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31 de maio de 2015

Comungai Bem - Padre Luiz Chiavarino.

PODEMOS SER GENEROSOS

D. — Padre, será possível a repetição de tais exemplos de generosidade?
M. — De certo. Podem e devem ser repetidos por muitas almas generosas, inflamadas de amor por Jesus Cristo.
D. — Mas, nem em toda parte se encontram Padres tão zelosos e jovens de tanta virtude.
M. — Se não existem vigários e jovens tão entusiastas, pelo menos deveriam existir. A falta de tais jovens numa cidade já é um atestado certo de um castigo e no mais das vezes a prova do abandono de Deus.
Comunismo, socialismo, maçonaria, maus costumes, irreligião, não são sinais evidentes do abandono de Deus e muitas vezes do caminho certo que conduz à perdição eterna?
Apressemo-nos em reparar nossas faltas: o caminho mais seguro para isso é a Comunhão. Assim o assegurou Jesus Cristo pela boca do Papa Pio X, o Papa da Eucaristia.
Ouça a história. Este Papa, em poucos anos, de 1905 a 1910, promulgou cerca de oito decretos com o fito de estimular a todos, até às crianças e aos enfermos para que comungassem com frequência. Pois bem, poucos dias antes de lançar o último decreto, enquanto estava fazendo a ação de graças após a Missa, repentinamente o aposento em que se iluminou de uma luz celestial, e no meio da luz apareceu Jesus Cristo, que congratulando-se com ele lhe disse: — Muito bem, meu bom Vigário. Estou muito contente com a tua obra em prol da comunhão frequente, entre as crianças e adultos.
Em seguida, continuando no mesmo tom, disse: — Mas, ainda não basta. Deves fazer ainda mais, pois que somente a comunhão poderá salvar o mundo nesses dias tão difíceis que estão para vir.
D. — Coisa admirável, Padre. E esse fato é fidedigno?
M. — Sem nenhuma dúvida, pois foi publicado e verificado pelo Cardeal Merry Del Val, então secretário do estado que teve a felicidade de presenciar a aparição.
Calcule, pois, se após tantos testemunhos, não devemos organizar uma Cruzada em prol da Comunhão frequente. Devemos trabalhar até ao ponto em que os Cristãos convencidos disso, exclamem: — Se esta é a vontade de Deus, se assim o quer o Vigário de Jesus Cristo, nós também o queremos, embora à custa dos maiores sacrifícios.
Do contrário, se formos negligentes em receber frequentemente a Comunhão corremos risco de ouvir no dia do juízo final aquele terrível anátema divino, que equivale a uma condenação eterna — Não vos conheço!
* * *
São João Bosco foi sem dúvida alguma o maior incentivador da Comunhão frequente. Pois bem, um dia apresentou-se-lhe um dos seus alunos mais fervorosos e devotos e contou-lhe o seguinte sonho:
Parecia-lhe haver morrido e se achar na presença de Jesus, a fim de ser julgado. Ficou, porém, assombrado com o rosto divino que tomando aspecto ameaçador lhe perguntou:
— Quem és tu?... Não te conheço.
O jovem, trêmulo e surpreendido respondeu:
— Como, meu Jesus? Não me conheceis, após vos ter amado e servido tanto na terra? Após tantas vezes ter implorado o vosso amor?
— Sim, — respondeu Jesus — Eu sei que muito me amaste e serviste, porém pouquíssimas vezes me recebeste na Santa Comunhão.
E quase ia repetir o horrível "Não te conheço" quando o jovem entre lagrimas o interrompeu com estas palavras:
— Meu Jesus, daqui para a frente não será mais assim.
Acordei — terminou o jovem — suado e impressionado. Imediatamente corri para aqui para que o senhor me tranquilize.
Dom Bosco, olhando-o com suma complacência, disse-lhe:
— Bem, meu filho, agora já sabe qual é a vontade de Jesus Cristo, e o seu desejo mais ardente: Comungue, pois, o mais frequentemente possível e assim não haverá perigo de que Jesus em atitude ameaçadora lhe diga: Não te conheço.
Só assim o jovem ficou satisfeito e tranquilo.
Eis aqui, pois, o meio mais adequado para sermos reconhecidos e amados por Jesus Cristo: Frequentar a Santa Comunhão com a maior generosidade.
D. — Padre, agora estou convencidíssimo da necessidade dessa generosidade ampla e desinteressada para com Jesus Cristo, tão bondoso para nós. Porém, será necessário formar em todos os lugares essas almas generosas?
M. — É coisa indispensável. Ou se formam essas almas, ou será preciso renunciar ao desejo de possuir almas verdadeiramente cristãs, prodígios de fé e de amor para com Jesus Cristo.
D. — Quem não sente o desejo e a necessidade de se unir a Jesus Cristo por meio da comunhão menos ainda sentirá o desejo e a necessidade de viver cristãmente, não é, Padre?
M. — Exatamente. E outro requisito necessário para que a Comunhão seja estimada e apreciada é o de cuidar da formação de almas puras e santas, como veremos em seguida.

12 de março de 2015

Confessai-vos Bem - Padre Luiz Chiavarino.

Oração pelo próprio confessor

Deus, pois que, com a vossa solicitude paterna, me destes para guardião e guia um
vosso tão digno Ministro, concedei-me ainda a graça de por em prática os seus sábios
ensinamentos, afim de que eu consiga conquistar todas as virtudes, que, para a Vossa glória e
para a minha salvação devem resplandecer em mim.
Peço-Vos para ele, ó Senhor, a mais ardente caridade, o zelo mais iluminado, a
santidade mais sublime e a consolação inefável de conduzir para o Vosso amorosíssimo
Coração um imenso exército de almas que Vos bendigam, Vos amem, e que formem para
sempre no Paraíso a sua gloriosa coroa. Assim seja.

11 de março de 2015

Confessai-vos Bem - Padre Luiz Chiavarino.

