27 de março de 2014

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

20/25 -Como Deus é ocioso de nosso Coração.

Este ciúme que Deus tem de nós não é um ciúme de inveja, mas amizade soberana, porque não lhe interessa que nós o amemos, mas sim a nós nos interessa que Ele nos ame. O nosso amor é para ele inútil; mas para nós é de grande proveito, e se é para Deus agradável, é para nós proveitoso; porque sendo o soberano bem, agradá-lhe comunicar-se por seu amor, sem que daí lhe resulte algum bem; assim Ele exclama queixando-se dos pecadores como enciumado: "Deixaram-me, a mim que sou a fonte de água viva, e foram procurar cisternas rotas, que não podem reter as águas". Considerai por um pouco eu vos peço, como este Divino Esposo exprime delicadamente a nobreza e generosidade do seu ciúme: "Deixaram-me a mim que sou a fonte da água viva": como se dissera: Eu não me queixo de que me deixassem por algum prejuízo que o seu abandono me pode trazer: pois, que prejuízo pode sofrer uma fonte de águas vivas por lhe não virem tirar água? Deixará por isto ela de jorrar e correr pela terra? Mas aludo à sua cegueira, porque tendo-me deixado, se tem entretido com poços vazios. Porque, se, o que é impossível, tivessem encontrado uma outra fonte de água viva, suportaria facilmente a sua retirada visto não ter pretensão alguma ao seu amor; abandonar-me para se perderem, é o que me faz admirar e afligir-me da sua loucura! É pois por amor de nos que Ele quer que o amemos, porque não podemos deixar de o amar sem começar a perder-nos, e todos os afetos que lhe roubamos perdemos também.   

Grandeza da dádiva que Jesus Cristo nos fez na santíssima Eucaristia.

In omnibus divites facti estis in illo — “Em todas as coisas fostes enriquecidos n'Ele” (I Cor. 1, 5).

Sumário. É tão grande a dádiva que Jesus Cristo nos fez na santíssima Eucaristia, que, apesar de ser poderosíssimo, sapientíssimo e riquíssimo, não pode, nem sabe, nem tem para dar-nos outra mais excelente. Como é, pois, possível que os homens, tão sensíveis a qualquer delicadeza, fiquem insensíveis a tão grande dom e paguem o seu benfeitor com ingratidão... se nós também fomos no passado tão ingratos, peçamos de todo o coração que Jesus nos perdoe.

I. Santo Agostinho, considerando a grandeza do dom que Jesus Cristo nos oferece na santíssima Eucaristia, ficou tão enlevado, que escreveu esta celebre sentença, que com tal dádiva Jesus esgotou, por assim dizer, os seus atributos infinitos. — Deus, assim diz o santo Doutor, é poderosíssimo, e se quisesse, poderia, a um só sinal seu, criar mil mundos cada qual mais bonito. Contudo, apesar de ser todo poderoso, não nos pode oferecer outro dom mais precioso do que este: Cum esset omnipotens, plus dare non potuit. — Deus é sapientíssimo, e a sua sabedoria, como diz o Real Profeta, não tem limites (1). Mas com toda a sua sabedoria, não sabe achar um dom mais excelente do que a santíssima Eucaristia: Cum esset sapientissimus, plus dare nescivit. — Deus afinal é riquíssimo e os seus tesouros são inesgotáveis. Todavia, com toda a sua riqueza não tem jóia mais preciosa ou mais estimável do que esta para nos presentear: Cum esset ditissimus, plus dare nescivit. — E a razão é óbvia: Na santíssima Eucaristia Jesus Cristo nos dá não somente a sua humanidade, senão também a sua divindade. Para nos oferecer, pois, outro dom mais excelente do que este, mister seria que nos desse um Deus maior do que Ele mesmo; o que é impossível.

Tinha razão Isaias em exclamar: Notas facite adinventiones eius (2) — “Publicai, ó homens, as invenções amorosas de nosso bom Deus”. Se o Redentor nos não tivesse feito espontaneamente este donativo quem é que Lho ousaria pedir? Quem é que se atrevera a dizer-Lhe: Senhor, se quereis fazer-nos conhecer o vosso amor, escondei-Vos sob as espécies de pão e vinho e consenti que Vos tomemos como nosso alimento? Mas o que nunca poderiam imaginar os homens, concebeu-o e cumpriu-o o grande amor de Jesus Cristo. Ó prodígio de amor!

II. Santa Maria Magdalena de Pazzi costumava dizer que depois da comunhão a alma pode repetir a palavra de Jesus: Consummatum est — “Está consumado”. Visto que o meu Deus se me deu a si mesmo nesta comunhão, ele fez um último esforço de seu amor para comigo, e não tem mais nada para me dar. — Mas como é, pois, possível que os homens, de ordinário tão sensíveis a qualquer cortesia que se lhes faz, ficam tão insensíveis ao dom inapreciável do Santíssimo Sacramento e pagam a Jesus Cristo com a mais negra ingratidão? — Ah! Meu irmão, se no passado tu também foste um daqueles ingratos, pede sinceramente perdão e resolve-te a sacrificar de hoje em diante tudo por Jesus Cristo, assim como ele se sacrificou todo por ti neste inefável mistério.

