2 de agosto de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

GUIA BIOGRÁFICO

1900:

13 de julho. Nasce em Santiago do Chile, na rua Rosas, 1352. Filha de Miguel Femández Jaraquemada e de Lúcia Solar Amstrong.
15 de julho. Batizada na paróquia de Santa Ana pelo Pe. Baldomiro Grossi com o nome de Juana Enriqueta Josefina dos Sagrados Corações. Padrinhos: Salvador Ruiz-Tagle e Rosa Femández de Ruiz-
Tagle. Seus irmãos foram: Lúcia, Miguel, Luís, Juana (morta poucas horas depois do nascimento), Rebeca e Inácio. Alternando com Santiago, passa temporadas na Fazenda Chacabuco, propriedade de seu avô materno.

1906:

Desde muito pequena gosta de ouvir falar de Deus. Durante um mês assiste, todas as tardes, às aulas no colégio das Te­resianas (rua São Domingos). Ali aprendeu a ler.

1907:

Ingressa como externa no colégio da Alameda das religiosas do Sagrado Coração.
13 de maio. Morreu seu avô materno Eulógio Solar. Seus herdeiros vendem a fazenda Chacabuco e a casa de Santiago.
A família de Juanita muda-se para o n. 164 da rua São Domingos. Desperta no coração de Juanita uma tema devoção pela SS. Virgem. Faz a promessa de rezar o santo rosário diariamente toda a vida; promessa que cumprirá fielmente. Preparada pelas religiosas, faz sua primeira confissão. Começa a assistir habitualmente à missa com sua mãe e so­licita a comunhão. Não lha concedem; porém ela inicia um trabalho de domínio e controle pessoal como preparação para recebê-la, conseguindo "modificar seu caráter''.

1909:

22 de outubro. Recebe o sacramento da confirmação.
 

1910:

11 de setembro. Das mãos de D. Angelo Jara, recebe a primeira,comunhão na capela do colégio. "Dia sem nuvens" que a marcou definitivamente. Desde então, diz ela, todos os dias comungava e falava com Jesus muito tempo. "Nosso Senhor me falava depois da comunhão. Porém minha devo­ção especial era pela Virgem: contava-lhe tudo." Muda novamente de casa. Vai para o n. 475 da rua Exército.

1 de agosto de 2021

Teresa de Los Andes - Deus, Alegria Infinita - Diário e Cartas

APRESENTAÇÃO

Não conhecia a carmelita descalça chilena Teresa de los Andes (Juanita Femández Solar). Quem me falou primeiro dela foi o meu amigo e geral da Ordem Carmelitana frei Filipe Sainz de Baranda, e o fez com um entusiasmo contagiante. Os santos sempre despertam em mim emoções profundas e íntimas. Seus exemplos e palavras me fazem perceber que Deus é cada vez mais o amigo atencioso que caminha ao nosso lado. É o companheiro da pura cotidianidade, tantas vezes opaca devido à monotonia. O merecimento da divulgação e o conhecimento desta Carmelita Descalça nós os devemos às Monjas do Chile, orientadas e animadas com amor e competência pelo frei Marino Purroy, O.C.D., que trabalhou ardorosamente por sua beatificação.

QUEM É TERESA DE LOS ANDES?

É uma carmelita viva e transparente como a beleza dos Andes que, beijados pelo sol, refletem nas nuvens imaculadas a lumino­sidade de Deus presente na natureza. Uma jovem simpática que, com seu carinho e simplicidade, é capaz de abrandar qualquer co­ração envaidecido. Tem nos olhos uma força mística, penetrante, que parece perder-se no infinito, mas que, na verdade, sabe para onde olha e o que busca: o Deus vivo e pessoal de sua história. Esta jovem, que na vida carmelitana chamava-se Teresa de Jesus, assim como a sua coirmã Teresa de Lisieux, tomará o nome de los Andes por ter vivido no nosso mosteiro assim chamado. É a carmelita mais jovem a receber da Igreja o reconhecimento de sua santidade e aquela que viveu menos tempo na vida carmelitana. Somente onze meses. Ao longo deste tão curto espaço de tempo, conseguiu revelar toda a sua riqueza interior, deixando uma marca profunda dentro e fora da comunidade. Juanita nasce em Santiago do Chile no dia 13 de julho. Uma família de fazendeiros que entende somente de falência e dificuldades. A primeira educação recebida no lar é séria e cristã, são lançadas, no terreno bom do seu coração, sementes que irão produzir frutos abundantes. Através de seu diário, que conserva a simplicidade infantil e a profundidade de quem procura o absoluto, encontramos a descrição pormenorizada de sua infância. Suas pirraças, seus gritos, suas mentiras para se ver livre de repreensões, seus gestos de generosidade e de perdão. Uma vida de luz que as pequenas nuvens da vida não conseguem obscurecer. Sua vida é breve, nem vinte anos completos, mas rica de conteúdo. Uma jovem que ama a vida do campo, que gosta de natação. Pequenos pormenores que têm a sua importância para recuperar o sentido profundo de uma santidade humana. Um modelo vivo que deve ser apresentado aos jovens para que possam compreender que o Cristo veio para nos comunicar a plenitude da vida, a alegria plena. Gostar da vida é a primeira oração que sobe do coração e dos membros inquietos de Juanita. O seu amor pela família, particularmente pelo avô, será o caminho que a levará a descobrir Cristo como amigo. Amar não é outra coisa que a resposta à experiência do amor. É bem difícil para alguém que nunca se sentiu amado nem experimentou a ternura humana ser capaz de se deixar envolver pela delicadeza de Deus, que deseja acariciar-nos, afagar nossa cabeça para nos fazer sentir o seu amor. Ter medo do amor humano é ter medo do amor de Deus. Por outro lado, isto não é sentimentalismo, mas uma verdade que percorre toda a Palavra de Deus: "Não temas, pois eu te resgato, eu te chamo pelo nome, és meu; porque és precioso a meus olhos, porque eu te aprecio e te amo" (ls 43, 1-4); "Por isso a atrairei, conduzi-la-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração. Desposar-te-ei para sempre, desposar-te-ei conforme a justiça e o direito, com benevolência e ternura. Desposar-te-ei com fidelidade e tu conhecerás o Senhor" (Oséias 1,16; 21,22). Juanita sente Jesus como o seu único amado, procura-o com o entusiasmo angustiante de São João da Cruz, com a calma de uma Eilsabete da Trindade. O encontro com Cristo, o Amado, em Juanita realiza-se na Eucaristia. Espera como festa sem igual a primeira Eucaristia, que será um dia sem nuvens: "Depois todos os dias comungava e passava grande tempo com Jesus. Nosso Senhor me falava depois da comunhão". O amor é diálogo, estar juntos, perceber a presença do outro como algo que preenche todos os nossos vazios, desertos e solidões. Aos quinze anos, encontramos nesta jovem sedenta de vida uma maturidade surpreendente. Percebe que completar quinze anos é uma aventura de iniciação humana, é tomar-se grande, lançar-se na construção do próprio futuro, vislumbrar, embora de longe, o nascer lento, sempre mais nítido, do amanhã. Juanita diz: "Para uma menina é a idade mais perigosa. É a entrada no mar violento do mundo. Mas Jesus tomou a direção da minha barquinha, evitando o choque com outros navios, conservou-me solitária para ele. Escondeu-me nele". O Carmelo já começa a aparecer na sua vida como ponto de referência. É uma força que ela mesma não sabe explicar nem dominar.

NOIVA DE JESUS

Aproximando-se de Deus percebe-se sempre com mais clareza que a vida é unidade, união de sentimentos, do ser. A fusão do humano com o humano gera o matrimônio e não são mais dois, mas uma só carne. A união do humano com o divino realiza a unidade do ser em que o Pai, o Filho e o Espírito tomam posse do coração humano como morada preferida. Compreende-se, na busca desta união, a predileção que os místicos têm pelo livro do Cântico dos Cânticos e pelas imagens dos esponsais presentes desde Oséias até o Apocalipse. É uma linguagem simbólica, mas nem por isso menos verdadeira. O dia oito de dezembro marca a vida de Juanita: nessa data celebrará o seu noivado com Cristo. É interessante a linguagem que usa: "Hoje pronunciaram os votos do noivado". Quem? Ela e Jesus. Os votos, único sim como resposta ao amor de Deus, por muito tempo foram apresentados como renúncia e não como doação. Oferecer-se é realizar-se plenamente. Ela percebe como as coisas humanas se relativizam sempre mais. A quem ama nada mais interessa a não ser agradar ao amado. Canta João da Cruz: "No interior da adega do amado meu, bebi; quando saía, por toda aquela várzea já nada mais sabia, e o rebanho perdi que antes seguia. Juanita se esforça para ser "mais bonita para Jesus". Uma coisa é certa aos quinze anos: já' tinha lido Teresa d'Avila e Teresinha do Menino Jesus. Leituras, sem dúvida, empenhativas, mas, para quem ama, de uma ·transparência e compreensão maravilho­sas. Quando o coração fala, tudo se torna compreensível. Teresa de los Andes, ao longo de toda a sua vida, é cântico de alegria composto de coisas simples, de flores, de passeio, nela lentamente, uma presença forte, alguém que vai invadindo toda a sua intimidade e ela se torna pura transparência dele.

AMOR SEM CARÍCIAS?