Quem quer e quem não quer ou seja desculpas e pretextos

D. — Quanto a mim, estou plenamente convencido de tudo o que foi dito até aqui e
das excelentes vantagens da Confissão bem feita e freqüente; mas há também muitos que, ou
por não a freqüentarem sempre, ou por não a freqüentarem nunca, arranjam desculpas e
pretextos: o senhor quer ter a bondade de me sugerir um modo de combatê-los e convence-los?
M. — De boa vontade. Exponha as "desculpas e pretextos" de uns e de outros.
D. — "Eu não tenho pecados para confessar", dizem alguns.
M. — Será verdade?... O Espírito Santo diz que até o justo peca sete vezes por dia e
São João Evangelista escreve: "Se dissermos que não temos culpas enganaremos a nós
próprios e em nós não haverá verdade. Os que dizem que não têm pecados para confessar são
pobres cegos que não conhecem a própria miséria e, se não a conhecem, é justamente porque
não se confessam com bastante freqüência. As pessoas asseadas não toleram nem as
pequeninas manchas. Mas as pouco asseadas não se apoquentam nem com manchas grandes
e nem com sujeira.
Um oficial perguntou certa vez a um sacerdote:
—Diga-me uma coisa, Padre: Quem não peca é obrigado a se confessar?... Eu nunca
me confesso porque nunca peco.
O sacerdote respondeu de pronto:
— Senhor oficial, eu só conheço duas categorias de pessoas que não pecam: crianças,
que ainda não atingiram a idade do uso da razão e... os loucos que, infelizmente, já o
perderam.
D. — "Eu não sei o que dizer ao Confessor."
M. — É muito simples. Mesmo quando não tiverem nem roubado, nem morto, nem
odiado, nem dado escândalo, etc... e na sua consciência um tanto grosseira não tiverem
achado nem mesmo pequenas mentiras, murmurações, maledicências, pensamentos inúteis,
afeições, distrações, omissões, negligências e outras muitas coisas parecidas, apresentem-se
do mesmo modo ao Confessor e declarem simplesmente que não sabem o que lhe dizer.
Podem estar certos de que, com a sua caridade e prudência ele saberá fazer cora que
descubram o que não foram capazes de achar. Além disso, ele terá sempre muitas coisas para
lhes dizer, muitos conselhos para lhes dar e também um pouco de penitência, de modo que,
quando o deixarem, estarão melhorados, terão mais fervor, sentir-se-ão satisfeitos e felizes
pelo contacto que tiveram com Jesus, cujo ministro é o Confessor.
D. — "Não tenho a tranqüilidade suficiente para isso.
M. — Vocês têm desgostos, preocupações, aborrecimentos? Vão a ele do mesmo
modo. O Confessor terá compaixão de vocês, será caridoso, ajuda-los. Deus não exige mais
do que lhe podem dar. Os Sacramentos é que são feitos para os homens e não os homens
para a grandeza dos Sacramentos. Coragem e boa vontade e, sobretudo confiança no
Confessor e em Deus.
D. — "Não tenho tempo e nem facilidade para me confessar frequentemente".
M. — Outra desculpa que não serve. Querer é poder! Quantas coisas não se fazem,
mesmo à custa de sacrifícios, para o bem corporal, para a saúde, para os interesses? Será que
para a nossa alma não havemos de querer fazer nada? Tratemo-la ao menos como o pobre
cadáver do nosso corpo. Aliás, o tempo gasto com a alma, Deus o recompensa generosamente
mesmo aqui na terra.
Um dia um campônio forte e sadio foi confessar-se com um padre jesuíta.
A primeira pergunta do confessor foi:
— Há quanto tempo não se confessa?
— Há dez anos!
— E agora está disposto a se confessar bem?
— Estou, Padre!
— Dê-me então dez cruzeiros!
— Como? dez cruzeiros? Mas eu sempre ouvi dizer que não se paga nada pela
confissão.—
Não se paga nada, rebateu o sacerdote, e o Sr. vem se confessar só de dez em dez
anos?
Compreendeu o campônio a justa repreensão, pediu humildemente perdão e prometeu
freqüentar melhor os Sacramentos.
D. — "Eu não tiro proveito algum da confissão; estou sempre do mesmo jeito".
M. — Não são vocês que o devem julgar, mas o Confessor. De mais a mais, essa é
uma argumentação às avessas. Se não se confessarem ou se o fizerem raramente, não ficarão
sempre do mesmo jeito, mas se tornarão certamente cada vez piores, sem darem por Isso.
D. — "Muitas vezes, eu não tenho coragem para me confessar, porque o Confessor
me conhece".
M. — Mas quem é que os obriga a se confessarem com um Confessor que os
conhece? Há tantos por aí que nem se quer sabem se vocês existem ou não; procurem um
desses e confessem-se com sinceridade e sem medo.
D. — "Mas o que direi ao meu Confessor quando voltar para ele?"
M. — Digam-lhe o mesmo que das outras vezes, sem mencionar os pecados
absolvidos pelo outro. O melhor, porém seria escolher um Confessor de plena confiança com
o qual poderiam ser absolutamente sinceros.
D. — "E quando não for possível, por não haver outros?"
M. — Se vocês tivessem uma ferida mortal, se por engano tomassem veneno, será
que não correriam logo à procura de um médico ou cirurgião qualquer, a custa de qualquer
sacrifício, contanto que pudessem salvar-se?
Pois bem, façam o mesmo para tirar logo da alma o veneno do pecado, recorrendo, a
contra-gosto se for preciso, ao Confessor de sempre.
D. — "O quê dirá ele de mim?"
M. — Dirá que você também é humano como os demais; admirará a sua coragem, a
sua humildade, a sua sinceridade; ficará satisfeito ao pensar que merece toda a sua confiança;
o seu afeto e a sua estima por você serão aumentados. De mais a mais, ele que diga o que
bem entender, contanto que o seu coração fique em paz!
D. — Outros então — e são os que têm menos vontade — vão repetindo: "Para quê
me confessar?"
M. — Porque Deus assim o quer! Porque você tem necessidade disso!... Porque é só
mediante a Confissão que obteremos o perdão e a verdadeira paz de espírito!... Porque os
pecados são punidos com penas eternas!
Riam-se e neguem à vontade que nunca conseguirão destruir o inferno e a eternidade,
Deus e a sua justiça, a alma e a sentença que a espera.
Para quê se confessar? Porque vocês têm necessidade de ouvir palavras de um amigo
que lhes diga toda a verdade, sem rodeios nem enganos. Porque longe da Confissão, vocês
acabarão tendo uma morte desgraçada e uma eternidade infeliz!
D. — "Eu não creio na Confissão".
M. — Confessem-se, e acreditarão, como acreditaram muitos que antes eram
incrédulos como vocês; como acreditaram os homens mais célebres, os mais insignes
cientistas, os mais importantes personagens.
Um dia, um senhor apresentou-se ao Santo Cura de Ars para vê-lo e para falar-lhe.
As primeiras palavras do visitante o Padre respondeu:
— Ponha-se aqui no confessionário e confesse-se. — Mas... continuou o visitante, eu
não creio em nada.
— Não importa, eu creio pelo senhor; confesse-se.
— Acredite, Padre, que não há nada no mundo mais ridicularizado e detestado do que
a confissão.
Desculpas e rodeios foram inúteis: com suave insistência o Santo Cura obrigou-o a
ajoelhar-se e o ajudou na confissão. Assim que terminou, o homem se levantou alegre,
exclamando:
— Agradecido, Padre; eu creio!... estou plenamente satisfeito! O Sr. não podia
causar-me maior benefício!...
D. — "Não sei me confessar".
M. — Nada mais fácil para quem tem boa vontade! Do mesmo modo que confiam ao
médico as dores de cabeça ou de estômago, confiem ao Confessor os males da alma. De
qualquer maneira, apresentem-se a ele, que os livrará de todo e qualquer embaraço.
D. — "Eu não me confesso, porque, se o fizesse fariam caçoada de mim, me
chamariam de beato, de clerical, e de não sei que mais".
M. — Oh, soldado de papelão! Onde está o seu valor? Se o mundo estivesse cheio de
beatos e clericais, haveria menos roubos, menos fraudes, menos escândalos, menos cárceres
e penitenciárias. Se todos se confessassem haveria mais honestidade, mais decoro, mais
segurança individual e coletiva e — diga-mo-lo francamente — maior bem estar e civilidade!
Aliás, se lhes falta mesmo a coragem, quem os obriga a se fazerem ver? Vão quando e onde
não sejam vistos.
D. — "Não me confesso, porque não tenho confiança nos padres da minha paróquia".
M. — Seja, mas porque não procuram outros? Muitos o fazem, por ocasião de festas,
feiras, mercados e voltam para casa satisfeitos e felizes. Para arrancar um dente vocês são
capazes de maiores sacrifícios, procedam do mesmo modo para arrancar os pecados! E se
lhes acontecesse uma desgraça? Se adoecessem grave e repentinamente? o quê fariam? Será
que haveriam de querer morrer assim, sem Sacramentos, ou, ainda pior, com Sacramentos
mal recebidos? Afastem pois esses temores de criança; a salvação da alma antes de tudo!
D. — "Não posso deixar esse pecado".
M. — Então vocês querem ir para o inferno, para toda a eternidade? Querem, em
troca de míseras satisfações, continuar a injuriar a Deus e a causar pesar a Jesus?
D. — "Não posso deixar essa pessoa".
M. — Maldita seja essa pessoa que é causa de pecado! Mas será que vocês calculam
não deixá-la nem com a morte? Será que pretendem levá-la para além do túmulo, para o
juízo, para a eternidade? Não vêm que ela os desonra, os envergonha, os arruína? É
preferível dizer de uma vez que não querem! Lembrem-se da história do que cedeu à sova.
D— "A confissão é uma invenção dos padres".
M. — Ah, é? Vocês falam sério?! Têm mesmo certeza? Pois bem, citem os nomes!
Conhecem-se todos os inventores de todas as maiores descobertas, portanto, não seria difícil
saber o nome de quem inventou a confissão. Que venha o nome!
Mas vocês se calam. Digam-me, ao menos, o ano, a época, o lugar de tal invenção.
Vocês continuam calados: não sabem, nem nunca o saberão, porque não existe. Isso é
mentira, grande mentira! E vocês deixam-se enganar por alguns indignos desprezíveis que,
por não crerem, negam, desprezam, mentem sabendo que mentem?
D. — "Os que se confessam são piores do que os outros".
M. — Eis a grande objeção! Pois bem eu o reconheço em parte e digo: Alguns o são,
mas por se confessarem mal, o que é para eles vergonhoso. Mas absolutamente não é esse o
caso da maior parte, digo mesmo da grande maioria. Se Deus tivesse a complacência de
descobrir em praça pública o estado real das almas, que enorme diferença notaríamos entre
as que se confessam e as que o fazem raramente ou nunca. É o mesmo que duas fazendas
idênticas e usadas da mesma maneira, das quais uma é sempre lavada e a outra não.
Naturalmente, se tomarem para exemplo os piores dos que se confessam e os
compararem com os melhores dentre os que não se confessam, o resultado os satisfará. Mas
comparem os bons com os bons, os maus com os maus e verão que a coisa muda de aspecto.
É preciso considerar o conjunto e não os indivíduos em particular. Sobre cem pessoas que se
confessam poderão encontrar duas, talvez dez más; mas sobre cem que não se confessam
encontrarão mais de noventa, justamente porque não freqüentam a confissão.
Gallerani, escreve:
"Se deitamos um olhar sobre os países e as cidades, veremos com nossos próprios
olhos os ladrões, os sicários, os assassinos, as mulheres infiéis, as libertinas, as que se
vendem, e enfim toda essa imundície que enche e infeta os cárceres e as penitenciárias, sai de
lugares bem diferentes das fileiras dos que se confessam".
São estas as palavras de um contemporâneo ilustre:
"Filhos, injuriai a confissão, se quiserdes, mas lembrai-vos de que foi ela que fez com
que vossas mães amassem as aflições que a vossa infância lhes custou. Injuriai a confissão, ó
maridos; mas lembrai-vos de que é ela que mantém vossas mulheres firmes e imaculadas
durante a vossa ausência. Injuriá-la, ó pobres, mas é ela que faz descer sobre vós, com maior
delicadeza e abundância, a caridade do rico. Injuriai-a, á ricos, mas é ela que, melhor do que
todas as leis humanas, garante e salva os vossos bens e os vossos direitos sempre tão
ameaçados".
Reflitam também sobre três fatos gerais que todos percebem facilmente:
1) É verdade ou não que todos os que se confessam dão mostras de que têm intenção
de se conservar no caminho dos bons costumes e, mesmo quando já caíram dão a perceber
que tencionam ressurgir?
2) É ou não verdade que, aquele que se quer deixar levar à mercê do vício abstêm-se
logo da confissão e vai engrossar as fileiras dos que já não se confessam mais?
3) É ou não verdade que, todo o indivíduo que quer voltar para o bom caminho
começa por recorrer ao ministério do Sacerdote, à Confissão?
"Pois bem, se isso é verdade; exclama o supra citado Padre Gallerani, temos o direito
de concluir que na cidade de Deus, onde se pratica a confissão, há bem mais virtude do que
na cidade do mundo onde não se freqüentam os Sacramentos. Pelo contrário, na cidade do
mundo, onde não se pratica a confissão, há uma soma de vícios muito mais alta do que na cidade
de Deus, onde é praticada".
Oh! como é fácil compreender que todas essas dificuldades sobre a confissão partem
do coração e da paixão, e não da razão. Afastem os vícios do coração, façam calar as paixões
e amanhã mesmo confessar-se-ão com os outros aos pés do Sacerdote.
D. — Muito bem Padre: guardarei todas essas belas respostas e, de agora em diante,
todas as vezes que eu ouvir despropósitos e horrores sobre a confissão, saberei servir-me
delas e responder pelas rimas.
M. — Quanto a você, tenha sempre gravadas na memória estas palavras de São
Paulo:
"Mesmo que um Anjo baixasse do Paraíso para dizer coisas contrárias ao Evangelho,
e, portanto, contrárias à confissão, não creias nem no Anjo". Assim, você será sempre um
bom cristão — e é o que lhe desejo de todo o coração — porque a confissão é vida e luz.
Um professor convertido há pouco, encontra casualmente um sacerdote; olha-o
atentamente, e depois, cumprimentando-o gentilmente, exclama:
— O senhor é o meu confessor!...
— Mas... eu não tenho certeza, responde o sacerdote um tanto incerto.
— Sim, o senhor é o meu confessor, eu, o estou reconhecendo. Devo-lhe a minha
felicidade, porque a confissão é vida e luz! Quem não se confessa não podo ser crente nem se
pode gabar de ter fé.
Diante dessa cena comovente, um advogado que havia muitos anos não comungava
pela Páscoa, comovido até o fundo da alma, decidiu experimentar também, e acabou
persuadindo os seus amigos a seguirem o seu exemplo, para que se convencessem também
de que a confissão é vida e luz.

10 de março de 2015

Confessai-vos Bem - Padre Luiz Chiavarino.

