17 de outubro de 2014

XXIII - AS ALMAS DO PURGATÓRIO

A causa das almas do Purgatório é por si mesmo recomendada a todos que têm fé e coração. Eu vos proponho a considerar antes o excesso das penas daquelas almas purgantes, depois a facilidade que vós tendes para liberá-las, enfim a utilidade que virá a vós do socorro a elas prestado.
1. Tormentosa prisão das almas padecentes
Eis abertas aos olhos da vossa piedosa consideração aquele cárcere tormentoso onde estão as almas dos nossos irmãos que passaram desta vida embora vestidos da veste nupcial da caridade e da graça, não porém ainda plenamente purificadas e dispostas para subir ao céu. Ó Deus que espetáculo de
terna compaixão! Imaginai qualquer prisão, a mais horrorosa, a mais obscura, a mais estreita; finalmente não haverá mais prisão de fogo neste mundo como existe para aquelas almas que estão se purificando. Quem pudesse manter vivo um dia inteiro um condenado dentro de uma fornalha acesa? Que pena se poderia igualar a este? Que direis, pois, daquelas almas que não por um dia, mas por meses, por anos, até por séculos são presas pela Justiça divina naquelas chamas? Ó justiça divina, quão pouco sois temida pelos homens! Ó grande Deus, porque Vós quase disfarçais nesta vida nossas culpas para dar-nos lugar de penitência, e sois um recompensador paciente e longânime, nós nos confiamos em aumentar diariamente as dívidas com a vossa terrível Justiça sem jamais pensar em
satisfazer as já contraídas; contentes por haver obtido no sacramento a remissão das culpas e da pena eterna, pouco nos cuidamos de que nos reste para descontar ainda grande parte da pena temporal; antes por suma negligência continuamos repetindo; porque nos livra do inferno, e nos dá segurança de ir ao Paraíso, se também depois da morte nos permaneceremos no Purgatório até que Deus queira,
nós nos contentamos. Ó preguiça! Ó insensibilidade!
2. - A nossa purificação se faz ou pela água ou pelo fogo
Se alguém nos propusesse de nos lavar ou com água ou com fogo, o que escolheríamos? Certamente com água. E enquanto Deus por sua misericórdia se satisfaz que nós nesta vida nos lavemos perfeitamente com a água das nossas lágrimas e de uma voluntária penitência, nós escolheremos todavia de sermos lavados com o fogo da sua Justiça? E se não podemos agüentar a pontinha de um
dedo por um breve quarto de hora sobre a ponta de uma lânguida chama doméstica, como poderemos aturar sem gravíssimos espasmos no fogo purificador da outra vida por semanas, meses, anos e mais ainda? Neste fogo se encontram agora mesmo em que estamos pensando tantas almas a nós ligadas pela fé, pela caridade e ainda pelo sangue. E não se presta atenção.
3. - A pena dos sentidos
Eis, portanto, como falam os Santos Doutores e os sereníssimos padres da Igreja daqueles tormentos.
S. Agostinho diz abertamente ser aquele fogo tão acerbo que supera toda pena que os homens no mundo jamais sentiram ou possam sofrer, e que a pena de todos os mártires e de todas as outras pessoas e criaturas são um nada em comparação com a pena do Purgatório (2); e que há tanta diferença entre o nosso fogo natural, e o Purgatório quanto existe entre o fogo na pintura e o fogo
verdadeiro. S. Cirilo acrescenta, que se todas as penas que se possam imaginar neste mundo e quanto mais tormentos e aflições se comparem com a menor pena que se sente no Purgatório, ficaríamos imediatamente aliviados. Por isso qualquer dos viventes, se conhecesse por experiência aquelas penas, preferiria ser atormentado ao mesmo tempo por todas as penas que todos os homens sofreram
de Adão até hoje sem conforto até o fim do mundo, antes que um só dia ser atormentado no Purgatório pela menor pena que lá se encontra. O próprio S. Gregório confirma, e assim escreve: "Eu julgo que aquele fogo transitório seja mais intolerável que todas as tribulações desta vida". E o Venerável Beda enfim conclui também ele com toda franqueza que a correção que se fará no Purgatório é muito mais grave que tudo mais que sofreram os condenados pela severa justiça dos homens, ou os santos mártires da bárbara crueldade dos tiranos, e de tudo mais de mais acerbo e desapiedado o homem possa imaginar.
