19 de abril de 2015

História Eclesiástica - Segunda Época Capítulo 4

CAPÍTULO IV

Santo Hilário - Santo Eusébio - Santo Ambrósio - Segundo Concílio Ecumênico e os Macedonianos - São Gregório Nazianzeno - São Basílio Magno - São Dámaso - São Jerônimo.

Santo Hilário. - Contra os esforços que a heresia e a perseguição faziam em prejuízo da fé, suscitou Deus uma série de homens célebres pela santidade e doutrina, chamados comumente Doutores ou Mestres da Igreja. Estes pelo heroísmo de suas virtudes, pela profundidade de sua ciência e por zelo incansável, foram a salva-guarda do Evangelho em várias partes do mundo. Um destes bispos e doutores insignes foi Santo Hilário de Poitiers, que com justiça se pode chama-lo apóstolo das Gálias, suscitado contra os arianos. Nascido de pais nobres, estes o instruíram em todos os ramos da literatura e das ciências e tanto aproveitou que ainda jovem, passava por um dos oradores mais eloquentes. Apenas conheceu a religião cristã, recebeu o batismo e começou a praticá-la com o exercício das mais sublimes virtudes. A extraordinária ciência e santidade que o adornavam foram motivo para que o nomeassem bispo de sua pátria; ele se opôs quanto pode, e somente aceitou o honroso cargo quando conheceu ser essa a vontade de Deus. A nova dignidade não produziu nele senão maior entusiasmo pela glória de Deus. Não poupou esforços ou fadigas para dar-se todo a todos e ganhá-los todos a Jesus Cristo. Sua casa foi a casa dos pobres; para eles era tudo o que possuía. Pregava com tamanho fervor a palavra de Deus, que os gentios e até os próprios arianos, em grande número naquelas regiões, corriam estupefatos a ele para que os instruísse nas verdades católicas. o imperador Constâncio, grande protetor dos arianos, oprimia de mil modos os católicos, despojava-os de seus bens e os desterrava. Hilário, que se opôs, qual forte muralha, a esse perseguidor, chamou sobre si suas iras; por isso foi tirado de sua sede e desterrado para as mais longínquas regiões do Oriente. Hilário aproveitou essa ocasião para escrever vários livros em defesa do Evangelho. o mais importante e o que traz o título de Tratado da Trindade, composto expressamente para refutar os arianos. Nele se estabelece como regra infalível a doutrina de São Pedro, e falando dele assim se exprime: "Oh! Feliz fundamento da Igreja e pedra digna de que sobre ela a Igreja seja edificada, para que quebre as portas do inferno e todos os vínculos da morte! ó bem-aventurado porteiro do paraíso, cuja sentença aqui na terra se transforma em juízo autorizado no céu; de modo que as coisas atadas ou desatadas sobre a terra recebem plena confirmação também no céu!". Achou-se também Santo Hilário no conciliábulo de Selêucia, que se reuniu no ano 359, convocado, por alguns bispos orientais infeccionados de arianismo. No meio de tantos inimigos da verdade, ele continuou em seu propósito de provar a divindade de Jesus Cristo refutando ponto por ponto a seus adversários; porém indignado por suas blasfêmias, abandonou aquele antro de Satanás e se apresentou ao imperador Constâncio, em Constantinopla, para lhe fazer patente o perigo em que se achava a fé ortodoxa, porém como o imperador era ariano e favorecia o conciliábulo de Calcedonia, pediu Hilário permissão para disputar publicamente sobre a fé com seus adversários.
Os arianos receando ser confundidos publicamente pelo Santo, se recusaram a conferenciar com ele, dizendo que não queriam tratar com um perturbador da paz; e para sair do apuros, convenceram ao imperador que o fizesse voltar ao bispado de Poitiers. Sua entrada nas Gálias foi um verdadeiro triunfo, de todas as partes acorriam para festejá-lo, e o Senhor quis fazer mais ilustre sua volta, obrando milagres, como o de ressuscitar a um menino morto sem receber o batismo. Apenas gozou um momento de paz, se dedicou com o maior zelo a reparar a Igreja dos males que lhe tinham causado seus inimigos. também reuniu alguns Concílios, e tendo conseguido trazer para o caminho da verdade os bispos seduzidos pelos hereges, pode com sua cooperação desarraigar a heresia dos arianos, de quase toda a Gália. escreveu muitos outros livros cheios de erudição, livros que São Jerônimo encarece e declara isento de todo erro.
Morreu no ano 269.

Santo Eusébio - Santo Eusébio, bispo de Vercelli, foi o primeiro que reuniu no Ocidente os eclesiásticos da cidade, para viverem juntos na qualidade de religiosos, dando assim origem à instituição dos cônegos. Foi uma das principais salva-guardas da fé católica contra os arianos. Em um Concílio celebrado em Milão disputou com eles com tanta solidez de argumentação, que confundidos não sabendo que partido tomar, dirigiram-se ao imperador e conseguiram fazê-lo desterrar. O santo soube aproveitar o tempo de seu desterro para fortalecer os católicos do Oriente e Ocidente. Depois de ter sofrido fome, sede, açoites e outros ultrajes, tendo morrido o imperador Constâncio, permitiu-se-lhe voltar à sua diocese. A volta do magnânimo prelado, toda a Itália despiu-se das vestes de luto, lúgubres vestes mutavit, conforme a expressão de São Jerônimo, porque a volta de Santo Eusébio era o triunfo da verdade católica. Quis Deus dar-lhe o prêmio que mereciam tantos padecimentos e fadigas, permitindo que depois de governar em paz sua diocese por alguns anos, recebesse a coroa do martírio das mãos de alguns arianos, que lhe deram a morte apedrejando-o. Subiu ao céu no ano 370.

Santo Ambrósio - Sem dúvida foi um dos bispos mais insignes em doutrina e santidade, que floresceram na Igreja naqueles tempos. Achava-se presidindo em nome do imperador os negócios civis da Ligúria e da Emilia, porém como surgissem discórdias em Milão motivadas pela eleição do bispo, enviou-o o imperador para ali afim de apaziguar os ânimos. "Ide, disse-lhe aquele monarca, e regulai as coisas não como severo governador, mas com a caridade de bispo." Ao chegar àquela cidade, entrou entre os amotinados e se esforçava em serenar os ânimos, quando um tenro menino que descansava nos braços da mãe, desprega a língua e grita: "Ambrósio nosso bispo; Ambrósio nosso bispo." E tomando aquela voz como sinal da divina vontade, todos exclamaram: "Ambrósio é nosso bispo." E assim, apesar de sua grande repugnância, com aplauso universal foi criado bispo de Milão no ano 374.
Escreveu muitos livros, sermões e cartas em defesa da religião e em favor da virgindade, da qual fez os maiores elogios, fundando em sua diocese vários conventos de virgens. Para conhecer qual a verdadeira crença entre todas as que se chamam cristãs, dava Santo Ambrósio esta regra: "Onde esta Pedro (vivendo em seu sucessor), ai esta a Igreja de Jesus Cristo: Ubi Petrus, ibi Ecclesia." significando com isto que são verdadeiros cristãos somente os que estão unidos com o sumo Pontífice. Este insigne Doutor descansou em paz no ano 397.

Segundo Concílio Ecumênico e os Macedonianos - O segundo Concílio Ecumênico é o primeiro Constantinopolitano, chamado assim porque foi o primeiro Concílio Ecumênico celebrado em Constantinopla. Motivou este Concílio a heresia de Macedonio, que, à força de enredos, se tinha elevado a sé daquela capital. Os arianos atacavam a divindade do Verbo; Macedonio, a do Espírito Santo. Era então imperador Teodósio o Grande, e regia a Igreja São Dámaso. Este douto Pontífice vendo ameaçada a fé, convocou, de acordo com o piedoso monarca, um Concílio em Constantinopla, para que se combatessem os erros ali onde tinham nascido. O Concílio se reuniu no mês de maio do ano 384, e concorreram a ele 150 bispos orientais. Foram condenados os erros de Macedonio e se confirmou o Símbolo de Niceia, ao qual se acrescentaram estas palavras que dizem respeito a divindade do Espírito Santo: Creio no Espírito Santo, Senhor e vivificador... o qual juntamente com a Pai e com o Filho e adorado e glorificado, o qual falou pelos profetas. Teodósio recebeu as decisões do Concílio como se fossem saídas da boca do próprio Deus e promulgou uma lei para que não fossem desprezadas. Ainda que não constasse esta reunião senão de bispos orientais, bastou, sem dúvida, a aprovação do Papa para dar-lhe toda autoridade de um Concílio Ecumênico, de maneira que seus decretos constituem uma regra infalível de fé.

São Basílio Magno - São Basílio Magno nasceu no ano 319 em Cesaréia da Capadócia, de pais ilustres, nos quais a piedade pode se dizer foi hereditária. Seu pai também chamado Basílio (santo), sua mãe santa Emélia, e especialmente sua avó santa Macrina se encarregaram de educá-lo na ciência e na piedade. Jovem ainda, mandaram-no a um deserto; porém o bispo de Nazianzo prevendo que, por suas virtudes e profunda ciência, chegaria a ser um luminar da santa Igreja, o consagrou sacerdote apesar da sua repugnância. Tendo-se depois ocupado com grande zelo em pregar contra os arianos, trouxe muitos deles à fé. Manifestando-se sempre cada vez mais nele por meio dessas pregações, a santidade e a ciência, foi criado bispo ainda que tivesse fugido sempre dessa dignidade. Chamado à se episcopal de Constantinopla, empregou sua palavra e escritos em combater a heresia dos Macedonianos, e conseguiu reconduzir toda a cidade à fé católica. Isto provocou a inveja de muitos; então ele por amor à paz, renunciou ao bispado e se retirou para sua terra natal. Ali, em companhia de alguns solitários, levou uma vida angélica. As mortificações, os jejuns, as vigílias, as orações, o silêncio e a solidão ocupavam todos os momentos de sua vida. Escreveu sobre muitos assuntos em prosa e em verso com admirável piedade e com tal elegância, que deixou muito aquém todos os seus contemporâneos. Finalmente, na idade de 60 anos, cheio de méritos, foi gozar a glória celeste. Ano 390.

São Dámaso - São Dámaso, espanhol, pontífice insigne por doutrina, prudência e virtude, tinha sucedido ao Papa Libério no ano 366. Devesse a ele a convocação de segundo Concílio Ecumênico. Edificou várias igrejas; entre elas a de São Lourenço em Roma; mandou que no fim dos salmos se acrescentasse o Gloria Patri; escreveu muitas obras em prosa e verso, e chamou a Roma São Jerônimo para que lhe servisse de secretário nas cartas latinas. Por ordem de São Dámaso, o grande doutor traduziu do hebraico para o latim os livros sagrados do Antigo Testamento, e corrigiu a tradução latina que já existia dos livros do Novo Testamento, fazendo-a mais conforme e fiel com o texto grego.
São Dámaso que o tinha estimulado com palavras e exemplos a fazer estas obras maravilhosas em favor da Igreja, morreu octogenário no ano 384, depois de dezoito anos de glorioso pontificado.

