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11 de novembro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni

III - A PUREZA DE MARIA

1. - Tornei-me insipiente
Nesta festa solene à vossa piedade, ouvintes religiosos, devendo eu falar da pureza, e da pureza da SS. Virgem, Rainha dos Anjos, Grande Mãe de Deus; debaixo do fulgor de tão soberana excelência, não sabe resolver-me o meu abatido e venerador espírito. Virgem santa quem é que deve aqui falar de Vós? Quem quer tecer o elogio do candor inacessível da vossa pureza? Um pecador, um homenzinho o mais miserável. Como elevar os olhos e dirigi-lo a tanta luz se o temor os aterra, e a vergonha os fecha. Mas, porém, devemos falar, antes enfeitar a vossa oração de vestes mais solenes de gáudio e de alegria. Vós, irmãos, o quereis de todo modo; nem consentis que de outra coisa hoje se fale senão em louvor da pureza de Maria. Muito bem eu direi alguma coisa na minha insipiência. Mas recordai-vos que me haveis forçado: "Tenho-me tomado insensato! Vós a isto me obrigastes" (2Cor 12, 2).
2. - O que é a pureza
A pureza de uma coisa - segundo que tiro da doutrina do Angélico Mestre - consiste em não haver mistura com coisas inferiores a si. Assim a água se diz pura quanto mantém à sua natural clareza e esplendor, separada de qualquer partícula de matéria menos nobre e mais obscura e terrena. Assim pois como a criatura racional que é o homem, naturalmente é superior a todas as substâncias temporais e corpóreas, assim a pureza moral está nisto, que o espírito humano não se incline e
não se misture por afeto desordenado a coisas baixas da terra e tanto mais inferior a si. Entre estas os prazeres sensuais, a voluptuosidade de lama, que tomam comum às bestas e aos jumentos, são as mais vis e reprováveis. Por isso aquele coração que se submete aos prazeres brutais se chama por antonomásia impuro. Pelo contrário aquela virtude - chamada castidade, de castigar, que faz a concupiscência e refreá-la para que não a sobrepuje a cavalgar a razão e a submeter o espírito - se
atribui também por excelência o belo nome de pureza.
3. - A beleza da pureza
A beleza, o decoro desta virtude se revela da feiúra e sujidade do vício contrário. Mas para vê-la mais intimamente, basta - segundo a definição do belo que dá S. Agostinho - considerar a proporção, a harmonia, em que ela constitui as partes do homem, isto é a inferior e a superior, ordenando-as segundo a clareza espiritual da razão. E devemos ainda nós exclamar: "Ó quão bela é a geração casta com claridade!" (Sb 4, 1). Ó bela virtude! Ó bela pureza! Convém aliás dizer que esta virtude é em si perfeita e simplesmente bela; pois, como vemos que o belo agrada absolutamente a todos, assim a pureza em quem quer que se encontre e se veja, atrai com doce violência ao seu amor também aqueles corações que não a possuem e são além disso deformados pelos vícios e quase desnaturados. "Ó quão bela é a casta geração com claridade!"
4. - Virgem singular
Não se deve, porém, crer que a pureza de Maria se possa louvar só pelo seu gênero. Isto seria logo - a quem bem entende - um desvirtuá-la, como se faz com todas as coisas singulares, quando dela se fala como coisas comuns. Muito mais excelente, além de todo juízo mais bela, sabemos ser nesta Virgem, Virgem singular, a pureza. "Virgem singular". Era, todavia, necessário procurar fundamento sobre o qual levantar uma escada onde nossas pequenas mentes subam a tal altura, ou subam - melhor
dizendo - até onde possam, já que aquela meta beatíssima é inacessível. Talvez quem costuma voar com seu espírito, e - melhor ainda - que for cortesmente atraído, poderá aproximar-se mais, poderá entrar, poderá compreender: "O Espírito sopra onde quer" (Jo 3, 8); e "o Espírito penetra tudo, mesmo as profundezas de Deus" (1 Cor 2, 10). Nós que não presumimos de tão grandes favores, nem podemos usar asas, mas somente pés, e pés enfermos, tentaremos a subida por degraus, e pequenos
degraus. "Me empenho em conquistá-la (a meta), consciente de não ter ainda conquistado" (Fl 3, 12).
5. - A pureza conjugal
O primeiro grau comum a muitos membros da Igreja católica - o mais baixo na verdade, mas que porém merece altíssimos louvores do S. Apóstolo - pertence à pureza conjugal. "Vós todos, considerai o matrimônio com respeito" (Hb 13, 4); tanto é estimável mesmo o ínfimo grau de beleza nesta virtude. Estes são os que usam deste mundo, como se dele não usassem. Porque a figura deste mundo passa" (1 Cor 7, 21). E mantendo-se dentro dos limites do lícito e do honesto segundo as
regras da razão, se abstêm mesmo com o desejo daquilo que seja lícito e não honesto: "tudo que é puro, tudo que é amável, tudo que é justo, tudo o que é de boa fama... isto deve ocupar vossos pensamentos" (Fl 4, 13).
6. - A continência da viuvez
A continência da viuvez forma um grau mais elevado de pureza. As viúvas - segundo S. Paulo - merecem particular louvor e honra, quando são verdadeiramente viúvas; isto é não só com o corpo, mas com o coração, afastada dos homens. São estas que governam a paz das famílias, que insistem noite e dia na oração, mestras de castidade e prudência, cheias de obras boas e virtuosas; "Isto é aceito diante de Deus".
7. - A pureza virginal
O terceiro grau, muito mais alto e excelente, o constituem as virgens; nas quais aparece sobremaneira clara a beleza e a luz da pureza; "ser conveniente ao homem ficar assim como é" (1Cor 7, 26). Muitas, porém, são virgens de corpo, mas não são virgens de mente. Estas são chamadas virgens apenas materialmente, pois nelas falta a forma descrita a nós pelo mesmo Mestre da virgindade o Doutor das Gentes com estas palavras: "santa no corpo e no espírito" (1Cor 7, 34). Muitas são verdadeiramente virgens, que, porém, não sem a perfeição desta virtude, não tendo a resolução firme e constante de abster-se em perpétuo das núpcias terrenas: "Não estabeleceu firmemente" no seu coração" (1Cor 7, 37). Algumas são também perfeitas neste eminente grau de pureza, e merecem
todo o louvor da virgindade diante dos homens, mas não junto de Deus; porque satisfeitas e quase se gloriando de si mesmas de haver desprezado as núpcias terrenas, pouco ou nada cuidam de aspirar às núpcias celestes unindo-se a Deus com a oração incessante e com a amorosa contemplação, que de acordo com a mente de S. Paulo, é o fim a que é ordenada a virgindade: "Quisera ver-vos livres de
toda preocupação. O solteiro cuida das coisas que são do Senhor, de como agradar ao Senhor... digo isto para vosso proveito ... para vos ensinar o que melhor convém, o que vos poderá unir ao Senhor sem partilha" (1Cor 7, 32-35). Outras ainda mesmo oferecendo a Deus os frutos mais suaves, as flores mais belas, conservam todavia para si a posse da planta, daí podendo sempre mudar o
propósito. Estas são aquelas virgens que não consagraram a Deus a sua vontade com voto. Algumas, porém, ajuntaram também isto; "são os que acompanham o Cordeiro por onde quer que vá" (Ap 14, 4); e parece que atingiram o último limite desta virtude. De fato a que meta mais alta podem aspirar homens vivendo em carne, que vivendo não mais segundo a carne, mas em tudo segundo o espírito?
"Vós, porém, não viveis segundo a carne" (Rom 8, 9). Isto supera todo o esforço da natureza; é obra só da graça. "Nem todos são capazes de entender o sentido destas palavras... escondestes aos sábios e prudentes, revelastes aos pequenos" (Mt 19,2).
8. - A pureza de Maria é de fato preeminente
Estamos no fim da escada que tínhamos colocado. Mas quanto estamos longe ainda de tocar com o olhar a pureza de Maria! Ela sim é virgem, virgem santa de corpo e de mente, virgem perpétua, templo de Deus por união, por adesão, ao seu Esposo divino, Sacrário do Espírito Santo pela sua consagração e dedicação que fez toda de si à sua divina Majestade. Mas com quanta maior excelência são todas estas coisas na Rainha das Virgens! "Só tu sem exemplo, ó grande Virgem, agradas-te ao Senhor nosso Jesus Cristo" (5). E se muitas almas filhas da Igreja ajuntaram riquezas sobre-humanas e celestes de pureza, tu as vencestes por larga margem e sobressaístes a todas. Estas filhas de Sião viram a beleza da tua virtude, e sem contraste de salvação te declararam felicíssima e bem-aventurada entre elas. Aquelas mesmas que vestidas de glória do seu Dileto, quase rainhas, são convidadas à ceia das núpcias do Cordeiro, levantam todas concordes as suas vozes para louvar-te, para exaltar-te, e oferecem obsequiosas seus brancos lírios e os depõem aos pés do trono da tua grandeza.
9. - Em que consiste a excelência da pureza de Maria
Mas em que consiste esta excelência de pureza? Eu desconfio de consegui-la. Todavia eu tento acrescentar algum pequeno degrau novo a esta escada. Comumente a pureza das virgens, mesmo as mais santas, deve combater contra as sugestões importunas do mundo e do demônio, contra as rebeliões insolentes da própria carne. Eu sei o que diz o Apóstolo que "a virtude se aperfeiçoa na enfermidade;" sei porém que "quando me sinto fraco então é que sou forte pela graça daquele que me conforta" (2Cor 7, 9). Com a morte eu me paro imóvel na complacência da lei de Deus, de cujo amor nenhuma coisa pode me separar; mas porém "sinto em meus membros uma outra lei, que repugna à lei da minha mente" (Fl 4, 13). E o espírito na verdade está pronto, mas a carne é fraca, daí sou
constrangido a clamar: "Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte (Rm 7, 23-24). Este é o estado dos justos mesmo os mais puros, viventes na terra, cujo espírito se "renova dia a dia" (2Cor 4, 16) pela graça do nosso Salvador Jesus; mas a carne geme enquanto esperando a revelação dos filhos de Deus, quando aparecerá Cristo, nossa glória, na sua glória; então também ela será mudada na ressurreição e liberada da corrupção, e a morte ficará absorvida
em uma vitória completa. Alguns, porém, entre estes, muitos eu reconheço, nos quais depois de longos combates e prolixas agonias, a graça de Cristo começou já esta vitória; e gozam antecipadamente alguns bens ou preliminares daquela paz, mesmo no meio de um campo de guerra formidável a todos. A voz de Deus que chamando-os da multidão e da confusão, os conduziu a uma solitária conversação com a Sabedoria, exigiu silêncio de suas paixões. E eis "em paz tornou-se o lugar deles" (SI 75, 3). Este é um grau na verdade mais sublime, mas de poucos, e de fato extraordinário, e talvez não de todo estável e permanente, ao menos em todos aqueles que o alcançam. Parece que este silêncio não se faça gozar sempre, mas a intervalos segundo aquelas palavras: "Fez-se silêncio no céu - isto é na alma deste justo prevenido pelas bênçãos da doçura de Deus - fez-se silêncio cerca de meia hora" (Ap 8, 1); podendo-se nesta vida sim, começar de algum modo, mas não terminar de gozar a perfeição e felicidade da outra. Que diremos, pois, desta Santíssima Virgem, cujo seio fúlgido de pureza não foi jamais nublado nem mesmo de vestígio de paixão contrária? O seu espírito a Deus elevado, nenhuma coisa terrena o impedia ou o perturbava. Esta é bem aquela única que se pode dizer toda bela diante dos olhos de Deus, e sem mancha: "Toda
bela és, e não existe mancha em ti" (Ct 4, 7). Aliás não só não provou jamais em atos ou movimentos desregrados da natureza desordenada em suas forças inferiores, mas a própria desordem da natureza foi dela tirada perfeitamente. Se bem que disse foi tirado? "' Não reinou jamais o pecado no seu corpo mortal, prevenindo a graça na sua imaculada concepção o vício comum da natureza. Quem
poderá pois compreender com as costumeiras e muito escassas medidas dos nossos juízos a excelência da pureza da grande Mãe de Deus? Ó Deus! Esta divina maternidade, que grau de sobre-humana pureza não requeria em Maria! Muito superior à própria pureza dos Anjos! Quanto de fato pela dignidade de Mãe de Deus foi exaltada sobre todos os coros dos Anjos, tanto convinha que sua pureza excedesse com indizível vantagem aquela tão excelsa daqueles puríssimos Espíritos.
10. - Os fundamentos dela nos montes santos
Eis-me, devotos irmãos, a que altura chegamos dispondo as ascensões em nosso coração, acomodadas aos breves passos dos seus tímidos pensamentos. Indo de virtude para virtude passamos toda a perfeição humana; portanto nos elevamos acima da própria perfeição dos Anjos, chegamos ao cimo destes montes tão santos; e aqui é onde se deveria começar a falar da pureza de Maria; porque
somente agora chegamos onde ela tem o seu fundamento: "Os fundamentos dela estão nos montes santos" (SI 86, 1). Mas aqui, porém, é onde eu paro, antes retiro obsequioso meu espírito, que já
vacila em tanta altura e teme quase uma ruína ao mirar do alto tão profunda a sua baixeza. Almas puras, almas amantes, continuai, pois, à alta inacessível meta; desdobrando o vôo que só se pode seguir com asas de pomba. Aqui não se trata mais de subir por virtude humanas ou entendidas pelos homens, como fizemos até agora: "Seu vigor aumenta à medida que avançam"; trata-se só de contemplar perfeições divinas; "porque logo verão o Deus dos deuses em Sião" (Sl 83, 8). Sim,
é preciso ver perfeições divinas. Esta Virgem é Mãe de Deus. Pensai que parto tenha sido conveniente a esta pureza; e que pureza tenha sido conveniente a este parto. Vinde, ó virgens castas, ó cândidas pombas, repousar entre estes lírios entre os quais se alimenta o vosso Dileto. "Tivesse eu asas como a pomba, voaria para um lugar de repouso" (SI 54, 7). Vinde, ó amantes devotos de Maria e imitadores fiéis da sua pureza, sentai à sombra felicíssima desta planta de paraíso, e o seu fruto será doce ao vosso paladar. E porque ela estende amplamente, e abaixa antes cortesmente os ramos da sua proteção sobre todos, mesmo os ínfimos ante os seus servos, quem quer que tu sejas, ó irmão, ó irmã, que caminhas pelo árido deserto deste mundo, batido pelos ardores veementes de tuas concupiscências, recolhe-te com confiança tu também à sombra suave desta planta benéfica, e aí terás refrigério, repouso, salvação, ao ardido, ao afadigado, teu extraviado coração.

