26 de junho de 2015

A Esmola - Padre André Beltrami.

CAPITULO XI

QUE E' O POBRE ? E' A PESSOA
 DE JESUS SOFREDOR


Jesus habita na terra oculto sob os véus eucarísticos e sob os andrajos do pobre; no santo Tabernáculo e no pardieiro do mendigo. E é por isso que muitos santos serviam aos pobres, de joelhos, com a cabeça descoberta, com a reverência com que se costuma servir a um rei. Apenas Jesus declarou feito a si o que se faz ao próximo, viram-se os soberbos senadores romanos e os sábios do areópago, que antes consideravam os escravos como animais, abraçá-los como irmãos e pô-los em liberdade, maravilhando com isso os pagãos. Quantas vezes Jesus Cristo apareceu andrajoso ou enfermo para ser socorrido por seus eleitos!

Santa Isabel, duquesa de Turíngia, filha do rei da Hungria, foi a heroína de caridade que edificou o século XIII. Dava aos pobres quanto podia, mantendo grande número deles em palácio e servindo-os á mesa, com grande humildade. Abaixava-se para lavar os seus pés, curar as suas chagas, beijando-os com afeto e reverência. Andava pelas casas a visitar os enfermos, a levar-lhes alimento e remédios; e encontrando crianças abandonadas, Isabel levava-as para sua casa, as lavava e penteava como se fossem filhos seus. Subjugara de tal modo a natureza que sentia até prazer no exercício daquela caridade e quereria passar os seus dias entre os pobres e doentes. Os cortesãos e principalmente a sogra murmuravam e desaprovavam abertamente o procedimento da santa, dizendo que desonrava a dignidade ducal, e que não sabia manter o decoro de sua alta posição. Mas a Isabel pouco se lhe davam tais murmurações; e continuava a fazer obras de misericórdia. Deus interveio com muitos milagres a aprovar o seu procedimento. Em um dia de cruel inverno, descia do castelo em companhia de uma donzela, com abundante recurso que ia distribuir aos pobres. De caminho encontrou o marido, que voltava da caça; aquele senhor, digno de ser esposo de uma santa, quis ver o que ela levava no avental. Isabel o abriu  para mostrar lhe o trigo que ia distribuir aos pobres; e com indescritível maravilha o achou convertido em belíssimas rosas de variegadas cores. Nutria grande amor para com os pobres leprosos, tão numerosos na Idade Média, lembrando-se de que Jesus foi descrito pelo Profeta Isaías como um homem coberto de chagas da cabeça aos pés, á guisa de leproso. Certo dia, acolheu um no palácio e o pôs na sua mesma cama para limpá-lo e curá-lo. A sogra ficou indignada; e correu a chamar o filho para mostrar-lhe o que Isabel estava fazendo . Vão ao leito, abrem o cortinado e invés do leproso, dão com Jesus Cristo pregado na cruz.

S. Francisco, logo após a sua conversão, percorria a cavalo a planície de Assiz, quando encontrou um leproso. Desceu logo do cavalo, abraçou o doente com ternura e deu-lhe uma esmola. Montando a cavalo, voltou-se para o saudar; mas não viu ninguém. Compreendeu, então,que Jesus lhe aparecera sob aquela forma para ser honrado e socorrido por ele; e daí por diante concebeu um amor terníssimo para com esses infelizes, ao ponto de entrar nos leprosários para lhes prestar os mais humildes serviços.

S. João, o esmoler, tendo dado muitas vezes bela soma de dinheiro a um indivíduo que mudava sempre a roupa e o nome, fingindo ser grande necessitado, ainda depois de perceber isso, continuou a fazer-lhe caridade. Avisado dessa fraude, disse ao secretário: - «Dá-lhe o dinheiro pedido, pois pode ser que Jesus Cristo queira experimentar a tua caridade». Na vida de Tobaldo, conde de Chartres, narra-se um fato assaz curioso. Viajando, um dia, acompanhado de muitos amigos no coração de rígido inverno, encontrou um pobre seminu. Tobaldo, liberalíssimo corno era, perguntou:                   - Que desejas?
- Dai-me, respondeu o pobre, o vosso manto. Deu-lho o conde, dizendo:
-.Se queres, pede mais alguma coisa.
-Dai-me o hábito que tendes sobre a túnica. Foi-lhe dado. Vendo tanta generosidade,
o pobre ousou replicar:
- Bem vedes, sr. conde, que tenho a cabeça nua ... dai-me, pois, o chapéu porque podereis logo arranjar outro, enquanto que eu não tenho dinheiro. O conde, que era calvo, não gostou do pedido, e:
-Caro filho, disse, és demasiado importuno e não posso satisfazer-te. Então o pobre desapareceu, deixando tudo sobre a neve. O conde apeou incontinenti, ajoelhou-se, pedindo a Deus perdão por aquela recusa e prometeu não mais negar no futuro qualquer coisa que lhe pedissem os pobres.

Apareceu um dia a S. Gregório Magno, quando ainda abade do mosteiro, um Anjo, disfarçado em comerciante que, devido a um naufrágio, perdera toda a sua mercadoria; pelo que, vinha lhe pedir algum recurso. Gregório deu-lhe seis escudos; mas o comerciante observou-lhe que era pouco; o abade deu-lhe outros seis escudos. Alguns dias depois, volta o mesmo negociante todo aflito a pedir-lhe novo auxilio, alegando a sua extrema miséria. Como Gregório encontrasse vazia a bolsa do mosteiro, mandou que lhe dessem uma bandeja de prata que Silvia, sua santa mãe, lhe mandara aquela manhã.
Elevado ao sólio pontifício, ordenou certa vez a um seu capelão, que chamasse à sua mesa doze pobres, em honra dos doze apóstolos; durante a refeição notou que eram treze. Perguntou ao capelão, porque chamara mais de doze; ele protestou que não tinha convidado sinão doze. Mas Gregório via treze e suspeitando de algum  mistério fixou atentamente o olhar sobre o décimo terceiro; notou que mudava de semblante, parecendo ora moço, ora velho. Terminada a refeição, chamou-o à parte e o conjurou a dizer-lhe quem era:
-«Eu sou aquele comerciante arruinado pelo naufrágio, a quem vos destes doze escudos de esmola e a bandeja de prata, presente de vossa mãe. Sabei que por vossa caridade quis Deus que fosseis o sucessor de S. Pedro.
-Como sabes isto? continuou S. Gregório.
-Eu sou um Anjo mandado por Deus para vos experimentar.
Prostrou-se o santo com grande reverência e exclamou:
- Se por uma coisa tão pequena Deus me fez Pastor universal de sua Igreja, quantos benefícios ainda maiores posso esperar d'Ele, se O servir com grande afeto na pessoa dos pobres!
Com isso, aumentou muito a sua liberalidade para com os necessitados.
Um dia, querendo servir com suas próprias mãos a um pobre, este desapareceu. A' noite, apareceu-lhe em sonho Jesus Cristo e lhe disse.
-« Outras vezes me tens recebido nos meus membros; ontem, porém, me recebeste em minha própria pessoa».