São Jerônimo - São Jerônimo nasceu na cidade de Estridon, na Dalmácia. Estudou em Roma, e depois de ter estado nas Gálias, foi a Constantinopla por-se sob a direção de São Gregório Nazianzeno; dali passou ao deserto de Cálcida na Síria, onde levou uma vida muito austera, inteiramente dedicado ao estudo e à oração. Muito versado no grego, no latim e no hebreu, foi suscitado por Deus para interpretar e explicar as divinas Escrituras, e por isto o venera a Igreja de um modo especial, dando-lhe o título de Doutor Máximo. Sua tradução foi adotada pela Igreja, e é a mesma que, aprovada pelo Concílio de Trento, corre ainda em mãos dos Cristãos sob o nome de Vulgata.
Quanto aos salmos, se usou sempre e ainda se continua usando a tradução latina do tempo dos Apóstolos. Os hereges, tendo conhecido a profundidade de seu engenho, não pouparam meios para ganhá-lo; ele, porém, para certificar-se de não cair em erro, consultava com frequência a Santa Sé e com este fim escreveu diferentes cartas a São Dámaso. Entre estas é particularmente memorável aquela em que o santo doutor, cansado já pelo tédio que lhe causavam as diferentes facções que dividiam a igreja da Antioquia, dizia: "Querendo me certificar de estar com Jesus Cristo, me uno a comunhão de Vossa Santidade, isto é, a cadeira de São Pedro; Eu sei que a Igreja está edificada sobre este fundamento; todo aquele que come do cordeiro fora desta casa é profano; todos os que não se refugiaram na arca de Noé, pereceram no dilúvio.
Combato qualquer outra doutrina, porque quem não recolhe convosco, espalha, isto é, quem não está com Jesus Cristo está com o anti-Cristo. (Ep. 14 ad Dam.).
Empregou toda a vida em compor livros para instruir os fiéis e combater os hereges; de sorte que, de todas as partes recorriam ,a ele nas questões mais difíceis. Escrevia com tal veemência contra os hereges que suas sentenças pareciam raios. Para evitar as insídias de seus inimigos e para preparar-se melhor para a morte, saiu de Roma e foi a Belém onde Santa Paula, dama romana, havia construído dois conventos; um para homens e outro para mulheres. Ali consumido pela penitência e trabalhos, descansou no Senhor na idade de oitenta e
nove anos. Ano 420.

18 de abril de 2015

História Eclesiástica - Segunda Época Capítulo 3

CAPÍTULO III

Concílio de Rimini - Santo Antão, monge - Vida monástica - Juliano apóstata - Persegue os cristãos - Sua morte.

Concílio de Rimini - Constâncio filho e sucessor de Constantino no Oriente, favoreceu desgraçadamente o arianismo, e para fazê-lo triunfar, reuniu um concílio em Rimini: porém todos os bispos, a uma voz, pronunciaram anátema contra os arianos. Não satisfazendo isto ao imperador, mandou um oficial seu ao concílio, o qual com promessas e ameaças induziu a maior parte dos bispos a subscrever uma fórmula de fé, na qual não se achava a palavra consubstancial. Conquanto essa fórmula não fosse herética, não exprimia, entretanto, com suficiência, a fé de Nicéia. Os arianos se jactaram muito com isso, como se com essa fórmula se tivesse adotado sua heresia, porém os bispos que a tinham firmado quando conheceram o sentido perverso que lhe davam os hereges se opuseram a ela, e professaram seu apego à fé de Nicéia. O Papa Libério unido aos bispos de todo o mundo, levantou a voz contra este escândalo, não servindo desta maneira nem a violência, nem a astúcia para obscurecer a fé católica. Ano 359.

Santo Antão, monge - O primeiro e o mais célebre entre os solitários foi, como já se disse, São Paulo, porém a este não se considera como fundador da vida monástica, porque não teve muitos discípulos, nem deu uma regra fixa para este gênero de vida cristã; por isso geralmente se venera Santo Antão o Egípcio como fundador do monaquismo. Observe-se que se chamavam monges ou solitários os religiosos que viviam separados um dos outros, e habitavam em celas ou cabanas e as vezes em cavernas, distantes umas das outras, reunindo-se somente em certas ocasiões para orar juntos, assistir aos divinos ofícios, e receber instruções e avisos, ao passo que chamavam-se cenobitas os religiosos que viviam juntos, e dormiam debaixo do mesmo teto. Só com o correr dos tempos, monge e cenobita tiveram o mesmo significado.
Nasceu Antão no ano 252, de pais virtuosos e nobres, e passou sua primeira juventude na piedade mais exemplar. Na idade de dezoito anos, entrando certo dia na Igreja em momento em que se lia este texto do Evangelho: "Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, depois vem e segue-me e terás um tesouro no céu", tomando estas palavras como ditas para si, deliberou segui-las fielmente, e dando tudo o que possuía aos pobres, abandonou seus pais e amigos, e retirou-se as solidões da Tebáida. Ali deu principio a um método de vida o mais austero que se possa imaginar: servia-lhe de cama uma esteira ou a terra nua; alimentava-se uma vez por dia depois do sol posto, e sua comida consistia em escasso pão e água, servindo-lhe de vestimenta, um cilício e um manto de couro. Depois de muitos anos de vida muito austera, Deus lhe concedeu o dom de milagres, e isto lhe atraiu tal séquito de discípulos, que com grande assombro do mundo, povoaram imensos desertos que pareciam inabitáveis, formando-se várias comunidades em algumas das quais se achavam até mil e mais monges. Estes valentes cristãos animados por tal mestre, formavam um espetáculo não menos maravilhoso do que o dos mártires. Cheio de méritos e esclarecido pelos seus milagres, passou Antão a melhor vida no ano 357 aos 105 de idade. Sua vida foi escrita por Santo Atanásio.

Vida monástica - A vida solitária ou monástica tinha por objeto observar a pobreza, a obediência, a castidade em seu grau mais perfeito, e fazer morrer totalmente o homem às coisas do corpo para fazê-lo viver só para as do céu. Para consegui-lo empregava-se quatro meios: o trabalho, o jejum, a solidão e a oração. O trabalho era muito penoso, e por isso ocasião contínua de áspera mortificação, consisti geralmente em fazer esteiras e cestos de junco, ou de palma, os quais vendiam dando quase todo seu fruto aos pobres. Não comiam senão uma vez no dia e o faziam ao pôr do sol, e isso durante todo o ano exceto os dia de domingo e o tempo pascal. Seu alimento regularmente, compunha-se de ervas sem tempero algum, exceto o sal, e o azeite às vezes; uma ou outra vez também comiam tâmaras ou figos secos. Vida tão austera em vez de debilitar suas forças, as aumentava de tal modo que muitos deles chegavam a uma avançada e florida velhice. Todos sabemos que São Paulo morreu aos 113 anos, São Antão viveu 105; São Macário de Nitra igualmente seu discípulo chegou aos 100 anos. Estes e outros exemplos de vigorosa velhice demonstram que a vida sóbria e temperante é fonte de saúde e conserva vigorosamente as faculdades mentais. Muitos deles reuniam-se duas vezes ao dia para rezarem em comum, restando cada vez doze salmos, ao que seguia-se a leitura da História Sagrada; o resto do dia rezavam de per si, encerrados em uma cela. Outros, que viviam muito separados, não acudiam a reunião senão aos domingos e dias festivos; os demais dias oravam a sós. Todos prestavam a seus superiores uma obediência ilimitada e perfeita, vendo Deus na pessoa deles; por isso reinava entre eles a mais admirável união, concórdia e caridade.

Juliano Apóstata - Enfurecido Satanás pela queda da idolatria no império romano, tratou de voltar a ressuscitá-la por meio do imperador Juliano, chamado comumente apóstata porque abandonou a religião cristã em que se tinha educado, e pôs em campo todos os meios a seu alcance para destruí-la. Era Juliano filho de um irmão do grande Constantino, e na morte de Constâncio como herdara ele todo o império, fez tudo o que pode para restabelecer o culto dos ídolos. Tendo predito Jesus Cristo que não ficaria pedra sobre pedra do templo de Jerusalém, e tendo os fatos, como vimos, correspondido plenamente as suas palavras, propôs-se Juliano a desmenti-lo reedificando aquele templo célebre; porém a única coisa que conseguiu foi tirar a última pedra sem poder sequer lançar os alicerces. Logo que começou o edifício não se tinham ainda assentado as primeiras pedras, quando sobreveio um espantoso terremoto que as vomitou do seio da terra, e as lançou contra os operários, especialmente judeus. Muitos deles que tinham corrido para ali com frenético entusiasmo para ver se conseguiam reedificar seu antigo templo, morreram sepultados entre as ruínas, deixando outros gravemente feridos. Tornou-se a tentar mais de uma vez a temerária empresa, e não se abandonou até que turbilhões de vento espalharam a areia, o cal e os demais materiais. Mas o mais prodigioso e terrível a um tempo é que saiam dentre aquelas ruínas glóbulos de fogo que serpeando com a rapidez do relâmpago, deitavam por terra os trabalhadores e os arrastavam consumindo muitos até os ossos e carbonizando outros, até chegavam a alcançar a alguns judeus que estavam muito longe e os sufocavam ou consumiam. Em vista de tão extraordinário milagre, não se atrevendo já ninguém aproximar-se daquele lugar, desistiu-se da empresa. Ano 363.

Perseguição de Juliano - Exasperado Juliano pelo mau êxito da reedificação do templo de Jerusalém, condensou todo o seu ódio contra os cristãos, aos quais teria querido aniquilar se possível lhe fosse. Com este fim ajudava os hereges e os cismáticos, dando-lhes toda sorte de liberdades ao passo que despojava o clero de todos os seus bens e privilégios, dizendo em tom de zombaria, que não fazia mais do que fazê-los praticar a pobreza evangélica. Obrigava-os a pagar crescida soma para reparar os templos dos ídolos e não confiava cargos públicos aos cristãos nem permitia que eles se defendessem perante os tribunais. "Vossa religião, dizia-lhes, proíbe os pleitos e as pendências. Proibiu finalmente aos cristãos que exercessem o ofício de mestres de escola ou de professores nas academias, dizendo que era inútil o estudo das ciências e das letras aos que tão somente devem crer sem raciocinar.