10 de novembro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni.

II - O NOME DE MARIA 

1. - Os sentidos do nome de Maria
A santa Igreja ao propor hoje à nossa veneração o SS. Nome de Maria, entende certamente que nós nos esforcemos com nossa inteligência, por quanto podemos, entrar nos misteriosos sentidos da sua sagrada interpretação. Pois como se poderá respeitosamente reverenciar o que se ignora totalmente, ou se conhece apenas confusamente? Por isso eu acredito ser necessário senão útil ao máximo
explicar de verdade e ao mesmo tempo com clareza os segredos admiráveis encerrados neste augusto Nome. Nisto nada há a temer de audácia ou de perigo. Os Santos Padres, os Santos Doutores nos precederão sempre por caminho seguro. Embora eles já tenham tratado com eloqüência e com abundância, como porém seus tratados não estão nas mãos de todos, os mais simples e ignorantes não
compreenderiam em si tal maravilhosa cheia de sabedoria e de doutrina que redunda nos seus escritos; assim eu me farei quase um que retribui, estreito sim, mas mais proporcionado, para prover até as mentes mais humildes das águas oportunas que lhes irriguem e as saciem a sede na necessidade e na medida, sem afogá-las ou maltratá -las com o pé só e o ímpeto. Muitas são as interpretações deste Nome santíssimo, que todas valem para demonstrá-lo sumamente admirável e venerando.
Segundo alguns doutores, Maria quer dizer o mesmo que "exaltada". Segundo S. Jerônimo, significa "iluminadora", "Mirra", ou seja "amargura do Mar", ou também "Estrela do Mar". Segundo porém a mais própria etimologia se interpreta"Dona do Mar". A esta interpretação eu me apego por que ela supõe ou compreende na sua vastíssima idéia todas as outras, como se tornará conhecido por si mesmo ao explicá-lo.
2. - Maria teve autoridade de domínio sobre seu divino Filho
Que quer dizer portanto "Maria Dona do Mar?" "Senhora do Mar"? Ó Deus! Quantos mistérios estão contidos nestas palavras! Que objetos da nossa mais profunda veneração! Vejamos um pouco o que seja este "Mar" de que Maria é declarada Senhora desde o seu nome. Mar cheio, imenso, altíssimo de sabedoria, de perfeição, de graças, é, na Divina Escritura, o Filho unigênito de Deus, Verbo
encarnado, a Sabedoria não criada. No Eclesiástico de fato lemos assim: "O meu pensamento é mais vasto do que o mar, e seu conselho mais profundo do que o grande abismo" (Eclo 24, 39). Não vos maravilheis, amados, que a Bem-aventurada Virgem seja Senhora deste Mar, quando na verdade á também mais: Mãe. Sim, Maria com toda propriedade deve dizer-se Mãe de Deus; isto é dogma de fé definida pelo Concílio Constantinopolitano II, porque desde o primeiro instante da conceição tendo sido a natureza humana assumida pela pessoa divina, pode-se verdadeiramente dizer que Deus é concebido e nascido da Virgem Maria. Assim S. Tomás. Parece que o Espírito Santo nos Provérbios pensasse em Maria, quando disse que Deus no princípio tinha circundado o mar em seus limites; "quando pôs regras ao mar" (Pr 8, 29); porque ela devia conceber em semelhante modo em seu
seio e encerrar o Verbo de Deus, que é o Mar e o abismo de Sabedoria, de Poder, de Virtude, e de todo ser e bondade. E não se deverá chamar Maria "Senhora daquele Mar" que embora imenso, ela pôde conter em seu imaculado seio? (4). O douto A Lápide sobre aquelas palavras de S. Mateus "de quem nasceu Jesus", assim escreveu: "A Virgem Mãe de Deus tinha um direito e uma autoridade materna sobre Cristo, como têm as outras mães sobre os filhos que geraram; aliás mais que as outras mães, porque ela foi mais mãe de Cristo que não as outras mães dos seus filhos. De fato Cristo nasceu
só da mãe; portanto segue que a Bem-aventurada Virgem teve mais direito em Cristo que não têm as outras mães em seus filhos; e que o amor que nos outros filhos é dividido entre pai e mãe, em Cristo foi unido e todo se concentrava na Mãe. Mas que dificuldade vos pode haver em reconhecer em Maria este domínio tão excelso sobre a divina pessoa de Cristo, quando o próprio Cristo não desprezou de fazer-se e reconhecer seu súdito, dizendo o Evangelho: "E era-lhes submisso?" (Lc 2, 51). Por isto o ilustre Bispo e Mártir Metódio dizia que só a Bem-aventurada Virgem tem como devedor Aquele que é credor de todos. Pois todos nós devemos a Deus; só a Maria Ele deve piedade e sujeição . Porém se nós queremos dizer que este débito em Cristo não fosse rigoroso e que por razão da divindade ele fosse emancipado da sujeição paterna, devemos porém confessar que Cristo portou-se sempre para com sua Mãe como se estreitamente fosse sujeito; daí Ela sempre foi amada como Mãe e reverenciada como Senhora. Ouvi S. Bernardo: "Aquele Deus ao qual os Anjos são submissos, a quem obedecem" os Principados e as Potestades, eram submisso a Maria. Admire-se pois um e outro, e se eleja qual dos dois seja mais admirável: ou a benigna dignidade do Filho, ou a excelentíssima dignidade da Mãe. Um e outro é estupendo e prodigioso; que um Deus obedeça a uma mulher, esta é humildade sem exemplo; que uma mulher seja senhora de um Deus, esta é sublimidade sem confronto". Ó venerável Nome de Maria! Com que profundo obséquio não deverá ser daqui por diante nomeado por nós, miseráveis pecadores. Com que confiança invocado! Pois, se Maria teve tal autoridade de domínio sobre a pessoa do seu Filho; se Ela pode dispor com facilidade e com segurança do coração do Rei, seu soberano sim, mas também seu Filho; como não será senhora de todos os seus tesouros, daquele mar imenso de graças e de misericórdia? Eu deixo este ponto,como mais fácil de ser entendido à vossa consideração; enquanto por amor à brevidade apresso-me em fazer correr os olhos sobre a amplidão admirável deste místico Nome.
3. - Maria tem autoridade sobre o Reino de Cristo
Nos encaminhará o Abade Ruperto: "Sendo Maria mãe do Rei coroado que Deus constituiu sobre todas as obras de suas mãos; por isso, constituída ela também como Rainha, possui com direito todo o Reino do Filho. Como não possuirá o Reino do Filho aquela que todo possui o próprio Filho?. Ora quem não sabe que o Reino universal de Cristo é dividido em três grandes reinos, isto é, celeste, terrestre e infernal? Segundo o que diz S. Paulo: "para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho no céu, na terra e nos infernos" (Fl 2, 10). E eis em um outro sentido Maria, "Senhora do Mar".
4. Maria Rainha dos Anjos
Primeiramente pelo nome de Mar no Apocalipse é significado a multidão imensa daqueles Espíritos Celestes, em que quase como um mar lúcido tranquilo se espalha e resplende a beleza do divino semblante: "Havia ainda diante do trono um mar límpido como cristal" (Ap 4. 6). Que Maria seja senhora dos Anjos - como canta a Igreja "Rainha dos Anjos" - não por excelência ou prioridade, nem só por eminência de graças e de virtude, mas por autoridade e jurisdição; manifestasse ainda pela reverência que lhe mostraram os Anjos mesmo declarando-se sujeitos a Ela. Esta reverência - como nota Fulberto Carnotense - aparece bem claro no fato do Arcanjo Gabriel, o qual, mesmo antes
que Ela fosse feita Mãe de Deus, porque sabia que deveria sê-lo, a saudou com tanta veneração e respeito. O próprio Fulberto continua a provar a jurisdição de Maria sobre os Anjos, pela obediência que sempre lhe prestaram; e confirma tudo com ilustres e memoráveis exemplos. Mas eu devo passar logo a mostrar-vos o domínio de Maria sobre outro reino, o terrestre; quer dizer sobre todos os homens.
5. - Maria Senhora deste século
Na verdade no uso comum da Escritura o mar é assumido para representar o século presente: "Eis o mar, imenso e vasto" (SI 103, 25). S. Agostinho comentando este trecho do Salmo, mostra muito distinta a semelhança que tem este mundo com o mar: pela natural inconstância, pelas freqüentes tempestades, pela amargura das suas águas, e por muitos outros egrégios confrontos (11). Agora Maria é Senhora deste século. A jurisdição patenteia-se singularmente pelos seus próprios atos, que vão comandar, fazer leis, punir e semelhantes. Ela diz de si mesma: Por mim os Príncipes reinam e os
legisladores decretam a justiça. Estas são justamente as palavras que os Doutores da Igreja dirigem a ela: "Por mim reinam os reis e os legisladores decretam a justiça'* (Pr 8, 15). Se alguém quisesse insistir no sentido literal deste texto tirado dos Provérbios dizendo que se deve entender da Sabedoria não criada; eu pergunto: Quem é esta Sabedoria não criada se não o Verbo de Deus, senão o Filho
de Maria? "Mas da dominação - conclui, por mim Arnoldo Camotense, - mas da potestade do Filho não pode ser separada de modo nenhum a Mãe. Uma é a carne de Maria e de Cristo, um o espírito, uma a caridade; e do momento em que lhe foi dito: "O Senhor está contigo", perseverou inseparavelmente e a promessa e o dom". E depois resolve assim: "Portanto eu julgo que a glória do Filho não só seja comum com a Mãe, como seja a mesma". Quanto a punir, eu seria muito longo se quisesse citar todos os fatos autênticos da história. Apresentarei somente dois: um antigo, o outro mais recente, em uma só espécie de blasfemadores. Nestório, que no século V foi ousado com sua heresia de blasfemar o nome da grande Senhora, não teve talvez que morrer com a língua sacrílega devorada pelos vermes?  Poucos anos faz em uma cidade da Itália não muito distante, um blasfemador do Nome Santíssimo de Maria foi visto por uma infinidade de povo horrivelmente
punido naquela mesma língua que vomitando palavras sacrílegas lhe saiu de forma disforme crescida fora da boca. O fato é certíssimo e igualmente famoso. Aprendamos todos a respeitar o Nome de nossa Senhora e Soberana dominadora.
6. - Maria é estrela e guia deste século
Agora, porém, eu vos mostro um outro sentido ainda - não menos admirável - em que Ela se diz Senhora do Mar deste século. Segundo o uso dos Hebreus e dos Sírios, Senhora significa também Mestra, Diretora, Guia. E esta idéia de Mestra, Diretora, Guia ou Estrela do Mar, bem se adapta a Maria que pelo mar deste século nos guia salvos à terra da promissão que é o Céu. E assim - segundo S. Ambrósio - a Bem-aventurada Virgem foi muito bem figurada por aquela outra Maria irmã de Moisés, da qual os Hebreus referem esta tradição. Quando esta menina nasceu, começava justamente a amarga tirania do Faraó que fazia afogar os meninos hebreus, e assim foi dita então Maria, quase
amargura do mar. Mas este nome se lhe mudou depois com melhor augúrio e por divino conselho em uma outra mais excelsa significação, quando passado o mar Vermelho e submerso o Faraó, foi chamada Maria, quase mestra e diretora do mar. Porque como Moisés esteve à frente dos homens, assim sua irmã esteve à testa das mulheres na passagem do mar; daí entoou o Cântico de Louvor a Deus. Oh! Que belo campo se me abre para mostrar-vos a vontade, o amor de Maria de salvar nossas almas! Se, porém, a estreiteza do tempo não me permite apresentar-vos com minhas palavras, tenho o prazer de haver indicado às vossas reflexões. Não há necessidade de abrir-vos o caminho com os argumentos. É aberto a todos, é patente. Eia pois, devotos de Maria, entrai com vossas considerações
para descobrir a grandeza, para gozar a amenidade, para alimentar-vos com seus preciosos e salutares frutos.
7. - Maria tem domínio sobre o Demônio
Falta ainda ver como este Nome de Maria - ou seja Senhora do Mar - apresente o domínio e poder soberano que Ela tem sobre o inferno. S. Hilário explicando as palavras do Salmo: "Quem conturbas o profundo do mar e o som dos seus fluxos", por fundo do mar entende-se o demônio; e por fluxos
tempestuosos deste mar se entendem os homens perversos que seguem o demônio, tanto na malícia como na condenação. Daí se pode bem interpretar o SS. Nome de Maria, como Senhora também deste mar volumoso e proceloso; e se  dizer que quando os fiéis servos de Maria invoquem devotamente este Nome admirável, fique conturbado o fundo deste mar com todo o fragor de suas vagas; "Conturbas o profundo do mar e o som dos seu fluxos". Cresce a conveniência desta exposição dizendo ela de si, segundo os Santos Doutores que aplicam estas palavras: "Penetrei na profundeza dos abismos, andei sobre as ondas do mar" (Eclo 24, 8).E isto para mostrar que Ela domina com grande poder e virtude sobre o reino tenebroso do inferno, como S. Bemardino de Sena
glosa em um seu sermão. Querei assustar todo o inferno? Nomeai Maria com confiança. Ó nome terrível aos demônios! Ó nome admirável aos Anjos! Ó nome venerável a todos os servos e filhos desta tão grande e poderosíssima Senhora do Céu, Senhora da Terra, Senhora do inferno, Senhora por isso do mar, "Senhora do Mar". E o fundamento e a razão do domínio que ela goza sobre o mar altíssimo é o seu bendito Filho, a quem seja dada honra por todos os séculos.