O amor precisa manifestar-se, revelar-se no dia-a-dia. São Paulo nos convida a revestir-nos dos mesmos sentimentos de Cristo Jesus. O amor de Deus, eu o imagino delicado, atencioso; amor que em Cristo se faz "carne" viva e vida plena. O profeta Isaías fala de um Deus que nos acaricia, que nos carrega no colo como o pastor carrega os cordeirinhos. Jesus, ao longo do Evangelho, tem gestos carregados de profunda emoção. Madalena lhe beija os pés, João reclina a cabeça no seu peito; deixa que as crianças se aproximem dele; Maria senta-se aos seus pés e ele contempla com profundo amor e ternura a mulher adúltera. Na oração, caminhamos na fé pura; o sentimento deve ser superado, às vezes, com o sofrimento. Vale a pena apresentar o trecho de uma carta que Teresa de los Andes escreve como confissão de fé: O amor é a fusão de duas almas em uma para se aperfeiçoarem mutuamente. Poderá uma alma unir-se à outra mais perfeitamente do que Deus se une com a nossa? A alma unida a Deus se diviniza de tal maneira que chega a pensar, a desejar e a agir conforme Jesus Cristo. Há algo maior no mundo do que Deus? Há algo maior que uma alma divinizada? Não é esta a maior grandeza à qual pode aspirar o homem? É verdade que não o vemos com nossos olhos do corpo. Mas Deus toma-se visível para nós pela fé. Não o apalpamos com nossas mãos, mas o apalpamos em cada uma de suas obras. Antes, eu achava impossível chegar a enamorar-me de um Deus a quem não via, a quem não podia acariciar. Mas hoje afirmo com o coração nas mãos que Deus compensa inteiramente esse sacrifício. De tal maneira a pessoa sente esse amor, essas carícias de Nosso Senhor que parece tê-lo ao seu lado. Tão intimamente o sinto unido a mim que não posso desejar mais, salvo a visão beatifica no céu. Sinto-me cheia dele. Não há separação entre nós. Onde eu for, ele está comigo, dentro de meu pobre coração que é sua casinha, onde o hospedo. É meu céu aqui na terra. Vivo com ele apesar de estar nos passeios, ambos conversamos sem que ninguém nos surpreenda nem nos possa interromper. Se tu o conhecesses bastante, o amarias. Se estivesses com ele numa hora em oração, po­derias saber o que é o céu na terra (carta sem data).

MENSAGEM

Nos escritos desta jovem carmelita não encontramos um tratado orgânico da vida espiritual e nem tampouco uma teologia da oração. Teresa lança pérolas preciosas de oração que um experto e atento joalheiro deve colocar no lugar certo para obter um conjunto harmonioso. Cada pensamento é água-viva que jorra da fonte do coração e espera ser recolhido para matar a sede do peregrino que busca a Deus. A mensagem não é uma história interessante, marcada por reflexões, mas a cotidianidade da vida, cuja monotonia é assumida com amor e por amor. No amor a monotonia toma-se vida, presença amável e quem não é capaz de se cansar da presença do amado. Bem diz o mestre João da Cruz: "O amor não cansa nem se cansa." Teresa de los Andes com sua força cativante penetra em nosso coração e nos ensina que a santidade é saber gostar da vida, contemplar o Senhor nas maravilhas da natureza e saborear a alegria da felicidade do outro. Ela será capaz de pedir pequenas esmolas até juntar trinta pesos para comprar sapatos para Juanito, um menino pobre; para isso rifa também o seu relógio. Gestos que já não dizem muito para quem perdeu a simplicidade das crianças. Sofrer e amar, repetirá várias vezes Teresa de los Andes, um sofrimento que é amor e um amor que é sofrimento, imolação silenciosa ao Cristo. A vida reserva a cada um de nós momentos de trevas, desertos que devemos atravessar na certeza de que Deus caminha conosco e, por isso, o desânimo não pode afastar-nos de nosso ideal!
Frei Patricia Sciardini, OCD
São Paulo, 20 de outubro de 1988

31 de julho de 2021

Santo Inácio de Loyola - Fundador da Companhia de Jesus

III. MANRESA: ENFERMIDADES E PROVAS

Estava-se no fim de julho[21]; o calor era sufocante e tinha soado a hora da sesta para todos, exceto para o nosso jovem penitente, que percorria os campos, inteiramente desertos naquele momento.
A seiscentos passos aproximadamente da pequena cidade de Manresa, não longe do confluente do Cardoner e do Llobregat, no lindo vale que os habitantes do país chamavam Vale do Paraíso, Inácio ajoelhava-se junto duma cruz de pedra, plantada à beira do caminho, chamada a Cruz de Tort. Por detrás, do outro lado do caminho, corria o Cardoner; na frente, do outro lado da cruz, elevava-se uma montanha rochosa cujas saliências lhe atraíram a atenção. Levanta-se, dirige-se para a montanha, parece interrogar cada uma das escabrosidades, e, parando alguns instantes diante dum montão de silvados e de grandes pedras, afasta as silvas e rola algumas pedras. Fere as mãos; está banhado de suor; suspende por vezes o seu rude trabalho, descansa alguns momentos e retoma-o depois com novo ardor. Por fim abaixa-se, curva-se, entra por uma abertura que acaba de desentulhar e alargar, e penetra no interior da montanha. Encontra-se então numa gruta de trinta passos de comprido sobre dez de largo e outros tantos de altura. Do lado de Monserrate, uma larga fenda deixa penetrar um frouxo raio de luz e permite ver a igreja que coroa o monte bendito; o solo e as paredes são cobertos de saliências duras e pedregosas. Inácio, contentíssimo com esta descoberta, estabeleceu ali a sua morada, e, só, sob o olhar de Deus, passava noites inteiras em oração, prescindia de todo o alimento durante dias seguidos, disciplinava-se até derramar sangue e feria o peito com uma pedra. Estas austeridades alteravam-lhe a saúde e enfraqueciam a sua forte constituição. Tinha violentas dores de estômago, sustentava-se a custo e muitas vezes caía em longos delíquios.
Voltando um dia da capela de Nossa Senhora de Viladorsis, as forças traíram-no à entrada da gruta; quando recobrou os sentidos pelos cuidados das pessoas que o haviam descoberto, foi levado ao hospital de Santa Lúcia, onde se apoderou dele uma forte febre, que lhe pôs a vida em grande perigo. Durante esta doença, Inácio julgou ouvir, um dia, uma voz interior dizer-lhe:
"- Como poderás sustentar tantas austeridades durante cinquenta anos, que ainda tens que viver?"
Inácio, reconhecendo nesta linguagem o espírito do mal, respondeu-lhe logo:
"- Tu, que assim falas, podes assegurar-me uma só hora de vida? Não é Deus o único senhor dos nossos dias? E, ainda que eu vivesse mais cinquenta anos, que é isso comparado com a eternidade?"
Entretanto a doença fazia rápidos progressos sobre aquele corpo gasto pela mais rigorosa penitência; chegou a desesperar-se da sua vida, e, não tendo podido o inimigo de todo o bem fazê-lo cair no desalento, procurou vencê-lo pelo orgulho. Persuadiu-o de que, depois duma penitência como aquela que acabava de fazer durante meses, não devia temer a justiça divina.
"- Por que hei-de chorar a vida? - pensava o nosso herói. Tenho vivido como um Santo anacoreta desde que estou em Manresa; estou coberto com um cilicio, tenho trazido uma rude cinta, tenho jejuado, orado, feito vigílias, tenho chorado a minha vida passada... Não é isto o que fizeram os Santos, e não devo ver o céu aberto e os anjos prontos a receber-me?"
Mas conheceu esta nova tentação e esforçou-se por combatê-la com a lembrança dos seus pecados.
"- Infeliz de mim! - dizia ele. Que proporção pode haver entre uma vida inteira de pecado e alguns meses de penitência?"
E, chamando em seu auxílio a misericórdia divina, pediu-lhe que lhe concedesse o perdão das suas culpas e não a recompensa das suas virtudes. Depois instou com as pessoas que o rodeavam que lhe repetissem:
"- Inácio, recorda-te dos pecados que cometeste e das penas que eles merecem; pensa que mereceste o inferno e nunca o paraíso!"
A doença cedeu enfim; mas recobrando a saúde, Inácio ficou exposto a uma provação mil vezes mais cruel que todos aos sofrimentos que tinha padecido até então, e que só pode ser compreendida e apreciada pelas almas a quem à Deus apraz fazer passar por tão dolorosa tribulação.
O nosso santo penitente, aterrado por ter tido o pensamento de que chegara à santidade pelo excesso dos rigores exercidos sobre o seu corpo, não cessava de recordar-se da sua vida passada, a fim de vencer o orgulho e de humilhar a vaidade. Deus permitiu que esta vista contínua de culpas tão amargamente deploradas, trouxesse a perturbação à sua alma e lhe fizesse sofrer todas as incertezas, todas as dúvidas, todos os terrores, todas as torturas do escrúpulo. Inácio receava ter feito mal a sua confissão geral em Monserrate; não ter suficientemente explicado as circunstâncias, ter diminuído a gravidade dos seus pecados pelo modo de os confessar; persuadia-se principalmente de ter esquecido; lembrando-se de coisas que não eram de modo algum pecados, julgava ver nelas uma ofensa à Majestade divina. Os escrúpulos estendiam-se mesmo A sua vida atual; tudo lhe parecia pecado: os pensamentos, as palavras, as ações, até os menores movimentos. Se era forçado a confessar que o fato em si mesmo não era mal, imaginava falta de pureza da intenção, a qual pensava não podia deixar de ser má, pelo facto de vir dele. A graça parecia tê-lo abandonado: nem sentimentos, nem confiança, nem atrativos, Ausência completa de consolações, que o haviam sustentado até então. O céu parecia fechado para ele, Deus mostrava-se surdo às suas orações, e sucedia que o último raio de esperança se obscurecia totalmente na sua alma desolada. E, contudo, nunca ele amara tanto a Deus! Nunca experimentara tão ardente sede da sua graça, tão fervoroso desejo de lhe agradar!...
Os religiosos dominicanos do convento de Manresa, compadecendo-se do seu estado, tiraram-no do hospital, deram-lhe uma cela no convento e prodigalizaram-lhe os cuidados. da mais terna caridade.
Inácio comungava todos os domingos; mas por vezes sucedia que o sentimento da sua indignidade, na perturbação em que o lançavam os seus escrúpulos, o afastava da Sagrada Eucaristia no mesmo momento em que se ia aproximar dela. Receava cometer um sacrilégio; o Deus do amor era para ele um juiz irritado, pronto a exercer as suas vinganças. O nosso Santo caiu numa melancolia que nada podia dissipar, e, num momento em que as trevas do seu espírito lhe pareciam mais espessas que nunca, desesperou da misericórdia infinita a ponta de querer pôr termo à vida: olhava para a janela da sua cela, media com a vista a altura que o separava do solo e dizia que era preferível todo o suplício àquele que torturava a sua alma... Um pensamento o deteve: Deus seria ofendido, e ele amava-o com todas as potências da sua alma! Então o desolado penitente cai de joelhos, chora copiosamente e exclama:
"- Meu Deus! soberano senhor de todas as coisas, eu vos peço que socorrais o vosso indigno servo! Vede o meu triste estado, tende piedade de mim!..."
Naquele momento, recordando-se de que um santo eremita, cuja vida lera, recusou toda a alimentação até que lhe fosse concedida uma graça há muito solicitada: - "Pois bem, - disse o nosso Santo - usarei o mesmo processo, e talvez Deus se apiede de mim".
E jejuou rigorosamente, sem comer nem beber, durante oito dias. Sabendo-o seu confessor, ordenou-lhe que quebrasse esse jejum, que não pudera, sem milagre, sustentar tanto tempo. Inácio, dócil como uma criancinha, obedeceu imediatamente; e Deus, agradado sem dúvida mais da sua obediência do que do jejum, restituiu-lhe a tranquilidade e inundou-o, durante três dias, das mais deliciosas consolações; mas, depois de lhe ter renovado deste modo as forças, pareceu que o abandonava de novo. Todos os terrores, dúvidas, desesperos o assaltavam novamente com maior ímpeto. O religioso que dirigia a sua consciência proibiu-lhe formalmente que detivesse de então por diante o pensamento nas faltas da sua vida passada; o Santo obedeceu e reconquistou então uma doce paz, que não tornou a perder.
Nos desígnios de Deus a experiência era suficiente.
Em alguns meses, Inácio de Loiola tinha experimentado todas as alegrias e todas as dores, todas as consolações e todas as amarguras da vida espiritual; tinha percorrido todas as vias, conhecia os diversos atalhos em que havia de dirigir um dia numerosos discípulos, destinados a tornar-se mestres.
Entretanto a saúde, fortemente abalada por tão violentas provas, inquietava todos os numerosos corações que o estimavam, porque toda a cidade e arredores o olhavam como um Santo e como tal o veneravam. D. André Ferreira de Ami suplicando aos Dominicanos que deixassem ir Inácio para sua casa, a fim, de lhe prodigalizar os cuidados necessários a tanto esgotamento de forças, obteve este favor. Inácio recebeu ordem de ir para casa do seu amigo até ao completo restabelecimento, e desde então, D. André de Amigante foi chamado Simão e sua mulher Marta.
- Não se lhes deve dar outros nomes, - diziam os habitantes de Manresa - porque tiveram a felicidade de ter em sua casa a mais viva imagem do divino Salvador.