Morte de Juliano - Este gênero de perseguição teria sido muito mais funesto para a Igreja do que a crueldade de Nero e de Diocleciano, se Deus não tivesse derrubado por terra os planos de Juliano com uma morte prematura. Tinha esse ido combater contra o rei da Pérsia com propósito de exterminar os cristãos assim que alcançasse a vitória; porém a mão poderosa do Senhor desbaratou os atrevidos planos do apostata, e quando ele contava já com a vitória, uma flecha, cuja procedência se ignorava, atravessou-lhe o coração. Ao fazer força para tira-la cortaram-se-lhe os dedos, e caiu desmaiado sobre seu cavalo.. Tiraram-no dentre a multidão para curar a ferida; porém tornando-se-lhe cada vez mais agudas as dores, dava gritos de desespero. Caindo em um paroxismo de raiva arrancava com a mão o sangue de sua ferida e atirando-o para o céu exclamava: "Venceste, Galileu... venceste, Galileu", referindo-se com essas palavras a Jesus Cristo contra quem sempre tinha combatido. Obstinado na impiedade morreu no ano 365, aos 31 anos de idade. Com ele caiu para sempre a idolatria no império romano. Jesus Cristo conseguiu novo triunfo e a Igreja Católica nova e muito esplendida vitória.

17 de abril de 2015

História Eclesiástica - Segunda Época Capítulo 2

CAPÍTULO II

São Brás, bispo de Sebaste - Basílica de São Pedro no Vaticano - Ario e sua doutrina - Concílio de Nicéia. - Os arianos e São Atanásio - Morte de Ario - Invenção da Cruz - Morte de Constantino.

São Brás, bispo de Sebaste - Após a morte de São Melquíades foi eleito São Silvestre romano de nascimento, para ocupar o lugar de São Pedro, como pastor da Igreja universal. Coube-lhe a sorte de tomar o governo da Igreja enquanto era protegida por Constantino; porém também teve a dor de ver perseguídos os cristãos pelo imperador Licinio que reinava no Oriente. Este tinha prometido a Constantino não os perseguir; porém faltou a sua palavra. A perseguição fez-se sentir especialmente em Sebaste, cidade cuja sede episcopal achava-se ocupada por São Brás, varão esclarecido por suas virtudes e milagres. Achava-se próximo ao martírio, quando se apresentou uma mãe aflita que pôs a seus pés o filho único, próximo a morte, sufocado por ter-se-lhe atravessado na garganta uma espinha de peixe. Brás enternecido fez breve oração, e o menino ficou logo livre de todo tormento e perigo. Deste milagre se originou a devoção que os fiéis tem a São Brás contra males da garganta, como também a benção que estes invocam no dia de sua festa.
Vendo o governador da cidade que o santo de nenhum modo queria sacrificar aos ídolos, ordenou que fosse atirado ao mar. Brás fez o sinal da cruz e começou a caminhar por sobre as águas sem submergir; sentou-se logo sobre elas e convidou aos infiéis que fizessem o mesmo, se acreditavam que seus deuses tinham algum poder. Temerários houve que tentaram fazê-lo; porém submergiram no mesmo instante. Depois destes claros sinais de constância e santidade Brás voltou a terra onde o governador, fê-lo decapitar no ano 315.

Basílica de São Pedro no Vaticano - Constantino com o fim de dar maior esplendor ao cristianismo, erigiu muitas igrejas, entre as quais sobressaem a de São João de Latrão a de São Paulo fora dos muros de Roma, e a Basílica de São Pedro no Vaticano chamada assim porque foi edificada aos pés da colina desse nome. Ainda que sempre tida em grande veneração as relíquias do Príncipe dos Apóstolos, ali guardadas em um oratório secreto, não obstante durante os três primeiros séculos não se lhes pode tributar a honra que mereciam erigindo-se-lhes uma Igreja pública; porém apenas cessaram as perseguições, o túmulo de São Pedro foi o santuário do mundo cristão. Por isto o próprio imperador, para dar um testemunho público de honra ao primeiro vigário de Jesus Cristo, projetou erigir-lhe uma Igreja, conhecida sob o nome de Basílica Constantiniana. De comum acordo com São Silvestre, estabeleceu que esta encerrasse em seu interior o pequeno templo edificado por São Anacleto sobre essas relíquias o dia em que se deu princípio àquela santa obra, despiu-se Constantino do diadema imperial e das demais insígnias reais, e depois de ter-se prostrado em terra, e feito uma humilde oração, tomou uma enxada e cavou no lugar onde deviam assentar os alicerces da nova Basílica, e encheu doze canastras com a terra que se tinha extraído, as quais levou sobre seus ombros em honra dos doze Apóstolos. Desenterrou-se então o corpo de São Pedro e, na presença dos fiéis e do clero, foi colocado por São Silvestre em uma grande caixa de prata fechada numa outra de bronze dourado que se achava fixa no chão. A urna que guardava o sagrado depósito tinha cinco pés de altura, cinco de largura e cinco de comprimento. No centro da tampa que a cobria, pôs-se uma cruz de ouro de cento e cinquenta libras de peso que trazia gravados os nomes de Santa Helena e de seu filho Constantino. Terminado este majestoso edifício e preparada a crípta ou aposento subterrâneo, adornado de ouro e pedras preciosas, e rodeado de grande quantidade de lâmpadas, colocou-se nele o corpo de São Pedro, fechado na dita urna. São Silvestre convidou para esta solenidade muitos bispos e fiéis, e para excitá-los abriu os tesouros da Igreja e concedeu muitas indulgências. Foi extraordinário o concurso, e aquela função serviu de exemplo para a consagração das igrejas cristãs de então e dos séculos vindouros. Este acontecimento deu-se aos 18 de novembro do ano 324. A urna de São Pedro fechada desta maneira, segundo parece, não se tornou a abrir. O sepulcro deste grande Apóstolo sempre foi sobremaneira venerado por todos os cristãos

Ario e sua doutrina - Nosso divino Salvador nos deixou dito no Evangelho, que sua Igreja sempre seria perseguida, e que o inferno poria em campo todas as suas más artes para destruí-la, nunca, porém, poderia prevalecer contra ela. Os três primeiros séculos foram tempos de perseguições, de sangue e de estragos; mas a fé de Jesus Cristo passou gloriosa e triunfante por entre esses desastres. À perseguição seguiu-se o triunfo e a paz, mas assim que pode respirar a Igreja, ao cessarem as perseguições, acometeram-na ferozmente a heresia e o cisma, especialmente por meio de um sacerdote de Alexandria chamado Ario. Era Ario homem ambicioso que se achava disposto a cometer qualquer crime para satisfazer sua vaidade. Teve o atrevimento de pregar contra a divindade de Jesus Cristo afirmando que o Filho de Deus não é igual ao Pai, mas sim criatura sua. Esta doutrina foi desprezada no mesmo instante com o horror que merecia, ouvindo-se reprovar em todas as partes essas impiedades e blasfêmias. Bispos e doutores se levantaram contra Ario com a voz e com escritos; encontrou não obstante partidários enganados por sua hipocrisia, e conseguiu perturbar a Igreja em todas as partes

Concílio de Nicéia - Conhecendo o imperador os progressos da nova heresia, concordou com o Papa São Silvestre, em opor-se a ela, convocando um Concílio Ecumênico, isto e, uma reunião geral dos bispos. Nesse interim ordenou a todos os governadores de províncias que os provessem de todo o necessário para a viagem. o Pontífice consentiu de bom grado e resolveu que o Concílio se reunisse em Nicéia, cidade principal de Bitínia, chamada hoje Isnik, na Anatólia. Abriu-se o Concílio no ano 325 e achavam-se presentes 318 bispos. O Papa, não podendo ir pessoalmente, mandou para o representar a Ósio, bispo de Córdova, e dois sacerdotes romanos chamados Vito e Vicente. Eram, pois, eles os legados do Papa, que deviam presidir em seu nome ao Concílio. foi uma reunião imponente, nunca vista e impossível de se descrever, parte dos prelados que a compunham distinguia-se já por doutrina, santidade e milagres, e muitos deles traziam as cicatrizes dos tormentos que tinham sofrido na última perseguição. No dia em que devia inaugurar o Concílio, reuniram-se todos os bispos em uma grande sala. Constantino, como sinal de respeito aos que se achavam presentes, quis entrar por último, e não quis tomar assento até que o tivessem feito os demais.Tomou parte no Concílio, não como juiz, senão como protetor dos bispos e para impedir que os hereges causassem turbulências.
Ario, que também tinha sido admitido atreveu-se a sustentar jactanciosamente sua blasfêmia em presença do concílio. Horrorizaram-se os Padres, e com argumentos tirados dos Livros Sagrados e da Tradição provaram e definiram que Jesus Cristo é igual ao Pai e verdadeiro Deus, e que tem a mesma substância e a mesma natureza que o Pai. Para exprimir este dogma, empregaram a palavra "consubstancial". Ósio como presidente do concílio e legado do Vigário de Jesus Cristo, compôs uma profissão de fé conhecida sob o nome de "Símbolo de Nicéia". Os bispos pronunciaram anátema contra Ario, e o imperador apoiou o juízo dogmático da Igreja com a força do braço secular, desterrando o hereges e seus partidários. Tal foi a conclusão desta célebre reunião, cuja memória sempre será venerada pelos católicos, por ter constituído o primeiro Concílio Geral da Igreja.

Os arianos e São Atanásio - Os arianos que tinham sido condenados no Concílio de Nicéia, para não serem desterrados, fingiram aceitar a decisão dos Padres, ao passo que trabalhavam secretamente contra os católicos. São Atanásio bispo de Alexandria foi seu mais formidável adversário e a coluna que Deus pôs para que servisse de dique contra aqueles ímpios blasfemos de seu Filho. Nasceu em Alexandria no Egito, e ainda muito jovem, apenas diácono, tomou parte no Concílio de Nicéia onde deu visíveis sinais de santidade, zelo e profunda doutrina. Morto o bispo São Alexandre, foi eleito com aplauso universal para ocupar seu posto.
Tendo ele reprimido a impiedade de Ario, de tal modo concitou contra si o ódio de todos os arianos, que desde então nunca mais deixaram de lhe armar insídias. E como vissem que saiam baldados todos os esforços, dirigiram contra ele a arma costumada dos malvados, a calúnia. Em conciliábulo reunido em Tiro, os arianos apresentaram a Santo Atanásio, que se achava presente, a mão de um morto, dizendo-lhe: "Eis aqui o que te condena. Conheces esta mão? É a mão daquele santo varão chamado Arsênio, a quem tu mandaste dar a morte." Atanásio ficou algum tempo em silêncio, e dirigindo-se em seguida à assembléia, disse: "Recorda algum de vós as feições de Arsênio?"
Muitos responderam afirmativamente. Então Atanásio fez um sinal a Arsênio, que tinha feito ir ali para provar a sua inocência, e mandou-lhe que, deixando o manto em que estava envolto, se adiantasse e mostrasse que estava vivo, e que possuía ambas as mãos. Em vista disto, aqueles ímpios caluniadores se cobriram de vergonha, longe, porém, de se apaziguarem ante justificação tão evidente, se enfureceram ainda mais e, acrescentando calúnia a calúnia, obrigaram ao imperador a tirar Atanásio de sua sede e à mão armada por outro em seu lugar. O santo prelado viu-se obrigado a salvar sua vida passando muitos anos em penoso desterro. Pode, é verdade, voltar de vez em quando a Alexandria, porém teve de retirar-se novamente dali pela perseguição dos arianos: e para não cair em suas mãos viu-se forçado a ficar escondido cinco anos em uma cisterna enxuta, e outros quatro meses no sepulcro de seu pai. Contudo não deixou por isto de refutar e combater por meio de cartas, livros e todos os meios a seu alcance, a esses inimigos de Jesus Cristo; até que, voltando à sua sede, concluiu em paz sua vida no ano 373, tendo sido bispo durante 46 anos.

