9 de novembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

II

O sacrifício deste Pontífice único caminha a par do Seu sacerdócio. igualmente inaugurado por Jesus desde a Incarnação.
Sabeis que em Jesus Cristo a alma. criada como a nossa, não foi contudo submetida pelo exercício das suas próprias faculdades, inteligência e vontade. ao desenvolvimento progressivo do organismo corporal : possuía. desde o primeiro momento da sua existência, a perfeição da sua própria vida. como convinha a uma alma unida à Divindade.
S. Paulo revela-nos o primeiro movimento da alma de Jesus no instante da lncarnação.
Com um rápido olhar, abrange os séculos passados ;vê, ao lado do abismo em que jaz a humanidade inteira incapaz de se libertar, a multiplicidade e a insuficiência de todos os sacrifícios da Antiga Lei, porque a criatura, por mais perfeita que seja, não pode dignamente re­parar a injúria feita, pelo pecado, ao Criador : contempla o programa de imolação que Deus exige dela para
realizar a salvação do mundo. Que momento solene para a alma de Jesus! Que momento para o gênero humano !
E que  faz  esta alma?  Por um movimento de  intenso amor. entrega-se inteiramente ao serviço da obra humano-divina, única que pode glorificar o Pai, sal­vando a humanidade - «Ó Pai, já não aceitas estas ofertas, estes sacrifícios, que não são suficientemente dignos de ti». Mas formaste-me um corpo :  Corpus autem aptasti  míhi.  E porque mo deste; Eis que eu venho. ó Pai,  cumprir a tua vontade. Exiges que te ofereça em sacrifício.. . Eis-me aqui :  Ecce venio, in
capite libri scriptum est de  me ut  faciam,  Deus, voluntatem tuam.  «Na cabeça do livro da minha vida está  escrito que devo ó Pai. fazer a Vossa vontade ; assim o quero porque Vos é agradáveI» .
Com uma vontade perfeita, Jesus Cristo aceitou todas as dores que começaram na humildade do presé­pio para só rematarem na ignomínia da Cruz. Ao entrar no mundo, Jesus Cristo logo se oferece como Vítima: o primeiro ato da Sua vida é um ato sacerdotal. Que criatura poderá avaliar o amor que encerra este ato sacerdotal de Jesus? Quem conhecerá a Sua intensidade e descreverá o Seu esplendor? Só o silêncio da adoração pode louvá-lo um pouco.
Nunca Jesus Cristo se retratou deste ato, ou retomou esta dádiva. Pelo contrário, tudo em Sua vida
será ordenado para o sacrifício da Cruz. Lede o Evangelho a esta  luz e vereis como em todos os mistérios  e estados de Jesus se encontra uma parte do sacrifício que passo a passo, conduz ao cimo do Calvário, de tal modo é inerente à Sua pessoa o carácter de Pontífice, de Me­diador e de Salvador. Só compreenderemos a verdadeira fisionomia da pessoa de Jesus, se a estudarmos constantemente em ordem à Sua missão redentora pelo sacri­fício e pela imolação de Si próprio. Por isso, quando S. Paulo diz que tudo leva «ao conhecimento do mistério de Jesus», acrescenta imediatamente: «e de Jesus crucificado» :  Non enim judicavi aliquid scire inter vos nisi Jesum Christum,  ET HUNC CRUCIFIXUM.
Vede: Jesus Cristo nasce na mais absoluta pobreza ; para escapar ao furor dum tirano, tem de refugiar-se em terra estranha ; sujeita-se na oficina de Na­zaré ao trabalho penoso e oculto ; durante a Sua vida pública não tem onde reclinar a cabeça : Vê-se perse­guido pelos fariseus, seus inimigos mortais : experimenta a fome, a sede e o cansaço. Mais ainda, deseja ardentemente consumar o Seu sacrifício:  Baptismo autem habeo baptizari,  et  quomodo  COARCTOR,  usquedum perficiatur.
Há  em Jesus, se assim se pode dizer. uma espécie de entusiasmo pelo sacrifício. Vede ainda o Evangelho, quando o nosso divino Salvador, para poupar os Após­tolos, começa a revelar-lhes, pouco a pouco, o mistério dos Seus sofrimentos. Um dia diz-lhes que é preciso ir a Jerusalém e padecer muito da parte dos  Seus  inimigos e ser condenado à morte. Então  S. Pedro,  tomando-o à parte, exclama : «Senhor, praza a Deus que isto Vos não aconteça». Mas Jesus replica imediatamente : « Re­tira-te de mim que me escandalizas, porque não tens a inteligência das coisas de Deus ; só tens pensamentos humanos». No Tabor, durante  os esplendores  da transfiguração, de que é que se trata entre o  Salvador, Moisés e Elias senão da  Sua próxima  Paixão?
Estava Jesus Cristo ansioso por dar ao Pai  a  glória que o seu sacrifício  Lhe devia  proporcionar:  Jota unum aut unus apex non praeteribit a lege, donec omnia fiant . Quer cumprir tudo até ao último jota, isto é, até ao mais pequeno pormenor. Na agonia. sente profundamente as angústias e  as dores que Lhe acabrunham a alma: «Ó Pai, exdama, se é possíveí, afasta de mim este cálix»  e no entanto só quer  cumprir  a vontade de Seu Pai: «Contudo, seja feita  a tua vontade,  e não
a minha». Enfim, no Calvário.  consuma-se a imolação : e, antes de exalar  o  derradeiro suspiro, pôde dizer que realizou plenamente o programa  traçado pelo  Pài:
Consummatum est.  Este grito final da Vítima divina sobre a cruz corresponde ao  Ecce venio  da lncarnação no seio da Virgem.