9 de novembro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni

I - FESTA DA TRANSLADAÇÃO DA S. CASA DE LORETO - GRAÇAS À NOSSA
MÃE MARIA, O NOSSO CORAÇÃO TORNOU-SE TEMPLO DE DEUS.

1. - Motivo da festa
Eu não sei, meus irmãos, se estes jovens devotos, empenhados neste dia em honrar Maria, para nutrir em si e difundir ainda em todos nós a mais terna devoção, não sei, digo, se pudessem melhor satisfazer seus cálidos fervores senão apresentando nesta sua solenidade ao nosso espírito a memória daquele aventurado prodígio pelo qual a santa casa de Maria, tirada de Nazaré das mãos dos bárbaros, viu-se um dia voar por longas extensões de terras e mares, sobre as asas dos Anjos, até nossas praias da Itália, e finalmente pousar entre nós estavelmente em Loreto. Que é isto senão um doce convite feito ao nosso coração a fim de que voe veloz a visitar em espírito aquelas sagradas paredes, enquanto para vê-las e beijá-las devotos peregrinos partem das mais remotas partes da Europa?
Felizes paredes! Felizes um tempo guardas daquele belo lírio dos jardins celestes, que brotou dentro do vosso recinto, cresceu e difundiu dali seu odor precioso que foi suficiente para encher de fragrância o mundo inteiro! Vós, mais esplêndida que os palácios soberanos, acolhestes a Rainha dos Céus, a Esposa de Deus. Vós, testemunhas da embaixada do Anjo! E o que é mais, testemunhas do
augusto mistério da Encarnação. Bem-aventuradas paredes! Ó casa consagrada pelos divinos Mistérios! Palácio de Deus, Porta do Céu! Que efeitos sublimes e dulcíssimos despertas em nós!
Bem disse eu, portanto, irmãos, que não podiam estes jovens apresentar objeto mais doce à nossa devoção, nem melhor podiam, satisfazer a própria.
2. - O nosso coração templo de Deus
Parece-me que a própria Maria queira compensar neste dia e com esta ocasião própria, um tão grande obséquio. Pois é verdade que toda nossa suficiência vem de Deus, e que por nós somos incapazes de produzir um único bom pensamento; eu não sei de onde reclamar a origem de um santo pensamento que me formou na mente e que durou sempre com grande constância para poder comunicá-lo neste dia a toda esta minha devota audiência. Parece-me irmãos, que Deus neste dia peça a cada um de nós o nosso coração; porque, como a Casa de Loreto, assim este coração Deus o quer consagrar fazendo-o um templo onde Ele mesmo resida. Eu não farei senão preparar ao Senhor o caminho dispondo-vos a dar-lho com a maior boa vontade; se por acaso há alguém entre vós tão abatido de ânimo, que recusasse, por exagerada timidez, uma tão grande ventura. E a fim de que ninguém pense que eu talvez exceda em propor coisas muito mais bonitas para imaginar-se, que fundadas para crer, ou práticas para poder verificar; ouvi sobre isto o que fala o Apóstolo: "Não sabeis que sois templos de
Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós" (1Cor 3,16). De fato, se bem que se possa dizer que Deus pela imensidão está em todo lugar, Ele habita porém de modo especial nos corações dos justos, aos quais não só a graça com todos seus dons, mas o próprio Espírito autor de toda graça e de todo dom. Agora a fim de enamorar-vos mais de um tal estado, vos peço para considerar um pouco comigo a felicidade de uma alma que por sua grande ventura já o possui.
3. - Deus se delicia conversando com os filhos dos homens
Eis, portanto, esta alma que Deus mesmo elegeu para si como um ameno e delicioso templo ou palácio para residir e deliciar-se. Nós vemos que todos os príncipes têm um lugar de delícias onde divertir-se e aí aplicam toda sua magnificência; embelezando-o de pórticos esplêndidos, de
esplêndidas salas, de amenos jardins. O lugar de delícias do Rei do Céu, sabeis onde é? Eis: "As minhas delícias é estar com os filhos dos homens" (Pr 8, 31), isto é, conversar com eles no mais
íntimo dos seus corações, e aí falar com muita paz com seus servos. Aqui é onde ele nos chama com doce convite: "Vinde libertai-vos de todos os ansiosos cuidados; esvaziai-vos dos afetos impertinentes do século, e provareis quanto é bom, quanto é suave o vosso Senhor, o vosso Deus".
4. - Felicidade da alma que em si mesma encontrou Deus
Afortunada esta alma! Ela não precisa mais andar vagando pelos caminhos ou pelas praças da cidade em busca de seu Dileto; mas já tendo-o encontrado, o Seu Amor, dentro do seu coração, pode ela ainda bem dizer: "O meu bem-Amado é para mim e eu para Ele; segurei-o e não o largarei" (Ct 2, 16; 3, 4). Que paz portanto, que serenidade, cremos nós, irmãos, deverá gozar esta alma! Já o predisse S. Paulo de todos os justos, que serão possuidores de uma grande paz. Não só goza do presente, mas antecipadamente do futuro, esperando a glória dos filhos de Deus, como prossegue o Apóstolo (Rm 5, 1-2). Bem disse, pois Davi, que não a gotas, mas como rios e com grande ímpeto fluiria a alegria na alma que Deus santifica (SI 45, 5).
5. - Mesmo nas tribulações da vida o justo superabunda de alegria
Embora as tribulações desta vida pareçam colocar obstáculos ao livre curso das celestes consolações, eles não fazem na verdade senão reuni-las em maior cópia, multiplicam a impetuosa cheia a fim de que superabundando vençam; daí á que "nós nos gloriamos - assim o mesmo Santo Doutor nas pessoas de todos os justos - até das tribulações. Pois sabemos que a tribulação produz a paciência, a
paciência prova a fidelidade, a fidelidade comprovada produz a esperança. Oh! Deus belas palavras! - E a esperança não engana. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rm 5, 3-5). O Espírito de Deus de fato, fazendo a alma partícipe do seu amor, a santifica; e, portanto, dela como dulcíssima esposa se aproxima, nela habita, opera, e se delícia.
6. - Que felicidade ter Deus dentro de nós!
Que felicidade, meus irmãos, ter Deus dentro de nós! Ele é o sumo bem que pode preencher perfeitamente todas as nossas potências, porque nele são recolhidas todas as perfeições e se encontram todos os gostos para satisfazer cada coração segundo sua particular inclinação. Por isso ele em um lugar da Escritura se chama "maná escondido" (Ap 2, 17); e em um outro lugar fala: "Põe tuas delícias" no Senhor", ó coração humano; "e os desejos do teu coração ele atenderá" (SI 36, 4).
Amamos nós os bens, os prazeres? Mas quando mais os teremos senão quando possuirmos aquele que é todo bem, toda suavidade? Alegramo-nos com as amizades? Qual amigo, mais querido que Deus? Os amigos nos amam porque em nós existe algum bem; o amor de Deus causa em nós este
bem; daí Deus nos ama mais para fazer-nos bons com sua própria bondade, nos ama de forma para embelezar-nos com sua própria glória. E quem poderá desconfiar do seu amor? "Depõe no Senhor os teus cuidados, diz o Profeta; porque ele será teu sustentáculo" (SI 54, 23). Deus é liberal em
nossas necessidades; luz em nossas dúvidas, consolo em nossos trabalhos, refrigério em nossas penas, repouso nas fadigas, nosso sustentáculo, nossa fortaleza, e nossa paz. Amamos as honras? Mas que maior honra que ser templo de Deus? E segundo a frase do Apóstolo, "glorificar e levar Deus ao nosso corpo mortal?" (1 Cor 6, 20). Pois se tanta honra se deve às Igrejas porque são templos materiais da majestade de Deus; como não será honrado pelos Anjos e pelos homens um templo vivo, todo esplêndido, interior, em que se realizam castas e sublimes núpcias entre Deus e a alma? "Desposar-te-ei - já ele o fizera saber desde os seus Profetas - com fidelidade e conhecerás o Senhor" (Os 11, 21), na justiça, na caridade, que estas são justamente as três gemas preciosas com que a adorna. Se quiserdes ver também o vestido desta esposa celeste, S. Paulo o fará ver: oh! Deus! quanto esplêndido! "Vesti-vos" - ele diz - e do que? "Vesti-vos do Senhor nosso Jesus Cristo" (Rm 13, 14).
Que beleza poderá ser comparada à de uma alma que Deus adornou para fazê-la sua esposa? A mim falta-me cores para pintá-la; vos direi somente, cheio de assombro com o mesmo Apóstolo, que quem se une a Deus com uma adesão tão estreita, se torna com uma transformação amorosa um mesmo espírito com Ele (1 Cor 6, 17).
7. - Deus quer entrar no coração do pecador
Que vos parece, irmãos? Eu bem vejo que não podia neste dia tocar cordas mais suaves ao coração de uma tão piedosa e devota audiência. Porém vejo ainda que alguma coisa entre vós, por exagerada timidez, foge de um tão doce convite, e vai talvez dizendo no seu coração: Ó Deus estas coisas são tão bonitas, mas não para mim. Eu te entendo, te entendo. Tu temes talvez teus graves pecados, e tua
bem conhecida miséria. Mas o que! Se diante de tudo isto eu te fizesse ver com teus próprios olhos o mesmo Cristo à porta do teu coração? E ouvisse com teus ouvidos pedindo para entrar? Abre pois as divinas Escrituras, e vê no Apocalipse o que está escrito; ouça as próprias palavras de Cristo: "Eis que estou à porta e bato". Porque duvidar mais? Agora que tua fé te dá a maior certeza acima de qualquer outro sentido? Sim, eu estou à porta do coração, e de que coração, senão do teu, ó
pecador? Enquanto nos justos ele já está dentro bem acolhido e como pacífico posseiro. Bate no teu coração neste ponto também com tantas luzes, com tantos impulsos, pondo-te diante dos olhos a felicidade suma a que tu podes chegar com os mesmos afetos que em ti desperta por ventura esta pregação. Sim, eu bato: "se alguém me abrir eu entrarei até ele". Ele fala como um hóspede que vem de noite; e significa que ele, esquecido de toda injúria e de toda repulsa, quer viver contigo com
muita familiaridade de amizade e receber teus obséquios. Nem somente diz: "eu entrarei"; mas também "cearei com ele e ele comigo" (Ap 3, 20); isto é familiarizarei, e me deixarei tratar com muita confiança deliciando-me familiarmente com ele com muita alegria, como costumam os amigos. E ele reciprocamente comigo, nesta cela deliciosa de celestes prazeres, no uso dos meus sacramentos e na comunicação suave dos mais doces e amorosos segredos; não desdenharei recebê-lo em minha casa. Onde se vê que Cristo fala sempre como um hóspede, mas muito rico e abastado, que entrando na casa dos outros beneficia muito mais e leva mais dons, que daí recebe. Vós espantais de tais coisas feitas aos pecadores? Eu me espantarei muito mais em ver que Ele não contente em nos haver feito falar do seu amor pelos seus servos e Profetas, desceu ele mesmo do céu, tomou-se homem para correr atrás de nós em pessoa, como um rei - diria aqui S. João Crisóstomo - como um rei que
enamorado de uma simples pastorinha, disposto a tirá-la da cabana para seu palácio para torná-la sua esposa, não se contenta de expedir-lhe ilustres embaixadores; mas desce ele mesmo do seu trono e deposta toda glória, - quase temendo atemorizá-la e confundi-la com seu grande esplendor, sua simplicidade - se reveste de pastorzinho, a procura pelos bosques, e simulando maneiras rudes e
simples para insinuar-se, trata por si mesmo com ela sobre seu amor. Oh! Deus! Espantaremos nós com os transportes dos amantes? Eis senão que o nosso Rei Amante foi assim transportado além pelo seu amor chegando a dar a vida por nós. Oh! Amor! Vós vencestes. Não há mais escusa da nossa insensibilidade para negar a entrada do nosso coração a um Amante tão terno que pede; que nos pede só para fazê-lo feliz.
8. Cristo espera, e Maria chama, também a alma mais miserável 
Aquele insólito júbilo que no vosso rosto irmãos, a toda hora se manifesta hoje, como creio firmemente que vós já abristes ao amoroso Hóspede o vosso coração, assim eu não sei bem dizer-vos que alegria sinto. Mas ai, porém! Se entre vós tivesse uma única alma que ainda não tivesse
tido um tão amoroso convite; como poderia ser perfeita a minha alegria, ao ver-me tirada a mais bela porção daquele fruto que eu já esperava quase certo? Embora eu ainda o espero. Eis, pois, cheio daquele ardor, animado daquela fé dirijo-me a ti, mísera alma infeliz, - se aqui a houvesse - estas minhas últimas palavras: sim. Deus te quer; Deus continua a pedir-te o coração. Que fazes? Que pensas? Que duvidas ainda? Vede-o este teu coração, como triste e de muito tempo, sob o bárbaro jugo de um afeto tirano que o oprime, angustiado pela impaciência, alimentado só pela dor, fechado entre as sombras da tristeza e de temores. Ele é feito para Deus, porque o obrigas a servir ao pecado? Quantas vezes ele não te pedia - depois de tantas provas infelizes - que tu deixasses que ele se abrisse a um sacerdote, que o levasses para Deus, e tu cruel o negaste? E não é talvez isto verdadeiro? Daí é que o próprio Deus agora se move de compaixão para com ele, o procura, o atrai. Ah! quem quer que sejais, irmãos, a quem Deus toca tão fortemente o coração neste dia, atende-lhe compaixão vós também, aquietai-o uma vez este pobre coração, fazei quando vos pede, que não pede senão o que é útil para vós. Que alegria não provareis, então! Como vos parecerá coisa nova sentir-se todos de Deus, entre tantas delícias, passadas apenas tantas moléstias! Que conforto ver vossa alma como um magnífico templo! E conversar com Deus na paz da boa consciência, onde antes era um covil de demônios de maus afetos que vos angustiavam e vos pungiam a todo momento! Encontrar dentro de vós toda consolação; não mais afligir-vos pelo passado; mas doce alegria do bem presente, e alegre esperança do futuro! E demorais um só momento para procurar-vos uma tão grande felicidade? Já
Cristo vos espera, Maria vos chama. Ela, sim Ela quer abrir vosso coração ao seu Filho. Se resististe até agora às minhas palavras, não resistireis mais às suas mãos amorosas.
9. - Maria triunfa sobre o pecador
Virgem Santa, eis-me a vossos pés. A Vós todos os nossos olhares se voltam, a Vós toda a nossa confiança, a Vós todas as nossas súplicas. Sim, a Vós se deve a honra desta vitória pois Vós haveis inspirado o conselho. Eis que já começa a despontar sobre os olhos alguma, lágrima, precursora de um largo pranto que lavará as culpas passadas. A Vós se volta o pecador, já resolve, já propõe. O
triunfo é completo. Viva , pois, o Amor! Viva a Mãe do belo Amor, Maria; exultemos todos, irmãos, louvemos Deus, louvemos Maria. E vós mais que todos louvai-a, castos jovens, aos quais a Virgem nossa Senhora tão bem compensou vosso obséquio. Vós honrastes sua casa; Ela fez do vosso coração templo de seu Filho. Nem só isto; mas por vossa causa veio-nos tão grande felicidade, pelo que
esperamos que depois de haver acolhido o nosso Rei amantíssimo, como hóspede, em nosso coração, nos dará Ele lugar no seu reino, onde com Ele viveremos por todos os séculos.

