15 de março de 2017

Tesouro de Exemplos - Parte 321 a 323


MAIS OBRAS DE MISERICÓRDIA

1. S. Serapião ficou sabendo de um credor que se dispunha a vender como escravo a um pai de família que lhe devia certa importância. O Santo, compadecido da esposa e dos filhos do devedor, ofereceu-se em lugar dele como escravo. O credor aceitou a oferta, mas, muito edificado com as virtudes do Santo, não somente lhe deu a liberdade, como ainda se converteu com toda a sua família ao cristianismo.

2. S. Raimundo Nonato consagrou sua vida, como religioso de Nossa Senhora das Mercês, à redenção dos cativos cristãos. Um dia, depois de ter invertido na compra de cativos todo o dinheiro que levava, conseguiu a liberdade de outros muitos entregando-se ao cativeiro em lugar deles. Muito teve que sofrer naquelas masmorras, onde era o consolo e a defesa dos pobres presos. A uns sustentava na fé cristã; a outras, que haviam caído na apostasia, lograva faze-los voltar à fé de seus pais. Depois de terríveis sofrimentos, foi resgatado por seus Religiosos mercenários, e o Papa Gregório IX nomeou-o cardeal da Santa Igreja Romana.

3. José Sarto (mais tarde Papa e hoje S. Pio X), durante a epidemia de cólera que devastou Veneza em 1873, entre as muitas obras de misericórdia que fez com os doentes, uma delas era acompanhá-los à sepultura, o que fazia até durante a noite, carregando ele mesmo os cadáveres, quando necessário.
O mesmo fazia, a seu tempo, S. João de Deus. Quando tinha notícia da morte de algum pobre, corria a dar-lhe sepultura cristã.

14 de março de 2017

Sermão para o 2º Domingo da Quaresma – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] A serenidade ou a constância da alma



Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Caros católicos, no último domingo, tratamos da paciência que devemos ter para com os defeitos do próximo. Paciência tão necessária para a santidade, para a paz – em particular, na família – e que, ao mesmo tempo, não é uma aprovação dos defeitos ou faltas do próximo.
Falaremos hoje, nesse segundo domingo da Quaresma, de uma outra virtude simples: a constância ou igualdade de ânimo e que podemos chamar de serenidade.
No Evangelho de hoje, temos a transfiguração do Senhor. O Salvador deixa transparecer a Sua glória, para confirmar os apóstolos na fé, para que não O abandonem quando de Sua paixão. Vejamos, porém, a figura de São Pedro. O príncipe dos apóstolos, antes de Pentecostes, antes de sua santificação, apresenta ainda defeitos. Um deles é precisamente a inconstância de alma, a falta de serenidade em suas ações. Sem muito refletir, por ímpeto, São Pedro, no episódio da transfiguração já quer logo fazer três tendas para ali permanecer, esquecendo-se da necessidade da paixão. Em outros momentos, essa impetuosidade leva São Pedro a dizer que seguirá Jesus, pois só Ele tem palavras de vida eterna, e leva São Pedro a dizer que vai seguir Jesus até a morte, se necessário for. Mas vemos também São Pedro querer impedir a paixão de Cristo, vemo-lo dormir enquanto deveria vigiar, rezando, com Cristo. Logo em seguida, vemos São Pedro tirar a espada e cortar a orelha do soldado no Jardim das Oliveiras para, depois, vermos o apóstolo negar Jesus três vezes antes do galo cantar durante a paixão do Senhor. São Pedro tem a alma inconstante, levada para todos os lados conforme o vento que sopra no momento. Uma hora faz uma coisa e noutro momento, mesmo próximo, já faz o extremo oposto, com um humor que varia muitíssimo. Não tem serenidade em suas ações. Após a ressurreição do Senhor, após os quarenta dias que Cristo passou ainda na terra antes da Ascensão e depois de Pentecostes, São Pedro, arrependido de suas faltas e cheio da graça do Espírito Santo, será firme como a pedra e como a pedra que é o fundamento visível da Igreja de Cristo.
Nossa alma também é assim, muitas vezes. Parece mais um cata-vento do que uma bússola. O cata-vento muda de direção conforme a direção do vento, se deixando levar completamente pelo ambiente. Já a bússola aponta sempre para a mesma direção, independentemente de qualquer coisa, indicando o norte.
A alma inconstante é sacudida pelos vários acontecimentos que lhe sucedem ou é agitada pelas diversas impressões que recebe. Algo a agrada? A alegria e o entusiasmo dessa alma são imensos. Algo a desagrada? Ela fica afogada na mais profunda tristeza. Tem um fervor sensível nas orações? Entrega-se às orações. Já não se sente tão bem na oração? Depressa abandona as práticas de piedade. Se essa alma é contrariada, se torna insuportável. Quando não tem maiores tentações, anda cheia de confiança e com tranquilidade, parecendo-lhe muito fácil a perfeição. Mas quando é tentada ou provada um pouco mais, desanima, perde a esperança e acha que a santidade é impossível. Essa alma é uma cana agitada pelo vento, pelas circunstâncias. Ela não para em pé. É um turbilhão, cheia de ímpetos. Nela, podemos ver as mudanças mais repentinas e opostas. Não há firmeza, nem estabilidade. Não é uma alma constante nem serena. Essa alma, essa pessoa não é senhora de si mesma. Mas escrava das circunstâncias, das situações e de suas próprias inclinações.
Essa falta de serenidade da alma, de constância, de domínio sobre si mesma é sinal de uma virtude inexistente ou ainda muito inicial. Uma virtude edificada sobre a areia movediça. Os males dessa falta de serenidade são imensos. Essa alma não conseguirá fazer grandes coisas no caminho da santidade porque não perseverará em nada. Uma impressão mais forte e ela já se deixará levar por outro caminho, como a criança que se distrai facilmente com qualquer coisa no seu estudo, abandonando o que se tinha proposto a fazer. Essas pessoas volúveis como o cata-vento tornam-se também antipáticas aos outros e chatas em razão da variação de humor.
Devemos ter o ânimo constante, invariável, como a bússola. Devemos ter sempre a nossa alma orientada na mesma direção, na direção de Deus, da salvação eterna. Devemos ter a alma senhora de suas paixões e afetos, conservando a paz, a serenidade, no semblante, no humor, na caridade para com o próximo.  Conservando a mesma resolução no serviço a Deus, a mesma fidelidade no cumprimento de seus deveres, a fidelidade nas obrigações, a modéstia no porte, a tranquilidade no desempenho de suas atividades. Ainda que aconteçam ao redor de nós os mais variados acontecimentos que nos atinjam, a nossa alma deve assim permanecer: serenamente orientada para Deus, para a salvação eterna. Essa serenidade é necessária para a perfeição, muito agrada a Nosso Senhor, produz grande paz na alma, é de um grande mérito, ajuda na prática de todas as virtudes, dispõe para a união com Deus, e é muito agradável ao próximo.
Não é coisa fácil de se alcançar, pois necessita uma virtude mais sólida, mas é plenamente possível, recorrendo a Deus, lutando consigo mesmo. Essa serenidade da alma é uma antecipação da paz perfeita de que gozam os santos no céu. Daquela alma que guarda essa serenidade de alma, orientada sempre e firmemente a Deus, pode-se dizer com o salmista: Deus está no meio dela, nada a moverá (45, 6). Deus é o centro dessa alma, e nada será capaz de a perturbar. E é aqui se compreendem também aquelas belas palavras de Santa Teresa d’Ávila: Nada te perturbe, Nada te espante, Tudo passa, Deus não muda, A paciência tudo alcança; Quem a Deus tem, Nada lhe falta: Só Deus basta.
E assim dizia São Francisco de Sales a uma pessoa que dirigia espiritualmente: “é preciso ter uma contínua e inviolável igualdade de coração no meio da desigualdade dos acontecimentos; e apesar de todas as coisas mudarem à nossa volta, devemos permanecer constantemente imóveis, com o olhar fixo só em Deus, ainda que tudo se transtorne em cima e em baixo, e não somente à nossa volta, mas dentro de nós mesmos; ora esteja a nossa alma triste ou alegre, em satisfação ou amargura, em paz ou desassossegada, em claridade ou em trevas, em tentação ou em repouso, contente ou desgostosa ; ora o sol a abrase ou a brisa a refresque, sempre deve a nossa vontade olhar ao beneplácito de Deus, seu único e soberano Juiz. Em qualquer situação em que Deus nos coloque, tudo nos deve ser igual. Este é o alvo da perfeição a que devemos dispor-nos; quem mais se aproximar dele, esse terá o prêmio.”
Não devemos, porém, confundir essa serenidade e constância de alma com a insensibilidade. Não se trata de se tornar insensível aos mais diversos acontecimentos que nos cercam, como pretenderam falsos filósofos ao longo da história, como os estóicos, por exemplo. Essa insensibilidade seria irracional, contra a nossa natureza e mesmo contra a virtude.  A serenidade não é para abater ou destruir nossos sentimentos e emoções, mas para ordená-los e moderá-los, para que não nos dominem, para que não nos perturbem. Devemos ser superiores a eles, fazendo que movam a nossa alma somente no grau e na medida que sejam conformes à reta razão iluminada pela fé. Não se trata tampouco de um quietismo, que nos leva à inação ou a uma grande passividade. Trata-se de lidar com tudo com essa serenidade. Nas alegrias, nas provações. Procurar resolver as dificuldades, se possível for, com caridade, ordenando tudo a Deus.
Nosso Senhor tinha em Sua alma essa constância e serenidade perfeita. Alegrou-se com a conversão das almas, sofreu com todos os ultrajes que recebeu. Sua alegria é plenamente ordenada e moderada. Seu sofrimento é sereno. Diante de seus carrascos, nem chega a levantar a voz. Fala a verdade com serenidade e firmeza. Diante de Herodes, nem fala, para não jogar pérolas aos porcos. Jesus Cristo é plenamente senhor de Si. Temos também o exemplo de Nossa Senhora, chamada de Virgo Serena, Virgem Serena. Contemplemos a serenidade que conserva Nossa Senhora diante da cruz. Sofria mais do que qualquer homem e mais do que todos os homens juntos, excetuando Cristo. As lágrimas lhe saíam dos olhos. Uma espada lhe transpassava o mais profundo de sua alma. Mas ela permaneceu senhora dessa tristeza, permaneceu plenamente ordenada a Deus, permaneceu serena. E isso está muito bem significado pelo fato de que, em meio à toda essa tristeza, Nossa Senhora permaneceu em pé diante da cruz, firme, orientada a Deus. Rezemos à Virgem Serena, para que nos alcance essa serenidade de alma, em meio a todos os acontecimentos da vida. Que não sejamos como o cata-vento ou a biruta, levados para todo lado, mas orientados como a bússola, orientados para Deus. Que nossas emoções sejam ordenadas conforme à razão e a fé, para nos ajudar na nossa santificação. Que possamos alcançar a estabilidade, a constância, a serenidade de São Pedro plenamente convertido.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

13 de março de 2017

Tesouro de Exemplos - Parte 316 a 320

DAVAM ROUPAS AOS MALTRAPILHOS

1. Morrera Santa Paula em seu mosteiro em Belém. Quando seu cadáver era conduzido pelos bispos à basílica da Natividade, irrompeu do meio da multidão um grito dilacerante. Os pobres dos arredores de Belém mostrando os vestidos com que os havia coberto a defunta, diziam com lágrimas que perdiam a sua melhor mãe e protetora.

2. Santa Francisca Romana, não obstante as riquezas e o esplendor de sua casa, não se envergonhava de ir pelas ruas de Roma guiando um burrinho carregado com feixes de lenha e um fardo de roupas para os pobres. Todos já sabiam aonde ia a Santa: a sua visita e as suas esmolas eram para os pobres dos ranchos e mansardas onde se encontravam os mais necessitados.

