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16 de fevereiro de 2015

Sermão da Sexagésima - Padre Luiz Fernando Pasquotto

Sermão da Sexagésima


Mas José, seu esposo, sendo justo e não querendo expô-la, quis dispensá-la em segredo”.
(S. Mateus I, 19)

Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria...

Hoje falaremos do cuidado que devemos ter nas relações entre os homens e as mulheres, entre os rapazes e as moças.
Há duas funções que estão ligadas diretamente à paternidade e, portanto, à masculinidade: providenciar os bens que são necessários e proteger as pessoas que lhe são confiadas.
O papel de proteger a honra das mulheres é um papel que cabe principalmente aos homens. É papel do marido e do pai proteger a dignidade da esposa e das filhas, e de assegurar que suas roupas sejam modestas e que elas tenham um comportamento moderado pela virtude da modéstia. Uma mulher que queira se vestir com modéstia terá dificuldades para fazê-lo se seu marido pouco se importa com isso ou, pior ainda, se ele é contra. Esta preocupação de São José em proteger a honra de Nossa Senhora é um exemplo claro de compreensão do papel que um esposo e um pai deve ter em zelar pela honra de quem lhe foi confiado, não querendo lesar a honra de Nossa Senhora diante dos outros.
Isso se dá também de modo indireto, porque um homem correto se afasta daquilo que ofende a modéstia. Uma moça que sabe que seu noivo é honesto e que quer agradá-lo, veste-se com modéstia, uma vez que a castidade está ligada à modéstia e faz com que os olhos sejam desviados de algo que possa ofender a pureza. Um rapaz virtuoso, se vê na noiva uma falta neste ponto, terminará se afastando dela, pois ele mantem a guarda dos sentidos. Se uma jovem quer ter um noivo e, portanto, um marido que não seja causa de muitas e graves infelicidades para ela e sua família, ela deve zelar pela própria modéstia.
Desejar encontrar um noivo ou uma noiva a todo custo é um erro tão grande que é difícil encontrar uma palavra que qualifique bem uma imprudência dessas. Escolher uma pessoa para ser marido ou esposa por toda a vida é uma decisão tão séria que só deve ser tomada depois de pedir conselho, de rezar muito e longamente (sobretudo diante do Santíssimo Sacramento), de ter se instruído bem sobre as responsabilidades que a vida de casado tem, as dificuldades comuns dela, o estado de espírito que se deve ter ao ingressar neste estado de vida, do espírito de sacrifício que a vida de casado pede e que é, pelo menos em certa medida, o eixo central do casamento (digo em certa medida porque em todas as coisas o mais importante é amar a Deus). Buscar um noivo ou uma noiva em uma festa, entre as pessoas comuns da faculdade ou do trabalho, em grupos de encontros, etc., é de uma imprudência sem medida. Em outra ocasião veremos o que é necessário para um noivado ser bem sucedido, e que casar não é uma loteria. Mas agora nos interessa ver como estes comportamentos afetam a modésia.
O medo, muitas vezes bem exagerado, de talvez não casar, faz com que muitas mulheres abandonem a modéstia, achando que assim garantem o casamento que querem. Elas casarão, sem dúvida alguma. Mas a vida em comum numa família exige qualidades que não se encontram em quem busca um marido ou uma mulher de modo impulsivo. E como o ser humano é racional, chega uma hora em que os graves defeitos do conjuge, tolerados no noivado por interesse ou não observados por causa da cegueira que a sensualidade dá, se tornam insuportáveis e nenhuma beleza ou dinheiro consegue amenizar estes problemas.
Conheço uma pessoa que casou-se e depois de separada viveu em concubinato mais duas vezes. Ela me disse uma vez: “O senhor não sabe o que é chegar em casa, olhar para o seu marido, e pensar: Este é o pai dos meus filhos?”. Aqui vemos que o problema não estava somente em quem ela havia escolhido para ser seu marido, pela primeira vez, mas ela também tinha um defeito grande me saber como escolher um marido. Uma moça que quer evitar um peso imenso desses deve saber que não se busca um rapaz pelo anzol da falta de modéstia, e que este é o melhor meio de encontrar um péssimo marido e de fazer um casamento fracassado.
Em segundo lugar, é certo que um rapaz que olha para uma moça atraído pela falta de modéstia dela, depois de casado também olhará para outras, atraído pela falta de modéstia delas. O número de padres que falam sobre isso nos seus manuais de moral, de pastoral e que dão testemunho disso é enorme. Uma moça e um rapaz que agem sem modéstia devem saber que se tornam ocasião de pecado também para pessoas casadas e que cooperam para destruir casamentos, o que é gravíssimo. Se não cooperam de modo imediato e pessoal, ajudam a fazer com que um dia isso aconteça, por facilitar o aparecimento e a aquisição dessa disposição. E isto nos faz tratar também da familiaridade que devemos evitar com pessoas do sexo oposto.
Pio XI, na encíclia Divini illius Magistri, sobre a educação da juventude, relembra princípios fundamentais. Primeiramente, os pais devem se lembrar da verdadeira natureza dos filhos que têm: “nunca se deve perder de vista que o sujeito da educação cristã é o homem inteiro; um espírito unido a um corpo, na unidade de natureza, com todas as suas faculdades naturais e sobrenaturais, tal como nós conhecemos pela reta razão e pela Revelação”.
Nós temos um corpo; mas não temos somente um corpo. Temos um espírito, mas não somos somente um espírito. Nem anjo, nem animal. “Um espírito unido a um corpo na unidade de natureza, com todas as suas faculdades naturais e sobrenaturais”. Eis o que nunca se deve perder de vista. Os pais não devem perder de vista, também, que os seus pequenos e estimados filhos, tão belos e tão bonitinhos, são todos eles filhos de Adão, o pecador, resgatados por Cristo e incorporados nele pelo batismo, mas carregando neles a consequência do pecado original: “É também o homem caído do seu estado original, (...) que não possui os privilégios preternaturais da imortalidade do corpo, da integridade e do equilíbrio de suas inclinações. Permanecem, na natureza humana, os efeitos do pecado original e, em particular, o enfraquecimento da vontade e a desordem de suas inclinações”. E “o grande erro (desse naturalismo na educação) é não querer admitir a fragilidade nativa na natureza humana, de fazer abstração desta outra lei, da qual o Apóstolo nos fala, que luta contra a lei do espírito: de ignorar as lições da experiência que mostram até a evidência que, especialmente entre os jovens, as faltas contra os bons costumes são menos um efeito da ignorância intelectual que da fraqueza da vontade exposta às ocasiões e privada dos socorros da graça”. “O homem, diz a escritura, é inclinado ao mal desde a infância”.