8 de novembro de 2016

Tesouro de Exemplos - Parte 201

MENDIGANDO CORAÇÕES

S. António de Pádua tinha cinco anos de idade, quando, um dia, ouviu bater à porta da sua casa. Correu a abrir e lá encontrou um graciosíssimo menino descalço e muito pobremente vestido, levando às costas um saquinho de mendigo. António quis ver o que havia no saquinho. Ficou admirado ao ver ali uma quantidade de coraçõezinhos rubros que brilhavam como preciosíssimos rubis.
António pergunta:
— Quem és? e o que queres?
— Sou o filho de um grande rei — respondeu o menino — e vou por ai mendigando os corações dos homens e... quero também o teu.
E António pergunta de novo:
— Mas como te chamas?
— O meu nome? A tua mamãe já te disse o meu nome: eu sou Jesus.
E desapareceu.

7 de novembro de 2016

Missa Tridentina - Padre Renato - IBP

    Missas Tridentina
Outubro e Novembro 2016
      

29/10   -   Sábado     -   18:00 horas
30/10   -   Domingo -   18:00 horas -   Festa de Cristo Rei
31/10   -   2ª feira     -   20:00 horas
01/11   -   3ª feira     -   20:00 horas -   Festa de Todos os Santos
02/11   -   4ª feira     -   11:00 horas -   Comemoração de Todos os                                                                  Fiéis Defuntos
                                 -   18:00 horas
                                 -   18:30 horas
03/11   -   5ª feira     -   20:00 horas
04/11   -   6ª feira     -   20:00 horas
05/11   -   Sábado     -   18:00 horas
06/11   -   Domingo  -   11:00 horas
07/11   -   2ª feira      -   07:00 horas

Obs: Uma hora antes das missas o Padre Renato estará atendendo Confissões.

Local:       Capela da Polícia Militar
Endereço: Av. Mal. Floriano Peixoto, 2057
Bairro:      Rebouças - Curitiba - Paraná

