4 de fevereiro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

X

 BATISMO E TENTAÇÃO DE JESUS
 Quaresma


 Nos diferentes mistérios de N. S. Jesus Cristo na terra, a Sabedoria eterna dispôs de tal modo os acontecimentos, que as humilhações do Verbo Incarnado são sempre realçadas por uma revelação da Sua Divindade; Jesus Cristo aparece-nos assim tanto na verdade da Sua natureza divina como na realidade da sua condição humana.
 A razão profunda desta economia celeste é ajudar e ao mesmo tempo exercitar a nossa fé, fundamento de toda a vida sobrenatural. Os assombrosos aniquilamentos em que o amor sepulta Jesus Cristo dão merecimento à fé; a manifestação das prerrogativas divinas serve-lhe de apoio.
Os mistérios do nascimento e da infância de Jesus são marcados por esses contrastes de sombra e de luz que tornam a nossa fé «racional», deixando-a ao mesmo tempo livre. O mesmo se dará na vida pública, e a tal ponto que os judeus disputarão encarniçadamente a respeito da personalidade de Jesus Cristo; a uns aparecera apenas como filho dum operário de Nazaré, ao passo que, para outros, não pode ser senão o enviado do Altíssimo, anunciado por todos os profetas, para iluminar e salvar o mundo.
 Vamos tornar a encontrar esta economia sobrenatural nos acontecimentos com que Jesus Cristo, depois de trinta anos de existência oculta, enceta a Sua vida pública: o batismo recebido de João, o Precursor, nas águas do Jordão, e a tentação no deserto.
 Contemplemos Jesus nestes dois mistérios estreitamente unidos. Veremos quão admirável é a Sabedoria infinita nos Seus pensamentos, e até que ponto Jesus Cristo, nosso modelo, quer preceder-nos no caminho que devemos seguir para Lhe sermos semelhantes.

3 de fevereiro de 2017

Tesouro de Exemplos - Parte 271 a 274

PEDIR ESMOLAS É UM SACRIFÍCIO

1. “É melhor dar que pedir, dizia o santo Cura d’Ars. Uma só vez tive de mendigar, quando empreendi uma viagem ao túmulo de S. Francisco Régis, e saí-me muito mal: tinham-me por um ladrão, e não queriam dar-me nem pão, nem abrigo. Precisei pedir, a comutação de meu voto a um dos padres, para não ter que pedir esmolas no meu regresso”.

2. S. Micaela do SS. Sacramento, viscondessa e fundadora das Irmas Adoradoras, sabia por experiência o que é pedir esmolas, pois muitas vezes teve de fazê-lo para manter seus colégios de jovens desamparadas. Assim escrevia em março de 1860: “Ontem, minha amiga, receberam-nos tão mal, que fiquei doente. Particularmente uma senhora foi cruel; nas sete casas que visitamos fomos mal recebidas”. E dias depois: “Isto vai muito bem; saí mais quinze dias a pedir esmola casa por casa, e tenho o consolo de que recebemos o suficiente para que tudo corra bem, com economia; recebi amargas repulsas e xingatórios, e dois dias estive doente; mas é porque o meu orgulho não se encontra tão baixo que não se ressinta o coração, contudo, no dia seguinte ia de novo contente. E agora a senhora já sabe que sei pedir esmola, no caso que ai estejam em apuros”.

3. S. João de Deus, desde que se consagrou a Deus, gostava de sair a pedir, esmolas para reparti-las entre os pobres; razão por que bem depressa todos lhe davam o glorioso título de “pai dos pobres”. Costumava dizer aos benfeitores: “Agora não sabeis o bem que fazeis a vós mesmos, mas Deus vô-lo mostrará quando devolver a esmola”.

4. O beato João de Ávila, querendo consagrar-se à salvação das almas, vendeu toda a herança dos país e repartiu o preço entre os pobres, reservando-se para si apenas uma veste de pano grosseiro.

