30 de novembro de 2016

Tesouro de Exemplos - Parte 215

O CASTIGO NÃO TARDOU

Em Charleroi, na Bélgica, os padres jesuítas pregavam uma missão. Um jovem assistia a todos os sermões, com o único fim de os estorvar; de sorte que o pároco se viu obrigado a expulsá-lo da igreja. Então o jovem, que parecia endiabrado, arranjando uma buzina de caçador, tocava-a durante o sermão, passeando diante da igreja. Um dia, porém, quando ia começar a música, sentiu uma dor aguda e muito esquisita no pescoço, e viu-se obrigado a recolher-se à sua casa. Dois médicos chamados com urgência não souberam explicar a procedência daquele incômodo nem acertaram com nenhum remédio. O infeliz morreu naquela mesma noite no meio de horríveis sofrimentos.

29 de novembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

I

Transportemo-nos à gruta de Belém; contemplemos essa criancinha reclinada num presépio. Que é ela aos olhos dum profano, dum habitante da pequena cidade que o acaso aí levasse depois do nascimento de Jesus?
 É apenas uma criança que acaba de nascer; deve a vida a uma mulher de Nazaré; é um filho de Adão como nós, pois os seus pais o inscreveram nos registros do recenseamento; podemos seguir as circunstâncias da sua genealogia, de Abraão a David, de David a José e a sua Mãe. Mas não é mais do que um homem; ou antes, virá a ser um homem, porque, por ora, não passa duma criança, débil criança cuja vida se sustenta com um pouco de leite.
 Eis o que se mostra aos sentidos nessa criancinha estendida sobre palha. Muitos judeus nada mais viram nela. Ouvireis mais tarde os seus compatriotas, atônitos com a sua sabedoria, indagar onde a foi buscar; porque, a seus olhos, nunca passou de «filho dum carpinteiro»; Nonne hic est fabri filius?
 Mas, aos olhos da fé, a vida que anima este Menino é uma vida mais alta do que a vida humana; é a vida divina. Que nos diz a fé a este respeito? Que revelação nos faz?
 Diz-nos a fé, numa palavra, que esta criança é o próprio Filho de Deus. É o Verbo, a segunda Pessoa da adorável Trindade, é o Filho que recebe do Pai a vida divina por inefável comunicação: Sicut Pater habet vitam in semetipso,  sic dedit et Filio habere vitam in semetipso. Possui a natureza divina com todas as suas infinitas perfeições. Nos esplendores dos céus, in splendoribus sanctorum, Deus gera este Filho por uma geração eterna.
· É a esta filiação divina de Jesus Cristo no seio do Pai que, em primeiro lugar, se dirige a nossa adoração; é ela que exaltamos na Missa da meia noite. Ao romper do dia, o santo Sacrifício celebrará a Natividade de Jesus Cristo em nossas almas.
 A Missa da meia noite, toda envolta em mistério, começa por estas palavras cheias de gravidade: Dominus dixit ad me; Filius meus es tu, ego hodie genuite. Eis a exclamação que se escapa da alma de Jesus Cristo unida à pessoa do Verbo e que revela à terra, pela primeira vez,· o que os céus ouvem desde toda a eternidade: «Disse-me o Senhor: És o meu Filho, hoje te gerei». Este «hoje» é, primeiramente, o dia da eternidade, dia sem aurora nem ocaso.
 O Pai celeste· contempla agora o Filho incarnado. O Verbo, por se ter feito homem, não deixa de ser Deus; filho do homem, permanece Filho de Deus. O primeiro olhar que repousa em Jesus Cristo, o primeiro amor que o cerca, é o olhar e o amor do Pai: Diligit me Pater. Que contemplação e que amor! Jesus Cristo é o Filho único do Pai; eis a Sua glória essencial; é igual e «consubstancial ao Pai, Deus de Deus, luz de luz». «Por ele todas as coisas foram feitas e nada foi feito sem Ele». «Foi por este Filho que os séculos foram criados; sustenta todas as coisas pelo poder da Sua palavra. Foi Ele quem, no princípio, tirou do nada a terra, e os céus são obra das Suas mãos; envelhecerão como uma veste, serão mudados como uma capa; mas Ele é sempre o mesmo e os seus anos são eternos».
 E este Verbo fez -se carne: «Et Verbum caro factum est».
Adoremos o Verbo que incarnou por amor de nós: Christus natus est nobis, venite adoremus ... . Um Deus toma a nossa humanidade: concebido pela misteriosa operação do Espírito Santo no seio de Maria, Jesus Cristo é gerado da mais pura substância do sangue da Virgem, e a vida que dela recebe torna.-O semelhante a nós: Creator generis humani de virgine nasci dignatus est, et procedens homo sine semine.
 Eis o que nos diz a fé: este Menino é o Verbo de Deus incarnado; é o Criador do gênero humano, feito homem: Creator generis humani; precisa dum pouco de leite para se alimentar, Ele que sustenta as avezinhas do céu:
 Parvoque lacte pastus est
 Per quem nec eles esurit. 
Contemplai essa criancinha deitada no presépio. De olhos fechados, adormecida, exteriormente não manifesta tudo o que é: aparentemente é igual a todas as outras crianças; e, no entanto, enquanto Deus, enquanto Verbo eterno, julgava as almas que diante dele compareciam. «Como homem, está reclinado na palha; como Deus, sustenta o universo e reina nos céus»: Jacet in praesepio et in caelis regnat. Este menino que vai crescendo - Puer crescebat ... et proficiebat aetate  - é Aquele que é eterno e cuja natureza divina não conhece mudança»: Tu idem ipse es, et anni tui non deficient. Aquele que nasceu no tempo é também Aquele que existe antes de todos os tempos; Aquele que se manifesta aos pastores de Belém é Aquele que, do nada, criou as nações, «diante de quem elas são como se não existissem» .
Palamque fit pastorisbus
 Pastor creator omnium .
Como vedes, aos olhos da fé, há duas vidas nesta criança; duas vidas indissoluvelmente unidas de maneira inefável, porque a natureza humana pertence ao Verbo de tal forma que existe só uma pessoa, a do Verbo, que sustenta com Sua própria existência divina a natureza humana.
 Sem dúvida, esta natureza humana é perfeita, perfectus homo; nada lhe falta no que toca à Sua essência. Este Menino tem uma alma como a nossa, um corpo semelhante ao nosso, faculdades -inteligência, vontade, imaginação, sensibilidade - como as nossas; é, em verdade, um dos nossos, cuja existência se vai revelar, durante trinta e três anos, bem autenticamente humana. Só o pecado Lhe será desconhecido: Debuit per omnia fratribus similari absque peccato. Esta natureza humana, que é perfeita em si mesma, conservará a atividade própria, o seu esplendor de origem.
 Entre estas duas vidas de Jesus Cristo - a divina, que possui sempre por Seu nascimento eterno no seio do Pai, e a humana, que começou a possuir no tempo por Sua lncarnação no seio duma Virgem - não há mistura nem confusão. O Verbo, tornando-se homem, permanece o que é, tomando da nossa raça o que não era; mas n'Ele o divino não absorve o humano, o humano não diminue o divino. A união é tal, como vos disse muitas vezes, que há uma só e única pessoa - a pessoa divina - e a natureza humana pertence ao Verbo, é a humanidade própria do Verbo; Mirabile mysterium declara- tur hodie: innovantur naturae,  Deus homo factus est: id quod fuit permansit et quod non erat assumpsit, non commixtionem passus neque divisionem .