8 de novembro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni

VII - A SANTA PÁSCOA - VIDA ESPIRITUAL

1. - A alegria pascal
Só Deus sabe com que desejo em os vejo sempre, ó meus queridos irmãos, toda vez que chego a este lugar para falar; e com quanto prazer lhes falo. Hoje porém, não sei dissimular a alegria, não sei conter a abundância do prazer. Terminados nos dias passados os lamentos da penitência, consumada neste dia a justificação, celebrada hoje - acredito - por todos vocês a Páscoa: eu pois os vejo ressuscitados em Cristo, caminhar alegres na novidade da vida, apressar solícitos com os discípulos para ver Cristo na Galiléía. Falo pois, com homens, que do temor e da contrição, ascendem seguros à confiança da Divina Misericórdia; que da alegria do século e da consolação do mundo - peIa compunção e pela tristeza que é conforme Deus - passaram a uma santa e devota exultação, a um vivo prazer espiritual no Espírito Santo: homens a quem não perturba a lembrança das culpas
passadas, quanto os alegra a memória e lhes inflame o desejo dos prêmios eternos. Felizes de vocês, e eu também hoje estou feliz, porque participo do seu jubilo. Está livre, pois, minha língua, para servir às disposições mais felizes do seu e do meu coração. Vocês correram muito bem. Eu mesmo me alegro: devo congratular-me com vocês. Não posso senão exortá-los a seguir adiante sua caminhada ao Céu, até atingir a feliz meta que pretendem; sem retroceder, nem um passo, nem um olhar que seja a esta mísera terra, da qual, quase como fim triste e amargurado, vocês estão tão distantes. "Se, portanto, ressuscitastes com Cristo - coloco em meus lábios a voz sonora de Paulo - se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá de cima, onde Cristo está sentado à direita de Deus . Afeiçoai-vos às coisas lá de cima e não às da terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus" (Col 3, 1- 3). Eis, pois, os dois motivos mais fortes. Eu nada mais farei que explicá-los.
2. - Vocês estão mortos para o pecado
Vocês primeiramente estão mortos. Existem vários gêneros de morte. Morte do corpo. Segundo esta, Abraão, tendo morrido, não estava morto; "porque Deus - diz o Evangelho - não é Deus dos mortos, mas dos vivos" (Mt 13, 32). Morte da alma. Cristo fazia alusão a isto com estas palavras: "Deixa que os mortos enterrem seus mortos" (Mt. 8, 22). Uma ou outra louvável morte procede da virtude, de quem escreve no mesmo lugar o Doutor das Gentes: "Mortificai, pois, os vossos membros no que têm de terreno" (Col 3, 5). Uma outra ainda, causa da anterior, está no Batismo (2) ou na Penitência,
que é um "oneroso Batismo". Desta é que S. Paulo quer agora fazê-los entender como vocês estão mortos. Ele se explica muito bem por si mesmo na carta aos Romanos. Nós que já morremos ao pecado, como poderíamos ainda viver nele?" (Rm 6, 2). Eis o sujeito desta morte. E que quer dizer estar morto ao pecado? Em nada depois servir ao pecado. Isto já foi feito uma vez pelo Batismo. Foi renovado pela Penitência. Nos tornou mortos ao pecado. É preciso portanto que nos atualizemos agora tudo isto com nossa solicitude: isto é, que qualquer coisa o pecado nos ordene, a má paixão,
o afeto perverso, nós fiquemos surdos a tudo, não obedeçamos, e perseveremos imóveis como mortos. "Um morto - dizia um santo - não fala de ninguém, a ninguém injuria ou faz violência, não calunia, nem oprime ninguém; não inveja os bons, não insulta os maus; não serve à luxuria da carne, não arde na chama do ódio; não adula os poderosos e os ricos do século, não é enganado por uma curiosidade inquieta, não procura os aplausos do mundo que o circunda, não se deixa levar pelo ouro, pela prata, ou por ricas vestes faustosas; não se importa com as honras, as injúrias não o atingem. A soberba não o envaidece, a ambição não o aflige, a vanglória não o agita; as falsas riquezas desta vida não o eleva, o furor insano da ira não o perturba,a beleza frágil de um rosto não o arrasta".
Isto quer dizer estar mortos, mortos para o pecado, não apreciar mais as coisas do século e da carne.
3. - Vocês ressuscitaram com Cristo
O Apóstolo continua: "Ignoram talvez que todos os que fomos balizados em Jesus Cristo - ou, ajuntem você, lavados no Sangue de Cristo na Penitência, - fomos balizados na Sua morte?" (Rm 6, 3). Eis como é essa morte. O Batismo, a Penitência, foram a nossa cruz: isto também o nosso sepulcro. "Fomos, pois, sepultados com Ele - diz - pelo Batismo na sua morte" (Rm 6, 4): para que cada um de nós morra como Ele morreu, embora não do mesmo modo. Ele na sua carne foi morto e sepultado. Nós fomos do mesmo modo, no pecado. A morte da carne é de Cristo, a nossa é do pecado; como aquela também esta é verdadeira morte. Mas, embora seja morte verdadeira, a nós convém trazer para a nossa ressurreição tudo aquilo que nos cabe. Daí acrescenta: "Porque se nos tornamos uma só coisa com Ele por uma morte semelhante à sua, seremos uma só coisa com ele também por uma ressurreição semelhante à sua" (Rm 6, 5). Apresentada a futura ressurreição, S. Paulo exige de nós uma outra ressurreição: isto é um novo estilo de vida na vida presente, pela mudança de costume. Quando de fato um pecador se torna casto, um avarento caridoso, um
irascível tranqüilo, acontece então uma ressurreição que é início da futura. E como é a ressurreição? Se morto o pecado, e ressuscitando a justiça; se, tirada a vida presente, e quase reflorindo esta vida nova e angelical, se possa dizer com S. Anselmo: morreu naquele homem a intemperança, ressuscitou a sobriedade; naquele jovem morreu a impureza, a pureza ressuscitou; naquela mulher morreu a
impudicícia, ressuscitou o pudor. Ao ouvir vida nova, cada um procure em si muita diferença, grande mudança. Mas nos faz chorar o pensamento de quanta virtude o Apóstolo exija de nós. E ver quão fracos nos tornamos quando, depois do Batismo, nos tornamos envelhecer nos vícios; quando depois do Maná celeste voltamos a procurar os alimentos vis do Egito; quando tantas vezes rejuvenescidos pela penitência e libertados da escravidão, recaímos na triste velhice do pecado e deliberadamente oferecemos nossas mãos para as infames algemas.
4. - Perseverança no bem
Agora, se nesta Páscoa ressuscitamos de novo pela graça e morremos ao pecado, como queremos abusar de tanta misericórdia? Como não queremos perseverar com todo esforço? Que as culpas passadas - repito, e nunca será repetido suficientemente quanto é necessário - que nossas culpas passadas sejam agora sepultadas pelo dom da graça. Que depois da Penitência nos tenhamos por
mortos, esta deve ser obra do nosso esforço; embora vejamos também nisto que" a graça muito nos ajuda. A Penitência não vale só para apagar os pecados passados, mas para fortalecer-nos mais contra os futuros. Como no sacramento fizemos nossa parte - isto é a contrição, a acusação e a vontade de satisfazer - assim em seguida empenhemo-nos cuidadosamente para não sermos novamente contaminados. Este é o conselho do nosso Apóstolo: "Se fomos feitos o mesmo ser que ele por uma
morte semelhante à sua, seremos igualmente por uma comum ressurreição" (Rm 6, 5). No entanto "nossa vida é escondida em Deus com Cristo". Podemos ainda falar muito desta planta da morte; mas já sem apercebermo-nos, tendo atingido a um alegre motivo do fruto da vida, e encerrando ele, à primeira vista certa dificuldade para entendê-lo, assim cortando por amor à brevidade qualquer palavra sobre o primeiro, passemos rapidamente para o segundo.
5. - Como nossa vida de Graça este ja escondida com Cristo em Deus
E logo vejamos como se explica este modo de esconder nossa vida com Cristo em Deus. A nossa vida é vida de graça que possuímos, é vida de glória que esperamos. Uma ou outra está escondida está aos olhos do mundo. O mundo desconhece este novo gênero de vida interior, espiritual, e santa. A aborrece e a tem em conta de melancolia e morte. Além do mais ela é escondida a seus olhos
debaixo do humilde véu de mortificação e de tristeza aparentes, e de tribulações físicas. A Graça, a virtude, os dons - que são como que a alma desta vida - estão intimamente recolhidos no espírito e na mente. Diz o santo padre Agostinho: "Os bons estão escondidos por que seus bens são ocultos; e não é visível nem corporal o que eles amam; assim seus merecimentos são colocados em segredo como seus prêmios". S. Gregório Magno explica ainda como esses homens virtuosos estão escondidos em Deus: Quem ama a mortificação, alegra-se muito no repouso encontrado na contemplação, daí quase morto oculta-se do mundo, e de todas as perturbações das coisas humanas se esconde no seio do interior. Para citar um exemplo, ao santo conde Elzeário, tranqüilo na sua solidão alpina, Delfina, sua mulher, mas virgem - pois viviam em estado de celibato - escreveu para saber como estava. Ele respondeu: "Estou são e salvo de corpo. Se você quiser me ver, procure-me na chaga do lado de Cristo. Eu estou aí, e aí será fácil encontrar-me. Em outro lugar você procurará em vão. Vejam, agora, irmãos, a verdadeira idéia de um homem ressuscitado em Cristo. Poderá ele jamais saborear as coisas baixas da terra? Poderá ele procurar outra coisa nesta vida se não as coisas sobrenaturais e celestes entre as quais deverá viver eternamente?
6. - Como nossa vida de glória esteja escondida com Cristo em Deus
Mas justamente esta vida de glória, em cuja esperança agora nos gloriamos, é ainda mais desconhecida e vista pelo mundo; assim como ele não vê a vida gloriosa com que Cristo ressuscitou e com a qual vive em Deus, isto é, junto de seu Pai. Eis porque S. Paulo dizia "que nossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, vossa vida - isto é, causa da vossa vida - aparecer, então também vós aparecereis com ele na glória" (Cl 3, 4). Exatamente como a pérola - diz S. João
Crisóstomo - que fica escondida enquanto está dentro de sua concha (8). Mais amena ainda é a semelhança que S. Agostinho usa para elucidar esse trecho. Na crueza do inverno aquela árvore, embora verde, parece seca à vista. Aproxima-se o verão e raiz viva refloresce os galhos e os reveste de frutos. Assim é a nossa vida que se assemelha ao inverno quando o nosso sol que é Cristo está longe de nós e entre nuvens escuras fica fora dos nossos olhares. Nós somos como plantas áridas
por fora, sem folhagem, sem honra, sem aparência ou brilho de beleza; mas por dentro, no entanto, temos viva a raiz, a caridade, em Deus, como terra vital, fixa e fértil. Aparecerá o verão ao aproximar-se da glória de Cristo. Verão então reviver ressurgindo, e dar folhas e frutos - que são os dons gloriosos da felicidade - tanto no espírito como na carne, em nós. "Eia, pois, - exclama aqui S. Agostinho - Eia, pois, meu, dulcíssimo Jesus, esteja firme para mim este acordo contigo: morra eu totalmente para mim e só tu viva em mim; eu todo recolhido me calarei, para que somente tu fale em mim; eu descansarei totalmente, para que somente tu aja por mim" . "Eu vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim" (Gl 2, 20.) E em outro lugar: "A nossa cidade está nos céus" (Fl 3, 20). "E vós não viveis segundo a carne" (Rm 8, 9). E de novo: "Desejo desprender-me deste corpo para estar com Cristo" (Fl 1, 23). Eis os sublimes efeitos de um homem morto ao pecado, que não mais
aprecia as coisas terrenas. Eis os sublimes sentimentos que vive escondido juntamente com Cristo em Deus, que não busca senão o que é superior e celestial, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Eis os suaves transportes de um coração arrebatado à doce alegria destes santos pensamentos. É, pois, totalmente conveniente, irmãos, perseverar com toda diligência em seu santo propósito, e tender vivamente ao Céu sem jamais voltar os olhos à terra, "Se pois ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Apreciai as coisas celestes, não as terrenas.
7. - Ao Céu, ao Céu!
Ao Céu, pois, seus pensamentos, ao Céu seus afetos, ao Céu seus corações, onde está seu tesouro, sua vida. Lisonjeiem as riquezas, atraiam os prazeres, encantem as honras que lhes oferece a terra: não é esta sua vida. Quando aparecer a nossa vida, buscaremos então os prazeres, o descanso e o repouso.
Encontraremos então as delícias, mas sem espinhos, os prazeres, mas sem tristezas, as honras, mas sem invejas. Seremos inebriados pelas torrentes das divinas satisfações. Encontraremos as delícias da tranqüila ordem da paz. E no próprio seio de Deus teremos descanso para nossas fadigas, sem necessidades que nos perturbem, sem adversidades que nos aflijam, sem moléstias que nos inquietem.