Morte de Ario - Ario, depois de ter causado males gravíssimos à Igreja, desejando abrir-lhe chagas mais profundas ainda, fingiu emendar-se: para isso se apresentou ao imperador, e com juramento lhe assegurou que acreditava em tudo o que ensinava a Igreja Católica. Receando Constantino algum engano disse-lhe: "se mentes, Deus vingará teu perjúrio, entretanto podes voltar a ocupar teu cargo!". E deu ordens para que pudesse voltar ao exercício de seu ministério em Constantinopla. Os hereges seus sectários, estavam sobremaneira contentes de poder levar Ario a tomar posse daquela Igreja, donde tinha sido expulso; e para que a reintegração fosse mais solene estabeleceram que se realizaria no domingo seguinte.
Um povo imenso acompanhava o obstinado herege que sentado em um carro elegantemente adornado, tratava de aumentar sua pompa espraiando-se em fastidiosos e arrogantes discursos; porém ali o esperava a divina vingança. Tendo chegado no meio de tanta glória, perto da Igreja onde devia dar-se a reintegração, apodera-se dele um repentino terror, empalidece e treme agitado por violentos remorsos. Acometido ao mesmo tempo de horríveis dores de ventre e laceração de intestinos, morreu desesperado em uma pública sentina, tendo caído com muito sangue uma parte de suas entranhas. Ano 336.

Invenção da santa Cruz - o imperador Constantino, reconhecendo-se devedor à Cruz de suas vitórias, desejava ardentemente dar mostras especiais de veneração àquela sobre qual dera sua vida o Salvador. Ardendo o coração de sua mãe santa Helena no mesmo desejo, posse de acordo com seu filho e com o romano Pontífice, e foi a Palestina em busca desse tesouro, apesar da avançada idade de oitenta anos. Era muito difícil encontrá-la, porque os pagãos tinham amontoado muita terra no lugar onde se achava o sepulcro e formado ali uma grande praça, erguendo no centro um templo a Vênus; porém nada pode impedir que a piedosa princesa visse realizados seus desejos. Sabendo pelos anciãos de Jerusalém, que se chegasse a encontrar o sepulcro, encontrar-se-la também a Cruz, fez logo derrubar o templo pagão e dar começo às escavações. Depois de muito trabalho, descobriu-se afinal a gruta do santo sepulcro, e a muito curta distância dele se acharam três cruzes, e em lugar separado encontrou-se também o letreiro que tinha sido posto na cruz do Salvador, com os cravos que tinham perfurado suas mãos e seus pés. Mas, como se podia conhecer qual a verdadeira cruz? Helena, a conselho de Macário bispo de Jerusalém, mandou levar as três cruzes à casa de uma mulher que desde longo tempo se achava atacada por uma incurável enfermidade. Aproximaram sucessivamente as três cruzes, e ao mesmo tempo rogava-se ao Divino Salvador que fizesse conhecer qual delas tinha sido banhada com seu sangue. Estava presente a imperatriz, e toda a cidade esperava com ansiedade o sucesso. As duas primeiras cruzes não causaram nenhum efeito na enferma, porém assim que se aplicou a terceira, sentiu-se perfeitamente curada e se levantou no mesmo instante. O historiador Sozomenos afirma que também sendo aplicada a um cadáver o ressuscitou logo, o que se acha confirmado por São Paulino. Cheia de alegria a santa mulher, desprendeu uma parte da verdadeira cruz para a enviar a seu filho, e encerrando o resto em uma caixa de prata, colocou-a nas mãos do bispo Macário para que a depositasse na Igreja que Constantino tinha ordenado se levantasse no Santo Sepulcro. Helena não viveu muitos anos depois de sua viagem a Jerusalém e cheia de merecimentos perante Deus e os homens, morreu pouco tempo depois, sendo honrada pela Igreja como santa. A Igreja católica celebra todos os anos este prodigioso descobrimento no dia 3 de maio.

Morte de Constantino - Quanto mais miserável foi a morte dos perseguidores da Igreja, tanto mais consoladora foi a morte desse protetor da fé. Vendo Constantino os oficiais que choravam em derredor de seu leito de morte, disse-lhes: Eu vejo com olhos diferentes dos vossos a verdadeira felicidade; e, longe de afligir-me, folgo muito porque chegou para mim o momento de gozar dela. Deu-lhes as ordens necessárias para que se conservasse a paz no império, fez-lhes jurar nunca empreenderiam coisa alguma contra a Igreja, e com a paz dos justos morreu com 64 anos de Idade, 31 de reinado no ano 337 de nossa era. Antes de morrer dividira o império entre seus filhos Constâncio e Constante. Sua morte foi chorada por todos, e embora seja verdade, que se lhe imputam alguns delitos que cometeu levado pela cólera ou engano por falsas relações, o certo é que fez penitência deles e reparou seus escândalos vivendo virtuosa e exemplarmente.

16 de abril de 2015

História Eclesiástica - Segunda Época Capítulo 1

SEGUNDA ÉPOCA

Desde a conversão de Constantino no ano 312, até a origem do maometismo no ano 622. (abrange um período de 310 anos.)

CAPÍTULO I

Constantino, o Grande - Aparição da Cruz - O Lábaro - Entrada em Roma - São Melquíades O palácio e basílica de Latrão - Cisma dos donatistas - Carta de Constantino - Concílio de Latrão - Morte de São Melquíades.

Constantino, o Grande - Era filho de Constantino Cloro e de Santa Helena. Após a morte de seu pai, que dominava a Grã-Bretanha e as Gálias na qualidade de Cesar, foi proclamado imperador por seus soldados.
Conquanto não se achasse ainda instruído na fé, amava os cristãos, e dando-lhe estes provas de sua fidelidade em várias ocasiões, ordenou que cessasse a perseguição na Grã-Bretanha e nas Gálias onde ele governava, e que dali em diante os cristãos fossem tratados como os demais cidadãos. Conseguiu este imperador grandes vitórias entre as quais ocupa o primeiro lugar a que obteve contra Maxêncio, filho de Maximiano e seu sucessor no trono. Pelos vícios da avareza e da crápula se tinha tornado Maxêncio desagradável a todos os bons, de modo que de todas as partes chamavam a Constantino para livra-los daquele tirano. Constantino não titubeou em tomar as armas para combater contra o inimigo da humanidade e da religião. Foram formidáveis os preparativos de guerra que se fizeram de ambas as partes. Maxêncio, segundo dizem os historiadores, tinha cento e sessenta mil homens a pé e dezoito mil a cavalo, ao passo que Constantino não tinha mais do que quarenta mil. A desigualdade da força atemorizou algum tanto a Constantino: mas Deus serviu-se disso para apartá-lo do culto dos deuses impotentes, tirá-lo daquele perigo e trazê-lo ao conhecimento do verdadeiro Deus.

Aparição da Cruz - Seu inimigo empregava as artes da magia para invocar em seu auxílio as potências infernais; mas ele, ao contrário, dirigiu-se ao verdadeiro Deus que, embora confusamente conhecia como o Criador do céu e da terra, suplicando-lhe que se declarasse em seu favor. Ouviu-o Deus e operou um assinalado prodígio, que a história não declara com suficiente precisão em que local se realizou. Alguns autores dizem que foi nos arredores de Turim, e esta opinião se acha confirmada por uma pintura muito formosa que esta em Roma no palácio do Vaticano, na galeria chamada dos mapas geográficos. Eis como nos referem o fato os historiadores contemporâneos, entre os quais Eusébio de Cesaréia, amigo de Constantino.
Marchava Constantino com seu exército depois do meio dia, quando de súbito viu descer do céu, do lado do sol, uma cruz luminosa que trazia esta inscrição: In hoc signo vinces. - Com este sinal vencerás. - Ele e seu exército foram testemunhas daquele milagroso fenômeno que deixou a todos admirados. Constantino não compreendia o que significava aquela cruz, e por isso Deus dignou-se manifestá-lo com uma revelação.
Apareceu-lhe durante a noite Jesus Cristo trazendo na mão uma cruz igual a que tinha visto no dia precedente e ordenou-lhe que fizesse um estandarte semelhante, o qual lhe serviria de segura defesa contra seus inimigos em tempo de guerra. Constantino executou logo o que lhe tinha sido ordenado e deu ao estandarte o nome de lábaro.

O Lábaro - Segundo Eusébio, consistia o lábaro em uma longa lança revestida de ouro, atravessada em certa altura por um pedaço de madeira, formando todo ele uma cruz.
Da parte superior, mais acima dos braços pendia uma coroa resplandecente de ouro e ricas jóias e no centro ressaltava o monograma de Cristo, formado pelas duas letras gregas iniciais dessa palavra. De cada braço da cruz pendia um pano de purpura, bordado a ouro e pedras preciosas, e na parte superior, debaixo da coroa e do monograma, achava-se em ouro o busto de Constantino e seus dois filhos. Este trofeu da cruz foi o estandarte imperial. Deste modo os Romanos, que até então tinham usado um estandarte particular chamado Labarum, coberto de imagens de falsas divindades, tomaram por bandeira a cruz de Jesus Cristo. Constantino substituindo nele as imagens do paganismo pelo nome de Jesus Cristo apartou seus soldados de um culto ímpio, e os levou, sem esforços, a adorar o verdadeiro Deus. Este precioso estandarte foi confiado a um corpo de cinquenta guardas, escolhidos entre os soldados mais religiosos e valentes, que deviam rodeá-lo, defendê-lo e carregá-lo alternadamente sobre seus ombros.
Entrada de Constantino em Roma - Contando com a proteção do Céu, dirigiu-se Constantino animosamente a frente de seu exército para o lugar onde estavam acampadas as tropas de Maxêncio. Seus soldados, ainda que inferiores em número, achavam-se impacientes para combater, pois contavam desde já com a vitória. Já tinha havido um encontro em Suza, porém deu-se outra batalha mais importante na vasta planície que se estende entre Rivoli e Turim deixando ali dono do campo o piedoso imperador. Com muito pouco trabalho apoderou-se de Milão, Brescia e outras cidades, que se entregaram a sua clemência, de modo que sem graves contratempos pode chegar até as portas de Roma. Maxêncio enviou então contra ele seu exército, que se achava do outro lado do Tevere, e fez construir sobre este rio uma ponte levadiça de madeira, dividida em duas partes, que facilmente se podiam unir e segurar por meio de grossas cordas, para que tirando-as se dividissem e Constantino e seu exército caíssem no rio e se afogassem, caso tentassem passar para o outro lado. Querendo além disso que os deuses lhe fossem propícios, lhes oferecia em sacrifício mulheres e crianças, e enquanto corria ainda o sangue das vítimas, o bárbaro príncipe procurava nas entranhas daqueles infelizes o preságio de seu destino. Ao contrário Constantino preparou seus soldados com a oração e, pondo sua confiança em Deus, iniciou o assalto cheio de valor.
Combateu-se com denodo de parte a parte; porém no fim se declarou a vitória em favor de Constantino. Ao ver Maxêncio mortos e dispersos os seus melhores oficiais, tratou de salvar-se fugindo; porém ao passar a ponte que ele mesmo fizera para prejudicar o seu inimigo, pelo ímpeto e multidão dos fugitivos romperam-se as amarras, e caindo com seu cavalo no Tevere se afogou. No outro dia foi encontrado seu cadáver no lodo. Os romanos, vendo-se já livres daquele tirano, receberam com alegria ao vencedor. Constantino ao entrar na cidade, deu graças a Deus pela vitória que tinha obtido, e mandou que a cruz, penhor da proteção do céu, atravessasse a cidade e fosse arvorada no Capitólio para anunciar ao mundo o triunfo do Deus crucificado. Com a cruz adornou também o seu diadema, e proibiu que dai em diante servisse de suplício aos malfeitores. Ano 312.

