21 de maio de 2014

Preparação para a Morte

PONTO II
 
Aquele que entrar uma vez no inferno jamais sairá de lá. A este pensamento o rei David exclamava trêmulo: “Não me trague o abismo, nem o poço feche sobre mim a sua boca” (Sl 68,16). Apenas um réprobo cai naquele poço de tormentos, fecha-se sobre ele a entrada para nunca mais se abrir. No inferno só há porta para entrar e não para sair, disse Eusébio Emiseno; e explicando as palavras do salmista escreve: “O poço não fecha a sua boca, porque se fechará a abertura em cima e se abrirá em baixo para devorar os réprobos”. Enquanto vivo, o pecador pode ter alguma esperança, mas, se a morte o surpreender em pecado, perderá toda a esperança (Pr 11,7). Se os condenados pudessem ao menos embalar-se em alguma enganosa ilusão que aliviasse o seu desespero horrível!... O pobre enfermo, ferido e prostrado em seu leito, desenganado dos médicos, talvez se iluda a respeito de seu estado, pensando que encontre algum médico ou remédio novo que o possa curar. O infeliz delinqüente, condenado à prisão perpétua, também procura alívio em seu pesar na esperança remota de evadir-se e desta maneira obter a liberdade... Conseguisse sequer o condenado iludir-se assim, pensando que algum dia poderia sair da sua prisão!... Mas não; no inferno não há esperança, nem certa nem provável; não há até um quem sabe? consolador (Sl 49,21). O desgraçado réprobo verá sempre diante de si a sentença que o obriga a gemer perpetuamente nesse cárcere de sofrimentos. “Uns para a vida eterna, e outros para o opróbrio que terão sempre diante dos olhos” (Dn 12,2). O réprobo não sofre somente a pena de cada instante, mas a cada instante a pena da eternidade.
“O que agora sofro, dirá, hei de sofrê-lo sempre”. “Gemem os condenados, diz Tertuliano, sob o peso da eternidade”.
Dirijamos, pois, ao Senhor a súplica que lhe fazia Santo Agostinho: “Queimai, cortai e não nos poupeis aqui, para que sejamos perdoados na eternidade”. Os castigos da vida presente são transitórios: “As tuas setas passam. A voz do teu trovão rolou” (Sl 76,19). Mas os castigos da outra vida nunca têm fim. Tema-mo-los, pois. Temamos a voz do trovão com que o Supremo Juiz pronunciará, no dia do juízo, sua sentença contra os réprobos. “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno”. Diz a Escritura in rota, porque a roda é símbolo da eternidade, que não tem fim. Grande é o castigo do inferno, porém o que mais nos deve assustar é ser irrevogável (Ez 21,5).
Dirá, porém, o incrédulo: Onde está a justiça de Deus ao castigar com pena eterna um pecado que dura um instante?... E como, responderemos, como se atreve o pecador, por um prazer momentâneo, a ofender um Deus de majestade infinita? “Até a justiça humana, disse São Tomás, mede a pena, não pela duração, mas pela qualidade do crime. Não é porque o homicídio se cometa em um momento que se há de castigar também com pena momentânea”. Para o pecado mortal, um inferno é pouco. A ofensa feita à Majestade infinita deve merecer castigo infinito, diz São Bernardino de Sena. Mas como a criatura, escreve o Doutor Angélico, não é capaz da pena infinita em intensidade, é com justiça que Deus torna a pena infinita em duração.
Além disso, a pena deve ser necessariamente eterna, porque o réprobo jamais poderá prestar satisfação por sua culpa. Nesta vida, o pecador penitente pode satisfazer pela aplicação dos merecimentos de Jesus Cristo; mas o condenado não participa desses méritos, e, portanto, não podendo por si satisfazer a Deus, sendo eterno o pecado, eterno também deve ser o castigo (Sl 48,8-9). “Ali a culpa — disse o Belluacense — poderá ser castigada, mas jamais expiada” (Lib. II, 3p), porque, segundo Santo Agostinho, “ali o pecador é incapaz de arrependimento”.
O Senhor, portanto, estará sempre irado contra ele (Ml 1,4). E ainda que Deus quisesse perdoar ao réprobo, este não aceitaria a reconciliação, porque sua vontade obstinada e rebelde está confirmada no ódio contra Deus. Disse Inocêncio III: “Os condenados não se humilharão; pelo contrário, crescerá neles a perseverança do ódio”. São Jerônimo afirma que “nos réprobos, o desejo de pecar é insaciável” (Pr 27,20). A ferida de tais desgraçados é incurável; porque eles mesmos recusam a cura (Jr 15,18).
 
AFETOS E SÚPLICAS
 
Se atualmente estivesse condenado, como tantas vezes mereci, encontrar-me-ia obstinado no ódio contra vós, meu Redentor e meu Deus, que destes a vida por mim. Ó Senhor, quão terrível seria o inferno em que deveria aborrecer-vos, a vós que tanto me tendes amado, que sois beleza e infinita bondade, digna de infinito amor! Se estivesse no inferno, ver-me-ia em estado tão triste, que nem quisera o perdão que agora me ofereceis!... Agradeço-vos, meu Jesus, a clemência que comigo tivestes. Já que ainda me é permitido amar-vos e esperar perdão, desejo reconciliar-me convosco e quero amar-vos... Ofereceis-me o perdão, e eu vo-lo peço e espero alcançá-lo pelos vossos merecimentos infinitos. Arrependo-me, Suma Bondade, de todas as ofensas que vos fiz. Perdoai-me, Senhor... Que mal me fizestes para que vos houvesse de aborrecer para sempre como meu inimigo?... Qual o amigo que haja feito e sofrido por mim o que vós, meu Jesus, fizestes e sofrestes?... Não consintais que incorra em vosso desagrado e perca o vosso amor. Antes morrer mil vezes do que cair em tal desgraça!...
Ó Maria, abrigai-me com o vosso manto, e não permitais que saia de baixo dele para rebelar-me con-tra Deus e contra vós!

20 de maio de 2014

Preparação para a Morte

CONSIDERAÇÃO XXVII
 
Da eternidade do inferno
Et ibunt hi in supplicium aeternum. E estes irão para o suplício eterno (Mt 25,46).
 