Ó meu Jesus, o que é que Vos levou a dar-Vos inteiramente para nosso sustento? E depois deste dom, que mais Vos resta para nos obrigar a amar-Vos? Iluminai-nos, Senhor, e fazei-nos conhecer qual foi esse excesso de amor que Vos levou a transformar-Vos em alimento para Vos unirdes a nós, pobres pecadores. Mas se Vos dais inteiramente a nós, justo é que inteiramente nos demos a Vós. — Ó meu Redentor, como é que pude ofender-Vos, a Vós que me haveis amado tanto, e que não pudestes fazer mais para ganhar o meu amor? Por mim Vos fizestes homem, por mim morrestes e Vos fizestes meu alimento. Dizei-me, que Vos restava fazer ainda?

Amo-Vos, Bondade infinita: amo-Vos, Amor infinito; † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas.  Senhor, entrai freqüentes vezes na minha alma, inflamai-me inteiramente no vosso santo amor e fazei com que tudo esqueça para só pensar em Vós e não amar senão a Vós. — Maria Santíssima, rogai por mim. Com a vossa intercessão, tornai-me digno de receber muitas vezes o vosso Filho sacramentado. (*II 159.)

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1. Ps. 145, 5.
2. Is. 12, 4.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 347-349.)

26 de março de 2014

Preparação para a Morte

PONTO II

Dirá, talvez, alguém: Já que Deus usou para co-migo de tanta clemência no passado, espero que a terá também no futuro. Eu, porém, lhe respondo: E por ter sido Deus tão misericordioso contigo, queres de novo ofendê-lo? Desse modo — diz São Paulo — desprezas a bondade e paciência de Deus. Ignoras que se o Senhor te suportou até agora, não foi para que continuasses a ofendê-lo, senão para que te penitencies do mal que fizeste? (Rm 2,4) E se tu, fiado na divina misericórdia, não temes abusar dela, o Se-nhor te retirará. “Se não vos converterdes... entesará o seu arco e tem-no preparado (Sl 7,13). Minha é a vingança, e eu lhes darei a paga a seu tempo (Dt 32,35). Deus espera; mas, chegada a hora da justiça, já não espera e castiga então.
Deus aguarda o pecador a fim de que se emende (Is 19,18); mas, quando vê que o tempo concedido para os pecados só serve para 54 multiplicá-los, vale-se desse mesmo tempo para empregar a justiça (Lm 1,15). De sorte que o próprio tempo concedido, a mesma misericórdia outorgada, servirão para que o castigo seja mais rigoroso e o abandono mais imedia-to. “Medicamos Babilônia e não há sanado. Abandonemo-la”.
(Jr 51,9). E como é que Deus nos abandona? Ou envia a morte ao pecador, que assim morre sem arrepender-se, ou o priva das graças abundantes e só lhe deixa a graça suficiente com que o pecador se poderia salvar, mas não se salva. Obcecada a mente, endurecido o coração, dominado por maus hábitos, a salvação lhe será moralmente impossível; e assim ficará, senão em absoluto, pelo menos moralmente abandonado. “Derrubar-lhe-ei o muro, e ficará exposta...” (Is 5,5).
Que castigo! Triste indício quando o dono rompe o cercado e deixa entrar na vinha os que quiserem, homens e animais: é prova de que a abandona. É o que faz Deus, quando abandona uma alma: tira-lhe a sebe do temor, dos remorsos de consciência e a deixa nas trevas. Penetram, então, nela todos os monstros do vício (Sl 103,20). O pecador, entregue a essa obscuridade, desprezará tudo: a graça divina, a glória, avisos, conselhos e censuras; escarnecerá até de sua própria condenação (Pr 18,3).
Deus o deixará nesta vida sem castigo, e nisto consistirá seu maior castigo. “Compadeçamo-nos do ímpio... não aprenderá (jamais) justiça”.
(Is 26,10). Referindo-se a esse texto, diz São Bernardo: “Não quero essa misericórdia, mais terrível que a ira”. (Serm. 42, in Ct). Terrível castigo, quando Deus deixa o pecador em seus pecados, e parece que nem lhe pede contas deles (Sl 10,4). Dir-se-á que já não se indigna contra ele (Ez 16,42) e que lhe permite gozar quanto neste mundo deseja (Sl 80,13). Desgraçados os pecadores que prosperam na vida mortal! É sinal de que Deus os reserva para aplicar-lhes sua justiça na vida eterna! Jeremias pergunta: “Por que o caminho dos ímpios passa em prosperidade?” (Jr 12,1). E responde em seguida: “Reúne-os como o rebanho destinado ao matadouro” (Jr 12,3). Não há, pois, maior castigo do que deixar Deus ao pecador amontoar pecados sobre pecados, segundo o que diz David: “pondo maldade sobre maldade... Riscados sejam do livro dos vícios” (Sl 28,28-29). Observa Belarmino: “Não existe castigo mais terrível do que o pecado tornar-se pena do pecado”. Fora melhor a um desses infelizes que o Senhor o tivesse feito morrer após o primeiro pecado; porque, morrendo mais tarde, terá a padecer tantos infernos quantos foram os pecados cometidos.