3. Quando o Beato Joao de Ávila era menino e começou a ir à escola, a mãe fez-lhe uma veste de veludo preto, elegante e preciosa. Um dia, quando ia à escola, encontrou-se com um menino de sua idade muito mal vestido com uma roupa rasgada. Sem vacilar um só instante Joãozinho faz uma troca com o pobre: este veste a roupa de veludo e Joãozinho a roupa rasgada do menino pobre. Quando, ao chegar em casa, a mãe lhe pediu explicação do caso, respondeu com simplicidade: “Mamãe, aquele vestido era melhor para o menino, e este para mim”.

4. S. Luís Maria G. de Montfort, durante sua vida colegial, notou que um dos colegas, de família muito necessitada, era objeto de zombarias dos companheiros por causa da pobreza de sua roupa. O Santo, cheio de compaixão, fez uma coleta entre os colegas e acrescentou do seu o que pode para socorrer o colega necessitado. A soma recolhida era insuficiente; mas, assim mesmo, S. Luís dirigiu-se ao alfaiate, expôs-lhe o caso e pediu que por caridade suprisse o que faltava. Grande coração porque havia de ser um grande santo.

5. Em Toledo, num dia de chuva, certo estudante pobre dizia a um sapateiro:
— Mestre, por caridade, faça-me um par de sapatos, porque estou quase descalço.
O sapateiro prometeu faze-lo e, quando três dias depois, o estudante foi procurá-lo, tinha o mestre cumprido a sua palavra. Depois de calçar os sapatos, como por inspiração de Deus, disse o estudante:
— Deus lhe pague, mestre; quando for arcebispo de Toledo, eu lho pagarei.
Passaram-se anos; o sapateiro continuava pobre. Um belo dia procurou-o um dos cônegos da catedral e levou-o ao palácio. O arcebispo abraçou-o com muito carinho e lembrou-lhe os sapatos que dele recebera, quando pobre estudante. Deu-lhe, depois, uma boa soma de dinheiro e prometeu proteger, toda a família. Tendo fundado um colégio para donzelas nobres, quis que as filhas do sapateiro, equiparadas as outras donzelas, fossem recebidas e educadas no referido colégio. Tal foi a gratidão do cardeal Silíceo, arcebispo de Toledo.

12 de março de 2017

Sermão do I Domingo da Quaresma - Padre Luiz Fernando Pasquotto IBP

Sermão do I Domingo da Quaresma

Cristo foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser tentado pelo diabo.
(São Mateus 4, 1)
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Partindo do Evangelho de hoje, vendo Cristo ser tentado pelo demônio no deserto, nos pareceu que seria proveitoso aos fiéis uma espécie de exame sobre como trato minhas tentações, como as vejo, como me comporto nelas, aplicável a cada um por meio de um exame pessoal. A tentação de Cristo foi meramente exterior, sem que elas lhe causassem hesitações interiores, e rebelião dos afetos e sentidos contra a inteligência. Mas Cristo quis passar por essas sugestões do demônio, para nos mostrar como devemos agir em nossas tentações.
Eis aqui, então, algumas questões que devemos nos colocar a respeito de nossas tentações pessoais:
Sonhei com um estado ideal sem tentações neste mundo, constando que eu necessariamente as terei?  Considero anormal ter tentações?  Distingo bem entre tentações, por pesadas que sejam, e faltas voluntárias e involuntárias? ―  Confundo a viveza com que a imagem pecaminosa se apresenta, ou o impulso do instinto, com a voluntariedade?
Acudo humildemente à oração, pensando na minha fraqueza? ― Tenho tentações criadas por minhas imprudências?  Ao observar a tentação como tal, me disponho à luta ou vacilo muito?  Sei enfrentar a tentação agindo contra ela, o diametralmente oposto do que é apresentado na tentação?  Faço apelo aos princípios da vida eterna, aos Novíssimos (morte, juízo particular, inferno, purgatório, céu, juízo universal) para me ajudar com um santo temor?  Tenho cuidado de pedir perdão a Deus pelos consentimentos duvidosos, oferecendo alguma reparação com penitências?
Me considero praticamente impecável em matéria de castidade, desafiando perigos?   Chego até o limite do pecado mortal, sem vontade de evitar o que é leve? ―  Seleciono leituras, diversões, visitas, amizades?
Minhas obras de apostolado, meu trato com as pessoas, dão ocasião de cometer abusos? ― Quando faço perguntas sobre questões de castidade, existe pura curiosidade ou agrado sensível, sem utilidade para a alma? ― Evito olhares pouco modestos? ―  Tenho em conta o escândalo ou a má impressão que uma determinada atitude externa pode produzir nas pessoas que me vêem?
Insisto muito em temas ligados à castidade, em aulas públicas ou privadas? ― Ao tratar dessas questões, uso expressões convenientes, dignas, de modo que a pessoa saia animada a respeitar a castidade, ou ela sai com uma curiosidade mórbida satisfeita? ― Procuro me distrair nas tentações, esquecê-las, não me examinando nem muitas vezes, nem com detalhes? ― Procuro usar da luta indireta, evitando a ociosidade, não deixando a imaginação vagar sem rumo, evito as conversas atrevidas e inconvenientes, as leituras sugestivas? ― Pratico a penitência corporal? ― Acudo à oração?
Ao mesmo tempo, reduzo o problema das tentações ao sexto mandamento (questões de castidade), absorvido em exames, dúvidas, escrúpulos, análises, consultas eternas sobre a questão?  Observo as tentações de ira, preguiça, tibieza, soberba, inveja, gula, as faltas cometidas contra as ordens dos meus superiores, meus deveres de estado (pai, mãe, filho, empregado, cidadão, etc.)?  Reajo bem contra as tentações que me vêm? Tomo a iniciativa, exercitando sistematicamente as virtudes, sem esperar o momento da tentação para fazer o bem?
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.


