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22 de dezembro de 2009

Catecismo Romano – Parte 6


CAPÍTULO QUINTO


Quarto Artigo do Símbolo:


Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado


I. 1. Importância... [1] Pela declaração de "não conhecer outra Coisa senão a Jesus Cristo, e por sinal que Crucificado" (258), o Apóstolo apregoa a grande necessidade de conhecermos este Artigo, e o zelo que deve ter o pároco em exortar os fiéis a meditarem, o mais possível, a Paixão de Nosso Senhor.


O pároco desvelar-se-á em explicar esta verdade com a maior clareza para que a lembrança de tão insigne benefício comova os fiéis, e os induza a estimar (259), devidamente, o amor e a bondade de Deus para conosco.


2. e significação deste Artigo A primeira parte deste Artigo - da segunda se falará mais adiante - nos propõe a crer que Cristo Nosso Senhor foi crucificado, quando Pôncio Pilatos governava, em nome de Tibério César, a província da Judéia. Fora encarcerado, escarnecido, coberto de toda a sorte de opróbrios e tormentos, e finalmente arvorado no madeiro da Cruz.


II. Realidade de sofrimento [2] Ninguém deve supor que a parte inferior de Sua Alma ficasse talvez isenta das torturas. Uma vez que Cristo assumiu, realmente, a natureza humana, força é reconhecer que também na alma sentiu dores fortíssimas. Esta é a razão de ter dito: "Minha alma está triste, a ponto de morrer". (260)


É certo que a natureza humana estava unida à Pessoa Divina, mas nem por isso deixou de sentir menos a amargura da Paixão. Era como se tal união não existisse; na Pessoa única de Cristo se conservavam as propriedades de ambas as naturezas. Por conseguinte, o que era passível e mortal, permaneceu passível e mortal; por sua vez, o que era impassível e imortal - como cremos ser a natureza divina - conservou esta sua propriedade.


Por que indicada à Época da Paixão? [3] Neste Artigo, notamos uma certa insistência em indicar-se que Jesus Cristo sofreu durante o tempo que Pôncio Pilatos governava a Judéia. O pároco ensinará que assim se fez, porque a notícia de um fato tão importante e tão necessário seria mais acessível para todos, desde que se notificasse a época certa de sua ocorrência Conforme se lê na Escritura, O Apóstolo São Paulo também a indicou. (261)


Outra razão era para que víssemos, por tais indicações, como realmente se cumpriu a predição de Nosso Salvador: "Entregá-l'O-ão aos gentios, para ser escarnecido, flagelado e crucificado". (262)


IV. - 1. Escolha do suplício: a) desígnio de Deus [4] Devemos também atribuir a um desígnio de Deus que Cristo, para morrer, escolhesse o madeiro da Cruz. Foi "para que dali mesmo [nos] renascesse a vida, por onde [nos] tinha vindo a morte". (263) Com efeito, a serpente que por uma árvore (264) vencera nossos primeiros pais, foi vencida por Cristo na árvore da Cruz.


Poderíamos, ainda, alegar muitas outras razões, que os Santos Padres desenvolveram mais largamente, e por elas demonstrar, quanto convinha que Nosso Redentor sofresse, de preferência, a morte na Cruz.


b) o meio mais adequado O pároco, porém, advertirá os fiéis que lhes basta crer a seguinte razão: Nosso Salvador escolheu tal gênero de morte, porque [Lhe] parecia o mais próprio e conveniente para a redenção do gênero humano. Certamente, não havia outro que fosse mais vergonhoso e humilhante. Não eram os pagãos os únicos a verem no suplício da cruz a maior repulsão, infâmia e vergonha; também a Lei de Moisés chama de "maldito o homem que pende do madeiro". (265)


2. O mistério da Cruz: a) o fato histórico [5] Não deixe o pároco de narrar o fundo histórico deste Artigo, tão exatamente consignado pelos santos Evangelistas. (266) Fará que os fiéis conheçam, pelo menos, os pontos principais deste Mistério, os que parecem mais necessários para confirmar a verdade de nossa fé. Neste Artigo assentam, como que em sua base, a religião e a fé cristã. Estando bem lançado este fundamento, todas as outras verdades se mantêm firmes e inabaláveis.


b) sinal de salvação Se há o que ofereça dificuldades, ao espírito e ao coração humano, será sem dúvida o mistério da Cruz, que de todos é considerado o mais difícil e impenetrável. Todo esforço é pouco, para chegarmos a compreender que nossa salvação depende da própria Cruz, e d'Aquele que nela foi pregado por nossa causa.


c) objeto da Providência No entanto, o Apóstolo ensina que neste mistério devemos [justamente] admirar a soberana Providência de Deus. Uma vez que "o mundo, com sua sabedoria, não reconheceu a Deus em Sua divina sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação". (267) Não admira, pois, que os Profetas antes da vinda de Cristo, e os Apóstolos depois de Sua Morte e Ressurreição, tanto fizessem por convencer os homens de que era Ele o Redentor do mundo, e submetê-los ao poder e obediência do Crucificado.


d) meios de compreendê-lo: Por não haver nada que tanto se afaste da compreensão humana, como o mistério da Cruz, Deus não cessou, logo depois do pecado, de anunciar a morte de Seu Filho, já por figuras, já pelas predições dos Profetas.


... figuras Vamos falar de algumas figuras. Representavam, antecipadamente, a Paixão e Morte de Cristo Nosso Senhor. Em primeiro lugar, Abel morto pela inveja do irmão (268); depois a imolação de Isaac (269); o cordeiro sacrificado pelos judeus, ao saírem do Egito (270); afinal, a serpente que Moisés alçou no deserto. (271)


... profecias Quanto aos Profetas, é por demais conhecido o número dos que vaticinaram sobre o mesmo assunto. Não se faz mister entrar aqui em pormenores. Sem falar de Davi que, nos Salmos, abrangeu todos os principais mistérios de nossa Redenção (272), distinguem-se, entre as mais, as predições de Isaías. São tão claras e evidentes que, com razão, se nos afiguram ser antes a narração de fatos consumados, do que uma previsão de coisas futuras. (273)


Morto e sepultado


V. Morte de Jesus: 1. Realidade [6] O pároco terá de ensinar que estas palavras nos obrigam a crer que Jesus Cristo, depois de crucificado, morreu realmente, e foi sepultado. Não é sem motivo que aos fiéis se propõe esta verdade, como objeto de fé explícita; pois não faltaram homens que negassem a morte de Cristo no lenho da Cruz.


A este erro julgaram os Apóstolos, com toda a razão, que se devia opor aquela doutrina de fé. E não nos é possível duvidar de sua veracidade, por quanto todos os Evangelistas concordam em afirmar que "Jesus entregou o Seu espírito". (274)


a) Cristo podia morrer... Ademais, homem que era perfeito e verdadeira Cristo podia também morrer, no sentido próprio da palavra. Ora, o homem morre, quando a alma se aparta do corpo. Portanto, com o dizermos que Jesus morreu, queremos simplesmente declarei que Sua Alma foi separada do Corpo.


b) como de fato morreu... Mas, por tal afirmação, não admitimos que do Corpo se tenha separado [também] a Divindade. Muito pelo contrário. Com fé inabalável confessamos que, depois de separada a Alma do Corpo, a Divindade permaneceu sempre unida, não só ao Corpo no sepulcro, como também à Alma nos infernos.


c) por que morreu? Convinha que o Filho de Deus morresse, "a fim de aniquilar aquele que tinha o poder da morte, isto é, o demônio; e libertar aqueles que, pelo temor da morte, passavam toda a vida em escravidão". (275)


2.Caráter voluntário: a) ... morreu porque quis [7] O que houve de extraordinário em Cristo Nosso Senhor é ter morrido, quando Ele mesmo decretou morrer; é ter sofrido a morte por um ato de Sua vontade, e não por violência estranha. Foi Ele mesmo que determinou não só a Sua própria morte, mas até o lugar e o tempo em que havia de morrer.


segundo Isaías e suas próprias previsões... Assim, pois, profetizara Isaías: "Foi imolado, por que Ele próprio O quis". (276) E antes da Paixão, o Senhor mesmo disse de Si próprio: "Eu dou a Minha vida, para que a tome de novo. Ninguém a tira de Mim, mas sou Eu que a dou de Mim mesmo. Tenho o poder de dá-la, e tenho o poder de tomá-la de novo". (277)


... quanto ao tempo e lugar Quando Herodes espreitava a ocasião de Lhe dar a morte, Cristo mesmo Se declarou a respeito do tempo e lugar: "Ide dizer a essa raposa: Eis que lanço fora os demônios, e faço curas hoje e amanhã, e no terceiro dia morrerei. Mas, hoje e amanhã, e no dia seguinte, devo ainda caminhar, porque não convém que um profeta pereça fora de Jerusalém". (278)


b) Não sucumbiu por violência alheia, mas pela força de seu próprio amor Cristo nada fez portanto, contra a Sua vontade, ou por imposição alheia. Pelo contrário, foi voluntariamente que Se entregou a Si mesmo. Indo ao encontro de Seus inimigos, disse-lhes: "Sou Eu". (279) E de livre vontade aturou todos os iníquos e cruéis tormentos, que Lhe foram infligidos.


3. Fruto desta consideração Quando nos pomos a meditar todas as Suas dores e padecimentos, esta é a circunstância que mais nos deve empolgar o coração. Se alguém tivera sofrido por nós todas as dores, não espontaneamente, mas só por não poder evitá-las, é certo que nessa atitude não veríamos uma mercê de grande valor. Mas, quando alguém sofre a morte só por nossa causa; quando o faz de livre vontade, ainda que lhe seja possível esquivar-se, - então é que nos dá realmente uma prova de extrema bondade. Por mais que desejasse, ninguém teria meios de lho agradecer, e muito menos de lho retribuir condignamente. Por tal critério podemos avaliar o soberano e extremado amor de Jesus Cristo, os direitos divinos e infinitos que adquiriu sobre o nosso coração.


Sepultura de Jesus: 1. Motivos: [8] Em seguida, confessamos que Cristo foi sepultado. Propõe-se esta parte do Artigo, não porque contenha nova dificuldade, além das que já foram resolvidas acerca de Sua morte. Na verdade, fácil será persuadir-nos de que também foi sepultado.


a) provar a morte real Acrescentou-se esta circunstância, antes de tudo, para que ficasse acima da menor dúvida a realidade de Sua norte. O sinal mais seguro de um trespasse está, pois, em provar-se que o corpo foi sepultado. Este fato devia também dar maior realce ao milagre da Ressurreição.


b) declarar que Deus foi sepultado Conforme o dogma da fé expresso naquelas palavras, não cremos simplesmente que o corpo de Cristo teve sepultura; mas confessamos antes de tudo que [o próprio] Deus foi sepultado. De maneira análoga, dizemos em toda a verdade, e conforme a regra de fé católica, que foi Deus quem morreu e quem nascera de uma virgem. De fato, assim como a Divindade nunca se apartou do corpo, quando encerrado no sepulcro, assim também temos toda razão de confessar que Deus foi sepultado.


2. O fato como tal: a) glória de incorrupção [9] Quanto à maneira e ao lugar da sepultura, basta que o pároco se atenha a exposição dos Santos Evangelhos. Dois fatos há, aos quais deve voltar particular atenção. O primeiro é que o Corpo de Cristo ficou no sepulcro perfeitamente livre de toda decomposição, conforme havia vaticinado o Profeta: "Não permitires que o Vosso Santo sofra corrupção". (280)


b) em que sentido foi Deus sepultado O segundo é que todas as partes deste Artigo, a saber, a Sepultura, a Paixão e a Morte, são atribuídas a Cristo Jesus, enquanto Homem, e não enquanto Deus. O sofrer e o morrer são um quinhão exclusivo da natureza humana. Isto não obstante, enunciamos todas estas coisas também com relação a Deus. Como é evidente, podem ser ditas também daquela Pessoa que, ao mesmo tempo, é Deus perfeito e perfeito Homem.


VII. Meditação da Paixão [10] Após a exposição destas verdades, o pároco procurará desenvolver, a propósito da Paixão e Morte de Cristo, algumas reflexões apropriadas, pelas quais os fiéis consigam, senão compreender, ao menos meditar a profundeza de tão grande Mistério.


1. Quem sofre? Em primeiro lugar, devem considerar quem é Aquele que suporta todos esses sofrimentos. Realmente, não temos palavras para explicar Sua dignidade, nem inteligência capaz de compreendê-la.


a) O Herdeiro do Universo São João diz ser o "Verbo que estava com Deus". (281) O Apóstolo designa-O, em linguagem sublime, como sendo Aquele "a quem Deus constituiu Herdeiro do Universo, e pelo qual criou também os séculos; o qual é o resplendor de Sua Glória e a imagem de Sua essência; o qual sustenta o Universo com o poder de Sua palavra". É Aquele que, "depois de dar resgate pelos pecados, está sentado à direita da Majestade nas alturas". (282)


b) o Criador e Sustentador do mundo Para dizer tudo numa só palavra, quem sofre é Jesus Cristo, Deus e Homem ao mesmo tempo. Sofre o Criador pelas suas criaturas. Sofre o Senhor pelos Seus escravos. Sofre Aquele que criou os Anjos, os homens, os céus e os elementos da natureza. Aquele, afinal, "em quem, por quem, e de quem subsistem todas as coisas". (283)


Aplicação Se Cristo se contorcia, aos golpes de tantos tormentos, que muito se abalasse também toda a máquina do mundo, como diz a Escritura: "A terra tremeu, e partiram-se os rochedos" (284); "toda a terra se cobriu de escuridão, e o sol perdeu sua claridade?" (285) Ora, se até as criaturas mudas e insensíveis prantearam o sofrimento de Seu Criador, reconheçam os fiéis com que lágrimas devem exprimir a sua própria dor, eles que são "pedras vivas deste edifício". (286)


2. Por que sofre? a) pelo pecado original [11] Em seguida, é preciso também explicar os motivos da Paixão, para que melhor apareça a grandeza e intensidade do amor de Deus para conosco.