30 de julho de 2021

Santo Inácio de Loyola - Fundador da Companhia de Jesus

II. O REPÚDIO DO MUNDO

D. Inês Pascoal, a quem a peste tinha momentaneamente afastado de Barcelona, refugiara-se em Manresa, e fazia frequentes peregrinações ao santuário de Monserrate. Tendo-se dirigido na madrugada do dia da festa da Anunciação, voltava a Manresa, acompanhada de três senhoras e dois jovens, quando pelo meio-dia, chegando ao sopé da montanha, peito da igreja dos Santos Apóstolos, viu um jovem peregrino cuja beleza e distinção lhe atraíram a atenção, principalmente porque ia vestido com uma túnica de grosso tecido e de corda à corta. Parecia fatigado e mancava ligeiramente; tudo nele denuncia o fidalgo. D. Inês contemplava o peregrino com interesse, e este lançando-lhe um olhar modesto e doce, perguntou-lhe
- Estou longe dum hospital, senhora?
- Senhor peregrino, - lhe respondeu ela - o hospital mais próximo é o de Manresa, onde nós moramos; se quereis vir conosco, receber-vos-emos e vos trataremos da melhor vontade. Não temos pressa e caminharemos com o vagar que quiserdes.
Tendo o peregrino aceitado, D. Inês acrescentou:
- Senhor peregrino, nós temos boas pernas e vós pareceis fatigado; servi-vos do nosso macho, que nos é desnecessário.
- Agradeço-vos senhora; desejo ir a pé.
Tendo o peregrino recusado o macho, que de tão boa vontade lhe foi oferecido, os seis viajantes, mui respeitosos para com ele, afrouxaram o passo e caminharam mais devagar, porque se via que ele andava com dificuldade.
A pequena caravana ia já longe no vale de Llobregat, quando um enviado do alcaide de Monserrate, correndo a toda a brida, chama o jovem peregrino a pergunta-lhe:
- É verdade, senhor, que V. Ex.a deu um rico vestuário de fidalgo a um mendigo de Monserrate?
- É verdade, - disse o nobre peregrino, corando.
- O alcaide não quis acreditar esse homem e prendeu-o esperando o meu regresso.
- Ah! -disse o nosso Santo deixando escapar algumas lágrimas -não me foi dado fazer algum bem a esse pobre homem sem lhe causar ao mesmo tempo um grande mal!
- Fique tranquilo, senhor, - replicou o enviado do alcaide - em algumas horas será posto em liberdade.
E, puxando a rédea ao cavalo, voltou para Monserrate [20].
Uma das três senhoras que acompanhavam D. Inês, da qual era amiga íntima, dirigia o hospital de Manresa, que se chamava de Santa Lúcia, em razão da sua proximidade da igreja deste nome. D. Inês, profundamente comovida com o que acabava de passar-se, e não podendo duvidar de que Inácio fosse um grande senhor e um grande Santo, recomendou-o calorosamente à sua amiga quando se separou dela, antes de chegar a Manresa, e convidou Inácio a segui-la na direção do hospital, anunciando-lhe que ia enviar-lhe comida da sua mesa, o que se apressou a fazer.
Em presença da miséria que encontrou naquele asilo da dor, Inácio receou que não fosse assaz pobre. A lembrança de quanto o buscavam e da sua elegância, do seu orgulho e da sua ambição, do seu desejo de agradar e de ser citado pelo atrativo da graça e do espírito, não o abandonava. Ele queria expiar toda essa vida de prazeres e de honras, de vanglória e de falsa grandeza. Queria tratar a sua natureza como sempre tinha tratado o inimigo do seu soberano: como herói. Determinado a combatê-la, por assim dizer, corpo-a-corpo, e a sustentar contra ela uma luta de morte, sem tréguas, julgava, apesar disso, nada ter feito.
Permitam-nos as minudências em que vamos entrar. Poderão parecer pueris, muito vulgares, repulsivas até a certos leitores delicados; mas se se colocarem somente sob o ponto de vista da fé, e se se considerar o princípio que produz as ações que vamos referir, ser-se-á forçado a admirar-lhe o heroísmo e a confessar-se vencido.
D. Inácio de Loiola está num hospital onde a piedade lhe concede um asilo; está coberto com uma grosseira túnica e cingido duma corda; mas é jovem e belo, e nada perdeu desse cunho de nobreza e de distinção que imprime respeito e indica o homem de coração. Ele sabe-o, vê-o, e é necessário que tudo isso desapareça. Todo o seu passado deve ser esmagado, calcado aos pés, destruído... E mete mãos à obra.
Os seus cabelos são belos e ele tem-nos sempre tratado...: deixa-os crescer numa desordem só comparável à dos mendigos de que está rodeado. A sua barba andava sempre escanhoada negligencia-a como os cabelos. A sua mão é um modelo de forma e de limpeza: deixa crescer as unhas e não se ocupa delas... A sua linguagem é a da corte: estuda o idioma catalão e esforça-se por falá-lo tão naturalmente como se tivesse nascido na última classe popular da catalunha.
D. Inácio de Loiola teve sempre, mesmo nos campos, alguns criados às ordens: faz-se agora servo dos pobres doentes, e os mais repelentes são os seus preferidos. Presta-lhes os serviços mais baixos, os mais repulsivos, e se a natureza delicada tenta revoltar-se, força-a a tratar as mais asquerosas chagas, a lavá-las, a beijá-las de joelhos!
Tais mortificações, porém, não lhe bastam: são-lhe necessárias ainda, e sempre, as macerações mais espantosas. A roupa branca era sempre fina: um rude cilício a substitui. Tece por suas próprias mãos uma erva comprida e com espinhos, colhida no campo, e faz dela um cinto, que traz sobre a pele; disciplina-se três vezes por dia; come o pão mais grosseiro; bebe água que ele mesmo vai buscar à fonte e recusa qualquer outro alimento, exceto ao domingo. O pão grosseiro, coxas que se alimenta, vai mendigá-lo de porta em porta, a fim de se humilhar. Assiste todos os dias ao santo sacrifício da missa e aos ofícios, de manhã e de tarde, na igreja dos Dominicanos; ora de joelhos sete horas inteiras. Dorme na terra nua, a cabeça apoiada numa pedra ou num pedaço de pau, e só concede ao sono os primeiros momentos da noite; o resto é para a oração. Ao domingo confessa-se a um dos Padres Dominicanos e comunga; sendo aquele dia para ele de felicidade, permite-se acrescentar algumas ervas cosidas em água à sua refeição de pão negro; mas espalha nelas cinza para lhe alterar o sabor.
Tal era a vida do nosso Santo no hospital de Santa Lúcia, na pequena. cidade de Manresa.
Esforçava-se por imitar as maneiras dos homens do povo, assim como a sua linguagem, a fim de não trair a sua nobre origem; mas, como de ordinário sucede, essa afetação fá-lo cair no exagero a ponto de passar por um miserável vagabundo que todos podiam insultar impunemente. Quando saía, os rapazes corriam atrás dele, apontavam-no a dedo e chamavam-lhe o Pai Saco, alusão ao saco de grosso tecido que o cobria. Aqueles a quem pedia a esmola dum pedaço de pão, riam-se dele, da sua comprida barba, dos seus grandes cabelos, de todo o conjunto da sua pessoa. Que provação humilhante para o orgulhoso fidalgo! Mas Inácio dizia imediatamente
"- O soberano, a quem tenho a honra de servir não usou, por meu amor, a túnica reservada entre os judeus aos insensatos? Não consentiu em cobrir-se com o manto da irrisão? Não foi perseguido pelos gritos dum povo ébrio de furor e cego pelo ódio? Esta gente ri-se de mim, é verdade; mas não me tem ódio nem me quer mal. Longe disso, auxilia-me muito a expiar o meu orgulho e a minha ambição de vanglória. Coragem, pois! Ainda não sofri por amor do Rei do céu e da terra, tantas humilhações como sua divina Majestade se dignou sofrer por amor de mim, miserável pecador!"
De tempos a tempos, ia a Monserrate, passava muito tempo aos pés da Santíssima Virgem, conversava acerca dos seus interesses espirituais como Padre Chanones, que pressentiu grandes desígnios divinos sobre o seu heroico penitente. D. Inácio ia também com frequência em peregrinação a um santuário vizinho de Manresa chamado de Nossa Senhora de Viladorsis, quando o cuidado dos doentes e o serviço dos pobres lhe deixavam tempo.
Entretanto o inimigo dos homens não podia ver sem furor os progressos daquele que o combatia sem tréguas com tais armas. A paciência, a humildade, a abnegação, a mortificação, a renúncia não faltavam, um só instante ao nobre cavaleiro de Jesus e de Maria, apesar do desprezo com que não cessavam de o perseguir, e por isso o demônio usou de outro meio.
Algumas pessoas souberam, em Monserrate, pelo mendigo a quem o nosso Santo dera os seus ricos vestidos, que, sob os andrajos da miséria e da mendicidade, se ocultava, por espírito de penitência, um nobre fidalgo, o qual não podia habitar longe de Monserrate, porque ia ali muitas vezes.
O boato chegou até Manresa, onde foi confirmado, apesar do segredo prometido por aqueles que tinham acompanhado Inácio no dia da sua chegada. Já censuravam o ter sido humilhado o pobre estrangeiro do hospital, que não era outro senão esse fidalgo. Desde então, começaram a testemunhar-lhe toda a benevolência e respeito; vinham até consultá-lo, e ele falava de Deus com tanto amor, que alguns pecadores, sensibilizados com as suas virtudes e palavras, converteram-se sinceramente.
- Visto que Deus se digna servir-se de mim para operar tais conversões, - disse ele um dia a si mesmo - que grande bem não poderia eu fazer se, em vez de me tornar desprezível por um exterior ignóbil, tivesse continuado a ser o que era, -um fidalgo! Porque, enfim, eu ultrapasso todos os limites. Não seria Deus mais honrado, mais glorificado, se se visse brilhar no seu servo a ilustração do nascimento e a glória das puas próprias ações? Se eu tivesse continuado na corte, e ali vivesse como um Santo, teria mais mérito; houvera convertido alguns jovens fidalgos... Para que, pois, permanecer num hospital, onde todo o brilho do meu nascimento e dos meus talentos não pode ganhar uma só alma? Demais, tantas austeridades não podem deixar de afastar da santidade... E com que direito exporei aos sarcasmos e insultos dos vagabundos a honra da minha família, que os meus antepassados conquistaram ao preço do seu sangue?..."
Neste momento a tentação foi tão forte, que tudo se revoltou na natureza impetuosa do nosso herói. Houve nele um abalo espantoso! A sua túnica, os farrapos que o cobriam, os seus cabelos, a sua barba, as suas mãos causavam-lhe horror; o pão da caridade revoltava-lhe o coração, o serviço dos doentes desgostava-o, a tempestade tornava-se terrível...
Inácio reconheceu as sugestões do inferno: correu aos seus doentes mais repulsivos, abraçou-os, tratou-os mais afetuosamente que nunca e permaneceu junto deles até que a tentação se afastasse.
Este assalto pode, porém, renovar-se; além disso, o nosso Santo é já bastante conhecido e vêm de muito longe vê-lo a Manresa; há perigo para ele em continuar no hospital de Santa Lúcia. Inácio quer um retiro onde os homens não possam ir perturbar a sua união com Deus, e vai procurar esse retiro com a confiança de que Deus lho fará encontrar.