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

I

É principalmente na epístola aos Hebreus que S.Paulo expõe  em  amplos e empolgantes termos as ine­fáveis grandezas de Jesus Cristo como Pontífice:  De quo  nobis grandis sermo et ininterpretabilis ad dicendum;  nela vemos assinaladas a Sua missão de me­diador e a transcendência do Seu sacerdócio e do Seu sacrifício sobre o sacerdócio de Aarão e sacrifícios do Antigo Testamento : sacrifício único, consumado no Calvário e cuja oblação perdura com inesgotável eficácia no santuário do céu.
S. Paulo revela-nos esta verdade: Jesus Cristo possui o Seu sacerdócio desde o momento da lncarnação .
O que é o sacerdote? - É diz o Apóstolo, mediador entre o homem e Deus : o sacerdote oferece a Deu as homenagens da criatura e dá Deus. «o santo», aos homens, «Sacrum dans»; daí o nome de sacerdote. 
«É escolhido de entre os homens, consagrado a Deus, para ser mediador:  Omnis  pontifex ex  hominibus assumptus  pro  hominibus constituitur in iis quae sunt ad Deum.  Outrora fazia-se esta consagração ordi­nariamente por uma «unção» especial que significava que o Espírito do Senhor descia sobre o eleito, assina­lando-o assim, dum modo particular. para a sua missão de pontífice. No sacerdócio humano. este carácter sacerdotal é uma qualidade que se ajunta, para assim dizer,
à pessoa do homem.
Mas em Jesus Cristo, este carácter é inteiramente transcendente, assim como é única a mediação de que está investido. Jesus tornou-se Pontífice desde o instante da lncarnação e pela lncarnação.
Para compreender este profundo mistério, é necessário ouvir somente a fé, pois a inteligência humana con­funde-se diante de tais grandezas. Transportemo-nos a Nazaré para assistir ao colóquio celestial entre o Anjo e a Virgem. O mensageiro de Deus diz a Maria, para lhe explicar o prodígio que nela se vai operar : «O Espírito Santo descerá sobre vós e a Virtude do Altíssimo vos cobrirá com a Sua sombra: por isso, o santo que há-de nascer de vós será chamado o Filho de Deus».
A Virgem responde: «Eis aqui a escrava do Senhor : faça-se em mim segundo a vossa palavra».
Neste momento, o Verbo fez-se carne. ligou-se para sempre, por inefável união, a uma humanidade. Pela Incarnação, o Verbo incorpora-se na nossa raça, torna-se autenticamente um dos nossos, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado. Pode, portanto, tornar-se Pontífice, Mediador, porque, sendo Deus  e homem, pode ligar o homem a Deus :  Ex hominibus assumptus.
Na Santíssima Trindade, a segunda pessoa, o Verbo, é a glória infinita do Pai, a Sua glória essencial: Splendor gloriae et figura substantiae ejus . Mas, enquanto Verbo, antes da lncarnação, não oferece sacrifício algum ao Pai. Porquê? Porque o sacrifício indica homenagem, adoração, isto  é, o  reconhecimento da nossa própria baixeza em face do Ser infinito ;  o Verbo, sendo  em  tudo igual ao Pai, Deus com Ele e como Ele, não Lhe pode, pois, oferecer sacrifício algum. O sacerdócio de Cristo só pôde começar no momento em que o Verbo se fez carne ; desde o momento em que o Verbo lncarnou, uniu em Si duas naturezas ; a divina, pela qual podia dizer:  Ego et Pater unum sumus: «O meu Pai e Eu somos um» - um na unidade da Divindade, um na igualdade das perfeições ; e a humana, que o fazia exclamar:  Pater major me est: «O meu
Pai é maior do que eu». :É, pois, enquanto Homem-Deus que Jesus é Pontífice.
Autores abalizados fazem derivar a palavra Pontífice de  pontem facere:  «estabelecer a ponte». Seja qual for o valor desta etimologia, a ideia que encerra é exata. O Pai Eterno, nos entretenimentos que se dignava ter com Santa Catarina de Sena, explicava-lhe como, pela
união das duas naturezas, Jesus Cristo lançara uma ponte sobre o abismo que nos separava do céu: «Quero que olhes para a ponte que vos construí em meu Filho único e que contemples a sua grandeza, que vai do céu à terra ; porque a grandeza da Divindade acha-se unida à terra da vossa humanidade. Foi isso necessário para refazer o caminho que estava interrompido e permitir
atravessar a amargura do mundo para alcançar a vida eterna>>
Foi ainda pelo próprio mistério da Incarnação que a humanidade de Jesus foi «consagrada», «ungida». Não por uma unção externa, como se f az com as símples criaturas, mas por uma unção inteiramente espiri­tual. Devido à ação do Espírito Santo que a Liturgia denomina  spiritalis unctio,  a divindade derramou-se sobre a natureza humana de Jesus, «como um óleo de alegria» :  Unxit te Deus oleo laetitiae prae consortibus tuis .Tão penetrante é esta unção, de tal modo está a humanidade «consagrada a Deus», que não existe posse mais estreita do que esta, porque a natureza humana de Jesus Cristo tornou -se a própria humanidade de um Deus, do Filho de Deus.
Eis por que, no momento desta Incarnação que consagrou o primeiro sacerdote da Nova Aliança, uma exclamação reboou nos céus:  Tu es sacerdos in aeternum.  «És sacerdote para a eternidade>>. S. Paulo, cujo olhar comprendeu tantos mistérios, revela-nos tam­bém este. Ouvi- o. «Ninguém se atribui a si próprio, diz Ele, a dignidade do sacerdócio, mas é necessário ser
chamado a ela por Deus ; por isso, nem o próprio Jesus Cristo se arrogou a glória de ser  Pontífice,  mas rece­beu-a d 'Aquele que Lhe disse: És meu  Filho, hoje te gerei, como Lhe diz ainda algures: És sacerdote para sempre».
Assim pois, segundo o Apóstolo, foi do próprio Eterno Pai que Jesus Cristo recebeu o supremo pontificado, desse Pai que lhe disse: «És o meu Filho, ge­rerei-te hoje» O sacerdócio de Jesus Cristo é uma consequência necessária e imediata da lncarnação.
Adoremos este Pontífice imaculado e santo, que  é o próprio Filho de Deus; prostremo-nos diante desse Mediador único que, sendo ao mesmo tempo Deus e homem, poderá plenamente cumprir a missão de Sal­vador e restituir-nos os dons de Deus pelo sacrifício da Sua Humanidade; mas confiemos também plenamente na Sua virtude divina. única que tem poder bastante para nos reconciliar com o Pai.
«Partindo da terra, dizia Deus a Santa Catarina, era impossível estabelecer a ponte dum tamanho suficiente para atingir a vida eterna, porque a terra, natu­reza humana, era incapaz, por si só, de satisfazer pelo pecado e destruir a mácula do pecado de Adão que corrompeu e infeccionou toda  a  raça humana. Era, pois, necessário uni-la  à  grandeza da minha natureza, dei­dada eterna, para que lhe fosse possível satisfazer por toda a raça humana. Era necessário que a natureza humana sofresse o castigo e que a natureza divina, alia­da com esta natureza humana, aceita-se o sacrifício que meu Filho me oferecia em mim para destruir a morte e restituir-vos a vida. Assim  a grandeza abaixou-se até à  terra da vossa humanidade ; unindo-me consigo,  a humanidade edificou uma ponte, estabeleceu um cami­nho. Mas, para obter a vida, não basta que meu Filho se tenha tornado a ponte, é necessário que  vós passeis por essa ponte.

6 de novembro de 2016

Oração do Santo Terço na Capela da Polícia Militar

Prezados Leitores, Salve Maria!

Como é do conhecimento de todos, todas as sextas-feiras fazemos a oração do terço do rosário na Capela da Polícia Militar às 19:30 horas. O Grupo São Pio V iniciou a prática de tal devoção por inúmeras razões, mas duas razões são especiais, quais seriam elas?

1) Como nos ensina São Luís Maria Grignion de Montfort, quem rezar o rosário fiel e devotamente, até o fim da vida, ainda que seja grande pecador, pode crer que receberá uma "coroa de glória que jamais fenecerá. Ainda que estivésseis na beira do abismo, ainda que já tivésseis um pé no inferno, ainda que tivésseis vendido vossa alma ao demônio, ainda que fôsseis um herege empedernido e obstinado, vós vos converteríeis mais cedo ou mais tarde e vos salvaríeis - desde que (notai bem as palavras do Santo) rezásseis todos os dias o santo rosário, devotamente, até a morte, para conhecer a verdade e obter a contrição e o perdão de vossos pecados.