Se, para educar os filhos, os pais guardam muito claro na inteligência a verdadeira natureza deles: animais racionais, machucados pelo pecado original, redimidos por Cristo, mas carregando com eles as consequências do pecado original, então eles rejeitarão qualquer sistema de educação que não leve em conta as verdades reveladas. “Portanto, a Igreja nos diz, é falso qualquer naturalismo pedagógico que, de qualquer modo que seja, exclui ou tende a diminuir a ação sobrenatural do cristianismo na formação da juventude; é errôneo qualquer método de educação que se baseie, totalmente ou em parte, na negação ou esquecimento do pecado original ou do papel da graça, para apoiar-se somente nas forças da natureza”.
Por isso a Igreja sempre ensinou que não deve haver familiaridades entre homens e mulheres. Por causa da fraqueza humana, é colocar-se em ocasião de pecado, que será leve ou grave em função da intenção, da maior ou menor força que a ocasião tem para arrastar ao pecado, das circunstâncias. Pio XII, em um discurso de 22 de maio de 1941, dizia: “Ó, com que razão se observou que se certas cristãs suspeitassem as tentações e as quedas que elas causam em outros pelo modo com que se arrumam e as familiaridades, às quais elas dão tão pouca importância, na leviandade delas, elas se aterrorizariam da responsabilidade que têm” (Discurso às moças da Ação Católica de Roma, membros da cruzada da pureza).
É necessário ilustrar em que consistem estas familiaridades, de modo geral. Elas consistem em: trocas de presentes entre rapazes e moças, mesmo que sejam coisas bem pequenas como artesanatos, imagens, desenhos, etc., e manifestações de estima e de afeto sem motivo e sentimentais; ficar falando com alguém de outro sexo, sem motivo, ainda que não estejam sozinhos e que possam ser vistos por outros, porque vistos ou não, os afetos mútuos aparecem e influenciam depois o comportamento de ambos; cumprimentar as pessoas do outro sexo com familiaridade e uma proximidade que não convem, como beijos e abraços (exceção feita a certas pessoas da família).
Um rapaz não fica agindo de modo imodesto sobretudo na presença de outras moças: movimentos e gestos amplos, chamativos, falando alto, indo em direção a elas para fazer piadas e chamar a atenção, dando mostras de suas habilidades esportivas, etc. Uma moça não fica mexendo no cabelo o tempo inteiro porque tem outros rapazes por perto, ou tirando o espelho da bolsa, ou ficar andando de um lado para o outro, sozinha ou acompanhada de outras, ou falando alto, etc. Tudo isso mostra uma falta de controle da inteligência sobre si mesmo. Os rapazes e moças devem aprender, quando estão entre pessoas do mundo, como cumprimentar sem permitir familiaridades, guardando uma reserva e uma distância suficientes.
Dom Antônio de Castro Mayer, no seu já citado Catecismo das verdades oportunas que se opõe aos erros contemporâneos, condena a proposição seguinte: “Por um desígnio da providência, a maior parte das pessoas é chamada a viver no estado do matrimônio. As moças de colégio que namoram estão, pois, em seu caminho natural. Portanto, não se deve impedir que o façam” (proposição 60). Ele responde dizendo que os professores devem instruir os alunos para que saibam fazer uma escolha conforme à vontade de Deus. Diz, ainda, que devem impedir nas escolas tudo aquilo que seja um obstáculo aos estados de vida mais nobres e generosos, como a vida religiosa e o sacerdócio. Deixar os jovens livres para namorar seria entregá-los não a um amor perfeito, mas à sensualidade, seria destruir as pessoas que têm condições de seguir a vida sacerdotal e religiosa, seria destruir os futuros casamentos. A proposição condenada não distingue entre o amor que leva ao casamento e um comportamento imoral.; não distingue entre o amor na idade apropriada e entre aquele que acontece numa idade em que se é incapaz de casar. Só é possível defender a familiaridade entre rapazes e moças se fechamos os olhos para o dogma do pecado original. Quando vemos, no final da manhã, as portas dos colégios católicos tomadas por casais de namorados, como podemos nos espantar que não haja mais vocações, não só nos seminários mas também entre as religiosas?
É necessário ser realista e saber que não há amor platônico entre moças e rapazes. Os rapazes devem ter bem claro que uma moça é uma futura mãe. Que um dia ela será escolhida por alguém e que, um dia, ele escolherá alguém. Não se brinca, então, com o coração das moças. O mesmo princípio vale para as moças. Elas devem ver bem claro que um rapaz será um futuro pai e esposo.
Os rapazes devem saber que, pela imaturidade da adolescência, acabarão não sabendo se comportar com as moças e frequentemente as machucam sentimentalmente. Mais tarde, quando está mais maduro e decide casar, não sabe se comportar com uma moça e é enganado pela primeira moça que aparece. As moças devem saber que, por buscar um rapaz com quem possam namorar, que elas trabalham ativamente para destruir a própria imagem e correm o risco altíssimo de jamais serem estimadas por um rapaz de valor. As moças não conseguem estimar o tamanho do prejuízo que dão à própria pessoa e à própria honra quando agem de modo leviano.
A familiaridade entre rapazes e moças não prejudica os casamentos somente no fato de impedir uma escolha correta. O hábito adquirido de tratar com familiaridade o sexo oposto causa problemas depois do casamento. Gera, primeiramente, ciúmes no conjuge, e isso pode ir bem longe e tornar a vida conjugal muito pesada. Gera ocasiões para adultérios, evidentemente, (que é um pecado gravíssimo) e são muitos os livros de moral e de teologia pastoral que o afirmam, porque adquiriu-se o hábito de sempre tratar qualquer um do sexo oposto com gentilezas que são perigosas.
Enfim, se uma mulher quer saber o que é um comportamento modesto, reflita sobre como Nossa Senhora se comportava. E se um homem quer saber como deve ser um comportamento modesto, veja como São José se comportava. Para os rapazes a devoção a São José e a consideração das virtudes dele é importantíssimo para que possuam as qualidades que um marido e um esposo precisa ter. E o mesmo vale para as moças quanto à devoção à Nossa Senhora. A Sagrada Família nos foi dada por Deus para nosso modelo e ajuda. Ide à casa de Nazaré e encontrai repouso alí. Jesus, Maria e José, salvai nossas famílias.
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.

