14 de abril de 2024

365 dias com Padre Pio - frases para cada dia do ano

Dia 14/4 - Quando o Senhor me chamar, eu direi: 'Senhor, eu fico aqui, na porta do Paraíso. Entrarei quando tiver visto entrar o último de meus filhos espirituais'.

13 de abril de 2024

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo Piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus

CAPÍTULO VIII

Da gratidão que devemos a Jesus Cristo por sua paixão

O amor de Cristo nos constrange.
1. Diz S. Agostinho que, tendo sido Jesus Cristo o primeiro a dar a vida por nós, obrigou-nos com isso a que demos a vida por ele (Trac. 46 in Jo). Escreve o santo: “Conheceis qual é a mesa que contém o corpo e sangue de Cristo: o que dela se utiliza, deverá também tê-la preparada”. Quer dizer: quando nós vamos à mesa eucarística, para comungar, isto é, nutrir-nos do corpo e sangue de Jesus Cristo, devemos por gratidão preparar-lhe igualmente a oferta de nosso sangue e nossa vida e, se for necessário, sacrificar um e outra para sua glória. Mui belas são as palavras de S. Francisco de Sales a respeito do texto de S. Paulo: “A caridade de Cristo nos constrange” (2Cor 5,4). O amor de Jesus nos força, mas para quê? Nos força a amá-lo. Mas ouçamos o santo: “O conhecimento de que Jesus nos amou até à morte de cruz não é um conhecimento que força os nossos corações a amá-lo com uma violência tanto maior quanto mais amável ele o é? O meu Jesus se dá todo a mim e eu me dou todo a ele: eu viverei e morrerei sobre seu peito, nem a morte nem a vida dele mais me separarão”.
2. S. Pedro, para que nos recordemos de ser gratos a nosso Salvador, nos faz lembrar que não fomos resgatados da escravidão do inferno com ouro ou prata, mas com o sangue precioso de Jesus Cristo, o qual se sacrificou por nós como um cordeiro inocente sobre o altar da cruz (1Pd 1,18). Grande, portanto, será o castigo dos homens ingratos, que não correspondem a tal benefício. É verdade que Jesus veio para salvar todos os homens que estavam pedidos: “Veio o Filho do homem buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19,19), mas é igualmente verdade o que afirmou o santo velho Simeão, quando Maria apresentou no templo Jesus menino: “Eis que este está posto para a ruína, a ressurreição de muitos em Israel e como sinal de contradição” (Lc 2,34). Com as palavras, para ressurreição de muitos, significou a salvação que Jesus traria a todos os crentes, que pela fé haviam de ressurgir da morte para a vida da graça. Mas com as palavras, este foi posto para ruína, predisse que muitos deviam cair em maior desgraça por sua ingratidão para com o Filho de Deus, que descera à terra para tornar-se o alvo de seus inimigos, como exprimem as palavras: como sinal de contradição, fazendo de Jesus o alvo para o qual dirigiam os judeus todas as calúnias, injúrias e maus tratos. Este sinal, pois, que é Jesus Cristo, não é só contradito pelos judeus que não o reconhecem pelo Messias, mas também pelos cristãos ingratos que pagam o seu amor com ofensas e desprezo de seus preceitos.

O Rei dos corações.
1. Nosso Redentor, diz S. Paulo, chegou até a dar a vida por nós, para se tornar senhor absoluto de todos os nossos afetos, demonstrando-nos o seu amor, morrendo por nós: “Por isso Cristo morreu e ressuscitou, para dominar sobre os vivos e os mortos” (Rm 14,9). Não, nós não somos mais nossos depois de termos sido comprados pelo sangue de Jesus Cristo: “Quer vivamos, quer morramos, somos do Senhor”, ajunta o Apóstolo (Rm 14,8). Logo, se não o amamos e não observamos seus preceitos dos quais o primeiro é o de amar, não somos somente ingratos, mas também injustos, e merecemos castigo duplo. A obrigação de um escravo resgatado por Jesus das mãos do demônio é dedicar-se totalmente a amá-lo e servi-lo, vivo ou morto. S. João Crisóstomo faz uma bela reflexão sobre o texto de S. Paulo, dizendo que Deus pensa mais em nós do que nós mesmos e por isso reputa como seu bem a nossa vida e como seu prejuízo a nossa morte. Assim, se morremos, não morremos só para nós, mas para Deus também. Oh! como é grande a nossa felicidade! Mesmo vivendo neste vale de lágrimas no meio de tantos inimigos e tantos perigos podemos contudo dizer: nós somos do Senhor, somos de Jesus Cristo: e sendo propriedade sua, ele terá cuidado em nos conservar na sua graça nesta vida e junto a si por todo e sempre na vida futura. Jesus Cristo morreu,, por por cada um de nós, para que cada um de nós viva também para seu Redentor. “E Cristo morreu por todos, para que os que vivem já não vivam para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2Cor 5,15). Quem vive para si mesmo, para si dirige todos os seus desejos, temores, dores e põe nisso a sua felicidade. Mas todos os desejos do que vive para Jesus Cristo consistem em amá-lo e dar-lhe gosto e todos os seus temores em desgostá-lo. Sua única aflição é ver Jesus desprezado e sua única alegria é vê-lo amado pelos outros. Isto é viver para Jesus e é o que pretende seguramente cada um de nós. Por esse motivo procurou ele conquistar todo o nosso amor, sofrendo tão grandes penas.
2. Talvez pretenda ele demais? Não, diz S. Gregório, é justo que pretenda tanto, depois de nos ter dado tão grandes provas de seu amor, que até parece doido de amor por nós. “Pareceu até doidice, escreve S. Gregório, o autor da vida morrer pelos homens” (Hom. 6 in Evang.). Ele se dá sem reserva, inteiramente a nós; tem, pois, razão de pretender que nos demos incondicionalmente a ele e lhe consagraremos todo o nosso amor. E se lhe negamos uma parte, amando outra coisa fora dele ou não por ele, tem motivo de se queixar de nós. “Ama-te menos do que o mereces, quem juntamente contigo ama outra coisa que não é por ti que ama”, diz S. Agostinho (Confess. 1. 10, c. 29). E que outra coisa podemos nós amar fora de Jesus senão as criaturas? Em comparação com Jesus Cristo, que são, porém, as criaturas senão vermes da terra, lodo, fumaça e vaidade? O tirano ofereceu a S. Clemente, papa, grande quantidade de dinheiro, de ouro e pedras preciosas, para que renunciasse a Jesus Cristo. O Santo deu um grande suspiro e exclamou: “Ah, meu Jesus, bem infinito, como podeis suportar ser considerado pelos homens menos que o lodo da terra?” Não foi a temeridade nem a afoiteza que levou os mártires a ir ao encontro dos cavaletes, das lâminas incandescentes e da morte a mais cruel, mas o amor de Jesus Cristo, quando o contemplavam morto na cruz por seu amor (Serm. 62 in Cant.). Sirva por todos o exemplo de S. Marcos e S. Marcelino, que, tendo os pés e as mãos cravados, eram insultados pelo tirano como loucos por quererem padecer um tormento tão atroz só para não renegar a Jesus Cristo. Eles, porém, responderam que jamais tinha experimentado delícias tão grandes como as que então gozavam estando transpassados por aqueles cravos. Todos os santos, para contentar a Jesus Cristo tão maltratado por nós, abraçaram com alegria a pobreza, as perseguições, os desprezos, as enfermidades, as dores e a morte. As almas esposas de Jesus crucificado não acham coisa alguma mais honrosa que trazer consigo as insígnias do crucifixo, isto é, os padecimentos.