O venerável Monsenhor De Palatox,  toda quinta-feira dava jantar a doze pobres. Lendo a vida de S. Martinho, notou que o santo lavava os pés aos pobres e lhes servia a comida; e logo se propôs a fazer o mesmo. Cumpriu à risca a promessa.
Se todos os ricos vissem a Jesus nos pobres, portiariam em socorrê-los e a terra não seria mais um vale de lágrimas e de dores. Queira Nosso Senhor iluminá-los com a  sua santa graça e fazê-los compreender esta verdade que, praticada, torná-los-á felizes no tempo e na eternidade. (1)

(1) Merece lembrada a sentença que tinha sempre na boca S. José Cottolengo: - " São os pobres que nos hão de abrir as portas do Paraíso ".

Catecismo Ilustrado - Parte 29

Os Sacramentos

O Matrimônio

1. O Matrimônio pode considerar-se como o contrato e como sacramento. Como contrato, é a união conjugal do homem e da mulher que os obriga a viver numa inseparável companhia.
2. Como sacramento, o Matrimônio é este mesmo contrato elevado por Jesus Cristo à dignidade de sacramento que dignifica e confere uma Graça especial aos que o celebram.
3. O sacramento do Matrimônio dá aos que o recebem dignamente e que são legitimamente casados virtude e Graça para viverem em paz e caridade, e para educar os filhos no santo temor de Deus.
4. Para que o Matrimônio seja perfeito e abençoado por Deus, os noivos devem: 1º estar em Graça de Deus; 2º saber bem a doutrina cristã; 3º ter boa intenção.
5. Ambos os noivos devem estar em estado de Graça, porque o Matrimônio é um sacramento dos vivos, e não pode ser recebido dignamente senão por quem estiver vivo na Graça de Deus.
6. Devem saber os noivos a doutrina cristã, porque os pais de família têm a obrigação de ensiná-la aos seus filhos e subordinados, e não a podem ensinar sem a saberem bem.
7. As principais obrigações dos que se casam são duas: 1º viver em mútuo amor e união conjugal assim como Jesus Cristo com a sua Igreja, 2º educar bem os seus filhos.
8. O Matrimônio nulo é aquele em que os casados verdadeiramente não estão casados, ainda que fizessem a cerimônia da Igreja.
9. O Matrimônio é nulo por causa dos impedimentos; há 2 tipos de impedimentos no Matrimônio: uns tornam nulo o Matrimônio. Os outros sem o tornar inválido proíbem sob pena do pecado. Os impedimentos mais frequentes que invalidam o Matrimônio são o parentesco até o quarto grau de consanguinidade ou de afinidade, parentesco espiritual que vem do Batismo entre padrinho ou madrinha e a sua afilhada ou o seu afilhado.
10. A Igreja manda publicar antes da cerimônia os banhos, afim de descobrir os impedimentos.
11. A Igreja proíbe casar com os hereges e com os excomungados, durante a excomunhão.
12. Quem souber em segredo algum impedimento tem obrigação de o declarar ao pároco, debaixo de pecado mortal e pena de excomunhão, não havendo razão grave que o dispense.
13. Há um estado que é mais perfeito e mais agradável a Deus do que o Matrimônio, que é a virgindade cristã.
14. Casar em estado de pecado mortal é um sacrilégio que atrai a maldição de Deus sobre as famílias.
15. O Matrimônio é indissolúvel; só se dissolve pela morte de um dos desposados. Nosso Senhor disse no Evangelho que “o homem não pode separar o que Deus uniu”. (Mat. XIX,6)

Explicação da gravura

16. A parte principal da gravura representa o casamento de Nossa Senhora com São José, que tem na mão uma açucena. Quando Maria chegou à idade de se casar, o sumo sacerdote reuniu todos os jovens da família de David que desejavam desposá-l’A, e deu a cada um um ramo bento dizendo que escrevessem o seu nome. Depois colocou os ramos no altar pedindo a Deus que manifestasse a sua vontade. Então se viu que só o ramo de José estava coberto de folhagem e flores. À direita vê-se um jovem que, triste por não ter sido escolhido, quebrou o ramo que lhe dera o sacerdote.
17. Na parte superior, à esquerda, vêem-se Tobias e Sara preparando-se para o casamento com fervorosas orações. O anjo Rafael expulsa o demônio que matara os sete maridos de Sara pelas suas más disposições para o Matrimônio. À direita vê-se Adão e Eva a quem Deus abençoou e disse: crescei e multiplicai-vos.
18. Na parte inferior vê-se um casamento católico.

25 de junho de 2015

História Eclesiástica - Quinta Época Capítulo 8

CAPÍTULO VIII

Perseguição em Roma - Rapto e padecimentos de Pio VI - Sua morte gloriosa - Regras disciplinares desta época.

Perseguição em Roma - Declarada a destronização do Papa, os comissários franceses se apoderaram de sua pessoa e deram começo ao saque do palácio pontifício. As bibliotecas preciosas e raras ali existentes, foram vendidas por preço vil depois de terem sido quebradas as estantes e armários que as continham. Vendo-se burlados por não achar o ouro, nem as jóias que ali esperavam encontrar, apresenta-se o calvinista Haller ao Papa e diz-lhe em tom de ameaça: "A república romana vos intima que me entregueis já vossos tesouros: dai-mos pois". - "Eu não possuo tesouro algum". "Não ostentais dois formosos anéis nesse dedo?" Entregou-lhe um deles o Papa, dizendo-lhe: "Não posso entregar-vos o outro, porque deve passar a meus sucessores". Eram o anel do pescador que costumam usar os Papas para firmar ou selar os papéis de maior importância. Mas foi necessário que também fizesse entrega dele. Os cardeais, os bispos e outros prelados foram encarcerados ou desterrados. assim a Igreja Romana insultada em seu chefe e em seus membros, achava-se exposta a uma perseguição tão injusta como cruel; e em vez de se ouvirem em Roma as glórias de Deus, como quando se achava em poder do Papa, viam-se em suas ruas procissões obscenas, e se cantavam hinos à mais desenfreada licença.

