13 de fevereiro de 2019
12 de fevereiro de 2019
Tesouro de Exemplos - Parte 600
A LENDA DE DOIS CAVALEIROS
No condado de L. houve um jovem cavaleiro de nobre linhagem. Em torneios e outras vaidades do mundo, esbanjara todo o seu patrimônio e ficara reduzido à miséria. Não podendo apresentar-se com os outros cavaleiros, como costumava, caiu em tanta tristeza e melancolia, que estava para desesperar. Vendo isso um seu feitor, confortou-o e disse-lhe que, se quisesse seguir o seu conselho, o faria rico e voltaria ao seu honroso estado anterior. O jovem respondeu que sim. O feitor conduziu-o, uma noite, a um espesso bosque e fazendo sua arte de necromancia, pela qual costumava evocar o demônio, imediatamente surgiu ali o espírito mau e perguntou-lhe o que desejava. Respondeu-lhe o feitor que trouxera ali aquele nobre cavaleiro para que o demônio o restituísse ao antigo estado, dando-lhe riquezas e honras. Disse-lhe o demônio que estava pronto a fazer tudo, contanto que, antes, o cavaleiro renegasse a Jesus Cristo e a sua fé. Mas isso o cavaleiro respondeu que não faria. Fala o feitor: Não quereis então reaver as riquezas e o estado que já tivestes? Por que, então, me destes tanto incômodo?
Vendo o cavaleiro que, para ser rico como antes, não havia outro remédio, deixou-se vencer e consentiu na proposta do feitor, intermediário do demônio. Embora contra a vontade, com grande temor, renegou a Cristo e a sua fé. Feito isso, o diabo disse: É preciso que ele renegue ainda a Mãe de Deus, e terá imediatamente tudo o que deseja. O cavaleiro respondeu que jamais faria isso, voltou as costas ao demônio, e retirou-se.
Ia andando pela estrada e considerando seu enorme pecado de ter renegado o Senhor Deus. Arrependido e contrito, entrou numa igreja onde havia uma imagem da Virgem Maria com o Filho no braço. Diante dela ajoelhou-se devotamente. Entre soluços e lágrimas, pediu misericórdia e perdão de sua grande queda.
Ora, aconteceu que naquele momento outro cavaleiro, o que tinha comprado as propriedades do primeiro, entrou também na igreja; e vendo o cavaleiro orar com tanta devoção e com tantas lágrimas diante da sagrada Imagem, muito se admirou e, escondendo-se atrás de uma coluna, ficou a observar o que acontecia. Estando, pois, os dois cavaleiros nos seus lugares, a Virgem Maria pela boca de sua imagem estava a falar, mas assim que cada um a ouvia claramente. Ela dizia a seu Filho: — Dulcíssimo Filho, peço-te que uses de misericórdia com este cavaleiro. Mas, como o Filho não lhe respondia nada e desviava dela o olhar, a benigna Mãe de novo implorou, dizendo que aquele cavaleiro fôra enganado. Disse-lhe então o Filho: — Aquele pelo qual tanto imploras, renegou-me — que devo agora fazer? A estas palavras a Imagem de repente se pôs em pé e, colocando o Filhinho sobre o altar, ajoelhou-se diante dele e disse: — Meu dulcíssimo Filho, peço-te que por meu amor perdoes aquele cavaleiro que se arrependeu verdadeiramente de seu pecado. Ouvindo esta súplica o Filho tomou a Mãe pela mão e, levantando-a, disse: — Mãe caríssima, não posso negar-te coisa alguma que me pedes: por amor de ti perdôo ao cavaleiro o seu pecado. Retomando o Filho nos braços e tornando a sentar-se, o cavaleiro, seguro de ter sido perdoado, levantou-se, arrependido e triste por causa do pecado cometido, mas alegre e consolado com o perdão alcançado.
Quando saiu da igreja, o outro cavaleiro, que, postado atrás da coluna, vira e ouvira tudo, aproximou-se dele, saudou-o e perguntou-lhe por que tinha os olhos molhados de lágrimas. Respondeu-lhe o cavaleiro que era por causa do vento. Sim — disse o primeiro — mas eu vi tudo que se fez e se disse. Por. isso, e por causa daquela que te impetrou a graça que recebeste, quero ajudar-te. Tenho uma filha única, que te darei por esposa, se te apraz; e todas as minhas grandes e ricas propriedades, que comprei de ti mesmo, te serão restituídas a título de dote: com isso entendo tomar-te por filho e fazer-te herdeiro de todos os meus bens, que são muitos.
