhor, e Nosso Senhor desceu aos infernos; foi pois aí com Ele. Deus verdadeiro! que pensaria ele ao descer e vendo esses abismos com a sua vista interior? Creio que diria em Jó: "Quem me fará a graça, Meu Deus, que me defendeis e conserveis no inferno?" e com Daví: "Não, nenhum mal temerei, porque Senhor, Vós estais comigo". Não, enquanto estão vivas as nossas resoluções, nada nos perturba. Quando morrermos, volte-se tudo, isso pouco me importa contando que isto subsista.
As noites são dias, quando Deus permanece em nosso coração, e os dias são noites quando Ele lá não esta.

21 de julho de 2014

Pensamentos consoladores de São Francisco de Sales.



4/5  -  Pensamentos consoladores acerca da rapidez do tempo.


Os anos temporais passam; os seus meses reduzem-se em semanas; as semanas em dias, os dias a horas; as horas a momentos, que são os únicos que possuímos, mas que não gozamos senão à medida que acabam e tornam a nossa natureza mortal, a qual no entanto deve para nos ser amável; e visto esta vida estar cheia de miséria, não poderíamos ter consolação mais sólida do que a de estarmos certos de que aquela se vai dissipando para dar lugar à santa eternidade, que nos esta preparada na abundância da misericórdia de Deus, e à qual a nossa alma aspira incessantemente por contínuos pensamentos que sua própria natureza lhe sugere, embora não possa esperar senão por outro pensamento mais elevado que o autor da natureza sobre ela derrama.
Eu não estou atento a eternidade senão com muita suavidade; porque, digo eu, como é que a minha alma poderá estender o seu pensamento a este infinito se não tivesse alguma proporção com ele? Porém, quando conheço que o meu desejo corre com o meu pensamento para esta mesma eternidade, a minha alegria cresce sobremaneira; porque sei que não desejamos com um verdadeiro desejo senão coisas possíveis. O meu desejo certificar-me pois de que posso ter a eternidade; que me resta pois senão esperar possuí-la? E isto concede-me pela infinita bondade daquele que não criaria uma alma capaz de pensar e tender para a eternidade se não quisesse dar-lhe os meios de a conseguir.
Digamos pois muitas vezes: tudo passa, e após poucos dias desta vida mortal que nos restam, virá a infinita eternidade. Pouco nos importa que tenhamos aqui comodidades ou não, contanto que sejamos felizes por toda a eternidade.Seja esta eternidade santa que nos espera, a nossa consolação, e o sermos cristãos, membros de Jesus Cristo, regenerados com o seu sangue, porque só consiste a nossa glória em este divino Salvador ter morrido por nós.
Uma alma grande eleva os seus melhores pensamentos, afetos e desejos ao infinito da eternidade, e visto que é eterna, reputa em pouco o que não é; tem por pequeno o que não é infinito, e elevando-se acima de todas as delícias, ou antes dos vís joguetes que esta vida nos apresenta, tem os olhos fixos na imensidade dos bens e anos eterno.
Oh! quanto é desejável a eternidade comparada com estas miseráveis e perecíveis vicissitudes! Deixemos correr o tempo, com o qual corremos a pouco e pouco para sermos transformados na glória dos filhos de Deus. Ah! quando penso como empreguei o tempo de Deus, afligi-me o pensar que ele não me queira dar a sua eternidade, pois que só a dará aos que empregaram bem o tempo.
Oh! Deus! - os anos correm imperceptivelmente uns após outros; e terminando a sua duração, terminam a vossa vida mortal, e acabando, acabam a nossa vida.
Oh! como é incomparável mais amável a eternidade, visto que a sua duração tem fim e que os seus dias são sem noite, e os seus contentamentos invariáveis!
Possais vós possuir este bem admirável da santa eternidade em tão alto grau quanto eu vos desejo! Que felicidade para a minha alma se Deus concedendo-lhe misericórdia, lhe patenteasse esta doçura.