PONTO I
 
Se o inferno não fosse eterno, não seria inferno. A pena que dura pouco, não é grande pena. Se a um doente se rompe um abscesso ou queima uma ferida, não deixará de sentir dor vivíssima; como, porém, esta dor passa em breve não se pode considerá-la como tormento grave.
Seria, porém, grande suplício, se a intervenção cirúrgica perdurasse semanas ou meses. Quando a dor é intensa, ainda que seja breve, torna-se insuportável. E não apenas as dores, até os prazeres e as diversões, prolongando-se em demasia, um teatro, um concerto, continuando, sem interrupção, durante muitas horas, causaria tédio insofrível.
E se durassem um mês, um ano? Que será, pois, no inferno, onde não é música, nem teatro que sempre se ouve, nem leve dor que se padece, nem ligeira ferida ou superficial queimadura de ferro candente que atormenta, mas o conjunto de todos os males, de todas as dores não em tempo limitado, mas por toda a eternidade? (Ap 20,10).
Esta eternidade é de fé; não é simples opinião, mas sim verdade revelada por Deus em muitos lugares da Sagrada Escritura. “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno. — E irão estes ao suplício eterno. — Pagarão a pena de eterna perdição. Todos serão assolados pelo fogo” (Mt 25,41.46; 2Ts 1,8; Mc 9,48). Assim como o sal conserva o alimento, o fogo do inferno não só atormenta os condenados, mas, ao mesmo tempo, tem a propriedade do sal, conservando-lhes a vida. “Ali o fogo consome de tal modo — disse São Bernardo — que conserva sempre”.
Insensato seria aquele que, para desfrutar um dia de divertimentos, quisesse condenar-se a uma prisão de vinte ou trinta anos num calabouço! Se o inferno durasse, não cem anos, mas apenas dois ou três, já seria loucura incompreensível que por um instante de prazer nos condenássemos a esses dois ou três anos de tormento gravíssimo.
Mas não se trata de trinta nem de cem, nem de mil, nem de cem mil anos, trata-se de sofrer para sempre penas terríveis, dores sem fim, males incalculáveis sem alívio algum. Portanto, os santos gemiam e tremiam com razão, enquanto subsistia, com a vida neste mundo, o perigo de se condenarem. O bem-aventurado Isaías, posto que passasse os dias no deserto entre jejuns e penitências, exclamava: “Infeliz de mim, que ainda não estou livre das chamas infernais”.
 
AFETOS E SÚPLICAS
 
Se me tivésseis lançado no inferno, meu Deus, como tantas vezes mereci, e depois me tirásseis de lá em virtude da vossa grande misericórdia, quanto vos seria agradecido e que vida santa procuraria eu levar!...
E agora que, com clemência ainda maior, me tendes preservado da condenação eterna, que direi, Senhor? Tornarei a vos ofender e provocar a vossa ira a fim de que me condeneis àquele cárcere dos réprobos, onde tantos ardem por culpas menores que as minhas? Ah, meu Redentor, é o que fiz na vida passada! Em vez de empregar o tempo que me destes para chorar meus pecados, abusei dele para vos ofender.
Agradeço à vossa infinita bondade o ter-me aturado tanto tempo.
Se não fosse infinita, como houvera tolerado meus delitos? Agradecido, por me terdes esperado com tanta paciência até agora; agradecido, pela luz com que me iluminais, a fim de que reconheça minha demência e o mal que cometi, ofendendo-vos com meus pecados. Detesto-os, meu Jesus, e de todo o coração me arrependo. Perdoai-me, pela vossa sagrada paixão e morte; assisti-me com vossa graça para que jamais torne a ofender-vos. Devo temer, com razão, que, em caso de cometer novo pecado mortal, me abandonareis. Senhor, ponde diante de meus olhos esse temor justo, sempre que o demônio me provocar a ofender-vos.
Amo-vos, meu Deus, e não quero perder-vos. Ajudai-me com vossa divina graça.
Auxiliai-me também, Virgem Santíssima; fazei que sempre me valha de vós nas minhas tentações, a fim de que nunca mais perca o meu Deus. Ó Maria, vós sois a minha esperança.

