3 de novembro de 2018
2 de novembro de 2018
Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,
RETRATOS DE NOSSA SENHORA
O Corpo da Virgem Santíssima Passível
Parte 1/6
O corpo da Virgem Maria era formosíssimo. Tinha a beleza que dá a integridade, e proporção de todos os seus membros; tinha a beleza da cor natural e a beleza que transparece da beleza da alma.
Tinha a beleza dum corpo tão puro que nem sequer tinha as raízes do pecado, a concupiscência. Para que esse corpo fosse completamente belo, faltava-lhe contudo outra fonte de beleza, o sofrimento.
Os vestígios dum sofrimento heroico dão ao rosto uma beleza sobre humana. Mais belas que as cores artificiais, mais belas que os sorrisos alegres, são as lágrimas, quando saem dum coração inocente e amoroso; e quando rolam por um rosto cinzelado pelo sofrimento.
Por isso o que não consegue uma mulher ataviada e sorridente consegue-o uma mulher chorando. Que brilho e que beleza dão ao rosto as lágrimas inocentes e amorosas!
Esta fonte de formosura não podia faltar no corpo da Virgem Santíssima. O corpo da Virgem Santíssima foi passível. O corpo da Virgem Santíssima sofreu como nós.
Deus concedeu à Virgem Santíssima todos os privilégios que exigia a sua dignidade de Mãe de Deus e livrou-a de tudo o que estava em oposição com essa dignidade. A essa dignidade altíssima opunha-se o pecado; e livrou-a do pecado original, do pecado atual e fê-la impecável.
A essa dignidade opunha-se tudo o que fosse inclinação ao pecado e extinguiu nela a concupiscência; mas a dor não só não se opunha à dignidade de Maria, mas era conveniente para a missão que devia desempenhar no mundo.
O Filho de Deus vinha expiar os pecados dos homens com o sofrimento. Vinha pagar com a sua dor o que os homens gozam quando pecam.
Por isso devia possuir um corpo passível apto ao sacrifício: "corpus autem aptasti mihi", dizia o Filho de Deus a seu Eterno Pai. Era necessária uma vitima e deste-me um corpo apto para o ser.
E quem havia de dar esse corpo passível ao Filho de Deus? Havia de lho dar sua Mãe. Logo, o corpo da Virgem Maria devia ser passível como o de seu Filho. Mais ainda, Jesus Cristo associava a Virgem Santíssima à sua obra expiatória. Jesus seria o Redentor. Maria a Corredentora. Jesus remiria o mundo com a dor, Logo, com a dor devia colaborar sua Mãe na Redenção; e para isso devia ter um corpo passível. A dor seria também para a Virgem Santíssima uma fonte de merecimentos. Deus inundaria a sua alma de graça santificante; mas aquela graça podia crescer, e nada melhor que a dor para multiplicar o tesouro da graça.
1 de novembro de 2018
31 de outubro de 2018
Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,
RETRATOS DE NOSSA SENHORA
O Corpo da Virgem Santíssima Livre de Concupiscência
Parte 4/4
Quantos jovens e quantas jovens sentem esta mesma luta de Agostinho. Cinema, leituras, conversas, despertaram muito depressa a concupiscência; e foi-se muito longe, mais longe do que a própria jovem podia suspeitar. Esta jovem por acaso envergonha-se de si mesma. Queria voltar para trás. O vício é tão degradante! A pureza é tão formosa!
À vista de sua alma apresenta-se a Virgem Imaculada e com ela sob o seu manto, tantas jovens inocentes, puras, alegres, e a Virgem Santíssima estende os braços para aquela filha extraviada para a atrair ao seu regaço e diz-lhe: "o que fazem estas tuas irmãs não o podes tu fazer?"
Que coisa impedia Agostinho de dar o último passo?
A fera da concupiscência que estava muito agarrada à presa. Da carne do corpo - dizia ele - saíam como uns angustiosos chamamentos. Eram as paixões que lhe diziam: Deixas-nos? E desde este momento para sempre não te será lícito isto ou aquilo?!
E que coisas, meu Deus, que coisas me vinham à mente no que eu digo: isto e aquilo!
Que era isto e aquilo que as vozes da sua carne sugeriam a Agostinho? Era o isto e o aquilo do seu desejo.