7 de novembro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni

VI - A PAIXÃO 

1. - Convite a considerar de perto a Paixão de Jesus Cristo
"O justo perece sem que ninguém se aperceba" (Is 57, 1). Morre Jesus; o justo morre afogado em um mar de penas. Mas os rostos não empalidecem; não se despedaçam os corações; não se comovem as vísceras. Ninguém chora. As mulheres que tanto choraram a morte dos seus filhos, dos seus maridos, dos seus amantes; os homens tão compadecidos nas desventuras dos seus amigos, dos seus concidadãos; não terão uma só lágrima, um só suspiro para o seu Jesus? Ele mesmo se queixa convosco: "Procurei quem me confortasse em minhas penas, e não encontrei; quem ao menos se compadecesse de mim, e não houve ninguém" (SI 68; 21). Ignorais quanto Ele sofreu? Mas o sabeis pela fé que definhou sobre a cruz. Nem ignorais que tudo quanto ele sofreu foi "tudo por nós homens e pela nossa salvação". Era preciso encontrar-se lá sobre aquele monte, quando entre angústias de
morte Jesus estava próximo de expirar, para ver como souberam sentir piedade de seus males a própria natureza insensata: o sol que escureceu sua face, as rochas que se partiram, a terra que tremeu toda nos seus eixos. Donde pois tem origem tanta insensibilidade vossa no coração? Vos diz o Espírito Santo: "O justo perece sem que ninguém se aperceba". Não se reflete, por isso não se tem compaixão; eis o verdadeiro motivo. Também o filósofo ensina que para que um objeto, em si mesmo compassível excite a compaixão de outros, é preciso que esteja próximo. Assim, observamos que as
misérias alheias, distantes de nós no espaço e no tempo, que nada ou só ligeiramente tocam nosso coração. Por isso nada mais terei que fazer senão trazer a Paixão de Jesus tão próxima, não só do vosso pensamento, mas dos próprios olhos, que de objeto - como ele, é em si mesma - entre todos o mais compassível torne para vós objeto de compaixão a mais terna e atual.
2. - Invocações à Cruz
Ó santa cruz ainda quente e fumegante do Sangue deste Justo, ó Cruz que eu devo adorar como somente tu foste digna de carregar a augusta Vítima que em ti foi sacrificada pelas nossas culpas; sei bem que muitos e vários afetos podes trazer ao coração dos fiéis cristãos, tu que te tornaste o estandarte da sua fé, o guia seguro da sua vida, o fundamento das suas esperanças, o conforto dos míseros, o desejo dos justos, o terror do Inferno. Mas eu rogo que tua visão traga aos nossos corações uma tristeza e uma dor a mais viva daquelas penas que tu ocasionaste ao nosso Jesus, quando a ti, por nosso amor se estreitou. Mostra, pois, às almas que devotamente te fitam, aquelas fendas cruéis que em ti fizeram aqueles mesmos cravos que antes laceraram os pés e as mãos de Jesus. Mostra o local onde inclinou a cabeça expirando aquele Pai amoroso, antes, Amigo fiel, o mais terno Irmão. O
Esposo mais gentil e mais amável. Mostre enfim aquele Sangue espalhado por seu suor, de que tu ainda em longas estrias avermelhas e gotejas. Faze que, à impressão que neles pode ocasionar a tua vista, unam-se também as vozes deste Sangue eloqüente - como o chama o Apóstolo (Hb 12 24) - onde por ti se consiga no coração de todos nós aquela comoção tão grande, que eu confio muito bem de ver, mas não se produzir com minhas palavras.
3. – A Traição de Judas
a. A mais pérfida traição
Ao mundo não é novidade que um inocente, um virtuoso, benfeitor, seja traído por um amigo, muitas vezes o mais beneficiado; todavia jamais se ouviu , nem se ouvirá jamais traição mais pérfida que a de Judas. Quem é de fato Jesus? É aquele Deus ao qual por título de criação, de conservação, de fim último, os homens são devedores de tudo quanto têm, do que são, do que esperam. Quem teria pensado que entre eles se achasse um tão desleal, tão cruel, tão ingrato, que pensasse em traí-lo? Judas não só pensou, não só tratou, mas chegou ao ponto de trair este Deus tão benéfico, que para mostrar aos homens um amor maior, abandonada sua habitação tão feliz, e assumindo a nossa carne, alegrava -se - como um Rei disfarçado - em viver familiarmente com os homens seus servos e
em particular com Judas. Nem este podia não conhecê-lo por aquelas feições todas amáveis, todas divinas; enquanto o mesmo Jesus, tinha muitas vezes revelado - na presença de Judas - a nobreza da própria origem; enquanto Judas tinha sido testemunha dos milagres que Jesus todos os dias operava; aliás ele mesmo tinha operado os mesmos prodígios com toda a autoridade divina que Jesus lhe havia
comunicado. A tal honra o havia Jesus elevado da plebe mais vil; e - como se isto fosse ainda pouco - lhe havia preparado um assento digno entre aqueles doze tronos sobre os quais havia prometido fazer sentar os Apóstolos, quando voltasse para seu Reino, a fim de julgar com Ele o mundo inteiro. Entrementes tratava com ele como com o mais familiar ministro, ou direi melhor, amigo ou irmão; com ele comia, com ele vivia sem jamais afastá -lo do seu lado.
b - A última ceia
Judas, na mesma tarde em que havia determinado trair Jesus, sentava -se à mesa com Ele.
Jesus vê o ímpio coração; mas não o rejeita, não o reprova, antes lhe endereça todas as demonstrações de amor. Ele lava os pés dos discípulos e também os pés de Judas. Com Judas quis ter em comum não somente os alimentos, mas o mesmo prato. E se fala de sua morte como próxima, aliás se mostra indício da sua traição, o faz para agitar aquele coração tão duro; mas com ânimo tão pacato, que dá ao mesmo tempo confiança e perdão. Já a ceia estava no fim; e abençoado o pão e o vinho, Jesus disse aos seus Apóstolos: "Tomai, isto é o meu Corpo, bebei, isto é o meu Sangue que por vós será derramado" (Mc 14, 22, 24). Este é o penhor que vos deixo do meu amor. "Todas as vezes que isto fizerdes, recordareis de mim" (1Cor 11, 25). Tu mesmo, ó Judas, toma este Pão, que não é mais pão, mas é o meu próprio corpo; encosta tu mesmo teus lábios neste cálice; bebe este meu Sangue...
e depois vai trair-me... Eu tremo, eu palpito, eu estremeço. Prepara-se também Judas para receber
seu Mestre neste novo modo inaudito ao qual o reduziu sua ardente caridade; o acolhe naquele coração... 
c - O pacto de Judas
Judas saiu para trair seu Mestre nas mãos dos seus inimigos. "Que me dareis- disse-lhes - e eu o entregarei em suas mãos?" (Mt 26, 15). Eis a causa que pôde levar o miserável a tal excesso: o sórdido lucro. Os inimigos de Jesus apresentaram-lhe portanto trinta dinheiros. Ele aceita sem discutir o mísero preço, e acerta o modo com eles. Que golpe deve ter sido ao coração de Jesus? Não vos comove isto para com Ele tão bom, tão benéfico, tão amável, e tão ingratamente traído?
d - No Getsêmani
Mas voltemos a Jesus. Não o encontraremos mais no Cenáculo; mas longe dali, no Getsêmani. Eis que ao separar-se dos seus para entrar sozinho naquele horto em que costumava rezar à noite, Jesus não pode mais conter a angústia do seu peito, e diz aos discípulos: "Minha alma está triste até a morte" (Mt 26, 38). Via Jesus - ó amarga visão! - todo o horrível aparato da sua dolorosa paixão;
penava pela horrenda visão dos pecados de todo mundo que Ele estava destinado a levar; penava vendo que tantas almas pelas quais Ele morria, se separariam dele com uma separação cruel. Mas visão mais horrível lhe parecia o enorme delito de Judas: "Por isso quem me entregou a ti tem pecado maior" (Jo 19, 11). Se um meu inimigo tivesse urdido contra mim, eu teria suportado em paz; mas um homem que me é tão querido, ao qual sei ter feito tanto bem... isto me transpassa o coração. Vede agora a Jesus - o forte antes invencível - que de livre vontade, para satisfazer nossas culpas, se sujeita como homem a suster o peso daquelas aflições que provamos também nós; e tanto mais quanto pelo maior conhecimento da sua mente e maior sensibilidade do seu coração, Ele era mais disposto a senti-las; vede - digo - como já é obrigado a ceder livremente todo o coração à tristeza, e como cai de bruços ao solo; enquanto a resistência fortíssima com que se opõe aos assaltos daquela dor e nada mais vale senão a apertar-lhe o sangue de todas as veias até fazê-lo transpirar e ensopar a erva e as pedras ao redor. Extraordinário sinal de uma dor totalmente nova, de uma dor suma. Mas Judas se apressa; caminha diante de um bando de esbirros; aproxima-se com ar de paz. Jesus não o rejeita, o acolhe; "Amigo, a que vieste? (Mt 24, 50). E se deixa beijar: "Com um beijo tu me trais?" (Lc 22. 48). Ao sinal combinado os esbirros se arremessam contra Jesus, o amarram, o arrastam, o empurram com os punhos, com bastões, com pontapés; e para onde o levam?
4. - A sentença mais injusta
a - Jesus diante do Sinédrio
Não podereis admirar sem uma profunda comoção do coração de Jesus inocente, abandonado até mesmo pelos seus, diante daqueles juizes que são seus próprios inimigos; a ira que arde em seus rostos, o irrequieto empenho com que desejam sua morte. Procuram as testemunhas, aliás as pagam, para que deponham falsamente; interrogam a Jesus e ao mesmo tempo lhe negam a possibilidade de
falar. Se ele se cala, tomam o silêncio como confissão; se Ele fala, com uma terrível bofetada lhes fecham a boca; tribunais onde a justiça está emborcada e onde só domina a ira, o furor, o tumulto.
b - Jesus diante de Pilatos