2 de fevereiro de 2017

Sermão para o 4º Domingo depois da Epifania – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] História das heresias I: judaizantes, gnosticismo, adocionismo, maniqueísmo e outras


Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Nós temos hoje o Evangelho da tempestade acalmada. A barca em que está Jesus Cristo e seus discípulos significa a Igreja Católica Apostólica Romana. O mar é o mundo, no qual a Igreja se encontra, visível aos olhos de todos. Na tempestade agitada, podemos ver as perseguições que sofre a Igreja ao longo de toda a sua história.
A Igreja é perseguida de dois modos: pela violência externa, física. E aí temos os mártires, aqueles que aceitaram a morte para permanecerem fiéis a Nosso Senhor Jesus Cristo e à sua Igreja. Temos os mártires da antiguidade, os mártires no oriente, os mártires nas mãos dos muçulmanos, os mártires nas mãos dos protestantes e cismáticos, os mártires do comunismo na Espanha e na Europa do leste, os mártires do nazismo, os mártires do regime maçônico no México e tantos outros…
O outro modo de perseguir a Igreja é mais sutil e, em geral, perde mais almas: o erro doutrinário, as heresias. É delas que trataremos hoje. Alguns podem pensar que a Igreja, ao longo de sua história, viveu uma grande tranquilidade e que somente agora é que atravessa uma enorme crise e uma perseguição. Não é verdade. A Igreja, sendo o corpo místico de Cristo, é perseguida ao longo de toda a sua existência, a exemplo do próprio Cristo em sua vida pública. É muito útil conhecer algumas heresias ao longo dos séculos, para que não caiamos nelas novamente e para que melhor conheçamos a verdade. Os erros se repetem ao longo da história. Veja-se, por exemplo, a tentativa de conciliar práticas como a astrologia, entendida seja no sentido de prever o futuro seja como símbolo de forças que governam o mundo, com a religião católica. A adivinhação, pecado contra o primeiro mandamento, engloba querer prever o futuro ou conhecer coisas ocultas. Os erros se repetem com frequência, sob novas aparências.
Vejamos algumas dessas tempestades agitadas ao longo da história da Igreja. E também como, apesar de tudo, a Igreja continua a mesma na sua constituição e no seu ensinamento. Podemos tomar, primeiramente, o período que vai do ano 33 ao ano 325, ano do Concílio de Nicéia. A primeira heresia foi a heresia dos judaizantes, que afirmava a necessidade de se manter a lei mosaica, por exemplo, quanto à circuncisão, quanto aos alimentos, etc. Sendo a lei mosaica uma figura do Messias, praticá-la significa, ao fundo, que o Messias ainda não veio. Praticar a lei mosaica é negar que Cristo seja o messias. Heresia condenada no Concílio de Jerusalém, feito pelos apóstolos, no ano 49.
Em seguida, nos primeiros séculos do cristianismo, desenvolveu-se a heresia do gnosticismo, que diz existir uma religião externa para a pessoa comum e um conhecimento mais profundo, do qual essa religião é símbolo. Esse conhecimento seria reservado a alguns apenas. O gnosticismo afirma a divindade do homem, que teria em si uma partícula divina. Nessa heresia, trata-se de levar uma classe de homens superiores ao conhecimento da própria divindade, a reconhecer a própria identidade com Deus. Isso se faz por conhecimentos esotéricos e práticas esotéricas, reservados a alguns, por meios de simbolismos, por exemplo, astrologia, numerologia, hipnose, às vezes, e outras práticas. Gnosticismo que afirma também o dualismo, quer dizer, a oposição entre a alma e a matéria. A matéria é ruim. O espírito é bom. E afirma a existência de dois princípios equivalentes o bem absoluto e o mal absoluto. Quantos erros, mas bem presentes em nossa sociedade e que alguns tentam reavivar sob a roupagem de certa filosofia ou espiritualismo. Esse erro da gnose é o mais pérfido, o mais enganador e aquele que mais subiste ao longo da história, pois é realmente uma caricatura do cristianismo. O pecado original é o homem acreditar que é divino: “Se comerdes desse fruto, sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal”, diz o demônio a Eva, que come o fruto, apesar da clara falsidade da proposição. O gnosticismo e seu erro de fundo, a gnose, é absurdo, é uma grande mentira, mas seduz os homens de diferentes maneiras, sobretudo pela sua pretensão de dar uma explicação inteligente, “filosófica” da religião. Philip Hughes, historiador da Igreja, diz que o gnosticismo não desapareceu ao longo da história e que não é fantasia que uma corrente subterrânea do gnosticismo persiste através dos tempos. E de tempos em tempos ela aparece sobre a terra com mais clareza.