Quem quiser saber por que razão o Filho de Deus Se sujeitou ao mais cruel dos sofrimentos, verá que, além da culpa hereditária de nossos primeiros Pais, a causa principal são os vícios e pecados que os homens cometeram, desde a origem do mundo até a presente data, e os que hão de cometer futuramente, até a consumação dos séculos.


b) pelos crimes de todas as gerações Pela Sua Paixão e Morte, o Filho de Deus e Salvador nosso tinha em mira resgatar e destruir os pecados de todas as gerações, e por eles oferecer ao Eterno Pai uma satisfação completa e exuberante.


3. Quem faz sofrer? a) os pecadores comuns Sobe de ponto a sublimidade de Sua Paixão, não só porque Cristo sofreu pelos pecadores, mas porque os próprios pecadores foram também autores e instrumentos de todas as penas, pelas quais teve de passar.


Lembra-nos o Apóstolo esta circunstância, quando escreve aos Hebreus: "Considerei Àquele que dos pecadores sofreu tanta contradição contra Si mesmo. Assim não desanimareis em vossas fadigas". (287)


b) os consuetudinários Devem julgar-se responsáveis de tal culpa todos aqueles que continuam a reincidir muitas vezes em pecados. Já que nossos pecados arrastaram Cristo Nosso Senhor ao suplício da Cruz, todos os que chafurdam em vícios e pecados, fazem de sua parte quanto podem, para de novo crucificar "em si mesmos o Filho de Deus, e cobri-l'O de escárnios". (288)


c) os cristãos pecadores Tal crime assume em nós um caráter mais grave, do que no caso dos judeus; porquanto estes, no sentir do Apóstolo, "nunca teriam crucificado O Senhor da glória, se [como tal] O tivessem conhecido". (289) Nós, porém, que [de boca] afirmamos conhecê-l'O, nem por isso deixamos, por assim dizer, de levantar as mãos contra Ele, todas as vezes que o negamos em nossas obras.


4. Por quem foi entregue? Pelo Pai, e por si mesmo [12] Pela doutrina da Sagrada Escritura, Cristo foi entregue não só pelo Pai, mas também por Si mesmo.


Deus Pai diz pela boca do profeta Isaías: "Eu O feri, por causa da maldade do Meu povo". (290) E pouco antes, ao contemplar, por inspiração do Espírito Santo, o Senhor coberto de chagas e feridas, o mesmo Profeta havia declarado: "Todos nós nos desgarramos à maneira de ovelhas. Cada qual se extraviou para seu caminho [errado]. E o Senhor descarregou, sobre Ele, a iniqüidade de todos nós". (291)


Do Filho, porém, está escrito: "Quando tiver sacrificado Sua vida pelo pecado, verá uma longa posteridade". (292)


O Apóstolo confirma esta verdade em termos mais incisivos, ao mesmo tempo em que nos queria mostrar quanto podíamos esperar da imensa misericórdia e bondade de Deus. Diz ele: "Não poupou nem ao Seu próprio Filho, mas entregou-O por todos nós. Como não nos teria dado todas as coisas juntamente com Ele?" (293)


5. O que sofre? (O prelúdio no Horto) [13] A seguir, o pároco deve explicar como foram cruéis as dores da Paixão. De per si, bastaria levar em conta o suor que, do Corpo do Senhor, "corria até a terra em gotas de sangue" (294), quando Ele se pôs a considerar os horrorosos tormentos que pouco depois haveria de sofrer.


Desse fato, cada um de nós já pode compreender como aquela dor atingia o máximo grau de intensidade. Ora, se refletindo apenas nos males que O ameaçavam, Jesus Se tomou de tanta angústia, como se vê pelo suor de sangue, que não terá sido [para Ele] a Paixão propriamente dita? Não resta a menor dúvida de que Cristo Nosso Senhor realmente curtiu as maiores dores tanto no corpo, como na alma.


Dores máximas: a) no corpo... Em primeiro lugar, não houve parte do corpo que não sentisse dores extremas. As mãos e os pés, ei-los fixados com pregos no lenho da Cruz; a cabeça, ei-la ponteada de espinhos e ferida com uma cana; o rosto, ei-lo desfeito de escarros e moído de pancadas; o corpo todo, ei-lo enfim derreado de açoites.


quanto aos algozes... De mais a mais, homens de todas as raças e condições "conspiraram contra o Senhor e contra o Seu Ungido". (295) Eram gentios e judeus os que instigaram, promoveram, e executaram a Paixão de Cristo. Judas traiu-O, Pedro renegou-O, todos os outros Discípulos O abandonaram.


quanto à cruz... Na própria Cruz, que havemos de lamentar mais ao vivo? A crueza das dores, a afronta do pelourinho, ou ambas as coisas ao mesmo tempo?


Não se podia realmente inventar outro gênero de morte que superasse a crucificação, quer em ignomínia, quer em crueldade. Era costume infligi-lo aos maiores perversos e criminosos. A lentidão da agonia [na Cruz] tornava mais aguda a sensação das dores e torturas que, de per si, já eram sobremaneira violentas.


quanto à compleição de Seu corpo... O que fazia acrescer ainda o ardor das penas, era a própria compleição do corpo de Jesus Cristo. Formado pela virtude do Espírito Santo, era muito mais perfeito e delicado do que o pode ser jamais o organismo dos outros homens. Tinha, portanto, maior sensibilidade; sofria mais vivamente todas as grandes torturas.


b) na alma:
O maior martírio Quanto à dor íntima da alma, ninguém pode contestar que Cristo a sentiu em sumo grau de intensidade. Aos Santos, que padeciam dores e tormentos, Deus nunca lhes recusou consolações espirituais, para que pudessem arrostar inabaláveis a violência do martírio.


Muitos houveram, entre eles, que até exultavam de íntima satisfação. De si mesmo dizia o Apóstolo: "Regozijo-me em tudo quanto devo sofrer por vós; e na minha carne completo o que falta aos sofrimentos de Cristo, a bem de Seu corpo que é a Igreja". (296) E noutro lugar: "Estou cheio de consolação, e transbordo de alegria no meio de todas as nossas tribulações". (297)


... sem a menor consolação Cristo Nosso Senhor não quis, todavia, temperar com nenhum alívio O cálice que bebeu, no amargo transe da Paixão. (298) Tendo assumido a natureza humana, fê-la sentir todos os tormentos, como se Ele fora puro homem, que não Deus ao mesmo tempo.


VIII. Frutos da Paixão: 1. Livra-nos do pecado [14] Agora, resta apenas que o pároco exponha cuidadosamente as graças e frutos, que recebemos da Paixão de Nosso Senhor.


Em primeiro lugar, a Paixão do Senhor livrou-nos do pecado, conforme o declara São João: "Amou-nos, e no Seu Sangue nos lavou de nossos pecados". (299) E o Apóstolo diz também: "[Deus] vos fez reviver com Ele, perdoou-vos todos os pecados, cancelando e pregando na cruz o título de condenação, que contra nós fora lavrado". (300)


2. Livra-nos do demônio Em segundo lugar, livrou-nos da tirania do demônio. O Senhor mesmo disse: "Eis chegado o julgamento do mundo. O príncipe deste mundo será expulso agora. E Eu atrairei tudo a mim, quando for elevado da terra". (301)


3. Satisfaz pelas penas do pecado Em terceiro lugar, satisfez a pena devida pelos nossos pecados. (302)


4. reconcilia nos com Deus Em quarto lugar, como não se podia oferecer outro sacrifício mais agradável e mais bem aceito aos olhos de Deus, reconciliou-nos com o Pai, a quem aplacou e tornou propício para conosco.


5. abre-nos o céu Finalmente, destruindo o pecado, franqueou-nos a entrada para o céu, à qual punha embargo a culpa comum do gênero humano. É o que o Apóstolo nos dá a entender com as palavras: "Em virtude do Sangue de Cristo, temos a confiança de entrar no Santo dos Santos". (303)


Na Antiga Aliança, não faltava uma figura deste mistério. Assim, por exemplo, aqueles proscritos, aos quais era defeso repatriar-se antes da morte do sumo-sacerdote (304), eram uma figura dos justos que, apesar de sua justiça e santidade, não podiam transpor o limiar da Pátria Celestial, antes da Morte de Jesus Cristo, o Sumo e Eterno Sacerdote. (305) Logo que Cristo a sofreu, as portas do céu de pronto se abriram a todos os que, purificados pelos Sacramentos, possuídos de fé, esperança e caridade, se tornaram participantes de Sua Paixão.


IX. Valor da Paixão: 1. Satisfação cabal [15] O pároco demonstrará que todos estes dons divinos nos advêm da Paixão de Nosso Senhor. Em primeiro lugar, porque Sua Morte é uma satisfação cabal, e em todos os sentidos perfeita, que Jesus Cristo rendeu a Deus Pai pelos nossos pecados, de uma maneira toda particular. O resgate que pagou em nosso lugar, não só igualava com a nossa dívida, mas era-lhe até muito superior. (306)


2. Sacrifício agradável a Deus Em segundo lugar, por ter sido infinitamente agradável a Deus o sacrifício que o Filho Lhe ofereceu no altar da Cruz, e pelo qual abrandou inteiramente a cólera e indignação do Pai. Esta é a convicção do Apóstolo, quando nos afirma: "Cristo amou-nos, e por nosso amor Se entregou a Si mesmo, como Vítima de suave odor para Deus". (307)


3. Resgate inigualável Em terceiro lugar, por ter sido o preço de nossa Redenção, conforme as palavras do Príncipe dos Apóstolos: "Fostes resgatados de vossa vida frívola, que herdastes de vossos pais, não a preço de coisas perecíveis, como o são ouro e prata; mas, pelo precioso Sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito". (308) E o Apóstolo ensina [por sua vez]: "Cristo nos livrou da maldição da Lei, tornando-Se Ele mesmo maldição por nossa causa". (309)


4. Exemplo de virtudes A par destes imensos benefícios, recebemos ainda outro que de todos é talvez o maior. Naquele padecimento se descobrem os mais brilhantes exemplos de todas as virtudes: paciência, humildade, exímia caridade, mansidão, obediência; máxima constância, não só para sofrer dores, mas até para arrostar a própria morte, por amor da justiça. Disso nos faz [Cristo] tal demonstração, que na verdade podemos dizer: Num só dia de sofrimento, Nosso Salvador encarnou em Si mesmo todas as normas de virtude, que de boca nos havia ensinado, durante todo o tempo de Sua pregação.


X. Ultima aplicação Eis, em poucas palavras, o que importa saber da salutar Paixão e Morte de Cristo Nosso Senhor. Oxalá possamos sempre meditar estes mistérios no fundo do coração, para aprendermos a sofrer, morrer e sepultar-nos com Nosso Senhor. Se nos purificarmos então de toda mancha de pecado, e ressurgirmos com Ele para uma vida nova, seremos um dia, por Sua graça e misericórdia, dignos de ter parte na glória do Reino celestial. (310)


258) 1Cor 2, 2. - 259) Uma variante diz "suscipiendam" em vez de "suspiciendam". - 260) Mt 26, 38; DU 1339. - 261) 1Tm 6, 13. - 262) Mt 20, 19. - 263) Prefácio da Santa Cruz, ou da Paixão. - 264) Gn 3, 4. - 265) Dt 21, 23; Gl 3, 13. - 266) Mt 26, 1-75; 27, 1-66; Mc 14, 1-72; 15, 1-46; Lc 22, 1-71; 23, 1-53; Jo 18, 1-40; 19, 1-42. DU 344. - 267) 1Cor 1, 21. - Do contexto se deduz que São Paulo fala da pregação da Cruz. - 268) Gn 4, 3-8. - 269) Gn 22, 1-14.- 270) Ex 12, 1-14; 21 ss. - 271) Nm 21, 4-9. - 272) Com menção especial dos Salmos Messiânicos que são: 2 15 21 44 71 109 (8 68 108) etc. Os exegetas oscilam na classificação - 273) * Hieron. epist. ad Paulinum ante finem. - 274) Mt 25, 70; Mc 15, 37; Lc 23, 46; Jo 19, 30; 1Pd 3, 18. DU 143 344 422. - 275) Hb 2, 14; DU 938 2038. - 276) Is 53, 7; DU 255 717d. - 277) Jo 10, 17-18. - 278) Lc 13, 32-33. Existe a variante consumor" em vez de "consummor". - 279) Jo 18, 5; DU 215 255 717d. - 280) Sl 15, 10; At 2, 27-31; DU 255 344 462. - 281) Jo 1, 1. - 282) Hb 1, 2-3. - 283) Rm 11, 36. - 284) Mt 27, 51. - 285) Lã 23, 4445. - 286) 1 Pd 2, 5. - 287) Hb 12, 3. - 288) Hb 6, 6. - 289) 1Cor 2, 8. - 290) Is 53, 8. - 291) Is 53, 6. - 292) Is 53, 10. - 293) Rm 8, 32. - 294) Lc 22, 44. - 295) Sl 2, 2. - 296) Cl 1, 24. - 297) 2Cor 7, 4. - 298) Mt 26, 39; Sl 68, 21; 141, 5; Lc 22, 42. - 299) Ap 1, 5. - 300) Cl 2, 13-14; DU 286 319 323 993. - 301) Jo 12, 31-32; DU 371. - 302) Rm 5, 10; 2Cor 5, 19; DU 122 550 790 794 ss. 938. - 303) Hb 10, 19; DU 711. - 304) Nm 30, 25; Js 20, 6. - 305) Hb 9, 11 ss. - 306) Rm 5,19-21.- "Ó feliz culpa que [nos] mereceu tal e tão grande Redentor! (Precônio Pascal no Sábado Santo). DU 319 532 552. - 307) Ef 5, 2. - 308) 1Pd 1, 18. - 309) Gl 3, 13; DU 286. - Tauchnitz reúne o presente parágrafo com o seguinte; nós, porém, preferimos separá-los como nas edições romanas de 1845 e 1855. - 310) Cl 3, 1-4.