Confissão geral

D. — Padre, uma última pergunta. O quê é a Confissão geral?
M. — Chama-se confissão geral a revisão de todas as culpas cometidas durante a
vida, ou em grande parte dela.
D. — E a confissão geral é necessária?
M. — Para muitos pode ser necessária; para outros é somente útil, enquanto que para
alguns é nociva.
D. — Em que caso é necessária?
M. — É necessária quando as confissões precedentes foram sacrílegas ou então
nulas.
D. — E quando é que as confissões são sacrílegas? e quando são nulas?
M. — As confissões são sacrílegas quando se calaram propositadamente culpas
graves, sabendo que linha obrigação de confessá-las; ou então quando não sentimos a dor
necessária ou não fizemos o propósito de evitar o pecado no futuro. São nulas, quando o
penitente ignorava essa falta de dor e de propósito.
D. — Então, quais são os que têm necessidade de uma confissão geral?
M. — Tem necessidade absoluta de fazer uma confissão geral, quem, seja por
malícia, seja por vergonha, calou ou negou nas confissões precedentes algum pecado mortal
ou então alguma circunstância que muda a espécie do pecado; ou não indicou com precisão o
número dos pecados mortais que conhecia bem; ou exprimiu suas culpas ao confessor de tal
modo que ele não as compreendeu; ou então o enganou com mentiras graves quando
respondeu às suas perguntas.
D. — Tenha a bondade de me explicar tudo com exemplos.
M. — Suponhamos que um coitado tenha escondido, desde as primeiras vezes que se
confessou certos pecados por vergonha de os expor. Mesmo que, em seguida, tenha
manifestado sempre todas as outras culpas, todavia, por não ter corrigido as primeiras
confissões más, nenhuma das seguintes é considerada bem feita. Essa pessoa tem portanto
absoluta necessidade de repará-las todas com uma confissão geral, na qual deve acusar
também todos os sacrilégios cometidos.
Suponhamos que uma outra pessoa tenha cometido certos pecados de más obras, e
que, ao acusá-los tenha somente dito que teve maus pensamentos. Essa também se confessou
mal e precisa de uma confissão geral.
Suponhamos ainda que outro indivíduo tenha tido não só a infelicidade de pecar
sozinho, mas com outra pessoa. Se ele, ao confessar-se, calou propositalmente essa
circunstância e não indicou as condições particulares de tal pessoa, fez também uma má confissão
e o seu dever é fazer uma confissão geral.
Suponhamos finalmente que alguém tenha o hábito de cometer quatro ou cinco
pecados graves por semana ou por mês, e, em lugar de quatro ou cinco diga só dois ou três,
ou três ou quatro, sabendo perfeitamente que está mentindo. Ter-se-á sempre confessado mal
e nesse caso, deve fazer uma confissão geral.
D. — Misericórdia!
M. — Em segundo lugar, a confissão geral é de estrita necessidade para quem se
confessou sem pesar e sem propósito, como ficou dito acima, ou para quem não cumpriu as
obrigações impostas pelo confessor ou seja: não evitou a ocasião próxima e voluntária do
pecado, ou não deixou certa amizade perniciosa ou não queimou, não se desfez dos maus
livros, não cortou certa relação; em suma todos os que se acham em condições análogas.
Todos esses, tendo faltado, quem mais, quem menos, às qualidades substanciais da
confissão, devem por a consciência em ordem e tranqüilizá-la com uma boa confissão.
D. — Padre, o número desses indivíduos é diminuto ou elevado?
M. — Antes fossem poucos os que pertencem a essas diversas classes! Mas,
infelizmente, a experiência quotidiana demonstra que o número deles é muito maior do que
parece, mesmo entre pessoas aparentemente boas.
Na biografia de S. Inês da Montepulciano lê-se que uns senhor muito rico, tido como
bom cristão, sendo muito devoto da santa e do seu convento, a socorria com freqüentes e
generosas esmolas. A santa rezava muito pelo seu benfeitor em troca do seu auxílio. Um dia,
estando ela rezando, perdeu os sentidos e, no êxtase, viu no meio do inferno um palácio de
fogo e ouviu uma voz que dizia: Inês, Inês, este é o palácio do teu benfeitor e ele virá habitá-lo
quanto antes.
Voltando a si, Inês apreensiva mandou logo pedir ao senhor que fosse ter com ela e
lhe contou a visão espantosa que tivera.
O homem empalideceu, e, quase desmaiando, declarou sinceramente que havia trinta
anos que não se confessava bem, estando sempre na ocasião próxima de pecado.
A santa aromou-o então a fazer logo uma boa confissão geral.
Ele obedeceu e Inês teve outra visão: viu o mesmo palácio, agora no Paraíso, e a
mesma voz declarou-lhe que o seu benfeitor subiria logo para habitá-lo.
Pois bem, quem tiver medo de ter o seu palácio ou a sua casa no inferno por causa de
confissões mal feitas, já sabe o que fazer para se livrar.
D. — Padre, se alguém tiver deixado de contar alguns pecados nas confissões
passadas, ou por ignorância, ou por esquecimento, e vier a conhece-los ou a se lembrar deles
mais tarde, é obrigado a referir todas as confissões passadas numa confissão geral?
M. — Não; quando deixamos de contar os pecados por ignorância ou esquecimento,
só temos obrigação de reparar essas omissões parciais. Para sermos obrigados a uma
confissão geral é preciso que se trate de sacramentos mal recebidos, de sacrilégios cometidos
consciente e propositadamente.
D. — E quando duvidamos se somos ou não obrigados a uma confissão geral, como
devemos proceder?
M. — Nos casos de dúvida devemos expor as nossas dificuldades ao confessor e nos
conformar ao seu parecer.
D. — Obrigado, Padre; e agora, diga-me: quanto é que a confissão geral é útil?
M. — É útil:
1) Para quem duvida das confissões passadas e tem necessidade de se por em paz.
2) É útil para todos os que nunca a fizeram, porque ela faz brotar em nossos corações
maior contrição dos pecados e consolida o propósito firme e eficaz de não mais os cometer.
3) É também bastante útil para os que, chegados a um ponto decisivo de suas vidas,
devem escolher ou abraçar um estado do qual depende o seu futuro. Poderão receber do
Confessor, que faz às vezes de Deus, melhores esclarecimentos e conselhos, para fazerem
sua escolha com mais segurança.
D. — Por exemplo: os noivos nas proximidades do casamento?
M. — Justamente! A confissão geral é também bastante útil para eles, seja para os
dispor melhor a bem receber o sacramento que os deve ligar para toda a vida, seja para lhes
proporcionar a ocasião de receber os esclarecimentos e os conselhos indispensáveis para bem
se governarem em tal estado. O matrimônio é grande Sacramento: ai de quem o receber
indignamente! Deus nunca abençoará um matrimônio em -que houver pecado.
D. — Quando é Padre, que no matrimônio pode haver pecado?
M). — 1) Quando prolongam demais o tempo do noivado.
2) Quando permitem certas liberdades nas conversas, e no trato.
3) Quando, estando em pecado, deixam de freqüentar a confissão ou se confessam
mal.
D. — É então necessário, nessa confissão geral, dizer que estamos para nos casar e
pedir conselhos sobre isso?
M. — Sem dúvida. Se não o manifestarem, como pode o Confessor esclarecê-los?
D. — Padre, qual é a época mais propícia para uma confissão geral?
M. — Tratando-se somente de utilidade ou devoção, a época mais propícia é a dos
Exercícios Espirituais, e justamente lá pelo fim dos mesmos. Mas, sendo ela necessária para
recuperarmos a graça, faça-mo-la o mais breve possível; não deixes para amanhã o que hoje
podes fazer, diz o provérbio.
D. — É bom escrever os pecados para se lembrar deles melhor?
M. — Geralmente, não. Se alguém precisar mesmo recorrer a esse método, que o
faça com muita cautela e destrua logo o escrito depois da confissão, de modo que ninguém o
possa ler, nem o próprio penitente.
Entre os muitos episódios da vida de S. João Basco destaca-se este:
Um bom rapaz, desejando fazer uma confissão geral com a maior precisão possível,
tinha enchido uma caderneta com seus pecados, mas, ninguém sabe como, perdeu o pequeno
volume onde anotara os seus pouco gloriosos feitos. Virou e revirou os bolsos, procurou por
todos os cantos, mas nada de encontrar o manuscrito. Á vista disso, o pobre rapaz ficou
desgostoso e desatou em copioso pranto.
Por sorte, o caderninho tinha ido parar ás mãos de D. Bosco. Este, quando o viu
chegar todo choroso conduzido pelos companheiros, recusando-se contar a razão de tanta
tristeza, começou a interrogá-lo.
— O que tens meu caro Tiago? Sentes alguma dor? desgostos? alguém te bateu?
O bom rapaz enxugando as lágrimas, e tomando um pouco de coragem, respondeu:
— Eu perdi os pecados!
A essas palavras os amigos caíram na gargalhada e D. Bosco, que tinha logo
compreendido, ajuntou brejeiramente:
— És bem feliz se perdeste os pecados e felicíssimo por não os achares mais,
porque, sem pecados, irás certamente para o céu.
Mas Tiago, pensando que não tinha sido compreendido, acrescentou:
— Eu perdi o caderno onde os tinha escrito!
D. Bosco então tirou do bolso os grandes segredos e disse:
— Sossega, meu caro, que os teus pecados caíram em boas mãos: ei-los aqui!
— Vendo isso, o rosto do coitado tornou-se sereno e foi com um sorriso que ele
concluiu: — Se eu soubesse que o senhor os tinha achado, teria rido em lugar de chorar; e hoje,
ao chegar para a confissão, eu lhe teria dito:
— Padre, eu me acuso de todos os pecados que o senhor achou e tem no bolso.
D. — Os episódios e as cenas da vida desse grande educador e humilíssimo Santo são
sempre muito espirituosos. E finalmente, Padre, para quem é que confissão geral pode ser
nociva?
M. — Pode ser nociva principalmente para as almas escrupulosas, cheias de
ansiedades e temores vãos; para as que, tendo-a feito outras vezes, não sossegam e querem
sempre tornar a repetir o que já foi dito.
Para esses indivíduos, a confissão geral não produz outro efeito senão o de suscitar
uma confusão de maiores escrúpulos e ansiedades. Obedeçam eles ao Confessor, e quando
ele diz e repete que fiquem sossegados... que não pensem mais naquilo... que ele próprio
responde a Deus pelo estado de suas almas, para que duvidar?
O Confessor vê e julga melhor do que eles, e podem ficar convencidos de que,
obedecendo ao Confessor, estarão obedecendo ao próprio Deus.
D. — Nesse caso, quando o Confessor não permite a confissão geral, deve ser
obedecido?
M. — Certamente! Quando ele proíbe a confissão, geral, ele está exercendo os seus
plenos direitos e o dever do penitente é obedecer. Só com essa condição chegaremos pouco a
pouco a gozar da tranqüilidade tão ardentemente desejada. Querer encontrar paz por outros
meios é o mesmo que procurar uvas entre espinhos. Você viu em resumo qual a importância
da Confissão geral.
Depois disso, não há de que nos admirarmos se ela foi tão recomendada pelos Santos
— como Santo Inácio, São Carlos Borromeu, São Francisco de Sales Santo Tomás de
Aquino — os mais célebres pela prática e pela doutrina. Tenham pois coragem, não se
deixem enganar pelo demônio, e, em caso de necessidade disponham-se a uma boa confissão
geral.
E que o pensamento de que, por meio dela, poderemos de certo modo reconquistar a
inocência batismal nos sirva de estímulo.
Na história da vida dos Santos Monges do deserto lê-se que um rapaz, grande
pecador, chegou ao convento para se tornar religioso. O primeiro ato do Superior foi impor-lhe
uma confissão geral a ser feita no domingo seguinte na igreja do convento. Para esse fim,
o jovem preparou-se e escreveu todos os pecados para poder lembrar-se deles e confessá-los
melhor.
Pois bem, à medida que ele lia e confessava as suas culpas, um monge dos mais
velhos e santos via um anjo que as cancelava de um catálogo que trazia nas mãos. Por fim,
ficou a folha inteiramente branca, para representar a candura que a alma do jovem atingira.
Cesário, bispo de Arles, conta um fato parecido que se deu com um estudante de
Paris.
Tinha sido grande pecador mas, querendo a todo o custa converter-se, foi fazer uma
confissão geral com um Confessor da ordem Cisterciense.
O rapaz derramava tantas lágrimas que não podia nem falar: à vista disso, o
Confessor aconselhou-o a escrever os pecados numa folha de papel. Ele o fez de boa
vontade. Mas, quando o Padre se dispôs a lê-los, se viu diante de casos tão enormes e
complicados, que não teve bastante confiança em si para resolvê-los: pediu licença ao
penitente e foi consultar o Superior.
Mas, ao abrir a folha para ler, o Abade exclamou: — O quê é que tenho que ler, se
aqui não há nada escrito?
De fato, Deus tinha miraculosamente cancelado daquele papel todos os pecados do
rapaz, como já os tinha cancelado da sua alma.
Mas que necessidade temos nós de procurar os exemplos dos Santos, quando o
próprio Jesus Crismo nos diz e nos demonstra que a confissão geral torna realmente a dar a
inocência batismal?
Além do que contei sobre Margarida de Cortona, no capítulo dos efeitos admiráveis
da Confissão, podemos falar ainda de Santa Margarida Alacoque.
Enquanto a Santa estava fazendo os Exercícios Espirituais, Jesus lhe apareceu e lhe
disse:
— Margarida, desejo que renoves a confissão geral de toda a tua vida. Faze-o eu
trazer-te-ei uma veste alvíssima.
Margarida põe-se à obra para ser agradável a Jesus e, depois de um exame diligente
faz a sua confissão geral. Assim que terminou, Jesus apareceu novamente, tendo nas mãos
uma túnica muito alva, com a qual a cobriu, dizendo:
— Eis aqui, Margarida, a veste que eu prometi.
Era da inocência batismal que Ele a revestia.
Oh! bendita seja a confissão que produz em nossa alma efeitos tão maravilhosos, que
tanto a purifica e a torna novamente bela, como se tivesse acabado de sair das águas do Santo
Batismo! D. — Agradecido, Padre, compreendi perfeitamente; sou-lhe grato pelo que me disse
e não o esquecerei.

9 de março de 2015

Confessai-vos Bem - Padre Luiz Chiavarino.