4. - A pena da condenação
Contudo segundo aquilo que comumente sentem os Padres e Doutores, a pena da condenação que sofrem estas benditas almas no seu exílio do céu, supera de longe toda a pena do sentido, mesmo assim horríveis. O que dizeis então, irmãos? Não parece que a miséria extrema destas almas não mereça toda a vossa compaixão? Vós sois tão bem disposto por natureza, que se pela estrada chegasse a ver um jumento que caiu debaixo da carga, procura logo quem o ajude, ou senão correis vós mesmos para ajudá-lo. Agora vendo caído lá naquele fogo o vosso próximo, e gemendo sob o peso de tão excessiva tribulação, duvidarei eu que não vos esforceis para livrá-lo incontinente?
5. - Lamento das almas que estão se purificando
Assim pudesse eu fazer ouvir um só daqueles suspiros, um só daqueles gemidos com que estendem a vós suplicantes suas mãos, aquelas almas desconsoladas que confiam em vós e invocam o vosso socorro. É possível - dizem entre si - que tantos nossos amigos que deixemos vivos no mundo, e que
alastravam tanto zelo e tanto afeto por nós, esqueçam de nós justamente agora que temos mais necessidade? Possível - diz aquele pai - que meu filho seja tão ingrato, tão indiferente, que tenha sepultado minha memória juntamente com meus ossos? Porém prometeu no meu leito de morte que jamais se esqueceria de rezar por mim. Possível - diz aquela mãe - que a minha querida filha a quem tanto me recomendei, venha agora deixar-me sofrer ainda mais nestas chamas? Assim vai dizendo aquele marido; aquele irmão, aquela irmã, do outro irmão, da outra irmã; e levantam com piedosos gritos sua voz à semelhança de Jó: "Piedade de mim, piedade de mim, ao menos vós meus amigos". Ai tende piedade, compaixão de nossas penas, ó amigos viventes, "porque a mão do Senhor me atingiu" (Jó 19, 21); porque a mão do Senhor justíssimo nos atingiu com inenarráveis tormentos. Oh! vós desatais estes vínculos que nos mantém ligados a estes tormentos, e longe da nossa felicidade. Vós, diminuí ao menos o tempo desta nossa penosa demora, acelerai o nosso descanso, a nossa glória, vós que vivendo na terra podeis-merecer e expiar também por nós. Pois, para nós, já expirou junto com a vida o tempo do merecimento; a nós já chegou a noite quando "ninguém pode trabalhar" (Jo 9, 4). Toda nossa confiança está em vós. Está em vossas mãos o aliviar-nos destas penas, o abrir-nos as desejadas portas do Céu.
6 - Exemplos
Ah! Fiéis! Quem de vós terá coração tão duro que resista às orações compassivas destes míseros nossos irmãos? Mas talvez será tão difícil este alívio? Custar-nos-á muito sua libertação? Conta S. Gregório nos seus Diálogos sobre aquele padre de nome Santolo, e na verdade grande santo, que para libertar um diácono seu amigo da morte cruel que lhe preparavam os Longobardos, encontrou primeiro um meio de tornar-se ele próprio fiador por ele, e, portanto, fazê-lo fugir ficando ele assim exposto, por sua vez aos tormentos e à morte, se Deus com um manifesto milagre não o tivesse
tirado no momento (6). Foi este um ato do mais perfeito amor, tendo o próprio Cristo dito "ninguém tem maior amor do que aquele que dá sua vida por seus amigos" (Jo 15, 13). Devemos nós fazer a mesma coisa? Ah! Muito menos se requer de nós para libertar os nossos amigos do fogo acerbo do Purgatório. Leiamos ainda S. Paulino de Nola que resgatava com suma profusão de esmolas os escravos cristãos das ferozes cadeias dos Vândalos; e gasto todo o patrimônio e o que tinha no mundo nesta tão excelsa e excelente misericórdia, finalmente para libertar o filho daquela viúva vendeu-se ele mesmo como escravo. Teremos nós que perder a liberdade? Perder todos os nossos bens para tirar
as almas dos nossos irmãos daquela terrível prisão? Não. Todas as obras satisfatórias pelos defuntos podem reduzir-se a estes três: sacrifícios, esmolas, orações. Judas, o Macabeu, mandou a Jerusalém dez mil dracmas de prata para que fossem oferecidos sacrifícios de expiação para os soldados mortos na guerra. E a Sagrada Escritura louva esta ação com aquele famoso epifonema: "É santo e saudável rezar pelos defuntos para que sejam perdoados de seus pecados"(2 Mac 12, 46). Tanto dinheiro que se joga na jogatina, na gula, na vaidade se se aplicasse em tantas Missas, em tantas esmolas para alívio das almas do Purgatório, oh! quanto se tiraria daquelas angústias, a quantas se diminuiria suas penas! S. Gregório, no quarto livro do supracitado Diálogo, narra como tendo ele ordenado por trinta dias contínuos uma missa ao dia por alma do monge Justo falecido no seu mosteiro de S. André, foi depois revelado ao irmão do mesmo monge no trigésimo dia, justamente terminada a última Missa, ter sido sua alma, livre de toda pena, voado ao céu. E S. Bernardo refere de S. Malaquias que celebrando este por sua irmã cada vez diminuíam as penas, até que, finda toda a dívida foi admitida à glória.