Escrito por Padre Luiz Fernando Pasquotto em Sábado Fevereiro 14, 2015 


26 de agosto de 2014

Sermão do XI Domingo depois de Pentecostes - Pe. Luiz Fernando Pasquotto, IBP

Sermão do XI Domingo depois de Pentecostes


"Ide e ensinai todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas aquelas coisas que vos mandei".
(S. Mateus 28, 19-20)
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria...
Já vimos o que é a virtude da fé e algumas visões falsas do que seria esta virtude. Prosseguiremos hoje um pouco mais, e veremos aquelas coisas que parecem ser fé, mas não são.
Se alguém não crê em qualquer artigo ou ponto de nossa fé católica ou, advertidademente, duvida que seja verdade, dizendo-se que é afirmação que pode não ser verdade, então não tem fé. Primeiramente, porque o motivo de crer em todas as verdades de fé, a autoridade de Deus que revela, vale para cada uma delas. Não crendo em uma só, ou duvidando dela, joga fora a autoridade de Deus que afirma a veracidade dela e, com isso, o motivo que sustenta o ato de fé em todas as outras verdades juntamente. Deus, que revelou uma verdade de fé, revelou as outras também. Quem diz crer na Trindade, mas não na presença real de Cristo na Eucaristia, mostra que defende a Trindade não porque Deus revelou, mas por vontade própria. O mesmo Deus que disse: "Eu e o Pai somos um", também disse: "Isto é o meu corpo". Se crê em uma, mas não em outra, é porque se fundamenta não na autoridade de Deus, mas na própria vontade. Consequentemente, não tem fé, que se fundamenta na autoridade de Deus que revela, e não no capricho próprio.
Muitos católicos, atualmente, querem acreditar simplesmente no que eles querem acreditar, e não em todas as coisas que Deus revelou. A fé não está submissa aos nossos desejos. A fé é uma virtude que nos faz crêr precisamente em tudo o que Deus nos revelou. É uma das principais coisas que distinguem um modernista, porque o modernista aceita o que acha que pode aceitar, e não no que o magistério da Igreja ensina como sendo verdade de fé.
Quem crê nas verdades da fé só porque acha que constituem a religião mais perfeita dentre as que existem, e porque é defendida pelos homens mais eruditos e dignos de respeito, ou porque é a religião mais espiritual dentre todas, ou porque é a religião que construiu o Ocidente e por isso merece respeito e admiração, não tem fé. Não são estes os motivos que nos levam a crer com fé verdadeira e sobrenatural. O motivo é a autoridade de Deus que revela. É muito comum encontrar pessoas, muito influentes e admiradas até, entre a chamada direita, que têm essa posição: defende-se a fé católica e a Igreja católica somente porque construiram o Ocidente, a Europa. Encontramos pessoas assim até entre os que dizem formar a chamada direita católica.
Na França ou na Itália, por exemplo, e o Brasil não está imude deles, há direitistas que se dizem católicos não porque têm fé verdadeira, mas porque foi a religião que construiu a Europa, a França ou a Itália, a religião de Clóvis e dos povos que formaram a França ou a Itália, por exemplo. Nenhum desses motivos faz com que tenham fé verdadeira. Quer dizer que se fosse o islamismo ou o budismo que tivessem formado a Europa, então seriam estas as religiões que deveríamos estimar e admirar, e deveríamos aceitar as falsidades que ensinam? Quer dizer que aqueles que vivem no Irã ou na Arábia Saudita devem defender o islamismo e abraçá-lo, porque foi a religião que formou a cultura desses países? Então os recentes mártires católicos de Mosul não tinham, finalmente, porque morrer? Muitas pessoas que se dizem tradicionalistas defendem o rito romano tradicional somente por esses motivos. Muitos católicos que frequentam a missa no rito romano tradicional e que o defendem pelos motivos corretos, não vêem esses defeitos em certos "tradicionalistas", frequentemente pela inocência com que consideram as coisas que ouvem e os artigos que lêem. Porém, a simplicidade de análise pode ser bonita numa criança, mas não é nenhuma virtude em um adulto. Finalmente, não se crê baseado somente no fato de ser a religião recebida dos pais ou avós ou familiares, que podem enganar-se e nos enganar, sendo homens que são. Não é esse o motivo que nos faz crer nas verdades reveladas.
A fé-confiança protestante não é fé verdadeira. Lutero ensinava que a natureza humana está totalmente corrompida depois do pecado original. Nenhuma obra boa pode ser feita pelo homem. Todos os atos do homem são pecados. Um bom padeiro, que faz um bom pão, peca; aquele que dá uma esmola peca; quem ensina o catecismo peca. Como o homem é um animal corrompido, não pode fazer nada por si mesmo para se salvar. É inútil dedicar-se às boas obras. A salvação só é obtida quando o homem põe toda a sua fé, ou seja, uma confiança cega, em Cristo. Pecar ou não pecar não têm importância. O que importa é crer, isto é, ter uma confiança tão firme quanto cega.
Haveria muito a se comentar sobre estas teorias de Lutero. É evidente que se baseiam sobre os escrúpulos de consciência que tinha. Sedento de segurança moral, se livra dos escrúpulos que tem dizendo que tanto faz pecar ou não pecar; o que importa é crer, isto é, confiar cegamente em Cristo, de que Ele já carregou nossos pecados e não precisamos fazer nada por nós mesmos para nos salvar. Mas o que nos interessa aqui é que confiar em Deus não é um ato da virtude da fé, mas da virtude de esperança. Lutero erra no conceito que tem da virtude de fé. Além disso, os hereges não podem ter confiança sobrenatural em Deus. Vimos que a fé é o fundamento de todas as virtudes sobrenaturais. Não tendo fé verdadeira e sobrenatural, não podem ter esperança verdadeira e sobrenatural, e não podem exercer a virtude de esperança que não têm, confiando em Deus. A confiança de Lutero é uma constante ginástica mental, pela qual o pecador busca se consolar dizendo-se a si mesmo que tudo está certo e de que tudo está bem entre ele e Deus, ao mesmo tempo em que vê que as coisas não estão bem entre ele e Deus, que não cumpre os mandamentos livremente. A fé de Lutero é uma quimera que busca acalmar os remorsos da consciência por meio de um princípio errôneo. É um sentimento voluntariamente, violentamente e constantemente produzido. Não é nem virtude de fé, nem pode ser sustentado por muito tempo sem que a pessoa perda o equilíbrio psicológico, pela desordem interna que tem e mantém.