Ouvindo isto, o jovem cavaleiro aceitou com alegria a proposta; e, quando viu tudo realizado, não cessou de dar graças à Virgem Santíssima, a quem reconhecia dever as graças tão abundantes que recebera.
Vendo o cavaleiro que, para ser rico como antes, não havia outro remédio, deixou-se vencer e consentiu na proposta do feitor, intermediário do demônio. Embora contra a vontade, com grande temor, renegou a Cristo e a sua fé. Feito isso, o diabo disse: É preciso que ele renegue ainda a Mãe de Deus, e terá imediatamente tudo o que deseja. O cavaleiro respondeu que jamais faria isso, voltou as costas ao demônio, e retirou-se.
Ia andando pela estrada e considerando seu enorme pecado de ter renegado o Senhor Deus. Arrependido e contrito, entrou numa igreja onde havia uma imagem da Virgem Maria com o Filho no braço. Diante dela ajoelhou-se devotamente. Entre soluços e lágrimas, pediu misericórdia e perdão de sua grande queda.
Ora, aconteceu que naquele momento outro cavaleiro, o que tinha comprado as propriedades do primeiro, entrou também na igreja; e vendo o cavaleiro orar com tanta devoção e com tantas lágrimas diante da sagrada Imagem, muito se admirou e, escondendo-se atrás de uma coluna, ficou a observar o que acontecia. Estando, pois, os dois cavaleiros nos seus lugares, a Virgem Maria pela boca de sua imagem estava a falar, mas assim que cada um a ouvia claramente. Ela dizia a seu Filho: — Dulcíssimo Filho, peço-te que uses de misericórdia com este cavaleiro. Mas, como o Filho não lhe respondia nada e desviava dela o olhar, a benigna Mãe de novo implorou, dizendo que aquele cavaleiro fôra enganado. Disse-lhe então o Filho: — Aquele pelo qual tanto imploras, renegou-me — que devo agora fazer? A estas palavras a Imagem de repente se pôs em pé e, colocando o Filhinho sobre o altar, ajoelhou-se diante dele e disse: — Meu dulcíssimo Filho, peço-te que por meu amor perdoes aquele cavaleiro que se arrependeu verdadeiramente de seu pecado. Ouvindo esta súplica o Filho tomou a Mãe pela mão e, levantando-a, disse: — Mãe caríssima, não posso negar-te coisa alguma que me pedes: por amor de ti perdôo ao cavaleiro o seu pecado. Retomando o Filho nos braços e tornando a sentar-se, o cavaleiro, seguro de ter sido perdoado, levantou-se, arrependido e triste por causa do pecado cometido, mas alegre e consolado com o perdão alcançado.
Quando saiu da igreja, o outro cavaleiro, que, postado atrás da coluna, vira e ouvira tudo, aproximou-se dele, saudou-o e perguntou-lhe por que tinha os olhos molhados de lágrimas. Respondeu-lhe o cavaleiro que era por causa do vento. Sim — disse o primeiro — mas eu vi tudo que se fez e se disse. Por. isso, e por causa daquela que te impetrou a graça que recebeste, quero ajudar-te. Tenho uma filha única, que te darei por esposa, se te apraz; e todas as minhas grandes e ricas propriedades, que comprei de ti mesmo, te serão restituídas a título de dote: com isso entendo tomar-te por filho e fazer-te herdeiro de todos os meus bens, que são muitos.
Ouvindo isto, o jovem cavaleiro aceitou com alegria a proposta; e, quando viu tudo realizado, não cessou de dar graças à Virgem Santíssima, a quem reconhecia dever as graças tão abundantes que recebera.
11 de fevereiro de 2019
Tesouro de Exemplos - Parte 599
A ENTRADA DE S. PEDRO EM ROMA
Sob o reinado de Cláudio, no ano 42 de nossa era, um peregrino, coberto de pó e extenuado da longa caminhada, entrava em Roma pela porta Naval. Um filósofo romano, amigo de novidades, impressionado com o traje e os modos do estrangeiro, travou com ele o seguinte diálogo:
— Estrangeiro, de onde vens? Qual é o teu país?
— Venho do Oriente e pertenço a uma raça que vós detestais e expulsais de Roma. Meus compatriotas estão amontoados da outra banda do Tibre. Sou judeu nascido em Betsaida da Galiléia.
— Que é que te traz a Roma?