2) Obter as vantagens de rezar o Rosário em comum, como ensina São Luís, "De todas as maneiras de rezar o Rosário, a mais gloriosa a Deus, mais salutar à alma e mais terrível ao demônio, é salmodiá-lo ou rezá-lo publicamente em dois coros. Deus gosta das reuniões. Todos os Anjos e bem-aventurados reunidos no céu lá cantam incessantemente os seus louvores. Os justos da terra, reunidos em muitas comunidades, nelas rezam em comum dia e noite. Nosso Senhor expressamente aconselhou essa prática aos seus discípulos, e lhes prometeu que todas as vezes que estivessem dois ou mais reunidos em seu nome, Ele estaria no meio deles. Que felicidade ter Jesus Cristo em nossa companhia! Para possuí-Lo, basta nos reunirmos para rezar. Essa a razão pela qual os primeiros cristãos se reuniam tão freqüentemente para rezar em comum, apesar das perseguições dos imperadores que lhes proibiam tais reuniões. Eles preferiam se expor à morte a faltar a uma reunião na qual teriam a companhia de Jesus Cristo. Esse modo de rezar em comum é mais salutar à alma, porque:

a) Normalmente o espírito está mais atento na oração pública do que na particular;

b) Quando se reza em comum, as orações de cada particular se tomam comuns a toda a assembléia e constituem todas juntas uma única oração; assim, se algum particular não reza tão bem, outro na assembléia que reze melhor lhe supre a falta;

c) Uma pessoa que recita o terço sozinha tem somente o mérito de um terço; mas se o reza com trinta pessoas, tem o mérito de trinta terços. São essas as regras da oração pública. Que lucro! Que vantagem!; e

d) A oração pública é mais poderosa que a particular para aplacar a cólera de Deus e atrair a sua misericórdia. A Igreja, conduzida pelo Espírito Santo, sempre se serviu dela em tempos de calamidade pública. O Papa Gregório XIII declarou numa Bula que se deve crer piedosamente que as orações e as procissões dos devotos do Rosário tinham contribuído muito para obter de Deus a grande vitória dos cristãos em 1571, no golfo de Lepanto, sobre a esquadra dos turcos. O Rei Luís, o Justo, de feliz memória, cercando La Rochelle, onde os hereges revoltosos se mantinham fortificados, escreveu à rainha sua mãe que mandasse fazer orações públicas pela prosperidade de suas armas. A rainha mandou rezar o Rosário publicamente na igreja dos dominicanos de Paris. Essa prática teve início no dia 20 de maio de 1628. A rainha-mãe e a rainha reinante compareceram, juntamente com o senhor duque de Orléans, os Cardeais de la Rochefoulcaut e de Bérulle, vários Prelados, toda a corte e uma multidão inumerável de fiéis. O Arcebispo lia em alta voz as meditações sobre os mistérios do Rosário e dava início em seguida ao Pai-Nosso e às Ave-Marias de cada dezena, e os religiosos com os assistentes respondiam. Após o terço, levava-se a imagem de Nossa Senhora em procissão, cantando suas ladainhas. Prosseguiu-se com essa devoção todos os sábados, com fervor admirável e evidente bênção do Céu, pois o rei triunfou sobre os ingleses e entrou vitorioso em La Rochelle no dia de Todos-os-Santos do mesmo ano. Vê-se por aí qual é a força da oração pública. Por fim, o Rosário recitado em comum é bem mais terrível ao demônio, porque se constitui por esse modo um corpo de exército para atacá-lo. Ele triunfa por vezes mais facilmente da oração de um particular, mas se ela está unida à dos outros, ele só dificilmente pode triunfar. É fácil quebrar uma única vara; mas se ajuntais com muitas outras num feixe, já não se consegue quebrar. Os soldados se unem para combater os inimigos; os maus se unem para fazer suas orgias e bailes; os próprios demônios se unem para nos perder. Por que então os cristãos não se unirão para ter a companhia de Jesus Cristo, para aplacar a cólera de Deus, para atrair a sua graça e a sua misericórdia, para vencer e aniquilar mais poderosamente os demônios? O Rosário rezado em voz alta, em dois coros, é um santo costume que Deus misericordioso estabeleceu nos lugares em que preguei missões, para conservar e aumentar o fruto delas e para impedir o pecado. Antes que esse costume fosse estabelecido, não se viam naquelas cidades e aldeias senão bailes, libertinagens, dissoluções, imodéstias, blasfêmias, querelas, divisões; e só se ouviam canções desonestas e palavras de sentido malicioso. Agora ouve-se o som dos cânticos e das salmódias de Pai-Nossos e Ave-Marias; e se vêem santos agrupamentos de vinte, trinta, cem pessoas e até mais, cantando como religiosos os louvores de Deus, em horas determinadas. Há mesmo lugares em que se reza o Rosário em comum todos os dias, em três horas diferentes do dia. Que bênção do Céu! Como há réprobos por toda a parte, não duvideis de que também nos vossos lugares haverá pessoas más que negligenciem de ir rezar o terço, que se queixarão e até farão tudo o que puderem para vos impedir de prosseguir nesse santo exercício. Mas perseverai firmes! O destino desses infelizes é o inferno, onde ficarão para sempre separados de Deus. É normal que já aqui, antecipadamente, se separem da companhia de Jesus Cristo e dos que O servem.

Venha rezar conosco e obter os frutos da oração em público.

