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7 de maio de 2009

O SENTIDO ANAGÓGICO DA DEDICAÇÃO DE UMA IGREJA - HUGO DE SÃO VÍTOR

SERMONES CENTUM
SERMO III - SOBRE O SENTIDO ANAGÓGICO DA DEDICAÇÃO DE UMA IGREJA
HUGO DE SÃO VITOR




"Louva, ó Jerusalém, ao Senhor; Louva, ó Sião, ao teu Deus". Salmo 147, 1

Jerusalém, a cidade santa e a cidade do Santo, é a santa Igreja, que se edifica assim como se edifica uma cidade, e, já edificada, adorna-se com diversos ornamentos. Esta cidade santa, isto é, a Igreja, possui as suas paredes, o seus muro, as suas torres, os seus edifícios, as suas portas. Possui as suas pedras, que são os fiéis, os quais estão unidos entre si pela caridade assim como pelo cimento uma pedra está unida à outra. Possui o seu muro pela fortificação das virtudes, pelas quais permanece firme contra os vícios, para que estes não a assaltem e a despojem de seus bens espirituais. Possui suas torres naqueles que são sublimes pela contemplação, pois qualquer homem perfeito se ergue como uma torre na santa Igreja quando, abandonando as coisas da terra, se eleva pela contemplação às celestes. Possui edifícios menores, maiores e máximos; possui edifícios menores pela vida dos casados, edifícios maiores pela vida dos continentes, edifícios máximos pela vida das virgens. A vida dos casados, de fato, pelas obras terrenas e pelo prazer da geração gira em torno das coisas inferiores; a vida dos continentes, pelo exercício das virtudes e pelo oferecimento das boas obras se dirige para algo mais alto e a vida dos que guardam a virgindade, pela pureza do coração e pela integridade da carne se ergue até o que é celeste. Possui edifícios de pedra e edifícios de marfim. Possui edifícios de pedra naqueles que são resplandecentes pela castidade; a pedra, de fato, pela sua firmeza significa a fé, e o marfim, pela sua natureza fria, significa a castidade. Possui portas diversas, pelas quais entram homens de diversas nações e costumes; outrora distantes entre si, tornam-se agora seus cidadãos e membros de uma só família.

Possui também as suas portas, a porta do rebanho, a porta dos peixes, a porta antiga, a porta do vale, a porta do esterco, a porta da fonte, a porta das águas, a porta dos cavalos, a porta judicial, cuja significação mística, tanto quanto Deus o conceder, vo-la darei a conhecer rapidamente.

A porta do rebanho era aquela onde estava a piscina probática, isto é, a piscina das ovelhas, pois ali se lavavam as carnes das ovelhas que eram oferecidas em sacrifício. A porta do rebanho, pois, pelo fato da ovelha ser um animal inocente, significa a inocência. Por esta porta entram os culpados e se tornam inocentes: réus de culpa, tornam-se inocentes pela justiça. Estavam fora pela culpa, agora estão dentro pela justiça: fora como lobos, pela rapacidade; dentro como ovelhas, pela simplicidade. Excelente esta porta, em que tais coisas obrou a destra do Altíssimo.

Chamava-se porta dos peixes aquela porta pela qual eram trazidos os peixes provenientes do mar. Esta porta significa o arrependimento, que possui uma de suas colunas na compunção do coração e outra na confissão da boca. Por esta porta são trazidos os homens agiotados pelas inquietudes do mundo presente, amargosos pelo sal, corrompidos pelo fedor, ensoberbecidos pela elevação das ondas, ásperos pelas escamas do homem velho, conspurcados pela lama dos prazeres carnais, alheios à luz do verdadeiro Sol. Caídos na rede do bem aventurado Pedro, ou daqueles que fazem as suas vezes, removidos das flutuações do mundo, são conduzidos para Jerusalém, isto é, à Igreja, onde se lhes retiram as escamas dos pecados. Há, todavia, alguns que, à semelhança das enguias, agarram-se à pele do homem velho e aderem ao lodaçal dos vícios, freqüentemente ou sempre fugindo da rede do Senhor, nunca vindo para cima para a luz da verdade, onde morreriam para si, mas ganhariam vida nova e viveriam para Deus.