Da acusação dos pecados, da
absolvição e penitência

D. — Padre, em quê consiste a confissão?
M. — A confissão, diz o catecismo, consiste na acusação distinta dos pecados feita
ao Confessor para receber a absolvição e a penitência.
D. — O quê significa a palavra distinta?
M. — Quer dizer que acusar os pecados em geral não é o suficiente, como por
exemplo: eu pequei contra a lei de Deus e da Igreja... pequei por blasfêmia, por furto, por
impureza, etc... Devemos acusá-los distintamente, como violações, mais ou menos graves,
deste ou daquele mandamento, manifestando o número deles, e além disso as circunstâncias
que lhes mudam a espécie.
D. — Padre, deve-se também dizer o nome das pessoas companheiras de pecado?
M.— Não, a confissão deve ser prudente; não devo dar a conhecer os pecados dos
outros; não se diga o nome do cúmplice, porque nunca é lícito desonrar alguém.
D. — Nesse caso como é que se pode manifestar certos pecados e as circunstâncias
que lhes mudam a espécie?
M. — No caso disso não ser possível sem indicar as pessoas com quem se pecou,
deve-se manifestar não o nome, mas a qualidade, ou o grau de qualidade, ou o grau de
parentesco que se tem com as mesmas. Diga-se por exemplo: irmão, irmã, primo, um parente
próximo, uma pessoa religiosa, etc... E se o Confessor fizer perguntas, o penitente deve
responder com toda a sinceridade, pois que ele interroga justamente para suprir a algum
esquecimento da parte do penitente, para conhecer melhor a espécie, o número, e as
circunstâncias dos pecados. Todavia, a regra é sempre a mesma: que nunca seja revelado o
nome do cúmplice do pecado.
D. — O quê diz dessas mulheres que confessam as culpas do marido e dos filhos?
M. — Digo que fazem muito mal!
D. — Eu ouvi contar que um homem, indo confessar-se logo depois da mulher
recitou o Confiteor e depois se calou. Como o Confessor o incitava a dizer os seus pecados,
respondeu:
— O senhor já os conhece Padre; a minha mulher já os disse todos: ouvi-os
distintamente!
M. — Essa mulher merecia a lição dada a esta outra.
Um dia, uma dessas mulherzinhas que são o tormento dos maridos, apareceu no
confessionário e foi logo dizendo: — Padre eu sou uma infeliz: tenho um marido bestial. Ele
berra, impreca, blasfema, profana os dias santificados, freqüenta botequins!
— E a senhora ajuntou o Confessor.
— Eu sou uma pobre mártir, mas ele, meu marido, goza, come, bebe, passeia e, se
alguma vez eu falo, ele logo levanta as mãos contra mim.
— Mas a senhora, como se comporta?
— Eu? eu não faço nada: o mau exemplo da família é ele; é a ruína da casa, o meu
desespero.
— Basta! Já entendi; continue a suportar o seu purgatório aqui na terra e, enquanto
isso reze por penitência três Ave Marias pelos seus pecados; mas reze também três vezes o
Rosário inteiro, ou seja três vezes os quinze mistérios, pelos pecados de seu marido.
— Pelos pecados de meu marido? Se ele os cometeu, que reze a penitencia!
— Ele os cometeu, mas quem os confessou foi a senhora e a penitencia se dá á
pessoa que se confessa! — E, fechando a portinhola, foi-se embora, deixando-a a pensar que
não se deve confessar os pecados de outrem.
D. — O que quer dizer "confissão integral?"
M. — Quer dizer que devemos confessar todos os pecados mortais de que nos
lembramos depois de um exame diligente, e também os que não tínhamos confessado, ou
confessado mal nas confissões passadas.
D. — Qual a ordem que se deve observar para a acusação?
M. — Seria bom confessar antes de tudo os pecados; depois expor as dúvidas, as
penas e temores, tudo aquilo, enfim, que perturba a consciência. Seria ainda aconselhável
confessar primeiramente os pecados mais graves, os que se cometem com maior freqüência e
que constituem a paixão predominante. O empenho que demonstrarmos nessa luta contra o
defeito predominante, além de ser um tormento que nos traz proveito, ajudará o Confessor a
nos curar melhor.
D. — Em quê consiste a sinceridade?
M. — A sinceridade consiste em manifestar singelamente tudo o que interessa à
própria alma, sem esconder nada por temor ou por vergonha, sem diminuir o número das
faltas, sem calar as circunstâncias que revelam toda a nossa miséria, mesmo em se tratando
somente de culpas veniais e imperfeições.
Não é preciso, porém, cair no exagero e fazer como alguns homens e rapazes que,
chegando-se para o Confessor desencadeiam uma chuva de blasfêmias e palavrões grosseiros
e por mais que o Confessor procure refreá-los continuam imperturbáveis a repeti-los todos
sem exceção.
Nem se deve proceder como certas mulheres que repetem as imprecações que
costumam lançar contra o marido, as crianças ou os animais.
Também não devemos imitar aquela moça simples demais que, tendo-se acusado de
ter cantado uma canção, e, tendo o confessor perguntado que canção era, se pôs a cantá-la em
voz alta no confessionário, estando a Igreja repleta de gente!
D. — Oh, que simplória! Porém é preferível exagerar para mais do que para menos,
não é Padre?
M. — Isso é que não! Não devemos agravar propositadamente a nossa culpabilidade,
nem acusando culpas não cometidas, nem assegurando as que são duvidosas.
D. — Eu não me importo de parecer mais culpado do que realmente sou, contanto
que esteja certo de estar fazendo uma boa confissão.
M. — Isso é zelo exagerado, meu caro, e que não merece aprovação. Será que você
age dessa forma com o médico, quando se trata de tomar remédios ou de se submeter a uma
operação?...
Vamos sempre para a frente com a sinceridade tão recomendada por Jesus Cristo!
D. — Finalmente, Padre, o quê significa: a confissão deve ser humilde?
M. Significa que à integridade e à sinceridade
na acusação devemos acrescentar a humildade. Humilhar-nos o mais possível deve
até ser o nosso principal empenho, porque quanto mais alguém se acusa, mais Deus o escusa.
Por isso mesmo a confissão é chamada a sacramento da humildade, o patíbulo do amor
próprio.
D. — E o quê devemos fazer para nos humilharmos sempre mais?
M. — Não nos devemos limitar a expor só o que é pecado; tratemos de especificar as
causas secretas das faltas costumeiras, as intenções e desejos ocultos que nos passam pela
cabeça e a negligência em afugentá-los; as pequenas afeições ou agarramentos, que, mesmo
se não consentimos neles plenamente, nos causam pesar quando somos obrigados a deixá-los.
Digamos, em suma, bem claramente o que mais custa à nossa soberba e nos causa
maior humilhação, mesmo que os nossos lábios se ruborizem, mesmo que os suores e
calafrios nos percorram o corpo. A medida que expelirmos o veneno sentiremos alívio
enorme: o sangue de Jesus Cristo, espargido sobre as nossas chagas assim descobertas
poderá curá-las mais rapidamente e com mais perfeição.
Um dos mais célebres oradores franceses, Henrique João Batista Lacordaire,
dominicano, nos dá um exemplo de confissão profundamente humilde. O eloqüente pregador
dirigia-se lá pelos fins do outono de 1852, para Tolosa para fundar ali uma nova casa para a
sua ordem. Passando por Dijon, entrou na sacristia da Igrejinha da Visitação, cujo capelão
era o jovem abade de Bougaud. Este voltava do altar onde tinha celebrado, e, assim que
acabou de despir os paramentos, o Padre Lacordaire chegou-se para ele e disse:
— "Quer ter a bondade de me ouvir em confissão?"
— Eu, conta Bougaud, reconheci logo o célebre pregador mas, antes que eu pudesse
oferecer-lhe um genuflexório, ele já se tinha ajoelhado no chão, aos meus pés e me disse:
"Peço-lhe que ouça não só a minha confissão semanal, mas a confissão de todas as culpas da
minha vida desde a infância". Depois, começou, e eu não faltarei ao segredo da confissão dizendo
que ele me contou a história de toda a sua vida; fez a acusação de todas as faltas que
cometeu em criança, quando moço, como sacerdote e como religioso, com uma humildade,
um arrependimento, um ardor, realmente singulares.
Ao fim dessa confissão extraordinária, logo depois da absolvição, beijou-me os pés
repetidas vezes, e acrescentou:"
— Agora peço-lhe ainda uma graça, que o senhor com certeza não me negará.
— O quê poderia eu negar-lhe? respondi. E enquanto eu esperava que desse
explicações, tirou debaixo da túnica um açoite formado por sólidas tiras de couro e me disse:
— A graça que eu lhe peço agora, é de me dar cem açoitaduras de disciplina.
— Jamais! disse eu perplexo.
— O senhor recusa-me então essa caridade? Aquele olhar, o acento daquelas
palavras, eu jamais o esquecerei; aceitei pois a contra-gosto o encargo.
O Padre Lacordaire era muito sensível; logo no décimo quinto ou vigésimo golpe
começou a gemer profunda mas docemente, e continuou assim até o fim. Eu queria parar,
mas ele não o permitiu e eu tive que continuar no meu sangrento ofício.
Quando acabei, ele se levantou, abraçou-me e, desobrigando-me do segredo da
confissão, me deu licença de lhe lembrar todos os próprios pecados e de os contar a quem
quer que fosse.
Não posso descrever em que estado eu me achava. Quem não é capaz de se sentir
comovido até o mais profundo das entranhas, não é digno de assistir a cenas como esta.
É assim, meu caro, que os grandes homens sabem humilhar-se: saibamos aproveitar
tais exemplos!
D. — Oh, Padre, quantas coisas admiráveis! Se todos os que freqüentam a confissão
fizesse assim, ficaríamos logo santos.
M. — Mesmo que não ficássemos santos evitaria-mos pelo menos a rotina
estereotipada que não traz proveito algum e não opera a transformação que esse sacramento
deveria efetuar.
D. — Padre, o senhor disse que é bom acusar também os pecados da vida passada: de
quê modo podemos fazê-lo?
M. — A acusação não deve ser geral, como é costume de muitos. Devemos procurar
especificar as culpas de modo que possamos, provar-lhes verdadeiramente a matéria e a dor.
Digamos, por exemplo: confesso ainda iodos os pecados da minha vida passada,
principalmente os que cometi contra a obediência, a caridade, a pureza e os deveres do meu
estado ou então de todos os maus exemplos e escândalos dados durante a minha vida.
D. — E os que têm pecados que absolutamente não ousam confessar?
M. — Que digam logo ao Confessor: “Padre, eu cometi pecados que não ouso
confessar", que se entreguem à sua caridade e prudência e respondam com toda a sinceridade
e confiança às perguntas que ele fizer.
D. — E se alguém se vir atrapalhado por causa de más confissões feitas no passado?
M. — Esse vá logo dizendo: Padre, tenho atrapalhações na consciência, preciso da
sua caridade; ajude-me porque há algum tempo ou há muito tempo que me confesso mal. O
Confessor saberá esclarecê-lo e livrá-lo; a paz e a consolação lhe inundarão a alma, que
ficará surpreendida por ter podido comprar a sua felicidade, por tão baixo, preço.
D. — Agradecido, Padre; diga-me ainda: o quê é a absolvição?
M. — A absolvição é a sentença pela qual o sacerdote, em nome de Jesus, remete os
pecados. É o ponto culminante do Sacramento, a panaceia infalível, o remédio divino que
penetra nas almas, cicatrizando-lhes as feridas, curando-lhes desde a raiz as mais graves
enfermidades; ressuscita-as, quando mortas pela culpa; dá-lhes força e vigor para que possam
viver bem e lhes abre as portas do Paraíso.
Ao recebermos a santa absolvição, façamos de conta que estamos abraçados aos pés
de Jesus e que Pie nos lava com o seu sangue.
Oh, quantos prodígios operou e opera continuamente essa fórmula sagrada que Jesus,
pela boca do sacerdote, pronuncia sobre nós! De quantas manchas já limpou as almas.
Quantas, já envelhecidas no vício, foram por fim restabelecidas e salvas. É pois com a
confiança ilimitada, que a devemos receber, como um remédio inteligente de efeito infalível;
e choremos de consolação todas as vezes que a recebemos.
Um condenado à morte tinha tido a boa sorte de ter sido preparado para o passo
terrível por um sacerdote zeloso e cheio de caridade. Quando subiu ao patíbulo, pouco antes
que o laço fatal o enforcasse, e o Confessor que o assistia renovou a absolvição de todas as
culpas, ele desatou em copioso pranto. Perguntaram-lhe a razão: "Eu não choro, disse, pela
sorte que me toca, nunca chorei na minha vida; nem quando a justiça me alcançou, nem
quando leram a minha sentença de morte: se agora choro é pensando que Deus me perdoou!"
A comoção foi geral: grande parte dos milhares de espectadores enxugaram as lágrimas.
Nós também deveríamos chorar assim, depois de cada absolvição, ao pensarmos que
Deus nos perdoou.
D. — E se no momento da absolvição não pensamos nisso, ou não nos sentimos
comovidos?
M. — Não nos devemos perturbar com isso. Os sacramentos operam ex opere
operato, ou seja, por si próprios. Mesmo se não ouvíssemos nem sequer o som das palavras
da absolvição, o seu efeito seria o mesmo.
D. — Padre, a absolvição cancela sempre os pecados?
M. Sim, cancela-os todos e sempre, quando a confissão é bem feita, isto é, quando
dissemos todos os pecados de que nos lembramos, quando sentimos pesar, e quando fizemos
firme propósito de fugir até das ocasiões; em caso contrário não cancela nada, mesmo que
fosse repetida cem vezes.
D. — Então procedem mal, os que, não tendo boas disposições, vão à procura de um
Confessor indulgente de quem possam arrancar a absolvição.
M. — Malíssimo! Coitados, cavam a própria cova, obrigando Deus a condená-los.
D. — Mesmo quando conseguem enganar o confessor, não podem enganar a Deus
que lê nos corações, não é mesmo, Padre?
"Sempre confessados, sempre perdoados, No fundo do inferno, fomos sepultados".
M. — Justamente! Eles terão a mesma sorte daquele querelante que, tendo-se
arruinado com querelas reduzido à extrema miséria, magro, esquelético, maltrapilho, deixou
aos seus herdeiros os seus retratos com este escrito:
Sempre briguei, sempre ganhei:
Eis aqui como fiquei.
E eles deverão exclamar:
Sempre confessados e sempre perdoados. o fundo do inferno seremos sepultados.
D. — Quando e como se deve fazer a penitência dada pelo confessor?
M. — É bom fazê-lo o mais depressa possível, e mesmo logo depois de deixarmos o
confessionário; e deve ser feita com pontualidade e precisão.
No tempo que ainda se impunham penitências rigorosas, dois homens de bem,
culpados talvez pelas mesmas faltas, deviam fazer a pé, por penitência, uma peregrinação a
um santuário distante.
Andam durante duas horas em boa marcha, mas depois um deles diz:
— Ande mais devagar, amigo: eu não posso mais! Doem-me os pés! Saiba que o
confessor ordenou como penitência, que eu pusesse grãos de bico no sapato.
— Ora, a mim também deu a mesma ordem.
— E você não os pôs?
— Pus, sim.
— E os seus pés não doem?
— Nem um pouco! Eu até sinto alívio com isso! — Mas como?!
— Eu os pus cozidos.
D. — O homem era bem esperto!
M. — Esperto sim, ou pelo menos, nada tolo... Mas no entanto, você compreende que
ele não estava cumprindo a penitência com precisão, pois a intenção do confessor era outra.