A Igreja sempre se opôs e sempre se oporá a tudo isso. A verdade não é isso. O homem não é Deus nem tem partícula divina. É absurdo argumentar isso. Não somos onipotentes, nem oniscientes, nem eternos. Adquirimos, por exemplo, inúmeras perfeições ao longo de nossa vida. Deus já tem todas elas. Nosso Senhor Jesus Cristo e Sua Igreja nunca transmitiram um conhecimento escondido. O que vos é dito aos ouvidos, pregai sobre os telhados, diz Nosso Senhor. O verdadeiro conhecimento nos vem pela fé, pela doutrina ensinada pela Igreja católica. A matéria é boa, tendo sido criada por Deus e não se opõe ao espírito, mas auxilia a nossa alma, bastando ser bem ordenada. O mal absoluto não existe, ao contrário do que prega o gnosticismo. O mal é ausência de ser. O mal absoluto seria a total ausência de ser, quer dizer, não existiria. O demônio não é princípio equivalente a Deus ou quase equivalente, mas é uma pobre criatura, com grande capacidade, mas que nada pode fazer sem a permissão de Deus, que permite os males para que deles venham um bem superior, como permitiu o pecado original para que daí viesse a Encarnação do Verbo. Não somos deuses nem temos uma centelha divina em nós. Podemos participar e nos assemelhar a Deus pela graça santificante, mas nunca nos identificar com Ele ou nos deificar no sentido estrito, mas permanecemos inteiramente seres humanos, pobres criaturas. Não existe uma religião para a pessoa comum e uma outra reservada a poucos. A doutrina católica é uma só para todos.
Temos também a heresia do subordinacionismo, que afirma que o Verbo, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, não é propriamente Deus, mas uma criatura excelente, intermediária entre Deus e o mundo, subordinada a Deus, donde o nome da heresia. Nega a divindade de Jesus Cristo e a Trindade das pessoas, ambas claramente afirmadas no Evangelho e confirmadas por Deus pelos milagres. Essa foi uma grave heresia que existiu ao longo dos séculos II e III.
Outro erro dessa época foi o Montanismo, uma heresia de fanáticos profetas (falsos), de iluminados e visionários que queriam independência quanto às autoridades eclesiásticas. Com pretensos êxtases e dons do Espírito Santo. Montano, em torno do ano 170, se dizia iluminado e movido pelo Espírito Santo. Esperavam o fim próximo do mundo, como muitos hoje. Entregavam-se a um rigorismo descabido: proibição de segundo casamento após a morte do cônjuge, aversão ao casamento pura e simplesmente, uma mortificação exagerada, irracional, proibição de se esconder nas perseguições, afirmação de que certos pecados não poderiam ser perdoados, a proibição de qualquer ornamentação para as mulheres. O erro da heresia é evidente: querer saber com precisão o fim do mundo, falsos dons recebidos do Espírito Santo, rigorismo infundado. Infelizmente, Tertuliano, que havia muito bem defendido a fé católica, deixou-se levar por esse erro grave. Ninguém está imune de cair, se não vigiar e evitar os perigos para a fé. Quanto se arriscam, por exemplo, aqueles que leem autores cheios de erros dizendo que levam em consideração somente o que é bom. Mas nem critério têm para saber o que é bom.
 Em seguida, a heresia do adocionismo, que afirma que Nosso Senhor Jesus Cristo não é o Filho de Deus segundo a natureza, ou seja, afirma que ele não tem a natureza divina, mas afirma que Cristo é somente filho adotivo de Deus, o filho adotivo mais perfeito, mas somente filho adotivo. Teodoto de Bizâncio sustentava essa gravíssima heresia no ano de 190. Paulo de Samósata, em torno do ano 260, professou esse mesmo erro. Ora, Cristo é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. E, em Cristo, as duas naturezas se unem na pessoa divina do Verbo. De forma que Jesus Cristo é Filho de Deus segundo a natureza, tem a mesma natureza de Deus. É Deus de Deus, Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro. Não se pode dizer nem mesmo que Cristo é filho adotivo de Deus segundo a sua natureza humana, pois a filiação se refere à pessoa de Cristo e a pessoa de Cristo é divina. Nós é que somos filhos adotivos, pois não temos a mesma natureza que Deus, apenas podemos participar da vida divina pela graça santificante.