28 de novembro de 2016

Tesouro de Exemplos - Parte 214

O QUE PODE A NOSSA SANTA RELIGIÃO

A religião cristã é divina como divino é seu Fundador Jesus Cristo. A transformação radical, que não raro opera no espirito dos maiores delinquentes, é uma prova de sua divindade. A 24 de outubro de 1924 foi justiçado em Altford, na Suíça, um tal Clemente Bernet, condenado à morte por ter assassinado barbaramente uma menina. A sua morte foi verdadeiramente exemplar. Alguns dias antes da execução detestou o seu crime e recusou-se a pedir graça, preferindo com a morte expiar a sua culpa. Na manhã da execução Bernet confessou-se, comungou e ouviu duas missas. Chegado ao local onde estava erguida a guilhotina, pediu que lhe tirassem a venda dos olhos; em seguida, firme entre os dois sacerdotes que o assistiam, com voz clara, forte e calma declarou ter merecido aqueta morte, pois de outro modo não teria podido reparar o seu crime. Agradeceu o bom tratamento recebido na prisão e acrescentou: Sou feliz por ter encontrado o meu Deus e libertador, e de poder comparecer diante do Juiz eterno. Peço perdão e enfrento a morte com consciência, pois confesso os meus crimes dos quais me arrependo. Deus queira que todos os que se deixam induzir ao crime pensem na justiça suprema”.
Em seguida, Bernet ajoelhou-se, colocou o pescoço sob a luneta da guilhotina e exclamou: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”.