Não tem fé verdadeira quem diz que os dogmas são somente símbolos aproximativos, que exprimem imperfeitamente a experiência pessoal dos membros de uma comunidade. Os dogmas seriam "verdades" temporárias, vindas do interior do homem, emanando da "consciência" pelo sentimento. A comunidade cristã se formou sobre essa experiência que Cristo teria tido com o divino, e essa experiência seria o fundamento da fé. Essa experiência que Cristo teve com o divino pode ser tida por qualquer homem, seja ele muçulmano, protestante, budista. Não há motivos racionais para o ato de fé, somente o sentimento de cada um. Todas as religiões seriam expressões diferentes de diferentes experiências sentimentais e pessoais com a divindade. Por isso, não existe nada, finalmente, que separe as religiões entre si e devemos buscar a união delas, que se faz no amor entre os homens. Uma religião não é válida por ser verdadeira, mas porque produz um sentimento de piedade. Todas são assim, finalmente, e todas as religiões devem coexistir para formar um mundo melhor, fraterno, justo, solidário. Não creio porque Deus revelou, mas porque sinto Deus em mim.
Por isso as crianças não devem aprender os dogmas nas aulas de catecismo, mas devem ser levadas a encontrar Jesus. Pecado não é um ato ou omissão contrários à lei de Deus, mas tudo aquilo que impede o homem de sentir Deus por uma experiência pessoal. Infelizmente são noções extremamente difundidas hoje, em muitos casos por uma verdadeira má compreensão do que é a virtude da fé. Estas noções não são sem consequências. As crianças, ignorando as verdades de fé e as obrigações que têm, primeiramente não dão valor para a religião, que se apresenta a elas como algo nebuloso, vago, sem inteligência e terminam, muitas vezes infelizmente, afastando-se da prática religiosa. As diversões e os programas modernos são tão mais divertidos e mais concretos! Sem princípios, e colocando o critério da verdade no sentimento, elas estão desarmadas diante dos ataques do mundo e do demônio. Além disso, julgarão que a fé é algo incompatível com o estudo, com o conhecimento racional das coisas que Deus criou. Ao ingressar na faculdade, ao crescer em conhecimento, o jovem não somente se desinteressará pela religião, mas verá nela algo oposto à razão, ao que é ensinado pela mais alta matemática ou pela biologia ou pela física, ouvindo as aulas de professores ateus dadas em universidades governadas por maçons. Para piorar a situação, a vida fácil e cheia de liberdades que se tem na faculdade, longe de casa e sozinho, leva muitos a aumentar os pecados, com o consequente afastamento de Deus, que repreende a má vida que passam a levar. Tem-se uma diminuição da prática religiosa, a extinção do espírito combativo e de apostolado que os jovens deveriam ter para difundir a fé católica e converter os que não são católicos, uma diminuição do número de jovens interessados em ingressar nos seminários e conventos. Essa diminuição será ainda maior entre as moças, que são o alvo mais visado pelo mundo atualmente, com a moda imodesta, o feminismo, a superficialidade e a impulsividade no comportamento, o sentimentalismo. Fala-se muito da queda de vocações sacerdotais, mas o problema é ainda maior no que diz respeito às ordens e congregações femininas.
Os professores de catecismo, e os pais que o ensinam aos seus filhos quando ainda são bem novos, não devem pensar que é coisa sem valor. Cito aqui as palavras de um filósofo francês do século XIX, Théodore Jouffroy. Tinha recebido uma educação muito religiosa, mas depois foi influenciado pela leitura de Rousseau e Voltaire. Atravessou uma crise espiritual, da qual deixou um relato. Abandonou o catolicismo. As palavras dele que se seguem são, portanto, insuspeitas: "Existe um livrinho que é imposto às crianças, e a respeito do qual elas são interrogadas na Igreja. Leiam este livro, que é o Catecismo. Nele encontram-se todas as soluções para as questões que em coloco, digo de todas, sem excessão. Perguntai ao cristão de onde vem a espécie humana, e ele o saberá; a finalidade do homem, e o saberá; para onde vai, e o saberá. Perguntai para esse menininho, que ainda não pensou, porque ele está aqui nesta terra, e o que lhe acontecerá depois de morto, e ele o saberá, dando uma resposta sublime... A origem do mundo, de nossa espécie, para onde vai o homem nesta vida e na outra, o que o homem deve fazer com relação a Deus, consigo mesmo e seu próximo, o direito dos homens sobre as criaturas, o cristão sabe todas estas coisas. Quando essa criança crescer, quando for um adulto, conhecerá o direito natural, compreenderá a política, e o direito que deve governar os povos, e os verá com clareza. Eis o que chamamos uma grande religião; eu a reconheço assim, como algo que não deixa nenhuma questão humana sem resposta". Sabemos o que pensar desse modo como vê o Catolicismo, pelo que explicamos acima. Mas até ele, que deixou a Igreja, reconhece o valor do catecismo na formação das crianças.
É um trabalho que vale a pena ser feito. O Cardeal São Roberto Bellarmino, São José de Anchieta, São Francisco Xavier, São Domingos, todos eles e todas as almas apostólicas se deram as maiores penas e sacrifícios para ensinar o catecismo às almas, por amor a Deus. No catecismo, as verdades mais profundas são ensinadas com expressões precisas, densas em doutrina e que serão o fundamento sobre o qual nossos filhos regrarão a formação intelectual e o comportamento que terão, e muitas vezes suspeitarão que algo parece não ser correto, e irão atrás de esclarecimentos. Se se desviarem, terão essas verdades como ponto de partida de um arrependimento sincero e sobrenatural.
As crianças devem conhecer as respostas de cor. É uma pedagogia que foi abandonada há algumas décadas, sendo considerada como grotesca, mas que agora volta a ser defendida por pedagogos modernos baseados em estudos neurológicos sérios sobre as crianças, nos quais se mostra que com elas deve-se proceder na base da aprendisagem pela memória. Só mais tarde elas saberão lidar mais livremente com o que já sabem de cor (é impressionante como o homem moderno se acha tão mais sábio e genial do que os antigos e seus métodos seculares, que duraram tanto justamente porque funcionam bem). A formação doutrinária não é uma perda de tempo e ela faz bem mesmo para os que não têm fé, ao menos pelo bom odor das virtudes que os cristãos exalam. Foi formando os doze Apóstolos que Nosso Senhor ensinou o mundo inteiro.
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.
Escrito por Padre Luiz Fernando Pasquotto em Terça Agosto 26, 2014 
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22 de julho de 2014