19 de julho de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

3/5  -  Motivos pelos os quais os cristãos imperfeitos não devem temer a morte e podem até desejá-la.

Assim como a vida cristã é uma imitação e expressão da vida que Jesus Cristo por nós sofreu, a morte cristã é também uma imitação e expressão de Jesus Cristo, morrendo por nós. Jesus Cristo morreu para satisfazer a justiça de Deus pelos pecados de todos os homens e por termo ao reino da iniquidade; para prestar a seu Pai a obediência mais perfeita submetendo-se à sentença da morte justamente pronunciada contra todos os pecadores, cujo lugar ocupava, servindo-lhes de caução; para por meio da sua morte dar uma homenagem infinita à majestade de Deus, e reconhecer o seu soberano domínio sobre todas as criaturas.
Todo o cristão esta obrigado a aceitar da morte com estas mesmas disposições e deve julgar-se por muito feliz em querer Jesus Cristo unir o sacrifício que fez a Deus da sua divina e infinitamente mais preciosa do que a vida natural de todos os anjos e homens, como o sacrifício que cada um de nós deve fazer a Deus duma vida tão miserável e indigna, e que queira tornar a nossa morte digna de nos granjear uma vida eterna, unindo-se à sua. Morrer sem participar destas disposições de Jesus Cristo moribundo, não é morrer como Cristão, e por conseguinte morrer como réprobo.
Todo o cristão é obrigado a trabalhar para adquirir estas disposições durante a vida que só lhe foi dada para aprender a bem morrer. É preciso adorar muitas vezes em Jesus Cristo este zelo ardente em satisfazer a justiça de Deus e em destruir o pecado este espírito de obediência e sacrificio, no qual viveu e morreu e que ainda conserva no mistério da Eucaristia.
É preciso pedir-lhe para dele participarmos, sobretudo durante o augusto sacrifício da missa e da santa Comunhão, onde Jesus Cristo ainda se oferece a seu Pai, com as mesmas disposições, e onde se entrega a nós para no-las comunicar. Quanto mais participarmos destas santas disposições, menos temeremos uma morte, que deve ser tão preciosa e meritória perante Deus, e que o sera tanto mais quanto mais entrarmos nos desígnios de Jesus Cristo, que, tendo morrido realmente uma só vez para render a seu Pai a honra soberana que lhe é devida, deseja oferecer-lhe até o fim dos séculos a morte de cada um dos seus membros, como continuação deste sacrifício.
Um dos grandes efeitos da encarnação e da paixão de Jesus Cristo foi o livrar-nos do temor da morte; fez-se homem e homem mortal, para destruir por sua morte aquele que era o príncipe da morte, isto é, o demônio, e libertar aqueles a quem o temor da morte mantinha em uma escravidão contínua durante a vida. Não é, por assim dizer, desonrar a vitória de Jesus Cristo sobre a morte, tremer diante do inimigo, que Ele venceu, e ficar nesta escravidão só pelo temor de morrer.
Jesus Cristo desejou com ardor a hora em que devia consumar o sacrifício pela efusão do seu sangue: "Desejei ser batizado com um batismo, (é assim que Ele denomina a sua paixão), e como estou aflito até que isto se cumpra!" Um cristão que se honra em ser um de seus membros, não deveria entrar no seu espírito, e desejar efetuar o batismo com que Ele foi batizado? Porque a morte deve ser para um cristão verdadeiro um batismo onde se purifique dos seus pecados e se regenere por uma vida imortal e perfeitamente isenta de toda a corrupção do pecado.