29 de julho de 2021

Santo Inácio de Loyola - Fundador da Companhia de Jesus

SEGUNDA PARTE
MENDIGO E PEREGRINO
(1522-1524)

I. CAVALEIRO DE CRISTO

Um dia do mês de Março do ano de 1522, ao pôr do sol, um jovem e belo cavaleiro, montado num cavalo andaluz, saía da cidade de Cervera, na província de Catalunha, e tomava a estrada que conduzia a Barcelona. Não levava escudeiro nem criado, mas na sua pessoa tudo anunciava um dos primeiros fidalgos da Espanha, um dos grandes senhores da corte. Usava o saio curto de veludo encarnado[10]; a sua calça, tufada desde o alto terminava pela bota mole adornada duma glande de oiro e duma brilhante espora; pendia-lhe do cinto rica espada e do lado oposto via-se-lhe um punhal de muito valor; no gorro, cheio de rodados e pendido sobre a orelha direita, flutuava graciosamente a longa e bela pluma que só a nobreza tinha direito a usar [11].
Vendo-o cavalgar tão tranquilamente; ao passo regular sua cavalgadura, ninguém explicava a ausência dos criados todos a comentavam a seu modo. Estava pouco distante lugar de Igualada, quando um cavaleiro, saindo dum caminho à direita, se lhe aproximou saudando-o e dizendo-lhe:
- Senhor cavaleiro, teria grande prazer em viajar convosco, se me permitísseis acompanhar-vos.
- Da melhor vontade, - lhe respondeu o nosso fidalgo. - Sois Mouro, não é verdade? Conheço-o pelo vosso vestuário ...
-Sim, senhor, mas vivemos tranquilos agora no reino de Aragão e no de Valência, aonde me retirei com minha família. Estava previsto ! Era essa a vontade de Alá!
- Ides longe, senhor?
- A Igualada e de lá a Nossa Senhora de Monserrate.
- Ah! Ides em peregrinação à capela da Mãe de Jesus, senhor cavaleiro?
-Vou em peregrinação à capela da Santíssima Virgem, - respondeu com vivacidade o fidalgo cristão.
Então travou-se controvérsia entre os dois viajantes. O muçulmano sustenta que Maria não era virgem depois do parto; o cristão, forte na sua fé e na verdade que defende, sustenta a virgindade de Maria, antes, durante e depois do nascimento do Salvador. A discussão acalora-se; o muçulmano esgota em vão todas as razões, e não encontrando nada que opor ao seu adversário, exclama cheio de ódio:
- Não! por Maomé! a Mãe de Jesus não conservou a virgindade!
E, esporeando a mula, toma a dianteira e parte a galope.
Ouvindo esta última blasfêmia, o nobre cristão fez o sinal da cruz, recolheu-se, orou um instante e disse:
"- Aquele desgraçado ousou insultar horrorosamente a divina Mãe do meu Soberano Senhor! E eu, fidalgo, eu, cavaleiro da nossa soberana Senhora e Mestra, sofrerei este ultraje feito à sua honra sem procurar vingá-lo?! Não passarei a minha espada através do corpo desse maldito muçulmano?! Não, não será assim! Ínigo de Loiola não pode tornar-se culpado de semelhante felonia! Corramos após esse infiel, e, pondo-lhe o pé no pescoço, forcemo-lo a confessar que ele é um miserável blasfemador e que a puríssima Senhora e Rainha do Mundo, que eu tenho a honra de servir, conservou sempre a sua santíssima virgindade!..."
Lançou a toda a brida o cavalo e ia transpor a distância que o separava do muçulmano... De repente, para; a sua consciência perturba-se, e pergunta a si mesmo:
"- Ser-me-á permitido matar um homem para a glória e honra da minha Soberana? Ignoro-o completamente
Na dúvida, entreguemos o negócio ao juízo de Deus[12]. Vou abandonar o meu cavalo a si mesmo; se ele avançar para além do caminho que devo tomar e seguir a estrada de Barcelona, lançar-me-ei sobre esse miserável infiel e atravessá-lo-ei de lado a lado sem compaixão. Se ele voltar à esquerda, perdoarei a esse miserável".
Tomada esta resolução, o nosso herói seguiu a distância o muçulmano; chegado ao caminho que devia tomar para se dirigir a Monserrate, o seu andaluz abandonou a estrada real, voltou à esquerda e dirigiu-se a Igualada. Inácio aceitou o Juízo de Deus, mas compreendeu-o muito pouco. Mais instruído nas ciências que faziam os grandes capitães e cortesãos cavaleiros, do que na que fazia os grandes Santos ou somente os verdadeiros cristãos, aplicava à sua nova vida todas as ideias de guerra e de antiga cavalaria, de que sempre se alimentara.
Abandonando o teto paterno com a resolução de não habitar mais a feudal morada de seus pais, Inácio não tinha outro fim senão fugir do mundo e consagrar-se inteiramente à maior glória de Deus. Quanto à maneira como devia chegar a este fim, ignorava-a: tudo o que sabia era que queria viver de pobreza, de penitência, de humilhação, de imolação contínua de si mesmo, como os Santos cujo heroísmo era para ele objeto de tão grande admiração.
- Estivera poucos dias em Navarrete, e, abandonando esta cidade, tinha dado ordem aos seus criados de voltarem ao castelo de Loiola, e acrescentara, dirigindo-se ao seu escudeiro:
- Dirás ao sr. D. Garcia que vou fazer uma viagem, durante a qual os teus serviços me são desnecessários.
Dirigiu-se em seguida para a Catalunha, querendo ir a Monserrate pôr sob a proteção da Santíssima Virgem a sua resolução de viver doravante a vida dos Santos. Ao iniciar esta peregrinação, tinha feito voto de castidade perpétua, e chegara sem incidente a Cervera, onde o encontramos.
Depois de ter renunciado a matar o muçulmano, cuja vida tinha submetido ao juízo de Deus, o nosso cavaleiro parou em Igualada e comprou alguns objetos, que ligou ao seu cavalo, entrando em seguida no caminho tortuoso que conduz à santa montanha.
Chegado ao convento dos religiosos beneditinos, aos quais está confiada a guarda da miraculosa imagem, pediu para fazer uma confissão geral a um deles; designaram-lhe o Padre João Chanones [13], encarregado especialmente de ouvir os peregrinos.
Inácio escreveu a sua confissão com tão escrupuloso cuidado e tão viva contrição, que a sua acusação, frequentemente, interrompida pela abundância das lágrimas, só pôde ser acabada no terceiro dia. Feliz de poder abrir a sua alma a um homem de tão eminente virtude, fez-lhe conhecer as graças com que tinha sido favorecido, e pediu-lhe conselhos sobre a maneira como devia executar a sua inabalável resolução de não mais viver senão para serviço e glória de Deus. Essas conferências foram longas e frequentes vezes renovadas. Inácio, evidentemente chamado à mais alta santidade, mas ignorando os meios de lá chegar, estava persuadido de que os mais enérgicos deviam ser os mais eficazes.
Disciplinava-se todos os dias e trazia o mais rude cilício sob o seu elegante vestuário; privava-se do alimento e do sono e só esperava pelo momento em que pudesse, desconhecido de todo o mundo, sofrer os mais humilhantes desprezos dos homens. Quanto a consultar a vontade de Deus para conhecer o que dele exigia, não pensava nisso, e não pensava até que pudesse haver vocações especiais. Não compreendia e não queria senão uma coisa: uma vida de imolação incessante para glória de Deus. Jesus Cristo fez-se vítima pelos homens, ele queria fazer-se vítima por Jesus Cristo. A sua dor de ter vivido até então para o prazer e para a glória ilusória deste mundo era das mais amargas, e, todavia, o fim principal das, suas espantosas mortificações não era a expiação dos seus pecados, mas a glória de Deus. Para ele tudo consistia nisto.
Depois de ter recebido a absolvição, o nosso santo penitente, pediu e obteve o favor de passar a noite no santuário privilegiado, aos pés de Jesus e Maria. Era no dia 24 de Março.
À tarde, apresenta-se no átrio da igreja, passeia a vista sobre os mendigos que ali se encontram, vê um mais miserável, mais pobre que os outros, aproxima-se dele, sauda-o respeitosamente, pede-lhe que o siga, e leva-o para um lugar onde possa falar-lhe sem testemunhas:
- Meu amigo, - lhe diz - tenho um favor a pedir-lhe: Quer dar-me a sua roupa e aceitar em troca a minha?
O mendigo seguira da melhor vontade o belo peregrino esperança de receber uma boa. esmola; mas estava longe esperar tal proposta, e pensando ter ouvido mal, ou julgando que o jovem fidalgo tinha perdido o juízo, olhou-o admirado e não sabia o que responder
- Falo-vos seriamente, - acrescentou Inácio. - Fiz um voto
No tempo em que sucedeu esta história, esta palavra explicava tudo.
- Oh! então, da melhor vontade, meu nobre senhor, - respondeu o pobre catalão, contente por lhe aparecer tão fortuna.
E, imediatamente, o valente capitão, o herói de Navarra e de Pamplona, o elegante cortesão tão cortejado, tão aplaudido, tão amado na corte do seu soberano, o brilhante Inácio de Loiola despoja-se dos seus ricos vestidos e cobre-se com os andrajos de um mendigo! E, tomando a mão negra e calosa do pobre montanhês:
- Obrigado, meu amigo, - lhe disse - prestou-me um serviço que jamais esquecerei!
Entrou no seu quarto, abriu o embrulho que continha os objetos que comprou em Igualada, tirou dele uma longa túnica de grosso tecido, que vestiu, uma corda de cânhamo que atravessou à cinta, sandálias de junco entrançado [14] e uma cabaça que atou na ponta dum grande bordão. O seu desejo era ir de pés descalços, mas a sua perna esquerda, de que ainda sofre, está fraca, incha todos os dias e é até obrigado a conservá-la ligada [15]; limita-se, pois, a deixar só um pé descalço e põe uma sandália no outro.
Leu, nos romances de cavalaria, que na véspera do dia em que os eleitos deviam, ser armados cavaleiros, isto é, receber solenemente a espada e espora, [16] passavam a noite de pé cobertos com a sua espessa armadura e meditavam assim sobre o compromisso que iam tomar [17]. A isto chamava-se a vigília das armas.
Recordando-se disto, Inácio de Loiola, que devia ter a felicidade de comungar no dia seguinte, perguntou a si mesmo se não devia considerar-se como candidato à ordem da cavalaria mais eminente que jamais houve.
"- Que sou eu, - disse ele - senão um cavaleiro do soberano Senhor e da soberana Senhora do mundo ? Não vou receber amanhã as mais poderosas armas para combater os seus inimigos? Sim! como esforçado e valente cavaleiro, no momento de ser alistado na nobre milícia de Cristo e de Nossa Senhora, devo meditar sobre os compromissos que vou tomar... Devo fazer a vigília de armas".
E cingiu a sua espada por cima da corda, tomou o punhal, que pôs à cinta e dirigiu-se à igreja. Passou a noite a orar e a meditar, chorando abundantemente sobre a sua vida passada e renovando a Jesus e a Maria a promessa de ser para sempre o seu mais fiel vassalo e de morrer ao serviço de Suas Majestades.
Antes do dia, desafivelou o cinturão, fez homenagem à Rainha do céu da sua espada e do seu punhal, que deixou apensos a um pilar da capela [18], assistiu à primeira missa e comungou com fervor celeste.
Era o dia 25 de Março, festa da Anunciação.
O concurso dos peregrinos devia ser considerável. Inácio de Loiola, receando ser reconhecido, abreviou a ação de graças e abandonou Monserrate.
Despedindo-se dos bons Padres, fez-lhes presente do seu cavalo e partiu a pé, de cabeça descoberta, bastão na mão e vestido como acabamos de ver.
"Não é já o belo cavaleiro cujas recordações de infância se perdiam no meio das prodigalidades e dos prazeres da corte do rei católico. Nada há nele do jovem senhor que, há pouco ainda através da licença das armas, sabia espalhar o perfume da maior urbanidade e da mais poética galanteria... Este fidalgo tão cheio de si mesmo, tão ardente, tão generoso, tão susceptível sobre todas as coisas que se prendiam com pontos de honra, corre à conquista da humilhação, como se a humilhação se tornasse para ele uma nova fonte de glória" [19].
Inácio de Loiola desejava ardentemente ir em peregrinação à Terra Santa. Aos sentimentos piedosos que lhe inspiravam esta devoção, juntaram-se as suas ideias cavaleirescas. Recordava-se das cruzadas e dizia que um fiel cavaleiro de Jesus e de Maria não podia dispensar-se de visitar os Santos Lugares para a libertação dos quais o mais nobre sangue da Europa havia sido tão generosamente espalhado. Mas o porto de Barcelona estava fechado por causa da peste; nenhum navio podia ali entrar nem sair, e, esperando que a navegação fosse livre, o nosso Santo tinha determinado, por conselhos do Padre Chanones, retirar-se a Manresa, pequena cidade distante de Monserrate apenas doze quilômetros. Naquela época, tinha poucos habitantes, mas possuía um Convento de Dominicanos e um hospital, o que asseguraria a Inácio todos os recursos desejáveis para satisfazer a sua piedade e a sua mortificação. Estando o hospital situado fora da cidade, preenchia melhor o seu fixe: ali, podia permanecer desconhecido e exercer ao mesmo tempo a humildade, a caridade, o zelo, todas as virtudes que tinha necessidade de praticar no mais perfeito grau.