Homilia 5º Domingo depois de Pentecostes - Pe. Luiz Fernando Pasquotto IBP - (06 de julho)

Sermão do IV Domingo depois de Pentecostes

"Em tua palavra lançarei a rede".
(S. Lucas 5, 5)
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria.
O Evangelho de hoje contém uma quantidade imensa de lições e de pontos interessantes para refletir. As multidões seguem Nosso Senhor e o rodeiam para ouvir sua doutrina. Quem era este homem que prende a atenção de uma multidão, que falava e jamais era interrompido, por causa das coisas extraordinárias que falava?
Vemos depois dois barcos. O que podem significar estes dois barcos, um dos quais era de São Pedro? Além disso, é justamente nele que Nosso Senhor entrará, justamente na barca de Pedro. O que simboliza o fato dos pescadores limparem suas redes? Não poderíamos ver aí a obrigação que os padres, pescadores de homens, têm de recolherem-se periodicamente e de limpar os intrumentos que usam para conquistar almas para Nosso Senhor, estudando, aprofundando a Teologia de Santo Tomás, o Doutor dos doutores da Igreja, de revisar o modo como confessam e rezam a Santa Missa e administram os outros Sacramentos, limpando-os dos defeitos e falhas que costumam surgir com o tempo?
Nosso Senhor pede que a barca na qual está se afaste um pouco da terra para que ele possa ensinar. Não devemos ver aqui o distanciamento que devemos ter das criaturas para poder receber os ensinamentos de Deus com frutos, mas um certo distanciamento, que não equivale a um desprezo por aquilo que é obra de Deus.
Nesta barca Nosso Senhor ensinará sentado, como os mestres que tinham autoridade faziam naquela época, e ensinará na barca de Pedro. Quem não vê aqui que é na Igreja de Pedro que só se pode encontrar o ensinamento que vem de Cristo com autoridade?
Cristo, depois, pede para São Pedro ir mais para dentro do mar e lançar as redes. Mais uma vez São Pedro! Como Nosso Senhor tem uma atenção especial por São Pedro nos Evangelhos! Afinal de contas, é sobre ele que Cristo fundará a sua Igreja, é ele que deverá apascentar, governar e dar de comer às suas ovelhas.
Após uma noite toda de trabalhos infrutuosos São Pedro obedecerá ao pedido de Nosso Senhor. Ele poderia, sob certo aspecto, negar este pedido, argumentando que era ele, Simão, que sabia bem pescar, que tinha experiência nestas coisas, que já fazia isso há anos e que não trabalharia uma segunda vez em vão. Mas Simão fez o que Cristo mandou fazer, contra toda esperança humana. E como Nosso Senhor havia instruído a multidão a partir da barca de Pedro, não o deixou sem recompensa e lhe deu dois benefícios: deu-lhe uma multidão de peixes e depois fez dele seu discípulo.
Os peixes apanhados foram tantos que São Pedro se viu obrigado a chamar outros companheiros para ajudá-los. Chamava-os por sinais, porque seu espanto era tão grande que não podia falar. Até agora os milagres de Cristo não o atingiam pessoalmente. Mas esta pesca milagrosa foi para ele, dirigida para São Pedro. Além disso, a quantidade de peixes quase fez o barco afundar, e Nosso Senhor fez assim para deixar claro que era um milagre, uma pesca que fugia do normal.
E que lição devemos tirar desta humildade de São Pedro depois da pesca milagrosa? "Senhor, afastai-vos de mim, pois sou um pecador!" Não devemos aprender que quanto mais bens Deus nos dá, menos presunçosos devemos ser? Que agrada a Deus o fato de sabermos distinguir entre o bom e o mau, entre o que é santo e o que é impuro, de não afirmarmos que o mau é bom, e que o bom é mau?
Ao dizer aos Apóstolos que não devem temer, porque serão pescadores de homens, não devemos concluir que Nosso Senhor dará aos sacerdotes todos os auxílios necessários ao apostolado que farão? Se Nosso Senhor se preocupou em abarrotar a barca de Pedro com meros peixes, porventura ele não se preocupará em encher a barca da Igreja com filhos de Deus, que valem mais do que peixes?
Mas se os padres querem trabalhar por Cristo e encher a Igreja com filhos de Deus, então o Evangelho ensina claramente como devem proceder: "Em tua palavra lançarei a rede".