27 de novembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

V I I 

O ADMIRABILE COMMERCIUM !
 (Tempo do Natal) 

 A VINDA do Filho de Deus ao mundo é um acontecimento tão importante, que Deus quis prepará-lo durante séculos; ritos e sacrifícios, figuras e símbolos, tudo faz convergir para Jesus Cristo;anuncia-O pela boca dos profetas que se sucedem de geração em geração.
 Mas agora é o próprio Filho de Deus quem nos vem instruir: Multifaríam multisque modis olim Deus loquens patribus ... novissime locutus est nobis in Filio. 
Porque Jesus Cristo não nasceu somente para os judeus da Judeia que foram Seus contemporâneos; foi para todos nós, por amor de todos os homens, que desceu do céu: Propter nos et propter nostram salutem descendit de caelis. A graça que mereceu por Sua natividade, quer distribuí-la por todas as almas.
 Por essa razão, a Igreja, guiada pelo Espírito Santo, apropriou-se dos anseios dos patriarcas, das aspirações dos antigos justos, dos votos do povo eleito, para os colocar em nossos lábios e com eles encher os nossos corações; quer preparar-nos para a vinda de Jesus Cristo, como se esta novidade se fosse renovar sob os nossos olhos.
 Assim, vede como, ao comemorar a vinda do seu divino Esposo ao mundo, a Igreja desenvolve o esplendor das suas pompas, como faz resplandecer o brilho das suas luzes para celebrar o nascimento do «Príncipe da Paz, do Sol de Justiça», que desponta «no meio das nossas trevas para iluminar todo o homem» que vem a este mundo; concede aos sacerdotes o privilégio, quase único no ano, de oferecer três vezes o santo sacrifício da Missa.
 Se estas festas são magníficas, são também cheias de encanto. A Igreja evoca a lembrança dos Anjos que cantam nos ares a glória do recém-nascido; dos pastores, almas simples, que vêm adorá-Lo no presépio; dos Magos que acodem do Oriente para Lhe render os seus preitos e oferecer-Lhe ricos presentes. 
E, no entanto, como toda a festa neste mundo, esta solenidade, mesmo com o prolongamento da sua oitava, é efêmera; passa. Seria para uma festa dum dia, por esplêndida que fosse, que a Igreja reclamaria de nós tão longa preparação? Certamente que não! Qual então o motivo? É porque sabe que a contemplação deste mistério contém para nossas almas uma graça especialíssima.
 Disse-vos, ao encetar estas conferências, que todo o mistério de Jesus Cristo não constitui apenas um fato histórico que se realizou no tempo, mas encerra também uma graça própria, de que se devem alimentar as nossas almas para dela viverem. 
Ora, qual é a graça intima do mistério da Natividade? Que graça é essa, para cuja recepção a Igreja tanto se esmera em nos preparar? Que fruto devemos colher da contemplação de Jesus Menino?
 A própria Igreja no-lo indica na primeira Missa, da meia-noite. Depois de ter oferecido o pão e o vinho, que dentro de alguns instantes serão transformados, pela consagração, no corpo e no sangue de Jesus Cristo, resume os seus votos nesta oração: «Dignai-Vos aceitar, Senhor, a oblação que Vos apresentamos na solenidade deste dia e fazei, por Vossa graça, que por meio desta permuta santa e sagrada, nos tornemos participantes da Divindade, à qual pelo Verbo, está unida a nossa substância humana.
 Pedimos para ter parte nessa Divindade a que está unida a nossa humanidade. Produz-se uma espécie de troca; Deus, ao incarnar, toma a nossa natureza humana; dá-nos, em paga, uma participação da Sua natureza divina.
 Este pensamento, tão conciso na Sua forma, é mais claramente expresso no mesmo lugar da segunda Missa: «Fazei, Senhor, que as nossas oferendas sejam conformes aos mistérios da Natividade que hoje cantamos, afim de que, como o Infante que acaba de nascer na natureza humana se manifesta igualmente Deus, assim esta substância terrena (que Ele a Si une) nos comunique o que n'Ele é divino». 
Tornar-nos participantes da Divindade a que foi unida a nossa humanidade na pessoa de Jesus Cristo e receber esse dom divino por esta mesma humanidade, tal é a graça ligada à celebração do mistério deste dia.
 Como vedes, é um comércio humano divino; o Menino que hoje nasce é ao mesmo tempo Deus, e a natureza humana que Deus toma de nós deve servir de instrumento para nos comunicar a Sua Divindade: Sicut homo genitus idem refulsit et Deus sic NOBIS haec terrena substantia CONFERAT quod DIVINUM est. As nossas ofertas serão «conformes aos mistérios significados pelo nascimento deste dia», se, pela contemplação da obra divina em Belém e pela recepção do Sacramento eucarístico, participarmos da vida eterna que Jesus Cristo nos quer comunicar pela Sua Humanidade. «Ó admirável comércio! cantaremos no dia da oitava. O Criador do gênero humano, revestindo um corpo e uma alma, dignou-se nascer duma Virgem e, aparecendo na terra como homem, fez-nos participar da Sua Divindade»: O admirabile commercium ! CREATOR generis humani, ANIMATUM CORPUS SUMENS, de virgine nasci dignatus est: et procedens homo sine semine, LARGITUS EST NOBIS SUAM DEITATEM. 
Demoremo-nos, pois, alguns instantes a admirar, com a Igreja, esta permuta entre a criatura e o Criador, entre o céu e a terra, permuta que constitui todo o fundo do mistério da Natividade. Consideremos os seus atos e a sua matéria; sob que forma se realiza: veremos em seguida quais os frutos que poderemos tirar dele e quais as obrigações que daí derivam para nós. 