AFETOS E SÚPLICAS

Bem reconheço, meu Deus, que, no miserável estado em que me acho, mereci ser privado da vossa luz e da vossa graça. Pela inspiração, porém, que me dais e ouvindo-vos a voz que me chama à penitência, estou persuadido, entretanto, de que não me abandonastes. Já que assim é, multiplicai, meu Senhor, vossa misericórdia sobre minha alma; aumentai-me a luz divina e o desejo de vos amar e servir. Transformai-me, ó meu Deus; de traidor e rebelde que fui, convertei-me em fervoroso amante de vossa bonda-de, a fim de que chegue para mim o venturoso dia em que parta para o céu e louve eternamente as vossas misericórdias.
Vós, Senhor, quereis perdoar-me, e eu só desejo que me outorgueis vosso perdão e vosso amor. Dói-me, ó Bondade infinita, de vos ter ofendido tantas vezes. Amo-vos, ó sumo Bem, porque mo ordenais, e porque sois digníssimo de ser amado. Fazei, pois, meu Redentor, que vos ame este pecador por vós tão amado, e com tal paciência por vós esperado. Tudo espero de vossa bondade inefável. Espero amar-vos sempre no futuro, até à more e por toda a eternidade (Sl 83,2).
Que vossa clemência, meu Jesus, seja constante objeto de meus louvores! Louvarei também, por todo o sempre, a vossa misericórdia, ó Maria, pelas graças inumeráveis que me tendes alcançado. À vossa intercessão as devo. Assisti-me, Senhora minha, auxiliai-me e alcançai-me a santa perseverança.

Sermão para o 2º Domingo da Quaresma – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] As lições da Transfiguração (antecedido por um aviso prático e circunstancial aos pais e por um aviso doutrinal)