11 de março de 2017

Tesouro de Exemplos - Parte 311 a 315

A CARIDADE DOS SANTOS

1. S. Domingos, por ocasião de uma grande fome, sendo ainda jovem, vendeu seus móveis e tudo que tinha para socorrer os famintos. Além disso, o que é mais raro e mais meritório, desfez-se até de seus livros, preciosos pelos comentários e observações pessoais, e distribuiu todo o lucro aos pobres.

2. S. Afonso, antes de fundar sua Congregado do Santíssimo Redentor, formou uma associação com outros pios eclesiásticos, e entre outras piedosas práticas tinham de comer juntos um dia de cada mês. Na mesa colocavam uma imagem do Menino Jesus, para que presidisse como superior, e junto dele um prato, em que cada um punha uma porção da comida que lhe tocava, comida essa que depois era distribuída aos pobres. Por ocasião da fome de 1704, S. Afonso proveu-se a tempo de grande quantidade de feijão e de favas que repartiu entre os pobres. Valeu-se ainda, para o mesmo fim, de pessoas amigas e abastadas; e, como já não tinha mais dinheiro, deu ordem de vender secretamente seu coche com os respectivos animais, que eram um presente de seu irmão, e bem assim sua cruz pastoral e seu anel de bispo, presentes de outro senhor. Mandou vender também outras alfaias, e até seu relógio e seu roquete, e a si mesmo se tivera vendido, se lhe fosse possível. Privava-se dos próprios alimentos para dá-los aos pobres; e ao vê-los chorar, não tendo com que remediar tanta miséria, misturava suas lágrimas com as lágrimas de seus diocesanos (Justini, Vida del B. Alfonso).

3. S. Tomás de Vilanova, arcebispo de Valência, desde menino foi muito caridoso. Dava aos meninos a sua merenda e, quando levava o almoço aos trabalhadores, camaradas de seu pai, se acontecia encontrar algum pobre pelo caminho dava-lhe alguma parte da comida que levava. Depois, sendo arcebispo, reunia todas as manhãs no pátio do palácio os pobres da cidade, que chegavam a centenas, e por meio de seus familiares distribuía a cada pobre um pão, um prato de comida, vinho e uma moeda. Se previa que o ano ia ser de carestia, procurava prover-se a tempo de todo o trigo necessário, para que no inverno não viesse a faltar, o pão aos seus pobres. Que diferença! O Santo armazenava para dar de comer aos pobres; os negociantes de nossos dias armazenam para tirar o couro da pobreza. Que caridade esquisita!

4. O grande cardeal Cisneros (1495-1517) mandava preparar todos os dias em sua cozinha comida suficiente para trinta pobres. Essa comida era em tudo igual a de sua mesa e muitas vezes ele mesmo ia reparti-la aos pobres.

5. S. Joana de Chantal, todos os dias recebia, depois de almoçar, à porta de seu castelo a todos os pobres que vinham pedir comida. Com suas próprias mãos pegava as vasilhas que traziam e enchia-as de sopa; cortava o pão e servia-os com tanto gosto, como se fossem seus filhos. Viram-na, as vezes, pensativa e silenciosa e com lágrimas nos olhos repetia as palavras de Jesus: “Tive fome e destes-me de comer”. Tinha, além disso, uma panela com caldo de carne preparado especialmente para os doentes. Mandou construir numa das dependências do castelo “o forno dos pobres”, de quinze pés de largura, que podia conter até trinta fanegas (300 quilos) e, embora destinado exclusivamente aos pobres, tinham de cozer o pão até quatro vezes por semana. Parece que Deus se comprazia em multiplicar o trigo nos celeiros que se abriam tão generosamente aos pobres.

10 de março de 2017

Sermão para o 1º Domingo da Quaresma – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Sermão] Paciência para com os defeitos do próximo