— Venho destruir o culto dos deuses que vós adorais, e fazer-vos conhecer o único Deus verdadeiro que não conheceis. Venho estabelecer uma religião nova, a única verdadeira, a única divina.
— Isto me parece coisa singular: estabelecer uma religião nova! A empresa é grande. Mas qual é esse Deus desconhecido, de que falas?
È o Deus que criou o céu e a terra. Um só Deus em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Deus Pai enviou ao mundo seu único Filho, Jesus Cristo, que se fez homem sem deixar de ser Deus. Foi um pobre carpinteiro de aldeia, ao qual os inimigos suspenderam numa cruz em Jerusalém. É o Deus a quem todo o universo deve adorar.
— Por Júpiter! Tu deliras! Queres derrubar os altares de nossos deuses, que deram aos romanos o império do mundo, para fazeres adorar em lugar, deles a um Deus crucificado! Pode imaginar-se coisa mais absurda e mais ímpia?
— Não, não deliro. -Dentro em pouco vossos templos serão um montão de ruínas e, em Roma, não haverá mais que um só Deus: o Crucificado de Jerusalém.
— E que é que vens anunciar-nos da parte de um Deus tão estranho?
— A religião que prego parece ao homem uma loucura; obriga a inteligência a crer mistérios insondáveis; e o coração a domar paixões. Condena os vícios que têm templos nesta cidade e impõe a prática das mais difícéis virtudes: a humildade, a castidade, a caridade, a abnegação.
— E que prometes ao sequazes de tua religião?
— Aqui na terra terão que suportar, lutas, privações, sofrimentos; devem estar decididos a antes sacrificar tudo que apostatar da fé. E no céu terão a recompensa.
— Se os romanos renunciarem às delícias da vida para abraçarem essa religião tão austera; se trocarem os bens presentes pelos que lhes prometes sobre as nuvens, eu te considerarei um Deus.
— Por mim não sou nada, mas aquele que me envia é misericordioso. Venho em seu nome ensinar as nações.
— Deuses imortais! Jamais homem algum sonhou com semelhante projeto: estabelecer uma religião de tal natureza em Roma, no centro da civilização e das luzes! Queres fazer adorar a um galileu! crucificado! Que loucura! Quem és tu para sonhares com tais empresas?
— Vês ali na praia aqueles pescadores? Aquele é o meu oficio. Para ganhar o pão remendei redes e pesquei nos lagos de minha terra...
— Mas de que meios dispões para impor ao mundo tuas ideias. Tens, porventura, soldados mais numerosos e mais valentes que os de César?
— Nós somos apenas doze, espalhados por todos os povos e Ele nos envia como ovelhas para o meio dos lobos. Não tenho outra arma senão esta cruz de madeira.
— Possuis acaso imensos tesouros para reunir, discípulos?
— Não tenho nem ouro nem prata; não tenho mais que esta túnica que me cobre.
— Neste caso confias em tua eloquência... Dize-me: Quanto tempo estudaste com os retóricos de Atenas ou de Alexandria a arte de persuadir os homens?
— Ignoro essas coisas. Não frequentei outra escola que a do carpinteiro, meu mestre e senhor, e não sei nada fora da santa Religião que Ele me ensinou.
— Mas esperas que os imperadores, os magistrados, os governadores de províncias, os ricos e os sábios patrocinem a tua empresa?
— Não; toda a minha esperança está em Deus. Como poderia contar com os ricos, com os sábios, com os Césares? Ordeno aos ricos que desprezem as riquezas; aos sábios, que submetam sua razão ao jugo da fé; ao César, que abdique sua dignidade de grande Pontífice, e acate as ordens daquele que me envia.
— Sendo assim, é fácil prever que tudo estará contra ti. E que pretendes fazer então?
— Morrer numa cruz; meu divino Mestre mo predisse.
— Realmente, isso é o mais provável de tudo que me acabas de dizer. Morrerás numa cruz e, contigo, a tua loucura! Adeus!...
O romano vai repetindo pelo caminho: Pobre louco!
Pedro beija sua cruz de madeira e entra em Roma. Um dia, morre numa cruz como era fácil prever... Mas o mundo conhece a Cristo, o soberano do universo que coloca em Roma, na Roma eterna, a sede de seu império.
— Estrangeiro, de onde vens? Qual é o teu país?
— Venho do Oriente e pertenço a uma raça que vós detestais e expulsais de Roma. Meus compatriotas estão amontoados da outra banda do Tibre. Sou judeu nascido em Betsaida da Galiléia.