Mas dirija-mo-nos a um juiz mais racional e imparcial; no tribunal do Governador romano. Pilatos tendo examinado Jesus sobre as acusações a ele feitas, e esclarecida a inocência, descobre que só por inveja os Judeus o queriam morto. Sai, pois, fora e o declara inocente. Mas os primeiros juizes do Sinédrio, acusadores, insistem em pedir sua morte e apresentam novas acusações; é um sedicioso que quer tornar-se Rei. Jesus confessa ser Rei, mas não deste mundo. E diz: "Se eu fosse tal, meus soldados teriam combatido por mim" (Jo 18, 36). Muito menos se pôde convencer de sedição: mas onde estão as armas escondidas? Conjurações secretas? Porém suas ações, suas pregações demonstram o contrário. O juiz volta outra vez para fora e protesta de novo que não encontra nenhuma culpa nele; tanto mais que o próprio Herodes ao qual o havia enviado, o havia também
dispensado. Por isso declara que punido com pancadas, o teria colocado em liberdade. Mas como? Se Cristo foi declarado inocente, se quer antes bater-lhe e depois libertá-lo?
c - Jesus é preterido por Barrabás
Na Páscoa era costume libertar, a pedido do povo, um condenado à morte. Pilatos oferece à escolha um destes dois: Ou Barrabás - celerado, sedicioso, homicida - ou Jesus. "Quem quereis que vos solte? Barrabás ou Jesus" (Mt 27, 17). A multidão daqueles cegos aos quais Ele restituíra a vista, daqueles coxos aos quais restituiu os membros, daqueles mudos a quem restituiu a fala, daquelas turbas famintas que por Ele foram saciadas em abundância, o procuraram para fazê-lo Rei, destes, numerosos enfermos que Ele curou certamente escolherá Jesus. Oh! este mesmo povo pede reiteradamente com altíssimos gritos; "Barrabás, Barrabás" (Mt 27, 17). Que se fará, pois, com este inocente? "Seja crucificado, seja crucificado!" (Mt 27).
d - A flagelação de Jesus.
E Pilatos que conhece sua inocência, no entanto o faz flagelar. Mas seria pouco ter negado justiça a Jesus como inocente em condená-lo; o pior é que se nega ainda como réu a condená-lo. A todos os outros réus os particulares da flagelação se definem antes" pelo juiz; Jesus se deixa de fato à
discrição dos bandidos. Nem estes param porque o sangue já escorre em rios, mas se sucedem com nova força e reduplica o furor, deixando-o com vida só por passatempo de crueldade. Não gosta o meu espírito de referir a feroz gozação que fizeram com aquele inocente; como puseram sobre sua cabeça uma coroa de espinhos calcando-a com golpes de varas; colocando na mão uma cana como cetro, e um farrapo vermelho como manto; como rei de zombaria, o escarneciam com fingidas adorações. Não se sabe se é maior a dor ou a ignomínia; já que enquanto Jesus é angustiado pelo
espasmo, eles riem, o escarnecem, e lhe batem no rosto, e sobre aquela face celestial lançam os escarros mais nauseantes. Tudo isto se faz no átrio do próprio Pretório, debaixo dos olhares do juiz; e o juiz não o impede. Que outro juízo jamais permitiria que os carrascos abusassem dos réus? Mas o povo não se contenta senão com sua morte. Em vão Pilatos grita do seu balcão: "Eis o homem!" (Jo 19, 5) mostrando-o tão desfigurado, tão dilacerado. E o povo recomeça ainda mais forte que Jesus seja condenado.
e - A condenação
Muitos outros, eu sei, foram condenados inocentes. Mas onde jamais se encontrou um juiz que antes defina não haver no acusado causa de morte, e assim mesmo o condene à morte? Pilatos leva ao público seu tribunal: "Não achei nele nada que mereça a morte" (Lc 23, 22). Portanto Jesus será solto, será salvo! Não: seja condenado, morra, seja crucificado! Agora vós. Hebreus furibundos! Que mais falta? Já ouvistes a sentença. Jesus está em vossas mãos.
5. - O suplício de Jesus foi o mais atormentado
a - Todos contra Jesus
Cristo é arrastado ao suplício fora de Jerusalém entre um frêmito de um mar de povo. Não basta um carrasco. Contra este inocente conspiram todos de toda ordem, de toda classe, de todas as condições; príncipes e ministros, juizes e soldados, leigos e sacerdotes, nobres e plebeus, literatos e ignorantes, cidadãos e forasteiros, judeus, gentios, romanos e bárbaro; todos correm para dar-lhe o mais
tormentoso suplício. Quem não pode atormentar com as próprias mãos, vai para atiçar os carrascos, para insultá -lo ao menos de longe com gritos, para comprazer-se olhando seus espasmos e sua morte. "Fremem as turbas. Erguem-se juntos" (SI 2, 1-2). "Mais numerosos que os cabelos de minha cabeça os que me detestam sem razão" (SI 68, 5). Retribuem-me o mal pelo bem, ódio por amor.
Vede: a passos lânguidos Jesus avança qual vítima inocente conduzida ao matadouro, rodeado de cães raivosos, assediado por touros furibundos. Alquebrado, como ele está pela longa , flagelação, lhe impuseram nos ombros as grossas traves do seu patíbulo. A cada passo desfalece, vacila, cai; ei-lo por terra! "É o opróbrio dos homens, a abjeção da plebe" (Sl 21, 7); não mais um homem, mas como um verme debaixo dos pés vilões que a força de pontapés e empurrões o querem em vão forçar a subida ao Calvário. Mas de onde tanto furor? O demônio entrando nos corações transforma os homens em fúrias e ministros do seu antigo rancor contra este Homem-Deus. Aí está todo o inferno: "Este é o poder das trevas" (Lc 22, 53). Se vós vedes aliviar Cristo da sua Cruz e conseguir um homem que a carregue em seu lugar, não senão para conservá-lo vivo para mais cruéis e mais longos tormentos. Onde estão seus amigos? Porque não se oferecem espontaneamente para ajudá-lo?
b - Jesus não só deve padecer por todos, mas em tudo o que possa um homem padecer.
O tormento de Jesus deve ser universal. Não só deve padecer por todos, mas ainda em tudo o que possa um homem padecer. Não só nos amigos, mas na fama. Arrastam com ele dois ladrões, para que colocado entre os celerados e os iníquos, seja reputado como um deles (Is 53, 12; Mc 25, 28). Com a fama, na honra e na glória. A cruz era o suplício de maior ignomínia: "É amaldiçoado pela lei quem pende do lenho" (Dt 21, 23). Não há nenhuma dúvida - por testemunho dos próprios escritores gentios - que a mais acerba de todas as mortes não fosse a morte de cruz. Nesta o mísero réu mais sobre aquelas partes do corpo que por serem mais nervosas, são também as mais sensíveis, isto é nas mãos e nos pés. Aí o peso do corpo aumenta continuamente a dor; e a continuidade desta dor torna a morte, tanto mais acerba, quanto é por si mesma mais lenta. Aqui as convulsões e os espasmos
de uma dor vivíssima; como fogo que arde as vísceras, cozinha os membros, e tardiamente consome. Aqui todos os outros suplícios não somente são superados, mas todos se encontram compreendidos e agregados em um só.
c - A crucifixão
Jesus, já despojado de tudo, despoja-se ainda de suas vestes. Jesus nu! Diante de um povo inumerável! Ao meio dia claríssimo, sobre a eminência de uma colina. Ah! isto é bem ser "saciado de opróbrios e estar coberto de confusão!" (4). A sua vergonha o magoa mais vivamente que todas as feridas e pontadas que tem no corpo. Onde está a beleza, o decoro, o candor puríssimo daqueles membros? É tudo uma lividez, tudo uma chaga. A cabeça coroada de espinhos; os cabelos emplastrados de sangue; os olhos empastados de terra, de poeira e de cusparadas; as faces lívidas e inchadas pelas bofetadas, pelos socos; o pescoço esfolado pelas cordas com que o arrastaram pela terra como um jumento; as costas, a coluna, os lados, as pernas, lacerados pelos flagelos, e, oh! Deus sobre que leito penoso de morte se deitam e se estendem! Os braços e os pulsos, ó Deus! Amarrados e apertado, e de cruéis ligaduras todo o corpo é estirado sobre aquela cruz! Já se levantam os pesados
martelos! Ó Deus! Parece que aqueles golpes caem sobre meu coração!... O suplício de Jesus excede e, por assim dizer, transcende todos os suplícios. Não só das mãos e dos pés, mas de todas as partes do corpo - todas chagadas - ele recebe ao mesmo tempo dores agudíssimas, tanto mais dolorosas, quanto estas feridas foram furiosamente reabertas ao despojá-lo de suas vestes, que depois da
flagelação, estavam todas grudadas; mais, foram encrudelecidas, quando, estirado o corpo com toda força sobre a cruz para levar os braços ao lugar preparado para pregá-los, foi um estiramento tão feroz, que tiveram todos os ossos deslocados; e muito mais ainda quando levantado ao alto a cruz em que Jesus estava pregado e deixada cair no profundo buraco escavado, todo o corpo ficou horrivelmente arruinado.
d - As dores do corpo e do espírito
Os algozes de Jesus, que não havia deixado nenhum só membro que não fosse ferido, não quiseram que nenhum sentido ficasse sem o próprio tormento. Haviam-lhe amargurado o gosto com fel. Para atormentar-lhe o olfato o haviam crucificado em um lugar fétido de cadáveres. Feriam-lhe continuamente o ouvido com os gritos mais horríveis, com as injúrias e os motejos mais mordazes, com as blasfêmias maiores. À vista preparavam um particular tormento que eu acredito o tormento dos tormentos. Enquanto ele tão cruelmente se esvaia, eles diante de seus olhos, insultavam sua desgraça, zombavam de seus gemidos, riam-se da sua dor. E se insinuam por este caminho a ferir muito mais profundamente o espírito. Que ferida mais acerba para um coração amante, que ver-se não só procurada a morte, mas sentir-se até na morte insultado por aqueles mesmos por cuja salvação
ele morre? Que chaga profunda naquele coração já compungido e ferido pelos pecados de todos os homens que existiram e que existirão até o fim! Em um coração que se compadecia de todos e de cada um em particular, mas em especial do horrendo deicídio! Que todos se anotava, como se fossem delitos seus próprios, com amaríssima contrição: "Palavras dos meus delitos!" (Sl 21, 2).