Não deveríamos nós, como Jesus, desejar com ardor sacrificar o mais cedo possível a vida:
1º  Para dar a soberana Majestade de Deus e a todas as suas divinas perfeições, a maior glória, que lhe pode dar uma  criatura e para prestar a mais perfeita homenagem à morte de Jesus Cristo, nosso Deus e salvador;
2º  Para oferecer a Deus a mais digna ação de graças em reconhecimento por ter sacrificado por nós na cruz a vida de seu Filho e por continuar há tantos séculos a imolar seu corpo e sangue em nossos altares, e em reconhecimento por nos ter dado o seu Santo Espírito e a vida da graça, que vale mais do que todas as vidas do mundo;
3º  Para oferecer a Deus a satisfação mais plena que lhe possamos oferecer pelos nossos pecados, oferecendo-lhe a nossa morte unida à de Jesus Cristo;
4º  Para atrair sobre nós as maiores misericórdias de Deus pela submissão plena à morte e pelo contínuo sacrifício que lhe fizermos da nossa vida. (Salmo LXII, 4).
Porque embora a nossa vida valha pouco e seja pouco digna de ser oferecida a Deus em sacrifício, manchada como esta por tantos pecados, no entanto é a coisa mais importante que temos para oferecer a Deus; e Deus é muito bom para receber este resto de pecado como um sacrifício de agradável odor. Um número infinito de mártires de todas as idades, sexo, e países, tem corrido para a morte com alegria, considerando com a maior honra poderem sacrificar-se a Deus entre os mais horríveis tormentos.
A vida pagã e desregrada que até então alguns tinham tido não resfriava o seu ardor, porque esperavam, pela morte reparar o passado. "Porque, diz São Jerônimo os não imitaremos nós em alguma coisa? Não somos, como eles, discípulos e membros dum Deus morto para a nossa salvação e destinados ao mesmo reino dos céus? É verdade que não teremos com eles a felicidade de oferecer a Deus uma morte sangrenta; mas porque não supriremos a isso pela oblação contínua que lhe fizermos do gênero de morte que nos destinava? Porque me atrevo a dizê-lo acrescenta este Padre, que há tanto ou mais mérito em que lhe oferecermos a vida em todos os momentos em que no-la conserva do que em a perder uma só vez pela crueldade dos carrascos. Este sacrifício que fazemos a Deus de nossa vida , se é bem  sincero, é o maior ato de amor que podemos fazer".
"Se os anjos, diz Santo Agostinho, pudessem invejar aos homens algumas vantagens, seria o não poderem morrer por amor para com Deus".
Pedimos todos os dias a Deus que chegue o seu reino. Este reino de Deus não se estabelecerá perfeitamente em nós senão pela morte, que será para um de nós o fim do pecado, da destruição da concupiscência e o princípio do reinado perfeito da justiça e da caridade. Pedir todos os dias a Deus que chegue o seu reino e temer a morte são coisas que se podem aliar? O desejo do reino de Deus e da vida eterna é essencial à salvação.
"Não basta, diz Santo Agostinho, crer pela fé nesta vida bem aventurada, amá-la pela caridade e desejar estar já nesta morada celeste; é impossível ter esta disposição no coração sem se alegrar por sair desta vida".
A frente desta divina oração, onde pedimos a Deus a vinda do seu reino, ordena-nos que digamos: "Padre nosso, que estais no céu". Se cremos sinceramente que Deus é nosso Pai e que nós somos seus filhos, como poderemos temer juntarmo-nos com o nosso Pai celeste; para reinar com Ele, para gozar de todos os seus bens e repousarmos para sempre no seu seio?
Perguntavam a Santo Ambrósio ao morrer se o não tinha aterrado o temor dos juízos de Deus. Ele respondeu: "Nós temos um bom senhor". É o que convém que nós respondamos. Temos necessidades de morrer com uma certeza impenetrável, não só dos juízos de Deus a nosso respeito, mas ainda das nossas disposições. "É preciso, diz Santo Agostinho, que nos reduzamos a não poder apresentar a Deus senão a nossa miséria e a sua misericórdia". A nossa miséria é objeto próprio da misericórdia e esta misericórdia é o nosso único título.