8 de março de 2015

Confessai-vos Bem - Padre Luiz Chiavarino.

Dor e propósito

D. — Padre, é coisa importante sentir a dor dos pecados cometidos?
M. — A dor dos pecados é coisa importantíssima, de todo indispensável mesmo, para
cada confissão. Sem ela o Sacramento não terá lugar. Assim como o Sacramento do Batismo
não se pode realizar sem água, também não é possível o Sacramento da Penitência sem dor...
D. — Então todos aqueles cuja principal preocupação é a procura dos pecados, e que
pouco se importam de excitar a dor, não fazem boas confissões?
M. — Fazem todos confissões sacrílegas ou nulas; sacrílegas quando se conhece a
própria falta de dor; nula se se ignora o fato. É verdade que a boa vontade de se confessar
bem, e na diligência em fazer bem o exame a dor está incluiria; portanto não há motivos para
sustos.
D. — Como é que se deve fazer para excitar a dor dos pecados?
M. — Deitemos um olhar para o inferno, merecido com os nossos pecados;
contemplemos o Paraíso, perdido, com os nossos pecados. Deitemos um olhar para o
crucifixo, onde Jesus agoniza por causa das nossas culpas. Pensemos que Deus é tudo e nós
nada; que de uma hora para outra pode abandonar-nos; que muitos, mais moços do que nós,
já estão no inferno e que, se nós ainda estamos aqui, é porque Ele usa conosco de
misericórdia.
Era uma quinta feira santa. Um oficialzinho elegante chegou ao confessionário e, sem
mais nada, foi dizendo:
— Padre, desculpe a minha franqueza: sou militar; não vim aqui para me confessar,
mas somente para satisfazer o desejo de minha mãe e de minhas irmãs, que me observam do
banco. Elas querem que eu comungue na Páscoa, mas eu não creio nisso, até me rio.
— Então o senhor se ri da religião e dos Sacramentos?
—Sim, Padre, eu me rio da religião e dos Sacramentos.
— Ri-se também da verdade eterna, do inferno e do Paraíso?
— Sim senhor, Padre, rio disso também.
— Sendo assim, o senhor mesmo pode compreender que não posso absolvê-lo,
nem mandá-lo para a Comunhão.
— Mas eu tenho que comungar para contentar à minha mãe e ás minhas irmãs.
— Bem, façamos então assim: o senhor trate de temporizar com sua mãe e com suas
irmãs. Diga-lhes que o Confessor lhe impôs uma penitência antes de
Comungar. Enquanto isso, o senhor, cumprirá a penitência que lhe vou dar e voltará
aqui.
— Quê penitência vai me dar se não me confessei?
— Quê importa? O senhor, vindo aqui simula uma confissão. Penso que não quer
fazer caçoada de mim, portanto fará a penitência: quero que me prometa como bom soldado.
— Seja como quiser: farei a penitência; mas qual?
—Nestas três noites o senhor renunciará o clube e os divertimentos e, assim que se
deitar, deverá dizer: Meu Deus, eu creio em Vós, mas me rio da Vossa Religião e dos Vossos
Sacramentos. Creio em Vós, mas me rio da morte e do juízo final. Creio... mas me rio do
inferno e da eternidade. Depois disso dormirá tranqüilo; fá-lo-á?
— Padre eu lho prometo: palavra de soldado, palavra de rei!
Levanta-se e Vai embora.
Sábado à noite ei-lo de novo no confessionário ajoelha-se, e:
— Padre, exclama, eu sou o oficial da penitência; eu a cumpri e venho para dizer-lhe
que, pensando seriamente, não sinto mais vontade de rir de tudo aquilo: pelo contrário, temo
tudo. Tenha a bondade de me ajudar a fazer uma boa confissão.
O efeito desejado estava obtido. O pensamento dos "Novíssimos" tinha conseguido o
arrependimento do militar, que, no fundo, ainda conservava a fé, mas uma fé adormecida
pela má vida a que se tinha entregue, e da qual, em face de Deus, da morte e da eternidade,
se tinha envergonhado.
D. — Padre, de quantas espécies pode ser essa dor?
M. — Pode ser de duas espécies: dor perfeita também chamada contrição, e dor
imperfeita, também chamada atrição. Aquele que se arrepende dos pecados só por medo dos
castigos nesta e na outra vida, ou seja, movido por amor interessado, tem só atrição, essa dor
é moeda legal, mas é cobre. Aquele que pelo contrário, se arrepende porque ofende a Deus,
nosso Pai, ou seja, movido por um amor filial, tem a contrição perfeita, que é moeda de ouro.
D. — É importante ter-se a contrição perfeita?
M. — É importantíssimo, porque, aliada ao propósito nos c confessarmos assim que
for possível, ela obtém a remissão mesmo antes da confissão: se alguém morresse em tal
estado salvar-se-ia.
D. — E pode-se comungar?
M. — Não, para a comunhão, a confissão prévia é indispensável.
D. — Mas, Padre, se depois a gente mudar de propósito e não confessar, esses
pecados revivem?
M. — Não, um pecado perdoado não revive mais; mas a pessoa comete uma grave
omissão pela qual será sempre responsável.
Portanto, cada vez que por desgraça você cometer um pecado mortal, faça logo o ato
de contrição perfeita com o propósito de se confessar o mais breve possível, afim de
tranqüilizar a sua consciência.
D. — Padre, é necessário sentir a dor dos pecados?
M. — Não, não é necessário sentir essa dor como se sente dor de cabeça ou de
dentes; basta tê-la no coração.
— O quê está fazendo, menino? Perguntou o confessor a um garoto que, enquanto
esperava para a confissão dava com a cabeça na parede.
— Oh, Padre, estou tratando de sentir a dor dos meus pecados!
D. — Coitadinho... talvez era ainda inocente!... E o quê é propósito?
M. — É a vontade resoluta de não cometer o pecado e fugir das ocasiões. É uma
conseqüência da dor sendo impossível conceber-se uma verdadeira dor dos pecados, sem se
estar, ao mesmo tempo resolvido a não mais os cometer.
D. — Como deve ser o propósito?
M. — Deve ser eficaz, ou seja, devemos desligar-nos por completo e a todo o custo
de cometê-lo novamente; e isto sem protestos nem rodeios ou intenções pouco honestas.
Um tal confessava que tinha roubado uns feixes de lenha.
— Quantos? perguntou o confessor.
— Padre, eu tirei cinco, mas o senhor pode calcular sete.
— Como! são cinco ou sete?
— Eu explico Padre. Dos sete feixes que encontrei tirei cinco, mas hoje à noite irei
buscar os outros dois. Confesso-me antecipadamente; por isso o senhor pode calcular sete.
Uma moça que tinha acabado de se confessar, perguntou depois de receber a
absolvição:
— Padre, posso comungar hoje?
— Pode sim, e não só hoje como amanhã e nos dias seguintes.
— Ah, amanhã já não poderei mais porque marquei um encontro no baile hoje á noite
e não posso faltar.
— Você falou em baile? Mas você não acabou agora mesmo de prometer a Jesus que
não O ofenderia mais e que evitaria as ocasiões?
— Padre, eu prometi para o passado e não para o futuro!
Eis aí. A maior parte das vezes promete-se para o passado, isto é, não se promete
nada, e assim, a história se repete sempre: confissões e pecados, pecados e confissões. Mas,
confessar-se sem se emendar é o caminho certo para a perdição.
D. — De quê modo podemos manter esse propósito?
M. — 1) Não devemos confiar muito nas nossas próprias forças, mas devemos pedir
constantemente a Deus o auxílio da sua graça.
2) Devemos impor-nos, a cada recaída, uma penitência que, além de contribuir para a
expiação do pecado, servirá também para conservar-nos vigilantes.
3) Devemos voltar à confissão o mais breve e frequentemente possível para
enfraquecermos o demônio e sairmos vitoriosos sobre ele no futuro.
Os missionários da África contam que, naquele continente, há um animal pouco
maior do que o gato comum; justamente por isso é chamado gato selvagem. Esse animal é
continuamente assaltado pelas serpentes que abundam na região; muitas vezes trava
combates com elas, mas sai quase sempre vencedor. É que ele tem o seu segredo: conhece
uma erva cujas virtudes contra a mordedura de cobra são extraordinárias. Assim que se sente
mordido, corre para se esfregar nessa erva e volta pronto para a luta. Ferido uma, duas, três
vezes, recorre sempre ao mesmo remédio e sara sempre. Dessa maneira, continua a lutar até
arrancar a cabeça do inimigo.
Nós também estamos em luta contínua com a serpente infernal que, por todos os
meios e com todos os gêneros de pecados nos tenta e nos impele para o mal. Queremos a
vitória? O remédio infalível é a confissão freqüente. O demônio não terá então mais nenhum
poder sobre nós.
D. Padre, e os que prometem sempre e nunca mantêm?
M. — São pobres infelizes cujo fim será certamente bem triste, porque com Deus não
se brinca!
Havia muito tempo que uma mãe amorosa, que vivia no temor de Deus, exortava o
filho, malandro e viciado, a mudar de vida. Ele prometia sempre, mas eram promessas ao
vento.
Da ultima vez que a pobre mãe, mais com lágrimas do que com palavras, lhe
suplicou que se convertesse o filho disse:
— "Pois bem, estou resolvido a seguir os seus conselhos; eu também estou
envergonhado e cansado desta minha vida tão má; tenha paciência por mais estes 3 dias de
carnaval, e depois farei penitência". O infeliz jovem pensava que dessa maneira podia ajustar
contas com Deus, preparando-se, com novos pecados, para se confessar e se converter.
Mas com Deus não se brinca. Passaram-se os três dias ocupados em pagodes e vícios.
Na noite da terça-feira ele volta para casa a altas horas da madrugada, cansado do longo
baile. Poucos instantes depois, ouvem barulho no seu quarto; entram apressados e acham-no
estendido no chão sufocado por uma golfada de sangue. Assim se acabaram os seus projetos
de conversão e os seus propósitos falazes.
O inferno está cheio dessas pessoas que prometem emendar-se sem nunca cumprir a
promessa.
D. — E os que dizem: não posso, não posso?!
M. - Esses são ainda mais infelizes: isso é sinal de que já são escravos das mais
vergonhosas paixões.
D. — Parece-me que quem deseja ardentemente sempre pode; não é mesmo, Padre?
M. — É verdade, porque Deus nunca nega a sua graça aos que a procuram
sinceramente, e porque a potência do nosso querer também é grande. Posso prová-lo com um
fato histórico.
O General Cambronne morto como um herói em 1842, durante a batalha de
Waterloo, quando ainda era simples soldado, estando embriagado, esbofeteou um capitão.
Julgado pelo conselho de guerra foi condenado à morte.
O Coronel, que lhe conhecia a bravura como soldado, interveio em seu favor e
obteve-lhe a graça: porém, chamando-o para uma conversa particular, o fez prometer que
nunca mais se embriagaria. Cambronne disse, então:
— Coronel, devo-lhe a vida; o que me pede é pouco, e, para fazer um propósito
eficaz juro que nunca mais provarei nem vinho nem licores.
Passaram-se vinte e dois anos; o soldado era agora general, e, tendo acompanhado
Napoleão de Canes à Paris, foi convidado para jantar pelo seu Coronel, que já estava
aposentado. Aceitou o convite, mas durante: o jantar, não provou vinho. O Coronel que já
tinha esquecido o que se passara havia tantos anos, perguntou a razão. Cambronne lembroulhe
então a promessa feita há vinte e dois anos e à qual se tinha conservado
escrupulosamente fiel.
Oh, se no propósito da confissão imitássemos a fidelidade de Cambronne! E se se
cumprem as promessas feitas aos homens, por que não cumprir as que se fazem a Deus?
D. — Então, as confissões e as absolvições sem o propósito firme e eficaz de fugir do
pecado e das ocasiões, são nulas?
M. — São nulas porque, mesmo que o Confessor diga cem vezes: "eu te absolvo",
Jesus Cristo que lê nos corações dirá cem vezes: "eu te condeno".
D. — Então é certo o provérbio que diz: Confessar-se vale menos do que nada, se a
confissão feita não refaz a gente.