19 de maio de 2014

Preparação para a Morte

PONTO III
 
Todas as penas referidas nada são em comparação com a pena do dano. As trevas, a infecção, o pranto, as chamas não constituem a essência do inferno. O verdadeiro inferno é a pena de ter perdido a Deus! Dizia São Bruno: “Multipliquem-se os tormentos, contanto que não se prive de Deus”. E São João Crisóstomo: “Se disseres mil infernos de fogo, nada dirás comparável à dor daquele”. Santo Agostinho acrescenta que, se os réprobos gozassem da visão de Deus, “não sentiriam tormento algum, e o próprio inferno se converteria em paraíso”.
Para compreender algo desta pena, consideremos: Se alguém perde, por exemplo, uma pedra preciosa que valha cem escudos, sentirá grande mágoa; mas se esta pedra valesse duzentos, muitos mais sentiria.
Portanto: quanto maior é o valor do objeto que se perde, tanto mais se sente a pena que ocasiona a perda... E como os réprobos perdem o bem infinito, que é Deus, sentem — como diz São Tomás — uma pena dalgum modo infinita.
Neste mundo somente os justos temem esta pena, disse Santo Agostinho. Santo Inácio de Loiola exclamava: “Senhor, tudo sofrerei, mas nunca de ficar privado de vós”. Os pecadores não fazem caso desta grande perda, porque vivem largos anos sem Deus, mergulhados em trevas. Na hora da morte, entretanto, reconhecerão a grandeza do bem que perderam. A alma, ao partir deste mundo, — diz Santo Antonino, — reconhece que foi criada por Deus e irresistivelmente deseja unir-se e abraçar-se com o Bem Supremo; achando-se, porém, em estado de pecado, Deus a repele.
Se um galgo acorrentado vê perto de si esquisita presa, esforça-se para romper a cadeia e lançar-se ao seu encalço. A alma ao separar-se do corpo se sente naturalmente atraída para Deus. O pecado, porém, a afasta e arremessa pedras nela (Is 50,2). Todo o inferno, pois, se resume nas primeiras palavras da sentença: “Apartai-vos de mim, malditos” (Mt 25,4). “Apartai-vos, dirá o Senhor, não quero que torneis a ver-me a face. Mesmo que se imaginassem mil infernos, nada se poderia conceber que eqüivalesse à pena de ser odiado por Cristo”. Quando David impôs a Absalão o castigo de que jamais comparecesse diante dele, Absalão sentiu dor tão profunda, que exclamou: “Dizei a meu pai que, ou me permita ver o seu rosto ou me dê a morte” (2Rs 14,15).
Vendo Filipe II que um nobre de sua corte se achava na igreja com pouco respeito, disse-lhe severamente: “Não consinto que doravante vos apresenteis diante de mim”. E tal foi a consternação e a dor daquele cortesão, que, ao chegar à sua casa, morreu de pesar... Que será, quando Deus despedir o réprobo para sempre?... “Esconderei dele a minha face... e cairão sobre ele todos os males e aflições” (Dt 31,17). Já não sois meus, nem eu vosso, dirá Cristo aos condenados (Os 1,9) no dia do juízo.
É dor imensa para um filho ou uma esposa pensar que nunca tornará a ver seu pai ou seu esposo, que acaba de morrer... Se, ao ouvir os gemidos da alma de um réprobo, lhe perguntássemos a causa de tamanha dor, que sentiria ela ao dizer-nos: “Choro, porque perdi a Deus e nunca mais o tornarei a ver?” Se ao menos o desgraçado pudesse amar a Deus no inferno e conformar-se com a vontade de Deus! Mas não; se o pudesse fazer, o inferno deixaria de ser inferno. Nem poderá resignar-se, nem lhe será dado amar a Deus. Viverá a odiá-lo eternamente; e esse há de ser o seu maior tormento: conhecer que Deus é o Sumo Bem, digno de infinito amor, e ver-se forçado a aborrecê-lo para sempre.
“Sou aquele malvado despojado do amor de Deus”, respondeu o demônio, quando interrogado por Santa Catarina de Gênova. O réprobo odiará e amaldiçoará a Deus, e amaldiçoando-o, amaldiçoará também os benefícios que dele recebeu, a criação, a redenção, os sacramentos, especialmente os do batismo e da penitência, e sobretudo o Santíssimo Sacramento do Altar. Aborrecerá todos os anjos e com ódio implacável o seu anjo da guarda, os seus santos padroeiros e a Virgem Santíssima. Malditas serão por ele as três Pessoas divinas, especialmente a de Deus Filho, que morreu para salvar-nos, e as chagas, os trabalhos, o sangue, paixão e morte de Cristo Jesus.
 
AFETOS E SÚPLICAS
 
Vós sois, meu Deus, o soberano bem, o bem infinito e contudo quantas vezes vos perdi voluntariamente?... Sabia que com meus pecados vos feria profundamente e perdia vossa graça, e, no entanto, os cometi!... Ah, Senhor, se não soubesse que morrestes por mim cravado numa cruz, não ousaria pedir e esperar o vosso perdão!... Ó Pai Eterno! Não olheis para mim, contemplai, porém, vosso Filho amado, que vos pede misericórdia por mim; ouvi-o e perdoai-me. Já há muitos anos que mereci estar no inferno, sem esperança de amar-vos nem de recuperar a graça perdida. Detesto, meu Deus, de todo o coração, as injúrias que vos fiz, renunciando à vossa amizade e desprezando vosso amor por indignos prazeres deste mundo... Antes tivesse morrido mil vezes!...
Como pude ser tão cego e tão insensato?... Agradeço-vos, Senhor, o tempo que me dais para remediar o mal que cometi. Já que, por vossa misericórdia, não estou no inferno e posso amar-vos ainda, desejo amar-vos, meu Deus. Não quero adiar, por mais tempo, minha sincera e firme resolução... Amo-vos, bondade infinita; amo-vos, minha vida e meu tesouro, meu amor e meu tudo... Recordai-vos sempre, Senhor, do amor que me tivestes, e fazei que sempre tenha presente o inferno em que devia estar, a fim de que este pensamento me incentive no vosso amor e me anime a repetir mil vezes que vos amo verdadeiramente...
Ó Maria, Rainha, esperança e Mãe nossa, se estivesse no inferno já não vos poderia amar!... Mas agora vos amo, minha Mãe, e espero que jamais deixarei de amar a vós e ao meu Deus. Ajudai-me e rogai a Jesus por mim.

18 de maio de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

20/26  -  Remédios para a tristeza má.