São Melquíades - O Pontífice São Melquíades teve a gloriosa sorte de receber em Roma o grande Constantino. Dizemos gloriosa, porque foi este, sem dúvida alguma, um acontecimento da maior importância, pois os imperadores romanos, tendo conhecido desde esse tempo a santidade do cristianismo começaram a protegê-lo e a professá-lo publicamente. Senhor de Roma, Constantino chamou do desterro os cristãos, pôs em liberdade os presos e restituiu seus bens aos que deles tinham sido despojados. O romano pontífice, perseguido até então, foi dai em diante objeto de reverência para o imperador cristão que, venerando nele o Deus a quem se reconhecia devedor de suas vitórias e do império, quis provê-lo de tudo o que era necessário para seu decoro.

O palácio e a basílica de Latrão - O palácio de Latrão foi a primeira habitação que Constantino deu aos sumos Pontífices. Este edifício é muito célebre nos fatos da Santa Sé, e se conserva ainda com grande esplendor. Deve o nome de Latrão a Pláucio Laterano, consul de Roma nos tempos de Nero, que o mandou edificar sobre o monte Celio. Esteve em poder dos imperadores até Constantino que fixara sua morada nele; porém, querendo este religioso monarca oferecer aos Papas uma morada digna do Vigário de Jesus Cristo deu a São Melquíades uma parte daquele grande edifício. Mais tarde fez inteira doação dele aos Papas, e mandou edificar a seu lado a grande basílica de São Salvador de Latrão, chamada mais tarde São João, a qual costuma-se chamar mãe e cabeça das igrejas de Roma e de todo o mundo: Ecclesiarum urbis et orbis mater et caput.

Cisma dos donatistas - No palácio de Latrão celebraram-se muitos concílios, sendo o primeiro o que se reuniu no pontificado de São Melquíades, contra os donatistas, assim chamados do nome de Donato, um dos seus principais fatores. Nasceu esta seita no ano 311, em tempo de Ceciliano, bispo de Cartago. Distinguia-se este por ciência e virtude; porém o acusaram de ter sido sagrado bispo de modo irregular e nulo; ja porque Felix, bispo de Aptunga, que o tinha sagrado, era considerado traidor, ou réu de ter entregue os livros sagrados aos perseguidores, já porque no ato de sua sagração não se achava presente a número de bispos, que segundo sua opinião, se requeria. Depois de muitas contendas, os adversários de Ceciliano elegeram outro bispo, chamado Majorino, porém todos os bons católicos se negaram a comungar com o novo bispo intruso, e ficaram fiéis e submissos ao legítimo bispo Ceciliano. Dai nasceu o cisma, isto é, a separação; achavam-se de um lado os católicos com Ceciliano seu chefe, e do outro lado as cismáticos tendo por cabeça Donato com o bispo intruso, Majorino. A desordem chegou a tal ponto, que os Donatistas resolveram apelar para Constantino que se achava então nas Gálias. Este, para formar idéia clara do assunto, pediu ao governador da África uma relação detalhada do assunto, e reuniu em seguida três bispos para conhecer o estado das coisas. Mas quando viu que se tratava de religião, respondeu que essa não era de sua competência, e que como secular não podia dar seu juízo em relação aos ministros daquele Deus, por quem dentro em pouco devia ser julgado.
Concluiu dizendo que tantos os acusadores como os acusados escolhessem cada um dez bispos e fossem a Roma com Ceciliano e Majorino, que ali se discutiria tudo com o Papa São Melquíades; em juízo solene se examinaria e julgaria definitivamente a questão.

Carta de Constantino a São Melquíades - Enquanto em cumprimento das ordens de Constantino, os convidados da África se preparavam para ir a Roma, o imperador escreveu uma carta a São Melquíades concebida nestes termos: "por sucessivas cartas que me tem enviado de África meu proconsul Anolino, chegou a meu conhecimento que Ceciliano, bispo de Cartago, é acusado, por seus colegas, de muitos delitos. Pelo que creio conveniente que Ceciliano vá a Roma com dez bispos dos que o acusaram e outros dez que ele julgue necessários para esclarecer e defender sua causa. Além disso, para que possais estar plenamente informado do assunto em questão vos envio cópia das cartas que Anolino me mandou da África contra os colegas de Ceciliano; e as envio com a minha firma para tirar todo o perigo de que possam ser adulteradas. Quando as tiverdes lido com atenção e com o tino que vos distinguem, certamente sabereis como e com que modificações se deverá resolver esta questão. Quanto a mim, vos asseguro que professo tanta estima e respeito para com a Igreja católica, que desejaria que nunca surgissem divisões entre vós, nem aparecessem princípios de discórdias. A suma majestade do Soberano Senhor a vós e a vossos honrados ministros conserve por muitos anos. (Euseb. 1. 10, 15).
Ao receber esta carta, São Melquíades se esmerou em preparar todo o necessário para reunir o concílio; e para que tudo se discutisse profundamente e se sentenciasse por juízes competentes além dos três bispos que mandou Constantino das Gálias, chamou a Roma outros quinze bispos da Itália.

Concílio de Latrão - Este imponente concílio, que foi o primeiro que se efetuou na basílica de Latrão, começou suas sessões a 2 de Outubro do ano 314. Depois de longa discussão, confessou Donato que tinha renovado a sagrada ordenação a alguns que tinham caído em tempo de perseguição, coisas em todo tempo condenadas pela Igreja; porque é dogma da fé que o valor destes sacramentos não depende da bondade daquele que os confere, e que o caráter que eles imprimem não se tira jamais, Ao chegar a causa de Ceciliano, diz Optato de Mileto, interrogaram-se as testemunhas que Donato havia trazido, e estas confessaram que nada tinham de dizer contra Ceciliano.
São Melquíades depois de ter ouvido todas as opiniões, levantou-se e pronunciou a seguinte sentença: "Constando claramente que Ceciliano não é culpado de pecado algum, nem mesmo segundo a opinião dos que Donato trouxe para acusá-lo, e que este tão pouco pode convencê-lo de culpa alguma, julgo que deve ser reconduzido a sua diocese e reintegrado em todos os seus direitos."

Morte de São Melquíades - São Melquíades não sobreviveu senão três meses a celebração do Concílio de Latrão. O martirológio romano falando dele diz: "Teve muito que padecer durante a perseguição de Maximiano e depois da volta da paz à sua Igreja dormiu tranquilamente no Senhor."

15 de abril de 2015

História Eclesiástica - Primeira Época Capítulo 21

CAPÍTULO XXI

São Marcelo - Morte de Galério - Princípios de paz no Oriente - Disciplina eclesiástica desta Primeira Época - Século primeiro - Século segundo - Século terceiro.

São Marcelo - Foi eleito este Papa para suceder a São Marcelino, e governou com muito zelo a Igreja, durante cinco anos. Sagrou vários bispos, entre os quais figura São Emígdio, a quem enviou a pregar em Ascoli, Piceno, e foi o primeiro bispo daquela cidade, onde coroou seu apostolado com o martírio. Maxêncio, filho de Maximiano, que estava de acordo com Galério para perseguir os cristãos, logo que soube que Marcelo era seu chefe, o mandou prender, e o ameaçou com a morte se não renunciasse a sua dignidade e não sacrificasse aos ídolos. Recusando-se com grande constância a obedecer foi Marcelo condenado a servir nas cavalariças imperiais; porém o homem de Deus, ainda no desempenho de tão baixo ofício, não deixava de prover a manutenção da fé. Depois de nove meses de cárcere, foram de noite seus clérigos, e tirando-o daquele lugar, o conduziram a uma casa dos cristãos onde havia um oratório secreto.
Achava-se este oratório em Roma, no lugar onde se levanta hoje a formosa Igreja de São Marcelo. Ao saber disto, Maxêncio transformou a Igreja em estrebaria e tendo feito levar ali vários animais, condenou o Papa a servi-los. Ali, consumido pelos trabalhos e sofrimentos, morreu pela fé no ano 309.

Morte de Galério - Galério morava glorioso na cidade de Sardes, quando, pouco depois do martírio de São Marcelo, cobriu todo seu corpo uma dolorosa chaga, aplicaram-lhe remédios, porém o mal se resolveu numa vergonhosa gangrena. Chamaram-se médicos, e puseram-se em prática todos os recursos da medicina, mas sem chegar a resultado algum. Enfurecido com isto, condenava a morte os próprios médicos. Ninguém podia se aproximar dele pelo cheiro desagradável que exalavam seus membros; finalmente um médico cristão teve bastante coragem para falar-lhe nestes termos: "Recorda-te, ó príncipe, de tudo quanto fizeste contra os cristãos, e procura o remédio para teus males no que foi sua causa". Vencido pelo excesso de suas doenças, aquele príncipe soberbo confessou como verdadeiro o Deus dos cristãos, reconheceu a santidade de sua religião, que tinha até então sido odiada pelos imperadores romanos; e em seguida fez publicar um decreto que já não se devia perseguir os cristãos. Como porém não fazia isto por se achar arrependido do mal que tinha feito, mas apenas pela atrocidade de suas dores, a mão do Senhor continuou pesando sobre ele e depois de um ano de horrorosa enfermidade, morreu miseravelmente, caindo-lhe as carnes aos pedaços. (V. Bar. ano 311).