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
( Sermão tirado do livro Perfeição Cristã, capítulo XXV, de Emílio Gonzalez y Gonzalez).
Trataremos, nessa Quaresma, de algumas virtudes simples, mas importantíssimas para a vida católica.
O apóstolo nos fala hoje, em sua Epístola, da paciência e como devemos mostrar toda a paciência nas mais diversas circunstâncias. Podemos aplicar isso a uma coisa muito importante, sobretudo na vida familiar: a paciência para com os defeitos do próximo, principalmente no seio da família.
O não ter paciência com os defeitos alheios nasce, ordinariamente, da soberba de espírito e da dureza de coração. A paciência e indulgência cristãs provêm, pelo contrário, de um coração humilde, bondoso e caridoso. Quem é soberbo não se conhece, nem quer conhecer-se a si mesmo; o soberbo tem-se por perfeito e irrepreensível, e enquanto que não repara na trave do seu olho vê, com lentes de aumento, o cisco no olho do próximo. Daí que o soberbo, ao passo que não se corrige dos seus próprios defeitos e nem suporta sequer que lhe chamem a atenção para seus defeitos, mostra-se duro e intransigente com os defeitos alheios.
Devemos estar prevenidos contra este vício, porque são poucos os que, em maior ou menor grau, não adoeçam dele, já que o amor próprio nos cega, e nos faz julgar e tratar o próximo de uma maneira muito diferente da que tratamos a nós mesmos. “Nós, diz S. Francisco de Sales, queremos que suportem os nossos defeitos, parecendo-nos sempre que são dignos de serem tolerados; porém, os do próximo parecem-nos sempre maiores e, consequentemente, menos toleráveis. ”
Tudo isto nasce, como dissemos, da falta de humildade e conhecimento de nós mesmos, e da falta de bondade e de caridade para com o próximo. O coração humilde, bondoso e caritativo, tendo em conta as suas próprias fraquezas e defeitos, e considerando por outro lado quanto custa adquirir a virtude, e quantos obstáculos interiores e exteriores encontra no seu caminho, tolera e sofre com paciência as faltas e misérias do seu próximo; atenua quanto pode a gravidade dessas faltas e defeitos; dá-lhes a interpretação mais benigna possível; cala, espera caridosamente nos casos em que o falar seria inútil ou prejudicial ; e, enfim, trata os outros com aquela prudente misericórdia e indulgência com que nas mesmas circunstâncias quereria ser tratado.
A paciência para com o próximo no meio das suas imperfeições é, sem dúvida, um dos principais efeitos da verdadeira caridade, um dos primeiros sinais dela; e quanto mais bondosa e caridosa é uma pessoa, tanto mais inclinada se sente à benignidade e paciência para com o próximo. Por isso, Deus Nosso Senhor, que é todo bondade e caridade, é tão indulgente e compassivo para conosco. Suporta os nossos defeitos, sofre com infinita paciência os nossos pecados e infidelidades; perdoa-nos uma e outra vez as nossas faltas, e espera-nos um e outro dia, um mês e outro mês, um ano e outro ano, dando-nos tempo e graça para nos arrependermos, emendarmos, e voltarmos ao seu amor e amizade. Se Deus não nos tivesse tolerado, não estaríamos a estas horas sepultados no profundo abismo do inferno?
E à vista de tanta bondade e indulgência por parte do Senhor, não seremos nós bondosos e indulgentes com o nosso próximo? E podemos considerar-nos filhos de tão bom Pai se não procurarmos revestir-nos dos sentimentos caridosos do seu dulcíssimo Coração?
São Francisco de Sales dizia: “Grande parte da nossa perfeição é suportarmo-nos mutuamente nas nossas imperfeições, e o amor do próximo em nada se pode exercitar melhor que nesta tolerância.” Por isso, o Santo Bispo insistia vivamente, tanto nas suas conversas como nos seus escritos, sobre certas virtudes, que dizia não eram suficientemente estimadas, a saber: a cordialidade, a paciência, a afabilidade, a bondade, a tolerância com os defeitos dos outros; e achava uma ilusão imaginar que se podem fazer grandes coisas pelo próximo quando não sabemos suportar suas faltas corriqueiras.
A todos, sem exceção, é necessária esta paciência com os defeitos alheios, pois não há ninguém neste mundo que não tenha defeitos próprios. Somos homens, e não anjos; e as imperfeições, como consequência do pecado original, nos são, de certo, modo naturais e nos acompanharão até à morte. «Deus dispôs assim, diz a Imitação de Cristo, para que aprendamos a suportar uns o peso dos outros, segundo o conselho do Apóstolo, pois ninguém há sem defeito, ninguém que não cause aborrecimento aos outros, ninguém que se baste a si mesmo, ninguém que seja suficientemente entendido em tudo, senão que é preciso suportar uns aos outros e mutuamente consolar-se, ajudar-se, instruir-se e aconselhar-se. Sejamos, pois, pacientes com os defeitos e quaisquer fraquezas do nosso próximo, porque também nós temos muitos defeitos que os outros devem tolerar.”
É indispensável, além disto, esta mútua paciência para se poder viver em paz e harmonia uns com os outros: superiores com inferiores, pais com filhos, maridos com esposas; irmãos com irmãos; amigos com amigos, etc. Sem uma tolerância prudente e caridosa das misérias, imperfeições e faltas alheias, sobretudo das faltas leves e quotidianas, que nascem mais da própria condição fraca e imperfeita da nossa natureza que da malícia, logo surgirão os choques, as desavenças, as murmurações, as palavras ofensivas e os insultos graves, os rancores com todo o cortejo de dissabores e desgostos que virão amargar a vida de todos os que têm de viver juntos. E quanto todas essas coisa efetivamente existem no seio da família, entre marido e esposa. Que lástima! Ao contrário, onde reina a caridade fraterna, e com ela a tolerância mútua dos defeitos e imperfeições, haverá paz, concórdia, alegria santa, e os dias, no meio dos seus trabalhos e amarguras, tornar-se-ão mais suaves, mais agradáveis e suportáveis, até que brilhe para nós na glória, o dia da verdadeira paz e eterna caridade.
A paciência com os defeitos do próximo, acompanhada de atos repetidos de caridade, de humildade, de paciência, de doçura, de mortificação, etc., será muito agradável a Deus Nosso Senhor, e fonte abundante de santificação e de méritos para nós; e por isso, os Santos foram tão benignos, tão pacientes e sofridos no trato com as outras pessoas. Ditoso, diz S. Francisco de Sales, aquele que aprendeu bem estas excelentes lições de caridade e paciência cristã que nos deixaram os servos Deus.
Seria, contudo, um erro funesto confundir a paciência virtuosa com os defeitos dos outros, filha da verdadeira caridade, com uma conivência que contribuísse para favorecer os defeitos e vícios do nosso próximo. Favoreceríamos esses defeitos e seríamos cúmplices deles se de algum modo autorizássemos ou déssemos mostras de aprovar tais defeitos ou se nós, por uma amizade mal entendida, ou por outros respeitos humanos os imitássemos, ou se podendo ou devendo opor-nos a isso o não fizéssemos. Neste último caso encontram-se os pais e superiores, a quem incumbe o dever de velar por aqueles que estão entregues ao seu cuidado. Eles faltariam à sua obrigação se não se opusessem aos vícios e defeitos de seus filhos ou subordinados. A oposição ao vício, a sua correção deve ser sempre, porém, com bondade, prudência, caridade, ainda quando necessitem vigor.
Essa paciência com o próximo não significa estar de acordo com seus defeitos, mas ver a melhor maneira de ajudar o próximo a superá-los. Sabendo o momento de falar e de calar, sabendo o que falar, como falar ou fazer algo. Com paciência, com caridade. Quantas vezes, por impaciência, se faz algo até com boa intenção, mas que só piora as coisas porque não soubemos esperar, ter essa boa paciência com os defeitos do próximo.
Imitemos em tudo isso a conduta de Nosso Senhor Jesus Cristo com os Apóstolos. Com que paciência suportava os defeitos deles, a rudeza deles, as inconveniências e os modos grosseiros deles, o egoísmo, o interesse e toda a série de imperfeições de que estavam cheios quando os chamou ao Apostolado! Como os foi, pouco a pouco, com doçura e fortaleza ao mesmo tempo, purificando-os dos seus maus hábitos, formando-os e aperfeiçoando-os para o alto ministério a que os destinava! Repreendia-os, sim, e opunha-se à suas faltas quando era necessário, porém, com que prudência, com que amor, com que bondade e caridade o fazia! Não era somente para com eles o mestre e o juiz das suas ações. Era ao mesmo tempo o pai e amigo, benfeitor. Procuremos efetivamente ter essa paciência para com o próximo. Ela uma pérola da caridade e da santificação. Procurem sobretudo esposo e esposa ter essa paciência mútua. Essa caridade que se traduz nessa boa paciência com os defeitos do próximo é o segredo para que a paz reine no lar.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