As leviandades, as diversões ilícitas, as comodidades, as desonestidades. O que custa tanto a deixar a tantas jovens mundanas e a tantos jovens. Eu seria pura, eu comungaria, eu seria filha da Virgem Maria. Mas as paixões clamam: terás que deixar isto ou aquilo?
Sabeis muito bem o que significa isto e aquilo: as leituras, as imodéstias, as estroinices, as companhias, os bailes, os costumes viciosos. Pobres jovens, que dominadas estão por estas ferinhas!
Deus queria fazer de Agostinho um luminar da Igreja. Para acabar de o converter, um dia que estava no horto de Milão, sentado debaixo duma figueira, Deus pôs ao alcance de sua mão um livro. Viu-o Agostinho e ao mesmo tempo ouviu uma voz que lhe dizia: Toma, lê; toma, lê. Aquele livro era o Novo Testamento, as cartas de São Paulo. Abriu o livro ao acaso e leu aquelas palavras: "Não em banquetes, nem embriaguezes, não em vícios nem desonestidades, não em contendas nem emulações, mas revesti-vos de Jesus Cristo e não empregareis o vosso cuidado em satisfazer os apetites do corpo". Agostinho lia aquelas palavras e meditava. E entretanto sua santa mãe chorava e orava por ele. Quanto tinha chorado e orado aquela mãe por seu filho extraviado! Aquelas lágrimas e aquelas orações, moveram o coração de Jesus Cristo e enviou à alma de Agostinho uma graça poderosíssima para que pudesse romper as cadeias que o aprisionavam. O jovem extraviado rompeu a chorar e caiu rendido aos pés de Jesus Cristo.
Jovens metidas no mundo, vós não tendes uma mãe santa como a mãe de Agostinho que chore e peça por vós; tendes uma mãe néscia, uma mãe criminosa que vos empurra para a vida do mundo e do pecado, que faz coro com as vossas paixões e vos repete também; "e vais deixar isto e aquilo?!"
Não tendes na terra uma mãe como Santa Mônica; mas tendes no céu uma mãe que pede por vós. Quanto sofre, quanto pede pelas jovens mundanas e pelos jovens extraviados também.
À intercessão da Virgem Santíssima devem as almas extraviadas esses chamamentos, esses desejos de sair do pecado, que umas ouvem como Santo Agostinho, e que outras, a maioria, desprezam.
Que fez Agostinho depois de tomar a última resolução? O filho pródigo exclamou: "Levantar-me-ei e irei ter com meu pai".
Agostinho exclamou; "Levantar-me-ei e irei ter com minha mãe". Tinha pensado em sua mãe durante a luta e queria que sua mãe fosse a primeira a ter a notícia da vitória.
Ele sabia a consolação que lhe iria proporcionar. Com que emoção, com que ternura fala Santo Agostinho de sua santa mãe quando narra a história da sua conversão! Estava sua mãe nos seus aposentos e Agostinho com os olhos rasos de lágrimas apresentou-se diante dela. Referiu-se à sua conversão com todas as circunstâncias e pormenores. Ela - disse o Santo - não cabia em si de contentamento, nem sabia que fazer de alegria, nem sabia como bendizer e dar graças a Deus, pois lhe havia concedido muito mais do que costumava suplicar para mim, por meio dos seus lamentos e lágrimas afetuosas.
Tu que sentes a luta cruel da carne contra o espírito; que queres ser bom e não acabas de sê-lo, porque a concupiscência que vive em ti se alimentou muito dos prazeres do mundo, - porque ouve a voz das paixões, e a voz de teus pais que te dizem: vais deixar isto ou naquilo? Enquanto lutas, a Virgem Santíssima pede por ti e envia-te inspirações interiores: é a graça de Deus para a tua conversão.
Se tomares uma resolução enérgica como a de Agostinho, se disseres: adeus frivolidades, adeus pecados, adeus ocasiões de pecado, adeus jogo, adeus bebidas, adeus tertúlias pecaminosas, se tomares esta resolução generosa, corre aos pés de tua Mãe e conta a tua luta e a tua vitória e pede-lhe que te recolha sob o seu manto e que te conserve sob ele todos os dias da tua vida.
30 de outubro de 2018
29 de outubro de 2018
Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,
RETRATOS DE NOSSA SENHORA
O Corpo da Virgem Santíssima Livre de Concupiscência
Ao ouvir esta conclusão, exclamareis talvez desanimados: se isso foi um privilégio especial concedido por Deus a sua Mãe, não poderemos imitá-la nisso.