A escritura representa a todos os fiéis como pessoas que esperam a última vinda de Jesus Cristo, que amam esta vinda e que a apressam tanto quanto, podem, pelos seus desejos e gemidos. Para que somos nós cristãos? Para que nos convertemos a Deus? "É diz São Paulo, para servir a Deus vivo e verdadeiro e para esperar do céu a seu Filho Jesus, que ressuscitou e nos livrou da cólera futura". A quem dará o Senhor, como justo juiz, a coroa da justiça no grande dia? O mesmo Apóstolo responde que será aos que amam a sua vinda.
Já que a terra e tudo o que ela contém deve ser consumido pelo fogo que precederá a vinda do grande juiz, que deveis vós ser diz São Pedro a todos os fiéis, e qual deve ser a santidade da vossa vida, a piedade das vossas orações, esperando e como apressando por vossos desejos a vinda do dia do Senhor? Jesus Cristo depois de ter feito uma descrição dos sinais espantosos que precederão a sua vinda, depois de dizer que os homens secarão de temor à espera dos males com que estiver ameaçado o mundo dos ímpios, dirige em seguida a todos os discípulos presentes e a todos os que os deviam seguir no decurso dos séculos estas palavras de consolação e alegria: "Quanto a vós, disse Ele, quando começar a acontecer isto olhai para o céu e levantai a cabeça, porque a vossa redenção perfeita está próxima... Quando virdes acontecer isto, sabei que o reino e o reinado de Deus estão próximos".
Estas grandes máximas, que os Apóstolos de Jesus Cristo nos ensinam, concordam perfeitamente com o desejo ardente da morte; mas concordam com o temor excessivo da morte? Não tememos desonrar estas grandes verdades pela oposição que surge entre as disposições que exigem e as que nós temos? "Jesus Cristo, diz Santo Agostinho, dividirá o seu reino entre todos os que tiverem desejado sinceramente que chegue o seu reinado". Ele dará diz o Apóstolo, a coroa da justiça aos que amam a sua vinda. Porque não desejaremos nós que Ele venha, pois que é o meio seguro de reinar com Ele?
Há muitas pessoas que se afligem com a morte, pela lembrança dos seus crimes, e vendo que não tem feito penitência, são tentadas pelo desespero. Oh! se eu tivesse jejuado! oh! se eu tivesse dado grandes esmolas aos pobres! Ah! já não estou em estado de o fazer. Que me sucederá? Para onde irei? Podeis fazer coisa muito melhor do que isto; é aceitar a morte e uni-lá a de Jesus Cristo. Não há mortificação semelhante a esta; é a maior de todas as pobrezas; é a mais terrível de todas as penitências; e não duvido que o que esta pesaroso por ter ofendido a Deus e aceite voluntariamente a morte em satisfação dos seus pecados, obtenha logo o perdão.
Que consolação poder fazer a hora da morte uma penitência maior de que todos os anacoretas no deserto e isto em um tempo em que já não estamos em estado de não fazer nada? Que dor é ver uma infinidade de pessoas privarem-se do fruto da morte, que é de todas as penas do que tem maior mérito. Ut quid perditio hoec? Porque se há de perder uma ocasião tão propícia para honrar a Deus, satisfazer a justiça, pagar as suas dívidas e merecer o céu.
Confesso que a nossa vida nada vale comparando a de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas quando ela é oferecida com amor, é de um preço inestimável. Que é para Deus uma esmola de um real? No entanto aquela pobre mulher que a deu, diz o Evangelho, mereceu ser louvada pelo filho de Deus e ser preferida aos escribas e fariseus que tinham dado esmolas muito mais avultadas; tanto, diz Jesus, que ela dava tudo o que tinha, e dava com o maior gosto, na sua indigência. Haec de pecunia sua omnia quae habuit, misit totum victum suum. Pode-se dizer o mesmo daquele que entregar a sua vida a Deus: dá tudo, sem nada para si reservar, e é isto o que torna a sua morte preciosa. É isto que fazia correr com tanta alegria os cristãos para o martírio; queriam dar a Nosso Senhor a vida que dele tinham recebido e compensar pela sua morte a que Ele tinha sofrido por seu amor.