Cristo vive em mim.
1. Ouçamos o que diz S. Agostinho: “A vós não é lícito amar pouco: esteja inteiramente fixo em vossos corações aquele que por vós foi fixado na cruz” (De san. virgin. c. 13). A nós, que cremos firmemente num Deus que morreu na cruz por nosso amor, não é lícito amá-lo pouco: em nosso coração não se deve aninhar outro amor senão o que devemos a quem por nosso amor quis morrer pregado na cruz. Unamo-nos todos com S. Paulo e digamos: “Estou pregado com Cristo na cruz. Já não sou eu que vivo, Cristo é que vive em mim” (Gl 2,19). Comentando S. Bernardo as palavras: Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim, diz: “Estou morto para todas as outras coisas; encontram-me, porém, vivo e pronto todas aquelas que se referem a Cristo” (Serm. 7 in Quadrag.). Assim diz cada um que ama o Crucifixo com o Apóstolo: Eu deixei de viver por mim mesmo, depois que Jesus quis morrer por mim, tomando sobre si a morte que me era destinada. E por isso estou morto para toas as coisas do mundo e não percebo nem dou atenção àquelas que não são para Jesus Cristo e só me encontram vivo e aparelhado para abraçá-las,
mesmo que tragam consigo suores, desprezos, dores e até a morte as que dizem respeito a Jesus. S. Paulo podia afirmar: “Para mim o viver é Cristo” (Fl 1,21) querendo com essas breves palavras dizer: Jesus é o meu viver, ele é todo o meu pensamento, todo o meu fito, toda a minha esperança, todo o meu desejo, porque ele é todo o meu amor.
2. “Palavra de fé, porque, se morrermos com ele, com ele também viveremos; se sofrermos por ele, com ele também reinaremos; se o negarmos, ele também nos negará” (2Tm 2,11-12). Os reis da terra, depois de vencer seus inimigos, repartem com os que combateram os bens conquistados; assim procederá também Jesus Cristo no dia do juízo: repartirá os bens celestes a todos os que trabalharam e sofreram por sua glória. Diz o Apóstolo: Se morrermos com ele, com ele viveremos; o morrer com Cristo implica o negar-se a si mesmo, isto é, renunciar àquelas satisfações, porque, se não as abdicarmos, chegamos a renegar a Jesus Cristo, que então no dia das contas nos renegará a nós. E é preciso saber que não só negamos a Jesus Cristo quando renegamos a fé, mas também quando nos negamos a obedecer-lhe naquilo que ele quer de nós, como o perdoar qualquer afronta recebida do próximo por amor dele, o ceder em qualquer ponto de honra, assim dito, o romper qualquer amizade que nos põe no perigo de perder a amizade de Jesus, o desprezar o receio de ser tidos por ingratos, visto que nossa primeira gratidão deve ser para com Jesus, que deu seu sangue e sua vida por nós, coisa que criatura alguma jamais fez por nós. Ó amor divino, como podes ser assim desprezado pelos homens! Ó homens, contemplai sobre essa cruz o Filho de Deus que, qual cordeiro inocente, se sacrificou à morte para pagar os vossos pecados e desta maneira conquistar o vosso amor. Contemplai-o, contemplai-o e amai-o. Jesus meu, amabilidade infinita, não me deixeis viver mais ingrato para com tão grande bondade. Vivi no passado esquecido de vosso amor e do quanto padecestes por mim: de hoje em diante não quero pensar em mais nada senão em amar-vos. Ó chagas de Jesus, feri-me de amor. Ó sangue de Jesus, inebriai-me de amor. Ó morte de Jesus, fazei-me morrer a todo outro amor que não seja de Jesus. Eu vos amo, ó meu Jesus, sobre todas as coisas: amo-vos com toda a minha alma, amo-vos mais do que a mim mesmo. Eu vos amo e porque eu vos amo desejaria morrer de dor, pensando que no passado tantas vezes vos voltei as costas e desprezei a vossa graça. Por vossos merecimentos, ó meu Salvador crucificado, dai-me o vosso amor e fazei-me todo vosso. Ó Maria, minha esperança, fazei-me amar a Jesus Cristo e nada mais vos peço.

365 dias com Padre Pio - frases para cada dia do ano

Dia 13/4 - O sofrimento por males materiais e morais é a oferta mais digna que se pode fazer Àquele que nos salvou sofrendo!