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…

“Este é o meu Filho dileto, em quem pus toda a minha complacência; ouvi-o”
                Caros católicos, nesse segundo domingo da Quaresma, a Santa Igreja nos apresenta o Evangelho da Transfiguração. Se todas as passagens da sagrada Escritura e do Evangelho em particular são importantes, o episódio da Transfiguração tem especial importância. Tanto é assim que três vezes durante o ano a Transfiguração é lida no Evangelho da Missa. Ontem, hoje e no dia 6 de agosto, Festa da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Na Transfiguração, nós temos um pequeno resumo de todo o Evangelho, prezados católicos, o que é importante nesse tempo da Quaresma, em que buscamos realmente nos converter a Cristo, a aderir ao Evangelho. Nós temos, então, na Transfiguração, um resumo das verdades de fé mais necessárias e profundas e temos um resumo de como age a providência divina.
Eis que temos, então, no Monte Tabor, Jesus Transfigurado, seu rosto refulgindo como o sol e suas vestes mais brancas que a neve. Antes de tudo, precisamos entender o que ocorreu na Transfiguração. Ora, como sabemos, Jesus é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. A união das naturezas divina e humana em Cristo é tão profunda e íntima que há uma só pessoa em Nosso Senhor Jesus Cristo, a pessoa divina, a pessoa do Verbo. A humanidade de Cristo está o mais unida possível à divindade, e desde o momento de sua concepção no seio de Maria. Sabemos que quanto mais algo está próximo da causa, mais ele se assemelha à causa. Portanto, a humanidade de Cristo, mesmo quando Ele estava ainda na terra, entre nós, se aproximava ao máximo da santidade divina. Assim, a alma de Cristo, desde o momento de sua concepção possui o mais alto grau de graça, de virtude, de dons… Mas, além disso, a alma de Cristo, desde o momento de sua concepção, possuía a visão beatífica. A alma de Cristo via desde o início Deus face a face. A consequência da visão beatífica na alma é a glorificação do corpo. E em Jesus, a glória do seu corpo é não somente consequência da visão beatífica, mas também de sua divindade. Dessa forma, Jesus deveria ter sempre seu corpo como ele apareceu aos três apóstolos no momento da Transfiguração, Ele deveria ter sempre um corpo glorioso. Deveria, mas não tinha. E não tinha porque não quis ter. E não quis ter para poder sofrer por nós, para poder satisfazer pelos nossos pecados, para poder mostrar seu amor por nós pelos seus sofrimentos, para nos salvar, para nos redimir, enfim. Portanto, prezados católicos, a primeira lição do evangelho de hoje, é a perfeição sem medida da alma de Cristo e sua divindade, em outras palavras, a Encarnação do Verbo.
No Evangelho, vemos também que apareceu uma nuvem e que uma voz falou. A nuvem é um símbolo de Deus. No deserto, no êxodo do Egito, Deus guiava o seu povo com uma nuvem durante o dia e de noite com uma coluna de fogo. Essa nuvem luminosa que vemos aqui no Evangelho é o Espírito Santo, caros católicos. E a voz que sai da nuvem e se dirige a Jesus Cristo, chamando-o de Filho, é Deus Pai, que coloca todas as suas complacências nEle. Temos aqui a Santíssima Trindade, caros católicos: um só Deus em três pessoas: Pai, Filho, e Espírito Santo.
Ao lado de Cristo temos Moisés e Elias. Neles está resumido todo o Antigo Testamento: a lei e os profetas. É a comprovação de que Jesus Cristo é o Messias, é o Salvador, é o Profeta, é o novo legislador anunciado no Antigo Testamento. Os dois personagens do AT estão a nos dizer que, com a vinda de Cristo, cessa o AT, a salvação já não pode ser encontrada no Antigo Testamento, mas somente em Jesus Cristo. Outra verdade de fé, prezados católicos: só pode haver salvação em Nosso Senhor Jesus Cristo, o Messias anunciado pelo Antigo Testamento. Só é verdadeira e só pode salvar a religião fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a católica. No Evangelho, se diz que Elias e Moisés falavam com Jesus. Certamente, falavam da obra de redenção de Cristo, de sua morte na Cruz, de seu amor pelos homens.
A Transfiguração ocorre em um monte, no monte Tabor. A elevação do monte indica que o que está ocorrendo ali é algo sobrenatural. Na verdade, a Transfiguração no Monte Tabor, nada mais é do que uma fresta pela qual podemos ver como será o céu. No céu, teremos Nosso Senhor em toda a sua glória, depois de seus sofrimentos sobre a terra. Teremos a Santíssima Trindade, que será eternamente contemplada, adorada, amada. Teremos os santos. Poderemos conhecer as comunicações a vida íntima de Deus, como vemos na Transfiguração a comunicação entre as pessoas divinas. Lá poderemos fazer a nossa tenda e sermos eternamente felizes. Aqui, na terra, temos que combater. Aqui está colocada a Transfiguração para mostrar qual o objetivo que devemos buscar. Devemos ter sempre diante de nós o fim que buscamos: o céu, a vida eterna.  Aqui está colocada a Transfiguração para que penetremos o prêmio que mereceremos se conhecermos, amarmos e servirmos Nosso Senhor Jesus Cristo.
Nesse tempo de Quaresma, é importante nos lembrarmos que é o céu a nossa felicidade. Todos os nossos sacrifícios, todos os nossos sofrimentos, todas as nossas obras, todas as nossas orações, tudo deve ser orientado para alcançarmos o céu. Na Transfiguração, temos algumas indicações do caminho a ser percorrido. Antes de tudo, é preciso subir o monte. A subida demanda esforço, trabalho. Todavia, sozinho não podemos subir. É Jesus quem nos leva. Para subir o monte que leva ao céu, para passar por esse vale de lágrimas e chegar ao céu, é preciso que Jesus nos leve, como ele levou os três apóstolos. Sem Jesus, nada podemos fazer. E se queremos que Jesus nos leve, devemos nos dispor para isso, rezando e procurando praticar com seriedade a sua vontade em todas coisas. Vemos Moisés e Elias. Moisés e Elias jejuaram ambos quarenta dias e quarenta noites, para cumprir melhor a vontade de Deus. Para subir o monte que leva ao céu, é preciso mortificação, como falamos domingo passado. Jesus levou São Pedro, São Thiago Maior e São João Evangelista com ele. São Pedro nos diz que é preciso prontidão no serviço de Deus, se queremos chegar ao monte Tabor celeste. São João nos diz que é preciso a pureza se queremos chegar ao monte Tabor celeste. São Thiago diz que devemos estar prontos, se for necessário, a dar a própria vida, para chegar ao monte Tabor celeste, pois São Thiago Maior foi o primeiro apóstolo mártir. A Transfiguração também está colocada aqui para mostrar que Deus sempre nos dá as graças diante das provações. Nosso Senhor quis aparecer glorioso diante desses apóstolos para que eles não se escandalizassem diante da provação que seria para eles a morte de Cristo na Cruz. Deus, na sua bondade infinita, sempre nos dá as graças para superarmos as provações. Com a cruz, Deus sempre nos manda a transfiguração, por mais que, às vezes, essa transfiguração não seja tão clara. Eis aqui algumas indicações importantes na Quaresma para chegarmos ao monte Tabor.
Todavia, mais importante que essas belas indicações, nós temos as palavras de Deus Pai. “Este é o meu Filho bem amado em quem eu coloquei todas as minhas complacências.” Todo o agrado de Deus está em Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim, só será agradável a Deus e só encontrará a salvação aquele que está unido a Nosso Senhor Jesus Cristo. E, para estar unido a Nosso Senhor, é preciso, como diz Deus Pai, ouvir o que Nosso Senhor nos diz. É preciso ouvir os seus ensinamentos e colocá-los em prática, reconhecendo nesse ensinamento palavras de vida eterna. Assim, como está dito no Evangelho de São João (3, 36): “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; quem não crê no Filho não verá a vida, mas sobre ele pesa a ira de Deus.” Também Nossa Senhora nos diz a mesma coisa. Aos serviçais das bodas de Caná, ela diz:  Fazei tudo o que Ele, Cristo, vos disser. Está aqui o caminho para chegar ao Monte Tabor celeste, está aqui o objetivo desses quarenta dias de misericórdia e de graça que é a Quaresma: ouvir Nosso Senhor Jesus Cristo e fazer tudo o que Ele nos manda.
Que belo resumo do Santo Evangelho, caros católicos, temos diante de nós na Transfiguração. As verdades de fé mais importantes, o anúncio do céu e os meios para chegar até lá.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Da glória de São José, Esposo da Virgem Maria.