e - As sete palavras
Apesar disso Jesus reza pelos que os crucificam, e também os desculpa: "Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lc 23, 34). Porém para blasfemá-lo, o sabem muito bem. "Salvou os outros salve -se agora a si mesmo" (Lc 35); são os chefes do povo, são entre os levitas e os mais doutos que assim falam. Quanto à plebe, até os ladrões que estão crucificados a seu lado o insultam: "Se tu é
o Cristo, salva-te a ti mesmo;" (Lc 29). E Jesus? Se um deles se retrata e reconhece seu erro, está pronto para dizer-lhe: Hoje estarás comigo no Paraíso! (Jo 43). Mas isto mesmo lhe agrava as dores. O ladrão se salva, e o meu povo, a minha nação eleita, o meu caro discípulo Judas se condena! Só um se arrepende, e será seguido por poucos. Qual a utilidade de tanto sangue que eu derramo? A muitos este sangue servirá de julgamento e esta cruz de escândalo! Suspira por assim dizer ao céu; depois abaixa aflito o olhar, e oh! Vê a Mãe! Àquela vista as águas amargas de compaixão amorosa que haviam inundado o coração da Mãe retornam em toda sua cheia daquele amaríssimo mar ao coração
do Filho, que já está cheio, e já transborda. Não se pede à Mãe de comutar suas penas e acrescentá-las ao Filho. Só lhe é negado de dar a Ele o conforto de um véu à confusão da sua nudez, de uma gota de água à sua garganta seca e moribunda. Ah! "Mulher - Jesus diz, não Mãe - eis quem daqui para diante será por mim vosso Filho". E voltando-se ao discípulo: "Esta será vossa Mãe" (Jo 19, 20-27). Já do peito inchado sai arfante a respiração que lhe fecha a garganta. Ao trepidar das fibras convulsas os membros tremem, os olhos erram revirados; é o horror natural da morte e o amor à vida - de uma vida tão preciosa e tão cara a ele - que com atendo entre si afligem a natureza. Um dilúvio de penas que jorram e chovem de toda parte do corpo e da alma, fazem naufragar o coração. E tanto estas penas sobrepujam toda a humana experiência ou juízo, quanto os sentidos de Jesus são mais perfeitos e por isso capazes de sofrer. O seu corpo - formado imediatamente por milagre do Espírito Santo do sangue puro da Virgem - era o mais delicado e sensível; enquanto a alma, por excelência da sua mente, pela imensa amplidão do coração, era - como ensina S. Tomás - com muita disposição a entristecer-se em sumo grau por todas as ocasiões de tristezas que com toda eficácia aprendia. Ora esta humanidade que agoniza entre tristezas e dores, tivesse ao menos algum conforto da divindade, que lhe é conjunta e inseparável. Mas o que são estas palavras: "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? (Mt 27, 46). É o mesmo que dizer: Para aliviar a natureza humana de suas penas, a divindade se comporta
com ela como se não lhe fosse unida de modo algum. Essa entretém, com um dique prodigioso a cheia de sua glória na parte superior da minha alma; mas esta mesma glória - imóvel em mim - do gozo feliz, trabalha em mim para maior pena. Antes se nos outros pacientes a tristeza do ânimo ou a dor do corpo se mitiga muitas vezes com alguma reflexão que faz a razão por uma certa redundância das forças superiores nas inferiores, é fechado para mim este caminho da consolação; daí "assim como é livre todo tormento de agir no meu corpo e no meu ânimo com toda sua natural eficácia, assim todo senso ou potência é ao padecimento em toda a intensidade e pureza daquela tristeza e daquela dor que lhe é própria". Ó vós todos, pois, que com uma compassiva meditação passais hoje sobre a via marcada pelas minhas penas, ficai em mim o olhar da vossa contemplação, e
vede "se há dor no mundo semelhante à minha dor". Ó meu Jesus!Mas a força do vosso amor não diminui vossas dores, ou menos vossas internas tristezas? Aquele amor tão forte que vos faz dizer: "Tenho sede" (Jo 19, 28): sede da salvação das almas, sede de sofrer mais pela sua salvação?
Ah! irmãos! Antes aumentam incomensuradamente as suas penas. Pois se ele as assume voluntariamente para nos libertar do pecado, as assume também em tanta quantidade que fosse proporcionada à grandeza do fruto que ele pretendia. Mas esta quantidade e proporção ele não a espera somente da virtude e do valor que às suas penas e à sua dor dava a divindade sempre unida - pelo qual uma só gota de sangue era superabundante para descontar os pecados de todo mundo; -
mas da suficiência que segundo também à humana natureza deviam ter suas penas e sua dor a tanta satisfação; porque esvaziou suas veias de todo sangue espremendo-o debaixo da prensa de um suplício o mais tormentoso. Eterno Pai, o vosso querer e decreto já está cumprido por mim. O Gênero
humano está liberado da culpa não só com poder, como à vossa onipotência era possível, mas também com justiça e com rigor de justiça, como vossa honra violada exigia de mim. "Tudo está consumado" (Jo 19, 30). A vossa justiça está satisfeita. Máximo era o débito do pecado dos homens. Máximas são também as dores" que minha vontade - conforme à vossa - assumiram neste suplício; entre os quais a minha própria vida agora se perde e é antes consumida: "Tudo está consumado".
"Em vossas mãos entrego o meu espírito" (Lc 24, 46). E aqui Jesus inclina a cabeça e morre.
Assim morre o justo em um suplício o mais tormentoso, condenado pela sentença mais injusta, por uma traição, a mais pérfida. Assim Jesus termina de padecer. Mas os seus inimigos se enfurecem contra seu próprio cadáver. Abrem com uma lança no lado direito uma larga ferida que através o coração sai do outro lado das costas. Ó Jesus, nosso amor! Quem nos desse aquele cadáver sanguinolento para reparar com justo obséquio de nossas lágrimas a injúria atrocíssima daqueles cruéis!
6. - O pranto das almas redimidas
Desafogai vosso coração; deixai livre o freio para as lágrimas. Vós estais sozinhos para compadecer-se deste Inocente traído, deste Justo condenado, deste Amor crucificado. Chorai pois; é vosso Pai, é o vosso Redentor; por vós, por vós quis morrer. Pede-vos este tributo de lágrimas quem por vós deu todo seu sangue. Mas vós ouvistes as vozes deste sangue? Aquilo que aos nossos prantos responderam aquelas chagas? "Não choreis sobre mim; não sobre mim; sobre vós mesmos chorai...” (Lc 13, 28). Ó Deus! Eu vos entendo, vos entendo. As nossas culpas, a única origem do vosso sofrimento. Choremos, ó irmãos, choremos todos. Lamente-se pois Jesus, mas lamente-se ao mesmo tempo o nosso coração. Nós, causa da morte deste Justo. Nós o traímos. Ah; quantas vezes? E a que vil preço? Por um sórdido lucro, por um sujo prazer. Infiéis às promessas, ingratos aos dons, ingratos ao seu amor, mais pérfidos que um Judas traidor. Ó traição! Ó perfídia! Ó pecado! Perdão, meu Jesus, perdão; chorar sempre; pecados nunca mais, nunca mais pecados! Ó Deus! Que fizemos de fato pecando? Que injúria a Jesus! Temos postergado o Rei do Céu ao barro no nosso corpo. Aquela paixão infame devia morrer em nós; e o nosso iníquo querer ao invés gritou: morra Jesus, seja
crucificado; mas viva, viva em nós a paixão. Ó perversidade de juízo! Ó injustiça de eleição! Ó desordem do pecado! Perdão, ó Jesus, perdão! Nunca mais pecado, pecado nunca mais! Morte, morte ao pecado! A nossa iníqua vontade se condene a uma perpétua contrição. Enquanto durar a vida, chorem estes olhos, arrependa-se este coração, sofram estes membros. A nós, Senhor, a nós estes espinhos que vos transpassaram as têmporas, terrível fruto de nossos réus pensamentos. A nós estes cravos, obras funestas de nossas mãos e pés livres e lascivos. A nós esta cruz, fatura infame do nosso
pecado. A nossa soberba, a nossa ira, a nossa gula, a nossa lascívia foi a vossa cruz. Nós o matamos; nós o crucificamos. Ó crueldade! Ó barbárie! E mesmo morto, os nossos escândalos continuam a lacerar este corpo, a ferir este lado, a abrir este coração para daí tirar as almas a vós tão caras e arrebatá-las do seio paterno. E, esgotadas as vossas veias, pisa-se por nós este Sangue. Pisase
em todas as esquinas, em todas as ruas, em todas as praças com tantas blasfêmias. Pisa-se nestes tempos, aos pés destes altares com tantas sacrílegas profanações. Pisa-se em todos os lugares, em todas as horas por todos nós, que tantas vezes lavados neste Sangue, do pecado, ainda pecamos e continuamos a pecar. Ó sumo furor! Ó auge de crueldade! Ó excesso do pecado! Quem não sabe o que seja o pecado, venha a esta cruz e o aprenda. Eu venho, eu mesmo, colocá-la debaixo dos olhos, estendê-la a vossos pés. E quem não tem pecado eu me contento que não chore. Mas nós pecadores, que temos crucificado tantas vezes em nós mesmos este Filho de Deus; nós que temos colocado debaixo dos pés o Sangue do Testamento, nós choramos, choramos todos, choramos ainda mais. Muito convém a nós; a nós que mereceríamos chorar eternamente sepultos aos pés do pérfido Judas, dos iníquos Hebreus, dos próprios demônios; que todos superamos em perfídia, em injúria, em crueldade. Talvez o último flagelo nos espera ainda por poucos instantes. Choremos todos, ó irmãos, antes que decline este dia de redenção copiosa e de salvação; antes que decline para dar lugar ao dia da ira e da vingança. Choremos aos pés de Cristo morto que estende a nós os braços, antes que volte na sua majestade e no seu furor para julgar a nossa culpa. Choremos, irmãos, choremos ainda mais. É-nos muito útil que choremos neste dia; dia em que se dá o perdão aos que o crucificaram; dia em que também a nós Jesus apresenta a misericórdia e dá em penhor a bênção.