A porta antiga é a caridade, conforme está escrito:


"Caríssimos, não vos escrevi um mandamento novo, mas um mandamento velho, que vós recebestes desde o princípio". I Jo 2, 7

Entram por esta porta aqueles que passam do amor do mundo para o amor de Deus. Por esta porta entrou Maria Madalena a qual, depois de tantos e tão grandes escândalos carnais, de vaso de ignomínia transformou-se em vaso de glória.

A porta do vale, que estava diante do Vale de Josafá, significa a humildade. Por esta porta entram aqueles que da soberba do demônio se voltam para a humildade de Cristo. Fora se consideravam sublimes, dentro se tornam humildes. Fora, pelo seu orgulho, se assemelhavam ao cedro; dentro, pela humildade, se assemelham ao hissopo. Afastados de Deus pelo orgulho, convertidos a Ele pela humildade, esta porta produz uma profunda conversão.

A porta do esterco, que estava na parte inferior da cidade, pela qual eliminavam-se os detritos, significa a excomunhão. Por esta porta não entram, antes são expulsos, aqueles que pelas suas culpas se tornaram a si mesmos próprios como o esterco. Não convém, de fato, que habitem juntos o cabrito e o cordeiro, o pecador e o justo, o puro com o imundo, o adúltero com Cristo, para que não aconteça que o justo, incentivado pelo exemplo do pecador, estenda as suas mãos à iniqüidade.

A porta da fonte era assim chamada porque estava diante da fonte de Siloé. Siloé significa Enviado, e significa Cristo, a quem o Pai enviou para a salvação do gênero humano. Esta fonte é o próprio Verbo de Deus, em cuja corrente bebem os sedentos, saciam-se os famintos, são chamados de volta os antes desprezados, recobram a saúde os doentes, reconciliam-se os inimigos, libertam-se os cativos, justificam-se os ímpios, alcançam a bem aventurança os pobres. A porta de Siloé é, portanto, a fé em Cristo. Fora dela estão aqueles que não alcançaram a fé; dentro dela estão os fiéis, membros de Cristo, unidos a Cristo pela fé, enquanto vivem na esperança de serem bem aventurados com Ele na glória.

A porta das águas significa a compunção. Aqueles que por ela entram nela são lavados. Sórdidos quando estavam fora, aqui tornam-se limpos; de negros que eram, tornam-se alvos. Antes cabritos, agora cordeiros.

A porta dos cavalos significa a vitória sobre os vícios. Os que ingressam por ela vencem, pelo freio da temperança, o ímpeto da ira, a cobiça da avareza, a voracidade da gula, o fluxo da luxúria.
A porta judicial significa o discernimento. Aqueles que passam por ela distingüem entre o sagrado e o profano, entre o puro e o imundo, entre o verdadeiro e o falso, entre o bem e o mal, entre a justiça e a culpa, entre a verdade e a mentira, entre o honesto e o desonesto.

Bem aventurado o que entra por estas portas. Esforcemo-nos, irmãos caríssimos, esforcemo-nos para sermos cidadãos de tão gloriosa cidade, e nela imolar a Deus nosso Senhor um sacrifício de louvor, oferecendo-lhe o novilho de nossos lábios, a Ele, que vive e reina pelos séculos.

Amén.

6 de maio de 2009

O SENTIDO MORAL DA DEDICAÇÃO DE UMA IGREJA - HUGO DE SÃO VITOR

SERMONES CENTUM
SERMO II - SOBRE O SENTIDO MORAL DA DEDICAÇÃO DE UMA IGREJA
HUGO DE SÃO VITOR



"O Altíssimo santificou o seu tabernáculo". Salmo 45, 5

O tabernáculo do Senhor, no sentido moral, é a alma. A alma, que é dita tabernáculo do Altíssimo, possui as suas pedras, o seu cimento, e todas as demais coisas que pertencem à construção da Igreja, conforme o descrevemos no sermão precedente. As pedras deste tabernáculo são cada uma das virtudes, bem polidas pelo seu exercício, e estáveis pela sua imobilidade contra os vícios. O cimento é a caridade, pelo qual todas as demais virtudes se abraçam, se unem, se equiparam e em que estão contidas. O fundamento é Cristo, conforme diz o Apóstolo:

"Ninguém pode por outro fundamento senão o que foi posto, que é Jesus Cristo". I Cor 3, 11

Possui paredes pela contemplação dos bens celestes, pelas quais inere mais proximamente a Cristo, seu fundamento, afastada dos afetos terrenos. Possui também um teto pelas boas obras, pelas quais, visando o que é eterno, administra aos necessitados o que é temporal. Possui comprimento pela fé, pela qual crê ser verdade tudo quanto Deus fêz ou fará por si mesmo, pelos anjos ou pelos homens desde o início até o fim dos tempos. Possui atura pela esperança, pela qual se ergue do que é terreno ao que é celeste, do que é passageiro ao que é eterno, do que é visível ao que é invisível, do que é corporal ao que é espiritual. Possui largura pela caridade, pela qual se dilata à direita e à esquerda, à direita para amar aos amigos em Deus, à esquerda para amar aos inimigos por causa de Deus.

Possui sacrário, pelo qual foi feita à imagem de Deus. Assim como no edifício da Igreja nada possui maior dignidade do que o sacrário, assim também na alma nada é mais santo, mais nobre ou mais excelente do que a divina imagem. Possui o seu coro, por ter sido feita à semelhança de Deus. Assim como na Igreja, em que depois do sacrário a primeira coisa que se encontra é o coro, assim também na alma, depois da divina imagem entendemos nada haver de mais sublime do que a divina semelhança. Possui a sua nave pela vida dos sentidos. Assim como na nave da Igreja ficam os casados, assim também encontramos na vida sensitiva os cinco sentidos do nosso corpo, que podem ser chamados de casados porque se estendem às coisas terrenas pelo exercício do conhecimento e às delícias dos prazeres pela experiência natural. Possui o seu átrio pela carne, na qual os impulsos de que se originam os vícios são como os cadáveres da morte. Possui um altar em seu coração, do qual está escrito:

"Não desprezarás, ó Deus, um coração contrito e humilhado". Salmo 50, 19

Possui janelas vítreas em seus sentidos espirituais, pelos quais é iluminada pelos raios do verdadeiro Sol e se liberta da cegueira de sua ignorância. Possui uma torre no nome do Senhor, da qual está escrito:

"O nome do Senhor é uma torre fortíssima, a ele se acolhe o justo, e encontra um refúgio elevado". Prov. 18, 10

Possui sinos pela pregação, pela qual chama ao culto divino os que estão distantes. Possui uma pintura interior pela pureza do coração, e outra exterior pela pureza do corpo. Possui doze velas, pelas quais é iluminada segundo a doutrina dos doze apóstolos, pela qual é enriquecida no conhecimento da fé pelas boas obras.

Seu pontífice é a Santíssima Trindade. O Pai circunda- a pela potência, o Filho pela sabedoria, o Espírito Santo pela benignidade. O Pai pela potência infundiu-lhe o temor, o Filho pela sabedoria conferiu-lhe o conhecimento, o Espírito Santo pela benignidade conferiu-lhe a consolação. O Pai lhe diz:

"Eu fiz o céu e a terra, o mar e todas as coisas que há neles. Não poupei aos anjos pecadores. Expulsei Adão do paraíso. Fiz perecer a primeira humanidade pelo dilúvio. Destruí Sodoma e Gomorra. Submergi o Faraó com o seu exército. Puni o povo de Israel ao ter pecado. Abre-me a tua porta, pois, para que assim também não aconteça contigo".

O Filho lhe diz:

"Eu sou a sabedoria de Deus, saída da boca do Altíssimo. Atinjo fortissimamente desde uma extremidade a outra (Sab. 8,1). Sou a palavra de Deus viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes. Abre-me, pois, a tua porta, para que não suceda que não te poupe".

O Espírito Santo lhe diz:

"Eu procedo do Pai e do Filho, sou o amor de ambos. Levanto os que caem, consolo os feridos. Abre-me, pois, a tua porta; se queres, farei a tua felicidade pela alegria espiritual".