É afirmando a doutrina revelada pelo Verbo de Deus, sem mistura de falsos princípios do mundo, que pescam-se filhos de Deus. É possível, mantendo o bom senso, querer ensinar algo melhor do que aquilo que nos ensinou a Sabedoria de Deus encarnada?
Dizer, aos que vivem em concubinato e aos que são divorciados e se juntaram com outra pessoa, que eles podem fazer muitas coisas na Igreja, que eles podem ajudar em tal ou tal organização da paróquia, etc, escondendo o fundamental, isto é, que eles encontram-se em estado de pecado grave, é pescá-los com arpão, é transpassá-los cruelmente, é afundá-los talvez de modo irremediável no erro grave em que estão. É necessário, com a prudência católica e com caridade, sem duvida alguma, dizer que se a morte os encontra neste estado a salvação eterna deles estará definitivamente perdida, para sempre, sem retorno, que a existência deles foi uma existência finalmente fracassada.
Como diz Santo Inácio de Loyola nos seus Exercícios Espirituais, com gente que vive em pecado mortal, o mau espírito prende o pecador e o empurra mais e mais ao pecado. Faz-lhe que veja os prazeres mais vivos, os deleites mais sensíveis. Apresenta-lhe estes objetos de pecado como se fossem a maior felicidade para que se afunde mais e mais, e isto faz com que tenha confiança e felicidade, como se tratasse de coisa normal, indispensável. "Todo o mundo faz". O Anjo bom, pelo contrário, envia-lhe um dardo, um aguilhão que o fere, que lhe impede de ficar tranquilo: são as censuras da razão. Mostra-lhe as consequências do pecado. O pecador se encontra em estado de condenação. Se seu carro bate contra um poste ou contra um muro, arrisca-se a passar do volante ao juízo de Deus e ao inferno. Isto é claro... indiscutível. O demônio, precisamente, faz que afaste estes pensamentos que converteram tantas almas. E, assim, aquele que confirma o pecador em seu pecado faz o jogo do demônio.
Dizer que cada um pode escolher indiferentemente a religião que bem quiser, e que o importante é ter alguma religião, é fazer o jogo do demônio. Não é lançar a rede na palavra de Cristo. É só da barca de Pedro que Cristo ensina a verdade e com autoridade, e não de outras canoas. Dizer também que as crianças devem ser livres para que escolham, quando adultas, a religião que mais lhes agrada é fazer o jogo do demônio, e não do bom espírito. É como se eles não devessem saber que Deus existe, que há Céu e inferno, que há uma só Igreja que salva, a Igreja Católica. É como se eles não tivessem uma alma capaz de praticar a virtude e que devesse evitar o pecado.
Do mesmo modo: "Padre, teremos somente um filho, assim o educaremos melhor". Podem ter certeza de que uma criança não é melhor educada que doze. Numa família numerosa e, portanto, como Deus quer, as repreensões que os filhos recebem geralmente não vêm dos pais, mas dos irmãos e irmãs, e isso ajuda muito na educação. Além disso, é importante lembrar, as pessoas se casam para ter filhos e educá-los na religião católica. É para isso que o casamento foi instituído. É esta a finalidade do matrimônio.
É ensinando a doutrina de Cristo, é lançando a rede na palavra de Cristo que os sacerdotes pescam homens. Cristo ordenou aos Apóstolos que ensinassem -- "Ide e ensinai" --, e não disse que deviam confirmar as pessoas no pecado, no erro, que continuassem a jogar com o demônio.
É na afirmação clara da fé católica, com a autoridade que Cristo deu aos sacerdotes, que pescamos muitos peixes para Deus. Esta pesca é, finalmente, impossível sem a graça e os auxílios de Deus, que age no interior das almas e que é o rei dos corações. Fazer o casamento entre a Igreja e os princípios da modernidade é esterilizar a graça de Deus e passar a noite toda esforçando-se infrutuosamente. Eis aqui como se deve pescar homens para Deus, não com meios humanos e falsos, mas lançando a rede na palavra de Cristo.
O nosso auxílio está no nome do Senhor, que fez o Céu e a terra.
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.
Escrito por Padre Luiz Fernando Pasquotto em Segunda Julho 7, 2014 
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21 de julho de 2014