12 de abril de 2024

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo Piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus

CAPÍTULO VII

Do amor que Jesus Cristo nos demonstrou na sua paixão

Assim amou Deus o mundo.
1. S. Francisco de Sales chama o monte Calvário o monte dos amantes e diz que o amor que nasce da paixão é fraco, dando com isso a entender que a paixão de Jesus Cristo é o incentivo mais forte para nos mover e inflamar a amar o nosso Salvador. Para que possamos compreender em parte (pois totalmente é impossível) o grande amor que Deus nos demonstrou na paixão de Jesus Cristo, basta lançar um olhar ao que dizem as Sagradas Escrituras. Escolherei só alguns textos mais importantes que falam deste amor. E que ninguém ache fastidioso repetir eu esses textos que falam da paixão, tendo-os já citado muitas vezes em outras obras minhas. Também certos escritores de obras perniciosas, que tratam de obscenidades, repetem sempre suas pilhérias impudicas para despertar mais fortemente a concupiscência de seus incautos leitores. E a mim não me será então permitido repetir aqueles trechos das Sagradas Escrituras, que são mais aptos para inflamar os ânimos no amor divino? Falando deste amor, diz o próprio Jesus: “Assim Deus amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito” (Jo 3,61). A palavra assim significa muito: ela nos faz compreender que, tendo-nos dado o seu Filho unigênito, nos demonstrou um tal amor que nós nem sequer podemos compreendê-lo. Por causa do pecado todos nós estávamos mortos, tendo perdido a vida da graça. O Padre eterno, porém, para dar a conhecer ao mundo a sua bondade e nos fazer compreender quanto nos amava, quis enviar à terra seu Filho, para que ele com sua morte nos restituísse a vida. “Nisto é que se manifestou a caridade de Deus para conosco, que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo para que nós vivamos por ele” (1Jo 4,9). Para nos perdoar a nós, Deus não quis perdoar a seu próprio Filho, desejando que ele assumisse o peso de satisfazer a justiça divina por todas as nossas culpas. “O qual não poupou seu próprio Filho, mas entregou-o por todos nós” (Rm 8,32). Diz-se entregou-o, como se o depositasse nas mãos dos algozes, que o encheram de ignomínias e dores, até fazê-lo morrer de dor em um patíbulo ignominioso. Primeiramente o sobrecarregou com todos os nossos pecados: “E o Senhor pôs sobre ele a iniqüidade de nós todos” (Is 53,6), e depois quis vê-lo consumido de opróbrios e das mais acerbas aflições tanto internas como externas: “Eu o feri por causa dos crimes de meu povo. E o Senhor quis quebrantá-lo na sua fraqueza” (Is 53,8-10).
2. S. Paulo, considerando este amor de Deus, chega a dizer: “Por causa de excessiva caridade com que nos amou, quando estávamos mortos pelos pecados, ele nos deu a vida em Cristo” (Ef 2,4-5). Ele diz por causa da excessiva caridade com que nos amou. Como? Em Deus poderá haver excesso? Sim, fala dessa maneira para que compreendamos que Deus fez pelo homem tais coisas, que, se a fé não o atestasse, não se poderia crê-lo. Por isso exclama a S. Igreja, cheia de admiração: “Ó admirável condescendência de vossa compaixão para conosco! Ó inestimável predileção de vossa caridade! Para remirdes o servo, entregastes o Filho”. Note-se esta expressão da Igreja: predileção da caridade, esse amor é mais caro a Deus que todos os amores que consagra às outras criaturas. Sendo Deus a caridade mesma, o amor mesmo, como escreve S. João: “Deus é a caridade” (1Jo 4,8), ama todas as criaturas: “Pois tu amas todas as coisas que existem e não odeias alguma das que fizeste” (Sb 11,25). O amor que ele dedica ao homem parece, porém, ser-lhe caro e avantajado, pois chega a preferir o homem aos mesmos anjos, querendo morrer pelos homens e não pelos anjos que se haviam extraviado.