26 de novembro de 2016

Tesouro de Exemplos - Parte 213

O CRUCIFIXO EM TODAS AS SALAS

A imagem de Jesus crucificado sempre mereceu um lugar de honra nos lares e escolas, porque ele é o Mestre por excelência. Há umas duas ou três dezenas de anos os estudantes da Escola Politécnica de Lemberg, cidade da Polônia, fizeram questão que a imagem do Crucificado fosse colocada em todas as salas de aula. Um belo gesto que merece ser imitado.

25 de novembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

IV

Quais são essas disposições? Podem resumir-se em quatro.
Pureza  de  coração.  Vejamos: quem estava mais bem preparado para a vida do Verbo lncarnado à
terra? Era, sem dúvida, a Virgem Maria. No momento em que o Verbo veio ao mundo, achou o coração desta Virgem perfeitamente preparado e capaz de receber as liberalidades divinas de que a queria cumular. E quais eram as disposições desta alma?
Com certeza as possuía todas, e no mais alto grau de perfeição. Uma, porém, resplandece nela com brilho particular: a sua pureza virginal. Maria é Virgem : preza tanto a sua virgindade, que chama para ela a atenção do Anjo, quando este lhe propõe o mistério da Maternidade divina.
Não somente ela é Virgem, mas a sua alma é sem mácula. A Liturgia revela-nos que o desígnio de Deus, ao conceder a Maria o privilégio único da Imaculada Conceição, era «preparar para o Verbo uma morada digna d'Ele» : Deus qui per immaculatam Virginis  conceptionem, dignum Filio tuo  HABITACULUM PRAEPARASTI . Maria devia ser a Mãe de Deus : e esta dignidade eminente exigia que ela fosse, não somente Virgem, mas que a sua pureza fosse maior do que a dos Anjos e
fosse um reflexo dos santos esplendores em que o Pai gera o Filho: In spendoríbus sanctorum . Deus é santo, três vezes santo ; os Anjos, os Arcanjos, os Serafins cantam essa pureza infinita: Sanctus, Sanctus, Sanctus.  O seio de Deus, de brilho imaculado, é a morada natural do Filho único de Deus : o Verbo está sempre in sinu Patrís: mas, incarnando, quis também, por inefável condescendência, ser in sinu Virginis Matris; era mister que o tabernáculo que lhe oferecia a Virgem Lhe lembrasse, por sua pureza incomparável, o seio eterno onde, como Deus, vive sempre: Christi sinus erat in Deo Patre divinitas, in Maria Matre virginitas.
A primeira disposição que atrai Jesus Cristo é uma grande pureza. Nós, porém, pecadores que somos, não podemos oferecer ao Verbo, a Jesus, essa pureza imaculada que ELE tanto ama.  O  que poderá substituí-la em nós? A humildade.
Deus possui em Seu seio o Filho das Suas complacências,  mas aperta também ao seio outro filho - o filho pródigo.  É o próprio Nosso Senhor quem no-lo diz. Quando, depois de seus desvarios, o filho pródigo volta para seu pai, se humilha no pó e reconhece que é miserável e indigno, imediatamente, sem uma censura, o pai o recebe nas entranhas da sua misericórdia:  Misericordia motus.
Não esqueçamos que o Verbo, o Filho, só quer o que o Pai quer ; se Ele incarna e aparece no mundo, é para procurar os pecadores  e  levá-los de novo ao Pai: Non veni vocare justos sed  peccatores.  Isto é tão verdade que Nosso Senhor, mais tarde, com grande escândalo dos fariseus, andará na companhia dos pecadores, sentando-se  à  mesma mesa com eles, e permitirá que a Madalena Lhe beije os pés e Lhos regue com as suas lágrimas.
Se não temos a pureza da Virgem Maria, peçamos ao menos a humildade da Madalena. o amor da contrição  e  da penitência.  <<Ó  Jesus, eu não sou digno de que entreis em mim : o meu coração não será para Vós morada de pureza ; a miséria habita nele, mas eu reco­nheço e confesso essa miséria : vinde libertar-me dela.  ó Vós que sois a verdadeira  misericórdia ;  vinde liber­-tar-me, ó Vós que sois a omnipotência» ! Veni ad líbe ..