7. - Sufrágios
O que, pois, nos pedem de pesado estes mortos, se nos pedem algumas missas, algumas esmolas? Na maioria das vezes não nos pedem nada de nosso, exigem somente os seus próprios. A solução daqueles legados piedosos confiados à nossa fé nos testamentos. Pedem às vezes pequena parte daquele muito que com tantos esforços conseguiram, e com tanta diligência conservaram para nós.
Dirá talvez alguém ser totalmente pobre? Nas quem te proíbe, irmão, de rezar pelos defuntos? A oração é a chave para abrir aquelas felizes portas do Paraíso não só a ti, mas também ao teu próximo. Reza, pois, suplica, esconjura pelo teu próximo, sofrendo no purgatório. Não se exige muito sacrifício, para rezar. Pode-se fazer em qualquer lugar, em qualquer hora, em qualquer circunstância. Não nos custará muito aplicar àquelas almas uma boa obra, uma comunhão, uma indulgência, recitar
algum Salmo, algum terço, elevar para eles de quando em quando, o nosso espírito a Deus. Quanta coisa boa tiraremos para nós mesmos!
8. - Vantagens espirituais em sufragar as almas
A própria ação que fazeis rezando pelos defuntos não vos merece imediatamente um aumento de graça e acréscimo de glória se sois justos? Este é de fato um ato de caridade e de misericórdia o mais excelente. Ouvi S. Agostinho: Um dos mais santos exercícios e um dos cuidados mais piedosos em que se pode o homem exercitar nesta vida, é oferecer sacrifícios, esmolas, e rezar pelos defuntos que estão no Purgatório, dos quais somos irmãos. Discorramos, se vos agradar, por cada uma das obras de misericórdia, coisa boa é alimentar os famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus. Não será
maior merecimento alimentar aquelas almas justas famintas e em jejum, do pão dos  Anjos? Abrir-lhes com nossas orações a fonte de água viva da qual têm sede? Vesti-las e coroá-las de glória imortal? Grande merecimento hospedar os peregrinos, visitar os encarcerados, consolar os enfermos. Não será merecimento muito maior conduzir estas almas todas alegres e felizes para a casa do Senhor? Tirá-las de uma prisão de fogo? Confortar as aflitas e lânguidas de amor divino, mostrando-lhes a desejada face do seu Dileto. Se é assim também tão meritório sepultar os mortos; de quão mais excelso merecimento não será tirar aquelas almas daquela profunda fossa de cruéis tormentos e colocá-las em paz para repousar no seio de Deus? Devo dizer ainda mais: somente o pensamento que se forma em nossa mente de libertar, como movido ou seguido de uma piedosa vontade, é de um merecimento singular: "santo e salutar pensamento" diz de fato o próprio Espírito Santo. Julgai vós pois qual seja o lucro que faz aquele homem, aquela mulher de bem, que com suas, orações, com seus sacrifícios, com suas esmolas chega ao efeito de livrar mesmo uma só daquelas nobres prisioneiras. Ajuntai ao merecimento da ação a recompensa que renderão aquelas santas almas, ao seu benfeitor,
quando chegarem ao céu. ."Fazei o bem para o justo, e disso terás grande recompensa", diz o Espírito Santo (Eclo 13, 2). Que orações fervorosas não elevarão ao seu Altíssimo Senhor pela salvação daquele que acelerou-lhe a posse daquela glória! De quantos perigos não será ele preservado! De quantos eficazes auxílios e suaves confortos fornecido! Na hora da sua morte, naquela grande
jornada campal e decisiva, como será defendido! Naquela amarga agonia, como será consolado! Naquele tremendo juízo, como será patrocinado! Nem certamente permitirão que demore muito naquele fogo de purgação aquele por cujo intermédio foram elas mesmas tiradas antes do tempo. Mas lhe sairão ao encontro porfiando em apresentar-lhe suas mãos, e introduzi-lo e acolhê -lo nos eternos tabernáculos. Mas onde deixo a recompensa suma que conseguirão do próprio Deus os libertadores misericordiosos das suas filhas mais queridas? Deus de fato - que pela sua infinita justiça atormenta aquelas almas para purificá-las - pela sua infinita misericórdia porém as ama; procura subtraí-las de todo modo de sua vara de correção, e nada mais deseja que encontrar mediadores, intermediários que satisfaçam, que rezem, que esconjurem por elas. Não se pode mais impelir aquele coração de Pai tão amoroso, que acelerando a tantos exilados seus filhos a entrada em sua casa. Com que olhares de predileção, de amor, de complacência, não deve ele contemplar todos aqueles que se esforçam para cumprir os desejos mais ardentes de sua caridade!