— Que é que te traz a Roma?
— Venho destruir o culto dos deuses que vós adorais, e fazer-vos conhecer o único Deus verdadeiro que não conheceis. Venho estabelecer uma religião nova, a única verdadeira, a única divina.
— Isto me parece coisa singular: estabelecer uma religião nova! A empresa é grande. Mas qual é esse Deus desconhecido, de que falas?
È o Deus que criou o céu e a terra. Um só Deus em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Deus Pai enviou ao mundo seu único Filho, Jesus Cristo, que se fez homem sem deixar de ser Deus. Foi um pobre carpinteiro de aldeia, ao qual os inimigos suspenderam numa cruz em Jerusalém. É o Deus a quem todo o universo deve adorar.
— Por Júpiter! Tu deliras! Queres derrubar os altares de nossos deuses, que deram aos romanos o império do mundo, para fazeres adorar em lugar, deles a um Deus crucificado! Pode imaginar-se coisa mais absurda e mais ímpia?
— Não, não deliro. -Dentro em pouco vossos templos serão um montão de ruínas e, em Roma, não haverá mais que um só Deus: o Crucificado de Jerusalém.
— E que é que vens anunciar-nos da parte de um Deus tão estranho?
— A religião que prego parece ao homem uma loucura; obriga a inteligência a crer mistérios insondáveis; e o coração a domar paixões. Condena os vícios que têm templos nesta cidade e impõe a prática das mais difícéis virtudes: a humildade, a castidade, a caridade, a abnegação.
— E que prometes ao sequazes de tua religião?
— Aqui na terra terão que suportar, lutas, privações, sofrimentos; devem estar decididos a antes sacrificar tudo que apostatar da fé. E no céu terão a recompensa.
— Se os romanos renunciarem às delícias da vida para abraçarem essa religião tão austera; se trocarem os bens presentes pelos que lhes prometes sobre as nuvens, eu te considerarei um Deus.
— Por mim não sou nada, mas aquele que me envia é misericordioso. Venho em seu nome ensinar as nações.
— Deuses imortais! Jamais homem algum sonhou com semelhante projeto: estabelecer uma religião de tal natureza em Roma, no centro da civilização e das luzes! Queres fazer adorar a um galileu! crucificado! Que loucura! Quem és tu para sonhares com tais empresas?
— Vês ali na praia aqueles pescadores? Aquele é o meu oficio. Para ganhar o pão remendei redes e pesquei nos lagos de minha terra...
— Mas de que meios dispões para impor ao mundo tuas ideias. Tens, porventura, soldados mais numerosos e mais valentes que os de César?
— Nós somos apenas doze, espalhados por todos os povos e Ele nos envia como ovelhas para o meio dos lobos. Não tenho outra arma senão esta cruz de madeira.
— Possuis acaso imensos tesouros para reunir, discípulos?
— Não tenho nem ouro nem prata; não tenho mais que esta túnica que me cobre.
— Neste caso confias em tua eloquência... Dize-me: Quanto tempo estudaste com os retóricos de Atenas ou de Alexandria a arte de persuadir os homens?
— Ignoro essas coisas. Não frequentei outra escola que a do carpinteiro, meu mestre e senhor, e não sei nada fora da santa Religião que Ele me ensinou.
— Mas esperas que os imperadores, os magistrados, os governadores de províncias, os ricos e os sábios patrocinem a tua empresa?
— Não; toda a minha esperança está em Deus. Como poderia contar com os ricos, com os sábios, com os Césares? Ordeno aos ricos que desprezem as riquezas; aos sábios, que submetam sua razão ao jugo da fé; ao César, que abdique sua dignidade de grande Pontífice, e acate as ordens daquele que me envia.
— Sendo assim, é fácil prever que tudo estará contra ti. E que pretendes fazer então?
— Morrer numa cruz; meu divino Mestre mo predisse.
— Realmente, isso é o mais provável de tudo que me acabas de dizer. Morrerás numa cruz e, contigo, a tua loucura! Adeus!...
O romano vai repetindo pelo caminho: Pobre louco!
Pedro beija sua cruz de madeira e entra em Roma. Um dia, morre numa cruz como era fácil prever... Mas o mundo conhece a Cristo, o soberano do universo que coloca em Roma, na Roma eterna, a sede de seu império.