randum nos, Domine Deus virtutum !  Semelhante oração, de par com o espírito de penitência, atrai Jesus Cristo, porque a humildade que se abaixa no seu nada presta homenagem  à  bondade e ao poder de Jesus:  Et eum, qui venit ad me, non ejicíam foras.
Todavia, a consideração das nossas enfermidade não nos deve desanimar, pelo contrário. Quanto mais sentirmos a nossa fraqueza, tanto mais devemos abrir a nossa alma  à  confiança,  porque a salvação vem unicamente de Jesus Cristo.
Pusillanimes, confortamini et nolite timere, ecce Deus noster veniet et salvabit nos :  «Vós que tendes  o  coração atribulado, cobrai ânimo, não temais : eis aí Deus, o  nosso  Deus, que nos vem salvar». Vede a confiança dos judeus no Messias. Para eles, o Messias era tudo; n'Ele se resumiam todas as aspirações de Israel. todos os votos do povo, todas as esperanças da raça : contemplá-Lo devia contentar toda a ambição ; e ver o estabelecimento do Seu reino devia satisfazer todos os
anelos. Por isso, vede como eram impacientes e cheios de confiança os desejos dos judeus: «Vinde, Senhor, não tardeis»: <
Com quanto maior razão se verifica isto para nós que possuímos Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Oh! se compreendêssemos bem o que é a santa Humanidade de Jesus, teríamos nela confiança inquebrantável ; nela residem todos os tesouros de ciência e de sabedoria ; nela habita a própria Divindade : esse Homem Deus que vem a nós, é o Emmanuel, é «Deus conosco», é nosso irmão mais velho. O Verbo desposou a nossa natureza ; tomou sobre Si as nossas enfermidades para experimentar o que é o sofrimento : vem a nós para que tomemos parte na Sua vida divina ; possui todas as graças que podemos esperar, e possui-as em plenitude para no-las conceder.
Eram magníficas as promessas que, pela voz dos profetas, Deus fazia ao Seu povo para excitar nele o desejo do Messias. Muitos judeus, porém, entendiam essas promessas no sentido material e grosseiro dum reino temporal e político. As graças prometidas aos judeus que esperavam o Salvador eram apenas a imagem das riquezas sobrenaturais que temos em Jesus Cristo ; a  maior parte dos israelitas viviam de símbolos terrenos ; nós vivemos da realidade divina. isto é, da graça de Jesus. A Liturgia do Advento fala-nos, sem cessar, da misericórdia. da redenção, da salvação, da liberdade, da luz, da abundância, da alegria, da paz: «Eis que o Senhor vai chegar: no dia do Seu nascimento, o mundo será inundado de luz : exulta, pois, de alegria, Jerusalém, porque o teu Salvador vai aparecer»; «a paz inundará a nossa terra quando Ele se mostrar». Jesus Cristo traz consigo todas as bênçãos que possam encher uma alma.  Cum illo omnia no bis donavit .
Deixemos, pois, os nossos corações abandonarem-se, com absoluta confiança Àquele que vai chegar. Seremos deveras agradáveis ao Pai, crendo que Seu Filho Jesus pode tudo para a santificação das nossas almas. Proclamamos assim que Jesus é Seu igual e que o Pai «tudo Lhe entregou». Uma tal confiança não pode ser frustada. Na Missa do primeiro Domingo do Advento,
a Igreja chega a no-lo garantir por três vezes: «Aqueles que em Vós esperam, Senhor, não serão confundidos» :  Qui te exspectant non confundentur.
Esta confiança manifestar--se-á sobretudo em  desejos ardentes de ver Jesus Cristo em nós para reinar mais ainda:  Advenia:t regnum tuum !  A Liturgia desenvolve em nós estes desejos. Ao mesmo tempo que põe diante dos nossos olhos e nos faz reler as profecias, sobretudo as de Isaías, a Igreja leva aos nossos lábios as aspirações e anelos dos antigos justos. Ela quer ver-nos preparados para a vinda de Jesus Cristo às nossas almas, assim como Deus queria que os judeus estivessem dispostos para receber o Seu Filho: «Enviai, Senhor, Aquele que prometestes. Vinde, Senhor, vinde perdoar os pecados do Vosso povo ! Senhor, manifestai a Vossa misericórdia e fazei aparecer o autor da nossa salvação!  Vinde libertar- nos, Senhor, Deus todo poderoso!  Excitai o Vosso poder e vinde».