Rapto e padecimentos de Pio VI - O perseguido, porém sempre grande Pontífice, em vista de sua avançada idade de 80 anos, de sua saúde alquebrada e de suas doenças, deixava entrever um grande desejo de morrer em Roma, e não queria obedecer à ordem de partir. Mas o bárbaro Haller replicava: "Eu não ouço razão nem pretexto algum. Se não quiserdes partir por amor, vos faremos partir por força". Na espantosa noite de 28 de fevereiro de 1798, durante uma horrenda tempestade, encerrado em miserável carro, privado de seus ministros e entregue em mãos de dois comissários, o Papa foi tirado secretamente de Roma para não voltar mais. Levaram-no primeiramente a Monterosso, depois a Viterbo, dali a Sena, e finalmente a um convento de Cartuxos perto de Florença. Era conduzido escravo por seus inimigos, os quais buscavam todos os meios para que não fosse conhecido. Sem embargo, por todas as partes onde passava recebia as mesmas honras como se o levassem em triunfo. Sacerdotes e leigos, ricos e pobres, homens e mulheres, velhos e moços, sãos e enfermos, ocupavam em todas as partes, campos e caminhos, subiam às árvores, e com as mãos juntas e de joelhos pediam a bênção ao glorioso prisioneiro. Visitaram-no na Cartuxa de Florença o rei Manoel IV e a venerável Clotilde, rainha de Sardenha. Ambos se ajoelharam a seus pés, apesar dos esforços que fizera o Papa para levantá-los. "Neste ditoso momento: disse o rei, eu esqueço todas as minhas desgraças, já não me queixo de ter perdido o trono; tudo eu encontro a vossos pés". Querido príncipe, respondeu o Papa, tudo é vaidade exceto amar e servir a Deus. Levantemos, nossos olhos para o céu; ali nos esperam tronos que nos não poderão tirar". "Vinde conosco à Sardenha, dizia-lhe a piedosa rainha, ali encontrareis em vossos filhos o respeito que merece tão terno Pai". Porém, como podia livrar-se das mãos daqueles ladrões? A 27 de março de 1799, tiram o Papa de Florença e levam-no, durante quatro meses seguidos, de aldeia em aldeia, passando montes e pousando em cabanas, à mercê de uns homens que lhe faziam padecer toda espécie de martírios. Perto de Turim viu-se o carro obrigado a estacar, pois lhe estorvara o passo a multidão de fiéis que acudia a receber a bênção Papal. Os desnaturados comissários franceses que o acompanhavam, quiseram que continuasse a viagem, ainda que por um ataque de paralisia ficasse já imóvel a metade de seu corpo. Finalmente a 14 de julho chegou a Valença, termo de sua viagem, lugar de sua prisão e fim de sua vida.

Morte de Pio VI - Depois de tantas viagens e fadigas, depois de tantos trabalhos e insultos, de tantos transtornos, devia receber este ilustre mártir a recompensa devida a seus padecimentos. O arcebispo Spina, ao aproximar-se para administrar-lhe o santo Viático, perguntou-lhe se em presença de Jesus Cristo perdoava a seus inimigos. Ao ouvir estas palavras, o santo pontífice levantou seus olhos para o céu, e fitando-os logo em um crucifixo que sempre tinha em sua mão: "De todo coração, respondeu, de todo coração". E chamando em seu derredor todas as pessoas da casa, abençoou-as enquanto se achavam de joelhos e chorosos, com a tríplice e última bênção. Pediu que lessem as orações dos agonizantes, que acompanhou devotamente. Conservando sempre a mesma serenidade de rosto, dormiu no Senhor aos 81 anos de idade, a 29 de agosto de 1799, depois de 24 anos e meio de pontificado. Quando se espalhou a notícia de sua morte, correu o povo, em massa, à capela onde se achava o cadáver. Todos queriam possuir alguma coisa que tivesse pertencido ao santo Pontífice. Buscavam com avidez suas vestes, seus cabelos e outros objetos que lhe haviam pertencido e, não, encontrando já coisa alguma, punham sobre o féretro medalhas, véus, paninhos, livros, rosários, e os levavam para suas casas como relíquias. Entre as orações, os votos, a alegria e tristeza ouvia-se exclamar por toda parte: "É um mártir! É um mártir!" Em seu sepulcro escreveram o seguinte epitáfio:

AQUI JAZ PIO VI PONTÍFICE MÁXIMO CHAMADO NO SÉCULO JOÃO ANGELO DE CESENA O QUAL NA DURAÇÃO DO PONTIFICADO EXCEDEU A TODOS OS OUTROS PONTÍFICES GOVERNOU A IGREJA XXIV ANOS, VI MESES E XIV DIAS SANTAMENTE MORREU EM VALENÇA EM UMA FORTALEZA ONDE ESTAVA GUARDADO COMO PRISIONEIRO DOS FRANCESES, HOMEM DE MARAVILHOSA FORÇA DE ANIMO E DE CONSTÂNCIA EM VENCER OS MAIS PENOSOS TRABALHOS.

Regras disciplinares da quinta época - No século XVI publicou Paulo IV um índice dos livros proibidos. São Pio V ordenou que todos os anos no primeiro domingo de outubro se celebrasse a festa do Santíssimo Rosário. Gregório VII empreendeu a correção do calendário Romano, deixando onze dias no mês de outubro do ano 1582. Isto fez, porque não se havia observado até então com suficiente precisão, que nosso globo emprega em dar sua volta anual ao redor do sol 365 dias e 6 horas menos alguns minutos; depois de alguns séculos a soma destes minutos chegou a formar 11 dias a mais, e o ano já não ia de acordo com a revolução do nosso globo. Por isto se transportou o equinócio da primavera de 11 a 21 de março. Desde então todo o mundo cristão, excetuando a Rússia, começou a usar o calendário gregoriano. Urbano VIII reduziu o breviário a melhor forma e deu aos cardeais o título de eminência. Clemente XIII, no ano de 1759, ordenou que nos domingos que não tivessem prefácio próprio, se dissesse o da Santíssima Trindade.

24 de junho de 2015

Catecismo Ilustrado - Parte 28

Os Sacramentos

A Ordem

1. A Ordem é o sacramento instituído por Jesus Cristo, pelo qual se confere o poder de consagrar, oferecer e administrar a Eucaristia, e exercer as outras funções eclesiásticas.
2. Este sacramento dá virtude e Graça aos sacerdotes e outros ministros da Igreja para bem cumprir os seus ofícios.
3. Os que abraçam o estado eclesiástico devem ter por fim a glória de Deus e a salvação eterna do próximo.
4. Somente aos bispos pertence administrar o sacramento da Ordem, porque têm a plenitude do sacerdócio.
5. As disposições necessárias para receber o sacramento da Ordem são principalmente três: 1º vocação, isto é, ser chamado por Deus para o estado eclesiástico; 2º uma vida exemplar e devota; 3º suficiente doutrina.
6. Há sete graus no sacramento da Ordem, quatro menores e três maiores. Os quatro menores graus do sacramento da Ordem são: ostiário, leitor, exorcista e acólito. As três Ordens maiores ou Ordens sacras são: Subdiácono, Diácono e Presbítero, que é o mesmo que a de epístola, de Evangelho, e de presbítero ou de Missa.
7. Há uma diferença quase infinita entre os sacerdotes e os que o não são. Basta dizer que o Filho do Altíssimo Ilhe obedece, vindo à terra realmente num instante toda vez que o sacerdote o diz na consagração.
8. Devemos pois ao sacerdote todo o respeito, pelos dois poderes que Deus lhe deu, um sobre o Filho de Deus feito homem que obedece à sua voz, e outro o de perdoar os pecados que são ofensas feitas a Deus.
9. Se o sacerdote não tiver costumes adequados a esta grande dignidade, devemos respeitar o caráter do sacramento, e ter compaixão e caridade da pessoa.
10. Para com aqueles que são promovidos às ordens, devemos: 1º orar a Deus para que se digne conceder à sua Igreja bons pastores e zelosos ministros; 2º ter-lhes particular respeito e veneração.