Outra heresia é o modalismo, professado por Sabélius, que viveu em torno do ano 200. O modalismo afirma que o Pai, o Filho e o Espírito Santo não são pessoas distintas, mas apenas modos de se manifestar da mesma pessoa divina, o Pai. Assim, não há três pessoas divinas e um só Deus, mas apenas uma pessoa divina, o Pai, que teria sofrido na cruz. Esse sofrimento de Deus Pai na cruz dá nome a uma variante dessa heresia, chamada de patripassionismo: o Pai e não o Filho teria sofrido na cruz. As duas heresias negam a divindade de Cristo e trindade das Pessoas.
Finalmente, nesse primeiro período das heresias, podemos considerar o maniqueísmo, que vem de Mani, nascido em 216, oriundo da Persa, mas formado também na Índia. Mani afirmava que as religiões eram complementares, chamava-se o “apóstolo de Jesus Cristo” e o intérprete de Buda. Unia as diferentes “tradições religiosas”, negando um princípio básico, que é o princípio de não contradição. O maniqueísmo é uma manifestação da gnose, que vai serpenteando ao longo da história, aparecendo com mais intensidade em alguns momentos, principalmente em momento de crise da sociedade, como o que vivemos hoje, por exemplo. Os princípios são basicamente os mesmos do gnosticismo que explicamos há pouco. O esquema é o mesmo: dois princípios equivalentes, um bom e outro mau. A oposição entre os dois princípios, sendo que o mau seria criador da matéria e o bom do mundo espiritual. O maniqueísmo afirma também o aprisionamento da partícula divina na matéria, o que é particularmente absurdo, como se a divindade pudesse ser presa por algo. Afirma a identificação com a divindade por meio de um conhecimento esotérico (às vezes tratado como um conhecimento de si mesmo), reservado a alguns e que pode ser atingido por certa filosofia, e por certas práticas como a astrologia, numerologia, e outras. Santo Agostinho deixou-se levar muito tempo por esse gravíssimo erro, pela aparente erudição de membros da seita, pela falaciosa ciência astrológica e outras ciências a que às vezes chamam de “tradicionais” (alquimia, por exemplo). Erro que vai combater vigorosamente depois de conhecer a Verdade, depois, então, de conhecer realmente Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Igreja, a Católica. Muitos se deixaram levar por essas fábulas, apresentadas sob capa de erudição. Santo Agostinho diz que, em Roma, havia vários maniqueus ocultos entre os cristãos, por exemplo. Ainda hoje assim acontece: muitos se deixam levar por essas fábulas ou sob capa de erudição, de política ou filosofia, falsa, é claro.
Podemos ver, então, caros católicos, nesse primeiro período, o quanto a Igreja foi atacada pelos erros, pelas heresias. Heresias que queriam a manutenção da religião judaica, como se Cristo, no fundo, não fosse o Messias. Heresias que negavam a Santíssima Trindade, como o modalismo. Heresias que negavam a divindade de Cristo, como o adocionismo, o subordinacionismo. Heresia de certos falsos profetas, visionários e iluminados, com pretensos dons do Espírito Santo, que afirmavam a independência da autoridade, que afirmavam a impossibilidade do perdão de certos pecados e que professavam um rigorismo irracional. A gnose sob formas distintas, com suas práticas esotéricas. Desde sempre a Igreja permaneceu firme face a esses erros gravíssimos. Ela sempre afirmou a Trindade das pessoas divinas e a divindade e humanidade de Cristo. A Igreja sempre recusou qualquer forma de gnose e de esoterismo e suas práticas e ciências. A Igreja sempre recusou uma suposta religião oculta como base das diferentes religiões. E sempre continuará assim. Existe uma única religião verdadeira e que todos podem conhecer: a católica. Esses erros continuam sendo erros hoje. Ao longo dessas tempestades agitadas, com a Igreja, estava Nosso Senhor Jesus Cristo, não permitindo que ela se afastasse da verdade, mas assistindo a Igreja para que ela permanecesse fiel a Nosso Senhor Jesus Cristo em seus ensinamentos. E assim permaneceu a Igreja e assim permanecerá sempre: fiel, em seu magistério infalível, àquilo que Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou. A Igreja não perecerá. E, mesmo sabendo disso, devemos rezar e pedir ajuda ao Senhor, face a tantos erros, vindos de todos os lados. Peçamos a ajuda de Cristo para que, permanecendo fiéis à Igreja Católica e à sua doutrina constante, não pereçamos nós.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Algumas fontes:
Santo Agostinho. Confissões.
Philip Hughes. História da Igreja Católica.
Pietro Parente. Dizionario di Teologia Dommatica.
Bernardino Llorca. Manuel de História Eclesiástica.
Richard M. Hogan. Dissent from the Creed. Heresies past and present.