Qui custos est Domini sui, glorificabitur — “O que é o guarda do seu Senhor, será glorificado” (Prov. 27, 18).

Sumário. Devemos ter por certo que a vida de São José, sob a vista e na companhia de Jesus e Maria, foi uma oração contínua, cheia de fé, de confiança, de amor, de resignação e de oferecimento. Visto que a recompensa é proporcionada aos merecimentos da vida, considera quão grande será no paraíso a glória do santo Patriarca. Com razão se admite que ele, depois da Bem-aventurada Virgem, leva vantagem a todos os demais Santos. Por isso, quando São José quer obter alguma graça para seus devotos, não tanto pede, como de certo modo manda a Jesus e Maria.

I. A glória que Deus confere no céu a seus Santos é proporcionada à santidade de vida que eles levaram em terra. Para termos uma idéia da santidade de São José, basta que consideremos unicamente o que diz o Evangelho: Ioseph autem vir eius, cum esset iustus (1) — “José seu esposo, como era homem justo”. A expressão homem justo significa um homem que possui todas as virtudes; porquanto aquele a quem falta uma delas, não pode ser chamado justo.

Ora, se o Espírito Santo chamou a São José justo, na ocasião em que foi escolhido para Esposo de Maria, avalia, que tesouros de amor divino e de todas as virtudes o nosso Santo não devia auferir dos colóquios e da contínua convivência com a sua santa Esposa, que lhe dava exemplos perfeitos de todas as virtudes. Se uma só palavra de Maria foi bastante eficaz para santificar ao Batista e para encher Santa Isabel do Espírito Santo, a que alturas não pensamos que deve ter chegado a bela alma de José pela convivência familiar com Maria, da qual gozou pelo espaço de tantos anos?

Além disso, que aumento de virtudes e de méritos não deve ter adquirido São José convivendo continuamente por tantos anos com a própria santidade, Jesus Cristo, servindo-O, alimentando-O e assistindo-Lhe nesta terra?

Se Deus promete recompensar aquele que por seu amor dá um simples copo de água a um pobre, considera quão alta glória terá dado a José, que O salvou das mãos de Herodes, Lhe forneceu vestidos e alimentos, O trouxe tantas vezes nos braços e carregou com tamanho afeto. — Devemos ter por certo que a vida de São José, sob a vista e na companhia de Jesus e Maria, foi uma oração contínua, cheia de atos de fé, de confiança, de amor, de resignação e de oferecimento. Se, pois, a recompensa é proporcionada aos merecimentos ajuntados na vida, considera quão grande será a glória de São José no paraíso!

II. Santo Agostinho compara os demais Santos com estrelas, mas São José com o sol. O Padre Soares diz que é muito aceitável a opinião que depois de Maria, São José leva vantagem a todos os demais Santos em merecimento e em glória. Donde o Ven. Bernardino de Bustis conclui que São José, de certo modo, dá ordens a Jesus e Maria quando quer impetrar algum favor para os seus devotos.

Meu santo Patriarca, agora que gozais no céu sobre um trono elevado junto do vosso amadíssimo Jesus, que vos foi submetido na terra, tende compaixão de mim, que vivo no meio de tantos inimigos, maus espíritos e más paixões, que me dão combates contínuos para me fazerem perder a graça de Deus. Ah! Pela felicidade que tivestes, de gozar na terra, sem interrupção, da companhia de Jesus e Maria, alcançai-me a graça de passar o resto de minha vida sempre unido a Deus e de morrer depois no amor de Jesus e Maria, para que um dia possa ir gozar, convosco, da sua companhia, no reino dos bem-aventurados.