Explicação da gravura

11. A parte principal da gravura representa São Pedro conferindo a Ordem aos sete primeiros diáconos. Como o número de cristãos aumentasse de dia para dia, e como os Apóstolos não pudessem cumprir todas as funções do seu ministério, mandaram eleger na assembleia dos fiéis sete diáconos que os substituíssem na distribuição das esmolas às viúvas, órfãos e pobres. Rogando a Deus pelos escolhidos, os Apóstolos conferiram-lhes a Ordem do Diaconato pela imposição das mãos.
12. Na parte superior, vê-se o Bispo conferindo as ordens menores. À esquerda, confere o Bispo a Ordem do ostiário mandando tocar as chaves da igreja. A seguir, o Bispo confere a Ordem de leitor mandando tocar o missal. No ângulo direito, na parte esquerda, o Bispo confere a Ordem de exorcista, cuja função é de expulsar os demônios, mandando tocar o livro dos exorcismos. Por fim, na quarta parte, o Bispo confere a Ordem de acólito mandando tocar um castiçal com vela e as galhetas.
13. Na parte inferior divide-se em três: na primeira, à esquerda, o Bispo ordena um subdiácono, cuja função é de servir o diácono no altar, e de cantar a epístola na Missa Solene. Para ordená-lo o Bispo manda o ordinando a tocar o cálice, a patena e o livro das epístolas. O subdiácono obriga-se à castidade perpétua e à recitação quotidiana do ofício divino.
14. Na última parte, à direita, o Bispo confere a Ordem sacra do Diaconato. As funções do diácono são de ajudar o sacerdote na Missa, cantar o Evangelho, pregar e batizar. Hoje em dia, o diácono não pode pregar nem batizar sem especial licença do Bispo. Confere essa Ordem o Bispo com a imposição das mãos, dizendo: “Recebe o Espírito Santo, para teres a força de resistir ao demônio e às suas tentações”.
15. Enfim na parte do meio, o Bispo confere a Ordem de Sacerdote, cujas funções são dizer Missa, pregar e administrar os sacramentos. O Bispo confere esta Ordem com a imposição das mãos sobre os ordinandos, e com ele todos os sacerdotes presentes; manda tocar o cálice com vinho e a patena com a hóstia, dizendo ao mesmo tempo: “Recebe o poder de oferecer a Deus o Sacrifício e de celebrar a Missa pelos vivos e pelos mortos”.

IV Congresso São Pio V - Programação





A Esmola - Padre André Beltrami.

CAPITULO X
LUMINOSOS EXEMPLOS DOS
SANTOS
Os santos patriarcas do Antigo Testamento foram modelos de amor ao próximo, exercitando sobretudo a hospitalidade aos peregrinos. Abraão recebeu um. dia em sua terra três anjos em forma humana e os tratou com todo o carinho como se fossem irmãos seus. Job era chamado «o pai dos pobres, dos órfãos e das viúvas, como já vimos atrás, e passava os seus dias fazendo o bem aos necessitados. Como são tocantes as cenas de caridade narradas no livro de Rut Booz ordena expressamente aos segadores que deixem cair espigas, afim. de que a pobre respigadora possa recolher abundantes provisões e dá-lhe permissão de comer e beber á sua mesa. Não faço alusão a Tobias, porque já narramos mais detalhadamente as suas esmolas e obras de misericórdia aos irmãos cativos. A viúva de Sarepta não tinha mais que um pouco de farinha e algumas gotas de óleo, pois a carestia flagelava o reino pelos pecados do Ímpio Acab; e todavia ofereceu aquele bem de Deus ao profeta Elias, perseguido pelo rei; em recompensa nunca lhe faltou farinha e óleo. Muito depois, apareceu o Salvador para regenerar a sociedade com o preceito da caridade fraterna, abolindo a escravidão e ensinando que os homens são todos filhos do mesmo Pai celeste, sem distinção de nacionalidade. O cristianismo funda hospitais, institui irmãs de caridade, abre asilos para inválidos, orfanatos e casas para crianças desamparadas, albergues para peregrinos. Os pobres no paganismo eram muitas vezes sacrificados barbaramente como inúteis e de peso á sociedade; Jesus os nobilitou, amando-os eternamente e afirmando que eram seus representantes na terra e que considerava feito a si tudo o que os homens faziam.para eles. Então a pobreza era mais estimada do que a riqueza e milhares de pessoas de ambos os sexos abandonavam tudo para se tornar pobres por Jesus Cristo.Os santos todos da Igreja porfiaram em socorrer os pobres, vendo neles a pessoa de Jesus sofredor, não conservando mais do que o necessário á vida, segundo o conselho do glorioso apóstolo S. Paulo. S. Lourenço, mártir distribuiu todas as riquezas da Igreja aos pobres, de acordo com seu santo mestre; e interrogado pelo tirano onde escondera o ouro e as riquezas, deu uma resposta memorável, que deveria ser objeto de meditação de todo rico. - «As riquezas da Igreja, exclamou o herói foram transportadas para os tesouros celestes pelas mãos dos pobres ». Entre os exemplos sem número do santos, escolheremos alguns dos mais próprios para excitar o amor à esmola.