10 de fevereiro de 2019
Tesouro de Exemplos - Parte 596 a 598
CASOS ATRIBUÍDOS AO PIOVANO
1. Vendo o Piovano que lhe furtavam ovos do galinheiro, resolveu descobrir o ladrão custasse o que custasse e, para isso, pôs de emboscada o seu empregado. Vendo este quem roubava os ovos, correu ao Piovano e disse:
— É o vosso compadre N. que acaba de roubar e pôr no seio dez ovos.
O Piovano, aparecendo à porta, viu o compadre com a camisada de ovos e, disfarçando, convidou-o a entrar para um dedo de prosa; mas o outro se desculpou, dizendo que estava com pressa e depois voltaria.
— Ora, compadre, entre um pouco ao menos. — Fazendo- lhe carícias e abraçando-o fortemente, quebrava-lhe no seio todos os ovos. O compadre sentia que os malfadados ovos lhe escorriam pelas coxas e pernas, de sorte que, muito envergonhado, indenizou o Piovano daqueles prejuízos e nunca mais quis roubar ovos.
Certo sujeito aproximou-se do Piovano, dizendo:
— Quero contar-lhe um segredo muito importante, mas o sr, há de prometer-me de não dizê-lo a ninguém.
Respondeu o Piovano:
— Como quer que eu não o diga a ninguém, quando você mesmo não é capaz de o guardar?
2. Dois aldeões foram ter com o Piovano, por um negócio muito sério, e disseram-lhe:
— Enquanto estávamos a podar o vinhedo, um cuco cantou perto de nós, e cada um dizia: Ele cantou para mim... e discutimos e apostamos um asno contra vinte liras, e um de nós depositou o dinheiro e o outro, o asno; e viemos aqui para decidirdes a questão e estaremos pela vossa sentença.
O Piovano aceitou a incumbência, mas pediu que lhe dessem prazo para pensar. A noite veio um deles para puxar o Piovano para o seu lado e deu-lhe dois queijos. Apenas saiu o primeiro, apareceu o outro com vinte ovos, e recomendou vivamente a sua causa. A ambos dirigiu o Piovano algumas belas palavras.
Na manha seguinte, voltou aquele dos queijos, trazendo alguns frangos e recomendando-se. Quando este se retirou, chegou o dos ovos com algumas galinhas e muitos rogos; e assim fizeram diversas vezes, trazendo sempre presentes melhores e mais lindos. Quando o Piovano achou que tinha recebido bastante, mandou chamar os dois e disse-lhes:
— Achei a resposta! Tu ficarás com o teu asno, e tu com as tuas vinte liras, porque eu acho que o cuco não cantou para nenhum de vós, mas para mim. Prova disso é que cada um de vós me trouxe belíssimos presentes, cinco ou seis vezes, não havendo ninguém tão tolo como vós... Eu vos restituirei tudo que trouxestes; mas, considerando que, se tivésseis feito isso com algum outro juiz, não receberíeis nada e ainda teríeis de pagar, vinde, alegremo-nos e banqueteemo-nos com os ovos, galinhas e queijos...
— É o vosso compadre N. que acaba de roubar e pôr no seio dez ovos.
O Piovano, aparecendo à porta, viu o compadre com a camisada de ovos e, disfarçando, convidou-o a entrar para um dedo de prosa; mas o outro se desculpou, dizendo que estava com pressa e depois voltaria.
— Ora, compadre, entre um pouco ao menos. — Fazendo- lhe carícias e abraçando-o fortemente, quebrava-lhe no seio todos os ovos. O compadre sentia que os malfadados ovos lhe escorriam pelas coxas e pernas, de sorte que, muito envergonhado, indenizou o Piovano daqueles prejuízos e nunca mais quis roubar ovos.
Certo sujeito aproximou-se do Piovano, dizendo:
— Quero contar-lhe um segredo muito importante, mas o sr, há de prometer-me de não dizê-lo a ninguém.
Respondeu o Piovano:
— Como quer que eu não o diga a ninguém, quando você mesmo não é capaz de o guardar?
2. Dois aldeões foram ter com o Piovano, por um negócio muito sério, e disseram-lhe:
— Enquanto estávamos a podar o vinhedo, um cuco cantou perto de nós, e cada um dizia: Ele cantou para mim... e discutimos e apostamos um asno contra vinte liras, e um de nós depositou o dinheiro e o outro, o asno; e viemos aqui para decidirdes a questão e estaremos pela vossa sentença.