É verdade que não podes ser igual a Ela; mas podes assemelhar-te muito a tua Mãe, mesmo neste privilégio.
Ao receberes o batismo, o pecado original deixou a tua alma; mas no teu corpo não se extinguiu a concupiscência, efeito do pecado original.
Há na natureza humana, entre outros, dois instintos. Na alma, o desejo de amar e de ser amado. No corpo, o desejo de prazeres sensuais, quer dizer, a concupiscência. Estes dois desejos, estes dois instintos existem no homem e na mulher; mas de maneira diferente. No homem existe certamente esse instinto elevado da alma: esse desejo de amar e ser amado. Também ele sente a solidão da vida e a necessidade de uma companheira que o compreenda e que com o seu caráter suave, bondoso e jovial lhe torne leves os trabalhos e lhe suavize os dissabores da vida. Uma companheira que vele pelos seus interesses, que cuide dele, que lhe dê alento, que o anime; numa palavra, que lhe prepare um lar comodo e atraente. Este instinto da alma é tanto mais forte, quanto mais puro é o jovem.
Que obcecadas estão as raparigas, que gosto tão estragado manifestam, quando preferem para companheiro um jovem que tenha vivido muito! Mas, se é verdade que o homem tem este instinto elevado, tem-no mais forte ainda a mulher. E ao contrário, na mulher não é tão forte o instinto baixo para os prazeres sensuais. Por isso é costume dizer-se: o homem é mais corpo, a mulher mais alma.
Haverá exceções, mas é esta a regra geral. Regra que a rapariga deve ter em conta.
Engana-se e engana-se lastimosamente a rapariga quando pensa que o jovem com quem trata tem a mesma condição que ela; engana-se lastimosamente quando crê que aquilo que a ela não lhe faz mal, não impressiona o seu companheiro.
Por isso a jovem não suspeita muitas vezes as tormentas que podem desencadear-se no seu companheiro. Por isso não repara nos efeitos desastrosos que as suas imodéstias e provocações podem produzir. Por isso também não repara no perigo que lhe podem criar certas situações difíceis. Depois vêm as lágrimas.
Ainda que não seja tão forte como no homem, também existe a concupiscência na natureza da mulher. Existe na jovem e existe na criança. Na menina normal e inocente essa tendência, esse desejo está silencioso e latente. É como uma ferinha; mas está adormecida. Deixai-a dormir, dormir o maior tempo possível; porque, se acorda, o seu furor pode ser espantoso
Como desperta a ferinha? Às vezes por si mesma, sozinha. Uma natureza degenerada, um temperamento apaixonado recebido em herança, é causa suficiente para que a ferinha desperte muito depressa, às vezes antes do uso da razão.
Nas meninas normais a concupiscência desperta de ordinário porque a provocam estímulos exteriores: o cinema, as leituras, as conversas atrevidas.
Porque é que as jovens, as crianças de agora são incomparavelmente mais precoces que há cinquenta anos? Porque os estímulos exteriores são maiores e fazem despertar muito depressa a ferinha. As meninas lêem tanto, vêem tanto cinema, falam de tais coisas, que a ferinha não tem outro remédio senão despertar e a luta desencadeia-se muito depressa nessas infelizes. A ferinha desperta, tem fome de prazeres sensuais e pede de comer, ruge e lança-se para eles.
Como é difícil contê-la ! Quem a pode conter?
O santo temor de Deus; é essa a única jaula de ferro que não pode romper. Ai da jovem que tenha a fera da concupiscência muito desperta e não tenha um temor de Deus muito grande, muito forte para a conter! Se se acalmasse com um pouco de alimento! Mas, é de tal natureza que quantos mais prazeres se lhe dá, mais robusta se torna e mais fome tem. Dizei a uma jovem: vai uns quantos dias ao cinema e ao baile; e com isso já ficas satisfeita e não voltes mais.
Que ilusão! sabeis por experiência, que quanto mais se lê, mais se deseja ler; quanto mais se olha, mais se deseja olhar; quanto mais se dança, mais se deseja dançar; e continuai enumerando esse quanto mais; aplicai-o a tudo, mesmo aos prazeres mais grosseiros.