A Igreja faz-nos constantemente repetir estas aspirações, faça-mo-las nossas, apropriemo-nos delas com fé e Jesus Cristo nos enriquecerá com as Suas graças.
Sabeis muito bem que Deus é senhor dos Seus dons , Ele é soberanamente livre e ninguém pode pedir­-Lhe contas das Suas preferências, mas,  na aplicação ordinária da Sua Providência. «Ele guia.-se pelas súplicas dos humildes que Lhe expõem as suas necessidades» : Desiderium pauperum exaudivit Dominus.  Jesus Cristo dá-se na medida do desejo que temos de O receber  e os desejos aumentam a capacidade da alma  que os exprime:  Dilata os tuum,  et  implebo illud .
Portanto, se queremos que a celebração da Nativi­dade de Jesus proporcione grande glória à Santíssima Trindade, que seja uma consolação para o Coração do Verbo Incarnado, uma fonte de abundantes graças para a Igreja e para nós, procuremos purificar os nossos corações, tenhamos uma humildade cheia de confiança, e sobretudo dilatemos a nossa alma pela grandeza e veemência dos nossos desejos.
Peçamos também à Virgem Maria que nos faça participar dos sentimentos que a animavam durante os dias abençoados que precederam o nascimento de Jesus.
A Igreja quis - e nada mais justo- que a Liturgia do Advento estivesse cheia do seu pensamento ; faz-nos sem cessar cantar a «divina fecundidade duma Virgem, fecundidade admirável que enche de pasmo a natureza» : Tu quae genuístí, natura mirante, tuum sanctum genitorem, virgo prius ac  posterius .
O  seio virginal de Maria era um santuário imaculado, donde ela fazia subir o incenso puríssimo da sua adoração e das suas homenagens.
É  verdadeiramente inefável a vida interior da Santíssima Virgem durante aqueles dias. Vivia em união íntima com o Menino Deus que trazia no seio. A alma de Jesus estava, pela visão beatífica, mergulhada na luz divina ; essa luz irradiava sobre a Mãe : Maria aparecia, na verdade, aos olhos dos Anjos, como «a mulher revestida do sol» :  Mulier amicta sole,  irradiando as claridades celestes, resplandecendo com os raios de luz de seu Filho. Quanto os seus sentimentos estavam
à  altura da sua fé ! Como ela resumia bem em si - mas excedendo tudo, conferindo a tudo, pela pureza e intensidade dos movimentos da alma, um valor que nunca tinham atingido - todas as aspirações, todos os anelos, todos os votos da humanidade, na expectativa do seu Salvador e seu Deus !  Que santo ardor em seus desejos ! Que certeza inquebrantável na sua confiança ! Que
zelo no seu amor ! 
Esta humilde Virgem é a rainha dos patriarcas, pois é da sua descendência, e o Filho que deve dar
à luz é Aquele que resume em Sua pessoa toda a magnificência das antigas promessas.
É  também a rainha dos profetas, porque deve gerar o  Verbo de que falavam todos os profetas, porque seu Filho realizará todas as profecias e anunciará por Si mesmo a todos os povos «a boa nova da Redenção» .
Peçamos-lhe humildemente que nos faça partilhar das suas disposições. Ela ouvirá a nossa prece : teremos a alegria imensa de ver Jesus Cristo nascer de novo em nossos  corações, pela comunicação duma graça mais abundante, e poderemos, como a SSma Virgem, posto que em menor escala, apreciar a verdade destas pala­vras de S. João:  «0  Verbo era Deus. ..  E  o Verbo se
fez  carne  e  habitou entre nós : vimo-Lo  cheio de graça e da Sua plenitude todos nós recebemos - graça sobre graça».