Homilia 5º Domingo depois de Pentecostes - Pe. Luiz Fernando Pasquotto IBP - (13 de julho)

Sermão do V Domingo depois de Pentecostes

"Se a vossa justiça não for mais excelente do que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus".
(S. Mateus 5, 22)
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria.
Todos os vícios, defeitos e imperfeições são filhos e discípulos de nosso amor próprio e do demônio. Ambos, nosso amor próprio e o demônio, se esforçam por cobrir os vícios e defeitos com o nome de virtudes, para enganar os que os têm.
De fato, muitos modos de agir e muitas intenções parecem, num primeiro olhar, virtuosos. A pessoa que as tem está muito satisfeita com eles. Mas quando chega a ocasião da virtude ser testada, aí então ela se mostra falsa. Por isso os autores espirituais comparão estas falsas virtudes com o ouro ou a prata falsificados, aos quais foi acrescentado uma liga de metal ordinário e sem valor, mas com tal habilidade que eles ainda parecem ser ouro ou prata puros. Porém, quando colocados no fogo, o ouro e a prata se separam dos outros metais sem valor aos quais estavam unidos, e deixam a descoberto a liga que os falsificava.
Agora, assim como os falsificadores buscam falsificar aquilo que é mais precioso, prata e ouro, para compensar todo o trabalho e risco que têm, também o demônio se esforça por falsificar a caridade, que é a maior das virtudes, e sua prática na pessoa do próximo. Consideraremos aqui as falsas caridades que existem, porque no Evangelho de hoje Nosso Senhor pede que nossa caridade seja excelente, sem mistura de outras impurezas.
Primeiramente, não pode ser verdadeira caridade o amor que têm entre si os cúmplices e cooperadores em qualquer ofensa contra Deus. Tão longe está de ser verdadeiro amor que, antes, é verdadeira inimizade. O Sagrada Escritura se refere a eles nos seguintes termos: "A reunião dos pecadores é como um emaranhado de estopa e eles terminarão consumidos pelo fogo" (Eclesiástico 21, 9). De fato, quando o fogo da malícia pega em um deles, todos os outros se queimam juntamente; e como nesta vida foram companheiros na culpa, serão companheiros, na outra, dos tormentos.
Não é caridade verdadeira os sinais exteriores de afeto, de benefícios, as correspondências, as visitas, as conversas familiares que têm os que vivem em pecado grave. Pode ser uma amizade natural, como existe também entre os que não são católicos, mas não é verdadeira caridade sobrenatural. O motivo é que não há fruto sem raíz, e o amor para com o próximo procede do amor para com Deus. É amar a Deus no próximo. Ora, se a alma não é amiga de Deus, não pode ter verdadeira caridade para com o próximo. Mais: o preceito da caridade manda que amemos ao nosso próximo como nos amamos a nós mesmos; ora, quem está em pecado mortal não se ama a si mesmo, pois ama ao pecado que é o seu maior mal: "Quem ama a iniquidade odeia a sua alma" (Salmo 10, 6). Tais demonstrações de amizade podem ser honestas, louváveis e necessárias, pertencendo a outras espécies de virtudes morais. Porém, não serão, naqueles que vivem em pecado, verdadeira caridade sobrenatural.
Existe uma outra falsificação da caridade que é mais difícil de discernir, e que está muitas vezes presente naqueles que são amigos de Deus, mas que não se fundamenta em Deus. São Paulo, ao falar de qual era a sua caridade para com o próximo, diz: "Deus é testemunha de que vos amo a todos nas entranhas de Cristo" (Filipenses 2, 8).
Temos aqui três sinais que caracterizam a caridade: 1) Ela deve ser para com todos. Se nosso afeto se extende a alguns próximos e exclui outros, então não se fundamenta em Deus. Deus amanda amar a todos, inclusive os inimigos: "Vos amo a todos"2) É uma amizade que não foge da presença de Deus mas, ao contrário, a busca; ninguém que ama o próximo por amor a Deus tem medo de o fazer diante de Deus: "Deus é testemunha"; 3) É amizade que não nasce das próprias entranhas, mas das de Jesus Cristo, isto é, que nos faz amar o próximo não com amor humano, mas espiritual: "nas entranhas de Cristo".
O que significa amar nosso próximo nas entranhas de Cristo?
Primeiramente, se ao mesmo tempo em que lhe desejo bens materiais me entristeço também com seus males espirituais, pecados e imperfeições, que acendem em mim o zelo e me faz acudi-lo com esmolas espirituais de correção fraterna e de admoestações.
Depois, assim como os frutos de uma árvore serão bons se ela se nutre em boa terra, assim também devo ver do que se alimenta o amor que tenho pelo meu próximo. Se me interesso por ele porque é jovem e simpático; por suas qualidades naturais; por sua capacidade de manter uma conversa; por guardar segredo dos erros que cometo, sendo cúmplice deles; por concordar sempre com o que digo; porque posso fazer diante dele ações que são menos dignas ou que não são dignas de Deus; porque passa seu tempo comigo; porque divide comigo algum bem; porque se junta comigo contra um inimigo comum e isso faz com que nossos defeitos fiquem menos visíveis; porque me prefere mais do que a outras pessoas; então, em todos estes casos este amor não é verdadeira caridade sobrenatural, mas amor pecaminoso ou, no melhor dos casos, meramente natural.