Princípios de paz no Oriente - Ainda que Galério o tivesse promulgado contra a vontade, aquele famoso decreto não deixou de produzir bons resultados. Ao ser promulgado nas províncias do Oriente, foi como a primeira lei das autoridades romanas, que proibia perseguir os cristãos. E impossível significar com quanta alegria foi recebido pelos fiéis, que puderam assim professar publicamente sua religião. Os desterrados voltaram a sua pátria, os presos saíram dos cárceres, os que tinham sido despojados de seus bens, foram reintegrados em todos ou em parte, restituiram-se os cargos aos empregados, e deixaram-se todos em plena liberdade de levantar igrejas e participar dos ritos públicos da religião.
Mas na Italia e especialmente em Roma onde governava Maxêncio, continuou a perseguição até que aprouve a divina Providência dar paz a sua Igreja e fazê-la resplandecer e triunfar por meio de Constantino o Grande. É este o primeiro imperador romano que publicamente se declarou cristão e que com suas leis civis promoveu o estabelecimento e a autoridade de nossa santa religião. Este acontecimento glorioso abre a Segunda Época da história eclesiástica.

Disciplina da Primeira Época - Século primeiro. - No Concílio de Jerusalém aboliu-se a circuncisão e as demais cerimônias da lei mosaíca. Os fiéis de Jesus Cristo começaram a chamar-se cristãos na cidade de Antioquia. Atribui-se a São Pedro a instituição da tonsura clerical; porém esta ainda não se usava nos três primeiros séculos, pois sendo perseguídos os eclesiásticos, ela os teria descoberto. Esta instituição não se pode generalizar até os tempos de Constantino.
A observância do domingo, em vez do sábado, e das festas do Natal, da Epifania, da Páscoa, da Ascensão, e de Pentecostes; o jejum da Quaresma, e das quatro têmporas, o uso da água benta, o sinal da cruz, os ágapes ou banquetes comuns de caridade, tudo isto foi atribuído a São Pedro.
São Lino renovou o preceito de São Paulo, ordenando que as mulheres entrassem na igreja com a cabeça coberta. Diz-se que o Papa São Cleto instituiu a fórmula Saúde e benção apostólica, o Pax obis e o Dominus vobiscum, na santa Missa. São Clemente dividiu a cidade de Roma em sete seções ou paróquias, e em cada uma delas estabeleceu um notário ou escrivão encarregado de recolher as atas dos mártires.
Também atribui-se-lhe o Canon da Missa, isto é, as regras que a Igreja romana observa nas orações e cerimônias do Santo Sacrifício, bem como a benção dos frutos da terra.

Século segundo - o Papa São Vitor estabeleceu que somente se administrasse o Batismo nas solenidades da Páscoa e de Pentecostes, e com água expressamente benta.
Ordenou também várias orações e o jejum das sextas-feiras em honra da paixão do Salvador.
São Urbano, Papa, declarou que só os bispos são ministros ordinários do sacramento da confirmação, e que os bens eclesiásticos são de propriedade da Igreja por direito divino.
O Papa São Ponciano estabeleceu que se cantassem os salmos na Igreja e que se rezasse o Confiteor no princípio da Missa.
O Papa São Fabiano designou um diácono em cada uma das sete paróquias de Roma para o cuidado dos pobres, e instituiu outros tantos subdiáconos para recolher as atas dos mártires redigidas pelos notários de que já se fez menção, os quais assistiam aos interrogatórios e a morte dos campeões da fé.

Século terceiro - O Papa São Calixto estabeleceu três dias de jejum durante cada uma das quatro estações do ano, chamadas quatro têmporas.
O Papa São Lúcio introduziu o costume de vestir a dalmática e a tunicela durante os ofícios divinos Declarou excomungados os que usurpavam ou delapidavam os bens da Igreja; decreto que confirmaram outros Pontífices e o Concílio de Trento.
O Papa São Estevão decretou que se benzessem, antes de usá-los, os sagrados hábitos e proibiu aos leigos o uso deles.
São Felix estabeleceu que, em quanto fosse possível, se celebrasse o santo sacrifício da Missa sobre os sepulcros e as relíquias dos mártires. Conserva-se ainda este costume; pois põe-se sempre alguma relíquia dentro da pedra sagrada sobre a qual se celebra o santo sacrifício.
O Papa São Eutiquiano ordenou que se fizesse o Ofertório na Missa; e a benção do trigo, dos legumes e dos comestíveis. Também decretou que os cadáveres dos mártires se enfeitassem o melhor que fosse possível com um vestido chamado colóbio, ou dalmática de cor encarnada.

14 de abril de 2015

Catecismo Ilustrado - Parte 15

O Símbolo dos Apóstolos

8º artigo: Creio no Espírito Santo

1. O Espírito Santo é a terceira pessoa da Santíssima Trindade, que procede do Pai e do Filho.
2. O Espírito Santo é Deus; a Igreja definiu esta verdade, dizendo nos seus símbolos que o Espírito Santo deve ser adorado conjuntamente com o Pai e o Filho.
3. A mesma verdade nos ensina também a Sagrada Escritura, que dá ao Espírito Santo o nome de Deus. Quando São Pedro repreendeu Ananias e Safira por terem mentido ao Espírito Santo, exprimiu-se nestes termos: "Não mentiste a homens, mas a Deus". (Atos V, 1-11)
4. As seguintes palavras de Nosso Senhor ensinam-nos que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho: "Quando vier o Consolador, esse Espírito de verdade que procede do Pai, e que u vos enviarei da parte de meu Pai, Ele dará testemunho de mim".
5. O Espírito Santo é pois igual em tudo ao Pai e ao Filho; é como eles todo poderoso, eterno, de uma perfeição, grandeza e sabedoria infinitas.
6. Chama-se ordinariamente ao Espírito Santo: 1º Dom de Deus, porque é o dom mais precioso que Deus tem concedido aos homens; 2º Consolador, porque nos consola em nossas aflições; 3º Espírito de oração, porque nos ajuda a orar.
7. Chama-se "Santo", porque Ele é santo por sua natureza e porque é Ele que nos santifica.
8. A santidade do Espírito Santo difere da santidade dos santos que nós honramos com o nosso culto: 1º o Espírito Santo é santo por si mesmo e por sua natureza, enquanto os santos por si mesmo e por sua natureza, enquanto os santos se tornam tais pela Graça de Deus; 2º o Espírito Santo é infinitamente santo, enquanto os santos apenas o são em certo grau.
9. O Espírito Santo desceu muitas vezes sobre a terra de um modo visível. Desceu em forma de pomba sobre Nosso Senhor Jesus Cristo no dia de seu Batismo e sobre os Apóstolos e discípulos em forma de línguas de fogo no dia de Pentecostes.
10. "No dia de Pentecostes, diz a Sagrada Escritura, de repente, veio do Céu um estrondo, como o de vento que sopra impetuoso, que encheu toda a casa onde estavam os Apóstolos. E apareceram-lhes repartidas umas como línguas de fogo, das quais pousou uma sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo, e começaram a falar várias línguas". (Atos II, 1-4)
11. Depois de terem recebido o Espírito Santo, os Apóstolos foram pregar o Evangelho a todas as nações.
12. Antes da pregação dos Apóstolos, todos os povos da terra, à exceção dos Judeus, adoravam criaturas.
13. Da pregação dos Apóstolos resultou a conversão duma multidão imensa de Judeus e pagãos, que abraçaram a religião cristã.
14. A religião cristã não se estabeleceu sem obstáculos; foi combatida durante trezentos anos, e milhões de cristãos sofreram toda a espécie de torturas e a própria morte em nome de Jesus Cristo.
15. A destruição das falsas religiões, na maior parte do mundo conhecido, foi o maior milagre que o Espírito Santo operou por meio dos Apóstolos, bastando por si só para provar a divindade do cristianismo.
16. O Espírito Santo também se nos manifesta de modo invisível pelas graças que derrama nas nossas almas a fim de as santificar.
17. O Espírito Santo habita em nós, quando nos achamos em estado de Graça; por isso São Paulo diz que somos templos do Espírito Santo.
18. O Espírito Santo governa a Igreja, dando-lhe força para resistir aos seus inimigos e preservando-a de qualquer erro no seu ensino.
19. O Espírito Santo dá ainda à Igreja todas as graças e todos os dons necessários à sua conservação, como o dom dos milagres e o dom de profecia.
20. Devemos orar muitas vezes ao Espírito Santo porque, sem o seu auxílio, nada podemos fazer de útil para a nossa salvação.
21. Devemos evitar afastar o Espírito Santo da nossa alma pelo pecado mortal, e contristá-lo pelo pecado venial.

Explicação da gravura

22. Esta gravura representa o Cenáculo onde os Apóstolos e discípulos se reuniram depois da Ascensão do Senhor, aguardando a descida do Espírito Santo e orando em companhia da Santíssima Virgem e de muitas santas mulheres.

13 de abril de 2015

História Eclesiástica - Primeira Época Capítulo 20

CAPÍTULO XX

São Caio e a décima perseguição - São Marcelino e a legião tebana - Martírio da mesma - Era dos mártires - Decreto de Diocleciano - Fim desgraçado desse príncipe.

São Caio e a décima perseguição - A São Xisto II sucedeu São Dionisio que governou a Igreja onze anos e três meses. A este sucedeu São Felix, que ocupou cerca de três anos a sede de São Pedro Em sua morte subiu ao trono pontifício Santo Eutiquiano, que o ocupou durante oito anos e dez meses; ambos morreram mártires. Depois do martírio de Santo Eustaquiano, elegeram Papa a São Caio, sobrinho do Imperador Diocleciano.
Nascera em Solona cidade marítima do Adriático, de pais nobres e ricos; foi enviado a Roma para cursar seus estudos. Tendo tido ali ocasião de conhecer o Evangelho se fez cristão e mais tarde abraçou o estado eclesiástico. Trabalhou muito nos pontificados de São Felix e de Santo Eutiquiano, e quando este último ganhou a palma do martírio, o elegeram para para lhe suceder, no ano 283. Durante o segundo ano de seul pontificado (284) rebentou a perseguição de Diocleciano, que foi a mais sanguinolenta de todas as que a precederam. São Caio, como, sobrinho do imperador, não deixou de o repreender vivamente; porém em vão, porque o imperador, para captar as simpatias dos pagãos, renovou o decreto imperial, no qual declarava que a idolatria era a única religião do império. Acrescentava-se nesse decreto que não podia se fazer compra nem venda, sem primeiro oferecer incenso aos ídolos. Para este fim foram colocadas pequenas estatuas, representando ídolos, em todas as esquinas dos palácios, das ruas, das praças, perto dos poços, das fontes e dos negócios de comestíveis, e nada podia se comprar sem sacrificar antes àquele pequeno ídolo.
Caio, durante o curso dos quatro primeiros anos de seu pontificado, pode permanecer com suficiente segurança em casa de Gabinio, seu irmão; porém quando tomou incrementos a perseguição, ele também teve de esconder-se nas grutas e nas catacumbas, para poder cumprir os ofícios de seu sagrado ministério. Saia dali com muita frequência para socorrer os que perigavam na fé. Ainda que Diocleciano desejasse acabar com os cristãos, repugnava-lhe contudo condenar Caio, pois, sendo seu parente, dele cuidara durante sua infância. Via além disso em Caio um homem de grandes virtudes e como tal sempre o tinha amado e venerado; mas, tão grande era o ódio que concentrava contra a religião cristã que finalmente decidiu-se a pronunciar também contra ele a sentença de morte. Para salvar ao menos as aparências e não passar por verdugo de sua família, mandou que se executasse a sentença ocultamente e de noite. assim foi martirizado São Caio, depois de mais de doze anos de pontificado, no ano 29ó.