7 de março de 2015

Confessai-vos Bem - Padre Luiz Chiavarino.

Modo prático de se confessar
Exame

D. — Padre, depois dessas coisas tão bonitas que me disse até agora sobre a
confissão, tenha a bondade de acrescentar algumas palavras sobre o modo de se confessar.
Tenho medo de não ser capaz e de me confessar bem.
M. — E por que esse medo? "A confissão, como a definiu o suavíssimo Papa Pio X,
é a descoberta mais oportuna que Jesus soube fornecer à enfermidade humana". Isso quer
dizer que é o Sacramento mais fácil de se receber, ao alcance de todos, e que não requer
condições difíceis, de modo que, todos os que têm boa vontade para fazer uma boa confissão,
sempre o conseguem. Aqueles então que têm muito medo de se confessarem mal, são os que
se confessam melhor, justamente por causa do medo.
D. — Devemos também rezar antes da confissão?
M. — Sendo uma verdade de fé que, sem o auxílio da graça, não nos podemos
confessar bem, devemos pedir esse auxílio com a oração:
1) Avivando a fé nesse Sacramento, que é o principal meio de santificação.
2) Agradecendo a Jesus que quis dar-nos tão valioso presente à custa da sua paixão e
morte.
3) Recomendando-nos à nossa querida mãe. Maria Santíssima, refúgio dos
pecadores, ao nosso Anjo da Guarda, às Almas do Purgatório.
Depois disso fazemos o exame de consciência.
D. — Ah, Padre, aqui começam as minhas inquietações. Eu não sou capaz de fazer o
exame de consciência: ou não me lembro dos pecados, ou então me esqueço deles quando
chego ao confessionário.
M. — Vá devagar, meu caro, não turvemos a água com a aflição. Com o medo não se
faz nada direito, mas, se nos aplicarmos com calma e confiança em Deus venceremos na
certa.
Façamos o que nos for possível, e o Senhor suprirá ao resto; muitas vezes, é
justamente quando estamos menos satisfeitos com nós mesmos que a sua satisfação é maior.
D. — Todos são obrigados a fazer o exame?
M. — Eu já vou dizendo que, se para uns o exame é obrigatório, para outros pode ser
nocivo.
D. —. É obrigatório para quem?
M. — Um exame sério e diligente é obrigatório:
1) Para os que cometem pecados mortais.
2) Para os que se confessam raramente.
3) Para os que, há algum tempo, não se confessam bem.
Todos esses, devendo acusar faltas graves, as circunstâncias que transformam a
espécie, e também o número das mesmas, é claro que devem fazer um exame sério e
cuidadoso.
D. — O quê se deve fazer para um bom exame?
M. — Para fazer um bom exame, devemos passar em revista diante da nossa
consciência os mandamentos de Deus e da Igreja, juntamente com os deveres do próprio
estado. Devemos examinar-nos sobre cada um deles para saber se pecamos por pensamentos,
palavras, obras e omissões, tendo em mira principalmente a paixão predominante e as causas
geradoras das faltas costumeiras.
Portanto, no que diz respeito ao primeiro mandamento, devemos observar se não
tivemos fé em qualquer verdade de nossa religião se tomamos parte em conversas contra a
religião, ou, se prestamos atenção a elas; se lemos livros ou jornais contra a religião; se
cometemos sacrilégios, fazendo más Confissões ou más Comunhões, ou desprezando coisas
ou pessoas sagradas; se cometemos práticas supersticiosas, ou se participamos de alguma
sessão espírita.
Quanto ao segundo mandamento, observemos se blasfemamos o nome de Deus, da
Virgem ou dos Santos, ou se fizemos juramentos ilícitos.
Quanto ao terceiro mandamento, observemos se não assistimos à Missa nos dias
santos de guarda, ou se não assistimos à ela com a devida atenção; se, propositadamente,
faltamos ao catecismo, ou ao sermão; se fizemos trabalhos manuais ou obras servis, ou então
se passamos o dia de festa em divertimentos, pagodes, botequins.
Quanto ao quarto mandamento, vejamos se não respeitamos nossos pais e superiores,
faltando-lhes ao respeito com palavras, obras ou insultos; ou se os fizemos chorar com o
nosso mau procedimento.
Quanto ao quinto mandamento vejamos se golpeamos gravemente, ou se ferimos
alguém; se nutrimos no coração ódio a alguma pessoa; se pensamos em vingança; se
lançamos imprecações ou maldições; se demos escândalo, isto é, se com palavras ou ações
excitamos outros ao pecado.
Quanto ao sexto e nono mandamentos, examinemos se tivemos pensamentos ou
desejos contrários à castidade, se consentimos neles ou se fomos negligentes em afastá-los;
se tomamos parte em conversas escandalosas, ou se lhes prestamos atenção; se lemos livros
obscenos; se cometemos atos impuros, e se os cometemos sozinhos ou com outros e de que
condição eram esses outros, desde que essas circunstâncias mudam a malícia do pecado; e se
repetimos esses atos; se freqüentamos bailes ou espetáculos desonestos.
Quanto ao sétimo e décimo mandamentos examinemos se não roubamos alguma
soma ou coisa de valor, seja em casa, seja de outras pessoas; se causamos danos; se tivemos
pensamentos ou desejos de nos apropriarmos das coisas dos outros injustamente.
Chegando o oitavo mandamento vejamos se proferimos injúrias graves ou danosas;
se murmuramos ou caluniamos gravemente; se causamos prejuízos à estima ou à honra de
alguém.
Passando aos preceitos da Igreja, basta observar se violamos dias proibidos; ou se
sendo obrigados a jejuar não o fizemos: finalmente se omitimos a Confissão e Comunhão
bem feita no tempo da Páscoa.
Acrescentemos a esse exame sobre os mandamentos de Deus e da Igreja, um pequeno
exame sobre os vícios capitais, considerando se cometemos pecados graves de soberba, de
gula, de ira, de inveja; e para terminar deitemos um olhar para as obrigações do próprio
estado.
D. — Para as obrigações do próprio estado também?
M. — Certamente! Um pai ou uma mãe, um marido ou uma mulher, um professor,
um superior qualquer, podem muito bem observar todos os mandamentos, e ao mesmo
tempo faltar gravemente aos deveres do próprio estado; o mesmo se dá com as crianças.
Portanto, o exame de consciência sobre os deveres do próprio estado é de suma
importância, quando se quer fazer uma boa Confissão. A anedota seguinte é histórica.
O Imperador Carlos V, estava em viagem e, passando por um convento, quis
confessar-se. Um religioso, cheio de caridade, ouviu a confissão do imperador e depois
acrescentou:
"Confessus es peccata Caroli... nunc confitere peccata Caesaris... — Confessaste-me
os pecados de Carlos, isto é, como se não fosse imperador; confessa-me agora os pecados
que cometeste no desempenho do teu cargo".
E, com muita habilidade e simplicidade, interrogou-o sobre o modo como governava
o seu povo. O imperador ficou tão comovido que, mais tarde, quando contou o fato, disse:
"Finalmente encontrei quem me iluminou sobre certos argumentos, e deu à minha
consciência paz completa!"
D. — Padre, será que todos são capazes de fazer "um exame tão diligente?"
M. — Os que não forem capazes, apresentem-se ao confessor, prontos para declarar
todos os fatos de que se lembram, para responder sinceramente às perguntas que ele lhes
fizer: é quanto basta.
D. — E se o confessor não fizer perguntas e se o penitente esquecer dos pecados
mortais?
M. — Os pecados, mesmo os mortais, quando não são propositadamente esquecidos,
são perdoados como os que se confessar, ficando o penitente obrigado e declará-los, se se
lembrar deles, nas confissões seguintes.
D. — Enquanto isso podemos ir para a Comunhão com a consciência tranqüila?
M. — Sim, podemos ir para a Comunhão com a consciência tranqüila mesmo em
ponto de morte.
D. — Padre, o senhor disse que nos devemos examinar sobre pensamentos e desejos?
M. — Certamente, porque, quando maus, os pensamentos e desejos também são
pecados.
— Mamãe, perguntou um menininho, se, como a senhora me ensinou, nada no
mundo se perde, aonde vão parar os pensamentos e desejos?
— Meu filho, respondeu gravemente a mãe; vão morar na memória de Deus, e ali
ficam para sempre.
— Para sempre! exclamou o menino surpreendido. Pensou um pouco, de cabeça
baixa, e depois, abraçando a mãe bem apertado, murmurou baixinho:
— Eu tenho medo!
E pensando bem, quem é que não se sente compelido a dar o mesmo grito: eu tenho
medo!...
E se certos pensamentos nos causam medo, por que não devemos examiná-los e
detestá-los?
D. — Os maus pensamentos são sempre pecado?
M. — Não, meu filho, algumas vezes não são pecado; outras vezes são pecado
venial; mas podem também ser pecado mortal. Ouça esta comparação: Uma fagulha que cai
sobre um vestido branco e é logo retirada não deixa mancha.
Se a deixarmos ali, alguns instantes, deixa uma mancha chamuscada.
Se a deixarmos ali, para ver o resultado, ela acaba queimando o vestido.
Assim acontece com os maus pensamentos. Se os expulsarmos logo, não são pecado
nenhum; se consentirmos neles por alguns instantes são pecado venial; se ficarmos a seguir o
curso, até ao fim, com plena consciência do que estamos fazendo e com prazer, nesse caso
são pecado mortal.
D. — Quais são os que não são obrigados a fazer um longo exame?
M. — As almas que tem temor de Deus e que se confessam sempre não são
obrigados a um exame demorado, porque, segundo o célebre Frassinetti ou não cometem
pecados mortais, ou então, na hipótese de cometerem algum, não se esqueceriam dele.
D. — Então, Padre, fazem mal os que ficam angustiados e se agitam porque não
acham pecados?
M. — Certamente! 'Não é de estranhar, diz ainda Frassinetti, se, não cometendo
pecados, não os encontrais. Agradecei a Deus, e continuai a ficar deles afastados com o
auxílio dos Sacramentos".
Lembro-me de um menino que indo para a confissão chorava como uma videira
recém-cortada.
— Por que, pequeno, eu perguntei, por quê você chora tanto?
— Porque eu não encontro pecados!
— Você não os cometeu?
— Não, Padre, pecados eu nunca cometi.
D. — Diga-me enfim, Padre: para quem pode o exame ser nocivo?
M. — Pode ser nocivo para as almas confusas, agitadas, irritadiças, escrupulosas, as
quais, por terem a convicção de que devem fazer as contas como se se tratasse de
matemática, não acabam nunca de se examinar para chegar sempre a zero, com despeito e
desânimo sempre crescentes. Em tais casos, o Confessor proíbe o exame, e elas devem
obedecer.
D. — Agradecido por tudo, Padre; eu nunca me esquecerei disso.

6 de março de 2015

Confessai-vos Bem - Padre Luiz Chiavarino.