9. - Vantagens temporais em sufragar as almas
Quereis agora que vos fale da utilidade temporal? Parece-me de fato supérfluo descer em pormenores aos menores e simples favores que se devem esperar da beneficentíssima mão do supremo Patrão, aqueles que empenharam o seu amoroso coração. Tenham certeza de não serem jamais abandonados em suas necessidades, esquecidos nas suas súplicas, não ouvidos nos seus desejos, aqueles homens piedosos e misericordiosos que com esta caridade usada com seus irmãos falecidos se foram afortunadamente tornando credores do seu Deus. "O que fizerdes a um dos meus mais pequeninos, a mim o fizestes" (Mt, 15, 40).
10. - Propósitos
Eia, pois, conclua cada um de nós com as palavras de São Bernardo: "levantarei em auxílio deles"; "sim, levantarei em auxílio daquelas almas; interpelarei com gemidos, implorarei com suspiros, intercederei com orações, satisfarei com o sacrifício singular, se assim me acontecer - como eu espero - de mover o coração de Deus e olhar suas aflições e a julgar propício em seu favor; a fim de que transforme o trabalho em repouso, a miséria em glória, os flagelos em coroa. De fato com estes
e semelhantes ofícios se pode aliviar sua miséria, terminar seu trabalho, tirar as penas". Assim seja.

16 de outubro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni.

XXII - AMOR E RESPEITO AOS MINISTROS DE DEUS

1. - Na dignidade do sacerdote se honra o dom de Deus
Por opinião constante dos homens não menos que por sentença infalível do Evangelho, quem exalta a si mesmo é julgado digno de opróbrio e humilhações: "Quem se exalta será humilhado" (Lc 3, 5). Não porém quem é exaltado por Deus; pois este ao contrário possui um justo e fundado direito àquela honra e àquela glória, que - como sombra do verdadeiro merecimento - o vai sempre seguindo
passo a passo. Pois neste caso - se bem se considera - não se honra já o que é do homem, mas sim o que é de Deus no homem; e os dons de Deus merecem sempre toda estima, toda reverência dos homens, onde sejam colocados pela sua altíssima Providência. Ora como de um lado não encontro quem Deus tenha querido exaltar sobre esta terra mais que seus sacerdotes; assim por outro não sei ver como, sem tornar-se culpados de uma presunção insofrível e sem danificar, pois, muito suas
consciências, possam tantos e tantas entre os nossos cristãos mostrar conhecer tão pouco e venerar tão menos uma dignidade tão sublime e um caráter tão soberano.
2. - O sacerdote é ministro e embaixador de Cristo
Que vós deveis, meus irmãos, urna obsequiosa sujeição aos sacerdotes, aparece em primeiro lugar da dignidade sobre-humana de que foram investidos pelo Altíssimo Rei do Céu e da terra; "Que os homens nos considerem, pois, como simples operários de Cristo e administradores dos mistérios de Deus" (1Cor 4, 1). Esta é a justa idéia que deve formar o povo cristão dos sacerdotes. Quando vê um
deles deveria dizer: eis um ministro de Cristo, um dispensador dos mistérios celestes; eis um embaixador do Supremo Monarca, como em um outro lugar se expressa o Apóstolo, onde disse: "desempenhamos o encargo de embaixadores em nome de Cristo, e é Deus mesmo que exorta por nosso intermédio" (1Cor 5, 20). Ora se aos ministros de um rei terreno e aos seus embaixadores se atribui tanta honra e respeito por todos os súditos, que obséquio pensais vós, que reverência pode convir a estes ministros tanto mais ilustres de uma corte não terrena, mas celeste? De fato se os príncipes deste mundo são tão solícitos para que aos seus legados seja concedido quase uma honra semelhante à que é devida às suas augustas pessoas, e se punem os ultrajes com a mesma severidade que costumam punir os próprios; não de outro modo fez Deus querido se trata das honras devidas aos seus Ministros.