Um grande abraço em Cristo Nosso Senhor

Associação Civil São Pio V

5 de novembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

v
SALVADOR E PONTÍFICE

  Jesus  Cristo é o Verbo lncarnado que apareceu entre nós. ao mesmo tempo Deus e homem, verda­deiro Deus e verdadeiro homem. Perfeito Deus e perfeito homem. Nele as duas naturezas estão inseparavelmente unidas pelo laço duma só pessoa, a pessoa do Verbo.
Estes traços constituem o próprio ser de Jesus. A nossa fé e a nossa piedade adoram-No como seu Deus, e ao mesmo tempo proclamam a enternecedora realidade da Sua Humanidade.
Se quisermos penetrar mais a fundo no conhecimento da pessoa de Jesus, devemos contemplar durante alguns instantes a Sua missão e a Sua obra. A pessoa de Jesus dá à Sua missão e à Sua obra o seu valor ; a missão e a obra de Jesus acabam de nos revelar a Sua pessoa.
E o mais notável é os nomes que designam a própria pessoa do Verbo Incarnado declararem ao mesmo tempo a Sua missão e caracterizarem a Sua obra. Estes nomes não são, com muitas vezes os nossos, despidos de significado. Vêm do céu, e são ricos de sentido. Quais são estes nomes? São numerosos, mas a Igreja, nisto herdeira de S. Paulo, conservou sobretudo dois : o de  Jesus  e o de Cristo.
Como sabeis,  Cristo  significa  ungido,  sagrado, con­sagrado. - Outrora, na antiga Aliança, os reis eram frequentemente sagrados, mais raras vezes os profetas, sempre o sumo sacerdote. O nome de Cristo, bem como a  missão de rei, profeta e pontífice que ele designa, foi dado a muitos personagens do Antigo Testamento, an­ tes de o ser ao Verbo lncarnado. Mas ninguém, como
Ele, devia realizar a sua significação em toda a plenitude. Ele é o Cristo, o único Pontífice supremo e universal.
É Rei.  - É-o pela sua Divindade :  Rex  regum  et Dominus  dominantium;  domina sobre todas as criaturas que tirou do nada pelo Seu poder absoluto:  Veni­te adoremus, et procidamus ante Deum    • • •  lpse fecit nos et  non  ipsi  nos . . .
Sê-lo-á ainda como Verbo lncarnado. O cetro do mundo fora predito pelo Pai para Jesus: «Sou Eu. diz o Messias, quem Ele estabeleceu Rei em Sião, Sua montanha santa... Por isso, farei conhecer este decreto: o Senhor disse-me: «Tu  és  o meu filho, hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança e os confins da terra por domínio>> . O Verbo  íncarna para estabelecer o «Reino de Deus». Esta expressão  é:  frequentemente repetida na pregação de Jesus. Ao lerdes
o Evangelho. deveis ter notado que muitas parábolas ­a da pérola preciosa, do tesouro escondido, do semeador, do grão de mostarda, dos vinhateiros assassinos, dos convidados às bodas, do joio, dos servos que aguar­dam o senhor, dos talentos. etc. - são destinadas a demonstrar a grandeza deste reino, sua origem, desenvolvimento, sua extensão às nações pagãs depois da reprovação dos judeus, suas leis, suas lutas, seus  triunfos. Jesus Cristo organiza este reino pela eleição dos Apóstolos e pela fundação da Igreja, a quem confia a autoridade, a doutrina e os Sacramentos. Reino todo espiritual que nada tem de temporal ou de político, como sonhava o espírito grosseiro da maior parte dos judeus; reino em que ingressa toda a alma de boa vontade ; reino maravilhoso, cujo esplendor final é todo celeste - a bem-aventurança eterna.
S. João celebra a magnificência deste reino ; mostra-nos os eleitos prostrados diante do Chefe divino, Je­sus Cristo, a proclamar que: Ele «os resgatou pelo Seu sangue, de toda a tribo, de toda a língua, de todo o povo, de toda a nação. para formar o reino no qual deve resplandecer a glória do Pai» :  Et  fecísti nos Deo no­stro regnum .
Jesus Cristo deve ser  Profeta.  - Não é apenas um Profeta, é o Profeta por excelência, porque Ele é a Pa­lavra, o  Verbo  em pessoa. a «luz do mundo», a única que pode realmente «iluminar todo o homem» cá neste mundo. «Outrora, dizia S. Paulo aos Hebreus. Deus falou-vos pelos Seus profetas» : eram simples enviados Seus : mas «eis que, nestes últimos tempos. Ele vos
ensinou pelo Seu próprio Filho» . Não é um Profeta que anuncia  de  longe, a uma porção restrita da humanidade e por símbolos muitas vezes  obscuros,  os desígnios ainda ocultos em Deus. É Aquele que. vivendo sempre no seio do Pai, conhece todos os segredos divinos e traz a todo o gênero humano a completa e assombrosa revelação deles :  Ipse enarravit.
Vós sabeis que, desde o princípio da Sua vida pública, Nosso Senhor aplicava a Si mesmo a profecia de Isaías que proclamava que «o Espírito do Senhor descansaria sobre Ele. Por isso, o  consagrou pela Sua unção  para levar aos pobres a boa nova, para anunciar a liberdade aos cativos, dar vista aos cegos e declarar a todos que chegou o tempo da  redenção».
Jesus é por excelência o enviado, o legado de Deus que prova, por meio de milagres operados  por  Sua pró­pria autoridade, a divindade da Sua missão, da Sua palavra e da Sua pessoa. Por isso, ouvimos a multidão exclamar, depois do prodígio da multiplicação dos pães, apontando Jesus : Ele é realmente o Profeta, é realmente Aquele que há de vir.
O Verbo Incarnado realizará sobretudo a significação do Seu nome de Cristo pela Sua qualidade de
Pontífice  e Mediador, Pontífice supremo e Mediador universal.
Mas aqui é mister unir o nome de  Jesus  ao de Cristo.  O nome de Jesus significa Salvador: «Dar-Lhe­-ás o nome de Salvador, diz o Anjo a José, pois Ele há-de resgatar o Seu povo de todas as iniquidades» É esta a Sua missão principal: Venit salvare quod pe­rierat. Ora, de fato, Jesus só realiza plenamente  o significado do Seu nome divino pelo sacrifício, desempenhando o Seu ofício de Pontífice: Venít Filius hominis dare animam suam redemptionem pro multis. Os dois nomes completam-se, portanto, e são inseparáveis. «Jesus Cristo»  é o Filho de Deus, constituído Pontífice supremo, que, pelo seu sacrifício, salva a humanidade inteira.
É por isso que, contemplando o sacerdócio e o sacrifício de Jesus Cristo, acabaremos de compreender, na medida do possível, a adorável pessoa do Verbo Incarnado.
Veremos, com efeito, que é pela Sua própria Incarnação que Jesus é consagrado Pontífice, e que, desde a Sua entrada no mundo, inaugura o Seu sacrifício : toda a Sua vida traz o reflexo da Sua missão de Pontífice e é marcada pelos caracteres do Seu sacrifício.
Assim compreenderemos  melhor a grandeza e a ordem dos mistérios de Cristo ; veremos o vínculo profundo que os une entre si ; o sacrifício de Jesus, sendo a Sua obra essencial, é o ponto culminante para o qual convergem todos os mistérios da Sua vida terrestre e a fonte donde todos os estados da Sua vida gloriosa re­cebem o seu brilho : veremos também de quantas graças
abundantes ele é o princípio para todas as almas que desejarem achar n'Ele a vida e a alegria.