5 de dezembro de 2009

Catecismo Romano – Parte 5

CAPÍTULO QUARTO

Terceiro Artigo do Símbolo:

O qual foi concebido do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem

I. - 1. Importância, e... [1] Das explicações dadas no Artigo anterior, podem os fiéis deduzir como é grande e singular o benefício que Deus fez ao gênero humano, por nos livrar da escravidão do mais cruel dos tiranos, por nos restituir [assim] a liberdade. Mas, atentando no plano e nos meios que Deus quis empregar para a nossa libertação, nada podemos conceber de mais grandioso, nem de mais brilhante, do que a bondade e munificência de Deus para conosco.

2. ... sentido do Artigo. É, pois, na explanação do terceiro Artigo que o pároco irá mostrando a grandeza deste mistério. A Sagrada Escritura no-lo propõe, freqüentes vezes, como fator fundamental de nossa salvação.

Ensinara como seu sentido se resume em crermos e confessarmos que o mesmo Jesus Cristo, nosso único Senhor e Filho de Deus, assumindo carne humana no seio da Virgem pela nossa salvação, não foi concebido de germe masculino (210), como os outros homens, mas por obra do Espírito Santo (211), acima de todas as leis da natureza, de sorte que a mesma Pessoa permaneceu Deus, qual era desde toda a eternidade, e tornou-Se então Homem, o que antes nunca tinha sido. (212)

3. Confirmação deste sentido O que prova, claramente, ser este o sentido destas palavras, é a profissão de fé do Sagrado Concílio de Constantinopla: "O qual desceu dos céus, por amor de nós homens, e por causa de nossa salvação; e encarnou de Maria Virgem por obra do Espírito Santo, e Se fez Homem".

Assim também o explicou São João Evangelista que, do peito do próprio Senhor e Salvador, havia haurido o conhecimento deste profundo mistério. Depois de ter explicado a natureza do Verbo Divino com as palavras: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (213); - conclui por fim: "E o Verbo Se fez carne, e habitou entre nós". (214)

4. Modo de união entre as duas naturezas [2] O Verbo, que é uma Pessoa (215) da natureza divina, assumiu de tal forma a natureza humana que uma e a mesma Pessoa é o "suporte" (216) das naturezas divina e humana.

Daí resultou que, nessa admirável união, se conservaram as operações e propriedades de uma e outra natureza. E na frase do célebre Pontífice São Leão Magno, "nem a glória da natureza superior destruiu a inferior, nem a elevação da natureza inferior diminuiu a dignidade da superior". (217)

II. 1. A conceição de Cristo é... [3] Sendo essencial explicar bem as noções, o pároco ensinará as seguintes particularidades. Quando dizemos que o Filho de Deus foi concebido por obra do Espírito Santo, não afirmamos que esta Pessoa da Santíssima Trindade consumou sozinha o mistério da Encarnação. Ainda que só o Filho assumiu a natureza humana, nem por isso deixaram de ser autoras deste mistério todas as três Pessoas da Santíssima Trindade, o Pai, o Filho, e o Espírito Santo.

a) obra comum das três Pessoas Em geral, devemos ter como norma de fé cristã: Tudo o que Deus opera fora de si nas coisas criadas é obra comum das três Pessoas. Uma não opera mais do que as outras, nem uma sem as outras.

A única coisa que não pode ser comum a todas Pessoas, é o modo de proceder a uma da outra. Com efeito, só o Filho é gerado pelo Pai, o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.

Tudo, porém, o que operam para fora, é obra comum das três Pessoas, sem diferença alguma. A esta espécie de operação pertence a Encarnação do Filho de Deus.

b) ... mas atribuída ao Espírito Santo em particular Apesar disso, a Sagrada Escritura costuma, das coisas que são comuns às três Pessoas, atribuir umas a esta Pessoa, outras àquela, como por exemplo, ao Pai o supremo poder sobre todas as coisas, ao Filho a sabedoria, e o amor ao Espírito Santo.

Como o mistério da Encarnação de Deus nos revela a singular e imensa benignidade de Deus para conosco, é por esse motivo que, de modo particular, atribuímos essa operação ao Espírito Santo.

2. Caráter da conceição de Cristo: a) aspecto natural [4] Verifica-se, neste mistério, que alguns elementos superam a ordem da natureza, e que outros lhe são conformes.

Cremos que o Corpo de Cristo se formou do sangue da Virgem Sua Mãe, e nisso reconhecemos uma operação da natureza humana. É lei natural que todo corpo humano se forme do sangue materno.

b) aspecto sobrenatural... Mas, o que ultrapassa a ordem natural das coisas, e supera a força de nossa inteligência é o fato de que, no instante de consentir a bem-aventurada Virgem às palavras do Anjo, declarando: "Eis aqui a escrava do Senhor, cumpra-se em mim a Vossa palavra", - logo começou a formar-se [nela] o santíssimo Corpo de Cristo, ao qual se uniu uma alma dotada de inteligência, de sorte que, no mesmo instante, o Deus perfeito se tornou perfeito homem. (218)

quanto ao corpo - obra do Espírito Santo; Ninguém pode duvidar que esta foi uma nova e admirável obra do Espírito Santo, pois segundo a ordem da natureza a alma humana não pode informar nenhum corpo, senão em certo lapso de tempo. (219)

quanto à divindade - união hipostática Acresce ainda outro fato, digno de maior admiração. Tanto que a alma se uniu ao corpo, a própria Divindade se uniu também ao corpo e à alma. Por conseguinte, logo que o corpo foi formado, e simultaneamente animado, a Divindade ficou ligada tanto ao corpo como à alma.

Corolário: Maria. Mãe de Deus. Daí se segue que, no mesmo instante, Deus perfeito veio a ser perfeito homem; e que a Santíssima Virgem pode, verdadeira e propriamente, ser chamada Mãe de Deus, porque no mesmo instante concebia a Deus e ao Homem.

É o que também lhe foi significado, quando o Anjo lhe dissera: "Eis que conceberás no teu seio, e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Este será grande, e chamar-Lhe-ão Filho do Altíssimo". (220) E por este fato se realizou a profecia de Isaías: "Eis que uma Virgem conceberá, e dará à luz um Filho". (221)

Assim também reconheceu Isabel a conceição do Filho de Deus, quando toda cheia do Espírito Santo prorrompeu nas palavras: "Donde me vem esta graça de chegar a mim a Mãe do meu Senhor?" (222)

quanto à alma - plenitude de dons e carisma Mas, como acabamos de dizer, o Corpo de Cristo se formou do puríssimo sangue da Virgem toda Imaculada, sem nenhuma interferência de varão, mas unicamente pela virtude do Espírito Santo.

Assim também a Sua Alma recebeu, desde o primeiro instante da conceição, a mais rica abundância do Espírito Santo e toda a plenitude de [Seus] dons e carismas. Segundo o testemunho de São João (223), Deus "não Lhe dá o Espírito por medida", como aos outros homens, aos quais reveste de graça e santidade, mas infundiu-Lhe na alma todas as graças com tanta profusão, que "de Sua plenitude todos nós recebemos". (224)

Corolário: Cristo não é filho adotivo de Deus [5] No entanto, Cristo não pode ser chamado Filho adotivo de Deus, ainda que teve aquele Espírito, pelo qual os homens justificados conseguem a adoção de filhos de Deus. (225) Sendo Ele Filho de Deus por natureza, deve crer-se que de modo algum Lhe cabe a graça de adoção, nem o título de Filho adotivo.

3. Frutos deste mistério: a) meditá-lo com freqüência [6] São estas as explicações que, em nosso sentir, devíamos dar a propósito do admirável mistério da Encarnação.

Para tirar delas frutos salutares, devem os fiéis antes de tudo recordar, e muitas vezes meditar, de coração, os pontos seguintes:

É Deus Aquele que assumiu carne humana. Fez-Se Homem por uma via que nossa razão não alcança, que nossa linguagem não pode muito menos exprimir. Fez-Se Homem, enfim, porque queria que nós homens renascêssemos como filhos de Deus.

b) não querer esquadrinhá-lo Após atenta consideração destas verdades, os fiéis devem crer e adorar, com espírito crente e humilde, todos os mistérios contidos no presente Artigo. Mas não se ponham a inquiri-los e esquadrinhá-los por mera curiosidade. Tal pretensão nunca deixa de ter os seus perigos.

Nasceu de Maria Virgem

III. 1. "Nasceu" [7] Esta é a segunda parte do presente Artigo. O pároco fará todo o empenho de explicá-la apuradamente, porque impõe aos fiéis a obrigação de crerem que Jesus Nosso Senhor não só foi concebido por obra do Espírito Santo, mas também nasceu de Maria Virgem, e por ela foi posto neste mundo.

a) para regozijo nosso... O Anjo foi o primeiro a anunciar ao mundo esta mensagem de felicidade, e suas palavras nos dão a entender, com quanta alegria e elevação de espírito não devemos meditar este mistério da fé: "Eis que venho anunciar-vos uma grande alegria para todo o povo". E também os cantares da milícia celeste: "Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade!" (226)

b) segundo as profecias... Desde aquele instante, começou realmente a cumprir-se a grandiosa promessa de Deus a Abraão, quando lhe dissera que, um dia, "todos os povos seriam abençoados em sua descendência". (227) Maria, a quem proclamamos e veneramos como verdadeira Mãe de Deus, - por ter dado à luz aquela Pessoa que era ao mesmo tempo Deus e Homem, - [Maria] descendia da estirpe real de Davi. (228)

2. "de Maria Virgem"... [8] Se a conceição de Cristo já excede toda a ordem da natureza, em Seu nascimento nada podemos contemplar que não seja de caráter divino.

O que há de mais admirável, o que sobrepuja a tudo quanto o homem possa dizer ou imaginar, é o fato de nascer Ele de Sua Mãe, sem que daí resultasse a menor lesão da virgindade materna.

Assim como mais tarde saiu do sepulcro fechado e selado; assim como "entrou para junto de Seus Discípulos, apesar das portas fechadas" (229); assim como, na observação diária da natureza, vemos os raios solares atravessarem um vidro compacto, sem o quebrar, e sem lhe fazer o menor estrago; - assim também, e de maneira mais sublime, nasceu Jesus Cristo do seio de Sua Mãe, sem nenhum dano para a integridade materna.

É, pois, com os mais justos louvores que, em Maria, enaltecemos uma virgindade perpétua e intemerata. Operado foi este milagre pela virtude do Espírito Santo. De tal modo assistiu a Mãe na conceição e no nascimento do Filho que, dando-lhe fecundidade, lhe conservou, todavia a virgindade. (230)

que é a segunda Eva. [9] De vez em quando, costuma o Apóstolo designar a Cristo como o "segundo Adão" (231), e confrontá-l'O com o primeiro Adão. Realmente, assim como pelo primeiro Adão todos os homens sofrem a morte, assim pelo segundo são todos novamente chamados à vida. Assim como Adão foi pai do gênero humano segundo as leis da natureza, assim também Cristo é [para todos] o autor da graça e bem-aventurança.

Por analogia, podemos igualmente comparar com Eva a Virgem Mãe [de Deus]. A primeira Eva corresponde a segunda, que é Maria; assim como acabamos de mostrar que o segundo Adão - Cristo - corresponde ao primeiro Adão.

Por ter dado crédito à serpente (232), Eva acarretou maldição e morte ao gênero humano. Maria acreditou nas palavras do Anjo (233), e obteve que aos homens viesse [novamente] bênção e vida. (234) Por culpa de Eva, nascemos filhos da ira (235); por Maria recebemos Jesus Cristo, que nos faz renascer como filhos da graça. (236) A Eva foi dito: Em dores darás a luz [teus] filhos". (237) Maria ficou isenta desta lei. Conservando a integridade de sua virginal pureza, como dizíamos há pouco, Maria deu à luz a Jesus, Filho de Deus, sem sofrer dor de espécie alguma.

3. Figuras deste mistério [10] Visto serem tão grandes e tão numerosos os mistérios desta admirável conceição e nascimento, convinha que a Divina Providência os fizesse anunciar, por meio de muitas figuras e profecias.

Esta é a razão por que os Santos Doutores aplicaram a este mistério muitos trechos, que lemos em vários lugares da Sagrada Escritura. Entre os quais se fala principalmente daquela porta do Santuário, que Ezequiel viu fechada (238); daquela pedra que se desprendeu do monte, "sem a intervenção de mãos humanas", como diz Daniel, "a qual se avolumou em grande montanha, e encheu toda a superfície da terra" (239); da "vara de Aarão, a única que deitou rebentos, entre as varas dos príncipes de Israel. (240); da "sarça, que Moisés viu arder sem se consumir". (241)

4 Frutos e aplicações A história do natal de Cristo foi amplamente descrita pelo Santo Evangelista. (242) Não julgamos, pois, necessário entrar aqui em outros pormenores, porque o pároco os encontrará facilmente na leitura do Evangelho.