24 de novembro de 2016

Tesouro de Exemplos - Parte 209 a 212

O AMOR A JESUS CRUCIFICADO

1. A venerável Margarida do SS. Sacramento, na idade de sete anos, já frequentava a escola das Ursulinas. Durante a aula, sem que alguém o notasse tomava o crucifixo do rosário de sua mestra, apertava-o ao coração e, de vez em quando, beijava-o com amor.

2. S. Tomás de Aquino perguntou um dia a S. Boaventura de onde tirava ele .aqueles tesouros de ciência espirituais de que estavam cheios os seus escritos. São Boaventura, apontando para o Crucifixo que estava sobre a sua mesa de trabalho, disse: “Esta é a minha biblioteca!” Realmente, os primeiros religiosos de S. Francisco não tinham bibliotecas, mas uma grande Cruz, aos pés da qual se reuniam para meditar e orar; e era dali que partiam a pregar e converter os pecadores.

3. Era costume de S. Paulo da Cruz ter o Crucifixo sempre diante dos olhos, quando, em sua cela, orava, lia ou escrevia. Quando saia de casa levava sempre o crucifixo sobre o peito. Quando estiverdes no vosso quarto — escrevia ele — tomai o Crucifixo, beijai-lhe as sagradas chagas com grande afeto, e dizei-lhe que vos faça algum pequeno sermão. Escutai o que vos dizem aqueles cravos, aquele sangue divino. Oh! que sermão!”

4. S. Afonso, contemplador assíduo e amantíssimo de Jesus Crucificado, dizia: “Quando se tem nas mãos o Crucifixo, já não se quer descer da cruz. Quem contempla as chagas de Jesus esquece as próprias feridas. Oh! como é belo morrer abracado à Cruz!”