1º Remédio - Convém receber a tristeza com paciência, como um castigo justo das nossas vãs alegrias, porque o inimigo, vendo que ela nos aproveita não se serve dela. Embora, para sermos salvos, não precisamos desta paciência, agrada a Deus e serve-nos de remédio.
2º Remédio - É preciso ir de encontro as inclinações de tristeza, derrubando as suas sugestões; e embora tudo o que então se faz se opere tristemente, não convém deixar de o fazer, porque o inimigo, que pretende entibiar-nos no meio das boas obras, pela tristeza, vendo que nada ganha e pelo contrário as nossas obras são melhores sendo feitas com resistência, não nos aflige mais.
3º Remédio - Quando pudermos é bom entoar cantigas espirituais, porque o inimigo cessa as suas operações muitas vezes, seja pelo que for. Sirva de exemplo o espírito que atormentava a Saul, cuja violência se moderava pelo salmodiar.
4º Remédio - É bom exercitarmo-nos em alguma obra exterior e diversificá-la o mais possível para divertir a veemente aplicação do espírito ao assunto triste, purificando e aliviando o organismo, visto a tristeza ser uma paixão de compleição fria e humilde.
5º Remédio - Praticai ações exteriores de fervor, embora as pratiqueis sem gosto, abraçando a imagem do crucificado, apertando-a contra o peito, osculando-lhe as mãos e os pés, elevando ao céu as vossas mãos e olhos, e levantando a voz para o céu, dirigi a Deus estas palavras de amor e confiança: "O meu amado esta comigo e eu com Ele; o meu Amado é como ramalhete de mirra para o meu coração. Meus olhos cansam-se de contemplar-vos, ó meu Deus; não cesso de dizer: quando me consolareis? Ó Jesus, sede para mim Jesus! Viva Jesus! e viverá a minha alma. Quem me separa do amor do meu Deus?" e outras aspirações semelhantes.
6º Remédio - A disciplina moderada é algumas vezes boa, porque a aflição exterior voluntária impetra a consolação interior da alma, e, aplicando ao corpo dores exteriores, sentem-se menos as interiores, como dizia o Salmista: "Quanto a mim, quando me feria, revestia-me de força". E também vem a propósito dizer: "A tua vara e bastão consolaram-me".
7º Remédio - A oração, diz São Tiago, é um remédio soberano: "Se alguém estiver triste, ore". Não quero dizer que se devam fazer meditações, mas frequentes perguntas e petições, à Deus; é preciso dirigirmo-nos sempre neste sentido à bondade divina, por invocações cheias de confiança, o que se não faz quando estamos na alegria, e podemos crer que não temos necessidade de exitar em nossos corações sentimentos de temor, como por escrúpulo: Oh! Senhor justíssimo e terrível; oh! como me faz tremer a vossa soberana Majestade: "Oh! Deus de misericórdia, bom e benigníssimo, vós sois a minha alegria, a minha esperança, ó caro esposo da minha alma"; e convém assim falar, apesar da tristeza, à qual não devemos atender, nem dar crédito, quando nos impede de proferir e enunciar estas palavras de confiança e amor; e embora isto pareça sem fruto, convém continuar a esperar o fruto que virá depois da aflição.
A comunhão frequente também é um meio ótimo, porque este pão celeste fortalece o coração e regozija o espírito, dando-nos o Senhor das consolações.
8º Remédio - Um dos remédios mais seguros é descobrir o coração, sem nada ocultar, a alguma pessoa espiritual e prudente, e declarar-lhe todos os sentimentos afetos e sugestões, que nascem da nossa tristeza, e as razões com que as alimentamos; e isto faça-mo-lo humilde e fielmente. E notai que a primeira condição que o inimigo põe à alma que quer afligir e seduzir, é o silêncio, como fazem os sediciosos nas conspirações e maus sucessos, porque sempre pedem que as resoluções e empresas sejam secretas. Deus, ao contrário, põe por primeira condição a discrição, não querendo, é verdade que se descubram indiscretamente as graças e favores, mas que se descubram com prudência e segundo as regras dessa humilde discrição as pessoas dotadas das qualidades requeridas. Mas enfim, senão encontrais repouso nestes meios, tende paciência; esperai que nasça o sol e dissipe esses nevoeiros; tende animo; "esta doença não é mortal; mas serve para que Deus seja por ela glorificado". Fazei como os que sentem os enjoos do mar, porque depois de visitarem todos os cantos do navio, para ver se encontram alívio, acabam por abraçar os mastros para se protegerem contra os atordoamentos de cabeça que sentem, embora este socorro seja curto e incerto. Mas, se com humildade abraçardes os pés da cruz, e nela não encontrardes remédio algum, pelo menos encontrareis paciência.
Regozijai-vos quanto puderdes em praticar o bem, porque é uma dupla graça para as boas obras o serem bem feitas, com alegria. E quando eu digo, obrando bem, não quero dizer que, tendo qualquer defeito, vos entregueis por isso à tristeza; não, por Deus: não junteis um defeito ao outro, quero dizer, que persevereis em praticar sempre o bem e volteis sempre a ele logo que o conheçais estar dele afastados, e com esta fidelidade vivereis geralmente contentes.
Enfim nós pertencemos completamente a Deus sem reserva, sem divisão, sem exceção alguma, e sem outro desejo senão honrá-lo e pertencer-lhe. Se sentissimos um único vestígio de afeto em nosso coração que não fosse para Ele, arranca-lo-í-amos imediatamente. Fiquemos pois em paz, digamos com o grande amante da Cruz: "Ninguém me perturbe porque quanto a mim tenho no coração os estigmas do meu Jesus". Sim; se uma única fibra do nosso coração não estivesse marcada com o cunho do Crucifixo, nem um só momento o quereríamos guardar. Para que nos inquietamos? Ó minha alma, espera em Deus; porque te entristeces e perturbas visto que Deus é o meu Deus, e o meu coração é todo seu?
Ouçamos e imitemos o divino Salvador, que, como um perfeito salmista, canta os sublimes raptos do seu amor na árvore da Cruz, concluindo-os todos assim: "Meu pai, nas vossas mãos entrego o meu espírito". (Lucas, XXIII, 41). Depois, que digamos isto, que falta senão expirar e morrer de amor, não vivendo para nós mesmos, mas para Jesus Cristo, que vive em nós?
Então cessarão todas as inquietações do nosso coração, proveniente de desejos que nos suscita o amor próprio e de afetos que sentimos; e isto nos faz procurar com pressa as nossas satisfações e perfeições.
Por consequência, entregue aos exercícios da nossa vocação, ajudados pela amorosa confiança, progrediremos, sem dar por isso, e avançaremos sem andar e sem mudar de posição, como acontece aos que navegam no alto mar, com vento próspero.
Por consequência, todos os sucessos e acidentes que sobrevierem, serão recebidos com alvoroço e alegria, porque aquele que esta nas mãos de Deus, que repousa em seu seio, que se abandonou ao seu amor, e que se submeteu ao se agrado, que pode experimentar que o abale? Em todas as circunstâncias sem pararmos a raciocinar sobre as causas e motivos dos sucessos, pronunciai do coração esta santa obediência ao Salvador: "Sim, meu Pai, assim, porque assim vos agradou". (Mat. XI, 29).