A pregação deste mistério desperta: a) gratidão [11] Como estes mistérios "foram escritos para nosso ensinamento" (243), faça o pároco por incutí-los, profundamente no espírito e no coração dos fiéis. Antes de tudo, para que a recordação de tão grande benefício os leve a render graças a Deus, que é o Seu autor. Depois, para que tenham diante dos olhos, e tratem de imitar este egrégio e singular exemplo de humildade.

b) humildade Realmente, que pode haver de mais útil e mais próprio, para sofrear nosso orgulho e arrogância espiritual, do que considerar muitas vezes como Deus Se humilha, a ponto de tomar sobre Si a fraqueza e fragilidade humana; como Deus Se fez homem, e põe a serviço do homem Sua soberana e infinita majestade, a cujo aceno - no dizer da Escritura - as colunas do céu vacilam e tremem de pavor (244); como veio afinal nascer na terra Aquele, a quem os Anjos adoram nos céus. (245)

Ora, se Deus faz tanto por nós, que nos incumbe fazer de nossa parte, para realizar a Sua vontade? Com quanta alegria e prontidão de espírito não devemos, pois, amar, abraçar, e cumprir todos os deveres que nos impõe a humildade!

c) imitação de Cristo Devem os fiéis tomar a peito as salutares lições que Cristo nos dá, desde o seu nascimento, antes até de ter proferido a menor palavra. Nasce na indigência. Nasce, como [nasceria] um estrato na estalagem. Nasce em tosca manjedoura. Nasce no rigor do inverno.

Eis o que relata São Lucas: "E quando ali estavam, aconteceu completar-se o tempo em que devia dar à luz. E deu à luz o seu Filho Primogênito, envolveu-O em faixas, e reclinou-O numa manjedoura; pois não havia lugar para eles na estalagem". (246)

Poderia o Evangelista exprimir, em termos mais lhanos, toda a majestade e glória do céu e da terra? Não escreve, apenas, que não havia lugar na estalagem,

mas que o não havia para Aquele, que de Si declarou: "Minha é a redondeza da terra, e Minhas são todas as coisas de que se acha repleta". (247) Outro Evangelista dá o mesmo testemunho: "Veio para o que era Seu, e os seus não O receberam". (248)

d) consciência de nossa dignidade Levando em conta estes fatos, os fiéis devem ainda lembrar-se que, se Deus quis assumir a baixeza e fragilidade de nossa carne, foi para elevar o gênero humano ao mais alto grau de honra e dignidade. Com efeito, como prova da eminente posição e dignidade, a que a bondade divina exaltou o homem, basta existir realmente um Homem que, ao mesmo tempo, é perfeito e verdadeiro Deus.

Por conseguinte, podemos gloriar-nos de que o Filho de Deus é "nossa carne e osso". (249) É uma regalia que não se aplica nem aos próprios espíritos bem-aventurados, porquanto diz o Apóstolo: "Não assumiu a natureza dos Anjos, mas a linhagem de Abraão". (250)

e) obediência à graça Sem embargo, devemos cuidar para que não nos aconteça, para nossa maior desgraça, o que sucedeu na estalagem de Belém, onde faltava lugar para Jesus nascer; que, já não nascendo corporalmente, não possa Ele descobrir em nossos corações um lugar, para nascer espiritualmente. Nascer dentro de nossas almas é o que Jesus quer, com toda a veemência, pois a nossa salvação é o objeto de Sua maior solicitude.

f) desejo de vida nova Assim como Ele Se fez homem por obra do Espírito Santo, e nasceu de uma maneira que supera as leis da natureza; assim como Ele é santo, e representa [em pessoa] a própria santidade; - assim também devemos nós nascer "não do sangue, nem do desejo da carne, mas de Deus" (251); e depois "levar uma vida nova" (252), como "novas criaturas" (253), para conservarmos aquela santidade e pureza de espírito, que é o maior apanágio dos homens regenerados pelo Espírito de Deus.

g) perfeita identificação com Cristo Desta arte, reproduziremos em nós uma certa imagem e semelhança da Santa Conceição e do Santo Nascimento do Filho de Deus. Esta possibilidade constitui para nós o objeto de uma fé inabalável E na posse desta fé (254), contemplamos enlevados (255), e adoramos a "sabedoria de Deus no Mistério (256), a qual se acha encobertas". (257)

210) Traduzimos literalmente, mas no púlpito é preciso parafrasear. DU 256 422 429 993. - 211) 1, 20. - 212) Jo 1, 24. - 213) Jo 1, 1. - 214) Jo 1, 14. - 215) Em latim: Hypostasis. - 216) .... hipóstase - 217) Leo M. sermo 21, 2; DU 288 344. - 218) Lc i, 38; DU 144 422. - 219) O CRO alude à doutrina de S. Tomás (SG 2 89 ad object. secundam) que no embrião admite três almas sucessivas, primeiro a vegetativa, depois a animal, por último a racional. Sustentam-na ainda, como provável, o Cardeal Mercier (Curso de Philos. IV 347 ss. Vizeu 1904) e poucos autores modernos. Na maioria, os filósofos abraçam hoje a outra criada e infundida no próprio instante da conceição. - A igreja deixa livre a discussão científica, mas segue praticamente a opinião mais segura. O CIC manda batizar todos os abortivos, de qualquer idade que seja (can. 747). Os autores do CRO perfilharam uma opinião que lhes parecia comum. Efetivam a questão nunca assumiu as proporções de aberta controvérsia, pelo menos em terreno dogmático. Em vista disso, não há lugar de se volver o assunto na tribuna sagrada. - 220) Lc 1, 31. - 221) Is 7, 14. - 222) Lc 1, 43. - RK antepõe esta passagem ao texto de Isaías, afastando-se de Manucci. - DU 111a 113 201-202 214 218 256 ss. 290 708 993 1462. - 223) Aqui se fala de João Batista. - 224) Jo 1, 16. - 225) Rm 8, 15; DU 229 309 314a 344 462. - 226) Lc 2, 10-14. - 227) Gn 22, 18. - 228) Mt 1, 1-17. - 229) Jo 20, 19. - 230) O vulgo entre nós confunde "intemerato" com "intrépido". DU 113 201 ss. 214 256 282 1314. - 231) 1 Cor 15, 21-32; Rm 5, 14. - 232) Gn 3, 6; Sr 25,33. - 233) Lc 1,38. - 234) Ef 1,3. - 235) Ef 2,3. - 236) Gl 4, 4-7. - 237) Gn 3,16. - Seria oportuno intercalar, na explicação deste capitulo, os outros mistérios da mariologia: Imaculada Conceição (DU 256 734 ss. 792 1073 1100 1641 2147a 1924); a isenção de pecado pessoal (DU 256 833 1978a); a mediação de todas as graças (DU 734 1940a 1978 1978a); a Assunção (DU 1641 nota); o culto mariano (DU 1255 1316 ss.) etc. - 238) Ez 44,2, - 239) Dn 2, 34-35 circa finem. - 240) Nm 17, 8. - 241) Ex 3,2 ss. - 242) S Lucas. - 243) Rm 15, 4 - 244) Jó 26, 11. - 245) 7, 11; Sl 96, 7. 246) Lc 2, 6-7. - 247) Sl 49, 12. - 248) Jó 1, 11. - 249) Gn 29, 14; DU 20 344 710 1463- 250) Hb 2, 16. - 251) Jo 1, 13. - 252) Rm 6, 4. - 253) 2Cor 5, 17. - 254) ... em nosso renascimento. - 255) LCR, Doney e Manz trazem a variante "suscipimus" em vez de "suspicimus". - 256) ... da Encarnação. - 257) 1Cor 2, 7.

23 de novembro de 2009

Catecismo Romano – Parte 4

CAPÍTULO TERCEIRO

Segundo Artigo do Símbolo

E em Jesus Cristo, um só seu filho, Nosso Senhor

I. A importância deste artigo se deduz: [1] Em crer e professar o presente Artigo, encontra o gênero humano imensas e admiráveis vantagens, consoante o testemunho de São João: "Quem confessa que Jesus Cristo é o filho de Deus, Deus permanece nele, e ele permanece em Deus".(167)

Prova-o também a palavra de Cristo Nosso Senhor, quando proclamava a bem-aventurança do Príncipe dos Apóstolos: "Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas (168), pois não foi a carne nem o sangue que te revelou, mas antes meu Pai que está nos céus". (169)

Realmente, esta fé e esta profissão constituem a base mais sólida para nosso resgate e salvação.

1. Da desgraça do homem decaído [2] Os admiráveis frutos deste Artigo aparecem com maior evidência, se considerarmos como se destruiu o venturoso estado em que Deus colocara os primeiros homens. O pároco fará, pois, todo o possível, para que os fiéis reconheçam nisso, causa das misérias e desgraças que todos nós padecemos.

Adão apartou-se da obediência devida a Deus, quando violou a proibição: "De todas as árvores do Paraíso poderás comer, mas não comas da árvore da ciência do bem e do mal. No dia que dela comeres, morrerás de morte". (170)

Ele caiu logo no maior dos infortúnios, perdendo a santidade e justiça em que fora constituído, ficando sujeito a outros males, conforme ensina mais longamente o Santo Concílio de Trento. (171)

De outro lado, o pároco fará ainda ver que o pecado e seu castigo não se detiveram só na pessoa de Adão; mas que de Adão, como sua fonte e origem, passaram merecidamente para toda a sua posteridade. (172)

2. Da única possibilidade de redenção [3] Uma vez decaído de tão alta dignidade, nada podia levantar o gênero humano e reintegrá-lo no estado primitivo, nem as forças humanas, nem as forças angélicas.

Em vista de tal ruína e desgraça, não restava, pois, outro remédio, senão o infinito poder com que o Filho de Deus, assumindo a fraqueza de nossa carne, devia destruir a infinita malícia do pecado, e pelo seu Sangue reconciliar-nos com Deus.

3. Da promessa de redenção a) no Paraíso [4] Ora, o crer na Redenção e o professá-la sempre foram condições necessárias para a salvação dos homens. Assim Deus o ensinou, desde o início da Revelação.

No mesmo instante que condenava o gênero humano, imediatamente após o pecado, Deus fez nascer a esperança de resgate, pelas [próprias] palavras com que anunciou ao demônio a dura derrota que lhe resultaria da libertação dos homens: "Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua raça e a sua descendência. Esmagará ela a tua cabeça, e tu armarás traições ao seu calcanhar". (173)

b) a Abraão Mais tarde, Deus confirmou por muitas vezes a mesma promessa. Fez revelações mais positivas de Seus desígnios, mormente àqueles varões, com os quais queria usar de uma benevolência toda particular. Entre outros, o patriarca Abraão recebeu freqüentes indicações a respeito deste mistério. (174) Na hora, porém, em que ia imolar Isaac, seu filho único por obediência a Deus, Abraão veio a ter revelações mais explícitas.

Deus, com efeito, lhe dissera: "Porque assim procedeste, a ponto de não poupar teu filho único, Eu te abençoarei, e multiplicarei tua descendência como as estrelas do céu, e como a areia que jaz nas praias do mar. Tua geração possuirá as portas (175) de teus inimigos, e em tua raça serão abençoados todos os povos da terra, porque obedeceste à minha voz". (176)

Destas palavras, era fácil reconhecer que, da posteridade de Abraão, nasceria Aquele que havia de livrar todos os homens da horrenda tirania de Satanás, e trazer-lhes a salvação. Ora, [o Libertador prometido] devia ser [também] Filho de Deus, ainda que fosse, como homem, gerado do sangue de Abraão.

c) a Jacó Pouco tempo depois, para que se conservasse a recordação da promessa, o Senhor reafirmou a mesma aliança com Jacó, neto de Abraão.

Na ocasião de ver, durante o sono, uma escada firmada na terra, mas com a ponta a tocar o céu; e [vendo] também os Anjos de Deus que por ela subiam e desciam, como afirma a Escritura, - Jacó ouviu ao mesmo tempo a voz do Senhor que, apoiado na escada, lhe dizia: "Eu sou o Senhor, Deus de teu pai Abraão, e Deus de Isaac. Dar-te-ei, a ti a tua posteridade, a terra em que estás dormindo. E tua geração será como o pó da terra. Hás de estender-te para o Oriente e o Ocidente, para o Setentrião e o Meio-dia. Em ti e na tua geração serão abençoadas todas as tribos da terra". (177)

Posteriormente, Deus nunca deixou de renovar a recordação de Sua promessa, nem de manter a esperança do Salvador, não só entre os filhos de Abraão, mas também entre muitos outros homens.

Desde a consolidação do regime político e da religião judaica, o povo ia ficando cada vez mais ciente dessa expectativa. As coisas mudas (178) tornavam-se sinais [da Redenção]. Homens houve que anunciavam quais e quantos benefícios havia de trazer-nos Jesus Cristo, nosso Salvador e Redentor.

d) aos Profetas em geral
Os Profetas, cujo espírito era aclarado por uma luz celestial, falavam diante do povo, e anunciavam-lhe o nascimento do Filho de Deus, as obras admiráveis que havia de praticar depois da Sua Encarnação, Sua doutrina, Seus costumes, Seu trato, Sua Morte e ressurreição, e os outros mistérios. (179)

Falavam com tanta clareza de todos estes fatos, como se os tivessem presentes à própria vista. Se, pois, abstrairmos da distância que medeia entre o passado e o futuro, já não podemos notar nenhuma diferença entre os oráculos dos Profetas e a pregação dos Apóstolos, entre a fé dos antigos patriarcas e a nossa própria fé atual.

Mas bom será passarmos, agora, a tratar cada um dos termos do presente Artigo.

II. O nome te Jesus: 1. Origem [5] Jesus é o nome próprio d'Aquele que é Deus e homem ao mesmo tempo. Significa "Salvador". Não Lhe foi posto casualmente, por escolha e vontade dos homens, mas por ordem e intenção de Deus.