1 de fevereiro de 2017

Tesouro de Exemplos - Parte 270

PEDIR POR AMOR DE DEUS

S. João de Deus tinha por norma dar esmola a todo que lha pedisse em nome de Deus. Quando o censuravam, dizendo que muitos o enganariam, respondia: “A mentira neste caso só pode prejudicar. a quem a diz... Eu faço esmolas por amor de Deus, o qual não olha a quem se dá, mas a intenção com que se dá”.
Um dia aproximou-se dele um homem. O Santo perguntou-lhe: “Em nome de quem me pedes esmola?” O mendigo retirou-se, mas logo depois voltou a reclamar. O Santo respondeu-lhe: “Se não me pedes em nome de Jesus Cristo, não receberás nada”. E com efeito não lhe deu nada.
Quando os pobres se humilhavam e diziam: “Uma esmolinha por amor de Deus”, excitavam mais a caridade pública. O pobre agradecido, depois de receber uma esmola, diz: “Deus lhe pague!” e não apenas: “Muito obrigado”.

31 de janeiro de 2017

Sermão para o 3º Domingo depois da Epifania – Padre Daniel Pinheiro, IBP

[Sermão] Evangelho da cura do servo do centurião


 Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Consideremos, caros católicos, a segunda parte do Evangelho de hoje: a cura do servo do centurião. Entrando Jesus em Cafarnaum, o centurião foi até ele, por si mesmo ou por emissários, fazendo uma súplica e dizendo: “Senhor, o meu servo jaz em casa paralítico e sofre.” São João Crisóstomo destaca aqui a caridade fraterna do centurião. Reconhecendo a diferença hierárquica entre si mesmo e seu servo, reconhece também a igualdade de natureza e suplica a Jesus Cristo para que cure o seu servo.
A esse primeiro pedido do centurião, Jesus Cristo responde dizendo que irá e fará a cura. Em outras ocasiões, como no caso da cura do régulo de Caná não vai, embora realize a cura. Por que essa disparidade na ação de Nosso Senhor? Para melhor manifestar a fé das pessoas envolvidas ou para melhor favorecer a fé dessas pessoas. Não indo à casa do régulo de Caná, curando-o de longe, Nosso Senhor fortalece a fé do régulo e dos outros presentes, que tinham pedido ao Senhor para que fosse até o local realizar a cura. Ao dirigir-se à casa do centurião, Nosso Senhor dá ocasião para que o centurião manifeste a sua humildade e a sua fé profundas, ao insistir que o Senhor poderia curá-lo simplesmente por uma palavra.
Assim, quando Jesus diz que se dirigirá até lá e que vai curar o servo do centurião, esse pronuncia uma das mais belas orações do evangelho, junto com uma profissão de fé. Senhor, não sou digno de que entreis na minha casa, porém, dizei uma só palavra e meu servo será curado. Essa oração começa com um ato de respeito e mesmo de adoração: Senhor. Em seguida, vem um ato de humildade: não sou digno de que entreis em minha morada. O centurião, reconhecendo-se miserável diante de Cristo, sabe que nada merece, mas que tudo vem da bondade de Nosso Senhor. E, afirmando a onipotência de Cristo, pede novamente a cura de seu servo. Afirma a onipotência ao dizer que basta uma palavra de Cristo para curar o seu servo. E conclui a sua oração dando o seu próprio exemplo: se ele, que tem soldados sob suas ordens pode dizer vem, e o soldado vem, e vai, e o soldado vai, quanto mais Nosso Senhor Jesus Cristo que tem sob seu poder todas as coisas, sendo Ele o criador e o Senhor de todas elas. Tão sublime é a oração do centurião, tão verdadeira a sua humildade e tão firme a sua fé que a Igreja utiliza cotidianamente as palavras do centurião na Santa Missa, pouco antes da comunhão, para que nos disponhamos com humildade e fé para a sagrada comunhão.
É uma oração boa porque a humildade e a fé são os dois fundamentos da vida espiritual. Para construir um edifício é necessário, primeiramente, limpar o terreno dos obstáculos e, em seguida, lançar as fundações, sobre as quais todo o edifício se apoiará. A humildade remove os obstáculos, remove o orgulho, a presunção, a autossuficiência. Deus se revela aos humildes e resiste aos soberbos, aos orgulhosos. A fé lança as fundações sobre as quais todo o edifício da vida espiritual se ergue. Sem fé, não pode haver esperança. Não pode esperar em Deus quem não acredita nEle. Sem fé, não pode haver caridade. Não pode amar a Deus quem não acredita nEle. Sem fé, não pode haver caridade para com o próximo, pois a caridade para com o próximo se baseia no amor a Deus. Sem fé, não pode haver nenhuma virtude sobrenatural. É indispensável, então, que procuremos ser humildes e que tenhamos uma fé firme e que evitemos os perigos para a nossa fé. Quanto se arriscam, por exemplo, aqueles que leem autores cheios de erros dizendo que levam em consideração somente o que é bom. Mas nem critério têm para saber o que é bom. Certamente cairão, perderão a fé católica, se ainda realmente a tiverem.
Está dito no Evangelho que Nosso Senhor se admirou ao ouvir as palavras do centurião. Claro, Nosso Senhor, que conhece todas as coisas, mesmo os segredos dos corações, já conhecia a fé e a humildade do centurião. A sua admiração, então, não é por surpresa, mas é para que os outros compreendam o valor das palavras do centurião e procurem seguir o exemplo desse militar na humildade e na fé. E esse centurião nem judeu era. Era um pagão que já havia se convertido a Jesus Cristo, pois, bem disposto, compreendeu os seus milagres e aderiu inteiramente aos seus ensinamentos. E Nosso Senhor aproveita a fé desse homem para afirmar a futura conversão de numerosos pagãos à fé católica, enquanto muitos judeus preferirão permanecer cegos, sem reconhecer o Messias, que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Finalmente, Nosso Senhor opera o milagre: vai e seja-te feito, conforme creste. E naquela mesma hora ficou curado. Que possamos, antes da comunhão, dizer as palavras do centurião com toda a sinceridade e repitamos essas palavras no nosso cotidiano. Com humildade, com fé. E o Senhor nos ajudará.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