O Piovano aceitou a incumbência, mas pediu que lhe dessem prazo para pensar. A noite veio um deles para puxar o Piovano para o seu lado e deu-lhe dois queijos. Apenas saiu o primeiro, apareceu o outro com vinte ovos, e recomendou vivamente a sua causa. A ambos dirigiu o Piovano algumas belas palavras.
Na manha seguinte, voltou aquele dos queijos, trazendo alguns frangos e recomendando-se. Quando este se retirou, chegou o dos ovos com algumas galinhas e muitos rogos; e assim fizeram diversas vezes, trazendo sempre presentes melhores e mais lindos. Quando o Piovano achou que tinha recebido bastante, mandou chamar os dois e disse-lhes:
— Achei a resposta! Tu ficarás com o teu asno, e tu com as tuas vinte liras, porque eu acho que o cuco não cantou para nenhum de vós, mas para mim. Prova disso é que cada um de vós me trouxe belíssimos presentes, cinco ou seis vezes, não havendo ninguém tão tolo como vós... Eu vos restituirei tudo que trouxestes; mas, considerando que, se tivésseis feito isso com algum outro juiz, não receberíeis nada e ainda teríeis de pagar, vinde, alegremo-nos e banqueteemo-nos com os ovos, galinhas e queijos...
3. Estando um dia a conversar com o Piovano alguns de seus amigos, um déles disse que seria fácil matar um grande capitão, do qual haviam descoberto muitas traições. O Piovano respondeu: Fácil seria se se encontrasse alguém que lhe pendurasse o chocalho. E perguntando-lhe o outro o que aquilo significava, contou-lhe esta novela: Fizeram os ratos certo dia um grande congresso, ao qual compareceram os principais chefes de todo o mundo. Estando todos reunidos, discursou o presidente da augusta assembleia desta maneira; Nós vos reunimos aqui para ouvir o vosso parecer sobre uma questão muito importante, isto é, como nós havemos de por em seguro contra os gatos, que, vós bem sabeis, perseguem-nos sem tréguas e fazem grande estrago entre nós. Muitos foram os pareceres e, entre os numerosos oradores, houve um que disse: A mim me parece que se deve pendurar um chocalho ao pescoço dos gatos, porque, assim, não se poderão mover sem se ouvirem os sons, e nós teremos tempo de fugir.
Afirmaram todos que esse era o melhor parecer e assim se devia fazer. Então o presidente, tomando a palavra, disse que muito lhe agradava semelhante descoberta, mas que era preciso encontrar quem pendurasse o chocalho... Olharam todos uns para os outros, e não houve entre os ratos ninguém que se oferecesse para pendurar o chocalho.
N. B. — Trata-se do Piovano Arloto (Arjoto Mainardi). Piováno (ou Pieváno) significa “vigário de freguesia rural”.
9 de fevereiro de 2019
8 de fevereiro de 2019
A .Alma de Todo Apostolado, J. B. Chautard,
A Alma De Todo Apostolado
3 - Que é a vida interior
Se algumas vezes empregarmos as palavras vida de oração, contemplação, vida contemplativa, - termos que se encontram nos santos padres e nos escolásticos, - nossa intenção é sempre designar a vida interior normal acessível a todos e não os estados pouco ordinários de oração que a teologia mistica estuda, e a fortiori êxtases, visões, arroubamentos, etc.
Sairíamos do nosso plano se nos demorássemos num estudo de ascetismo. Limitamo-nos a recordar, em poucas palavras, o que cada qual para o governo íntimo da sua alma é obrigado a aceitar como absolutamente certo.
1ª Verdade
A vida sobrenatural é a vida do próprio Jesus Cristo em mim, pela fé, pela esperança e pela caridade. A presença de Nosso Senhor por meio desta vida sobrenatural não é a presença real própria da sagrada comunhão, senão uma presença de Ação Vital, como a ação da cabeça ou do coração nos membros; ação íntima que Deus quase sempre oculta à minha alma para aumentar o mérito da minha fé; ação, portanto, habitualmente insensível as minhas faculdades naturais e que unicamente a fé me obriga formalmente a crer; ação divina que deixa subsistir o meu livre arbítrio e utiliza todas as causas segundas, acontecimentos, pessoas e coisas, para me fazer conhecer a vontade de Deus e deparar-me ocasiões de adquirir ou aumentar a minha participação na vida divina.
Esta vida, inaugurada no batismo pelo estado de graça, aperfeiçoada pela confirmação, conservada e enriquecida pela Eucaristia, é a minha vida cristã.
7 de fevereiro de 2019
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