Preparação para a Morte

PONTO II

A pena do sentido que mais atormenta aos réprobos é o fogo do inferno, tormento do tacto (Ecl 7,19). O Senhor o mencionará especialmente no dia do juízo: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno” (Mt 25,41). Mesmo neste mundo, o suplício do fogo é o mais terrível de todos. Entretanto, há tamanha diferença entre as chamas da terra e as do inferno, que, segundo afirma Santo Agostinho, em comparação daqueles, as nossas são como fogo pintado; ou como se fossem de gelo, acrescenta São Vicente Ferrer. E a razão consiste em que o fogo terreal foi criado para utilidade nossa, ao passo que o do inferno foi criado expressamente para castigo. “Mui diferentes são — diz Tertuliano — o fogo que se utiliza para uso do homem e o que serve para a justiça de Deus”. A indignação de Deus é que acende essas chamas de vingança (Jr 15,14); e por isso Isaías chama espírito de ardor ao fogo do inferno (Is 6,4). O réprobo estará dentro dessas chamas, envolvido por elas, como um pedaço de lenha numa fornalha. Terá um abismo de fogo debaixo de seus pés, imensas massas de fogo sobre sua cabeça e ao derredor de si. Quando vir, apalpar ou respirar, fogo há de respirar, apalpar e ver. Estará submergido em fogo como o peixe em água. E essas chamas não cercarão apenas o condenado, mas penetrarão nele, em suas próprias entranhas, para atormentá-las. Todo o corpo será pura chama; arderá o coração no peito; as vísceras, no ventre; o cérebro, na cabeça; nas veias, o sangue; a medula, nos ossos. Cada condenado converter-se-á numa fornalha ardente (Sl 20,10).
Há pessoas que não suportam o ardor de um solo aquecido pelos raios do sol, que não sofrem estar junto a um braseiro num quarto fechado, que não resistem à chama de uma lâmpada, e contudo não temem este fogo devorador, como lhe chama Isaías (Is 33,14). Assim como uma fera devora um tenro cordeirinho, assim as chamas do inferno devorarão o condenado. Devorá-lo-ão sem o fazer morrer. “Continua, pois, insensato — diz São Pedro Damião, dirigindo-se ao voluptuoso — continua a satisfazer tua carne, que virá um dia em que tuas impurezas se converterão em ardente pez dentro de tuas entranhas e tornarão mais intensa e mais abrasadora a chama infernal em que hás de arder” . Acrescenta São Jerônimo que aquele fogo trará consigo todos os tormentos e todas as dores que nos atribulam na terra; até o tormento do frio se padecerá ali (Jó 24,19). E tudo com tal intensidade que, segundo disse São João Crisóstomo, os padecimentos deste mundo são pálida sombra em comparação aos do inferno.
As faculdades da alma terão também o seu castigo apropriado. O tormento da memória será a viva recordação do tempo que, em vida, teve o condenado para salvar-se e que empregou em perder-se, e das graças que Deus lhe concedeu e que foram desprezadas. O entendimento sofrerá ao considerar o grande bem que perdeu perdendo a Deus e o céu, ponderando que essa perda é já irreparável. A vontade verá que se lhe nega tudo quanto deseja (Sl 140,10). O desventurado réprobo nunca obterá nada do que quer, e sempre terá aquilo que mais o aborreça, isto é, males sem fim. Quererá livrar-se dos tormentos e desfrutar paz. Mas sempre será atormentado, jamais encontrará momento de repouso.

AFETOS E SÚPLICAS

Vosso sangue e vossa morte são minha esperança, meu Jesus.
Morrestes para salvar-me da morte eterna. E quem, Senhor, recebeu maior parte dos merecimentos da vossa paixão do que este miserável, que tantas vezes mereceu o inferno?... Não permitais que continue sendo ingrato a tantas graças que me concedestes. Livrando-me do inferno, quisestes que não ardesse eu nas chamas eternas, mas no doce fogo do vosso amor. Ajudai-me, pois, a cumprir os vossos desejos. Se estivesse no inferno, não poderia amar-vos. Mas, já que ainda posso amar, quero amar-vos... Amo-vos, Bondade infinita; amo-vos, meu Redentor, que tanto me tendes amado. Como é que pude viver tanto tempo sem me lembrar de vós? Agradeço-vos, Senhor, não me terdes esquecido. Ao contrário, estaria agora no inferno, ou não teria arrependimento dos meus pecados. Esta dor do coração por ter-vos ofendido, este desejo que sinto de muito vos amar, são dons da vossa graça, que me auxilia e vivifica... Agradecido, meu Deus. Espero consagrar-vos a vida, que me resta. A tudo renuncio; quero pensar unicamente em vos servir e agradar. Imprimi em minha alma a recordação do inferno que mereci e da graça que me concedestes. Não permitais que, apartando-me outra vez de vós, volte a condenar-me eu mesmo aos tormentos daquele cárcere...
Ó Mãe de Deus, rogai por este pecador arrependido! Vossa intercessão livrou-me do inferno. Livrai-me também do pecado, único motivo capaz de acarretar-me nova condenação.

17 de maio de 2014

Preparação para a Morte

CONSIDERAÇÃO XXVI

Das penas do inferno
Et ibunt in supplicium aeternum. E irão estes ao suplício eterno (Mt 25,46).