28 de julho de 2021

Santo Inácio de Loyola - Fundador da Companhia de Jesus

IV. A CONVERSÃO

D. Garcia não entrava no quarto do seu jovem irmão que o não encontrasse ocupado a ler ou a escrever.
- Achais interesse na vida dos Santos, caro Ínigo? - lhe disse um seu irmão.
- Sim, senhor, acho nela coisas surpreendentes, que ultrapassam tudo o que os cavaleiros imaginários têm empreendido para conquistar um nome glorioso. No primeiro momento, ou fosse por ser privado dos romances que eu desejava, ou por outra razão, este livro pareceu-me insípido. Mas forçando-me o aborrecimento a lê-lo, terminei por achar-lhe. muito interesse.
- Tanto melhor, caro Ínigo, porque esta longa reclusão é dolorosa para uma natureza tão viva como a vossa.
- Sofro menos, meu caro irmão, desde que leio este livro. Contudo, vede: condeno-me a este suplício para não perder a minha influência junto das damas da corte, ao passo que todos estes Santos teriam sofrido tudo isto, e mais ainda, só para agradarem a Deus. Eles ganharam uma eternidade de felicidade em recompensa da sua vida penitente ou do martírio que aceitaram; e eu apenas terei sorrisos de mulheres ou louvores cortesãos como única recompensa! Pergunto a mim mesmo o que me ficará de tudo isso, quando eles e eu tenhamos envelhecido?
- Sempre assim foi o mundo, meu bom Ínigo; o importante, para um fidalgo do vosso nascimento e do vosso valor, não é ser um Santo, como aqueles cuja vida estais lendo, mas portar-vos sempre com honra, e aumentar a glória que já vos mereceu a vossa valente espada.
É precisamente o que eu penso, meu caro irmão. Demais estou na idade dos triunfos, desejo-os, e ser-me-ia impossível sacrificá-los. O meu destino não é imitar estes heróis evangélicos incontestavelmente nunca serei um Santo!
Inácio não acrescentou,-só o confessou mais tarde -que tinha perguntado muitas vezes a si mesmo, ao ler a vida dos Santos, porque não procuraria imitá-los; por que não podia fazer o que os Santos puderam; por que não procuraria, como eles glorificar a Deus na terra, com a esperança de ser um dia participante da sua glória no céu. É verdade que esses bons sentimentos eram imediatamente abafados pelos sonhos de ambição e de vaidade, e que, indo-se-lhe pouco a pouco distendendo a perna, a esperança de não ficar coxo quando saísse do seu quarto o preocupava mais que tudo. Entretanto, lia relia as grandes ações dos Santos, e, querendo conservar a recordação delas, escrevia aquelas que mais o impressionavam. Passado pouco tempo, sentiu-se muito comovido ao entregar-se a esta ocupação, e perguntou de novo a si mesmo:
- Por que não hei-de ter a coragem que tiveram os Santos? Vejo entre eles alguns que eram de estirpe tão boa como a minha; vejo-os até que se sentaram em tronos ou foram oriundos de sangue real... Por que não hei-de eu procurar a única glória que eles ambicionaram? Hoje estão eles em posse duma felicidade que os prazeres e a glória desta vida não podem dar, e têm esta felicidade garantida por toda a eternidade! Esta felicidade eterna conquistaram-na renunciando às grandezas, aos prazeres, às vaidades deste mundo, e calcando-as aos pés, para só viverem da renúncia, da oração e da mortificação... Por que me parece tão estimável o que eles tanto desprezaram?... De que lado está a razão? Onde está a verdade? Eles só procuraram a glória da eternidade; eu ambiciono a do tempo... De que lado está a sabedoria? Onde o verdadeiro e sólido interesse? Tenho trinta anos, sou de nobre raça adornado de todos os dotes que agradam ao mundo. Se a minha perna ficar de novo curta quando a tirar desta máquina, eis-me forçado a afastar-me da corte e dos prazeres. da minha idade! Os meus triunfos estão, pois, dependentes dum movimento de nervos, duma ferida, duma doença, dum incidente que a coisa mais insignificante pode provocar! Eis o que vale a felicidade que o mundo pode oferecer!... Não será uma loucura procurá-la e viver para ela?"
Todas estas reflexões surgiam no espírito de D. Inácio assaltavam-no de dia e de noite e o fatigavam tanto mais quanto mais energicamente eram combatidas pelo respeito humano e pelo atrativo dos prazeres entre os quais tinha vivido até então...
- "Que se dirá na corte - perguntava ele a si mesmo - se eu não reaparecer? Crer-se-á que fiquei defeituoso até ao ridículo e que tenho vergonha de me deixar ver... Ou pensar-se-á que perdi Pamplona por culpa minha... Acusar-me-ão de inabilidade, dirão que me envergonho daquela, derrota e que fugi por cobardia... Se se escrevesse assim a história!..."
A este pensamento, todo o orgulho do nobre Inácio se revoltava; lançava a vista para a sua gloriosa espada suspensa perto do leito, com a qual quisera atravessar no mesmo instante o corpo do historiador desleal ou mal informado.
Prolongando-se esta luta na alma do nosso herói, perguntou um dia a si mesmo se não seria já tempo de pôr termo a ela, tomando uma resolução definitiva.
- "Há evidentemente em mim, - dizia ele - duas vontades opostas; uma, que me impele para o bem, e por ele à felicidade eterna; a outra, que me impele para o mal, e por ele à eterna infelicidade. Quando reflito largamente sobre as vantagens duma vida penitente, como a dos Santos, experimento uma tranquilidade, uma paz de espírito, uma doçura. interior, que são desconhecidas e que o mundo não pode dar-me. Quando, ao contrário, me deixo arrastar pelo pesar e pelo desejo dos prazeres e da glória desta vida, fico com uma perturbação, uma inquietação, uma agitação que se assemelham ao remorso, e me tornam desgraçado. É, pois, loucura hesitar no partido que devo tomar... Farei o que fizeram os Santos!"
Esta importante resolução estava tomada e, com uma natureza de Inácio de Loiola, devia ser executada. Aproxima-se o momento em que ele podia tirar o aparelho da perna e experimentar as suas forças; mas a estação era pouco favorável, o inverno começava a fazer-se sentir e a prudência recomendava que esta resolução fosse adiada por alguns meses.. Entretanto o nosso recluso ocupava-se em ler e reler a vida Nosso Senhor e a dos Santos, e escrevia sempre, mas com muito mais cuidado, os traços que mais o impressionavam. Fez este modo um livro de trezentas páginas, escritas no gosto época, em diversas cores. Empregava a cor de ouro para Nosso Senhor, a vermelha para a Santíssima Virgem e as outras cores para os Santos [9].
Entretanto, Inácio tornara-se um homem novo. Ocupado de Deus e do desejo de lhe agradar, dividia o seu tempo entre santas leituras, a oração, a meditação e a escrita. Procurava trazer à memória todas as faltas da sua vida passada, suspirando pelo momento em que lhe fosse permitido expiá-las pelos jejuns, vigílias, macerações e solidão. A sua família estranhava-o a linguagem, maneiras, assuntos de conversação, mudara nele, e D. Garcia preocupava-se seriamente com isso, Sabia que com um caráter enérgico e perseverante como o de Inácio, tudo o que se tentasse para o afastar do caminho em que ele entrara, encontraria a invencível barreira da sua firmeza. Além disso, Inácio não lhe falava dos seus projetos, nem lhe comunicava as suas impressões, e limitava-se deixar adivinhar que agora era todo de Deus e que o mundo não valia nada para ele.
Aguardando a cura completa, formava planos de vida que acolhia e rejeitava; mas não abandonava a ideia de ir em peregrinação à Palestina. Teve, um momento, o pensamento de se retirar a um mosteiro dos Cartuxos. Chegou a enviar um dos seus servos à Cartuxa de Burgos a pedir informações sobre a regra de S. Bruno, ordenando-lhe que guardasse segredo acerca da missão de que o encarregara. Guardá-lo-ia? É provável que não, e que fosse este servo de Inácio que despertasse as suspeitas de D. Garcia.