Assim o declarou o Anjo Gabriel a Maria, Sua Mãe: "Eis que conceberás em teu seio, e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus". (180) E depois ordenou a José, esposo da Virgem, desse tal nome ao menino indicou-lhe ao mesmo tempo as razões por que devia chamar-Se assim: "José, filho de Davi, não tenhas receio de levar para tua casa Maria, tu esposa; pois o que nela foi concebido, obra é do Espírito Santo. Portanto, ela há de dar à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque Ele há de remir Seu povo de seus pecados". (181)

Corolário: Os homônimos no Antigo Testamento [6] Verdade é que, nas Escrituras, se nos deparam muitas pessoas com esse mesmo nome. Assim se chamava o filho de Navé (182) que sucedeu a Moisés; teve o privilégio, negado a seu antecessor, de levar à Terra de Promissão o povo que o mesmo Moisés havia arrancado do cativeiro do Egito. Assim se chamava também o filho de Josedec, sumo-sacerdote. (183)

2. Justeza desse nome A nosso ver, com quanto mais acerto não se deve atribuir esse nome a Nosso Salvador! A Ele que deu luzes, liberdade e salvação, já não a um povo singular mas a todos os homens de todas as épocas. A Ele que os livrou, não diremos da fome ou da opressão do Egito e da Babilônia, mas das sombras da morte em que estalavam sentados (184), presos com os duríssimos grilhões do pecado e do demônio. A Ele que lhes adquiriu o direito à herança do Reino dos céus, e os reconciliou com o Pai Eterno.

Naquelas pessoas não vemos senão uma figura de Cristo Nosso Senhor, que de tantos benefícios cumulou o gênero humano como acabamos de explicar.

3. Seu aspecto total Além do mais, todos os outros nomes que, segundo as profecias, deviam ser dados ao Filho de Deus, estão já incluídos nesse único nome de "Jesus". Cada um deles exprime aspectos parciais da salvação que nos devia trazer; ao passo que o nome de Jesus abrange, por si só, o resgate do gênero humano, em toda a sua extensão e eficácia. (186)

III. Significação de "Cristo" 1. No velho Testamento designa a) reis, sacerdotes [7] Ao nome de Jesus também se acrescentou o apelido de "Cristo", cuja significação é "Ungido". Serve para designar uma dignidade e um ministério. Não é próprio de uma só categoria, mas é uma designação comum de várias funções.

Na antiguidade, nossos pais chamavam de "cristos" aos sacerdotes e aos reis, porquanto Deus ordenara que fossem ungidos, em atenção à dignidade de seu ministério.

Sacerdotes são aqueles que, por meio de assíduas preces, recomendam o povo a Deus. São eles que oferecem sacrifícios a Deus, e aplicam pelo povo o poder de sua intercessão. (187)

Aos reis, porém, está confiado o governo dos povos. Seu dever primordial é salvaguardar a autoridade das leis, proteger a vida dos inocentes, e punir a audácia dos criminosos.

Ambos os ministérios são, pois, uma imagem da majestade de Deus, aqui na terra. Por isso, os que eram eleitos para a dignidade real ou sacerdotal, recebiam a unção do óleo santo. (188)

b) profetas Era também costume ungirem-se os Profetas. Na qualidade de intérpretes e mensageiros de Deus imortal, eles revelavam os segredos do céu, e com salutares conselhos e predições do futuro nos exortavam à regeneração dos costumes.

2. Em o Novo Testamento: O Redentor foi ungido pelo Espírito Santo... Ora, quando veio a este mundo, Nosso Salvador Jesus Cristo tomou sobre Si o tríplice encargo e função de profeta, de sacerdote e de rei. Por esse motivo é que foi chamado "Cristo", e ungido para o desempenho daqueles ministérios. Não o foi, contudo, por obra de nenhum mortal, mas pela virtude do Pai Celeste. Não o foi com uma unção de óleo terrestre, mas de óleo espiritual, quando em Sua Alma santíssima se derramaram a graça, a plenitude e os dons do Espírito Santo, em tal superabundância que nenhuma outra criatura a poderia jamais comportar.

É o que muito bem exprime o Profeta, quando interpela o próprio Redentor: "Vós amastes a justiça, e aborrecestes a iniqüidade Por isso Deus, o vosso Deus, vos ungiu com óleo de alegria na presença de vossos companheiros". (189) A mesma idéia, Isaías a exprime com muito mais clareza, na passagem seguinte: "O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque o Senhor Me ungiu, e Me enviou para pregar aos que são mansos". (190)

a) como sumo profeta... Jesus Cristo foi, portanto, o Profeta e Mestre supremo que nos ensinou a vontade de Deus, e cuja doutrina fez ao mundo conhecer o Pai Celestial. Cabe-lhe o nome de Profeta com maior glória e distinção, porquanto não passavam de discípulos Seus todos aqueles que [anteriormente] tiveram a honra desse nome, e que não foram enviados senão para anunciar o Profeta por excelência, que viria salvar todos os homens. (191)

b) eterno sacerdote... Cristo foi também Sacerdote, não na ordem pela qual na Antiga Lei os sacerdotes procediam da tribo de Levi, mas por aquela que o profeta Davi exaltou em seu vaticínio: "Vós sois sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedec". (192) Na epístola aos Hebreus, o Apóstolo explana detidamente o fundo desta passagem. (193)

c) rei universal... Reconhecemos, igualmente, que Cristo é Rei, não só como Deus, mas também enquanto Homem, participante de nossa natureza. De Sua dignidade real disse o Anjo: "Há de reinar eternamente na casa de Jacó, e Seu reino não terá fim". (194)

cujo domínio é a igreja... Esse Reino de Cristo é espiritual e eterno. Começa na terra, e consuma-se no céu. É com admirável providência que Cristo presta os ofícios de Rei à Sua Igreja. Ele a governa; defende-a dos ataques e embustes do inimigo; prescreve-lhe leis; comunica-lhe santidade e justiça; proporciona-lhe, ainda por cima, força e meios de perseverar.

que abrange bons e maus... Nos limites deste Reino, existem bons e maus. Por direito, fazem parte dele todos os homens. No entanto, aqueles que levam uma vida pura e santa, segundo os Seus Mandamentos, chegam a sentir, mais do que os outros, a suma bondade e benevolência de nosso Rei.

e também o mundo inteiro. Este Reino, porém, não Lhe foi adjudicado por direito de herança ou sucessão humana, ainda que Cristo descendesse dos reis mais ilustres. Era Rei, porque Deus reuniu em Sua humanidade tudo o que a natureza humana podia comportar de poder, grandeza e dignidade. Entregou-Lhe, portanto, o governo do mundo inteiro. E Cristo já começou a dominar, mas só no dia do Juízo é que todas as coisas se curvarão plena e incondicionalmente, à Sua autoridade. (195)

Um só Seu Filho

IV. Jesus Cristo 1. Filho de Deus [8] São mais profundos ainda os mistérios que estas palavras nos propõem a respeito de Jesus. Levam os fiéis a crer piedosamente que é Filho de Deus, e verdadeiro Deus como o Pai, que O gerou desde toda a eternidade.

a) de igual natureza como as outras pessoas; Além disso, confessamos que é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, perfeitamente igual às duas outras Pessoas Divinas. Nenhuma desigualdade ou diferença pode haver, ou imaginar-se nas três Pessoas divinas, porque em todas elas reconhecemos a existência de uma só natureza, de uma só vontade, de um só poder.

Esta verdade se nos antolha em muitos lugares da Sagrada Escritura. O mais claro, todavia, é o testemunho de São João: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus". (196)

b) gerado desde toda a eternidade; Ouvindo, porém, que Jesus é Filho de Deus, não nos ponhamos a imaginar que em Sua geração exista algo de terreno ou mortal. O ato pelo qual o Pai gera ao Filho desde toda a eternidade, não o podemos absolutamente perceber com a inteligência, e muito menos compreendê-lo de maneira adequada. Devemos, no entanto, acreditá-lo com firmeza, e adorá-lo com a maior devoção de nossa alma. Como que arrebatados de admiração pelo Mistério, cumpre-nos exclamar com o Profeta: "Quem poderá explicar a Sua geração?" (197)

c) consubstancial ao Pai Deve crer-se, portanto, que o Filho tem a mesma natureza, o mesmo poder, a mesma sabedoria que o Pai, conforme o confessamos mais explicitamente no Símbolo de Nicéia: "E em Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, e gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus de Deus verdadeiro, gerado, não feito, da mesma substancia que o Pai, e pelo qual foram feitas todas as coisas". (198)

Corolário: Comparações. [9] De todas as comparações que se fazem, para explicar o modo e a razão de ser desta geração eterna, nenhuma parece tão próxima da realidade, como aquela que se tira da formação do pensamento em nossa alma. Por isso, São João dá o nome de "Verbo" ao Filho de Deus. (199)

Como nossa alma, reconhecendo-se até certo grau, concebe uma imagem de si mesma, imagem que os teólogos chamam de "verbo" (200); assim também, quanto as coisas humanas podem comparar-se com as divinas, Deus, reconhecendo-Se a Si mesmo, gera o Verbo Eterno.

2. Filho do Homem (união hipostática) No mais, é preferível contemplar simplesmente o que a fé nos propõe, e crer e confessar, com sinceridade, que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

Como Deus, foi gerado pelo Pai antes de todos os séculos; como Homem, nasceu no tempo, de Sua Mãe a Virgem Maria. (201)

Posto que em Cristo se deve admitir um duplo nascimento, cremos, todavia, que há um só Filho. É pois uma e a mesma Pessoa, na qual se unem as naturezas divina e humana.

3. Nosso Criador, e nosso Irmão [10] Da parte da geração divina, Cristo não tem irmãos nem co-herdeiros, visto ser Ele o Filho Único do Pai, enquanto nós homens somos apenas uma formação e obra de Suas mãos. (202)

Se entanto considerarmos Sua origem humana (203), veremos que Cristo não só dá a muitos o nome de "irmãos", mas também os trata realmente como tais, para que com Ele alcancem ao mesmo tempo a glória da herança paterna. São aqueles que pela fé receberam a Cristo Nosso Senhor (204), e por obras de caridade comprovam a fé que professam de boca. Eis por que o Apóstolo Lhe chamou o "Primogênito entre muitos irmãos". (205)

Nosso Senhor

V. 1. Jesus, nosso "Senhor": [11] entre as mudas afirmações da Sagrada Escritura a respeito de Nosso Salvador, não é difícil reconhecer que umas Lhe convêm como a Deus, outras como a Homem.

Das duas naturezas diversas, [Cristo] recebeu também as diversas propriedades. Assim dizemos, com toda a verdade, que Cristo é onipotente, eterno, imenso. Estes atributos Lhe advêm da natureza divina. E dizemos também que Ele sofreu, morreu e ressurgiu. Ninguém duvida que tais fatos só podem ser atribuídos à natureza humana.

a) como Deus Mas existem ainda outros atributos que convêm a ambas as naturezas, como o nome de "Nosso Senhor", que ora Lhe damos. Se, portanto, este nome se aplica a uma e outra natureza, é com toda a razão que Cristo deve ser chamado "Nosso Senhor".

Do mesmo modo que Ele é Deus eterno como o Pai, assim é também, como o Pai, Senhor de todas as coisas. Como Ele e o Pai não são dois deuses diversos, mas inteiramente o mesmo Deus, assim também Ele e o Pai não são dois Senhores diferentes. (206)

b) como Homem... por causa da Redenção... Com razão é chamado "Nosso Senhor" também em Sua condição de Homem. Há muitos títulos que o justificam. Em primeiro lugar, por ser nosso Redentor, e nos ter livrado de nossas culpas, recebeu por direito o poder de ser deveras e chamar-se "Nosso Senhor".

É o que nos ensina o Apóstolo: "Humilhou-se a Si mesmo, fazendo-Se obediente até a morte, e morte de cruz. Por essa razão, Deus também O exaltou e Lhe deu um nome que fica acima de todos os nomes, para que ao Nome de Jesus se dobre todo joelho, dos que estão no céu, na terra, e nos infernos; e toda língua proclame que Jesus Cristo está na glória de Deus Pai". (207) Após a Ressurreição, Cristo disse de Si mesmo: "A Mim foi dado todo o poder no céu e na terra". (208)

por causa da união hipostática Em segundo lugar, é chamado "Senhor" também, porque reúne numa só Pessoa duas naturezas, a divina e a humana. Ainda que Cristo por nós não morrera, contudo essa admirável união Lhe teria merecido o título de soberano Senhor de todas as coisas criadas, em particular dos fiéis que Lhe prestam obediência, e que O servem com o maior afeto de seu coração.

2. Nós, somos seus escravos... [12] Como nos resta ainda dizer, o pároco inculcará aos fiéis que, levando nós de Cristo o nome de cristãos, não podemos ignorar os imensos benefícios de que Ele nos cumulou, máxime a bondade com que, pela luz da fé, nos fez conhecer todos estes mistérios. Convém, pois, e força é repeti-lo, que nós - com maior obrigação que os outros mortais - para sempre façamos entrega e consagração de nós mesmos a Nosso Senhor e Redentor, na qualidade de escravos totalmente Seus.

pelo compromisso batismal... Na verdade, assim o prometemos à porta da igreja, quando recebíamos a iniciação do Batismo. Ali declaramos que renunciávamos a Satanás e ao mundo, para nos consagrarmos inteiramente a Jesus Cristo.

Mas, desde que, para entrar na milícia cristã, nos entregamos a Nosso Senhor, por tão santo e solene compromisso, que castigo não mereceríamos, se, depois de entrar no grêmio da Igreja, depois de conhecer a vontade e os preceitos de Deus, depois de receber a graça dos Sacramentos, fôssemos viver segundo as leis e normas do mundo e do demônio, como se no dia do Batismo nos houvéramos alistado no serviço do mundo e do demônio, que não de Cristo Nosso Senhor e Redentor.

mas Cristo nos chama de "amigos e irmãos". Em vista de tanto amor e benignidade para conosco, que coração se não sentiria abrasado de amor por tão grande Senhor? Apesar de nos ter debaixo de Seu poder e domínio, servos que somos remidos pelo Seu sangue, Cristo nos ama com tais extremos que já não nos chama de servos, mas de amigos e irmãos. (209) Esta é, sem dúvida, a mais justa, e talvez a mais forte de todas as razões, por que devemos para todo o sempre reconhecê-l'O, venerá-l'O e servi-l'O como Nosso Senhor.