PONTO I

O pecador comete dois males quando peca: aparta-se de Deus, Sumo Bem, e se entrega às criaturas. “Dois males fez meu povo: abandonaram-me a mim, que sou fonte de água viva, e cavaram para si cisternas rotas, que não podem reter a água” (Jr 2,13). Em vista de o pecador se ter dado às criaturas com ofensa a Deus, será justamente atormentado no inferno por essas mesmas criaturas, pelo fogo e pelos demônios: esta é a pena do sentido. Como, porém, sua maior culpa, na qual consiste a maldade do pecado, é a separação de Deus, o maior suplício do inferno é a pena do dano ou da privação da visão de Deus, peda irreparável.
Consideremos, em primeiro lugar, a pena do sentido. É de fé que existe inferno. No centro da terra se encontra esse cárcere, destinado ao castigo dos que se revoltaram contra Deus. Que é, pois, o inferno? O lugar de tormentos (Lc 16,28), como o chamou o mau rico; lugar de tormentos, onde todos os sentidos e todas as faculdades do condenado hão de ter o seu castigo próprio, e onde aquele sentido que mais tiver servido para ofender a Deus mais acentuadamente será atormentado (Sb 11,17; Ap 18,7). A vista padecerá o tormento das trevas (Jó 10,21). Digno de profunda compaixão seria um infeliz encerrado em tenebroso e acanhado calabouço, durante quarenta ou cinqüenta anos de sua vida. Pois o inferno é cárcere fechado por completo e escuro, onde nunca penetrará raio de sol nem qualquer outra luz (Sl 48,20). O fogo que aqui na terra ilumina, não será luminoso no inferno.
“Voz do Senhor, que despede chamas de fogo” (Sl 28,7). Explica São Basílio que o Senhor separará do fogo a luz; de modo que estas chamas arderão sem iluminar; o que Santo Alberto Magno exprime mais brevemente nestes termos: “Separará do calor o resplendor”. O fumo sairá dessa fogueira e formará a espessa nuvem tenebrosa que, como diz São Judas, cegará os olhos dos réprobos (Jd 13). Haverá ali apenas a claridade precisa para aumentar os tormentos. Uma sinistra claridade que permite ver a fealdade dos condenados e dos demônios, assim como o aspecto horrendo que estes tomarão para causarem mais horror.
O olfato padecerá o seu tormento próprio. Seria insuportável se nos metêssemos num quarto acanhado, onde jazesse um cadáver em putrefação. O condenado deve ficar sempre entre milhões de réprobos, vivos para a pena, mas cadáveres hediondos quanto à pestilência que exalam (Is 34,3). Disse São Boaventura que, se o corpo de um condenado saísse do inferno, bastaria ele só para produzir uma infecção em conseqüência da qual morreriam todos os homens do mundo... E ainda há insensatos que se atrevem a dizer: “Se for ao inferno, não irei sozinho...” Infelizes! Quanto maior for o número de réprobos ali, tantos maiores serão os sofrimentos de cada um. “Ali — diz São Tomás — a companhia de outros desgraçados não alivia; antes aumenta a desventura geral”. Muito mais sofrerão, sem dúvida, pela fetidez asquerosa, pelos gritos daquela multidão desesperada, e pelo aperto em que se acharão amontoados e comprimidos os réprobos, à semelhança de ovelhas em tempo de inverno (Sl 48,15), ou como uvas esmagadas no lagar da cólera de Deus (Ap 19,15). E assim mesmo padecerão o tormento da imobilidade (Êx 15,16). Da maneira como o condenado cair no inferno, assim há de permanecer imóvel, sem que lhe seja dado mudar de posição, nem mexer mão nem pé, enquanto Deus for Deus.
O ouvido será atormentado com os contínuos gritos aflitivos daqueles pobres desesperados, e pelo barulho horroroso que, sem cessar, os demônios provocam (Jó 15,21). Quando desejamos dormir, é com o maior desespero que ouvimos o contínuo gemido de um doente, o choro de uma criança ou o ladrar de um cão... Infelizes réprobos, que são obrigados a ouvir, por toda a eternidade, os gritos pavorosos de todos os condenados!... A gula será castigada com a fome devoradora... (Sl 58,15)
Entretanto, não haverá ali nem uma migalha de pão. O condenado sofrerá sede abrasadora, que não se apagaria com toda a água do mar. Mas não se lhe dará uma só gota. Uma só gota d’água pedia o rico avarento, e não a obteve, nem a obterá jamais.

AFETOS E SÚPLICAS

Aqui tendes, Senhor, a vossos pés quem tão pouco caso fez da vossa graça e dos vossos castigos... Desgraçado de mim, se vós, meu Senhor, não tivésseis tido misericórdia! Há muitos anos que já estaria naquela fornalha infecta, onde ardem tantos pecadores como eu. Ah, meu Redentor, como poderia eu, no futuro, pensar em vos ofender? Não, isto não acontecerá, Jesus de minha vida; prefiro antes a morte.
Já que me tirastes do lodaçal dos meus pecados e tão amorosamente me convidais a amar-vos, fazei que empregue agora todo o tempo em vos servir.
Com quanto ardor, desejariam os condenados, um dia, uma hora desse tempo que a mim concedeis! E que farei eu? continuarei a malbaratá-lo em coisas que vos desagradem?... Não, meu Jesus, não o permitais, pelos merecimentos do vosso preciosíssimo sangue, que até agora me preservou do inferno. Amo-vos, soberano Bem, e, porque vos amo, pesa-me de vos ter ofendido. Proponho não tornar a ofender-vos, mas amar-vos sempre.
Maria Santíssima, minha Rainha e minha Mãe, rogai a Jesus por mim, e alcançai-me os dons da perseverança e do divino amor.