A virgem holandesa Santa Ludovina jazeu enferma durante trinta e oito anos num miserável catre em apertado quarto; vitima de muitas doenças, e·as soube suportar com o heroísmo Job, bendizendo sempre o Senhor. Todas as virtudes avultaram na santa, mas de modo particular a paciência e caridade para com os pobres. Sua mãe, ao morrer, deixou-lhe alguns móveis; bem que pobre e necessitada de tudo, vendeu-os e distribuiu o dinheiro aos pobres. O mesmo fazia com as esmolas que os fiéis lhe davam, esquecendo-se de si e preocupando-se mais com as necessidades alheias. Deus mostrou com numerosos milagres quanto amava a caridade de Ludovina. Tinha uma bolsa que dava sempre dinheiro sem jamais esvaziar; por esse meio socorria os pobres da cidade e das vizinhanças. No leito de dores, a santa era informada de todas as famílias necessitadas e sobretudo dos enfermos e lhes mandava dinheiro e abundantes provisões. No princípio de um inverno mandou comprar um quarto de boi e uma medida de legumes para dar de comer aos famintos, que na estação rigorosa costumam sofrer mais que em outros tempos,. pelo frio e pela falta de trabalho. Admirável! Aquela carne e aqueles legumes multiplicaram de tal modo que pôde distribui-los duas vezes na semana em todo o inverno. Dava muito, mais o dinheiro e as provisões não faltavam. Sabendo os ricos do bom uso que fazia das e molas, davam-lhe de boamente dinheiro e alimento; e a casa da caridosa enferma tornou-se um verdadeiro mercado onde os pobres encontravam comestíveis, roupa e o mais de que necessitavam. A fama das virtudes luminosas atraia ao seu leito personagens de alto coturno; e Ludovina sabia patrocinar a causa dos seus pobres e conseguia muitos recursos. Uma caridade tão heroica lhe obteve de Deus dons sobrenaturais de milagres e profecias. Ludovina recebia o cêntuplo nesta vida, ao mesmo tempo que os anjos teciam-lhe fúlgida coroa no paraíso. Certo ricaço queria preparar um suntuoso banquete aos principais da cidade e para isso comprou do que havia de melhor. Sabendo disto, Ludovina mandou-lhe pedir, por amor de Deus, um pouco de banha de galinha para preparar um. implasto. Mas o novo epulão negou-lhe, alegando que as galinhas compradas não tinham gordura alguma. A santa conheceu á luz divina a avareza asquerosa daquele rico e mandou-lhe dizer que seria castigado. Com efeito, na noite precedente ao banquete, os ratos penetraram na despensa e comeram. um.a parte dos acepipes e estragaram o resto. Tal lição abriu os olhos ao nababo, o qual daí por diante guardou-se de negar alguma coisa á santa.Em muitas visões Deus mostrou-lhe que verdadeiramente a esmola transporta os nossos bem, além do túmulo, ao passo que a avareza os abandona no leito da morte. O seu Anjo Custódio apareceu-lhe, radiante de luz, em forma de gracioso jovem e a conduziu ao paraíso, onde lhe mostrou uma mesa cheia dos mesmos alimentos que ela distribuía aos pobres. Nosso Senhor e Maria SS. com os bem-aventurados se assentaram para comer e convidaram a Ludovina a  fazer o mesmo. Repetiu-se a visão mais vezes e acendeu em Ludovina novo ardor pela caridade e aos ricos que a visitavam só sabia falar da beleza da esmola. x Quereis, dizia, encontrar o vosso tesouro depois da morte ? Dai-o aos pobres, que o levarão ao céu e lá tereis capitais centuplicados». E narrava as revelações tidas.

S. Carlos Borromeu, arcebispo de Milão, merece os louvores de todos os séculos cristãos, pela grande caridade que o levou ao heroísmo. Ele não possuía cofre, nem bolsa para guardar dinheiro; porque tudo quanto lhe caía nas mãos, dava-o logo aos pobres. Vendeu o seu principado por quarenta mil escudos de ouro; e em um só dia distribuiu toda aquela avultada sorna aos pobres, assim que, á noite, já não tinha um ceitil. Deram-lhe uma pensão de vinte mil escudos e fez o mesmo. Parecia que as moedas lhe queimassem as mãos, tal era a presteza com que as dava em esmola, impaciente por socorrer as misérias alheias. Vivia como um pobre anacoreta, muitas vezes contentando-se com pão e água e um pouco de legumes, e o rendimento do arcebispado que ficasse para os pobres. Os seus familiares lamentavam sua prodigalidade, manifestando o receio de cair na miséria, mas o santo os exortava a confiança na providência. Na terrível carestia que afligiu Milão, distribuiu todas as alfaias da casa e depois deu até o leito, dormindo de então em diante em tábuas nuas. Além disso, ele vivia para os pobres, andando pelas casas, visitando os doentes, consolando a todos. Milão e todo o arcebispado serão eternamente gratos ao seu ilustre prelado e o honrarão sempre corno um dos maiores benfeitores que teve a cidade e o cristianismo . 

O homem que personifica a caridade é S. Vicente de Paulo. Ordenado sacerdote entregou-se de corpo e alma a socorrer os necessitados, fundando hospitais, asilos, toda a sorte de casas de caridade. A ele o mundo deve a instituição das Irmãs da Caridade, verdadeiros anjos enviados em socorro das misérias humanas, que assistem os doentes tanto no hospital, como em campo de batalha para onde correm impávidas, afrontando a morte com uma coragem superior ao seu sexo. Fundou também a Congregação da Missão, composta de sacerdotes destinados a instruir o povo rude. Foi tão grande a sua caridade e zelo, que chegou a dar milhões de francos.

 A Itália teve também seus heróis de caridade, êmulos de S. Vicente de Paulo. Para falar só dos últimos tempos, cito S. João Bosco e S. José Cottolengo. S. João Bosco fundou a Pia Sociedade Salesiana que arrebanha centenas de milhões de jovens nos dois hemisférios para instrui-los, educá-los na piedade e ensinar-lhes um oficio ou urna profissão e torná-los honrados cidadãos, uteis á sociedade. S. José Cottolengo fundou a Casa da Divina Providência, onde são recolhidos milhares de doentes para serem curados no corpo e na alma. Todas as enfermidades da pobre humanidade lá se abrigam, e a caridade dos fiéis vem diariamente em auxílio de tantos infelizes. Esses grandes benfeitores da humanidade fizeram coisas maravilhosas com as esmolas dos bons cristãos. Que esse belo exemplo arraste os ricos a  imitação. 

O Bem-aventurado Amadeu de Savoia foi um grande benfeitor da classe pobre e o seu reino foi chamado o paraíso dos pobres. Todo dia dava de comer a muitos pobres no seu palácio, servindo-os ele mesmo, com muita reverência. Visitando uma vez um senhor de Milão, este, que era apaixonado pela caça, mostrou-lhe urna matilha, que ele tratava com muito cuidado. Retribuindo a visita ao Bem-aventurado, na côrte, perguntou-lhe se não criava cães de caça. Amadeu levou-o a um páteo onde estavam reunidos os seus pobres e disse:- «Gasto meu dinheiro sustentando estes infelizes ». Os ministros desgostavam-se de sua liberalidade; um deles lhe disse que muita esmola arruína as finanças : e que seria mais útil fortificar as praças de guerra e criar novos regimentos. «Louvo o vosso zelo, respondeu o príncipe sabáudo; mas sabei que as esmolas dum soberano são as fortificações mais seguras dum Estado e o grande segredo para fazer reinar a abundância. »

S. Paulino, não tendo nenhum dinheiro para dar a uma pobre viúva, que lhe pedia para resgatar o seu único filho cativo, ofereceu-se para ser ele mesmo vendido pela libertação do moço. A proposta foi aceita, e o Santo, na qualidade de escravo esteve por muito tempo como hortelão; até que, conhecida a sua virtude heroica, foi posto em liberdade, com permissão de levar consigo todos os escravos conterrâneos seus.

Santo Tomaz de Vila Nova era tão caritativo que deu aos pobres tudo o que tinha. Chegou a dar até o leito; e aquele no qual morreu não lhe pertencia.