Ele se entregou a si mesmo.
1. Falando do amor que o Filho de Deus consagra ao homem, notemos que, vendo ele, de um lado, o homem perdido pelo pecado e de outro, a justiça de Deus que exigia inteira satisfação pela ofensa recebida do homem que não estava em condições de a dar, ofereceu-se espontaneamente a satisfazer pelo homem. “Foi oferecido porque ele mesmo o quis” (Is 53,7). Como um humilde cordeiro se submete aos carnífices, permitindo-lhes que lhe dilacerem as carnes, o conduzam à morte, sem se lamentar nem abrir a boca, como já estava predito: “Será levado como uma ovelha ao matadouro, e, como um cordeiro diante do que o tosquia, emudecerá e não abrirá a boca” (Is 53,7). S. Paulo escreve que Jesus, para obedecer a seu Pai, aceitou a morte da cruz: “Fez-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2,8). Não se julgue, porém, que o Redentor de sua parte não o queria e só para obedecer ao Pai morreu crucificado: ele se ofereceu espontaneamente a essa morte e quis morrer por própria vontade pelo homem, levado pelo amor que lhe consagrava, como ele mesmo o declarou em S. João: “Eu mesmo entrego a minha alma, ninguém a tira de mim, mas eu mesmo a dou de mim mesmo” (Jo 10,18). E ajuntou que era esse o ofício de um bom pastor, dar a sua vida por suas ovelhas: “Eu sou o bom pastor, o bom pastor dá sua alma por suas ovelhas” (Jo 11,14). Por que quis morrer por suas ovelhas? Que obrigação tinha como pastor de dar sua vida por suas ovelhas? Quis morrer por causa do amor que lhes tinha e assim livrá-las do poder de Lúcifer: “Ele nos amou e se entregou por nós” (Ef 5,2).
2. Claramente afirmou nosso amante Redentor quando disse: “E eu, quando for exaltado da terra, atrairei tudo para mim” (Jo 12,32). Com essas palavras quis designar a morte que teria de sofrer sobre a cruz, como esclarece o mesmo evangelista: “Dizia isso, significando de que morte havia de morrer” (Jo 12,33). Comentando as palavras — tudo atrairei para mim — diz S. João Crisóstomo: como se tudo estivesse retido pelo tirano. Com a palavra — atrairei— quer o Senhor significar que ele, com sua morte, nos arrancou a força das mãos de Lúcifer, o qual como tirano nos conserva encadeados como escravos para nos atormentar eternamente no inferno depois da morte. Infelizes de nós, se Jesus Cristo não houvesse morrido por nós! Todos deveríamos ser condenados ao inferno. Que grande motivo para nós de amar Jesus Cristo, digo para nós, porque merecemos o inferno e ele, com sua morte e efusão de seu sangue, nos livrou dessa desgraça. Lancemos de passagem um olhar para as penas do inferno, onde já se acham infelizes a suportá-las. Esses infelizes estão imersos num mar de fogo, no qual sofrem uma agonia ininterrupta, pois nesse fogo experimentam toda sorte de tormentos. Estão entregues às mãos dos demônios, que, cheios de furor, não fazem outra coisa que atormentá-los incessantemente. Mais do que pelo fogo e por todos os outros horrores, são atormentadas pelo remorso da consciência pelos pecados cometidos durante a vida, por cuja causa foram condenados. Vêem fechado para sempre todo caminho que possa conduzi-los para fora desse abismo de tormentos. Vêem-se banidos para sempre da companhia dos santos e da pátria celeste, para a qual foram criados. O que, porém, mais os aflige e constitui o seu inferno é verem-se abandonados de Deus e condenados a não poderem mais amá-lo nem dele recordar-se senão com ódio e rancor. Desse inferno nos livrou Jesus Cristo, remindo-nos não com ouro ou outros bens terrenos, como diz S. Lourenço Justiniano (De contempt. mundi. c. 7), mas dando-nos seu sangue e sua vida sobre a cruz. Os reis da terra enviam seus vassalos à morte, na guerra, para conservar a sua própria vida. Jesus, pelo contrário, quis morrer por nós, criaturas suas, para nos obter a salvação.

Amor sem medida.
1. Ei-lo então apresentado a Pilatos como um malfeitor pelos escribas e sacerdotes, para que ele o julgasse e condenasse à morte da cruz, como de fato o conseguiram. Oh! maravilha, exclama S. Agostinho, ver o juiz julgado, a justiça condenada e a vida morrer (Serm. 191). E qual foi a causa de todos esses prodígios senão o amor que Jesus Cristo tinha aos homens? “Amou-os e entregou-se assim mesmo por nós” (Ef 5,2). Oh! se tivéssemos sempre diante dos olhos esse trecho de S. Paulo, certamente arrancaríamos do coração todo o afeto aos bens da terra e não pensaríamos em outra coisa senão em amar o nosso Redentor, recordando-nos que o amor o levou a derramar todo o seu sangue para preparar-nos um banho de salvação. “O qual nos amou e lavou-nos de nossos peados no seu sangue” (Ap 1,5). Diz S. Bernardino de Sena que Jesus Cristo do alto de sua cruz viu em particular cada um de nossos pecados e ofereceu seu sangue em remissão de cada um em especial (Serm. 56 a. 1 c. 1). Em suma, o amor obrigou-o a aparecer nesta terra como o mais vil e humilde de todos, apesar de ser o senhor soberano. “Quem faz isto?” pergunta S. Bernardo; “O amor, que, forte, no seu afeto, não conhece dignidade” (In Cant. s. 64). O amor, que, para fazer-se notório ao objeto amado, faz que o amante ponha de parte sua dignidade e procure unicamente o que agrada e contenta ao amado, e assim Deus, que por ninguém pode ser vencido, deixou-se vencer pelo amor, que consagrava aos homens. É, além disso, necessário refletir que tudo o que padeceu Jesus Cristo em sua paixão, padeceu-o por causa de um de nós em particular e por isso diz S. Paulo: “Vivo na fé do Filho de Deus, que amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20). O que diz o Apóstolo deve dizer também cada um de nós. Assim, escreve S. Agostinho que o homem foi remido por um preço tão grande, que parece valer tanto quanto o próprio Deus (De dil. Deo c. 6). E o santo acrescenta em outro lugar: Senhor, vós me amastes, não como a vós mesmo, mas ainda mais do que a vós, pois, para livrar-me da morte, quisestes morrer por mim (Soliloq. c. 13).
2. Mas, podendo Jesus Cristo salvar-nos com uma só gota de sangue, por que quis derramá-lo todo a força de tormentos até expirar de pura dor no madeiro da cruz? Responde S. Bernardo que ele quis derramá-lo todo para nos demonstrar o amor excessivo que nos tinha. Digo excessivo, pois também os santos Moisés e Elias chamaram a paixão do Redentor um excesso de misericórdia e de amor: “E falavam de seu excesso, que havia de realizar em Jerusalém” (Lc 9,31). Falando S. Anselmo da paixão do Senhor, diz que a misericórdia superou o delito de nossos pecados (Cur Deus homo 1. 2, c. 21) e isso porque o valor da morte de Jesus Cristo, sendo infinito, superou infinitamente a satisfação devida à justiça divina por nossas culpas. O Apóstolo tinha, pois, razão de dizer: “Longe esteja de mim o gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14). E o que dizia S. Paulo pode dizer qualquer um de nós. E por isso digamos: E que o maior glória poderia eu ter ou esperar no mundo, do que ver um Deus morto por amor de mim? Ó Deus eterno, eu vos desonrei com os meus pecados, mas Jesus Cristo com sua morte satisfez por mim e restituiu-vos superabundantemente a honra que vos era devida; por amor, pois, de Jesus morto por mim, tende compaixão de mim. E vós, meu Redentor, que quisestes morrer por mim a fim de obrigar-me a amar-vos, fazei que eu vos ame. Por ter desprezado a vossa graça e o vosso amor, merecia ser condenado a não poder mais amar-vos; dai-me, porém, qualquer castigo, mas não esse. Suplico-vos que não me envieis ao inferno, já que no inferno não posso amar-vos. Fazei que eu vos ame e depois castigai-me como quiserdes. Privai-me de tudo, somente não de vós. Aceito todas as enfermidades, todas as ignomínias, todas as dores que me enviardes, contanto que eu vos ame. Conheço agora, pela luz que me dais, que sois soberanamente amável e muito me amastes; não ouso mais viver sem vos amar. No passado, amei as criaturas e voltei-vos as costas a vós, bem infinito; mas agora vos afirmo que quero amar exclusivamente a vós e nada mais. Ah, meu amado Salvador, se virdes que no futuro deixarei de vos amar, peço-vos que me façais morrer agora; prefiro ser aniquilado a ver-me separado de vós. Ó Virgem santa, Mãe de Deus, Maria, ajudai-me com vossas súplicas e obtende-me que não deixe mais de amar a Jesus morto por mim, e a vós, minha Rainha, que levastes Deus a usar de misericórdia comigo até agora.