E Vós, ó meu amado Jesus, meu amantíssimo Redentor, quando poderei ir gozar-Vos e amar-Vos no paraíso face a face, seguro de não Vos poder mais perder? Enquanto viver, estarei exposto a tal perigo. Ah, meu Senhor e meu único Bem, pelos merecimentos de São José, que Vós amais e honrais tanto no céu; pelos merecimentos de vossa querida Mãe; e mais ainda, pelos merecimentos de vossa vida e morte, pelas quais merecestes para mim todo o bem e toda a esperança: não permitais que em tempo algum eu me separe nesta terra de vosso amor, a fim de que possa ir para a pátria do amor, a possuir-Vos e amar-Vos com todas as minhas forças e nunca mais em toda a eternidade afastar-me da vossa presença e do vosso amor. (II 432.)

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1. Matth. 1, 19.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 345-347.)

25 de março de 2014

A separação dos escolhidos e dos réprobos no Juízo final.

Exibunt angeli, et separabunt malos de medio iustorum — “Sairão os anjos e separarão os maus do meio dos justos” (Matth. 13, 49).

Sumário. Quando todos os homens estiverem reunidos no vale de Josafá, virão os anjos separar os réprobos dos escolhidos. Estes ficarão à direita e aqueles serão, para sua confusão, impelidos para a esquerda. Oh, que triste separação! Meu irmão, de que lado nos acharemos nesse dia? À direita com os escolhidos, ou à esquerda com os condenados? Se quisermos estar à direita, deixemos o caminho que conduz à esquerda.

I. Assim que os homens tiverem ressuscitado, ser-lhes-á intimado que se dirijam todos ao vale de Josafá, para serem julgados. Quando todos estiverem ali reunidos, virão os anjos e separarão os réprobos dos escolhidos: Exibunt angeli, et separabunt malos de medio iustorum. Os justos ficarão à direita, e os condenados serão impelidos para a esquerda. — Que mágoa não sentiria quem fosse banido da sociedade ou da Igreja! Mas que dor muito maior não sentirá, quando se vir expulso da companhia dos Santos! Unus assumetur, et alter relinquetur (1) — “Um será tomado, e outro será desprezado”. Diz São Crisóstomo que, se os réprobos não tivessem outra pena a sofrer, esta confusão já seria para eles um suplício infernal.

Atualmente no mundo são julgados felizes os príncipes e os ricos; e são desprezados os santos que vivem na pobreza e humildade. Ó cristãos fiéis, vós que amais a Deus, não vos aflijais porque neste mundo viveis desprezados e em tribulações: Tristitia vestra vertetur in gaudium (2) “A vossa tristeza se há de converter em alegria”. Então se dirá que vós sois os verdadeiros felizes, e tereis a honra de ser proclamados os cortezãos da corte de Jesus Cristo.

Que brilhante figura não fará então um São Pedro de Alcântara, que foi vilipendiado como apóstata! Um São João de Deus, que foi tratado como insensato! Um São Pedro Celestino, que morreu numa prisão depois de ter abdicado o papado! Que honra receberão então tantos mártires, cruciados aqui pelos algozes! Tunc laus erit unicuique a Deo (3) — “Então cada um terá de Deus o louvor”. Que horrível figura, pelo contrário, não fará um Herodes, um Pilatos, um Nero, e tantos outros grandes da terra, agora condenados! — Ó partidários do mundo, espero-vos no vale de Josafá. Aí mudareis sem dúvida de sentimentos; aí deplorareis a vossa loucura. Infelizes! Por uma curta aparição no teatro deste mundo, tendes de fazer depois o papel de condenados na tragédia do juízo final.

II. Os escolhidos serão colocados à direita, ou antes, segundo o que diz o Apóstolo, para sua maior glória, serão elevados aos ares sobre as nuvens, para irem com os anjos ao encontro de Jesus Cristo, que deve vir do céu: Rapiemur cum illis in nubibus, obviam Christo in aera (4) — “Seremos arrebatados com eles nas nuvens ao encontro de Cristo”. E os condenados, como um rebanho de cabritos destinados ao matadouro, serão impelidos para a esquerda, esperando pelo Juiz, que virá pronunciar publicamente a condenação de todos os seus inimigos. — Meu irmão, de que lado nos acharemos nós nesse dia? À direita com os escolhidos, ou à esquerda com os réprobos?

Ó meu amado Redentor, ó Cordeiro de Deus, que viestes ao mundo, não para castigar, mas para perdoar os pecados: ah! Perdoai-me sem demora, antes que chegue o dia em que deveis ser meu Juiz. Se eu então viesse a perder-me, à vossa vista, ó doce Cordeiro, que me tendes aturado com tanta paciência, a vossa vista seria o inferno do meu inferno. Ah! Perdoai-me, repito, sem demora. Com o socorro da vossa mão misericordiosa, fazei-me sair do precipício onde me fizeram cair os meus pecados. Arrependo-me, ó soberano Bem, de Vos ter ofendido tantas vezes. Amo-Vos, ó meu Juiz, que tanto me haveis amado.