Por fim, o nosso ferido readquiriu a liberdade dos movimentos; pôde levantar-se e andar, mas tão longa inação e tão doloroso tratamento haviam-lhe enfraquecido a perna direita. Foi necessário fortificá-la com o ar puro e um exercício moderado. Inácio submeteu-se a este regime, cujo resultado devia secundar os projetos que lhe alimentavam o espírito. Todos os dias dava um pequeno passeio, sem perder o recolhimento; todas as noites se levantava para se entregar à oração por mais tempo e com mais tranquilidade que durante o dia. Gozava consolações tais neste exercício, que o desejo de retiro, de solidão e de mortificação, tornara-se para a sua alma um verdadeiro sofrimento.
Uma noite, sofrendo mais ainda que de ordinário. pela necessidade imperiosa de abandonar tudo por Deus, e estando a sua perna assaz fortificada para lhe permitir a execução dos seus projetos, prostrou-se diante duma imagem da Santíssima Virgem, pediu-lhe que aceitasse o compromisso, que ele tomava a seus pés, de só viver para a glória do seu divino Filho, e jurou-lhe, na sua linguagem de guerreiro, ser sempre fiel à sua bandeira, não servir senão na sua milícia e sob suas ordens, e ser do Filho e da Mãe, na vida e na morte. No mesmo instante, um estrondo, semelhante a uma forte detonação, faz-se ouvir no interior do castelo e o abala até aos alicerces. O abalo foi sentido em todos os cantos da casa, mas não deixou sinais senão no quarto de D. Inácio, mais violentamente atingido, e cujos muros, dalguns pés de espessura, sofreram um abalo tão forte que produziu uma larga fenda, que ainda existe.
Não foi um tremor de terra, porque só o castelo sofreu o abalo; as dependências nada sofreram. Qual a causa deste fenômeno? Procurou-se, mas não se encontrou. Preveria o demônio os temíveis e incessantes golpes que lhe viria a dar a santa Companhia de Jesus, e quereria manifestar a sua raiva impotente contra aquele que Deus tinha escolhido para ser o fundador da mesma? Os historiadores do Santo são dessa opinião.
D. Garcia continuava a preocupar-se com a transformação de Inácio e procurava ocasião de comunicar-lhe os receios que o agitava; esta apresentou-se breve. Inácio, sentindo-se mais forte, deu um passeio a cavalo sem prevenir o irmão, e, quando regressou, encontrou D. Garcia que o esperava na escadaria
- Julgastes, meu irmão, que fosse nosso tio Manrique? - perguntou.
- Não, meu irmão, - respondeu gravemente o chefe da família - sabia que vos tínheis ausentado a cavalo, e quando ouvi o som da buzina corri para ver se os vossos criados entravam sós ou se vos seguiam.
- Fui experimentar as forças, meu caro irmão. É conveniente readquirir o exercício de cavalgar.
À noite os dois conversavam sem testemunhas no quarto de Inácio.
- Confesso, - dizia D. Garcia - que a vossa saída a cavalo me inquietou bastante, em consequência do silêncio, que guardais sobre os vossos projetos. Por que me não prevenistes ?
- É verdade que vô-lo podia ter dito, mas que receais?
- Meu caro Ínigo com toda a franqueza vô-lo digo porque tenho necessidade de expandir. o coração. A vossa mudança é tal que receio tudo. A vossa. imaginação está exaltada com a leitura da vida de Jesus Cristo e dos Santos; renunciastes à corte, à guerra, às honras, à glória, a tudo o que amáveis.
Só viveis para Deus, não comunicais a ninguém os vossos projetos, e, na vossa idade, deveis tê-los certamente. É, pois, de temer que, deixando-vos levar por indiscreto fervor, falais mais do que deveis.
- Espero, caro irmão, não ir mais longe do que devo, - respondeu Inácio; - peço-vos que fiqueis tranquilo a esse respeito.
D. Garcia prolongou a conversa mais alguns momentos, e, vendo que não podia esperar confidência alguma sobre os projetos do irmão, deixou-o, recomendando-lhe que refletisse.
Na noite seguinte, quando Inácio estava em oração, a Santíssima Virgem apareceu-lhe rodeada de brilhante luz, trazendo Jesus Menino nos braços. Não lhe falou; mas a sua celestial presença inundou-lhe a alma de inefável consolação, e pareceu-lhe que a graça o purificava inteiramente, que tudo nele fora renovado. A partir daquele momento, ficou livre de toda a tentação, de todo o pensamento contrário à virtude da pureza.
O nosso Santo tinha experimentado as forças: prolongando a sua estada sob o teto da família, expunha-se a novas observações, a novas tentativas da parte do irmão para o afastar de seguir a voz que o chamava. Era, pois, urgente apressar a partida. Dois dias depois deu as necessárias ordens, e, entrando nos aposentos de D. Garcia, disse-lhe:
- Meu querido irmão, o tempo é favorável e vou aproveitá-lo para ir ver meu tio Manrique; estarei ausente alguns dias...
- Ínigo, - exclamou D. Garcia - enganais-me!
- Não, senhor, digo-vos a verdade, vou a Navarrete.
-Sim, mas de lá aonde ireis? Conheço-vos, Ínigo, e estou certo que há muito tempo alimentais um projeto de futuro, que não pode ser agradável à vossa família. Não posso afastar-vos dele, porque sei como sois firme nas resoluções tomadas. Mas, por Deus! não me direis nada? Afastais-vos dum irmão que vos ama sem lhe dizer aonde ides e o que fareis? Receio que a imaginação vos tenha iludido. Quereis viver longe do mundo, bem o sei. Mas não podeis estar aqui só e tão retirado como um solitário, ficando conosco? Deus não estará em toda a parte? Não consultastes ninguém; cedeis a um impulso de fervor inspirado pelo exemplo dos Santos; bem está. Todavia deveis ter em consideração também a honra da vossa família. Ides abraçar a pobreza evangélica e estender a mão aos viandantes?
Inácio não respondeu.
- Se me engano, - acrescentou D. Garcia - por que me não desenganais e tranquilizais?
O mesmo silêncio da parte de Inácio. Seu irmão continuou:
- Nada posso para vos fazer mudar de resolução, mas ao menos, meu irmão, meu caro irmão, se não voltardes de Navarrete, se vos afastardes de nós, como receio, prometei-me, a mim vosso irmão mais velho, que nunca desonrareis o nobre nome que usais! Prometei-me que em qualquer lugar em que vos acheis, não esquecereis o sangue que corre nas vossas veias, e que nunca adotareis um modo de viver que nos faça corar! Enfim, prometei-me que nunca vos tornareis indigno dos nossos gloriosos antepassados.
Prometo-vô-lo, meu irmão; não tenho e espero nunca ter a intenção de faltar à honra. Disse-vos a verdade. Vou a Navarrete fazer uma visita dalguns dias a meu tio Duque de Nájera que veio ver-me durante a doença, e a quem devo este testemunho de reconhecimento e de afeição.
- Estais assaz vigoroso para empreender tão longa viagem através das montanhas?
- Sim, senhor, estou certo que posso efetuá-la, a não ser que um incidente, que ninguém pode prever, mo impeça e pararei em Biscate para ver minha irmã.
- Pois bem, acompanhar-vos-ei até casa dela e em seguida deixar-vos-ei para irdes com os vossos criados a casa do tio Manrique.
No dia seguinte, os dois irmãos partiram a cavalo, seguidos dos seus escudeiros e criados, e só se separaram em Onate, como fora combinado. As despedidas fizeram-se à noite porque Inácio devia partir de madrugada. Mas quando todos estavam deitados o nosso herói, que tinha tomado todas as precauções, dirigiu-se à igreja de Nossa Senhora de Arancuza e ali passou a noite. Ao romper do dia montou a cavalo, e, seguido de dois criados, dirigiu-se para Navarrete.
Abandonando para sempre a opulenta casa dos pais, não levara mais nada que os seus manuscritos; não tomara sequer a bolsa. Chegado a casa de seu tio, recorda-se que tem algumas dividas e quer solvê-las; em casa de seu tio Manrique devem-lhe uma certa quantia, que ele reclama, encarrega o seu escudeiro de pagar as dívidas, e, julgando-se rico com o que lhe resta, manda fazer uma imagem da Santíssima Virgem, que trará sempre consigo; porque ela será agora a sua única Senhora.