4 de novembro de 2016

Sermão para a Festa de São Pedro e São Paulo – Padre Daniel Pinheiro IBP

[Sermão] Igreja Católica Apostólica Romana – a romanidade



Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém
Ave Maria…
Nosso Senhor Jesus Cristo fundou uma só Igreja. Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, no singular. Ele a fundou de forma que a pudéssemos reconhecer. Ele a fundou sobre Pedro, que é a pedra desse edifício divino-humano. Pedra é o fundamento de uma edificação. É a autoridade que dá o fundamento em uma sociedade. Assim, Pedro é o fundamento visível da Igreja, sendo Cristo o fundamento invisível. A chave sobre os ombros representa o poder sobre uma cidade. São Pedro tem as chaves do Reino dos céus, ele tem o poder na Igreja de Cristo. Ele tem o poder de tudo ligar e desligar em conformidade com a vontade de Deus, quer dizer, um poder universal. Poder universal não para fazer ou ensinar novidade, mas para propagar o Evangelho de Cristo.
Por disposição da providência, foi em Roma que São Pedro estabeleceu a sua sé apostólica e foi nessa cidade que conheceu o martírio. São Pedro foi, então, o Bispo de Roma. Roma que, com São Pedro e seus sucessores ao longo dos séculos,  isto é, com os Papas, passa de mestra da mentira para discípula da Verdade. Roma é discípula da Verdade, que é Cristo. O Papa tem a função de transmitir, guardar, explicar, explicitar e defender a Verdade e não de inventar novidades. Roma é discípula da Verdade e não a sua autora.
Em Roma, como dissemos, São Pedro foi Bispo e ali conheceu o martírio. São Paulo, apóstolo dos gentios, também foi martirizado em Roma. A Igreja de Cristo é una, santa, católica, apostólica e romana. Às vezes, esquecemos de que ela é romana. E nos esquecemos da romanidade que deve ter o católico. Essa romanidade que leva ao respeito e veneração pelo Papa. Essa romanidade que nos leva a rezar pelo Papa como por um pai, ainda quando, eventualmente, não exerça tão bem a sua função.
Nós vivemos, sem dúvida, uma época de paixão da Igreja. E podemos comparar a paixão da Igreja à paixão de Cristo. Vejamos. Nosso Senhor tem duas naturezas, a humana e a divina, unidas na pessoa do Verbo. Muitos se escandalizam com a paixão de Cristo. Alguns dizem: esse não é Deus. Os apóstolos se escandalizaram, excetuando São João. Na história, temos o exemplo da heresia ariana, que nega a divindade de Cristo. Outros, diante da paixão, negaram a humanidade de Cristo, afirmando que o sofrimento era meramente aparente. Na história, temos o exemplo do erro herético do docetismo. Tanto a negação da divindade de Cristo quanto a negação de sua humanidade destroem a redenção. Se Cristo não é Deus, suas ações não têm um valor infinito para reparar pelos nossos pecados, que são ofensas infinitas feitas a Deus. Se Cristo não é homem, não é a cabeça do gênero humano, não repara em nosso nome. São duas maneiras opostas de destruir a obra da redenção. Ora, Cristo é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. Sofreu em sua humanidade permanecendo Deus.
A Igreja, por sua vez, é humana e divina. Ela é humana em seus membros de qualquer posição hierárquica, que podem falhar, mesmo seriamente. A Igreja é divina em seu magistério infalível, nos seus sacramentos, na sua origem, na sua alma, que é o Espírito Santo. Nós vivemos um tempo de crise da Igreja, tempo de paixão da Igreja. Como com Nosso Senhor, muitos se escandalizam. Alguns dizem que ela não é divina, que não é a Igreja de Cristo, que não há mais Papa. Arrumam uma solução pior que o problema. Uma solução que leva ao absurdo, o que prova a falsidade do raciocínio. É uma solução que vai contra as promessas de Nosso Senhor Jesus Cristo de que as portas do inferno não prevalecerão. Com essa solução, teríamos uma Igreja sem o seu fundamento, sem o poder das chaves há mais de 40, 50 anos. Seria forçoso dizer que as portas do inferno prevaleceram e que a Igreja não é, então, divina, como os que negam a divindade de Cristo ao ver o calvário. Outros se escandalizam dizendo que na Igreja não há problema algum na sua parte humana, e afirmando que não há crise alguma na Igreja, mas apenas aparência de crise por problemas externos. Fazem como aqueles que negavam a humanidade de Cristo, dizendo que o seu sofrimento era puramente aparente e não real.
Devemos responder como aqueles que permaneceram fiéis no calvário e depois. A Igreja sofre pela sua parte humana, mas ela é divina, permanecendo tal como constituída por Cristo, transmitindo fielmente a sua doutrina em seu magistério infalível. Devemos exercer a romanidade, amando profundamente o Santo Padre (respeitando-o e rezando por ele) e comportando-nos sem servilismo – obediência a ordens ilegítimas – e sem desobediência – rebeldia a ordens legítimas da legítima autoridade.
A Igreja de Cristo é Católica Apostólica Romana.