S. Nicolau de Bari, que foi mais tarde Bispo de Nissa, quando ainda simples padre em Patara, soube que um gentil homem, caído na miséria tencionava casar três filhas com moços suspeitos; isso, por não estar em grau de dotá-las suficientemente. Nicolau fez chegar ás ·mãos daquele senhor uma bolsa de dinheiro. A quantia era bastante para dotar uma das filhas Por mais duas vezes enviou dinheiro; assim foram colocadas as outras duas. O pai, indagando a coisa, foi ter com o santo e, lançando-se-lhe aos pés, não cessava de agradecer-lhe tanta caridade. Nicolau o levantou com afeto, dizendo-lhe não ter feito mais do que o seu dever; e pediu-lhe que a ninguém o dissesse.

S. José Cottolengo, quando não tinha dinheiro para dar aos pobres, dava o relógio, os lençóis da cama, roupa e sapatos. Várias vezes voltou á casa em peúgas e outras vezes descalço.

S . Francisco de Sales fazia muita esmola, não obstante a escassez de suas rendas. Ele dava sempre e generosamente, sem se importar com os gastos da casa, a tal ponto que o ecônomo vendo-se embaraçado, ameaçava abandoná-lo. - «Tendes razão, disse o Santo com a costumada doçura, eu sou incorrigível nesse ponto, mas o que é pior, creio que o serei sempre >>. Outra vez, apontando o crucifixo, dizia:  << Pode-se negar alguma coisa a um Deus que se reduziu a tal estado por nosso amor? >> A princesa Clotilde presenteou-o com um diamante precioso, pedindo-lhe que o guardasse como lembrança. -Senhora, disse o santo, guardarei até que os pobres não precisem dele. -Nesse caso, replicou a princesa, dai-o em penhor, que o resgatarei. -Temo que isso aconteça muitas vezes e não quisera abusar de vossa bondade. Pouco depois a princesa o viu em Turim sem o diamante e entendeu logo o que tinha acontecido. Deu-lhe, pois, um muito mais precioso, recomendando-lhe que não fizesse como o primeiro. - Senhora, respondeu-lhe, não vos posso garantir, porque sei por experiência que não sou capaz de guardar coisas preciosas. Realmente, ele nutria tão grande ternura para com os pobres, que não sabia recusar-lhes coisa alguma.

Santo Estêvão, rei da Hungria, providenciou á manutenção dos pobres do seu reino, tomando especialmente sob sua proteção as viúvas e os órfãos, dos quais se declarara publicamente pai e defensor. Mudava a roupa para não ser reconhecido, andava pelos arrabaldes da cidade a distribuir esmolas, a oferecer seus préstimos nos hospitais, etc. Chegou a dar as alfaias do próprio palácio para socorrer nas calamidades públicas os pobres. Deus, para mostrar como se comprazia da caridade de seu servo, quis que depois da morte a sua mão direita, que tanto dera aos pobres, permanecesse incorrupta.

Santa Catarina de Sena tendo obtido do pai a permissão de dar esmola, imitava a S. Nicolau de Bari levando ás famílias necessitadas, durante a noite, pão, carne, vinho, colocando tudo na janela ou na soleira da porta para não ser vista. Um dia, não tendo nada para dar a um pobre, tirou a cruz de prata de-seu rosário e deu-lha. De noite, apareceu-lhe Jesus tendo na mão a cruz ornada de muitas pedras preciosas e resplandecentes como o sol, dizendo-lhe que havia de lha restituir no dia do juízo final, na presença de todos os homens. Outra vez, não tendo dinheiro, deu a um pobre o seu manto; apareceu-lhe, de noite, Jesus vestido com o mesmo manto, ornado de pérolas e gemas, e lhe disse:-« Catarina, ontem me vestiste com este manto na pessoa daquele pobre ».

23 de junho de 2015

História Eclesiástica - Quinta Época Capítulo 7

CAPÍTULO VII

Santo Afonso e os Redentoristas - Supressão dos Jesuítas. - Perseguição francesa - Robespierre - Pio VI.

Santo Afonso e os Redentoristas - Enquanto Voltaire e Rousseau infestavam o mundo com seus escritos ímpios, serviu-se Deus do glorioso Afonso Maria de Ligório para iluminar e santificar aos povos. Nasceu em Nápoles no ano de 1696, e desde sua juventude manifestou-se qual luminoso modelo de virtude. Era mui exato no cumprimento de todos os seus deveres, especialmente religiosos, comungava toda semana e ainda com maior frequência, e visitava todos os dias o SS. Sacramento. Aos 16 anos já se achava graduado doutor em ambos os direitos e dedicava-se ao exercício da advocacia. Vendo, porém, frustradas suas esperanças de vencer uma causa, determinou abandonar o mundo e consagrar-se a Deus no estado eclesiástico. Pregava com grande fervor, e seu próprio pai a primeira vez que o ouviu, exclamou vivamente comovido: "Meu. filho me fez conhecer a Deus". Para formar obreiros evangélicos penetrados de seu mesmo espírito de zelo e caridade, fundou a congregação dos Redentoristas ou do Redentor, a qual tem por fim principal instruir a gente rude, especialmente os habitantes do campo. Ainda que a seu pesar, Clemente XIII o nomeou bispo de Santa Águeda dos Godos no ano 1762. Desde então dedicou-se Afonso inteiramente à pregação, à confissão, à oração e ao jejum. Deus deu a conhecer sua santidade por muitos milagres. Em certa ocasião, enquanto pregava sobre a devoção à SS. Virgem, foi elevado a uma grande altura, e uma imagem de Maria apareceu radiante de luz celestial iluminando prodigiosamente o rosto do santo pregador. Em vista deste espetáculo, todo o povo exclamou: "Misericórdia, milagre!" e em toda a igreja ressoaram gemidos e soluços. Uma manhã, depois de celebrada a santa Missa, foi arrebatado em êxtase e ficou neste estado até o dia seguinte. Voltando a si em presença de muitas pessoas, disse-lhes: "Vós não sabeis tudo ... fui assistir ao Papa, que acaba de morrer". Era Clemente XIV que de fato morrera nesse momento. Tudo aconteceu como ele tinha dito. Pobre, sóbrio, penitente e austero para consigo mesmo, era doce para com os outros e mui caridoso para os pobres. Em uma carestia que afligiu Nápoles, vendeu todos seus bens e distribuiu sua importância entre os necessitados. Esclarecidos por milagres, profecias e penetração das consciências, morreu no ano 1787, aos noventa anos de idade. É Santo Afonso autor de muitas obras, entre as quais se acha sua teologia moral, obra cheia de erudição, o diretório dos ordenandos, a Explicação do decálogo, a História e refutação das heresias, as Vitórias dos Mártires, a Freira Santa, os Sermões; as Glórias de Maria, e o Amor da alma, a Visita ao SS. Sacramento; as Máximas eternas e outras muitas. O exercício de todas as virtudes em seu mais alto grau durante toda sua vida, e a extraordinária erudição que manifesta em todos seus escritos, considerado como martelo contra os Jansenistas e os incrédulos, foram motivo para que se proclamasse doutor da santa Igreja por decreto de 23 de março do ano 1871.