Obediência ao confessor, respeito e gratidão

D. — Padre, e da obediência ao Confessor o senhor não diz nada?
M. — A obediência ao confessor é virtude tão necessária ao proveito da alma, que se
ela faltar ou for defeituosa, todos os esforços serão inúteis. Ela, diz o Beato Cafasso, não
conhece nem inferno, nem purgatório, mas só o Paraíso.
D. — Em quê consiste essa obediência?
M. — Consiste em estar-se sinceramente disposto a fazer, omitir tudo e logo, o que o
Confessor mandar.
D. — Dizer é fácil! Mas quando não se consegue?
M. — Quanto a conseguir, isto é questão de tempo e depende da graça de Deus, o
qual dará o seu auxílio em proporção aos esforços e à obediência de cada um. Ninguém fica
santo em um dia! O Confessor sabe disso, e não perde a coragem, apesar das caídas
repetidas, certo de que dentro de um tempo - mais ou menos breve — ele e o penitente serão
consolados pelo êxito mais satisfatório. Você se lembra que São Felipe Néri trabalhou
durante mais de um ano ás voltas com a alma daquele rapaz, sujeito a pecados de impureza, e
conseguiu curá-lo inteiramente e fazer dele um anjo de pureza, só com a imposição de voltar
á confissão a cada recaída?
D. — Lembro-me muito bem! De modo que, Padre, não convém ficar desgostoso
nem desanimar quando não se consegue logo essa obediência?
M. — Pelo contrário; convém humilhar-se sempre mais e renovar confiante os bons
propósitos. Esta é a história de quase todos os santos célebres que afinal eram feitos de carne
e osso como nós e sujeitos ás mesmas misérias.
D. — Padre, encontram-se almas dóceis como crianças para com o confessor?
M. — Encontram-se e não poucas, elas desejariam que a sua consciência fosse como
um livro sempre aberto e um espelho sempre terso nas mãos do Confessor, afim de que ele
pudesse ter e ver nelas claramente. Longe de temerem que as conheça demais, tem medo,
pelo contrário, de não saberem revelar-se quanto é necessário, mas fazem isso sem
inquietações nem escrúpulos. Com estas almas basta um sim ou um não, uma única palavra,
e elas se fiam no que ele julga, sempre prontas para acreditá-lo e obedecer-lhe em tudo.
D. — Qual não será o prazer do pobre Confessor quando encontra essas almas dóceis
e obedientes; não é Padre?!
M. — Elas são como místicos oásis no meio do seu trabalho duro e monótono, sem
as quais, dizia o Santo Cura de Ars, ele não poderia suportar a sua vida quase que
exclusivamente devotada ao confessionário.
D. — Mas esses resultados requerem um tempo muito longo?
M. — Para as almas constantes e de boa vontade bastam poucos meses e mesmo
poucas semanas. O contrário se dá com as almas que, mesmo sendo boas e bem
intencionadas são cegadas pelo amor próprio, e teimosas nos seus ideais. Com essas obtém-se
o mesmo resultado que o professor, quando tem que repetir todos os dias as mesmíssimas
coisas aos alunos, sem nenhum proveito.
D. — Quais são essas almas tão pouco afortunadas?
M. — São as que, mesmo se capazes de se abrirem ao Confessor, não o fazem
candidamente como dissemos. São as que discutem frequentemente com ele para desviar o
curso da conversa. São as que exigem argumentações mais persuasivas, sermõezinhos
elegantes para acabarem concluindo como bem lhes parece. Eis aqui uma amostra de certos
diálogos, não muito raros por infelicidade, durante os quais o confessor é posto a provas bem
duras:
Uma senhora acusava-se de ser um tanto arrogante e soberba com o marido, de
discutir frequentemente com ele, de não procurar agradá-lo, e mesmo de responder-lhe com
maus modos etc.
O Confessor procurava persuadi-la de que a esposa deve ser humilde, paciente, dócil,
submissa porque, dizia ele:
— O homem afinal é o pai da família.
E ela respondia prontamente:
— Está bem, eu compreendo, mas a mulher é a mãe.
— O homem deve ser o rei.
— Sim, Padre, mas a mulher deve ser a rainha.
— O homem deve ser a "coroa"
— Sim, Padre, mas a mulher deve ser a cruz, que fica sobre a coroa.
M. — Agora, diga-me, o que é que se pode obter de tais penitentes?
D. — Mas, Padre, essa mulher ou é louca ou então bem arrogante.
M. —Do mesmo modo arrogantes e presunçosos são os que prosseguem nos
diálogos, para continuar a namorar, a freqüentar bailes, etc.. .
D. — Obrigado, já entendi plenamente. E é só o que tem a dizer a respeito do
confessor?
M. — Ao confessor devemos ainda três coisas importantíssimas: respeito, caridade e
gratidão. E, antes de tudo, respeito e caridade, seja quanto ao segredo da confissão, seja
quanto ao modo de nos comportarmos com ele, seja quanto às nossas preces pelo seu
ministério.
D. — O quê vem a ser respeito e caridade, quanto ao segredo da confissão?
M. — Quer dizer que, assim como o Confessor está ligado ao mais inviolável
silêncio em torno dos segredos que lhes são confiados, o penitente por sua vez deve uma
certa correspondência. Tudo quanto se passa entre o confessor e penitente forma um todo
sacramental com o Sacramento da Penitência, e tudo o que diz respeito à confissão merece
estima, respeito e veneração. Trata-se aqui de íntima relação com o representante de Jesus
Cristo, e o abaixamento dessas relações ao nível das relações humanas, é verdadeira
profanação.
D. — Então, Padre, não fica bem e não se pode falar das coisas ouvidas no
confessionário?
M. — Não, não fica bem e não se pode! Tudo que um confessor diz a uma alma em
seguida às suas acusações e manifestações, é um alimento e um remédio preparado grão a
grão, gota a gota para ela, e não é lícito dissipá-lo e fazer dele matéria de conversações. O
Confessor nunca abre a boca sobre aquilo que lhe é confiado na confissão, nem sobre as
respostas que dá aos penitentes, estes por sua vez, não devem falar do que eles próprios
dizem ao Confessor, nem do que ele lhes diz.
D. — O hábito de falar de tais coisas pode trazer conseqüências?
M. — Pode trazer conseqüências funestíssimas:
1) Pode ser causa de mal entendidos, isto é, fazer crer que o Confessor disse o que ele
nunca pensou em dizer.
2) Pode criar para ele embaraços na direção das almas, devendo ele ocupar-se um por
um, dos penitentes, sem se preocupar com outras pessoas.
3) Pode faltar à caridade para com ele, que não tem em mira senão a maior glória de
Deus, e a saúde das almas.
4) Pode ser nocivo ao próprio proveito e ao dos outros, criando rivalidades, invejas, e
antipatias, pode mesmo fazer nascer suspeitas sem fundamento na mente de alguns, que
tendo o coração cheio de lama, não sabem avaliar as coisas santas. Oh, quantos, pela
leviandade de suas línguas comprometem o respeito devido ao Sacerdote e ao Sacramento.
Eles repetem as palavras, os avisos, as interrogações do Confessor, mas, separando do resto
da conversa aquelas palavras e despindo-as das circunstâncias que as tornavam necessárias,
lhes dão um sentido inteiramente diferente do que tinham na confissão, tornam-se falsos e
mentirosos. Que responsabilidade diante de Deus... Adotemos, portanto a regra inflexível de
não falar, nem pouco nem muito, das coisas da confissão. Se você soubesse quantos
desgostos e quantas humilhações causaram ao Santo Cura de Ars umas devotas de falsa
consciência e de falsa piedade!...
D. — E os que falam de seu confessor, ou para criticá-lo ou para elogiá-lo?
M. — Esses também fazem mal. Devemos deixá-lo velado no seu confessionário,
onde Jesus Cristo o escondeu. Se o julgarem como um verdadeiro Pai Espiritual, aceitem os
seus conselhos e pratiquem-nos; se pelo contrário acharem que ele não possua todos os dotes
que desejariam encontrar nele, não só podem, mas devem abandoná-lo para procurar outro,
mais de acordo com os seus ideais sublimes.
D. — O quê me diz, Padre, dos que trocam frequentemente de confessor, no intento
de acharem um melhor?
M. — Digo que tais pessoas são o martírio dos pobres Confessores. Chegam a
impacientá-los todos um por um, continuando sempre na prática da própria vontade e dos
próprios hábitos e defeitos.
Podemos aplicar-lhes a palavras do Arcebispo de Paris, falando de uma abadessa que
acabou abandonando o convento, tornando-se jansenista: "Era o tipo mais completo dessas
virgens, as quais, sendo puras como anjos, ficam orgulhosas como demônios".
Essas pessoas fazem como certos tipos briguentos que, à procura de um advogado
que lhes dê razão, causam a própria ruína, ou como muitos doentes crônicos incuráveis que
procuram um médico que, piedosamente os engane.
D. — Padre, o senhor disse que devemos gratidão ao Confessor; de quê modo?
M. — Francamente, se há quem mereça todo o nosso reconhecimento pela qualidade
e o número de benefícios que nos traz, essa pessoa é o Confessor, o qual, pelo puro dever do
seu ministério sagrado, gratuitamente, sacrifica suas comodidades, os próprios interesses,
todo o seu ser em benefício e proveito de nossas almas. Porém, a recompensa, ele a espera de
Deus, as únicas coisas que pede a nós são a correspondência ao bem da alma e as nossas
preces para ele, seja durante a sua vida, seja depois da morte. Ele leva sempre no coração
apreensivo o temor de que, depois de ter salvo os outros, possa ele próprio encontrar-se entre
os réprobos.
D. — Portanto, todo o nosso reconhecimento, mas nada de agarramento, não é
Padre?
M. — Justamente, obediência, respeito, gratidão, mas, nenhum agarramento. Pelo
contrário devemos pôr de lado tudo o que pode haver, mesmo só de imperfeito, nas relações
humanas. As partes sobrenaturais nada têm de comum com a landes mundanas da terra.

5 de março de 2015

Confessai-vos Bem - Padre Luiz Chiavarino.