27 de julho de 2021

Santo Inácio de Loyola - Fundador da Companhia de Jesus

III. CONVALESCENÇA DOLOROSA

A morte tinha passado pela casa de Loiola: D. Beltrão de Yáñez deixara de existir. D. Martim Garcia, seu primogênito tornara-se chefe da família, abandonara a corte e o serviço no exército, casara-se e vivia retirado no lato do Loiola. Desde a tomada de Pamplona, enviava todos dias um mensageiro a informar-se de Inácio, sabia que o jovem herói lhe seria entregue logo que os homens da ciência julgassem em estado de ser transportado e contava impacientemente os dias.
Inácio chegou enfim. Os médicos, que o esperavam no castelo declararam, depois de lhe terem examinado cuidadosamente a perna direita, da qual sofria muito, que ela fora mal curada.
- Deixando-a assim, - acrescentaram eles - o Sr. comandante sofrerá sempre dela e ficará defeituoso - E que é necessário fazer para evitar essa desgraça? - perguntou Inácio.
- É necessário quebrar o calo já formado, quebrar a perna de novo, unir as partes do osso e depois aplicar o aparelho.
- Pois bem, - respondeu o valente guerreiro - quebrem-na já; não quero ficar disforme.
Meteram mãos à obra. Inácio suportou esta longa e dolorosa operação sem deixar escapar uma só queixa; mas no dia seguinte sobrevieram-lhe uma febre ardente e sofrimentos do estômago que nada pôde acalmar. A doença fez progressos alarmantes; Inácio compreendeu-o.
- Doutor, - disse ele ao médico - sinto-me muito mal, quero morrer como fidalgo cristão; que pensa do meu estado?
- Senhor... Penso que na idade de V. Ex.a deve sempre esperar-se a cura.
O doente não interrogou mais o doutor e preparou-se para a morte. No dia 28 de junho, D. Garcia, aterrado com o enfraquecimento de seu irmão, comunicou ao médico as suas apreensões
- Ah! senhor, - lhe respondeu o doutor - é infelizmente verdade que não tenho esperança alguma!... A não sobrevir uma crise favorável, o que não espero, o Sr. comandante não passará da noite próxima.
- Hoje é a véspera dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, - replicou D. Garcia enxugando as lágrimas, que, a seu pesar, lhe banhavam as faces; - oremos para que nô-lo conservem! D. Ínigo compôs, no ano passado, um poema em honra de S. Pedro. Quem sabe se o príncipe dos Apóstolos lhe será propício em recordação desta homenagem?
Inácio também sentia a morte aproximar-se; pediu e recebeu os últimos sacramentos na tarde desse mesmo dia, no meio das lágrimas e dos soluços de sua família e das pessoas que o estimavam. Pela meia-noite, adormeceu placidamente, com grande admiração daqueles que esperavam o seu derradeiro suspiro, e viu em sonho o Apóstolo S. Pedro colocar a sua mão sobre ele e curá-lo. Quando despertou, todo o perigo tinha desaparecido; poucos dias depois, a saúde e as forças voltaram-lhe. Levantou-se o aparelho da perna esquerda... Viu-se então que as partes do osso partido se tinham deslocado, estavam disjuntas, uma sobre a outra, formavam uma saliência, os nervos se tinham estendido a todo o comprimento do membro, e, enfim, essa perna ficara mais curta que a outra. Tal descoberta consternou todos os corações.
O belo Inácio de Loiola, um dos senhores da corte considerados como mais elegantes, aquele cujas homenagens eram mais graciosamente acolhidas pelas damas da rainha e pelas próprias princesas; esse brilhante cortesão, tão elogiado e tão procurado, era, agora apenas um homem disforme e coxo.
Inácio, depois de tantos triunfos, não pôde aceitar esta disformidade antes de tentar todos os meios para a fazer desaparecer:
- Não quero esta saliência acima do joelho, disse aos cirurgiões. Que espécie de bota poderia eu calçar assim? Não quero. Façam uma abertura suficiente para pôr o osso a descoberto e arranquem toda a protuberância.
- Senhor, - responderam os cirurgiões - V. Ex.a não pode suportar tais sofrimentos. Seria necessário serrar o osso!
-Pois bem, serre-se!
Mas, senhor, todos os sofrimentos que V. Ex.a sofreu nas operações precedentes, não são nada em comparação desses.
- Isso é comigo; convosco é tirar-me este aleijão.
Inácio pronunciou estas últimas palavras num tom tão imperativo que os médicos não ousaram replicar. E acrescentou:
- Mandem fazer uma máquina que possa forçar este membro encolhido a retomar o seu comprimento natural; não quero ficar coxo.
- Senhor, admiro a coragem de V. Ex.a - disse-lhe o seu médico ; - porque o que me pede é um instrumento de martírio, é um suplício real! Por Deus, reflita V. Ex.a...
- Custe o que custar, não quero ficar disforme nem enfermo. Tome as suas medidas; quanto a mim, estou pronto.
D. Garcia advertido pelos cirurgiões da resolução de Inácio, procurou, mas em vão, fazê-lo mudar de parecer:
- Meu senhor e irmão, - lhe respondeu energicamente o jovem cortesão - permita-me que lhe diga, com todo o respeito devido ao chefe da casa, que não é aos trinta anos que se renuncia facilmente à corte, à guerra, a tudo o que constitui o prazer e a glória da vida.
- Podeis viver feliz conosco, meu caro Ínigo.
- Na minha idade? Não, senhor; tenho apego aos hábitos que tomei. Ainda que as torturas com que me ameaçam fossem mil vezes mais dolorosas, não hesitaria em submeter-me a elas. Que é a dor comparada com todas estas desvantagens?
Foram forçados a ceder. Estando feitos todos os preparativos, quiseram ligar o paciente para operar aquela perna, cuja saliência devia desaparecer.
- Ligar-me? - exclamou o corajoso guerreiro - ligar-me como um louco ou uma criança? Não, não, fiquem tranquilos; não me mexerei.
No momento de fazer a primeira incisão, o operador empalideceu, porque sabia o que Inácio ia sofrer.
- Coragem, doutor! - lhe disse o nosso herói; faça de conta que está a operar um cadáver.
A operação foi longa e é fácil compreender quanto seria dolorosa. Inácio não soltou um só grito, não se queixou, não empalideceu!
- Que admirável coragem! - disse-lhe seu irmão quando tudo estava terminado; - vistes serrar esse osso como se ele fosse de outra pessoa. Pergunto a mim mesmo se eu não sofri mais que vós.
- Tenho tanto empenho em não ficar defeituoso! respondeu-lhe. Como poderia, sem fazer a operação, trazer as botas que são de uso na corte? Era necessário fazer este sacrifício à elegância.
Curado desta operação, e tendo a chaga cicatrizada, entregou-se ao suplício da máquina de ferro, destinada a distender-lhe a perna; devia ser torturado daquele modo durante alguns meses, sem outra ocupação que a dos seus sofrimentos e sem outra distração que as conversas da família. Inácio pensava nos prazeres da corte e sonhava com a sua princesa, pela qual, sobretudo, ele se impunha dores tão cruéis; ao menos queria persuadir-se disso, e pensava em descrever-lhe em versos pomposos tudo o que tinha sofrido para evitar a desgraça de lhe desagradar. Todavia, devemos confessá-lo, Inácio temia mais ainda a desgraça de não tornar a ser um objeto de preferência na corte, e de deixar de ser apontado pela sua elegância e porte, bem como pela sua beleza.
O tempo corria e o aborrecimento apoderava-se dele apesar dos sonhos da sua imaginação. Os romances de cavalaria, então muito em voga em Espanha, pareceram-lhe dever preencher o vácuo que se fazia sentir nas suas longas horas de isolamento e de reclusão. Divertiam-no as imaginárias aventuras de cavaleiros andantes e as suas impossíveis proezas. Esta ideia agrada-lhe; ordena que lhe tragam um desses romances. Depois de alguns instantes, o seu criado de quarto volta: -Senhor aqui está tudo o que pude encontrar. Como! Peço-te um romance e trazes-me livros de devoção? Estás doido?
- Senhor, não há outros.
- Vai do meu mando pedir a D. Garcia romances de cavalaria.
-Já fui, Senhor; D. Garcia não tem romances; S. Ex.a não tem outros livros senão estes.
Estes livros eram: a Vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo frade Ludolfo, e a Flor dos Santos, ambos em língua castelhana.
- Pois bem, - disse o jovem mundano - deixa-me esses livros.
Sobrevém-lhe o tédio e o espírito de Inácio tem necessidade de alimento; à falta de melhor, aceita a leitura que, por certo, não teria escolhido.
- Ah!- dizia ele muitas vezes desde que estava de cama -, S. Pedro curou-me miraculosamente, não me resta a menor dúvida, a ele devo a vida; mas porque me deixaria coxo? Porque me obrigaria a sofrer um tratamento que me retém tanto tempo nesta imobilidade? Não compreendo! De que serviria a vida, se eu não encontrasse de novo as minhas regalias pessoais?... Antes a morte...
Assim raciocinava o homem da corte, vaidoso da sua pessoa, soberbo dos seus triunfos na sociedade, orgulhoso por natureza, ardente e generoso pelo coração, dotado das mais brilhantes faculdades, e pregado, pela vontade divina, no leito de dor, onde julgava não estar preso senão pela vontade própria, com o único fim de satisfazer a vaidade.