Supressão dos Jesuítas - São as corporações religiosas como exércitos da Igreja espalhados nas diferentes partes do mundo. Por isso, quando se quer combater a Religião, costuma-se começar pelos regulares; segue depois o clero secular, os bispos e por último o chefe supremo da Igreja. Os primeiros a serem feito alvos da perseguição foram geralmente os Jesuítas. A meado do século XVIII os franco-maçons e os mestres da incredulidade, vendo neles um grande obstáculo a seus fins, inventaram e lhes imputaram toda espécie de calúnias. assim conseguiram fazê-los expulsar de Portugal, da Franca, da Espanha e de outros reinos; e empenharam-se ante os governos civis, para obrigar o sumo Pontífice a suprimi-los, ameaçando-o com males gravíssimos se resistisse a seus desejos. Por isso, o Papa a seu pesar, acreditando que livraria a Igreja de maiores males, suprimiu toda a ordem no ano de 1774. Mas em pouco tempo, muitos soberanos desejaram que os ditos religiosos voltassem a seus estados para cuidar da juventude, pregar e cumprir os outros deveres do ministério eclesiástico. Por isso, o Papa Pio VI começou por permitir que os Jesuítas permanecessem na Rússia, e que pudessem viver juntos em outras partes, sempre que assim o desejassem os soberanos. O sumo pontífice Pio VI, em vista do grande benefício que a Companhia de Jesus tinha feito, e do que ainda prometia fazer no futuro, tornou a restabelecê-la e colocá-la entre as ordens religiosas outorgando-lhe aqueles favores e privilégios que a Igreja costuma conceder, para que seus institutos possam subsistir e trabalhar no campo evangélico, conforme o fim para que foram fundados.

Perseguição francesa - Os franco-maçons, depois da supressão dos Jesuítas, puderam com maior facilidade desfazer-se dos demais religiosos, abolir em França toda autoridade civil, matar a seu próprio soberano, e apoderar-se eles mesmos do poder. Entre outras causas, exigiam de seus súditos um juramento contrário às regras da fé, o qual não podendo ser admitido pelos bons, motivou uma cruel perseguição. Milhares de cidadãos foram afogados ou guilhotinados sem processo algum, reservando-se aqueles bárbaros processá-los depois, para saber se os que morreram eram culpados ou inocentes. Segundo o costume, a perseguição assanhou-se, de modo especial, contra os eclesiásticos. Estes heróis magnânimos, êmulos dos mártires da Igreja primitiva, mostraram-se prontos a sofrer todo gênero de suplícios. Alguns foram desterrados, outros presos ou condenados ao patíbulo. Um verdugo, ao ver entre a multidão um que parecia sacerdote, dirige-se a ele e lhe pergunta:
- És sacerdote?
- Sim, responde; é esta a minha glória.
- Juraste?
- Jurar! Horroriza-me só pensar nessa palavra!
- O Juramento ou morte; juras ou morres.
- Juro aborrecer esse juramento ímpio e sacrílego; mata-me ... te perdôo. - E dizendo isto caiu por terra coberto de feridas.
Aqueles monstros sedentos de sangue humano, entravam nos claustros, nas congregações e nos seminários, prendiam e estrangulavam a todos os que encontravam na sua passagem. Aboliram os dias consagrados à religião, mudaram o nome das semanas, dos meses, e dos anos; prostraram por terra toda a autoridade, e o rei Luiz XVI foi deposto, preso e decapitado. As igrejas foram profanadas e destruídas; as cruzes, as relíquias, os vasos sagrados, os próprios sacrossantos mistérios, sacrilegamente pisados, e nos altares do Deus vivo, onde se devia celebrar a santa Missa, foi colocada uma mulher infame e adorada como a deusa razão. Tudo era sangue e estragos; havia ameaça de morte para quem ainda desse a conhecer que professava a religião católica. Os esforços dos ímpios, porém, infringiram-se contra aquela pedra, sobre a qual Jesus Cristo fundara sua Igreja. Entre tantos desastres a religião foi duramente provada; porém não pereceu.

Robespierre - Maximiliano Robespierre foi o primeiro autor da perseguição francesa e dos graves males de que esta foi causa. Nasceu na cidade de Arras e seguiu a carreira de advogado; orador excelente, mas sem entranhas, facilmente conseguiu fazer-se chefe do partido sanguinário. Experimentava um grande prazer em condenar homens e mulheres à guilhotina, e gostava de vê-las morrer em grande número nas mãos dos verdugos. Diz-se que este monstro infame se alimentava de carne humana, e que se ufanava em trazer calçados feitos da pele de suas vítimas. Quis a Providência de Deus que tantas impiedades fossem castigadas, também aqui na terra com uma morte que mostrasse visivelmente os sinais de sua vingança. Robespierre depois de ter feito assassinar a seu soberano, exerceu durante 18 anos tiranias inauditas; finalmente chegou a ser odiado pelos mesmos que o aplaudiam; instauraram contra ele um processo e foi condenado à guilhotina. Para evitar a afronta de morrer publicamente, qual outro Nero disparou contra si uma pistola; a bala atravessou-lhe o queixo, mas não morreu. Definhou algum tempo no cárcere, sofrendo horrivelmente, até que levado à praça pública, entre os insultos da plebe, cortaram-lhe a cabeça no ano de 1794.

Pio VI - Ao Papa Clemente XVI sucedeu Pio VI, que, depois de Pio IX e Leão XIII, foi o Papa que teve mais longo pontificado, mas cheio de desgostos e amarguras. Eleito no ano de 1775, cumpriu com zelo infatigável as funções de supremo Pastor, consolando a uns, ajudando a outros e animando todos a permanecerem firmes na fé. Durante seus últimos anos de pontificado teve de sofrer toda sorte de crueldades, perseguições, e insultos da parte dos Franceses. Dirigidos estes por Napoleão I, invadiram a Itália e depois de terem despojado e profanado os mais venerandos santuários, entraram em Roma para apoderar-se do Papa, abusando da palavra que tinham dado de não insultar a Roma, nem a seu soberano. Achava-se o Papa celebrando os divinos ofícios, vestido pontificalmente, quando levaram a seu conhecimento a abolição de sua autoridade civil; ao mesmo tempo lhe tiraram suas guardas romanas e as substituíram por soldados franceses. O general Berthier teve o atrevimento de querer vestir o Papa de republicano, pondo-lhe uma insígnia tricolor; porém o magnânimo Pontífice lhe respondeu: "Eu não conheço outra insígnia senão aquela com que fui honrado pela Igreja. Podeis oprimir meu corpo mas minha alma é superior a todo atentado... Podeis queimar e destruir as habitações dos vivos e o túmulo dos mortos, a religião, porém, é eterna; ela existirá depois de vós, como existiu antes; e seu reinado durará até a consumação dos séculos ... " Ano 1798.