365 dias com Padre Pio - frases para cada dia do ano

Dia 12/4 - Jesus não mediu Seu sangue para redimir a humanidade.

11 de abril de 2024

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo Piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus

CAPÍTULO VI

Reflexões sobre os prodígios havidos na morte de Jesus Cristo

As trevas.
1. Conta-se que S. Dionísio Areopagita, estando em Heliópolis, no Egito, exclamou na hora da morte de Jesus: “Ou o autor da natureza, Deus, está sofrendo ou então é a máquina do mundo que se desfaz” (Corn. a Lápide in Mt c. 27 v. 45). Miguel Sincelo e Suida escrevem ter o santo dito: “O Deus desconhecido padece em seu corpo e por isso o universo se cobre de trevas”. Eusébio escreve que, segundo Plutarco, na ilha de Praxas se ouviu uma voz que dizia: “Morreu o grande Pan” e em seguida o grito de muitos que choravam. Eusébio interpretou a palavra Pan por Lúcifer, que pela morte de Cristo ficou como que morto, vendo-se despojado do império que tinha sobre os homens. Barradas, porém, a entende pela pessoa de Cristo, visto que em grego a palavra Pan significa o todo, que é o próprio Jesus Cristo, Filho de Deus e Deus verdadeiro: o todo, isto é, a plenitude de todos os bens. O que sabemos do Evangelho é que no dia da morte do Salvador, à hora sexta, até à nona, a terra cobriu-se de trevas (Mt 27,45). E no momento em que Jesus expirou, partiu-se pelo meio o véu do templo e sobreveio um terremoto universal que fendeu muitos rochedos (Mt 27,51). Falando das trevas, nota S. Jerônimo que essa escuridão foi predita pelo profeta Amós nos seguintes termos: “E naquele dia acontecerá isto, diz o Senhor Deus: o sol se porá ao meio-dia e farei cobrir a terra de trevas no dia da luz” (Am 8,9). O mesmo S. Jerônimo comentou este texto, dizendo que então pareceu ter o sol retirado a sua luz para que os ímpios não se utilizassem dela. O sol retraiu os seus raios, não ousando contemplar o Senhor pendente da cruz, ajunta o santo. Mais acertadamente, porém, escreve S. Leão que nessa ocasião todas as criaturas demonstraram a seu modo a sua dor na morte de seu comum Criador (Serm. de pass.). É o mesmo o pensamento de Tertuliano, que, falando em particular das trevas, diz que o universo com aquela escuridão queria celebrar como que as exéquias de nosso Redentor (De jejun. c. 3).
2. S. Atanásio, S. Crisóstomo, S. Tomas notam que essa escuridão foi prodigiosa, já que naquele dia não podia haver eclipse pela interposição da lua entre a terra e o sol, visto ser possível um eclipse no novilúnio e não no plenilúnio, como era aquele dia, segundo os astrônomos. Além disso, sendo o sol muito maior que a lua, não podia esta tapar por completo a luz do sol, pois, segundo o Evangelho, as trevas se estenderam sobre o universo inteiro. E mesmo que fosse possível a lua encobrir a luz do sol, sabemos que o curso da lua é mui rápido, de maneira que a escuridão só duraria alguns minutos. Ora, o Evangelho afirma que a escuridão durou três horas da sexta à nona hora. Este prodígio das trevas apresenta Tertuliano na sua apologia (c. 21) aos gentios, dizendo-lhes que em seus próprios arquivos estava consignado esse acontecimento do ofuscamento do sol. Eusébio, em confirmação disso, refere na sua Crônica 1.2) as palavras do gentio Flegonte, que escreve o seguinte: “No quarto ano da 202.ª Olimpíada deu-se a ofuscação do sol, a maior de todas até então conhecidas, e fez-se noite na sexta hora do dia, podendo-se então ver as estrelas no firmamento”.