3 de novembro de 2016

Columba Marmion - Jesus Cristo nos seus mistérios.

IV

Cristo é Deus e homem. A alma fiel não se limita a proclamar a Divindade de Jesus, quer igualmente honrar a Sua santa Humanidade : a nossa piedade não seria perfeita, integral, se, confessando a Divindade de Jesus Cristo, perdêssemos de vista a Sua Humanidade.
Almas há que julgam ser melhor para a sua vida espiritual não meditar na Humanidade de Jesus Cristo, e contemplar apenas a Sua Divindade. Santa Teresa caiu durante algum tempo neste erro. Mais tarde, a grande contemplativa reconheceu-o ; e então, em que amargos termos o deplora ! Com que vivacidade previne as suas filhas e, com elas, todas as almas, contra esta opinião, que declara «errônea» e da qual nunca se lembra «sem que se sinta acabrunhada de dor», pois se
«embrenhava por um caminho detestável» e «parece-lhe ter-se tornado culpada para com o Senhor duma grande traição». Na realidade, era «ignorância».
Segundo a Santa, uma ilusão destas é motivada por «uma pequena falta de humildade, tão encoberta e oculta que passa despercebida ... ». Devemos considerar-nos «muito ricos» por nos ser dado estar junto da Humanidade de Jesus nos Seus mistérios.  «Ê  uma pequena falta de humildade ... não se contentar com um objeto tão excelente como a Humanidade de Jesus Cristo... Esta pequena falta de humildade ... , que parece insignificante, prejudica muito o progresso na
contemplação».
Outro inconveniente deste erro apontado pela Santa é deixar a alma sem apoio. «Não somos anjos, diz ela ; temos um corpo . . . No meio dos negócios. das perseguições, das provações. no tempo de aridez, Jesus Cristo é um  excelente amigo. Vemo-Lo homem como nós. contemplamo-Lo na enfermidade, no sofrimento... Pois somos homens. é-nos muito vantajoso. enquanto estiver­mos nesta vida. considerar a Deus feito homem». Não é acaso lei da nossa natureza ir ao invisível através das coisas visíveis? Ora, a Incarnação é a mais divina aplicação desta lei psicológica.
A  Esposa do Cântico dos Cânticos dizia: «Sen­tei-me à sombra daquele que era o objeto dos meus
desejos»:  Sub umbra illius quem desideraveram sedi. Esta  umbra  é a santa Humanidade que permite aos nossos olhos contemplar a Divindade, que se nos revela sob aparências sensíveis.
E a santa conclui:  «E  sumamente agradável a Deus ver uma alma pôr, com humildade, o Seu divino Filho como intermediário entre ela e Ele».
E qual a razão íntima de tudo isto?
E  que a lncarnação é um mistério  divino ;  a obra-­ prima da sabedoria eterna e do amor infinito. Porque não nos havemos de compenetrar dos pensamentos e desígnios de Deus? Porque havemos de recusar subordinar à sabedoria infinita a nossa ciência tão limitada? Serão tão ineficazes os recursos divinos, que julguemos dever corrigi -los com os nossos cálculos humanos?  Se Deus houve por bem realizar a nossa salvação e a nossa santidade por meio duma Humanidade unida ao Verbo, ao Seu Filho, porque não recorrer a este  meio? Admiramos aqui tanto a sabedoria como a condescendência divina.
Não receemos, pois, quando lemos o Evangelho, quando celebramos os mistérios de Jesus, contemplar em Cristo o homem : esta Humanidade é a Humanidade dum Deus. Este homem, que vemos agir e viver no meio dos homens para os atrair com as provas sensíveis do Seu amor, é Deus, é o nosso Deus.
Sobretudo, não receemos prestar a  esta  Humanidade todas as homenagens que lhe são  devidas.
Em primeiro lugar a adoração. - E:  verdade que esta Humanidade é criada como a nossa. Não a adoramos por causa de si mesma ; todavia, temos de a adorar em  si, por causa da sua união com  o Filho de Deus. A nossa adoração é prestada à  Humanidade.  mas termina na pessoa divina à qual está  substancialmente unida.
Depois, confiança absoluta. - Deus quis  fazer  da Humanidade de Cristo o  instrumento  da graça ;  é  por intermédio dela que a recebemos.  Não é do Verbo no seio do Pai mas sim do Verbo  Incarnado  que S. João disse:  «E  cheio de graça e da sua plenitude todos nós
recebemos».
Durante a Sua vida terrestre nosso Senhor sendo Deus como era, podia ter operado todos os milagres e distribuído a graça aos homens  apenas  por um ato da Sua divina vontade. Cada vez que apresentavam  a  Je­sus doentes para os curar, mortos para os ressuscitar, Ele podia por um simples ato interior  da Sua Vontade eterna, operar o milagre solicitado. Mas não o fez. Lede
o Evangelho: vereis que Ele quis tocar com a mão  os olhos dos cegos, os ouvidos dos surdos,  colocar  a  saliva na língua dos mudos, tocar no esquife do filho  da  viúva de Naim, pegar na mão da filha de  Jairo,  comunicar o Espírito Santo aos Apóstolos soprando sobre eles. Era, portanto, pelo contato da Sua santa  Humanidade  que Jesus Cristo operava os milagres e distribuía  a  graça: a Humanidade servia de instrumento  unido  ao Verbo.  E esta lei admirável e enternecedora  verifica-se  em todos os mistérios de Jesus.