167) 1Jo 4,15. - 168) Bar-Jona quer dizer Filho de João. - 169) Mt 16, 17. - 170) Gn 2, 16-17. - 171) Cone. Trid. Sess. V can. 1-6; sess. VI can. 1-2 (DU 174 188). - O CRO diz "constitutus fuerat", atendo-se à terminologia do Tridentino; este não diz "creatus fuerat", para evitar questões controversas da teologia especulativa. - 172) Rm 5, 12; DU 175 316 711 734 1627 11,,1 - 173) Gn 3, 15; DU 2123. - 174) Gn 12, 3; 17, 15-16; 18, 18. - 175) ... as cidades. - 176) Gn 22, 16-17. - 177) Gn 28, 12-14. 178) Por exemplo, a estrela de Jacob (Num 24, 17; Mt 2, 2; DU 711). - 179) Por exemplo, Isaías (7, 44; 8,3; 9, 6; 11, 13; 53 per totum), Jeremias (23, 5; 30, 9), Daniel (7, 13; 9, 24), e outros. - 180) Lc 1, 31. - 181) Mt 1, 20-21. - 182) Josué ou Jésus, cfr. Sr 46, 1. - 183) Sr 48, 14; Agg 1. 1. - 184) Lc 1, 79 - 185) ... isto é, nos homônimos de Jesus no Antigo Testamento. - 186) Is 7, 14; 8, 8; 9, 6; Jr 23, 6. - 187) Nm 16, 46-50; Sb 18, 20-25; Hb 5, 1-4. - 188) 1Sm 10, 1; 16, 13; Ex 19, 21; 30, 30. - 189) Os 44, 8. - 190) Is 61, 1. - 191) Dt 18, 15; DU 1789. - 192) Sl 109, 4. - 193) Hb 5, 5 ss.; DU 122 430 938 940 2195 circa finem. - 194) Lc 1, 32. - 195) DU 627, 629, 838; Litt. Encycl. águas primas" de Principatu Christi 11-XII-1925 (DU 2194-219) cfr. Offic. de Christo Rege. - 196) Jo 1, 1, DU 344. - 197) Is 53, 8; DU 462 2027. - 198) Tauchnitz funde o presente parágrafo com o seguinte, mas conserva 8-9 na numeração. - 199) Jo 1, 1 ss. DU 118. - 200) ... verbum mentis. - 201) SQ DU 257 285 422 708 993. - 202) Is 64, 8. - 203) Hb 2, 12. - 204) Lc 8, 21; Jo 1, 12-13. - 205) Rm 8, 29. - 206) DU 72 148 258 262 288 290 780 1463; SQ. - 207) Fl 2, 8 ss. - 208) Mt 28, 18. - 209) Jo 15, 14-15.

20 de novembro de 2009

Catecismo Romano – Parte 3

CAPÍTULO SEGUNDO

Primeiro Artigo do Símbolo:

Creio em Deus Padre todo-poderoso, criador do Céu e da Terra

I. 1. Sinopse do Artigo [1] Estas palavras querem dizer: Creio com toda a certeza, e sem nenhuma hesitação confesso a Deus Pai, a primeira Pessoa da Santíssima Trindade, que pela virtude de sua onipotência criou do nada o próprio Céu, a Terra, e tudo que se contém em suas dimensões; que sustenta e governa todas as coisas criadas. E não só de coração o creio, e de boca o confesso, mas com o maior afeto e filial piedade a Ele me entrego, por ser o bem sumo e perfeito.

2. Finalidade de seu estudo Nestes termos se pode, brevemente, formular o sentido deste primeiro artigo. Mas como quase cada uma destas palavras envolve grandes mistérios, é obrigação do pároco explicá-las mais amplamente, para que o povo cristão, quanto o permitir a graça de Deus, aprenda a contemplar, com temor e tremor, a glória de Sua majestade. (73)

II. Crer significa: 1. uma íntima convicção...
[2] Neste lugar, a palavra "Creio" não tem a significação de "pensar", "julgar", "dar opinião". Conforme a doutrina da Sagrada Escritura, significa uma adesão absolutamente certa, pela qual a inteligência aceita, com firmeza e constância, os mistérios que Deus lhe manifesta. Para se compreender melhor este ponto, [basta dizer] que só crê propriamente quem está certo de alguma verdade, sem a menor hesitação.

que exclui toda dúvida... Ninguém deve, todavia, julgar menos seguro o conhecimento que nos vem da fé, pelo fato de não compreendermos as verdades que ela nos propõe a crer. É certo, a luz divina que no-las faz conhecer, não nos dando a evidência das coisas, nem por isso abre margem para se duvidar de sua realidade. "Pois Deus ordenou que das trevas rompesse a luz; Ele mesmo resplandece em nossos corações" (74), para que "o Evangelho não seja encoberto, como acontece aos que se perdem". (75)

...por causa da autoridade de Deus... [3] A concluirmos pelo que ficou dito, quem recebeu o celestial conhecimento da fé, já não sente o prurido de investigar só por mera curiosidade. Quando nos deu o preceito de crer, Deus não nos incumbiu de sondar os juízos divinos, nem de lhes aferir as causas e razões. Prescreveu-nos, ao contrário, uma fé inalterável, cuja ação faz a alma repousar no conhecimento da verdade.

a quem não podemos pedir razões; De fato, como diz o Apóstolo, "Deus é verdadeiro (76), e todo homem é mentiroso". (77) Ora, quando um homem grave e sensato nos assegura a verdade, seria orgulho e insolência não lhe dar crédito, e pedir-lhe ainda por cima provas e testemunhos de sua palavra. Qual não seria então a temeridade, ou antes, a loucura daquele que, ouvindo as palavras de Deus, quisesse ainda devassar as razões da celestial doutrina da salvação?

Devemos, portanto, abraçar a fé não só com exclusão de toda dúvida, mas também sem o desejo de vê-la demonstrada. (78)

2. uma confissão exterior, em palavras e obras [4] O pároco ensinará também o seguinte: Quem diz "Creio" exprime a íntima aquiescência da alma, que é o ato interior da fé. Deve, porém, externar em pública profissão a fé que lhe vai na alma, e manifestá-la com a maior expansão de alegria.

Devem os fiéis estar possuídos daquele espírito que levou o Profeta a dizer: "Eu tinha fé, por isso é que falei". (79) Força lhes é imitar os Apóstolos que aos príncipes do povo responderam: "Não podemos silenciar o que vimos e ouvimos". (80)

Devem entusiasmar-se com grandiosa declaração de São Paulo: "Neo me envergonho do Evangelho, pois é uma virtude de Deus para salvar todo homem crente" (81); - ou também, com esta outra palavra: "Com o coração se crê para ser justificado; com a boca se faz confissão, para que haja salvação". (82)

[Creio] em Deus

III. Mostram estas palavras... [5] Estas palavras "em Deus" nos mostram a dignidade e excelência da sabedoria cristã, pela qual podemos reconhecer o quanto devemos à bondade divina por nos levar, sem demoras de raciocínio, a conhecer pelos degraus da fé o ser mais sublime e desejável.

1. que a fé é superior à filosofia: [6] Existe, realmente, uma enorme diferença entre a filosofia cristã e a sabedoria deste mundo. Guiada só pela luz da razão, pode esta desenvolver-se aos poucos, pelo conhecimento dos efeitos e pela experiência dos sentidos. Mas só depois de longos esforços é que chega afinal a contemplar, com dificuldade, "as coisas invisíveis de Deus" (83); a reconhecer e compreender a Deus como causa primeira e autor de todas as coisas.

A fé, pelo contrário, aumenta de tal maneira a penetração natural do espírito, que este pode sem esforço elevar-se até ao céu, e, inundado de luz divina, contemplar primeiramente o próprio foco de toda a luz, e de lá todas as coisas colocadas debaixo [de seu clarão]. Num transporte de júbilo, sentimos então que "das trevas, como diz o Príncipe dos Apóstolos, fomos chamados para uma luz admirável" (84); e nessa "fé exultamos de inefável alegria". (85)

É, pois, com razão que os fiéis professam em primeiro lugar sua fé em Deus, cuja majestade, numa expressão de Jeremias, dizemos ser "incompreensível". (86) Deus "habita numa luz inacessível, como diz o Apóstolo, e nunca foi nem pode ser visto por homem algum". (87) Ele mesmo disse a Moisés: "Não pode o homem ver-Me, e continuar com vida". (88)

Com efeito, para chegarmos até Deus, o mais transcendente de todos os seres, é preciso que nossa alma desfaça totalmente das faculdades sensitivas. Isto, porém, não nos é possível por lei da natureza, enquanto durar a vida presente.

Ainda assim, como diz o Apóstolo, Deus "não deixou, todavia de dar testemunho de Si mesmo, dispensando benefícios, mandando chuvas do céu e tempos férteis, dando alimento, e enchendo de alegria os corações dos homens". (89)

a) esta dá um conhecimento imperfeito de Deus; Eis por que os filósofos nada de imperfeito podiam admitir em Deus. Da noção de Deus, afastaram categoricamente tudo o que fosse matéria, crescimento, composição.

Atribuindo-Lhe, pelo contrário, a suma plenitude de todos os bens, consideravam-n'O como fonte perpétua e inexaurível de bondade e clemência, donde se derrama em todas as criaturas tudo o que nelas há de bom e perfeito.

Chamavam-Lhe, sábio, autor e amigo da verdade, justo, supremo benfeitor. Deram-Lhe ainda outros atributos que exprimem uma perfeição suma e absoluta. Em Deus reconheciam um poder imenso e absoluto, que abrange todos os lugares, e chega a todas as criaturas.

b) aquela dá conhecimento mais perfeito... No entanto, estas verdades são expressas, com mais vigor e propriedade, nas páginas da Sagrada Escritura, como por exemplo, nas passagens seguintes:

"Deus é Espírito". (90) - "Sede perfeitos, como vosso Pai no céu é perfeito". (91) – "Todas as coisas estão a nu e a descoberto diante de seus olhos". (92) – "Oh! Que profundidade das riquezas, da sabedoria e do conhecimento de Deus!" (93) - "Deus é verdadeiro". (94) – "Eu sou o caminho, a verdade e a vida". (95) - "Vossa destra é cheia de justiça". (96) - "Vós abris a mão, e encheis de bênçãos todos os viventes". (97) - "Para onde irei, a fim de esquivar-me de Vosso espírito, e para onde fugirei da Vossa face? Ainda que tomasse asas, ao romper da aurora, e fosse morar nos confins do oceano, ainda lá me guiaria a Vossa mão, e Vossa destra me tomaria". (98) - "Porventura, não encho Eu o céu e a terra? Diz o Senhor". (99)

não só aos filósofos e eruditos... Por grandes e sublimes que sejam os conceitos que, de harmonia com a doutrina da Sagrada Escritura, os filósofos tiraram da investigação das coisas criadas, devemos todavia reconhecer a necessidade de uma revelação sobrenatural.

mas também aos simples e ignorantes, Para esse fim, basta considerar que a excelência da fé, como acima foi dito, não consiste apenas em patentear, aos simples e ignorantes, com clareza e prontidão, o que eminentes sábios conseguiram averiguar só depois de longas lucubrações. O conhecimento que a fé nos transmite dessas verdades, é também muito mais certo e estreme de erros, do que as noções adquiridas com os recursos de um ciência meramente humana.

dos mais sublimes mistérios Além disso, quão superior não deve ser, aos nossos olhos, o conhecimento que a fé nos dá da essência divina, para o qual a contemplação da natureza não leva em geral todos os homens, enquanto a luz da fé propriamente o franqueia a todos os crentes?

Esse conhecimento está depositado nos Artigos do Símbolo. Explanam-nos a unidade da essência divina, a distinção das três Pessoas. Ensinam-nos que o último fim do homem é o próprio Deus, do qual o homem deve esperar a posse da celestial e eterna felicidade, segundo a palavra de São Paulo: "Deus retribuirá aos que o procuram". (100)

Para mostrar a grandeza dessa recompensa, e como a inteligência é de si mesma incapaz de imaginá-la, o Profeta Isaías disse muito antes de São Paulo: "Nunca ninguém ouviu, nem ouvido algum percebeu, nem olhar algum enxergou, a não serdes Vós, ó meu Deus, o que tendes preparado para os que em Vós esperam". (101)

Mostram-nos também a unidade de Deus: a) prova filosófica [7] Das explicações dadas, segue-se também a obrigação de confessarmos que há um só Deus, e não vários deuses. A razão é óbvia. A Deus atribuímos suma bondade e perfeição. Ora, em vários seres não pode haver perfeição em grau sumo e absoluto. (102) Se a um deles falta alguma coisa para ser sumamente perfeito, por isso mesmo é imperfeito, e não lhe compete a natureza divina.

b) prova teológica Comprovam esta verdade, muitas passagens dos Livros Sagrados. Está escrito: "Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é um só Deus". (103) Além disso, há um preceito do Senhor: "Não tereis deuses estranhos em Minha presença". (104) E pela boca do Profeta diz [Deus] com insistência: "Eu sou o Primeiro, e Eu sou o Último. Fora de Mim, não há outro Deus". (105) O Apóstolo também o atesta sem ambigüidade: "Um só Senhor, uma só fé, um só Batismo". (106)

Corolário: "Deuses" na Escritura. [8] Não devemos estranhar que a Sagrada Escritura, por vezes, aplique o nome de "deuses" a seres criados. Quando chama de deuses aos juízes e profetas (107), não o faz à moda dos gentios que, louca e impiamente, imaginavam a existência de muitas divindades. Com tal expressão, quer apenas designar algum poder ou encargo extraordinário, que lhes foi confiado pela munificência de Deus.

c) resumo e transição A fé cristã crê, pois, e confessa que Deus é uno em natureza, substância e essência, conforme o definiu o Símbolo do Concílio de Nicéia, em confirmação da verdade. Mas, subindo mais alto, ela crê de tal maneira em Deus Uno que, ao mesmo tempo, adora a Unidade na Trindade, e a Trindade na Unidade. (108) É desse mistério que vamos tratar agora.