São Marcelino e a legião tebana - Tendo morrido São Caio, sepultou seu precioso cadáver um sacerdote chamado Marcelino, o mesmo que lhe sucedeu no pontificado.
Em princípios de seu pontificado foram a Roma os soldados da legião tebana sob o comando de São Maurício. Chama-se assim essa legião, porque os soldados que a compunham costumavam se convocar e reunir em Tebas, célebre cidade do Egito.
Devendo dar-se começo a uma guerra perigosa contra os Bagáudos, povos da Galia, Maximiano, que tinha sido criado por Diocleciano seu colega no império, chamou do oriente essa legião, que se distinguia no exército romano por seu valor e fidelidade. Ao ir a Itália aqueles soldados passaram por Jerusalém, onde muitos deles que eram catecúmenos receberam o batismo administrado por São Lambda, bispo daquela cidade. (V. Bar. An. 297).
Chegando a Roma se apresentaram ao Papa, e pediram que administrasse a confirmação aos que ainda não a tinham recebido. O santo pontífice depois de certificado que se achavam suficientemente instruídos, administrou-lhes esse Sacramento e, ao concluir a sagrada cerimônia, lhes falou do seguinte modo: "Meus filhos, ide, e para onde fordes, dai-vos a conhecer por verdadeiros soldados de Jesus Cristo, prontos a morrer em qualquer tempo, antes que manchar a pureza dessa fé que há pouco acabais de receber". (Bar. luqar citado) .

Martírio da legião tebana - Saindo de Roma, atravessaram a Itália, e passando os Alpes Apeninos, ali onde se levanta agora o grande São Bernardo, foram unir-se com Maximiano, que com o resto do exército os estava esperando nas planícies de Valés, perto de uma cidade chamada então Otoduro e hoje Martigny. Vendo Maximiano que naquela região havia muitos cristãos, quis que todos os seus soldados o ajudassem a persegui-los e a dar-lhes a morte, e entretanto participassem dos sacrifícios que por sua ordem se ofereciam as divindades do império. Três coisas exigia pois incontinente Maximiano: que todo o exército fizesse um sacrifício aos deuses; que jurasse fidelidade ao Imperador, invocando seus ídolos e finalmente que todos prometessem ir em busca dos cristãos para os condenar a morte como inimigos dos deuses do império. Os soldados idólatras obedeceram sem demora, porém assim não se deu relativamente aos valentes tebanos. Quando chegou aos ouvidos de Maurício, seu chefe esta resolução, resolveu juntamente com todos os seus soldados, resistir a estas ordens injustas. Ele com sua legião se achava a umas dez milhas do lugar onde estava Maximiano Augusto, em lugar chamado Agauno, hoje São Mauricio, perto do grande São Bernardo.
Informado Maximiano de sua resistência, ordenou que a legião tebana fosse a primeira a executar sua ordem, ameaçando com os efeitos de sua cólera aos que desobedecessem. Todos os tebanos responderam a uma voz: Christiana religione impedimur; a religião cristã no-lo proíbe. Enraivecido o imperador por tão desdenhosa resposta, mandou que fosse dizimada a legião isto é, que de dez se sorteasse um para lhe dar a morte. A legião foi dizimada, mas os que ficaram vivos não perderam a coragem; por isso Maximiano mandou-a dizimar pela segunda vez. E aqueles heróis, longe de se oporem, submeteram-se com alegria a tão cruel carnificina; e até os que sobreviviam invejavam a sorte de seus companheiros mortos pela fé. Como todos, porém, permanecessem firmes nela o imperador ordenou uma matança geral; em cumprimento de suas ordens o exército rodeou a legião que se compunha de uns óóóó soldados e os passou pelas armas. Este fato deu-se aos 22 de Setembro do ano 297. São Avito, bispo de Viena em França, fazendo o panegírico dessa legião de soldados, disse que nenhum deles se condenou porque todos morreram por Jesus Cristo. 

Era dos mártires - Havia já dezoito anos que Diocleciano governava o império, e ainda que durante esse espaço de tempo, sempre tivessem sido perseguídos os cristãos, contudo a perseguição se achava muito longe de ter chegado àquele espantoso estado de crueldade que alcançou durante os últimos anos do reinado de Diocleciano. Ao findar o ano 302 achava-se este em Nicomedia com Galério, que já tinha sido criado Cesar do império do Oriente. Animado este por um ódio implacável contra a religião de Cristo, dizia ao imperador: "Ja é tempo de acabarmos com esses miseráveis cristãos; é gente obstinada, e enquanto houver um deles sobre a terra, existirá uma semente de desventura para o império". Diocleciano de idade já avançada, posto que detestasse os cristãos, tivera não obstante de admirar muitas vezes a sua fidelidade e virtude heroica. Representavam-se-lhe as belas qualidades de seu irmão São Gabinio, de seus sobrinhos São Caio Papa, Cláudio, Máximo e outros muitos companheiros seus que ele mesmo tinha condenado a morte. Recordava além disso as virtudes de Cromácio, prefeito de Roma, de Sebastião, general de seus exércitos, e de outros muitos heróis mortos pela fé. Ainda era recente o fato da legião tebana, martirizada por seu colega Maximiano. Tão pouco ignorava ele imperador que sua consorte Serena, Valéria sua filha e outros da corte, muito queridos dele, eram cristãos. Por todas essas razões, respondia a Galério, que não era prudente voltar a perturbar a paz do império e derramar rios de sangue. Por outra parte, acrescentava, com os suplícios não conseguiremos nada, porque os cristãos nada mais desejam do que morrer. Galério consultou a opinião dos ministros do Estado, que, para não lhe desagradarem, votaram pela perseguição. Hesitando ainda o imperador, quis que se consultasse o oráculo de Apolo. Este respondeu: "Os justos espalhados sabre a terra me impedem de falar".
Perguntou-se aos sacerdotes dos ídolos quem eram os justos, e estes disseram que com esse nome se designavam os cristãos.

Novo decreto contra os cristãos - Em vista disto, Diocleciano firmou o fatal decreto de extermínio universal de todos os cristãos, com a data de 23 de Fevereiro de 303.
Entre outras iniquidades, ordenou o seguinte: "Sejam arrasadas as igrejas dos cristãos, queimados os seus livros; qualquer de nossos súditos reconhecido como cristão, seja despojado imediatamente de suas riquezas, de suas dignidades e seja condenado a morte. Também poderá ser ele citado e apresentado perante os tribunais, mas ele não poderá citar nem chamar a juízo; nem terá direito de pedir que se lhe restitua o roubado, nem de pedir satisfação por injúrias ou por ultraje. Os escravos que obtiveram liberdade, se forem cristãos, voltarão a ser cativos".
Em força deste edito infernal, os cristãos, estavam fora da lei; isto é, já não podiam gozar do apoio da autoridade civil; de modo que qualquer pessoa podia impunemente insultá-los, desprezá-los, despojá-los, roubá-los, sem que eles de modo algum pudessem defender-se. Um decreto especial mandava que se atirassem as chamas todos os seus livros, e havia pena de morte para aquele em cuja casa ou pessoa se encontrasse um livro da religião cristã.
Um terceiro decreto, dirigido especialmente contra os bispos e sacerdotes, dizia que estes deviam ser procurados com preferência para serem condenados a morte.
Maximiano confirmou no Ocidente tudo o que o seu colega estabelecera na parte oriental do império.
Efeitos dessa perseguição - Essa perseguição não conseguiu o resultado que esperavam os idólatras, e o que alcançaram com ela unicamente, foi dar a conhecer mais e mais a divindade de nossa santa religião, pois que os cristãos de todo o império preferiram sofrer todos os tormentas e derramar seu sangue, antes que renunciar a sua fé. O Céu se povoou de santos mártires, a Igreja resplandeceu pela virtude heroica de seus filhos, e os que por temor dos sofrimentos apostataram, ao terminar a perseguição, fazendo sincera penitência, voltaram ao seio de sua mãe, a Igreja; de modo que os esforços de Satanás para destruir a religião de Jesus Cristo não serviram senão para tornar mais brilhante o seu triunfo. Nesses supremos momentos o Papa Marcelino se rodeou de varões peritos em pregar com zelo e integridade as verdades do Evangelho, e com eles trabalhou heroicamente até que lhe cortaram a cabeça, a 26 de Abril do ano 304.

Fim de Diocleciano - Tendo firmado Diocleciano, o sanguinolento decreto transcrito anteriormente, começaram a cair sobre ele várias desgraças. Galério que o tinha instigado a perseguir os cristãos, rebelou-se, ameaçando-o com a morte se não abdicasse. Diocleciano fatigado pela idade e pelos trabalhos, cedendo as ameaçadoras instancias de seu filho adotivo, renunciou ao trono e se retirou para Solona, sua pátria.
Mas a mão de Deus que pesava sobre ele, o acompanhou por todas as partes; perdeu quase completamente a uso da razão, e restaram-lhe tão somente as luzes suficientes para sentir todo o peso de seu envelhecimento. Apoderou-se dele um humor acre, que o foi consumindo pouco a pouco; languído, triste, continuamente agitado, já não tomava quase alimento; tornava-se-lhe impossível descansar de dia e dormir de noite.
Frequentemente se encontrava chorando como uma criança. Oprimido pelos seus sofrimentos e pelos açoites da vingança divina, entregou-se aos mais violentos arrebatamentos, e cego por sua cólera, se golpeava, ou se atirava ao chão, dando horrorosos gritos. Finalmente não podendo mais carregar uma vida tao miserável, terminou-a com um último crime, deixando-se morrer de fome. Ano 313.

12 de abril de 2015

História Eclesiástica - Primeira Época Capítulo 19

CAPÍTULO XIX

São Xisto II e os Sabelianos - Oitava perseguição; São Xisto e São Lourenço - Martírio de São Cipriano - O jovenzinho Cirilo - Morte de Valeriano. - Aureliano e a nona perseguição - Heresia de Manes.