Suplico-Vos pelos méritos da vossa morte, que me deis uma graça tão eficaz, que me torne de pecador em santo. Prometestes atender a quem Vos roga: Clama ad me et exaudiam te (5) — “Clama por mim e Eu te atenderei”. Não Vos peço bens terrenos; peço-Vos a vossa graça, o vosso amor e nada mais. Atendei-me, ó meu Jesus, pelo amor que me dedicastes morrendo por mim na cruz. Meu amado Juiz, sou um culpado, mas um culpado que Vos ama mais que a si próprio. Tende piedade de mim! — Maria, minha Mãe, vinde depressa em meu auxílio, agora que me podeis ainda socorrer. Não me abandonastes quando vivia esquecendo-me de vós e de Deus. Socorrei-me, já que estou resolvido a servir-vos sempre e a nunca mais ofender a meu Senhor. Ó Maria, vós sois a minha esperança. (II 114.)

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1. Matth. 24, 40.
2. Io. 16, 20.
3. I Cor. 4, 5.
4. I Thess. 4, 17.
5. Ier. 33, 3.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 342-345.)

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

19/25  -  É preciso servir a Deus, nosso Pai por amor.

O filho serve como filho, e não como servo; não teme o castigo, nem a recompensa como mercenário; mas quer agradar a seu pai e testemunhar-lhe o seu amor, tanto ele esta impresso no coração filial. Donde se segue que quando a alma teme perder o paraíso,passa avante e diz: Quando não houvesse paraíso, Deus seria meu pai; criou-me, conserva-me, alimenta-me e dá-me tudo e portanto, eu o quero amar, honrar e servir perfeitamente. Oh! dom da piedade, presente rico que Deus faz ao coração! Bem aventurado é o que goza esta correspondência do coração filial para com o coração paternal do Pai celeste, e é isso o que Deus nos quer ouvir na Oração Dominical, quando quer que o chamemos Pai nosso que estais no Céu, nome de respeito, amor e temor. E para vos mostrar que este dom de piedade, isto é, este temor filial, nos é dado pelo Espírito Santo, o Apóstolo São Paulo, escrevendo aos romanos, diz: "Não recebemos o espírito de temor e escravidão, mas o de adoção dos filhos de Deus, pela qual o chamamos Nosso Pai": como querendo dizer que nos tornamos como filhinhos de Nosso senhor. As criancinhas vivem com uma grande confiança; não pensam que o pai os castigará, nem que lhes prepara uma herança; mas ocupam-se só em o amar, sem pensarem em mais nada, porque ele leva-as nos braços, alimenta-as, adormece-as e entretem-nas com os cuidados assíduos de bom Pai; assim devemos nós fazer para com Deus, honrando-o como nosso Pai amabilíssimo e servindo-o com amor, sem temor de suplícios, nem desejo de recompensas, deixando-os, conduzir nos braços da sua santa Providência enquanto isso lhe agradar.

Preparação para a Morte

CONSIDERAÇÃO XVII

Abuso da divina misericórdia
Ignoras quoniam benignitas Dei ad poenitentiam te adducit? Não sabes que a benignidade de Deus te convida à penitência? (Rm 2,4)