16 de maio de 2014

Preparação para a Morte

PONTO III

Começará o julgamento, abrindo-se os autos do processo, isto é, as consciências de todos (Dn 7,10). Os primeiros testemunhos contra os réprobos serão do demônio, que dirá — segundo Santo Agostinho: “Justíssimo juiz, sentencia, que são meus aqueles que não quiseram ser teus”. A própria consciência dos homens os acusará depois (Rm 2,15). A seguir, darão testemunho, clamando vingança, os lugares em que os pecadores ofenderam a Deus (Hb 2,11). Virá, enfim, o testemunho do próprio Juiz que esteve presente a quantas ofensas lhe fizeram (Jr 29,23).
Disse São Paulo que naquele momento o Senhor “porá às claras o que se acha escondido nas trevas” (1Cor 4,5). Descobrirá, então, ante os olhos de todos os homens as culpas dos réprobos, até as mais secretas e vergonhosas que em vida eles ocultaram aos próprios confessores (Na 3,5). Os pecados dos eleitos, no sentir do Mestre das Sentenças e de outros teólogos, não serão manifestados, mas ficarão encobertos, segundo estas palavras de David: “Bem-aventurados aqueles, cujas iniqüidades foram perdoadas, e cujos pecados são apagados” (Sl 31,1). Pelo contrário — disse São Basílio — as culpas dos réprobos serão vistas por todos, ao primeiro relancear d’olhos, como se estivessem representadas num quadro. Exclama São Tomás, “Se no horto de Getsêmani, ao dizer Jesus: Sou eu, caíram por terra todos os soldados que vinham para o prender, que sucederá quando, sentado no seu trono de Juiz, disser aos condenados: “Aqui estou, sou aquele a quem tanto haveis desprezado!” Chegada a hora da sentença, Jesus Cristo dirá aos eleitos estas palavras, cheias de doçura: “Vinde, benditos de meu Pai, e possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo” (Mt 25,34).
Quando São Francisco de Assis soube por revelação que era predestinado, sentiu altíssimo e inefável consolo. Que consolação não sentirão aqueles que ouvirem estas palavras do soberano Juiz: “Vinde, filhos benditos, vinde a meu reino. Já não há mais a sofrer, nem a temer.
Comigo estais e permanecereis eternamente. Abençôo as lágrimas que sobre os vossos pecados derramastes. Entrai na glória, onde juntos permaneceremos por toda a eternidade”. A Virgem Santíssima abençoará também os seus devotos e os convidará a entrar com ela no céu. E assim, os justos, entoando gozosos Aleluias, entrarão na glória celestial para possuírem, louvarem e amarem eternamente a Deus.
Os réprobos, ao contrário, dirão a Jesus Cristo: “E nós, desgraçados, que será feito de nós?” E o Juiz Eterno dir-lhes-á: Já que desprezastes e recusastes minha graça, apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno (Mt 24,34). Apartai-vos de mim, que nunca mais vos quero ver nem ouvir. Ide, ide, malditos, que desprezastes minha bênção...” Mas para onde, Senhor, irão estes desgraçados?... Ao fogo do inferno, para arder ali em corpo e alma... E por quantos séculos?... Por toda a eternidade, enquanto Deus for Deus.
Depois desta sentença — diz Santo Efrém — os réprobos despedir-se-ão dos anjos, dos santos e da Santíssima Virgem, Mãe de Deus.
“Adeus, justos; adeus, cruz; adeus, glória; adeus, pais e filhos; jamais nos tornaremos a ver! Adeus, Mãe de Deus, Maria Santíssima”. Nesse instante, abrir-se-á na terra um imenso abismo e nele cairão conjuntamente demônios e réprobos. Verão como atrás deles se fechará aquela porta que nunca mais se há de abrir... Nunca mais durante toda a eternidade!...
Ó maldito pecado! A que triste fim levarás um dia tantas pobres almas!... Ai! das almas infelizes às quais aguarda tão deplorável fim.

AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus e meu Salvador! Que sentença me reservais no dia do juízo? Se agora me pedísseis, Senhor, contas de minha vida, que poderia eu responder senão que mereço mil vezes o inferno? Sim, meu Redentor, é verdade que mereço mil vezes o inferno, mas sabei que vos amo mais que a mim mesmo, e que das ofensas que vos fiz de tal modo me arrependo, que preferiria ter sofrido todos os males do que ter-vos injuriado.
Condenais, ó meu Jesus, os pecadores obstinados, mas não a quem se arrepende e vos quer amar. Aqui estou, a vossos pés, arrependido... Dai-me a vossa palavra de perdão... Mas já me declarastes pela boca do vosso Profeta: “Convertei-vos a mim, e eu me voltarei a vós” (Zc 1,3). Tudo abandono, renuncio a todos os gozos e bens do mundo, e converto-me, abraçando a vós, meu amantíssimo Redentor. Recebei-me no vosso Coração e inflamai-me no vosso santo amor, de modo que jamais cogite em separar-me de vós... Salvai-me, meu Jesus, e que minha salvação seja amar-vos sempre e louvar sempre vossas misericórdias (Sl 88,2).
Maria, minha esperança, meu refúgio e minha mãe, ajudai-me e alcançai-me a santa perseverança. Ainda se não perdeu ninguém, que tenha recorrido a vós... A vós, pois, me recomendo. Tende piedade de mim.

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

19/26  -  Como a tristeza é contrária ao amor divino.