Fim do Antigo Testamento.
1. Diz ainda o Evangelho de S. Mateus: “Eis que o véu do templo se rasgou de alto a baixo em duas partes” (Mt 27,51). O Apóstolo escreve que havia uma cortina tanto no tabernáculo como no templo, onde estava o santo dos santos com a arca do testamento, que continha o maná, a vara de Aarão, as tábuas da lei, e esta parte era o propiciatório. No primeiro tabernáculo, que estava diante do Santo dos santos, oculto pelo primeiro véu ou cortina, entravam somente os sacerdotes para os seus sacrifícios. O sacerdote que aí sacrificava, mergulhando o dedo no sangue da vítima oferecida, com ele aspergia sete vezes a cortina. No segundo tabernáculo do Santo dos santos, que estava sempre fechado e oculto com o segundo véu, entrava somente o sumo sacerdote e uma só vez no ano, levando o sangue da vítima, que oferecia por si mesmo. Tudo era mistério: o santuário sempre fechado significava a exclusão dos homens da graça divina, que não receberiam mais senão por meio do grande sacrifício que Jesus Cristo deveria um dia oferecer pessoalmente, já figurado por todos os sacrifícios antigos e por isso chamado por S. Paulo pontífice dos bens futuros. Este, por um tabernáculo mais perfeito, a saber, seu corpo sacrossanto, deveria entrar no Santo dos santos da presença divina, como mediador entre Deus e os homens, oferecendo o sangue não já dos touros e bodes, mas o seu próprio sangue, com o qual deveria consumar a obra da redenção humana e assim abriu-nos o ingresso no céu.
2. Ouçamos, porém, as próprias palavras do Apóstolo: “Mas Cristo, estando já presente, pontífice dos bens vindouros, por outro mais perfeito e excelente tabernáculo, não feito por mão de homem, isto é, não desta criação, nem pelo sangue de bodes ou de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo achado uma redenção eterna” (Hb 9,11). Aí se diz: pontífice dos bens vindouros, para distinção dos pontífices de Aarão, que impetravam bens presentes e terrenos. Jesus Cristo havia de obter-nos bens futuros que são os celestes e eternos. Diz-se: por outro mais perfeito e excelente tabernáculo, que foi a santa humanidade do Salvador, tabernáculo do Verbo divino; não feito por mão de homem, porque o corpo de Jesus não foi formado por obra do homem, mas do Espírito Santo. Diz-se: nem pelo sangue de bodes ou de bezerros, mas por seu próprio sangue, porque o sangue de bodes e dos touros obtinha somente a purificação de carne, enquanto que o sangue de Jesus obtém a purificação da alma com a remissão dos pecados. Diz-se: entrou uma vez no santuário, havendo achado uma redenção eterna. Esta palavra achou significa que tal redenção não podia ser por nós nem pretendida nem esperada antes das promessas divinas, sendo unicamente um invento da bondade de Deus. Diz-se: eterna, porque o sumo sacerdote dos hebreus só uma vez no ano entrava no santuário; Jesus Cristo, consumando uma só vez o sacrifício com sua morte, mereceu-nos uma redenção eterna, que será suficiente para sempre para expiar todos os nossos pecados, conforme escreve o mesmo Apóstolo: “Com uma só oferenda fez perfeitos para sempre os que tem santificado” (Hb 10,14).

Novo Testamento.
1. E o Apóstolo ajunta: “E por isso é o mediador do Novo Testamento” (Hb 9,15). Moisés foi o mediador do Antigo Testamento, isto é, da antiga aliança, a qual não tinha o poder de obter aos homens a reconciliação com Deus e a salvação, pois, como explica S. Paulo em outro lugar, “a antiga lei nenhuma coisa levou à perfeição” (Hb 7,19). Jesus Cristo, porém, na nova aliança satisfazendo plenamente a justiça divina pelos pecados dos homens, obteve-lhes o perdão por seus merecimentos, assim como a graça divina. Os judeus achavam ser uma ofensa pensar que o Messias, por uma morte tão vergonhosa, haveria de operar a redenção dos homens, afirmando ser declaração da lei que o Messias não devia morrer, antes viver sempre: “Ouvimos da lei que o Cristo permanece para sempre” (Jo 12,34). Erravam, porém, porque a morte foi o meio pelo qual Jesus se tornou mediador e Salvador dos homens, pois que, pela morte de Jesus, foi feita a promessa da herança eterna aos que são a ela predestinados. “E por isso é mediador de um Novo Testamento, para que, intervindo a morte para expiação daquelas prevaricações que havia debaixo do primeiro testamento, recebam a promessa de herança eterna os que têm sido chamados” (Hb 9,15). S. Paulo, por essa razão, nos anima a colocar todas as nossas esperanças nos merecimentos da morte de Jesus Cristo: “Portanto, irmãos, tende confiança de entrar no santuário pelo sangue de Cristo, seguindo este caminho novo e de vida que nos consagrou primeiro pelo véu, isto é, pela sua carne” (Hb 10,19- 20). Nós temos um forte motivo de esperar a vida eterna pelo sangue de Jesus, que nos abriu caminho para o paraíso. Chama-se novo porque não fora trilhado por nenhum outro, mas Jesus, trilhando-o, no-lo abriu por meio de sua carne sacrificada na cruz, da qual o véu foi figura. S. Crisóstomo escreve que, assim como pela ruptura do véu, na paixão do Senhor, ficou aberto o Santo dos santos, do mesmo modo a carne de Jesus dilacerada na paixão abriu-nos o céu que nos estava fechado. E assim exorta-nos o mesmo Apóstolo a nos aproximar-mos com confiança do trono da graça para receber misericórdia divina: “Cheguemo-nos, pois, confiadamente ao trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e de achar graça em tempo oportuno” (Hb 4,16). Este trono de graça é justamente Jesus Cristo, em quem, se recorrermos nós, míseros pecadores, no meio de tantos perigos de perdição em que nos achamos, encontraremos aquela
misericórdia que não merecíamos.
2. Voltemos ao texto citado de S. Mateus: “Jesus, porém, dando novamente um grande brado, entregou o seu espírito e eis que o véu do templo se rasgou de alto a baixo em duas partes”. Ora, essa ruptura completa de alto a baixo, havida no momento da morte de Jesus e conhecida de todos os sacerdotes e do povo, não podia se ter dado sem um prodígio sobrenatural, já que o véu não poderia rasgar-se de alto a baixo apenas pelo terremoto. Isso aconteceu para significar que Deus não queria mais esse santuário fechado ordenado pela lei, mas que doravante ele mesmo queria ser santuário aberto a todos, por meio de Jesus Cristo. Escreve S. Leão (Serm. 10 depas. c. 5) que o Senhor, com tal ruptura, demonstrou claramente que tinha findado o antigo sacerdócio e começava o sacerdócio eterno de Jesus Cristo e que estavam abolidos os sacrifícios antigos e estabelecida numa nova lei, conforme o dito de S. Paulo: “Pois, mudado, que seja o sacerdócio, é necessário que se faça também mudança da lei” (Hb 7,12). Com isso ficamos cientificados de que Jesus Cristo é o fundador tanto da primeira como da segunda lei e que a lei antiga, o sacerdócio, os antigos sacrifícios não tinham em vista senão o sacrifício da cruz, que devia operar a redenção humana. Assim, tudo o que era escuro e misterioso na primeira lei, nos sacrifícios, nas festas e nas promessas, tornou-se claro na morte de Jesus. Em suma, diz Eutímio que o véu rasgado significava ter sido destruído o muro que separava o céu da terra, e que estava aberta e desimpedida para os homens a estrada para o céu. (In. Mat. c. 67).