PONTO I

Lê-se na parábola do joio que, tendo crescido num campo essa má erva juntamente com a boa semente, os servos quiseram arrancá-la (Mt 13,29). O Senhor, porém, lhes objetou: “Deixai-a crescer; mais tarde a arrancaremos para lançá-la ao fogo” (Mt 13,30). Infere-se desta parábola, por um lado, a paciência de Deus para com os pecadores, e por outro o seu rigor para com os obstinados. Diz Santo Agosti-nho que o demônio seduz os homens por duas maneiras: “Com desespero e com esperança”. Depois que o pecador cometeu o delito, arrasta-o ao deses-pero pelo temor da justiça divina; mas, antes de pecar, excita-o a cair em tentação pela esperança na divina misericórdia. É por isso que o Santo nos adverte, dizendo: “Depois do pecado tenha esperança na divina misericórdia; antes do pecado tema a justiça divina”. E assim é, com efeito. Porque não merece a misericórdia de Deus aquele que se serve da mesma para ofendê-lo. A misericórdia é para quem teme a Deus e não para o que dela se serve com o propósito de não temê-lo.
Aquele que ofende a justiça — diz o Abulense — pode recorrer à misericórdia; mas a quem pode recorrer o que ofende a própria misericórdia? Será difícil encontrar um pecador a tal ponto desesperado que queira expressamente condenar-se. Os pecadores querem pecar, mas sem perder a esperança da salvação. Pecam e dizem: Deus é a própria bondade; mesmo que agora peque, mais tarde confessar-me-ei. Assim pensam os pecadores, diz Santo Agosti-nho1. Mas, meu Deus, assim pensaram muitos que já estão condenados.
“Não digas — exclama o Senhor — a misericórdia de Deus é grande: meus inumeráveis pecados me serão perdoados com um ato de contrição” (Ecl 5,6). Não faleis assim — nos diz o Senhor — e por quê? “Porque sua ira está tão pronta como sua misericór-dia; e sua cólera fita os pecadores” (Ecl 5,7). A mise-ricórdia de Deus é infinita; mas os atos dela, ou seja, os de comiseração, são finitos. Deus é clemente, mas também é justo. “Sou justo e misericordioso — disse o Senhor a Santa Brígida, — e os pecadores só pen-sam na misericórdia”. Os pecadores — escreve São Basílio — só querem considerar a metade. “O Senhor é bom; mas também é justo. Não queiramos considerar unicamente uma das faces de Deus”. Tolerar quem se serve da bondade de Deus para mais o o-fender — dizia o Padre Ávila — fora antes injustiça que misericórdia.
A clemência foi prometida a quem teme a Deus e não a quem abusa dela. Et misericordia ejus timenti-bus eum, como exclama em seu Cântico a Virgem Santíssima. A justiça ameaça os obstinados, porque, como diz Santo Agostinho, a veracidade de Deus resplandece mesmo em suas ameaças.
Acautelai-vos — diz São João Crisóstomo — quando o demônio (não Deus) vos promete a misericórdia divina com o fim de que pequeis.
Ai daquele — acrescenta Santo Agostinho — que para pecar confia na esperança!...4 A quantos essa vã ilusão tem enganado e levado à perdição.
Desgraçado daquele que abusa da bondade de Deus para ofendê-lo mais!... Lúcifer — como afirma São Bernardo — foi castigado por Deus com tão as-sombrosa presteza, porque, ao rebelar-se, esperava não ser punido. O rei Manassés pecou; converteu-se em seguida, e Deus lhe perdoou. Mas para Amon, seu filho, que, vendo quão facilmente seu pai havia conseguido o perdão, entregou-se à má vida com a esperança de também ser perdoado, não houve misericórdia. Por essa causa — diz São João Crisósto-mo — Judas se condenou, porque se atreveu a pecar confiando na clemência de Jesus Cristo. Em suma: se Deus espera com paciência, não espera sempre. Pois, se o Senhor sempre nos tolerasse, ninguém se condenaria; ora, é larga a porta e espaçoso o cami-nho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ele (Mt 7,13). Quem ofende a Deus, fiado na esperança de ser perdoado, “é um escarnecedor e não um penitente”, diz Santo Agostinho.
Por outra parte, afirma São Paulo que de “Deus não se pode zombar” (Gl 6,7). E seria zombar de Deus o querer ofendê-lo sempre que quiséssemos e desejar, a seguir, o paraíso. Quem semeia pecados, não pode esperar outra coisa que o eterno castigo no inferno (Gl 6,8). O laço com que o demônio arrasta quase todos os cristãos que se condenam é, sem dú-vida, esse engano com que os seduz, dizendo-lhes: “Pecai livremente, porque, apesar de todos os peca-dos, haveis de salvar-vos”.
O Senhor, porém, amaldiçoa aquele que peca na esperança de perdão.
A esperança depois do pecado, quando o peca-dor deveras se arrepende, é agradável a Deus, mas a dos obstinados lhe é abominável.
Tal esperança provoca o castigo de Deus, assim como seria passível de punição o servo que ofendes-se a seu patrão, precisamente porque é bondoso e amável.

AFETOS E SÚPLICAS

Meu Deus! Eis aqui um dos que vos têm ofendi-do porque éreis bom para mim!... Ó Senhor, esperai-me ainda. Não me abandoneis, pois espero, com o auxílio de vossa graça, não tornar a dar-vos motivo para que me deixeis. Arrependo-me, ó Bondade infinita, de vos ter ofendido, cansando vossa paciência.
Agradeço-vos por me terdes esperado até agora. De hoje em diante não tornarei a ser, como hei sido, um miserável traidor. Já que tendes esperado para ver-me convertido em fervoroso amante de vossa bonda-de, crede, como espero, que esse dia ditoso já despontou. Amo-vos sobre todas as coisas; estimo a vossa graça mais que todos os reinos do mundo, e a perdê-la preferira perder mil vezes a vida. Meu Deus, por amor de Jesus Cristo, concedei-me, juntamente com vosso santo amor, o dom da perseverança até à morte. Não permitais que de novo volte a trair-vos ou deixe de vos amar.
E vós, Virgem Maria, minha esperança, alcançai-me a perseverança final e nada mais vos peço.