A Esmola - Padre André Beltrami.

CAPITULO IX
QUE E' O RICO ?
E' O TESOUREIRO E O PROVEDOR
DO POBRE·

Na ordem da criação, o rico é o tesoureiro do pobre, obrigado a prover ás suas necessidades. Deus o favoreceu com riquezas, não para que as malbaratasse e gozasse a  seu talante, mas para que socorresse os infelizes. Jesus Cristo ordenava que o supérfluo seja dado de esmola. Deve, pois, o rico dar muita esmola. Podia Deus distribuir igualmente os bens da terra e sustentar todos os homens corno faz com a erva do prado, o lírio do campo, a árvore da floresta; invés, quis as desigualdades sociais, ordenando que uns auxiliassem os outros. Esta é uma verdade pouco entendida de muitos ricos, que se fecham no círculo estreito do próprio eu e não pensam sinão em gozar, expulsando de sua porta ao pobre, como a um importuno. Contra esses, o Divino Redentor, sempre brando, sempre doce, tomou um tom. terrível, ameaçando-os de eterna condenação: «Ai de vós, ó ricos, porque tende já recebido a vossa consolação. Aí de vós que sois saciados, porque sofrereis fome. Ai de vós que rides, porque chorareis e gemereis », (S. Lucas V, 24). Na parábola do epulão mostrou claramente o triste fim dos ricos que pensam só em gozar, desprezando os pobres. E' Jesus quem nos conta: Havia um homem muito rico, que andava luxuosamente vestido e vivia vida regalada e ociosa, oferecendo aos amigos lautos banquetes. Havia também um mendigo chamado Lázaro, que inutilmente suplicava lhe mitigassem. a fome com as migalhas que caíam da mesa. Algum tempo depois, morreram ambos. O pobre foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu o rico e foi sepultado nas profundezas do inferno. Por qual culpa ? Talvez porque era blasfemo? desonesto ? injusto ou ladrão? Nada disso. Foi condenado ás penas somente porque se mostrou cruel para com o pobre Lázaro e só pensou em gozar. E' impossível ·salvar-se um rico que põe a sua esperança nos bens da terra e não é caridoso. E' mais fácil passar uma corda no fundo de uma agulha, que tal pessoa vá ao céu. Não há tergiversar. O rico que deseja salvar a alma deve dar esmola, desapegar o coração dos bens terrenos e conservar a pobreza de espírito, tão recomendada pelo Divino Redentor. Se o rico está obrigado a dar o supérfluo ao pobre, segue-se que, não o fazendo, é um ladrão que retem. o alheio. S. João Crisóstomo discorre deste modo:- Rico, ouve-me: são teus este dinheiro, estas terras, diz o mundo; não assim. a fé: o senhor de tudo é Deus; tu não passas de simples administrador; hás de prestar conta ao senhor até de uma courela. E se Deus é o senhor, tem direito de discriminar o emprego das tuas rendas. Pois. bem, vês aquele pobre que te espera á porta ? veio para exigir em nome dele; Deus o mandou, e aqueles andrajos que o cobrem são a libré que te indicam tal. Vamos, sê pronto em o socorrer; não é um favor que fazes, é um tributo que pagas. Cuidado assim o grande Santo Ambrósio, não recuses uma esmola, porque tanto é pecado tirar o alheio, quanto negar o que lhe é devido. Causa asco ver certos ricos criarem uma matilha de cães de caça ou soberba tropa de cavalos e negar a um esfarrapado um naco de pão ou um abrigo. Como é doloroso ver certas senhoras criarem um cachorrinho, levarem-no ao braço, cobrirem-no de caricias, e afastarem com indignação o olhar de um pobre que lhes estende a mão súplice, julgando-se rebaixadas com a sua presença. No entanto o pobre é filho de Deus, é uma alma remida pelo sangue de Jesus Cristo. Ha ricos que se julgam seres privilegiados; nascidos para gozar, vêem no pobre o pária da sociedade, como se fosse de natureza inferior, digna tão só de desprezo. Mas quão outros são os juízos de Deus.  Deus ama o pobre e, para honrá-lo, quis nascer de pais pobres e na mais esquálida miséria. Escolheu para seus Apóstolos, não os magnatas de Herodes ou de Augusto, mas doze pobres pescadores; e viveu sempre rodeado pelo povo simples, protestando ter vindo evangelizar os pobres, por ter sido essa a missão de que fora incumbido. Evangelizare paupéribus misit me. Jesus subiu ao céu, mas continua a morar na terra no Santíssimo Sacramento e no tugúrio do pobre.Através dos andrajos que cobrem os membros descarnados dos míseros, os santos contemplam sempre a Jesus sofredor.E' célebre o fato sucedido a S. Martinho. Quando era soldado da cavalaria, encontrou um pobre seminu, que lhe pediu esmola, em nome de Deus. Martinho, não tendo dinheiro naquela ocasião, arrancou do manto, dividiu-o ao meio e deu uma parte ao pedinte. De noite apareceu-lhe Jesus Cristo vestido com o manto dado de esmola, e lhe agradeceu por tê-lo socorrido na pessoa daquele pobre. Imitem os ricos este exemplo e sejam pródigos para com os representantes de Jesus sofredor. O apóstolo Santo Tiago tem palavras mais graves aos ricos que esquecem os seus deveres de caridade: «Eis, pois, ricos, agora chorai bem alto pelas desgraças que virão sobre vós. As vossas riquezas se putrefizerem, e as vossas vestes são comidas pelas traças. O vosso ouro e prata se corromperam, e a sua corrupção dará testemunho contra vós, e devorará a vossa carne com.o fogo. Entesourastes para vós a ira nos últimos dias. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, o qual pela fraude lhes tirastes, está a clamar; e o clamor deles chegou até aos ouvidos do Senhor dos exércitos. Tendes vivido em festins sobre a terra, e na luxúria .cevastes os vossos corações, como em dia de imolação». (Cap. V). Para evitar ameaças tão terríveis o rico deve de imitar o bom samaritano e prover ás necessidades dos pobres. Então, as maldições cominadas se trocarão em bênçãos. Deus ouve sempre a oração do pobre; e quando ele for ajudado por vós, fará chover sobre vossa cabeça, sobre vossas famílias, copiosas graças. Os pobres agraciados pelo centurião .Cornélio, lhe obtiveram ao céu a conversão. Um mensageiro celeste o pôs em relação com S . Pedro,afim de ser instruído na fé e batizado com toda a família. Quando se celebra um matrimônio, um batizado, o verdadeiro meio para atrair os favores do céu sobre os esposos ou sobre a criança é socorrer os pobres. Experimentem-no as famílias, que se alegrarão com os salutares efeitos.