26 de julho de 2021

Santo Inácio de Loyola - Fundador da Companhia de Jesus

II. NO CAMPO DE BATALHA

Aceitando o cargo que o vice-rei impusera à sua honra, o nobre Inácio de Loiola praticou um ato heroico de dedicação à Espanha e ao seu soberano.
A Navarra, sempre independente, e governada pelos seus reis hereditários havia setecentos anos, tinha sido conquistada por Fernando, o Católico, em 1512, e era então uma província espanhola. Os navarros, sofrendo com pesar a humilhante posição em que se achavam, lançavam frequentes vezes os olhos para além dos Pirenéus, e chamavam com todos os seus votos Henrique de Albret, filho e herdeiro de D. João III, que Fernando tinha destronado e espoliado pelo direito da força. Além disso, o restabelecimento da monarquia navarra e a restituição deste reino ao seu legítimo soberano tinham-lhes sido solenemente garantidos pelo tratado de Noyorl, e Carlos V havia faltado à promessa. Nestas condições o nosso herói poderia esperar que a guarnição, quase inteiramente composta de soldados e oficiais navarros, o secundaria um só instante ao primeiro ataque dos franceses? Poderia contar também com as tropas que D. Antônio Manrique fora buscar? E não seria para recear que todas as populações fossem com alegria ao encontro dos franceses e os acolhessem como libertadores?
Inácio de Loiola, via, com um só volvei de olhos, todas as dificuldades, todos os perigos da situação. Sabia que em caso de ataque antes da chegada do vice-rei, seria impossível vencer; mas sabia também que lhe seria possível morrer combatendo, e tinha aceitado a morte, prometendo vender caro a vida.
Os navarros receberam efetivamente com satisfação o exército que se apresentava em nome de Henrique de Albret; em todo o caminho, a marcha dos franceses não encontrou obstáculos e parecia um triunfo. No dia 8 de Maio, véspera Pentecostes, cercaram Pamplona, que não tinha ainda recebido nenhum reforço e o não podia esperar antes de alguns dias.
As autoridades civis pediram ao comandante da praça que se rendesse e não tentasse nenhuma resistência, porque não tinha força suficiente para defender a cidade contra um exército tão numeroso. Os oficiais da guarnição uniram-se aos habitantes da cidade e todos a uma voz pediram a rendição da praça nas condições impostas pelo chefe do exército francês [6]:
- O vice-rei não pode estar de volta antes da tomada da praça, - diziam os antigos capitães; para que servirá o sangue espalhado numa defesa impossível?
- Henrique de Albret é nosso rei legítimo, - exclamava o povo. Não queremos defesa! Abramos as portas ao conde de Esparra!
- Viva Henrique de Albret! - exclamavam os soldados navarros. Viva o rei de Navarra! Viva o exército francês!
O governador da cidadela propõe também a evacuação imediata. Inácio de Loiola é o único de opinião contrária; só ele se opõe, em nome da honra, em nome do soberano, a entregar a praça ao inimigo. Fala ao povo e aos soldados; censura aos oficiais a sua fraqueza e quer fazer-lhes compreender que podem esperar da severidade do vice-rei e da indignação de Carlos V. Vãos esforços! Aquela voz amada parece desconhecida de todos; glacial silêncio responde ao seu entusiástico apelo; ninguém se quer opor à entrada dos franceses, a o nobre Inácio tem a dor de ver abrirem-se para os soldados franceses as portas da praça, que ele se comprometera a defender ate à morte.
Retira-se então para a cidadela; é ali que esperará o inimigo e lhe provará que há, pelo menos, um homem de coração na guarnição desta fortaleza. Mas o governador quer parlamentar e vai descer à cidade com os seus mais antigos oficiais. Inácio teme as condições do vencedor; quer conhecê-las e acompanha os oficiais. André de Foix propõe uma capitulação vergonhosa, que o governador está disposto a assinar. Inácio encara altivamente os dois, e, dirigindo-se aos oficiais que estavam a distância
- Senhores,- disse - se me deixarem só na defesa da cidadela, defendê-la-ei até à última gota do meu sangue! A história não dirá à posteridade que entrego a minha espada antes de a tirar da bainha. Quem de vós me seguirá neste caminho da honra?
- Eu ! eu ! meu valente comandante! - exclamaram ao mesmo tempo alguns valorosos oficiais.
- Pois bem! - replicou o nosso herói -não capitulemos! Subamos à cidadela e saibamos morrer como valentes! Viva o imperador Carlos V!
- Viva o imperador! - repetiram os oficiais e soldados de Inácio. Viva o nosso valente comandante!
D. Inácio de Loiola, seguido dos seus poucos companheiros, encerrou-se na fortaleza e esperou o inimigo. Não tem ali sacerdote algum: pede a um fidalgo, seu irmão de armas, que ouça a sua confissão, e confessa os seus pecados àquele guerreiro com verdadeiro sentimento de humildade, porque sabe que pode estar morto daí a algumas horas [7].
No dia seguinte, 20 de Maio, segunda-feira de Pentecostes, ao romper do dia, os franceses começam o ataque.
O valente Inácio está nas trincheiras, e, com a palavra e com o exemplo, anima os seus, que se defendem com igual ardor. Os inimigos sobem ao assalto; Inácio repéle-os à medida que se apresentam. A artilharia francesa troa formidavelmente, mas a coragem de Inácio não se quebranta; os inimigos continuam a cair sob os seus golpes e enchem o fosso com os seus cadáveres.
Os chefes do exército francês admiram a valentia e habilidade do jovem oficial, que só por si vale uma companhia de velhos guerreiros, e sentem que ele não seja dos seus.
Entretanto, a artilharia redobra as suas espantosas descargas contra o bastião defendido pelo nosso herói. É abatido um lanço da muralha, uma lasca de pedra fere Inácio na perna esquerda, e ao mesmo tempo uma bala de canhão, lançada contra a muralha oposta, ricocheteia e quebra-lhe a perna direita. O valente Inácio cai gloriosamente no meio dos seus soldados. Estes, desanimados com a perda do seu chefe, depõem as armas e entregam a fortaleza aos vencedores [8].
Inácio transportado ao quartel general dos franceses, é ali tratado como herói, prodigalizando-lhe todos os maiores cuidados. O conde de Esparra manda pedir-lhe a honra de lhe apertar a mão e de o felicitar pelo seu nobre procedimento e altos feitos; D. Inácio recebe-o. Mas vendo-o, diz-lhe:
Senhor, deixaram-me a espada e contudo eu sou vosso prisioneiro.
- Um oficial do merecimento de V. Ex.a nunca é vencido - lhe respondeu André de Foix; V. Ex.a é livre e não ficará junto de nós senão o tempo indispensável para curar as suas gloriosas feridas. Entretanto, aceite a minha amizade e honre-me com a sua.
- Da melhor vontade, senhor, - lhe disse o nobre ferido apertando-lhe a mão; - e visto que a sua generosidade me trata como irmão de armas e não como prisioneiro, permita-me que lhe exprima um desejo.
- Fale, senhor; dou-lhe a minha palavra de honra de que o que eu puder fazer para ser-lhe agradável, o farei.
- O vice-rei de Navarra é meu parente e meu segundo pai, - disse Inácio. Ele marcha sobre Pamplona com o exército destinado a repelir-vos; peço-vos que lhe envieis um dos seus oficiais a informá-lo de que o serdes vós senhor da praça e da fortaleza é sinal de que eu caí como homem de honra.
- Como herói! - acrescentou o conde abraçando cordialmente o seu novo amigo.
Alguns dias depois, tendo os cirurgiões declarado que Inácio podia ser transportado sem perigo, André de Foix disse-lhe
- Chegou o momento de nos separarmos, com grande pesar meu; mas V. Ex.a será melhor e mais agradavelmente tratado no seio da família. Mandei preparar uma boa liteira; os soldados de V. Ex.a o conduzirão e escoltarão; a sua gente segue-o; todos aqueles que lhe pertencem são livres. Confesso que esta separação me é penosa e faço votos para que as nossas espadas não mais tenham que cruzar-se.
- Desejo-o tanto como vós, - lhe respondeu o nosso herói; mas se os nossos soberanos, a quem Deus guarde, se puseram em frente um do outro, não ouvirei, juro-vô-lo, outra voz senão a da honra e do dever!
- E isso é digno de V. Ex:a! E eu também espero ser fiel à divisa do rei de França: "Faze o que deves, suceda o que suceder".
- Salvo a honra, caro conde, para a vida e para a morte !
Os dois cavaleiros abraçaram-se, e Inácio foi colocado alguns instantes depois numa liteira e levado ao castelo de Loiola, pouco distante de Pamplona.