Não podemos enxertar um carvalho em uma pereira, porque são muito diferentes uma da outra; da mesma forma não podemos enxertar a cólera e a desesperação na caridade. Não sei que utilidade tira do desespero o amor divino, a não ser que reduzamos dessa desesperação a justa desconfiança de nós mesmos ao sentimento que devemos ter de nosso nada, da fraqueza e inconstância dos favores, assistência e promessas do mundo.
E como pode ser útil a caridade e a tristeza se entre os dons do Espírito Santo, a alegria esta a par da caridade? Contudo o Santo Apóstolo diz: "A tristeza que vem de Deus opera a penitência para a salvação; mas a tristeza mundana opera a morte". Há pois uma tristeza, segundo Deus, que os pecadores exercem pela penitência dos pecados, os bons pela compaixão e pelas misérias temporais do próximo, e os perfeitos, pela condolência das calamidades espirituais das almas. Assim Davi, São Pedro e Santa Madalena choraram pelos seus pecados; Agar chorou, vendo o seu filho quase a morrer de sede; Jeremias sobre a ruína de Jerusalém; Nosso Senhor à cerca dos judeus, e o seu grande apóstolo, gemendo, dizia: "Andam muitos, já vos tenho dito e de novo repito, que são inimigos da Cruz de Jesus Cristo".
Há também uma tristeza mundana, que provém de três causas:
1 - Provém do inimigo infernal, que por mil pensamentos tristes, melancólicos e enfadonhos, obscurece o entendimento, torna a vontade lânguida, oprime a alma; e como um nevoeiro espesso ofusca o peito e a cabeça, torna a respiração difícil e põe o viajante perplexo; assim o inimigo, enchendo de pensamentos tristes o espírito humano, tira-lhe a facilidade de aspirar a Deus, e dá-lhe um enfado e desalento extremo, que o conduzem ao desespero e à perdição.
Diz-se que há um peixe apelidado diabo do mar, que, revolvendo-se no limo, turba toda a água, e põe-se de emboscada para se atirar aos peixinhos, arrojando-se a eles e devorando-os; talvez daqui venha o provérbio; "Pescar nas águas turvas". Ora o demônio do inferno é como o diabo do mar, porque emboscando-lhe na tristeza, envolve a alma em um turbilhão de pensamentos enfadonhos, arrojados ao entendimento, espalhados sobre os afetos, e, enchendo-os de desconfiança, inveja e apreensões supérfluas a cerca do pecado passado, fornece uma multidão de sutilezas vãs, agras e melancólicas, para que desprezemos todas as razões e consolações celestes.
2 - Outras vezes a tristeza procede da condição natural, quando domina em nós a melancolia; e não sendo isto em si mesmo vicioso, serve-se dela o inimigo para tramar e urdir mil tentações nas nossas almas, porque assim como as aranhas não fazem de ordinário as suas teias senão quando o tempo esta  fusco e o céu nublado, assim o espírito infernal não encontra tanta facilidade em tecer as suas sugestões nos espíritos serenos, benignos e alegres, como nos tristes, aborrecidos e melancólicos; e a razão é que facilmente os enreda com ódios, murmurações, invejas, desconfianças, censuras, preguiça e apatia espiritual.
3 - Finalmente há uma tristeza, que a variedade dos acidentes humanos produz. "Que alegria posso eu ter, diz Tobias, não podendo ver a luz do céu?" Assim Jacó estremeceu-se ao saber da morte de seu filho José, e Davi da de Absalão. Ora esta tristeza é a comum aos bons e aos maus; mas nos bons é moderada pela resignação à vontade de Deus, como se viu em Tobias, que deu graças à divina Majestade por todas as adversidades que o afligiam, e em Jó, que bem disse o nome do Senhor, em Daniel, que converteu as suas dores em cânticos. Pelo contrário, nos mundanos, esta tristeza lhes é ordinária, e transforma-se em pena, desespero e tormento de espírito, porque são semelhantes as marmotas que estão tristes e aborrecidas na minguante da lua; mas na lua nova dançam, saltam e brincam. O mundano torna-se enfadonho, aborrecido e triste quando lhe faltam as prosperidades terrenas; mas quando as possuí torna-se altivo, folgazão e insolente.
A tristeza que dá a verdadeira penitência não deve chamar-se tristeza, mas descontentamento e detestação do mal; tristeza que nunca esta aborrecida e tediosa; tristeza que não entorpece o espírito, mas o torna ativo, pronto e deligente; tristeza que não abate o coração, mas o eleva pela oração e esperança até ao arrebatamento da mais fervorosa devoção; tristeza que, no fundo das suas amarguras, produz sempre a suavidade duma incomparável consolação, segundo o preceito do grande Santo Agostinho: "O penitente entristece-se sempre; mas alegra-se sempre com a sua tristeza". A tristeza, que opera a penitência sólida e o arrependimento agradável, diz Cassiano, é obediente, afável, humilde, boa, suave, paciente, como nascida da caridade; tanto que, estendendo-se à dor do corpo e à contrição do espírito, é em certo modo alegre, animada e avigorada com a esperança do seu proveito; retém toda a doçura da afabilidade e longanimidade, sendo em si mesma um dos frutos do Espírito Santo, que o Santo Apóstolo expõe: "Os frutos do Espírito Santo são caridade, gozo, paz, longanimidade, bondade, benignidade, fé, mansidão e continência". Tal é a verdadeira penitência e a tristeza santa, que de certo não é amarga e melancólica, mas só atenta e propensa a rejeitar, detestar e impedir o mal do pecado, quanto ao passado e futuro, só por puro amor de Deus, ao qual ama sem mancha de amor imperfeito, sem nenhum interesse do castigo, ou recompensa prometida.
Eis o uso deste arrependimento amoroso, que de ordinário se pratica por enlevo do coração em Deus, como faziam os antigos penitentes.
Sou vosso, ó meu Deus; salvai-me, tende misericórdia de mim, porque a minha alma confia em vós; salvai-me, Senhor, porque as águas submergem meu coração; tratai-me como a um de vossos servos; Senhor sede-me propício, a mim, pobre pecador. É neste sentido que se diz que a oração justifica, porque o arrependimento suplicante, ou a súplica do arrependimento, elevam a alma a Deus, e, reunindo-se à sua bondade obtém sem dúvida perdão em virtude do santo amor que a move.
Também vemos muitas vezes penitência muito impacientes, confusas, apressadas, inquietas, ásperas, as quais por fim se tornam infrutíferas, e sem lhes seguir emenda alguma, por não procederem dos verdadeiros motivos da penitência, mas do amor próprio e natural.
A tristeza do mundo opera a morte, diz o apóstolo. Convém pois evitá-la e rejeitá-la quando pudermos. Se é natural, devemo-la repelir, contrariando seus movimentos, alegrando-a, com divertimentos próprios e usando de remédios de métodos de vida que os médicos recomendam. Se provém de tentações, convém descobrir o coração ao padre espiritual, que nos prescreverá os meios próprios para vencermos, segundo o que dissemos na quarta parte da Introdução à vida devota. Se é acidental, consultaremos o que diz o livro oitavo, para vermos como são amáveis as tribulações aos filhos de Deus, e como a grandeza das novas esperanças na vida eterna deve tornar pouco consideráveis todos os acontecimentos passageiros da temporal.
Há ações que dependem das disposições físicas; mas, embora estejamos melancólicos, podemos, mesmo sem graça, dizer palavras graciosas, boas, corteses, e não obstante a inclinação, praticar obras convenientes com palavras e obras de caridade, doçura e condescendência. Temos desculpas de nem sempre estarmos alegres, porque a alegria não esta ao nosso dispor; mas não temos desculpas de não sermos sempre condescendentes, porque isso depende de nós e só basta vencermos o gênio e inclinações contrárias.
Não compreendemos como as almas que se entregaram à bondade divina não estão sempre contentes, porque, onde há alegria semelhante a esta? Devíamos cantar sempre; e não vos deve inquietar as imperfeições que Ele ama as almas; protege-as e guia-as ao porto com afeto. Ficai pois em paz e vivei com doçura e humildade do coração.
Que felicidade pertencer completamente a Deus! porque Ele ama as almas; protege-as e guia-as ao porto da eternidade que desejamos. Ficai pois assim, e não permitais nunca que a vossa alma se entristeça, nem viva com amargura e escrúpulo, porque Aquele que amou e morreu para a fazer viver, é tão bom, tão doce e tão amável!