30 de janeiro de 2017

Missas Tridentinas - Padre Renato Coelho - IBP

Missas Tridentinas - Programação Janeiro/2017

28/01/17 - Sábado -    17:30h - Oração do Santo Terço
                                    18:00h - Santa Missa
                                    19:00h - Palestra Caracterologia - Estudo dos Temperamentos Humanos

29/01/17 - Domingo - 10:30h - Oração do Santo Terço
                                    11:00h - Santa Missa

30/01/17 - 2ª feira -     19:30h - Oração do Santo Terço
                                    20:00h - Santa Missa


Local:               Capela Nossa Sra. Aparecida - Assoc. da Vila Militar - Polícia Militar
Endereço:         Av. Mal. Floriano Peixoto, 2057 - Rebouças
Cidade/Estado: Rebouças - Curitiba - Paraná



Tesouro de Exemplos - Parte 269

A ESMOLA É UM BOM EXEMPLO

Santo Tomás de Vilanova via que seus país faziam muitas esmolas. Contam seus biógrafos que os pais do Santo gastavam a fortuna em socorrer os indigentes. Nisso empregavam o trigo de seus celeiros e o vinho de suas adegas. Para esse fim, todas as semanas mandavam ao moinho certa porção de trigo; e em proveito dos pobres utilizavam também seus rebanhos. Estes belos exemplos dos pais, aprendeu-os muito bem o menino.
Um dia, sendo ainda pequerrucho, achava-se sozinho em casa, quando se apresentaram de uma vez seis pobres pedindo esmola. Como não pode abrir a despensa do pão, e não tinha à mão outra coisa para dar-lhes, pegou os seis franguinhos, que tinha uma galinha, e repartiu-os entre os pobres. Quando a mãe voltou e pediu-lhe conta daquela proeza, respondeu: “Os pobres inspiravam tanta compaixão que reparti entre eles os pintinhos; e se tivesse aparecido mais um, teria de dar-lhe também a galinha”.