IV O nome de "Pai" designa Deus: 1. Como criador e governador do mundo... [9] No Símbolo, vem a seguir a palavra "Pai". (109) Ora, dá-se a Deus o nome de "Pai" sob vários pontos de vista. É preciso, pois, explicar primeiro o sentido, que lhe cabe neste lugar.

Não obstante as trevas do paganismo, chegaram alguns homens a reconhecer, sem a luz da fé, que Deus é uma substância eterna, da qual tiveram origem todas as coisas, e cuja Providência tudo governa, e tudo conserva em sua ordem e posição.

Assim como chamamos de pai a quem funda uma família, e a dirige com critério e autoridade, assim também quiseram eles, por analogia, chamar de "Pai" a Deus, a quem reconheciam como Criador e Governador de todas as coisas.

A Sagrada Escritura emprega o termo também no mesmo sentido. Falando de Deus, declara que Lhe devemos atribuir a criação, o domínio e a admirável provisão de todas as coisas. Numa passagem lemos: "Não é Ele teu Pai, que te adquiriu, que te fez e tirou do nada?" (110) - E noutra: "Porventura, não é um só o Pai de todos nós? Não foi o mesmo Deus que nos criou?" (111)

2. Como Pai dos cristãos Com maior insistência, e num sentido todo particular, Deus é chamado Pai dos cristãos, principalmente nos Livros do Novo Testamento.

Os cristãos "não receberam o espírito de servidão, para estarem novamente com temor, mas o espírito da filiação adotiva, o qual nos faz exclamar: Abba, Pai!" (112) - Tão grande é "o amor do Pai para conosco que somos chamados e de fato somos filhos de Deus". (113) - "Se, porém, somos filhos, somos também herdeiros, sim, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo" (114), que é o Primogênito entre muitos irmãos (115), e não se vexa de nos chamar irmãos. (116)

Considerando, pois, quer o fato comum da Criação e da Providência, quer a grande realidade da adoção sobrenatural, têm os cristãos toda a razão de professarem sua fé em Deus Pai.

3. Como Primeira Pessoa da SS. Trindade [10] Além destas noções assim formuladas, o pároco explicará aos fiéis que, ao ouvirem o nome de Pai [aplicado a Deus], devem elevar o espírito para a contemplação de mistérios mais sublimes.

Pelo nome de "Pai", a Revelação nos permite entrever aos poucos o que se acha profundamente oculto e encerrado naquela "luz inacessível onde Deus habita" (117), mistérios que a perspicácia do espírito humano não podia certamente atingir, nem tampouco suspeitar.

O termo indica que, na unidade da natureza divina, não devemos crer na existência de uma só Pessoa, mas de várias Pessoas realmente distintas.

a) origem eterna das três Pessoas São três as Pessoas que existem numa só divindade: O Pai, que por ninguém foi gerado; O Filho, que gerado foi pelo Pai, antes de todos os séculos; o Espírito Santo, que também desde toda a eternidade procede do Pai e do Filho. Na unidade da natureza divina, o Pai é a Primeira Pessoa, e "com seu Filho Unigênito e o Espírito Santo é um só Deus e um só Senhor, não na singularidade de uma só Pessoa, mas na Trindade de uma só natureza". (118)

b) distinção de Pessoas... Não é licito supor, nas três Pessoas, qualquer diferença ou desigualdade. Por conseguinte, só devemos considerá-las distintas em suas respectivas propriedades: O Pai não é gerado; o Filho é gerado pelo Pai; o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.

mas igualdade de natureza. Desta maneira, confessamos ser a mesma essência e a substância das três Pessoas; e "na confissão da verdadeira e sempre eterna divindade" cremos que é preciso adorar, pia e santamente, "não só a distinção nas Pessoas, mas também a unidade na essência, e a igualdade na Trindade". (119)

Quando, pois, dizemos ser o Pai a primeira Pessoa, não é para entender como se na Trindade supuséssemos a idéia de anterior ou posterior, de maior ou menor. Tanta impiedade não deve infiltrar-se nos ânimos dos fiéis, pois a religião cristã apregoa, com relação as três Pessoas, a mesma eternidade, a mesma glória, e a mesma majestade. (120)

c) motivo da Paternidade da Primeira Pessoa Com certeza, e sem a menor dúvida, afirmamos ser o Pai a Primeira Pessoa, porque é um princípio sem princípio. E como se não distingue, das outras Pessoas senão pela propriedade de Pai, é a Ela somente que se atribui, principalmente, a eterna geração do Filho. Mas, para inculcar que a Primeira Pessoa foi sempre Deus e sempre Pai ao mesmo tempo, é que no Símbolo enunciamos juntos os nomes de Deus e Pai.

d) terminologia obrigatória Ora, não há coisa mais perigosa do que versar este assunto, porque é o mais profundo e o mais difícil de todos; assim como não há mais grave responsabilidade, se viermos a errar na formulação e explicação deste mistério.

Por isso, o pároco ensinará que é preciso reter, religiosamente, os termos "essência" e "pessoa" como [os únicos adequados] para exprimir esse mistério. Os fiéis devem ficar sabendo que a unidade está na essência, e a distinção nas pessoas.

e) investigação sem sutileza No mais, força é evitar toda sutileza de investigação, lembrando-nos do que sentencia a Escritura: "Quem quer sondar a Majestade, será oprimido pelo peso de sua glória". (121)

Para nós, deve bastar a certeza que a fé nos dá, de ter Deus assim falado. Grande loucura e desgraça seria, para nós, o não crermos em Suas palavras: Ensinai, diz Nosso Senhor, todas as gentes, e batizai-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo". (122) E noutro lugar: "Três são os que dão testemunho no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo. E estes três são uma só coisa". (123)

f) frutos desta doutrina Quem pela graça de Deus crê estas verdades, reze com perseverança, e conjure a Deus Pai, que do nada criou todas as coisas; que tudo dirige com suavidade (124); que nos deu o poder de tornar-nos filhos de Deus (125), que revelou à inteligência humana o mistério da Santíssima Trindade. Ore, pois, sem interrupção (126), para ser um dia "recebido nos eternos tabernáculos" (127); para ser julgado digno de contemplar essa infinita fecundidade de Deus Pai, que, considerando-Se e reconhecendo-Se a Si mesmo, gera ao Filho, que Lhe é igual e semelhante; - [para ser digno de ver] também como o Espírito Santo, que é de ambos a mesma e igual caridade, procedendo do Pai e do Filho, une entre Si, com vínculo eterno e indissolúvel, Aquele que gera e Aquele que é gerado; - [para ser digno afinal de verificar] como assim existe uma unidade de essência na Divina Trindade, ao mesmo tempo que existe uma perfeita distinção entre as três Pessoas.

Todo-Poderoso

V. O primeiro dos atributos [11] A Sagrada Escritura emprega muitas expressões para indicar o sumo poder e a imensa majestade de Deus. Mostra-nos assim com quanto respeito devemos venerar Seu Nome Santíssimo.

Entretanto, o pároco ensinará, em primeiro lugar, que a Deus se atribui com maior freqüência o nome de "Onipotente".

Deus declara de Si mesmo: "Eu sou o Senhor Todo-Poderoso". (128) - Quando enviara os filhos a José, Jacó rezou por eles: "Meu Deus, o Todo Poderoso, vo-lo torne propício!" (129) - No Apocalipse também está escrito: "O Senhor Deus, que é, e que era, e que há de vir: o Todo-Poderoso". (130) Noutra passagem fala "do grande dia de Deus Todo-Poderoso". (131)

Algumas vezes, enuncia-se o mesmo atributo por meio de paráfrases, como acontece nas seguintes passagens: "A Deus, nada é impossível". (132) - "Porventura, a mão do Senhor já não terá força?" (133) - "Em Vossa mão está usar de poder, quando quiserdes". (134) - E outras mais, do mesmo sentido, que se resumem indubitavelmente nesta única palavra: o Todo-Poderoso.

1. Noção: a) o que Deus pode; Este conceito nos dá a entender que nada existe, nada se pode pensar ou imaginar que Deus não tenha a virtude de realizar. Pode, portanto, não só operar prodígios que, por maiores que sejam, não excedem de maneira absoluta o âmbito de nossas idéias, como por exemplo fazer voltar ao nada todas as coisas, ou num ápice tirar do nada outros mundos; mas pode também fazer coisas muito maiores, que a inteligência humana não chega sequer a suspeitar.

b) o que Deus não pode. [12] Apesar de poder tudo, Deus não pode todavia mentir, nem enganar, nem ser enganado, nem pecar, nem perecer, nem tampouco ignorar alguma coisa. São deficiências que só podem ocorrer numa natureza, cuja operação é imperfeita. Ora, operando sempre de maneira perfeitíssima, Deus não é capaz de tais coisas. O poder fazê-las é sinal de fraqueza, e não se coaduna com o domínio sumo e ilimitado que Deus exerce sobre todas as coisas.

Cremos, portanto, que Deus é Todo-Poderoso, mas dessa crença arredamos para longe tudo o que se não refira, nem condiga com a perfeição da natureza divina.

2. Relação com os demais atributos [13] O pároco terá de mostrar que houve sábias e acertadas razões para se omitir no Símbolo os outros atributos divinos, enquanto se propõe à nossa crença este único de Sua onipotência.

Com efeito, desde que reconhecemos a Deus como sendo Todo-Poderoso, força nos é também professar que Ele sabe todas as coisas, e que todas as coisas estão igualmente sujeitas ao Seu poder e soberania. E se não duvidamos que tudo pode, é logicamente necessário termos por certas as outras perfeições de Deus, porque sem elas não poderíamos absolutamente compreender a Sua onipotência.

3. Frutos: a) confiança em Deus... Além disso, não há o que mais concorra para firmar a nossa fé e esperança do que a convicção, profundamente gravada em nossas almas, de que a Deus nada é impossível. (135)

... pela fé Tudo o que nos for necessário crer, por grandes e admiráveis que sejam os mistérios, por mais que transcendam as leis ordinárias da natureza, a razão humana os aceitará sem nenhuma hesitação, uma vez que tenha uma idéia exata da onipotência de Deus. Quanto mais sublimes as verdades que vêm de Deus, tanto maior a presteza da razão em acreditá-las.

... pela esperança Quando tem de esperar algum benefício, o cristão nunca arrefece ante a grandeza do bem almejado. Sente, pelo contrário, sua coragem e esperança crescerem com a idéia de que a Deus Todo-Poderoso nada é impossível.

Esta fé e confiança devem alentar-nos, principalmente nas obras extraordinárias que tivermos de empreender, para o bem e proveito do próximo; ou quando quisermos implorar alguma mercê de Deus. O próprio Nosso Senhor nos ensinou o primeiro destes deveres, ao censurar a incredulidade dos Apóstolos: "Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para lá, e ele passará. Nada vos será impossível". (136)

O segundo dever, o Apóstolo São Tiago no-lo inculca: "Peça com fé, sem nenhuma hesitação, pois quem hesita assemelha-se à onda do mar, que o vento chicoteia de um lado para outro. Não cuide, pois, tal homem que do Senhor receberá alguma coisa". (137)

b) humildade e verdadeiro temor Sob outros pontos de vista, a fé na onipotência divina dá-nos ainda muitas vantagens. Ensina-nos, em primeiro lugar, uma perfeita modéstia e humildade de espírito, segundo a afirmação do Príncipe dos Apóstolos: "Humilhai-vos debaixo da poderosa mão de Deus". (138)

Exorta-nos também a não temer onde não há motivo (139), mas a temer só a Deus (140), em cujo poder estamos postos, nós e todas as coisas. (141) Nosso Senhor disse cabalmente: "Mostrar-vos-ei a quem deveis temer. Temei aquele que, depois de matar, pode ainda lançar no inferno". (142)

c) gratidão Esta fé leva-nos afinal a reconhecer e proclamar os imensos benefícios de Deus para conosco. Quem pensa em Deus Onipotente, não poderá ser tão desagradecido que não diga muitas vezes: "Grandes coisas operou em mim Aquele que é poderoso". (143)

4. atribuição ao Pai [14] Se neste Artigo dizemos que o Pai é Todo-Poderoso, ninguém caia no erro de pensar que só a Ele atribuímos esse predicado, de sorte que não seja também comum ao Filho e ao Espírito Santo. Como afirmamos que o Pai é Deus, que o Filho é Deus, e que o Espírito Santo é Deus, sem por isso reconhecer três deuses, mas a um só Deus; assim também dizemos que o Pai é Todo-Poderoso, que o Filho é Todo-Poderoso, que o Espírito Santo é Todo-Poderoso, sem, contudo asseverarmos que haja três onipotentes, mas um só Onipotente. (144)

por ser fonte e origem de todas as coisas Isto não obstante, damos ao Pai esse atributo, pela especial razão de ser Ele a fonte de tudo quanto existe. Da mesma maneira, atribuímos a sabedoria ao Filho, que é o Verbo eterno do Pai; e a bondade ao Espírito Santo, que é o amor de ambos. No entanto, pela regra católica de fé, estes e outros atributos devem ser enunciados em comum, com relação às três Pessoas divinas.