É difícil conter a concupiscência, quando deseja prazeres e ainda não os provou; mas mais difícil ainda é arrancá-la deles, quando se começou a satisfazer. Arrancai a uma fera o pedaço de carne que está a comer. Quando uma jovem se meteu no meio do mundo, quem a arranca dele! Isso é o que retém tantas almas na vida de pecado; quereriam, mas não podem. Chegam uns exercícios, conhecem o seu estado lastimoso, mas não têm forças para sair dele. A ferinha cresceu muito e está muito bem alimentada.
Era isto que retinha Santo Agostinho na sua vida de pecado. Agostinho tinha tido um pai pagão e vicioso. Dele havia herdado uma natureza inclinada aos vícios. Que fome de prazeres tinha a ferinha. de Agostinho mesmo quando era pequeno!
A sua santa mãe procurou domar aquela ferinha com uma educação cristã, quis enjaulá-la com o santo temor de Deus; mas não o conseguiu. Quando Agostinho era jovem, a concupiscência rompeu todas as grades do temor de Deus, da honra da família e lançou-se sobre a presa. Quanto mais comia, mais fome tinha. Agostinho queria afastar-se da sua vida pecaminosa e dizia para si: "hoje mesmo", e estava já quase, quase a ponto de romper, o vício parecia-lhe tão degradante, a pureza tão bela! "A continência apresentava-se-me - disse ele - com rosto alegre e majestoso, abria-me os braços para me receber. Com ela havia uma grande multidão de almas de todas as classes e condições, que eram castas. E ela mesma como sorrindo-se de mim, com um sorriso gracioso convidava-me a segui-la, e parecia dizer-me: Porque não hás de poder tanto como estes e estas?
28 de outubro de 2018
27 de outubro de 2018
Retratos de Nossa Senhora, Juan Rey, S. J.,
RETRATOS DE NOSSA SENHORA
O Corpo da Virgem Santíssima Livre de Concupiscência.
Parte 2/4
Conhecida já a natureza da concupiscência, vem a propósito perguntar: Recebeu a Virgem Santíssima esta triste herança de seus pais? Teve a Virgem Santíssima concupiscência?
Sem dúvida alguma que antes de a inteligência ver as razões, o vosso coração vos diz que não; que a Mãe de Deus não devia ter estado submetida a esta escravidão degradante.
É verdade que a concupiscência não é pecado, mas a inclinação para o pecado, e seria indigno, indecoroso, que a Mãe de Deus tivesse essa inclinação.
A Virgem Santíssima foi impecável, não cometeu nem a mais ligeira imperfeição; Deus teve que a fazer assim; porque assim o pedia a sua dignidade. Pois se deus queria que sua Mãe não tivesse nem sombra de pecado, teve que tirar as causas dele, e a causa principal é a concupiscência.
O que queira ter um campo limpo de abrolhos, que nunca brote nele nem o mais ligeiro renovo, tem que arrancar até as raízes; de contrário, essas raízes brotarão novamente.
A concupiscência é raiz do pecado, Deus não quis na Santíssima Virgem a mais leve culpa; logo teve que afogar nela a raiz.
A Virgem Santíssima teve a castidade no grau mais perfeito. Uma castidade superior a dos anjos que não têm corpo, e por conseguinte uma castidade que nunca sente tentações, que nunca sente afetos desordenados. O coração da Virgem Santíssima tinha que ser só para Deus, e uma castidade assim, mais que angélica, não teria podido existir se não estivesse sufocada na sua natureza essa inclinação ao pecado.
Existem ainda mais razões. É um fato que quanto mais forte é a virtude duma pessoa, mais débil é nela a concupiscência. A graça santificante e as virtudes que a acompanham, à medida que vão crescendo em intensidade, vão sufocando as inclinações más da carne; e como as virtudes da Virgem Santíssima foram incomparavelmente mais excelentes que as de todos os santos, e como a graça da Virgem foi imensa, não só impediram como extinguiram todos os impulsos da concupiscência.
Tem havido santos e até pessoas canonizadas, que tendo concupiscência, ou não sentiram ou sentiram muito debilmente os seus efeitos; pois a Rainha dos santos tinha que receber de Deus um privilégio maior que o dessas almas escolhidas.
É, pois, certíssimo que o corpo da Virgem Santíssima não só foi perfeitíssimo, não só foi formosíssimo, mas também teve um privilégio de que os outros homens carecem, o ter coibido, mais ainda, extinguido essa inclinação para o pecado, essa tendência ao pecado que se chama concupiscência.
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