9 de março de 2017

Tesouro de Exemplos - Parte 310

A QUEM MADRUGA DEUS AJUDA

A maior parte dos homens eminentes foram madrugadores. Pedro o Grande levantava-se antes da alva, porque queria viver tanto mais e dormir quanto menos possível. — Alfredo o Grande erguia-se antes de amanhecer. — Colombo traçava o plano de suas viagens nas primeiras horas da manhã. — Copérnico madrugava com o dia e o mesmo fizeram os mais famosos astrônomos antigos e modernos.
Foram também madrugadores Washington, Jefferson, Webster, o nosso grande Rui Barbosa e outros.
S. Francisco de Sales diz: “Levantar-se logo conserva a saúde e a santidade”. Payot, que no era nada religioso, escreve em seu livro “Educação da vontade”: Dize-me a que hora te levantas e eu te direi se és viciado... Todo jovem que fica na cama uma ou mais horas depois de ter acordado, é fatalmente viciado”.
“Trabalhai, escreve Pierre L’Ermite; o porvir. é dos que se levantara... às cinco da manhã”.
García Moreno, célebre presidente do Equador, durante o tempo de seus estudos em Paris consagrava-se a um trabalho de dezesseis horas diárias; e costumava dizer que, se os dias fossem de 48 horas, 40 passaria ele sem cansar-se em íntimo comércio com seus livros. Quando os amigos o convidavam para festas e passatempos, opunha sempre grande resistência dizendo que tinha ido a Paris exclusivamente para estudar. Assim pode preparar-se para ser um grande benfeitor de sua pátria. García Moreno era, sobretudo, um católico instruído, praticante e de convicções arraigadas.