Terremoto e ressurreição dos mortos.
1. Continua o Evangelho: “E a terra tremeu e as pedras se partiram” (Mt 27,51). É tradição que na morte de Jesus Cristo houve um grande terremoto universal que abalou todo o globo mundial segundo Blósio (Lib. 7 c. 4). Dídimo escreve que a terra foi sacudida até ao seu centro (Fragom. in Job c. 9). Orígenes e Eusébio (Chron. 1. 2) citam Flegonte, segundo o qual no ano 33 de Cristo houve um grande terremoto que causou grandes ruínas nos edifícios de Nicéia na Bitínia. Plínio, que viveu no tempo de Tibério, em cujo reinado morreu Jesus, e Suetônio atestam que na Ásia por essa ocasião foram destruídas 12 cidades por um grande terremoto (Lib. 3 c. 84 — In Tib. c. 48). Vêem nisso os eruditos o cumprimento da profecia de Ageu: “Ainda falta um pouco e eu comoverei o céu e a terra, o mar e todo o universo” (2,7). S. Paulino escreve que Jesus, mesmo pregado na cruz, para demonstrar quem ele era, aterrou o mundo universo (De ob. Celsi). Adricômio atesta que até hoje se vêem os sinais desse terremoto no monte Calvário, no lado esquerdo, havendo ali uma fenda de largura de um corpo humano e tão profunda que se não pode atingir o fundo (Descriptio Jerusal. n. 252). Barônio narra (An. 34 n. 107) que em muitos outros lugares fenderam-se os montes por esse terremoto. No promontório de Gaeta vê-se ainda hoje um rochedo do qual se diz que, na morte do Senhor, ele se abriu pelo meio de cima até em baixo e aparece claramente que a abertura foi prodigiosa, pois é tão grande que o mar a atravessa pelo meio e o que falta de um lado vê-se elevar-se perfeitamente correspondente no outro. A mesma coisa diz a tradição a respeito do monte Colombo, perto de Rieti, do Monteserrate na Espanha e de diversos outros montes abertos na Sardenha em redor da cidade de Gagliari. Mais admirável, porém, é o que se vê no monte Alverne, na Toscana, onde S. Francisco recebeu os sagrados estigmas, no qual se encontram enormes blocos de perda amontados uns sobre os outros. Diz-se que um anjo revelou a S. Francisco que foi aquele um dos montes que ruíram na morte de Jesus Cristo, como traz Wadding em seus Anais (An. Min. an. 1215 n .15). S. Ambrósio escreve: “Ó peitos dos judeus mais duros que os rochedos, rompem-se as pedras, mas esses corações permanecem duros” (Lib. 10 in Lc).
2. S. Mateus continua a descrever os prodígios ocorridos na morte de Cristo e diz: “E os monumentos se abriram e muitos corpos de santos, que tinham falecido, ressurgiram e, saindo de suas sepulturas depois de sua ressurreição, vieram à cidade santa e apareceram a muitos” (Mt 27,52). S. Ambrósio pergunta: “A abertura das sepulturas que outra coisa significa senão a ressurreição dos mortos, quebradas as portas da morte?” (Liv. 10 in Lc). S. Jerônimo, S. Beda , o venerável, e S. Tomás afirmam que apesar de se abrirem os sepulcros na morte de Jesus, contudo os mortos não ressurgiram senão depois da ressurreição do Senhor, e isto segundo o dito Apóstolo (Cl 1,18): “Ele é o princípio e o primogênito dentre os mortos, de maneira que tem a primazia em todas as coisas”. “Não era de fato conveniente que outro homem ressuscitasse antes dele, que tinha triunfado da morte.