Não podemos ser mártires: oh! que aflição! mas podemos no entanto morrer por Jesus Cristo. Temos uma vida que podemos sacrificar por seu amor: oh! que consolação!
A diferença que Santo Agostinho faz entre os perfeitos e imperfeitos, é que os perfeitos sofrem a vida com pena e recebem a morte com alegria, e os imperfeitos sofrem, a morte com paciência, combatem contra si próprios para se submeterem à vontade de Deus e estimam mais submeter-se ao que dele ordenou, armando-se com a força de paciência para vencerem o desejo da vida, e receberem a morte com submissão e paz.
A perfeição consiste pois em desejar morrer para não ser mais imperfeito, para cessar inteiramente de pecar, para que Deus reine inteiramente em nós, e que este corpo de pecado que levamos até a morte seja, em castigo de suas contínuas revoltas contra Deus, reduzindo a cinzas para satisfazer plenamente à sua justiça e santidade e reparar todas as injúrias que comete contra sua Majestade, por esta última, mais profunda e mais longa humilhação. Sobe-se a perfeição ao passo que estes desejos da morte se tornam mais sinceros e ardentes, e o meio mais breve para nos tornarmos perfeitos, é desejar a morte de todo coração.
As preparações que devíamos levar para este último sacrifício não devem levar-nos a desejar que na hora do sacrifício seja deferida, quando chega a própria de o consumar. Estas preparações são menos necessárias do que a nossa submissão a vontade de Deus. A nossa submissão pode suprir estas preparações, mas nada pode suprir a nossa submissão; é isto o que as almas ainda mais imperfeitas, não devem esquecer.
É mais útil e seguro para nós comparecermos diante de Jesus, quando Ele anuncia a sua vinda, do que expor-nos a chegar tarde, crendo estarmos mais preparados para o receber. A preparação essencial que nenhuma outra pode suprir, é apresentarmo-nos ante Ele com confiança e amor; basta então só excitá-los e animá-los. É  mesmo um grande assunto de humilhação e confusão para nós não sentirmos um santo ardor e uma santa impaciência em o vermos. Felizes, diz São Crisóstomo, se suspiramos e gememos continuamente, esperando o complemento da nossa divina adoção, que será a redenção e libertação de nossos corpos e almas, o desejo de sair deste mundo com tanto ardor e impaciência como os desterrados e cativos desejam o fim de seu exílio. (Chris. Hom. XVII in Gen. et alib). Estas impaciências, acrescenta o Santo Doutor, que testemunharmos a Deus, contribuíra bastante para nos obter o perdão dos pecados e será a melhor das disposições para comparecermos ante Ele.
"Porque desejamos nós tão ansiosamente a nossa vida, diz São Bernardo, que quanto mais vivemos mais pecamos e só se aumenta o número dos nossos dias para se aumentar as nossas faltas?  Quanto a mim acrescenta o humilde Doutor, tenho vergonha de viver, porque pouco aproveito; temo morrer, porque não estou preparado. Mas apesar de tudo, antes quero morrer e entregar-me à misericórdia de Deus, que é infinitamente bom, do que ser um objeto de escândalo para o meu próximo pelo mau exemplo da minha vida".
Procurai compenetrar-vos bem destes pensamentos tão consoladores, para que vos disponhais melhor a aceitar a morte, sem terdes temores excessivos tão perigosos neste momento decisivo para a salvação.
Já demonstramos que ninguém por mais santa que tenha sido a sua vida, se deve exaltar com a sua virtude, se Deus as examinasse sem misericórdia. É a confiança nesta misericórdia e nos méritos de Jesus Cristo que produz a segurança de todos. Já que é preciso voltar a este ponto, nos entregamos desde já por toda a vida e morte. Tenhamos por verdade certa que quanto mais completamente nos abandonarmos mais justos seremos e o nosso sacrifício será mais agradável a Deus.