8 de março de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

IV 

O Coração de Jesus Cristo deixou-se principalmente atrair por uma das formas mais profundas da miséria humana, qual é o pecado. Se no procedimento do Verbo Incarnado, durante a Sua vida pública, há traço que impressione de modo particular, esse é a singular preferência que manifesta pelo Seu ministério junto dos pecadores.
 Os escritores sagrados dizem-nos que 'grande nu­mero de publicanos e pecadores se sentavam à mesa com Jesus e seus discípulos': Ecce MULTI publicani et peccatores venientes discumbebant cum Jesu et discipulis ejus. Este procedimento era tão habitual n'Ele, que costumavam chamá-Lo o amigo dos publicanos e dos pecadores: Publicanorum et peccatorum amicus. E, quando os fariseus se mostravam escandalizados com isso, longe de negar o fato, Jesus confirmava-o, dando a razão profunda dele: Não são os que têm saúde, mas sim os doentes, que precisam de médico ... Não vim chamar os justos, mas sim os pecadore.
 No plano eterno, Jesus é o nosso irmão mais velho: Praedestinavit (nos Deus) conformes fieri imaginis Filií sui, ut sit ipse primogenítus in multis fratribus. Tomou a nossa natureza, pecadora na raça, mas pura na Sua pessoa: In similitudinem carnis peccati. Sabe que a grande massa dos homens sucumbe ao pecado e necessita de perdão; que as almas escravas do pecado, que vivem longe de Deus, nas trevas e à sombra da morte, não compreenderão a revelação direta do divino; não poderão ser atraídas para o Pai senão pelas condescendências da santa Humanidade. E é por isso que uma grande parte dos Seus ensinamentos e da Sua doutrina, uma infinidade de atos de bondade e perdão para com os pecadores, têm por fim fazer compreender a essas pobres almas algo da profundeza das misericórdias divinas.
 Numa das Suas mais belas parábolas, que conheceis, a do filho pródigo, Jesus mostra-nos o retrato autêntico do Pai celeste.
 Mas, como muito claramente o dá a entender o Evangelho, o fim imediato é explicar as Suas próprias condescendências para com os pecadores. De fato, diz S. Lucas que 'os fariseus murmuravam, porque todos os publicanos e pecadores se aproximavam de Jesus para O ouvir: Este homem recebe os pecadores e come com ele'. «E então Jesus», para justificar o Seu modo de proceder, 'conta-lhes aquela parábola'.
 Mostra primeiro a extraordinária bondade do pai, que esquece toda a ingratidão, toda a baixeza do culpado para só pensar numa coisa: «O seu filho estava morto, e ressuscitou; estava perdido, e foi achado; por isso se deve regozijar e mandar preparar imediatamente um banquete».
 Nosso Senhor podia ter ficado por aqui na exposição da parábola, se a sua intenção fosse apenas fazer brilhar, aos nossos olhos, a misericórdia do pai de família para com o pródigo. Realmente, esta misericórdia é tão grande, que não a podemos imaginar maior; comove-nos tanto, deixa-nos tão assombrados, que prende toda a nossa atenção e as mais das vezes perdemos de vista a lição que Jesus queria dar aos murmuradores, aos que blasfemavam da Sua maneira de tratar com os pecadores. Continuando a parábola, mostra-nos a atitude odiosa do filho mais velho, que se recusa a tomar parte na alegria geral e a sentar-se à mesa no banquete preparado em honra do irmão.
 Jesus queria mostrar aos fariseus, não só quanto era duro o seu orgulhoso procedimento e desprezível o seu escândalo, mas ainda ensinar-lhes que Ele, nosso irmão mais velho, em vez de evitar o contato com os Seus irmãos arrependidos, os publicanos e pecadores, vai em busca deles e toma parte em suas festas. Porque  'haverá no céu mais alegria pela penitência dum pecador do que pela perseverança de noventa e nove justos que não precisam de se arrepender».
 Por si só, a parábola do filho pródigo constitui uma revelação magnífica das misericórdias divinas. Quis, porém, o nosso Salvador ilustrar este ensinamento e sublinhar esta doutrina com atos de bondade que nos encantam e comovem profundamente.
 Conheceis o colóquio de Jesus com a Samaritana. Foi logo no princípio da vida pública de Jesus. Nosso Senhor ia de Jerusalém para a Galileia. Tendo de percorrer grande distância, partira de manhã cedo, e, por volta do meio dia, chegara perto de Sicar, cidade da Samaria. O santo Evangelho diz-nos que  "Jesus estava cansado»; estava fatigado, como o estaríamos também nós, depois de termos feito uma grande jornada: Fatigatus ex itinere. E «sentou-se simplesmente na borda do poço» de Jacob, que havia naquele sítio: Sedebat sic supra fontem.
 Todas as ações do Verbo Incarnado se revestem de surpreendente beleza, na sua simplicidade; nada de pretencioso ou afetado; apesar de ser Deus, Jesus é igualmente, se assim me posso exprimir, muito humano, no sentido completo e nobre da palavra: Perfectus Deus, perfedus homo. Reconhecemos perfeitamente n'Ele um dos nossos.
 Senta-se, pois, na borda do poço, enquanto os discípulos vão à aldeia próxima buscar víveres. E Ele que ia fazer ali? apenas descansar? esperar que os discípulos voltassem? Não; ia em busca duma ovelha desgarrada, ia salvar uma alma.
 Nosso Senhor Jesus Cristo descera do céu para resgatar as almas: Dedit redemptionem semetipsum pro omnibus. Durante trinta anos, fora obrigado a conter o ardor daquele zelo pelas almas, que O devorava. É certo que trabalhava, sofria e orava por elas; mas não ia ao encontro delas. Agora era chegada a hora em que o Pai queria que Ele iniciasse, para as conquistar a pregação da verdade e a revelação da Sua missão. Nosso Senhor ia a Sicar para salvar uma alma predestinada desde toda a eternidade.
 E quem era essa alma? Com certeza, naquela localidade, fácil seria encontrar muitas menos corrompidas do que a pecadora que queria salvar. E, no entanto, é por ela que espera. Conhece todos os desregramentos, todas as infâmias dessa pobre mulher; e é a ela, de preferência a todas as outras, que se vai manifestar.
 Eis que chega a pecadora, com o cântaro para encher na fonte. Logo Jesus Cristo lhe dirige a palavra. E que diz? Porventura começa logo a censurá-la pelo seu mau comportamento, a falar-lhe dos castigos que merece pela sua vida desregrada? De modo algum; um fariseu era o que faria; mas Jesus procede de modo inteiramente diverso. Toma pretexto do que O rodeia para travar conversa: Da mihi bibere: « Dá-me de beber ». 
A mulher olha para Ele, espantada. Acaba de reconhecer n'Aquele que lhe dirige a palavra um judeu. Ora os judeus desprezavam os samaritanos, e estes detestavam os habitantes da Judeia; entre eles «não havia relações de espécie alguma»:  Non contuntur. «Então como é que tu me pedes de beber?» - diz a Nosso Senhor. E Ele, procurando despertar nela uma santa curiosidade, responde:  «Se conhecesses o dom de Deus»!  Si scires donum Dei!   «Se soubesses quem é que te pede de beber, tu é que lho pedirias, e Ele te daria água viva».