Esta ordem. querida pelo próprio Deus, continua, visto a união das naturezas, em Cristo, ser indissolúvel. Portanto, quando percorremos as páginas do Evangelho, quando acompanhamos a Igreja na sua Liturgia, quando nos unimos à santa Humanidade de Jesus por um ato de fé, quando sobretudo recebemos  o  seu Corpo na Eucaristia, a santa Humanidade de Jesus, inseparável
do Verbo divino, serve de instrumento de graça para
as  nossas almas.
<<É  para mim coisa evidentíssima, escreve Santa Te­resa, que para agradar a Deus e receber d'Ele grandes graças, é necessário e é vontade Sua que elas passem pelas mãos desta santa Humanidade na qual Ele próprio declarou ter posto todas as Suas complacências.
Disto fiz eu a experiência inúmeras vezes e o mesmo Nosso Senhor mo disse. Reconheci claramente que esta é a porta por onde havemos de entrar, se quisermos que a soberana majestade nos revele altos segredos ... Por esta estrada, caminhamos seguros».
E se bem refletirdes, vereis que toda a economia da vida sobrenatural se baseia nesta verdade. A Igreja, os  Sacramentos, o santo Sacrifício, a pregação, são outros tantos meios sensíveis pelos quais Deus nos conduz a Si. E' um como prolongamento da Incarnação.
Já vedes como é útil e importante permanecer unidos à santa Humanidade de Jesus ; nela, diz S. Paulo, habita a plenitude da Divindade, e  é do Verbo, por intermédio da Humanidade, que recebemos todas as gra­ças:  Verbum caro factum est.. . et vidimus e um plenum gratiae et de plenitudine ejus nos omnes accepimus.  A Humanidade de Jesus é o meio divinamente estabelecido para transmitir a graça às almas.
É também para as almas um meio de chegar até à Divindade. - Verdade não menos importante. de que jamais nos devemos esquecer. Não devemos ficar-nos na santa Humanidade de Jesus como no termo final. Podeis dizer-me: «Para mim. toda a devoção consiste em me dar a Jesus Cristo. em me entregar a Ele>>. É bom, excelente, nada melhor do que dar-se a Cristo. Mas  o que é dar-se a Nosso Senhor? É unir a nossa vontade à d'Ele. Ora. a vontade de Jesus é conduzir-nos para o Pai. Toda a Sua obra consiste nisto ; o Pai é o termo. «Eu sou o caminho». dizia Jesus. falando da Sua Humanidade. Ele é o único caminho. é verdade ; mas não passa dum caminho ; o fim supremo ao qual nos conduz este caminho é o Pai Eterno:  Nemo venit AD PATREM nisi per me. A Humanidade entrega-nos ao Verbo, o Verbo ao Pai.
É o que dizia S. Paulo aos cristãos do seu tempo : Omnia vestra sunt .. vos autem Christi, Christus autem Dei (45 .  Por estas simples palavras,  o  grande Apóstolo indicava os degraus da obra divina na terra: «Tudo é vosso, vós sois de Jesus Cristo. Cristo é de Deus».
Pela Humanidade de Jesus pertencemos ao Verbo, ao Filho: pelo Filho vamos ao Pai. Cristo conduz-nos assim  in sinu Patris.  Aqui est, contemplada do nosso lado. a íntima razão de ser do inefável mistério do Homem-Deus.
Conta-nos S. João que. no início da Sua vida pública, o  nosso divino Salvador, passando pela Sama­ria, chegou a uma cidade chamada Sicar. perto do poço de Jacob. Entre as circunstâncias da cena minuciosamente descrita pelo Evangelista, há uma que particularmente nos comove o coração:  Jesus ergo fatigatus ex itinere, sedebat sic supra fontem :  <
Leia-se o admirável comentário de Santo Agostinho, sobre estes pormenores, feito com aquela oposição de ideias e de termos de que ele possui o segredo, principalmente quando quer pôr em relevo a união e o contraste do divino e do humano em Jesus. «Está cansado, diz, Aquele que restaura as forças dos que se acham extenuados, Aquele cuja ausência nos acabrunha, cuja presença nos fortalece» :  Fatigatur per quem fatigati recreantur: quo deserente fatigamur. quo praesente firmamur.  «É por vós que Jesus se cansa da caminhada. Encontramo-Lo cheio de força e de fraqueza. Porquê cheio de força? Porque  é  o Verbo eterno, e todas as
coisas foram criadas pela Sua sabedoria e pela sua força. Porquê cheio de fraqueza?  Porque este Verbo se fez carne e veio habitar entre nós. A força divina de Jesus Cristo vos criou, a Sua vinda na fraqueza da nossa humanidade vos resgatou» :  Fortitudo Christi te creavit: -infirmitas Christi te recreavit.
E o Santo concluiu: «Jesus  é  fraco na Sua Huma­nidade. Quanto a vós, cuidado, não vos fiqueis na vossa fraqueza ; vinde antes buscar a força divina n'Aquele que, sendo por natureza a Omnipotência, quis tornar-se fraco por amor de vós» :  lnfirmus in carne Jesus: sed noli tu infirmari. in infirmitate illius tu fortis esto!