Ao contrário, se o amor se alimenta das virtudes que o outro tem, como humildade, modéstia, espírito de sacrifício, obediência, pobreza; nas ajudas que me dá para evitar o pecado; nos bons conselhos que me dá; porque vejo que é espírito de oração, que reza muito e fala pouco; que cumpre bem suas obrigações e combate até as menores imperfeições; então amo ao meu próximo nas entranhas de Jesus Cristo.
Podemos acrecentar um último sinal: quando falo com alguém, ou se ela me vem à memória, e isso me faz crescer na piedade e na devoção, então é sinal de ser amor espiritual. Mas se vejo em mim os efeitos contrários, ou mesmo se não há em mim fruto algum, me vendo tão devoto ao conversar com uma pessoa quanto se não conversasse com ela, então é sinal de que é amor terreno.
O motivo de tudo isso é o princípio seguinte: "as coisas semelhantes, quando se juntam, reforçam-se mutuamente, crescem e se conservam melhor". Muitas brazas duram mais se estão juntas; dois homens sábios que vivem juntos tornam-se mais sábios.
Por estes critérios já podemos ver que, se provarmos o metal de nossa caridade, muitas vezes se verá que a maior parte não é ouro.
Porém, Nosso Senhor disse que nossa justiça deve ser mais excelente do que a dos fariseus. Os fariseus convidavam outros para banquetes em suas casas, na esperança de também receber outro convite como retribuição; também se uniam porque concordavam entre si nos juízos que tinham; também viviam em pecado mas manifestavam entre si sinais exteriores de afeto e de amabilidade; também criticavam Nosso Senhor para que seus vícios ficassem menos visíveis. Como ser mais excelentes que eles, então?
Primeiramente, devemos retificar nossas intenções sempre que podemos, antes de agir. Parar por alguns instantes e se determinar a falar com alguém, ou fazer algo, somente para a maior glória de Deus, durante o tempo necessário e não mais, não por erudição orgulhosa mas para crescer no amor de Deus. Ter, assim, bem diante de nós, o fim último para o qual fomos criados: conhecer, amar e servir a Deus neste mundo, para tê-lo no outro.
Em segundo lugar, praticar a mortificação dos sentidos, dos nossos gostos e opiniões. Se afogamos nossos interesses não lutaremos por eles, porque ninguém lutar para ter o que não deseja. Evidentemente, aqui, falamos de interesses mesquinhos e que não se orientam ao bem das almas. Uma opinião ou convicção que se dirige para a glória de Deus deve ser mantida, sem dúvida. Porém, por causa do amor próprio, corremos o risco de nos enganar nesta avaliação e devemos ter cuidado.
Em terceiro lugar, compreendermos o que é o homem, colocando-o no seu justo lugar. Com isso não buscaremos nos unir a outros, por interesse pessoal, ou querer aparecer. Santo Inácio, nos seus Exercícios Espirituais, nos dá uma meditação que nos ajuda muito a combater nosso amor próprio: "Considerarei quem eu sou (...). Primeiramente, o que sou em comparação a todos os homens? Depois, o que são todos os homens em comparação com todos os anjos e todos os Santos do Paraíso? Em terceiro lugar, quem são todas as criaturas em comparação com Deus? Logo, enfim, o que eu sou? Depois, considerarei toda a corrupção e infecção de meu corpo. Finalmente, me verei como uma úlcera e um abscesso de onde saíram tantos pecados, crimes e sujeiras vergonhosas".
Em quarto lugar, examinar todos os dias nossa consciência, vendo com que afetos, finalidades e inclinações fizemos nossas obras e usamos nossa boca. Devemos prestar atenção para vermos qual foi o peso que predominou em nossas almas nos atos qui fizemos: se foi para as criaturas, para mim mesmo, ou para Deus. O peso da pedra a inclina para baixo. O "peso" do fogo o dirige para o alto. Como diz Santo Agostinho, "o amor que tenho é o meu peso", isto é, é aquilo que me inclina para algo. Se me amo excessivamente, buscarei meus interesses acima dos de Deus. Se amo a Deus sobre todas as coisas, então buscarei Deus em tudo.
Finalmente, pedindo a Deus que sua lei de caridade esteja inscrita nos nossos corações, isto é, nas nossas inteligências, vontades e afetos. A devoção ao Sagrado Coração é um meio excelente de obter essa graça: "Jesus, manso e humilde de coração, fazei o meu coração conforme ao vosso".
Assim nossa caridade será perfeita. Sem mistura de impurezas, será mais excelente do que a dos fariseus e poderemos ouvir de Nosso Senhor: "Vinde, benditos de meu Pai, receber a recompensa que vos foi preparada desde o começo do mundo".
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.
Escrito por Padre Luiz Fernando Pasquotto em Quarta Julho 16, 2014 
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