 Esta pobre criatura, mergulhada na vida dos sentidos, nada compreende das coisas espirituais. Cada vez mais admirada, pergunta a si mesma como é que o seu interlocutor poderia dar-lhe água, sem ter com que a tirar, e que água poderia ser melhor do que a daquele poço, onde o patriarca Jacob vinha matar a sede com os seus filhos e os seus rebanhos. 'Por acaso serás tu mais poderoso do que o nosso pai Jacob?" - pergunta ela a Jesus Cristo. Jesus insiste na resposta: "Quem beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede; terá em si uma fonte de água viva a jorrar até à vida eterna». "Ó Senhor, dá-me dessa água!» -responde a mulher. 
O Salvador faz-lhe então ver que conhece a sua vida desregrada. A pecadora, a quem a graça começa a iluminar, percebe que está em presença de alguém que lê no fundo dos corações: Propheta es tu. E logo a sua alma tocada começa a caminhar para a luz. E pergunta: "Onde é que se deve adorar a Deus, na montanha vizinha ou em Jerusalém?» Sabeis que era este um assunto de interminável disputa entre judeus e samaritanos.
 Jesus Cristo vê surgir naquela alma, no meio da sua corrupção, um vislumbre de boa vontade; é quanto basta para lhe conceder uma graça ainda maior. Porque, apenas vê retidão e sinceridade na busca da verdade, acode com a luz, e compraz-se em recompensar aquele desejo do bem e da justiça. E assim é que vai fazer àquela alma uma dupla revelação. Ensina-lhe que «é chegada a hora dos verdadeiros adoradores em espírito e verdade, procurados pelo Pai»: Pater tales quaerit qui adorent eum; manifesta-se a ela como "o Messias enviado por Deus»: Ego sum qui loquor tecum, revelação que não havia ainda feito a pessoa alguma, nem sequer aos discípulos.
 Não é extraordinário que estas duas grandes revelações tenham sido feitas primeiramente a uma miserável pecadora, cujo único título para ser objeto de tal privilégio era a necessidade da sua salvação e um pouco de boa vontade? ... 
Voltou a mulher justificada; recebera a graça e a fé. "Abandonando o cântaro», foi à cidade pregar o Messias que tinha encontrado. O seu primeiro gesto é fazer conhecer o "dom divino» que se comunicara a ela com tanta liberalidade.
 Entretanto, voltam os discípulos com os víveres. Oferecem-nos ao Mestre: Rabbi, manduca. Que lhes responde Jesus? "Tenho um alimento que vós não conheceis, que é fazer a vontade d'Aquele que me enviou»: Meus cibus est ut faciam voluntatem ejus qui misit me. E qual é a vontade do Pai? "Que todas as almas cheguem ao conhecimento da verdade que conduz à salvação».
 É para isto que trabalha Cristo Jesus. A vontade do Pai é que Jesus Lhe leve as almas que Ele quer salvar, que lhes mostre o caminho, que lhes revele a verdade e assim as conduza à vida: Omne, quod dat mihi Pater, ad me veniet, et eum qui venit ad me non ejiciam foras. Eis toda a obra de Jesus.
 A pecadora de Sicar nada tinha que a distinguisse das outras, a não ser a enormidade da sua miséria; mas era atraída a Jesus Cristo pelo Pai. O Senhor recebe-a,  ilumina-a,  santifica-a, transforma-a e fez dela sua apóstola: Et eum qui venit ad me non ejiciam foras. Porque "a vontade d'Aquele que me enviou é que não perca nenhum dos que me deu, mas que os ressuscite» para a graça, neste mundo, até que, «no último dia», os venha a ressuscitar para a glória. 
A Samaritana é uma das primeiras almas que Jesus ressuscita para a graça. Madalena é outra, e quanto mais gloriosa!
 Erat in civitate peccatrix. «Em certa povoação, vivia uma mulher de má vida». É assim que, no Evangelho, começa a sua história: pela afirmação das suas desordens. A profissão de Madalena era entregar-se ao pecado, tal como a profissão do soldado é viver sob as armas, a do politico dirigir os destinos do Estado. Os seus desregramentos eram notórios. Sete demônios, símbolo do abismo a que tinha descido, haviam escolhido a sua alma para morada. 
Um dia, Jesus é convidado para ir a casa de Simão Fariseu. Apenas se senta à mesa, logo a pecadora, com um vaso de alabastro cheio de perfume, ínrrompe pela sala do banquete. Aproximando-se de Jesus, «lança-se-Lhe aos pés, desfeita em pranto, rega-os com suas lágrimas enxuga-os com seus cabelos, beija-os e derrama sobre eles o perfume que trazia».
 Logo que a viu entrar, o fariseu, escandalizado, disse de si para consigo: 'Oh! se Ele soubesse quem é esta mulher e o que ela é, não consentiria ver a seus pés semelhante pecadora! Quae et qualis est mulier, quae tangit eum, quia peccatrix est!  Está visto que não é profeta'. «Tomando a palavra» (notai o termo respondens; o fariseu nada dissera em voz alta, mas Jesus Cristo responde ao seu pensamento íntimo), Jesus faz-lhe a pergunta que já conheceis. 'Entre dois devedores insolventes, a quem o credor perdoa as dívidas, qual deles lhe mostrará maior amor? - Aquele, responde Simão, cuja dívida for maior. - Pensaste bem, replica Jesus. - E, voltando-se para a Madalena: "Vês esta mulher?» Esta mulher, que é, realmente, uma pecadora e que, no fundo do teu coração, desprezavas, <
 Madalena, a pecadora, tornou-se o triunfo da graça de Jesus, um dos mais magníficos troféus do Seu precioso Sangue. 
Esta compaixão do Verbo Incarnado pelos pecadores é tão grande, que Ele parece, por vezes, esquecer os direitos da Sua justiça e santidade. Os inimigos de Jesus conheciam-na tão bem, que chegam até a armar-Lhe ciladas neste sentido.
 Apresentam-Lhe uma mulher adúltera. É impossível negar o crime ou diminuir-lhe a gravidade; o Evangelho diz-nos que a culpada fora surpreendida em flagrante delito. Segundo a lei de Moisés, devia ser apedrejada. Os fariseus, conhecendo a bondade de Jesus, esperam que Ele absolva aquela mulher, o que seria pôr -se em oposição ao legislador: Tu ergo, quid dicis?
 Mas, se Jesus é a bondade em pessoa, é também a Sabedoria eterna. Primeiro, nada responde à perversa insinuação dos acusadores. Estes insistem. E Nosso Senhor diz-lhes: 'Aquele de entre vós que estiver sem pecado seja o primeiro a atirar-lhe a pedra». Uma tal resposta confunde os Seus inimigos, que não têm outro remédio senão retirar-se um após outro.
 Jesus fica só com a delinquente. Acham-se em presença apenas uma grande miséria e uma grande misericórdia. E eis que a misericórdia se inclina para a miséria: "Mulher, onde estão os teus acusadores? Ninguém te condenou»? - 'Ninguém, Senhor" - «Também eu te não condeno; vai, e não tornes a pecar».
 A bondade de Jesus pareceu tão excessiva a certos cristãos da primitiva Igreja, que este episódio foi suprimido em muitos manuscritos dos primeiros séculos. Mas é bem autêntico e foi introduzido no Evangelho por vontade do Espírito Santo. 
Todos estes  exemplos da bondade do Coração de Jesus são apenas manifestações doutro amor mais elevado: o amor infinito do Pai celeste para com os pobres pecadores. Nunca esqueçamos que devemos ver no que Jesus faz como homem uma revelação do que faz como Deus, em união com o Pai e o Seu comum Espírito. Jesus recebe os pecadores e perdoa-lhes; é o próprio Deus que, sob forma humana, se inclina para eles e os recebe no seio da Sua eterna misericórdia.