6 de novembro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni

V – PREPARAÇÃO À SANTA PÁSCOA -
O JEJUM QUARESMAL DEVE SER ENCARADO COM ALEGRIA

Vê-los irmãos, recolhidos nesta igreja com tanta piedade, num tempo em que o mundo lhes apresenta enganadores convites e sedutores prazeres para afastá-los do recolhimento cristão, é uma grande satisfação que não pode deixar de atingir muito ternamente e comover um coração que ama sinceramente o bem de vossas almas, como eu confesso que é o meu. É fácil pois, conjeturar qual seja o amor de suas almas, a fome da divina palavra, o fervor do divino obséquio que prevalece em vocês, em confronto com as mais fortes, enganadoras e convidativas atrações ao mundo. Animado por disposições tão boas, eis-me expondo-lhes simplesmente e sem mais preâmbulos, o que não acharia oportuno fazer, serão com muita cautela. Desejo, e pretendo dispor seus ânimos para acolher com alegria o já próximo jejum quaresmal. Talvez lhes seja inesperada a minha proposição. Mas, eu bem sei quanto lhes importa o que deve ser feito por vocês, por necessidade, se faça com
presteza, quase por escolha,
1. - Os exercícios da penitência cristã conservam ou restituem a saúde da alma
Só lhes peço uma coisa, irmãos: que ao julgar não se deixem jamais prevenir pela primeira aparência, e muito menos por imprudente e prejudicial costume; mas pesem com a mente bem tranqüila toda a razão. Assim fazendo descobrirão facilmente como os prazeres lascivos e as excessivas devassidões foram sempre a causa funesta de onde provêm as piores doenças e a morte fatal das almas. Por isso o jejum quaresmal, com todos os outros exercícios de penitência cristã que o acompanham, é o remédio mais seguro e válido para reparar a saúde perdida ou conservá-la, como algo que corta o mal por sua verdadeira e principal raiz.
2. - Exemplos da História Sagrada
Nos tempos de Abraão várias cidades eram dominadas por um mal tão espantoso e pestilento, que o próprio Deus julgando-o incurável, resolveu consumir com fogo os numerosos habitantes de cinco cidades inteiras, ao invés de sepultá-las - como fez outras vezes sob a ruína de suas casas, para que pelo contagioso mau cheiro não fosse prejudicado o resto do mundo (Gn 19, 24-2). Perguntem a Ezequiel qual a verdadeira causa de tão grande mal. Ele responderá que não foi outra, senão terem eles, entre o luxo e o ócio e a abundância, saciado exageradamente o próprio ventre (Ez 16, 49-50).
Do povo hebreu - tirado do Egito, nutrido e criado com solicitude pela Providência de Deus em um deserto, estando já nas fraldas do Sinai, espectadores de celestes prodígios e aguardando a Lei - afirma a História sagrada que sentando-se para comer e para beber, levantou-se depois para se divertir. Debaixo desse nome honesto de diversão estão escondidas as mais velhacas e infames
desonestidades (Ex 32, 6). O homem depois do pecado original ficou com a natureza tão fraca e
debilitada, quase, como um enfermo que qualquer pequeno distúrbio é suficiente para levá-lo à morte. Deus havia providenciado antecipadamente tão grande dano exigindo desde o paraíso terrestre um rigoroso preceito de abstinência e jejum (Gn 2, 17). Felizes de nós, se nossos pais o tivessem observado! Embora em nossa miséria, nós ainda poderemos ser felizes, se alertados pelo seu erro e pela nossa ruína, soubermos nos servir de tal remédio, tão necessário quão eficaz. O caso de Nínive é uma prova muito convincente do valor e da força desse remédio. A salvação daquela desventurada cidade havia chegado a ponto de desespero, que um profeta especialmente enviado por Deus, já lhe havia vaticinado absolutamente sua sepultura debaixo de suas ruínas após um breve período de
quarenta dias. Porém, logo que aqueles condenados cidadãos, levados pelo temor a procurar no jejum o último remédio a seus males, começaram resolutamente tentar a prova, as coisas mudaram de aspecto. Deus foi aplacado. Eles com toda facilidade obtiveram o perdão e até foi mudado o decreto, que pelo seu anúncio parecia inalterável (Jn 3). Vejam vocês agora com quanta força e presteza o jejum consegue operar curas tão prodigiosas mesmo nos casos mais desesperados.
3. - Exemplo do Santo Evangelho
Observem novamente sua eficácia, tanto quanto sua necessidade, em um outro acontecimento referido no Evangelho. Voltavam um dia os discípulos, tristes para o divino Mestre, depois de haver tentado em vão muitas vezes expulsar o demônio de um possesso. Tentaram com o poder que Ele lhes havia comunicado e do qual haviam experimentado até então inúmeras e infalíveis vezes. Mas ficaram espantados quando ouviram dele esta bela resposta: "Esta espécie de demônios só
se pode expulsar à força de oração e jejum" (Mt 17, 21). Era realmente daquela raça mais imunda e mais suja, aquele demônio. Aliás o mesmo que em nossos dias se apossou do coração da maior parte dos nossos cristãos, tanto que pode ser chamado de "deus deste século". Para combater, pois, um mal tão dominador, o jejum se torna tão necessário, que a própria oração - que também é exigida para a cura - ela mesma tira dele sua força para agir. O Espírito Santo diz em outro lugar que a oração é coisa boa, mas unida ao jejum: "boa coisa é a oração acompanhada de jejum" (Tb 12, 8). É de fato o jejum que torna a mente leve, rápida, livre, e que lhe empresta asas para subir até Deus. Cessem, pois, suas queixas, cristãos, que suas orações se tornam vazias, que crescem cada dia mais as tentações a serem vencidas, que jamais encontram meios para se livrarem de suas enfermidades. Prestem bem atenção que aquilo ao qual os maiores exorcismos são inúteis, só o pode conseguir e de fato se consegue com o remédio eficaz e adaptado: o jejum.
4. - O jejum faz bem também para o corpo
Não pensem, porém, irmãos, que toda utilidade do jejum fique só na alma, não restando para o pobre corpo senão aquele pouco de amargo e desagradável que quase todos os bons remédios produzem. Eu queria que me ouvissem bem todos aqueles que, ou por malícia, para desacreditar as leis - mesmo tão discretas e suaves - da santa Igreja católica, ou por falsa preocupação da mente, exageram - com grande escândalo dos fracos - os incômodos do jejum. E gostaria ainda que me ouvissem os mais tímidos e delicados cristãos, levados por um falso amor próprio, que vêem a quaresma com horror, quase como um lento martírio ou uma carnificina. Não sabem eles como o jejum é um remédio útil e necessário para manter saudável aquele corpo pelo qual temem tanto; aliás para prolongar a vida de que tanto se penalizam. Se não acreditam em mim, acreditem no Espírito Santo, que diz no
Eclesiástico: "Muitos morreram por causa de sua intemperança, o homem sóbrio, porém, prolonga sua vida" (Eclo 37, 34). Pelas devassidões, muitos, logo e antes do tempo, terminaram sua vida; a abstinência pelo contrário é o meio mais certo para prolongar a vida. Assim é. Aquele prazer, aquele deliciar-se entre banquetes e taças, aquele não saber mais negar satisfações à gula, com o que presumem manter o corpo mais vigoroso e mais longamente, é o que mais o prejudica, o corrompe, o
suicida. E a mortificação, a sobriedade, a abstinência que eles odeiam como inimigo capital da saúde do muito amado corpo, é o que o melhora, o confirma, o conserva.
5. - Exemplo dos anacoretas e dos religiosos mais austeros
Os rígidos penitentes das desérticas solidões, lutavam até a tarde contra a fome e a sede; e quando o sol estava no ocaso, ervas amargas e insípidos frutos das plantas selvagens eram seu alimento quotidiano; as águas frescas das fontes vizinhas, sua simples e costumeira bebida. E com alimentação assim tão magra viviam muito bem por cem anos. Finalmente em nossos tempos observem aqueles religiosos que vivem fechados no claustro mais austero e praticam a maior penitência. Eles observam um jejum quase diário, e uma quaresma perpétua, sem olhar outros exercícios que afligem seus corpos; pois pisam, com os pés descalços a neve e o gelo no inverno mais áspero, e caminham com a cabeça descoberta debaixo dos raios ardentes do sol de verão, dormem sobre tábuas nuas ou sobre rala palha, e interrompem o breve sono com longas salmodias. E contudo entre eles se encontram a santidade mais robusta e a velhice mais avançada e feliz que em vão se procura nas casas ricas, repletas, dos mais delicados e bem alimentados mundanos. Portanto é verdadeira a sentença do Espírito Santo que a arte de prolongar a vida é a abstinência.
6. - Disponha-mo-nos para ir com muita alegria ao encontro do jejum quaresmal
Se as coisas são assim, e o jejum quaresmal é um remédio não somente útil, mas necessário para a salvação da alma, porque não irmos ao seu encontro alegres e cheios de júbilo? Deixemos, pois, que os mundanos se aflijam com o término próximo dos seus divertimentos. Nós, ao contrário, exultemos com a aproximação desse tempo, para nós tão felizes, de penitência. Chamem eles de festa e alegres
esses dias de tumulto, de festança, de pecado; nós com mais razão faremos festas nos dias em que afastados dos escândalos e perigos de perder a alma, gozaremos de paz, felicidade, tranqüilidade na segurança da boa consciência. No entanto o Evangelho brada: "Ai de vós que agora rides, porque gemereis e chorareis" (Lc 6, 25); "Mesmo no sorrir, o coração pode estar triste, a alegria pode
findar na aflição" (Pr 14, 13). Quão triste é amar as presentes consolações do mundo que logo passam, e descuidar a eterna felicidade que jamais se perde? Que adiantará àqueles infelizes, no momento da morte, haver gozado? Ai! - diz um Profeta - daqueles que chegam àquela hora extrema dormindo em leitos cômodos, e que luxuriosamente vivem entre comodidades e delícias, preparam as mesas com os mais gordos e delicados alimentos, bebem o vinho mais fino, e perfumam o
ambiente com os mais preciosos odores, julgando todas essas coisas como duráveis e não como fugazes e passageiras" (Am 6, 1, 3-6). Ai deles! Felizes, ao contrário, aqueles que choram porque serão consolados" (Mt 5, 4). Ó quanto se apreciará naquele dia feliz a penitência! Quão afortunada a solidão! Quão preciosos os sofrimentos! "O mundo se há de alegrar, dizia Cristo, e haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria e ninguém a poderá tirar" (Jo 16, 20, 22).
Amemos, pois, o que dura e desprezemos com energia o que logo termina. Cuidemos da alma. Pensemos em purificá-la, curá-la, se enferma? Conservar-lhe a saúde que goza atualmente e também para o futuro. Não imitemos as crianças que recusam os remédios mais saudáveis porque deixam-lhe um pouco de amargo na língua. Olhemos os santos, o que fizeram, sofreram, suportaram pela salvação da própria alma. Somos cristãos. Cristo, com seu exemplo, incentivou-nos a tomar de
boa vontade esse remédio, enquanto Ele próprio, por quarenta dias, observou um apertado jejum. E nós procuraremos exceções, encontraremos alguma desculpa para nos dispensar, nós que temos tanta necessidade? E nos parecerá muito um pouco de jejum para conseguir o paraíso, onde seremos eternamente saciados por uma imensa felicidade? E nos parecerá muito quarenta dias de uma penitência tão suave, para fugir de um fogo interminável, e de uma eternidade de tormentos que
talvez nos estejam preparados por causa dos nossos graves pecados? Pensemos assim. E com tais pensamentos disponhamos nosso ânimo para entrar com muita alegria na santa Quaresma, onde bem purificados de nossas culpas, pelo jejum, e ornado de santas virtudes, nos tomemos dignos de participar com fruto da mesa Eucarística aqui na terra, para sermos depois introduzidos no eterno banquete no Céu.