São Xisto II e os Sabelianos - A São Cornélio sucedeu São Lúcio que ocupou a santa Sé somente dezesseis meses, pois caiu sobre ele a espada da perseguição. À sua morte foi eleito São Estevão que também sofreu o martírio depois de três anos de pontificado.
Sucedeu-lhe no trona de São Pedro Xisto II, ateniense, que permaneceu nele um ano somente. o que mais ocupou seu zelo foi a heresia dos Sabelianos, chamada assim por Sabélio, que foi seu autor.
Nasceu este em Tolemaida e começou a espalhar seus erros no ano 250. Entre outras extravagâncias dizia que não havia distinção real entre as três pessoas da Santíssima Trindade, e que o Pai era a mesma pessoa que o Filho e o Espírito Santo.
São Dionisio, bispo de Alexandria, foi primeiro a declarar-se contra os novos erros. A princípio os combateu energicamente com palavras, porém mais tarde pôs por escrito a doutrina dos Sabelianos e sua refutação, e a enviou ao mesmo Sumo Pontífice em forma de carta. São Dionisio escreveu também outra carta a São Xisto para consulta-lo sobre algumas questões difíceis. "Apresentou-se-me um caso, disse-lhe, sobre qual não me atrevo a pronunciar um juízo definitivo, pois tenho medo de enganar-me. Consilium quaero, tuamque vehementer exposco sententiam. Peço conselho e com vivas instâncias solicito que deis vossa sentença a respeito".
O Pontífice examinou o caso e conheceu que as razões expostas davam lugar a verdadeiras dúvidas sobre a validade do batismo administrado por certos hereges, atendendo ao modo pelo qual o administravam; por isso respondeu que se devia renovar esse Sacramento debaixo de condição, não porque o tivesse administrado um herege, porém porque parecia terem-se omitido coisas essenciais.(V. Bor.).
É esta a regra que ainda segue a Igreja católica, quando recebe em seu grêmio aos que foram batizados quando professavam a heresia. Posto que ela considere válido o batismo administrado como o instituiu Jesus Cristo, contudo, quando há dúvidas razoáveis de que esse procedimento não tem sido observado, então temendo a Igreja que esse batismo tenha sido invalidamente administrado o faz administrar novamente debaixo de condição.

Oitava perseguição; São Xisto e São Lourenço - A oitava perseguição nasceu da estulta promessa que fizeram a Valeriano os sacerdotes dos ídolos, em que lhe asseguravam uma grande vitória sempre que aniquilasse o cristianismo.
Entre os mártires mais ilustres desta perseguição conta-se São Xisto II Papa, e São Lourenço. Aquele denodado Pontífice, depois de ter sido preso e insultado, e ter sofrido fome e sede, e depois de ter mostrado grande firmeza em presença dos juízes e do próprio imperador, foi finalmente condenado à morte. Enquanto o conduziam para o suplício, seu diácono São Lourenço o acompanhava soluçando: "Para onde ides, Santo Padre, lhe dizia, sem o vosso ministro ... ?" Ele lhe respondeu: "Tem coragem; daqui a três dias me seguirás. A mim que sou velho, convém uma luta menos dura, porém a ti que és jovem, esta se preparando um combate mais atroz. Reparte entretanto com os pobres as riquezas que te foram confiadas". Coroou seus trabalhos sendo decapitado no ano 264.
O que predissera o Papa em relação a seu diácono verificou-se pontualmente. Tendo ordenado o prefeito de Roma a São Lourenço que lhe entregasse naquele instante os tesouros da Igreja, o santo diácono respondeu-lhe que estes já não estavam em seu poder, pois tinham sido distribuídos entre os pobres. Indignado o tirano ao receber esta resposta, fez-lhe padecer horríveis tormentos, e para acabar com ele, fe-lo deitar sobre uma grelha incandescente o valoroso mártir parecia insensível a dor, pois passado algum tempo disse ao tirano: "Se queres, faz-me virar do outro lado pois ja estou bastante assado deste"; e depois que o voltaram acrescentou: "Já estão minhas carnes bastante cozidas; se gostas, podes comer delas" e ficou nesta firmeza até o último suspiro. Seu martírio causou tal impressão que vários senadores romanos consideravam-se muito honrados em levar o cadáver sobre seus ombros até o cemitério de Ciríaco no Campo Verano. Ali foi sepultado, e nesse mesmo lugar Constantino lhe erigiu mais tarde uma basílica que ainda existe.

Martírio de São Cipriano - São Cipriano também foi um dos mártires da oitava perseguição. Nascido em Cartago de pais ricos, porém pagãos, por divina disposição encontrou um amigo que lhe fez conhecer as verdades da fé. Reconheceu-as Cipriano e recebeu o batismo; vendeu logo todos os seus bens, distribuiu seu valor aos pobres, e retirou-se do mundo. Conhecida sua santidade e engenho, apesar de sua resistência, foi elevado com aplauso geral à cadeira episcopal de sua pátria. É impossível dizer tudo o que fez para propagar o Evangelho, refutar de viva voz, com escritos e com milagres aos hereges, e animar ao martírio. Acusado como cristão e chefe dos cristãos, foi condenado a morte. Ao saber da noticia exclamou: "Graças a Deus, que se dignou livrar-me do cárcere do meu corpo". Chegando ao lugar do suplício, despiu-se com tanta serenidade de seu manto e hábitos episcopais, que o verdugo vacilava em cumprir seu sangrento ofício. O mártir o animou ordenando que lhe pagassem vinte e cinco moedas e ele mesmo ajudou vendar os próprios olhos. Cortaram-lhe a cabeça a 14 de Setembro do ano 258, exatamente no dia, em que um ano antes tinha predito que seria martirizado.
O jovenzinho Cirilo - O jovenzinho Cirilo também glorificou publicamente em Cesareia da Capadócia o nome de Jesus Cristo. Ainda que expulso da casa paterna e privado de tudo, permaneceu firme na fé; o juiz o chamou a seu tribunal e tratou de convencê-lo com lisonjas oferecendo-se como mediador entre ele e seus pais. "Eu experimento um verdadeiro prazer, respondeu o menino com valor, em sofrer desprezos e desdem, expulso de minha casa, sei que me espera outra infinitamente melhor; e a morte que tu encaras como o mais terrível dos males, é para mim a porta que me conduzirá à glória". o juiz para assustá-lo fingiu faze-lo atormentar; porém longe de subir-lhe as cores ao rosto, ele mesmo dirigiu-se para o fogo no qual o queriam atirar. Quando o tiraram dai e tornaram a levá-lo a presença do juiz, lhe disse: "Tirano, tu me injuriaste tirando-me a morte. Ferro e fogo, eis todos os dons que te peço", Os que se achavam presentes choravam ao ouvi-lo assim falar; porém ele lhes disse: "Em vez de chorar deveríeis alegrar-vos comigo e participar do meu triunfo. Vós ignorais que reino se me há preparado; e que felicidade me espera": e ficou firme nestas admiráveis disposições até a morte.

Morte de Valeriano - A promessa dos sacerdotes idólatras a Valeriano, de que alçaria uma assinalada vitória contra os Persas, não se viu realizada; antes, sofreu ele uma derrota em que caiu nas mãos de Sapor, rei daquela nação, o feroz persa fê-lo carregar de cadeias, depondo-lhe as vestimentas imperiais, e quando montava a cavalo, obrigava-o a prostrar-se diante dele, e pisava-lhe o pescoço para que servisse de estribo. Finalmente ordenou que o esfolassem vivo: e que seu corpo esfolado e sua pele tingida de vermelho se conservasse como opróbrio desse perseguidor dos cristãos.
Deus quis manifestar assim sua justiça. A maldição divina caiu também sobre toda a descendência de Valeriano, pois seu filho, aclamado imperador após sua morte, foi morto pelo exército de Ilíria. Sucedeu-lhe Galiena que também foi assassinado; e o filho de Galieno e seu irmão foram precipitados do alto do Capitólio. assim extinguiu-se completamente a estirpe daquele tirano.

Aureliano e a nona perseguição - Atribui-se a Aureliano a nona das grandes perseguições suscitadas contra a fé de Jesus Cristo. Este imperador, a princípio se mostrou favorável aos cristãos, e nos dá provas disso o seguinte fato: Paulo de Samosata, que tinha sido deposto de sua sede em Antioquia, recusava-se a entregar a seu sucessor o palácio episcopal. Depois de inúteis instâncias, os católicos apresentaram suas queixas a Aureliano, que tendo examinado a questão, deu a respeito desta memorável sentença: "Entregue-se a casa episcopal ao designado para ocupa-la pelos prelados italianos de religião cristã, e pelo pontífice romano", isto é, o bispo de Roma e seu clero, Esta sentença nos dá a conhecer duas coisas de suma importância: a saber, que a veneração dos fiéis para com o Pontífice romano, como chefe supremo, era tão notória naqueles tempos que nem os próprios gentios a desconheciam; pois Aureliano viu que para fazer justiça aos cristãos de Antioquia, em coisas concernentes a seus interesses religiosos, era o caminho mais curto remiti-las ao juízo do Papa, prometendo fazer executar sua sentença, e também nos demonstra o erro em que se achavam os que pretendiam que a Igreja não possuía nos primeiros tempos bens de raízes.
Instigado este imperador pelos pagãos, achava-se a ponto de firmar um terrível decreto contra os cristãos, porém aterrorizado por um raio caído a seus pés, suspendeu por momentos semelhante edito, ainda que o firmou pouco depois. Passado algum tempo, foi Aureliano assassinado por seu secretário, e assim concluiu a perseguição. Ano 275.

Heresia de Manes - A heresia dos maniqueus é assim chamada por causa do seu autor, Manes. Nascido escravo na Persia, resgatou-o uma viúva cuidadosa, que não tendo filhos, o adotou e nomeou herdeiro de suas grandes riquezas. Entre as demais coisas que herdou, encontrou Manes um livro de que tirou as extravagâncias mais infames.
Acreditando com isto ter-se tornado um homem divino, chamava-se paráclito, isto é, luz do gênero humano; ensinava que existem dois deuses, um bom e autor do bem, e outro mau e autor do mal.
Proscrevia a esmola, os Sacramentos, o culto das santas imagens e negava a Encarnação de Jesus Cristo. Tendo a cabeça cheia de ridicularias, pretendeu também fazer milagres, e se ofereceu para curar o filho de seu rei perigosamente enfermo; porém o menino morreu e o impostor foi preso. Tendo conseguído iludir a vigilância de seus carcereiros, fugiu do cárcere, retirou-se do reino e para dar crédito a seus erros foi disputar com o bispo de Cesareia, e mais tarde com São Trifônio; porém ambos o confundiram e o cobriram de vergonha. O povo, irritado por suas blasfêmias, ameaçou apedrejá-lo; então ele fugiu e voltou a Pérsia, onde caiu em mãos do rei, que ordenou que o esfolassem vivo. Seu corpo foi atirado as feras, e sua pele foi colocada em uma porta da cidade. (277). Mas desgraçadamente não morreu com ele o sistema de suas absurdas doutrinas; e a seita dos maniqueus se propagou de tal modo, que dez séculos mais tarde, ainda causou grandíssimos trabalhos à Igreja.