29 de janeiro de 2017

Dom Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

v

 É principalmente pela Virgem Maria que conseguiremos participar das graças que nos mereceu Jesus Cristo pela Sua vida oculta em Nazaré. Ninguém melhor do­ que a humilde Virgem conhece a sua fecundidade, porque ninguém foi mais cumulado de graças do que ela. Aqueles anos devem ter sido para a Mãe de Jesus uma fonte inexaurível de graças inestimáveis. Não se pode pensar neles sem se ficar extasiado; é impossível  exprimir as intuições que deles se podem ter.
 Reflitamos um instante sobre o que devem ter sido para Maria aqueles trinta anos em que tantos gestos, tantas palavras, tantas ações de Jesus eram para ela  revelações.
 Sem dúvida, devia haver, mesmo para a Virgem, algo de incompreensível na vida de Jesus; não se pode viver em contato continuo com o Infinito, como era o  caso dela, sem sentir e tocar por vezes o mistério. Mas que luz inundava então a alma da Virgem! Que incessante aumento de amor devia ter operado em seu coração imaculado aquela convivência inefável com um Deus que trabalhava debaixo do seu olhar e lhe obedecia!
 Maria vivia com Jesus numa união que ultrapassa tudo quanto se possa dizer. Eram verdadeiramente um; o espírito, o coração, a alma, toda a existência da Virgem estava em absoluta concordância com o espírito, o coração, a alma e a vida de seu Filho. A sua existência era, se assim me posso exprimir, uma vibração pura e perfeita, tranquila e cheia de amor, da própria vida de Jesus.
 E qual era, em Maria, a fonte dessa união e desse amor? - Era a fé. A fé é uma das virtudes mais características da Virgem. 
Que admirável e cheia de abandono a fé na palavra do Anjo! O mensageiro celeste anuncia-lhe um mistério inaudito, que espanta e confunde a natureza: a conceição dum Deus num seio virginal. E que diz Maria? <
 A fé de Maria na Divindade jamais vacilou; em seu filho Jesus verá sempre o Deus Infinito.
 E, no entanto, a que provações não teve de ser submetida esta fé! Seu filho é Deus; o Anjo anunciou-lhe que Ele ocuparia o trono de David, que salvaria o mundo,  que o Seu reino não teria fim. E eis que Simeão lhe prediz que Jesus será um sinal de contradição,  que será causa de ruína e de salvação. Maria vai ter de fugir para o Egito a fim de furtar o Filho aos furores tirânicos de Herodes. Durante trinta anos, o seu filho, que é Deus e vem resgatar o gênero humano, viverá, numa pobre oficina, uma vida obscura de trabalho e de submissão. Mais tarde, verá seu Filho perseguido pelo ódio dos fariseus, vê-lo-á abandonado pelos discípulos, nas mãos dos inimigos, suspenso numa cruz, acabrunhado de sarcasmos, abismado no sofrimento; ouvir-lhe-á o grito de abandono por parte do Pai. A sua fé, porém, permanecerá inabalável. E é precisamente aos pés da cruz que ela brilha com todo o esplendor. Maria reconhecerá sempre o seu Filho como seu Deus; por isso, a Igreja a proclama a <
 E é esta fé a fonte de todo o amor de Maria para com seu Filho; é esta fé que a faz permanecer unida a Jesus, mesmo nas dores da Paixão e da morte.
 Peçamos à Virgem que nos obtenha esta fé firme e prática que se consuma no amor e no cumprimento da vontade divina: <
Esta fé ardente, que era para a Mãe de Deus uma fonte de amor, era igualmente um princípio de alegria. O próprio Espírito Santo no-lo ensina quando, pelos lábios de Isabel, proclama a Virgem «bem-aventurada por causa da sua fé»: Beata quae credidisti.
 O mesmo acontecerá conosco. S. Lucas narra que, depois dum discurso de Jesus à multidão, uma mulher, levantando a voz, exclama: <
 Mas Jesus quer ensinar-nos que, assim como a Virgem mereceu as alegrias da Maternidade divina pela sua fé e pelo seu amor, assim também nós podemos participar, não evidentemente da glória de haver dado à luz Jesus Cristo, mas da alegria de O fazer nascer em nos­sas almas. E como obteremos esta alegria? «Ouvindo e guardando a palavra de Deus». Ouvi-mo-la pela fé, e guarda-mo-la cumprindo com amor o que ela prescreve.
Tal é para nós, como para Maria, a fonte da verdadeira alegria da alma; tal é para nós o caminho da felicidade. Se, depois de havermos inclinado o nosso coração aos ensinamentos de Jesus, obedecermos à Sua vontade e Lhe permanecermos unidos, seremos por Ele tão estimados - é Jesus ainda quem o proclama - como se fôssemos para Ele «uma mãe, um irmão, uma irmã»: Quicumque enim fecerit voluntatem Patris mei qui in caelis est, ipse meus frater, et soror et mater est. Que união mais íntima e mais fecunda do que esta poderia constituir o objecto dos nossos desejos?