Docilidade para com o confessor

D. — Padre, devemos, além do mais, ser dóceis para com o Confessor.
M. — Tudo o que foi dito quanto à confiança, pode aplicar-se ao que diz a respeito á
docilidade; em outras palavras, devemos crer no Confessor, ter confiança nele, deixar que
nos julgue, pôr em prática as suas ordens, proibições e conselhos.
D. — Padre, alguma vez acontece que o Confessor diz: "basta, eu compreendi". E
então?
M. — Então, devemos calar-nos no mesmo instante e passar a falar de outra coisa.
D. — Mas se temos a impressão de não ter dito tudo!
M. — Quando o Confessor fala assim, é sinal de que, desde as primeiras palavras,
teve a intuição do estado da alma e pôde conhecer o que ainda não dissemos ou que não
soubemos explicar.
D. — Portanto, não fazem bem os que, quando o Confessor os interrompe, ou para
fazer uma pergunta ou para pedir uma explicação, no lugar de prestarem atenção no que ele
lhes diz, pensam nas faltas ainda não confessadas para não as esquecerem?
M. — Não, não fazem bem. Devemos prestar toda a atenção ao Confessor, mesmo
que seja para esquecer as culpas que ainda não foram ditas, estas poderão ser acrescentadas
mais tarde, quando o Confessor nos convidar a fazê-lo.
D. — E se as esquecermos?
M. — Se isso acontecer paciência. Confessá-las nas confissões seguintes.
D. — E tal confissão é considerada bem feita?
M. — É, porque quando, sem ser propositalmente, omitimos uma ou mais faltas,
mesmo graves, a confissão vale igualmente, e podemos ir para a Comunhão, até diariamente;
somente ficamos obrigados a confessar as culpas esquecidas na primeira vez que voltarmos a
Confissão.
D. — Padre, todos indistintamente, mesmo os mais instruídos do que o Confessor,
devem-lhe atenção e obediência?
M. — Sim, todos, porque devem lembrar-se de que quem fala naquele momento é
Jesus, oculto na pessoa do Confessor.
D. — Quê me diz, Padre, dos que pretendem, todas as vezes, longas explicações,
sermões e muitos palavras bonitas?
M. — Tal pretensão, é uma vaidade. O confessionário não é um púlpito, nem uma
cátedra escolástica. Mas, se o Confessor achar necessário uns conselhos ou umas
explicações, devemos prestar-lhe toda a atenção. E que não lhes aconteça o mesmo que a um
menino que, enquanto o Confessor falava, ia contando os furinhos da portinhola, e, em certo
ponto exclamou: — "Cento e dois, Padre!" — Ou então o que aconteceu com uma velhinha
que adormeceu no confessionário e obrigou o confessor a sair para acordá-la.
D. — Diga-me mais uma coisa, Padre, é preciso também acreditar no Confessor?
M. — Certamente. Como o Confessor pelo seu ofício tem a obrigação estrita de
acreditar no penitente, e só no penitente, quando se trata do que ele lhe confia assim o
penitente é obrigado a acreditar candidamente no confessor; e no entanto, muitas vezes se dá
o contrário. Não são poucos os que, se na hora confiam plenamente o seu coração ao Confessor
para receberem o remédio e o conforto, não pensam depois em recolher o fruto dessa
confiança. Muitas vezes o Confessor diz a um penitente:
— A causa do seu mal é aquela certa coisa, ou aquela pessoa, ou aquela ocupação, ou
aquele lugar, etc.
E o penitente: — Oh, não! Aquela coisa, aquela ocupação, aquela pessoa é necessária
para mim... Não posso passar sem ela.
A um outro diz: — Tome cuidado que aquela leitura, ou aquele passa-tempo, ou
aquela relação é perigosa...
E o penitente: — Nunca, Padre; eu sei o que faço... tenho juízo...
A um terceiro diz: — Aquela aversão, ou aquele ciúme, ou aquela inveja lhe
prejudica.
E o penitente: — Mas Padre, são os outros que me odeiam, que me invejam...
E assim, vai-se recusando a correção, como se o fato de não se querer ser doente,
bastasse para ser são.
D. — Não é assim que se procede com o médico do corpo, não é Padre?
M. — Pelo contrário, cremos nele cegamente, renunciamos logo à nossa opinião, na
escolha da cura e dos remédios seguimos à risca o que ele receita.
D. — E por que com o médico espiritual não usamos da mesma docilidade?
M. — Não sei, é um mistério. Com outros penitentes dá-se o contrário. O confessor
diz-lhe, por exemplo: Não pensem mais na vida passada, não confessem mais tais pecados ou
então não façam caso desses temores, dessas dúvidas, não se preocupem com tais tentações.
Com palavras assim tão claras, com afirmações tão precisas, deviam ficar plenamente
seguros e tranqüilos, mas não! Vão repetindo: de certo eu não expliquei bem... O confessor
com certeza não me compreendeu... Talvez eu não sinta o devido pesar... e não percebem,
essas pobres almas, que, continuando assim, viverão sempre inquietas. Uma senhora, dessas
como há muitas, vai ao médico para expor-lhe uma fileira de doenças. O doutor, depois de
ouvi-la pacientemente, acaba por receitar-lhe uns pós para serem tomados em horas certas. A
boa senhora não parece muito satisfeita, contudo, vai à farmácia, manda aviar a receita,
espera por ela, paga e vai para casa. Ali chegando, em lugar de tomar sem mais o remédio,
diz consigo mesma: E se o médico não tiver compreendido bem? Se eu não tiver explicado
claramente o que sinto?!... E se a receita não for exata?!... Eu tive a impressão de que o
farmacêutico estava hesitante!... E se ele, por acaso, tivesse errado a dose?! Ai de mim!...
Estaria tudo acabado... Eu, tomar esse pozinho? Nunca!
Na manhã seguinte vai a outro médico, torna a contar a história dos seus males, desta
vez com maior cuidado e precisão. O médico ouve com atenção, e depois receita uma poção
para tomar às colheradas. A senhora agradece, paga e sai apressada. Chega a uma farmácia,
apresenta a receita e, depois de servida, volta toda satisfeita para casa. Mas, antes de tomar o
remédio, torna a cogitar e diz: — Como é que o outro receitou um pó e este um líquido? Por
ai já se vê que não estão de acordo, que não conhecem suficientemente a minha doença, que
provavelmente receitam ao acaso... e eu tenho que ser a infeliz vítima da ignorância deles?!
Não, isso não! E guarda o remédio, resolvida a não tomá-lo porque está convencida de que
lhe causará a morte.
No entanto, vai consultar um terceiro médico, e repete a mesma cantoria dos dias
precedentes, sempre com maior exatidão e abundância de detalhes precisos. Este também a
ouve com muito interesse e depois receita umas pílulas para serem tomadas de manhã e à
noite. A doente, convencida de que encontrou quem é realmente capaz de curá-la, corre a um
terceiro farmacêutico e retira as pílulas. Mas, chegando em casa, o caso foi ainda pior do que
das outras vezes. — Por que é que tenho que tomar pílulas, e não o pó? e por que não o
líquido? Os médicos não sabem nada. Será que eu tenho mesmo que morrer, sem achar quem
me compreenda? Pobre de mim!
E ela se aflige, chora, de tal modo desesperada, que causa dó, nem criados, nem
vizinhos, nem amigos, e todos que a conhecem não conseguem consolá-la e persuá-di-la. Ela
não ouve nada, segundo a sua opinião, ninguém a compreende, ela tem que morrer. Coitada:
os seus males são mais imaginários do que reais.
D. — Coitada! Daria vontade de chorar, se não fosse tão cômico.
M. — Pois bem, igualmente infelizes são os penitentes que não se querem adaptar:
não querem ser dóceis para com o confessor, nem acreditar nele cegamente, no que diz
respeito ao que interessa à alma.
D. — Quando o confessor se responsabiliza pelas coisas da nossa consciência, é sinal
que conhece o nosso íntimo, e sabe avaliar melhor do que nós nossas próprias misérias, tal
como um médico, depois de cuidadosas visitas, conhece melhor do que nós nossos males;
não é mesmo Padre?
M. — "Justamente! Como pode alguém pensar que ele queira ir para o inferno por
querer tirar de lá os outros?
D. — Isso também não!
M. — Pois então, assim como acreditamos no médico, acreditemos no confessor. Só
a alma que renuncia à opinião própria e aceita ingenuamente da parte do confessor, seja a
correção, seja o conforto, poderá sentir-se sempre tranqüila e segura.

4 de março de 2015

Confessai-vos Bem - Padre Luiz Chiavarino.

Confiança no confessor

D. — Padre, como deve ser a confiança no confessor?
M. — Deve ser ingênua, sem inquietação ou duplicidade. Em outras palavras,
devemos, abrir-lhe o nosso íntimo sem reserva alguma, devemos agir justamente como as
crianças que sentem a necessidade de dizer tudo aos que procuram a sua felicidade.
D. — O que significa abrir-lhe o nosso íntimo?
M. — Significa que devemos contar-lhe tudo, os pecados, os defeitos e as más
inclinações, quando prejudicam a consciência, seja quanto ao passado, seja quanto ao
presente.O demônio, diz santo Inácio, age com os incautos como os jovens dissolutos com as
moças tolas que querem seduzir. Temem que as infelizes contem aos pais as palavras, as
confidências, os dizeres argutos que usam. Assim o demônio emprega toda a astúcia possível
para que não demos a conhecer ao confessor as suas artimanhas e os seus enganos..
D. — O demônio teme essa nossa confiança, por que ela corta todos os seus laços e
descobre todos os seus enganos: não é verdade, Padre?
M. — Justamente! e para sufocá-la ou diminuí-la enche as almas de dúvidas,
temores, suspeitas, desconfianças contra o próprio confessor. É preciso, portanto, ter
coragem e mostrar ao padre até essas insídias e tentações da nossa alma.
D. — Mas o confessor não se aborrecerá com essas misérias?
M. — Cada um tem o direito de manifestar o que interessa à própria consciência e
por isso a confiança deve ser ilimitada sem reservas salvaguardando sempre duas coisas: a
caridade para com o próximo e o respeito pelo confessor.
D. — Padre, os tais que deixam de confessar-se, ou então se confessam de quando
em quando, porque têm medo de não saber dizer tudo e bem, como desejariam, fazem mal?
M. — Fazem muito mal! E nas mesmas condições estão os que querem lembrar-se de
tudo, querem compreender tudo, saber explicar tudo, e, por não serem capazes ficam
inquietos e angustiados. Quando fazemos tudo o que está ao nosso alcance. Deus pensará no
resto.
D. — E o confessor também, não é?
M. — Certamente! Nós nos apresentamos a um Pai, o qual saberá interpretar e até
mesmo adivinhar o que não estamos em condição de bem lembrar, compreender e explicar.
Ele saberá interrogar-nos convenientemente e nos ajudará do melhor modo.
D. — Quê diremos, Padre, dos que não gostam de ser interrogados?
M. — É preciso dizer que sabem que estão doentes e não desejam ser curados, por
conseguinte nunca poderão sarar.
D. — O que significa sem inquietação ou duplicidade?
M. — Significa que a confissão deve ser feita sem artifícios ou rodeios. Faltam a isso
as pobres almas que, impelidas de um lado pela necessidade de manifestarem-se
inteiramente, e do outro pelo medo de falarem demais, procuram um meio termo. Recitam
exórdios estudados, recorrem a expressões gerais, abstratas, vagas, acusam-se e desculpam-se,
dizem e negam, de modo que o pobre confessor acaba não entendendo nada.
D. — Quanta miséria! E para que esses rodeios?
M. — Porque têm medo de sair perdendo, de se desonrarem, nem eu sei como.
Coitados, não sabem que são justamente a espontaneidade e a sinceridade de se dizerem
culpados que predispõem o coração do Confessor à compaixão e ao perdão, enquanto que os
artifícios obtêm o efeito contrário.
D. — Aqui vem o provérbio: "Quem se acusa, Deus desculpa; quem se desculpa
Deus acusa", não é mesmo, Padre?
M. — Justamente! Um dia um homem chegou para se confessar com D. Bosco,
justamente por timidez, em lugar de acusar os próprios pecados tratava de desculpá-los. O
servo de Deus que como Santo, lia na fronte e na alma de seus penitentes, o ouviu algum
tempo, mas depois, interrogando-o, perguntou amavelmente.
— Desculpe-me, mas o senhor veio para se acusar ou para se desculpar?
— Oh, Padre, para me acusar!
— Então acuse-se e diga sem mais: eu pensei assim e assim... fiz assim e assim...
aconteceu isto, isso, aquilo.
E assim dizendo, expôs todas as suas misérias; depois acrescentou:
— Queira desculpar-me; se adivinho é porque não quero que cometa um sacrilégio e
vá para o inferno, desde que "a quem se acusa Deus desculpa e a quem se desculpa Deus
acusa".
O coitado, muito confundido, mas mais do que satisfeito por se ver livre de tamanho
peso, não acabava mais de beijar a mão de D. Bosco, e de agradecer-lhe por tê-lo tirado de
tão grande atrapalhação.
D. — Mas nem todos são como D. Bosco, nem todos podem ler no pensamento e no
coração. M. — Justamente por isso é necessário confessar-se sempre claramente, sem rodeios
nem desculpas, para que o Confessor possa compreender e perdoar... e, sobretudo, para que
não seja enganado.
Conta-se que o Papa Gregório XVI, tendo ido visitar a penitenciária de
"Civitavecchia", perguntava a cada um dos condenados o motivo pelo qual se achava ali.
Todos, naturalmente, respondiam:
— Por nada, Santidade... Foi uma injustiça... nós estamos inocentes! Finalmente
encontrou um que, todo choroso e muito humildemente, respondeu:
— Ah! Santidade... Eu sou um miserável... culpado de crimes infames... justamente
condenado... O Papa, então voltando-se para o diretor da penitenciária, disse:
— O lugar deste bandido não é no meio de tantos inocentes. Tire-o daqui e mande-o
para casa.
D. — Ótimo! Viva a sinceridade! E agora, Padre, diga-me, eu ouvi dizer que a
confissão deve ser breve, em que consiste essa brevidade?
M. — Consiste em começar sem mais nada pelas coisas importantes; depois, sem
temor de que o confessor conheça ou compreenda demais, devemos passar pouco a pouco
para as coisas menores, sem hesitação ou interrupção.
D. — Nesse caso, enganam-se os que medem o valor da confissão pela duração da
mesma, e acreditam que, tanto maior o tempo passado no confessionário, tanto mais bem
feita a confissão?
M. — Enganam-se, porque há confissões ótimas apesar de muito breves e há
confissões de pouquíssimo valor apesar de durarem muito. É sempre breve a confissão em
que não se diz nada de inútil; e é sempre muito longa aquela em que se diz mesmo uma única
palavra inútil ou inoportuna. Assim dizem os Santos.