23 de novembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

III

Temos a felicidade de crer nesta luz que vai doravante «iluminar todo o homem que vem a este mundo»; vivemos ainda na bem aventurada «plenitude dos tempos» : não estamos, como os Patriarcas, privados de ver o reino do Messias. Se não somos do número dos que contemplaram Cristo em pessoa, ouviram as Suas palavras  e  O viram passar fazendo o bem por toda a
parte, temos a ventura insigne de pertencer «às nações de que David cantou que seriam a herança de Jesus Cristo».
E, no entanto, o Espírito Santo que dirige a Igreja e é o principal autor da nossa santificação, quer que todos os anos a Igreja consagre um período de quatro semanas para avivar a lembrança da admirável duração das preparações divinas e empregue todos os meios para que as nossas almas se conservem nas disposições interiores em que viviam os judeus fiéis, à espera do Messias.
Diz-me- eis talvez: «Essa preparação para a vida de Jesus Cristo, esses desejos, essa expectativa, tudo isso era excelente para as almas dos justos que viviam no Antigo Testamento : agora, porém, que Jesus Cristo veio, para que é precisa essa atitude que parece não corresponder à verdade»?
Por muitas razões.
Primeiramente, Deus quer ser louvado e glorificado em todas as Suas obras.
De fato, todas têm o cunho da Sua infinita sabedoria:  Omnia in sapientia fecisti: todas são admiráveis, tanto em suas preparações como na sua realização. E isto é ainda mais verdadeiro tratando-se das que têm por fim direito a glória do Seu Filho, porque «a vontade do Pai é que o Seu Filho seja louvado para sempre». Deus quer que admiremos as Suas operações e Lhe agradeçamos o ter assim preparado, com tanta sabedoria e poder, o reinado do Seu Filho entre nós. Penetramos nos pensamentos divinos, quando recordamos as profecias e promessas da Antiga Aliança.
Depois, Deus quer que encontremos nestas preparações uma confirmação da nossa fé.
Se deu tantos sinais, tão diversos e tão exatos, tantas profecias, tão numerosas e tão claras, é para que reconheçamos como Seu Filho Aquele que as realizou na Sua pessoa.
Vede como, no Evangelho, o próprio Nessa Senhor convidava os Seus discípulos a esta contemplação:  Scru­tamini Scripturas:  «Examinai a fundo as Escrituras», lhes dizia ( as Escrituras  eram, então, os livros do Antigo Testamento) examinai-as bem, vereis que estão cheias do meu nome: porque «tudo o que foi escrito de mim nos salmos e nos profetas, tudo deve ser cum­prido»:   Necesse est impleri omnia quae scripta sunt in prophetis et psalmis de me.  Logo depois da Ressurreição, ainda O veremos explicar aos discípulos de Emaús, para lhes fortalecer a fé e dissipar  a  tristeza, o que as Escrituras diziam d'Ele, «começando em Moisés, e percorrendo todos os profetas»:  Et incipiens a Moyse et omnibus prophetis. interpretabatur illis in omnibus scripturis quae de ipso erant . - Assim que, quando lemos as profecias que a Igreja nos apresenta durante o
Advento, digamos com toda a nossa fé, como os primeiros discípulos de  Jesus: «Achamos Aquele que os profetas anunciaram>>. Diga-mo-lo ao próprio  Jesus Cristo: «Sim, Vós sois, na verdade, Aquele que há de vir : nós o cremos e Vos adoramos, a Vós que, para salvar o mundo, Vos dignastes incarnar  no seio duma Virgem»: Tu ad liberandum suscepturus hominem non honrruisti
virginis uterum .
Esta profissão de fé agrada sobremaneira  a  Deus ; não nos cansemos de a repetir. Nosso Senhor poderá dizer-nos como aos Apóstolos: «Meu Pai ama-vos, porque acreditastes que sou o Seu enviado».
Há, enfim, uma terceira razão, mais profunda e mais íntima ;  Jesus Cristo não veio especialmente para os habitantes da  Judeia, Seus contemporâneos, mas para todos nós, para todos os homens, para os homens de to­das as nações e de todos os séculos. Não cantamos nós no  Credo : Propter  NOS  et propter  NOSTRAM  salutem descendit de caelis?  A «plenitude dos tempos», não está
ainda encerrada ; durará enquanto houver eleitos para salvar.
Foi somente à Igreja que Jesus Cristo, depois da Sua Ascensão, deixou a missão de O gerar nas almas. «Sois meus filhos, dizia S. Paulo, o apóstolo de Jesus Cristo no meio das nações : eu vos gero em Jesus Cristo, para que Ele seja formado em vós». A Igreja, guiada nisto pelo Espirito Santo que é o Espírito de Jesus, tra­balha nesta obra, fazendo-nos contemplar em cada ano o mistério do seu divino Esposo. Pois, como vos disse ao iniciar estas conferências, todo o mistério de Jesus Cristo é vivo ; é, não somente uma realidade histórica cuja lembrança recordamos, mas uma solenidade que contém em si mesma uma graça própria, uma virtude especial que deve fazer-nos viver a própria vida de Jesus Cristo, de quem somos os membros, e compartilhar de todos os Seus estados.
Ora a Igreja celebra no Natal a natividade do seu divino Esposo : tamquam sponsus procedens de  thalamo suo :  e nas semanas do Advento quer preparar-nos para a graça da vinda de Jesus Cristo a nós.  É  um advento todo interior e misterioso que se faz na fé, mas que é muito fecundo.
É  verdade que Jesus Cristo  já  vive em nós pela graça santificante que nos faz nascer filhos de Deus; mas a Igreja quer que esta graça se renove e que viva­mos uma vida nova, mais livre do pecado, que sejamos menos imperfeitos, mais desprendidos de nós mesmos e das criaturas:  Ut nos Unigeniti tui nova per carnem nativitas liberet quos sub peccati jugo vetusta servítus tenet : quer principalmente fazer-nos compreender que Jesus Cristo, em paga da humanidade que recebe de nós, far-nos-á quinhão da Sua Divindade e nos tomará para Si mais completamente, mais inteiramente, mais perfeitamente: será como que a graça dum novo nascimento divino em nós:  Ut tua gratia largiente,per haec sacrosancta commercia, in illíus inveniamur forma, in quo tecum est nostra substantia.
Foi esta graça que nos mereceu o Verbo Incarnado com o Seu nascimento em Belém ; mas, se é verdade que Ele nasceu, viveu e morreu por todos nós - Pro omni­bus mortuus est Christus - também é verdade que a aplicação dos Seus merecimentos e a dispensação das Suas graças se realiza em cada alma na medida dessas disposições.
Não participaremos das graças tão abundantes que nos traz a Natividade de Jesus Cristo, senão na medida das nossas disposições. A Igreja sabe-o perfeitamente ; por isso, nada descura para que as nossas almas tenham essa atitude interior que a vinda de Jesus delas reclama. Não somente a Igreja nos diz pela voz do Precursor: «Preparai os caminhos», porque «Ele está próximo»: Prope est jam Dominus;  mas como Esposa atenta aos desejos do Esposo, como mãe preocupada com o bem estar dos seus filhos, lembra-nos e dá-nos os meios de realizar essa preparação necessária. Transporta-nos, para assim dizer, à Antiga Aliança para que nos apropriemos, num sentido todo sobrenatural, dos sentimentos dos judeus fiéis que suspiravam pela vinda do Messias.
Se nos deixarmos guiar por ela, as nossas disposições serão perfeitas e a solenidade do nascimento de Jesus produzirá em nós todos os frutos de graça, de luz e de vida.