Porém estes três são um só Deus, assim como são um único pontífice. Deste modo a Santíssima Trindade santifica esta Igreja internamente e externamente; internamente purificando-a das manchas do espírito, externamente purificando-a das manchas da carne.

Esforçai-vos, portanto, irmãos caríssimos, cada um de vós esforçai-vos, dizia eu, para que, segundo as coisas que acabamos de mencionar, se construa um tabernáculo de Deus, para que nele Deus se digne habitar. Grande, de fato, é a honra, grande a segurança, grande é a glória de se possuir a Deus habitando em nós. Seja para nós a maior de todas as obras fazer com que sejamos tais interna e externamente, internamente pela fé, externamente pela boa obra, para que o Deus da majestade se digne vir a nós e em nós fazer a sua casa. Mas porque não poderemos ser assim sem a sua graça, é necessário que a imploremos incessantemente pela oração. O Senhor nos dará a graça, e não apenas a graça, como também a glória: a graça nesta vida, a glória na pátria celeste; a graça no mundo, a glória no céu; a graça no presente, a glória no futuro; a graça no caminho, a glória na chegada; a graça no tempo, a glória na eternidade; a graça na justificação, a glória na bem aventurança; a graça no mérito, a glória no prêmio do mérito, no qual Ele vive e reina por todos os séculos dos séculos.

Amén.

5 de maio de 2009

O SENTIDO ALEGÓRICO DA DEDICAÇÃO DE UMA IGREJA - HUGO DE SÃO VITOR

SERMONES CENTUM
SERMO I - SOBRE O SENTIDO ALEGÓRICO DA DEDICAÇÃO DE UMA IGREJA
HUGO DE SÃO VITOR


"O Altíssimo santificou o seu tabernáculo". Salmo 45,5

Irmãos caríssimos, o tabernáculo do Senhor, isto é, a santa Igreja, possui suas pedras, seu cimento, seus fundamentos, suas paredes, seu teto, seu comprimento, largura e altura, seu santuário, seu coro, sua nave, seu átrio, seu altar, sua torre, seus sinos que soam, suas janelas de vidro, sua pintura interior e exterior, suas doze velas, seu pontífice que a dedica. Todas estas coisas que mencionamos são plenas de sacramentos, e são para nós documentos de realidades espirituais. Cada uma de suas pedras são cada um daqueles que crêem em Cristo, quadradas e firmes, quadradas pela estabilidade da fé, firmes pela virtude da paciência. O cimento é a caridade, que acomoda entre si cada um dos indivíduos, os une e vivifica e, para que não destoem entre si por alguma discórdia, nivela-os em um mesmo plano. Os fundamentos são os profetas e os apóstolos, conforme está escrito:

"Edificados sobre o fundamentos dos apóstolos e dos profetas, sendo o mesmo Jesus Cristo a principal pedra angular". Ef. 2, 20

As paredes são os contemplativos, edificados sobre o fundamento de Cristo, que se afastam do que é terreno e aderem ao que é celeste. O teto neste edifício espiritual não se destaca por estar no alto, mas por pender para baixo, por diferir no material de que é feito o restante do edifício, e por possuir uma disposição distante e dessemelhante do mesmo: são os ativos, próximos das ações terrenas, menos preocupados com as coisas celestes por causa de suas imperfeições, que administram as coisas terrenas conforme as necessidades do próximo. O comprimento da santa Igreja é considerado segundo a longa duração do tempo; a largura, segundo a multidão do povo; a altura, segundo a diferença dos méritos. De fato, a Igreja se estende em comprimento segundo três tempos, o tempo da lei natural, o tempo da lei escrita e o tempo da graça, que abarca desde o primeiro até o último justo. Estende-se também em largura, na medida em que se dilata pela numerosidade de muitos povos. Ergue-se em altura, na medida em que se eleva pela diferença entre os menores e os maiores. Podemos também dizer que o comprimento da santa Igreja vai do oriente até o ocidente, e sua largura do setentrião até o meridião. De seu comprimento foi dito:

"Virão muitos do oriente e do ocidente que se sentarão com Abraão, Isaac e Jacó no reino dos céus". Mat. 8, 11

De sua largura foi dito:

"Eu direi ao aquilão: dá-mos cá; e ao meio dia: não os retenha; traze os meus filhos de países remotos, e minhas filhas das extremidades da terra". Is. 43, 6

E de ambos foi dito:

"Levanta-te e recebe a luz, Jerusalém, levanta em roda os olhos, e vê: teus filhos virão de longe, e tuas filhas surgirão de todos os lados". Is. 60, 1-4

A altura também pode ser considerada segundo os graus de dignidade. A Igreja de fato se ergue para o alto na medida em que sobre os leigos está colocada a ordem sacerdotal, e sobre a sacerdotal a episcopal, e sobre esta a arquiepiscopal, e sobre todas finalmente está colocado o Papa, bispo dos romanos. O sacrário significa a ordem das virgens; o coro, a ordem dos continentes; a nave, a ordem dos casados. O santuário, de fato, é mais estreito do que o coro, e o coro é mais estreito do que a nave, assim como menor é o número das virgens do que o dos continentes, e o dos continentes menor do que o dos casados. O lugar do santuário também é mais sagrado do que o coro, e o do coro mais do que o da nave, assim como o coro das virgens possui maior dignidade do que a ordem dos continentes e a ordem dos continentes possui maior dignidade do que a dos casados. O átrio são os falsos cristãos, que foram santificados pelo fato de terem sido batizados, mas são plenos da podridão dos cadáveres por estarem plenos da corrupção dos vícios. Deste átrio foi escrito:

"Mas o átrio, que está fora do templo, deixa-o de parte e não o meças, porque ele foi dado aos gentios"; Apoc. 11, 2

pois os falsos cristãos serão condenados juntamente com os gentios, e serão entregues aos demônios para serem punidos.

O altar é Cristo, sobre o qual oferecemos não apenas o sacrifício das boas obras, mas também das orações, quando dizemos, na celebração da missa:

"... por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo".

A torre da Igreja é o nome do Senhor, sobre o qual está escrito:

"O nome do Senhor é uma torre fortíssima, a ele se acolhe o justo e encontra um refúgio elevado". Prov. 18, 10

Os sinos são os pregadores, que anunciam a palavra de Deus. As janelas de vidro são os homens espirituais, pelos quais resplandece sobre nós o conhecimento divino. A pintura interior significa a pureza do coração; a exterior, a pureza do corpo. As doze velas são os doze apóstolos, que pregaram pelas quatro partes do mundo o estandarte da cruz e a fé na paixão de Cristo.
A estes segue-se o pontífice, que significa o próprio Cristo, que circundou a sua Igreja, primeiro no tempo da lei natural ensinando-a através dos patriarcas, depois no tempo da lei escrita ensinando-a pelos profetas e finalmente, no tempo da graça, por si próprio, circundando-a e nela entrando, externamente ensinando-a pela doutrina, internamente santificando-a pela graça. No primeiro circuito ele disse:

"Não comereis carne com sangue". Gen. 9, 4

No segundo disse:

"Não matarás". Ex. 20, 13

No terceiro disse:

"Ouvistes o que foi dito aos antigos: `Não matarás'. Eu, porém, vos digo que todo aquele que se irar contra seu irmão será réu de julgamento". Mat. 5, 21-2

Muitos julgam estarem contidos no interior deste edifício pela santidade, estando na realidade longe e afastados dele pela maldade. Fora dele estão os impuros, os fornicadores, os concubinários, os adúlteros, os incestuosos, os ébrios, os usurários, os avarentos, os ladrões, os desonestos, os possuídos pelo ódio, os homicidas, os mentirosos, os perjuros, e todos aqueles que

"chamam ao seu irmão de louco", Mt. 5, 22

e que

"olham para uma mulher cobiçando-a". Mt. 5, 28

Estes não são nem pedras, pois não participam da caridade. Procuremos, pois, irmãos, viver uma tal vida que possamos ser pedras de Deus. Que a isto se digne de nos ajudar aquele que vive e reina por todos os séculos dos séculos.

Amén.