Conversão do centurião.
1. Diz-se em S. Mateus que muitos santos ressurgiram e, saindo dos sepulcros, apareceram a muitos. Esses ressuscitados foram os justos que tinham crido e esperado em Jesus Cristo. Deus quis assim glorificá-los em prêmio de sua fé e confiança no futuro. Messias, segundo a profecia de Zacarias, na qual ele diz, referindo-se ao Messias futuro: “Tu também, pelo sangue de teu testamento, fizeste sair os teus presos do lago em que não há água” (Zc 9,11). Isto é: tu então, ó Messias, pelo merecimento de teu sangue, desceste ao cárcere e libertaste os santos encarcerados naquele lago subterrâneo (o limbo dos padres, onde não existia a água da alegria) e os reconduziste à glória eterna. S. Mateus continua que o centurião e os outros soldados, seus comandados, que foram os ministros da morte do Senhor, não obstante teremos judeus provado obstinadamente a morte injusta a que foi condenado, profundamente comovidos com os prodígios das trevas e do terremoto, o reconheceram por verdadeiro filho de Deus: “O centurião, porém, e os que com mele guardavam Jesus, vendo o terremoto e as coisas que se davam, ficaram aterrorizados e disseram: “Verdadeiramente este era o Filho de Deus” (Mt 27,54). Estes soldados foram as primícias felizes dos gentios que abraçaram a fé de Jesus Cristo depois de sua morte, pois, por meio de seus merecimentos, tiveram a sorte de conhecer seus pecados e de esperar o perdão. S. Lucas conta que todos os que se achavam presentes na morte de Jesus e viram os prodígios narrados, voltaram batendo no peito em sinal de seu arrependimento de haverem cooperado ou ao menos aplaudido a condenação do Salvador (Lc 23,48). E por isso, como vemos dos Atos dos Apóstolos, também muitos judeus, sentindo-se compungidos com a prédica de S. Pedro, perguntaram-lhe que deviam fazer para salvar-se. O número daqueles a quem respondeu S. Pedro que fizessem penitência e se batizassem chegou a três mil (At 2,41).
2. Vieram depois os soldados e quebraram as pernas dos dois ladrões. Chegando-se, porém, a Jesus e vendo que estava morto, abstiveram-se de fazer-lhe o mesmo, mas um deles com a lança abriu-lhe o peito, do qual saiu imediatamente sangue e água (Jo 19,34). S. Cipriano escreve que a lança atingiu diretamente o coração de Jesus Cristo. O mesmo foi revelado a S. Brígida (Rv 1. 2, c. 21) e isso se deduz de ter saído juntamente com o sangue também água do lado do Senhor, pois a lança, para atingir o coração de Cristo, teve primeiro de romper o pericárdio, que envolve o coração todo. S. Agostinho nota (Serm. 120 in Jo.) que S. João escreveu abriu, porque então se abriu no coração do Senhor a porta da vida, da qual brotaram os Sacramentos, que dão entrada à vida eterna. Por isso é que se diz que o sangue e água saídos do lado de Jesus Cristo foram a figura dos Sacramentos, pois a água é o símbolo do batismo, o primeiro dos Sacramentos, e o sangue se encontra na Eucaristia, o maior dos sacramentos. S. Bernardo diz que Jesus com essa chaga visível queria patentear a chaga invisível do amor, de que seu coração estava ferido por nós: “Por isso foi vulnerado para que, pela chaga visível, enxerguemos a chaga invisível do amor: a chaga carnal, portanto, demonstra a chaga espiritual”. E conclui: “Quem, pois, deixará de amar esse coração tão chagado?” (Serm. 3 de pass.).S. Agostinho, falando da Eucaristia, diz que o Santo Sacrifício da missa não é hoje menos eficaz perante Deus que o sangue e água saídos então do lado ferido de Jesus Cristo (In ps. 85).

Pobre até na sepultura, mas ressurge gloriosamente.
1. Terminemos este capítulo com algumas reflexões sobre a sepultura de Jesus Cristo. Jesus veio ao mundo não só para remir-nos como também para ensinar-nos, com seu exemplo, todas as virtudes e de modo especial a humildade e a santa pobreza, companheira inseparável da humildade. Por isso quis nascer pobre numa gruta, viver pobre numa oficina por trinta anos, e finalmente morrer pobre e nu sobre uma cruz, vendo com seus próprios olhos como os soldados sorteavam suas vestes antes de expirar. Depois de morto teve que receber de outros por esmola, um lençol para ser sepultado. Consolem-se, pois, os pobres, vendo Jesus Cristo, rei do céu e da terra, viver e morrer como pobre, para nos enriquecer com seus merecimentos e seus bens, como dizia o Apóstolo: “Porque por vós ele se fez pobre, sendo rico, para que por sua pobreza vos tornásseis ricos” (2Cor 8,9). Tendo isso em vista, os santos, para se assemelharem a Jesus, sobre, desprezaram todas as riquezas e honras do mundo, para um dia gozarem com Jesus Cristo das riquezas e honras celestes preparadas por Deus para aqueles que o amam. Falando desses bens, escreve o Apóstolo: “O olho não viu, o ouvido não ouviu, nem chegou jamais ao coração do homem o que Deus preparou para aqueles que o amam (1Cor 2,9).
2. Jesus Cristo ressurge, pois, com a glória de possuir, não só como Deus, mas também como homem, todo o poder no céu e na terra, sendo todos os anjos e todos os homens seus súditos. Alegremo-nos, portanto, vendo assim glorificado o nosso Salvador, o nosso Pai e o melhor amigo que possuímos. Alegremo-nos por nós mesmos, pois a ressurreição de Jesus Cristo é para nós um penhor seguro de nossa própria ressurreição e da glória que esperamos possuir um dia lá no céu tanto no corpo como na alma. Essa esperança dava força aos santos mártires para sofrer com alegria todos os males desta terra e os mais cruéis tormentos dos tiranos. Mas é preciso persuadirmos de que não gozará com Jesus Cristo quem não quiser sofrer também com Jesus Cristo e nem obterá a coroa quem não combater como deve: “E quem combate na liga não é coroado se não combater legitimamente” (2Tm 2,5). Persuadamo-nos igualmente do que diz o mesmo apóstolo, que todos os sofrimentos desta vida são muito breves e leves em comparação dos bens imensos e eternos que esperamos gozar no paraíso (2Cor 4,7). Procuremos, pois, estar sempre na graça de Deus e suplicar-lhe continuamente a perseverança na sua graça; doutra maneira, sem a oração e oração perseverante não obteremos essa perseverança e sem a perseverança não alcançaremos a salvação. Ó doce, ó amável Jesus, como pudestes amar tanto os homens, que, para lhes testemunhardes o vosso amor, não recusastes morrer desonrado e coberto de opróbrios sobre um lenho infame. Ó Deus, como é possível que tão poucos homens vos amem de coração? Ah, meu caro Redentor, eu quero ser do número desses poucos. Miserável que fui pelo passado, esquecendo-me do vosso amor e trocando a vossa graça por míseros deleites. Conheço o mal que fiz e dele me arrependo de todo o coração; desejaria morrer de dor. Agora, meu amado Redentor, eu vos amo mais do que a mim mesmo e estou pronto a morrer mil vezes antes do que a perder vossa amizade. Agradeço-vos a luz que me concedeis. Meu Jesus, minha esperança, não me deixeis entregue a mim mesmo, continuai a auxiliar-me até à morte. Ó Maria, Mãe de Deus, rogai a Jesus por mim.

365 dias com Padre Pio - frases para cada dia do ano

Dia 11/4 - Quando a videira se separa da estaca que a sustenta, cai, e ao ficar na terra apodrece com todos os cachos que possui. Alerta, portanto, o demônio não dorme!