Criador do céu e da terra

VI. Conteúdo das palavras: 1. A criação, ato de onipotência... [15] O que agora vamos dizer da criação de todas as coisas, mostrará claramente como era necessário explicar antes aos fiéis a noção da onipotência divina. Com maior facilidade acreditarão no milagre que se manifesta em obra tão grandiosa, se nenhuma dúvida tiverem a respeito do imenso poder do Criador.

de amor espontâneo... Pois Deus não formou o mundo de uma matéria preexistente, mas criou-o do nada, sem a tanto ser obrigado por violência estranha ou necessidade natural; mas por Sua livre e espontânea vontade.

Nenhum outro motivo O impeliu a criar o mundo, senão a Sua própria bondade. Queria comunicá-la a todas as coisas que criasse. Possuindo por Sua natureza toda a felicidade, Deus não tem falta de coisa nenhuma, como o exprime o rei Davi: "Disse eu ao Senhor: Vós sois o meu Deus, e não tendes precisão dos meus bens". (145)

de infinita sabedoria Assim como não obedeceu senão à própria bondade, para "fazer tudo o que era do Seu agrado" (146), assim também não seguiu na criação nenhum modelo que estivesse fora de Sua própria natureza.

Sua inteligência infinita possui, dentro de Si mesma, a idéia exemplar de todas as coisas. Contemplando, pois, em Si mesmo essa idéia exemplar; e reproduzindo-a, por assim dizer, com a suma sabedoria e o infinito poder, que Lhe são próprios, Supremo Artífice (147) criou no princípio todas as coisas do Universo. "Ele disse, e tudo foi feito; Ele mandou, e tudo foi criado". (148)

2. Descrição da Criação: a) o firmamento; [16] Pelos termos "céu e terra", deve tomar-se tudo o que o céu e a terra compreendem. Além dos céus, que o Profeta considerava como "obra de Suas mãos" (149), Deus criou também a claridade do sol e o encanto da lua e dos outros corpos celestes, para que "servissem de sinais para os tempos, os dias e os anos". (150) Aos astros marcou uma órbita inalterável, de sorte que não pode haver coisa mais rápida que suas contínuas rotações, nem coisa mais regular que sua velocidade.

b) os Anjos... [17] A par do firmamento, Deus criou do nada seres de natureza espiritual, os inúmeros Anjos, cujo ministério era servir-Lhe e assistir diante de Seu trono. Conferiu-lhes depois o admirável dom de sua graça e poder.

Se na Bíblia está escrito: "O demônio não persistiu na verdade" (151), não padece dúvida que ele e os outros anjos rebeldes haviam [também] recebido a graça, desde o primeiro instante de sua existência.

sua santidade ciência e poder Santo Agostinho diz a respeito: "Criou os Anjos e dotou-os de boa vontade, quer dizer, com o casto amor que os unia a Deus. Em formando a natureza [angélica], infundiu-lhes ao mesmo tempo a graça. Daí devemos concluir que os Anjos bons nunca se viram destituídos de boa vontade, isto é, de amor a Deus". (152)

Quanto ao grau de ciência [angélica], há um testemunho das Sagradas Letras: "Vós, Senhor meu Rei, sois sábio, como a sabedoria que tem um Anjo de Deus, para entendermos tudo o que se passa sobre a terra". (153)

Indicam enfim o poder dos Anjos as palavras que lhes aplica o rei Davi: "Sois poderosos e fortes, e executais a Sua vontade". (154) Por esse motivo, a Sagrada Escritura lhes dá, muitas vezes, o nome de "virtudes e exércitos do Senhor". (155)

Corolário: Os Anjos maus Dotados que eram, todos, de prendas celestiais, muitos deles abandonaram, todavia a Deus, seu Pai e Criador. Foram, por conseguinte, derrubados de seus altos tronos, e detidos numa prisão muito escura da terra, onde agora sofrem o eterno castigo de sua soberba.

Deles escreve o Príncipe dos Apóstolos: "Deus não poupou os Anjos que pecaram, mas acorrentados os precipitou nos abismos do inferno, para serem cruciados, e tidos em reserva até o dia do juízo". (156)

c) a Terra [18] Com o poder de Sua palavra, Deus também firmou a terra em bases sólidas, e deu-lhe um lugar no meio do Universo. Fez com que os morros se erguessem, e os campos baixassem ao nível que lhes tinha marcado. E para que as massas de água não inundassem a terra, "assentou-lhes limites dos quais não passarão, e não tornarão a cobri-la". (157)

Em seguida, revestiu a terra de árvores e de toda a sorte de flores; encheu-a também de inúmeras espécies de animais, como antes já o tinha feito com as águas e os ares.

d) o homem... [19] Por último, Deus formou do limo da terra o Corpo do homem, de maneira que fosse imortal e impassível, não por exigência da própria natureza, mas por mero efeito da bondade divina. (158)

dotes de sua alma A alma, porém, Deus a criou à Sua imagem e semelhança, e dotou-a de livre arbítrio. Além de tudo, regulou os movimentos e apetites da alma, de sorte que sempre obedecessem ao império da razão. Finalmente, deu-lhe ainda o admirável dom da justiça original, e quis que tivesse o governo de todos os outros seres animados.

Estas verdades, os párocos podem facilmente examinar [mais a fundo] na santa história do Gênesis, quando fizerem a instrução dos fiéis.

e) "céu e terra" [20] Com as noções "do céu e da terra", compreende-se, pois, a criação de todas as coisas. O Profeta Davi resumiu tudo em poucas palavras: "Vossos são os céus, e vossa é a terra. Vós criastes o orbe da terra, e tudo o que nele se contém". (159)

Fórmula do Símbolo de Nicéia Com maior concisão ainda, souberam exprimir-se os Padres do Concílio de Nicéia, ao acrescentarem ao Símbolo só duas palavras: "das coisas visíveis e invisíveis". (160) Tudo o que o mundo abrange, e que reconhecemos como criado por Deus, - ou entra pelos sentidos, e chama-se "visível", - ou só pode ser percebido pela inteligência, e chama-se então "invisível".

3. Conservação e governo de todo o criado [21] Não devemos, porém, crer que Deus é Criador e Autor de todas as coisas, de molde que, consumada a obra da Criação, os seres por Ele criados pudessem, em nossa opinião, continuar a subsistir sem o auxílio de Sua potência infinita.

Como tudo só existe graças à onipotência, sabedoria e bondade do Criador, todas as criaturas recairiam logo em seu nada, se Deus lhes não assistisse continuamente pela Sua Providência, e não as conservasse pelo mesmo poder que, desde o princípio, empregou para as criar. A Escritura no-lo declara em termos formais: "Como poderia subsistir alguma coisa, se Vós o não quisésseis? Como poderia conservar-se o que Vós não tivésseis chamado?" (161)

4. O concurso divino [22] Sobre conservar e governar, pela sua Providência, tudo o que existe, Deus comunica, por um impulso interior, ação e movimento a todas as coisas, conforme a propriedade que tem cada qual, de mover-se e operar.

Sem as impedir, Deus antecipa-Se a influência das causas segundas, como uma virtude oculta que se estende a todas as coisas, e, no dizer do Sábio, "atinge fortemente de um extremo a outro, e dispõe todas as coisas com suavidade". (162)

Por esse motivo, ao anunciar aos atenienses o Deus que eles adoravam, sem O conhecerem, o Apóstolo disse-lhes: "Não está longe de cada um de nós, pois n'Ele vivemos, n'Ele nos movemos, e n'Ele subsistimos". (163)

4. A Criação, obra comum das três Pessoas [23] O que foi dito até agora, bastará para a explicação do primeiro Artigo. Resta-nos, ainda, advertir que a Criação é obra comum de todas as três Pessoas da Santa e Indivisível Trindade.

Neste lugar, confessamos pela doutrina dos Apóstolos, que o Pai é o Criador do céu e da terra. Nas Escrituras, porém, lemos com relação ao Filho que "por Ele foram feitas todas as coisas". (164) Acerca do Espírito Santo: "O Espírito de Deus movia-Se por sobre as águas". (165) Noutro lugar: "Pela palavra do Senhor foram assentes os céus, e do hálito de Sua boca procede toda a pujança [de vida]". (166)

73) Ex 20, 18 ss. - 74) 2Cor 4, 6. - 75) 2Cor 4,3. - 76) Rm 3, 4. - 77) cfr. Sl 115, 11. - 78) Isto não é uma negação do axioma "fides quaerens intellectum". O CRO só não quer que o ato de fé, como tal, não dependa de uma prévia demonstração. DU 1637 1812 1813 1796. - 79) S1 115, 10. - 80) At 4, 20 - 81) Rm 1, 16. - 82) Rm 10, 10. - 83) Rm 1, 20; DU 1796-1800. - 84) 1Pd 2, 9. - 85) 1Pd 1, 8. - 86) Jr 32, 19. - 87) 1Tm 6, 16. - 88) Ex 33, 20 - 89) At 14, 16 - 90) Jo 4, 24 - 91) Mt 5, 48 - 92) Hb 4, 13. - 93) Rm 11, 33. - 94) Rm 3, 4 - 95) Jo 14, 6. - 96) Sl 47, 11. - 97) Sl 144, 16. - 98) Sl 138, 7 ss. - 99) Jr 23, 24. - 100) Hb 11, 6. - 101) is 64, 4; cfr. 1Cor 2, 9. - 102) Aqui falta, ao que parece, uma pequena transição como, por exemplo: "A perfeição suma e absoluta é exclusiva por natureza". Se a vários coubesse simultaneamente, só poderia ser gradual e relativa. Ora, se... - 103) Dt 6, 4. - 104) Ex 20, 3. - 105) Is 41, 4; 44, 6; 48, 12; cfr. Ap 1, 17; 22, 13. - 106) Ef 4, 5; DU 1782 1801. - 107) Ex 7, 1; 22, 28; 32, 8; S181, 1-6; 94, 3. - 108) SA. - 109) Designação antiga de "Pai", conservada nas versões oficiais do Credo e do Pai-Nosso. Não convém substituí-la por "Pai", e dizer "Pai-Nosso que estais nos céus", ou ainda ver, uma mal avisada adaptação às fórmulas protestantes. Além disso, destroem a uniformidade de nossas versões oficiais. E diga-se, de passagem, que essa uniformidade foi até agora um apanágio da língua portuguesa. Não se observa em todas as línguas modernas; veja-se, por exemplo, o Pai-Nosso em francês ou a Salve-Rainha em alemão. - 110) Dt 32, 6. - 111) Ml 2, 10. - 112) Rm 8, 15. - 113) 1Jo 3, 1. - 114) Rm 8, 17. - 115) Rm 8, 29. - 116) Hb 2, 11. - 117) 1Tm 6, 16. - 118) Prefácio da SS. Trindade. - 119) Pref. da SS. Trindade. O missal diz "et in maiestate", enquanto o CRO põe "et in Trinitate". Será engano ou intenção? - 120) SQ - Pref. da SS. Trindade. - 121) Pr 25, 27. - 122) Mt 28, 19. - 123) 1Jo 5, 7. - Esta passagem é o célebre "Comma loanneum", cuja autenticidade é contestada pela maior parte dos exegetas, sem exclusão dos católicos. Falta nos antigos códices gregos, e em mais de 50 códices da Vulgata. Parece tratar-se de uma interpolação feita em data muito remota. Segundo a opinião mais comum, seria uma glosa dogmática incluída no próprio texto. Por decreto de 13 de Janeiro de 1897, a Congregação do Santo Ofício decidiu que se não podia, com certeza, negar ou por em dúvida a autenticidade. Em conversa particular com o Cardeal Vaughan, Leão XIII declarou que o decreto não coibia a continuação das pesquisas científicas. Idêntica declaração fez a Congr. do S. Offício em 2 de Junho de 1927 (DU 2198), contanto que os cientistas se submetam à decisão definitiva que a Igreja venha talvez a publicar, em momento oportuno. - 124) Sb 8, 1. - 125) Jo 1, 12. - 126) 1Ts 5, 7.- 127) Lc 16, 9.- 128) Gn 17, 1. - 129) Gn 43, 14. - 130) Ap 1, 8. - 131) Ap 16, 14. - 132) Lc 1, 37. - 133) Nm 11, 23. - 134) Sb 12, 18. - 135) Lc 1, 37. - 136) Mt 17, 20 137) Tg 1, 6-7. - 138) 1Pd 5, 6. - 139) Os 52, 6. - 140) Os 32, 8. - 141) Sb 7, 16 - 142) Lc 12, 5. 143) Lc 1, 49. - 144) SQ - DU 420 704. - 145) Os 15, 1 (texto da Vulgata); DU 706 1783 1805. - 146) Os 113, 3. - 147) Linda expressão que hoje teria ressaibo, por causa do vocabulário deísta ou maçônico. - 148) Sl 148, 5; DU 1805 428 574a. - 149) Os 8, 4. - 150) Gn 1, 14. - 151) Jo 8, 44; DU 237. - 152) Aug. de civit. Dei XII 9; DU 1783. - 153) 2Sm 14, 20. - 154) Sl 102, 20. - 155) Sl 102, 21; 23, 10; 45, 8; 58, 6; 79, 5; 83, 2; Rm 8, 38. - 156) 2Pd2, 4. - 157) Sl 103 ,5; 8, 9. - 158) Gn 1, 1 ss.; 2, 1-7; DU 717 c 1021 1023 1026 2123 1701. - 159) Sl 88, 12. - 160) Em latim são de fato duas palavras: visibilium et invisibilium. - 161) Sb 11, 26; DU 1784. - 162) Sb 8, 1; DU 254 1702. - 163) At 17, 27 ss. - Note-se como o CRO explica levemente o concurso divino, sem tocar em controvérsias, e como enaltece seu lado positivo para a vida cristã. - 164) Jo 1, 3. - 165) Gn l, 2 - 166) Os 32, 6.