3. - Deus impõe o respeito aos seus sacerdotes
Atendei à força das palavras com que Ele mesmo cria uma lei no Eclesiástico: "Teme a Deus com toda tua alma, tem um profundo respeito pelos seus sacerdotes. Ama com todas as tuas forças aquele que te criou; não abandones os seus ministros. Honra a Deus com toda a tua alma, respeita os sacerdotes" (7, 31-33). Três vezes repete o mesmo preceito; e tantas vezes manda que ele seja amado,
reverenciado, temido, outras tantas manda que sejam honrados os seus ministros; mostrando assim com evidência que depois de Deus em primeiro lugar se deve honra, reverência, amor àqueles que Ele mesmo o constituiu para fazer suas vezes aqui e representar a nós a sua imagem sobre a terra. Pois se Deus na antiga Lei mandou que os blasfemadores do seu divino nome fossem apedrejados (Lv 24, 16) julgou também que o faltar ao respeito com os sacerdotes fosse caso não menos digno de morte (Dt 17, 12).
4. - O sacerdote tem poder sobre o corpo místico e sobre o corpo real de Cristo
Basta de fato refletir sobre aquela autoridade soberana, ou melhor, divina, que Cristo lhes comunicou, para que fiquemos convencidos ser muito escassa toda reverência que podemos tributar ao tão eminente caráter deles. Quando o divino Redentor curou aquele paralítico de que faz menção o Evangelho, todo aquele povo espectador, quase perdendo de vista um fato por outro tão estrepitoso, ficou admirado ao considerar aquelas honrosas palavras: "Teus pecados te são perdoados", com que o Médico celeste entendeu curar naquele enfermo, antes a alma que o corpo; e começaram a dizer entre si: "E quem é este homem que perdoa também os pecados? Quem pode perdoar os pecados senão somente Deus?" (Lc 9, 20-21). E vede também uma autoridade tão própria só de Deus com igual extensão Ele quis comunicar aos sacerdotes: "Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles à quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (Jo 20, 23). Que príncipe, que rei sobre a terra tem tanto poder; antes a que santo ou a qual Anjo do céu, a quem tenha sido concedido uma autoridade tão sublime sobre o corpo místico da Igreja? Aliás que maravilha, que Deus tenha querido sujeitar à autoridade sacerdotal todos os súditos do amplo reino de sua Igreja, quando parece que sujeitou-se Ele mesmo que é seu Soberano?Oh! Excelsa, oh! Sublime, oh! Inefável dignidade dos Sacerdotes! Chamam-no eles do céu à terra o seu Deus, e ele obedece "obedeceu o Senhor à voz de um homem" (Js 10, 14) - e assim quase debaixo deles se inclina até ser manejado e bendito ainda pelas suas mãos.
5. - Os fiéis recebem todo bem em relação à salvação pelas mãos dos sacerdotes
Eu sei, irmãos, que se até agora apresentei-vos valiosos argumentos para submeter-vos de bom grado à autoridade de vossos Sacerdotes e reverenciar neles um tão augusto caráter; com esta última razão que apresentei dei quase a todas as outras coroa e complementação. Não obstante não cessarei de investigar outras ainda pois a vós mesmos muito importa uma sujeição tão devota. Dizei-me, que bem podereis esperar em relação à vossa salvação sem uma tão justa dependência, quando todo bem que até agora recebestes não vos veio por outras mãos senão pelas dos sacerdotes? Pois assim argumenta S. João Crisóstomo: "se ninguém pode entrar no Reino dos céus, sem antes ter renascido pela água e pelo Espírito Santo (Jo 3, 5) e se alguém não comer a Carne do Senhor está privado da vida eterna (Jo 6, 53), nem estas coisas se cumprem por outro meio senão por aquelas mãos santas dos sacerdotes; quem mais poderá evitar o fogo inextinguível do inferno sem o auxílio deles? Ou conseguir a inacessível coroa preparada lá em cima? Os sacerdotes portanto, vos regeneraram pelo S. Batismo; e por meio deles vos revestistes de Jesus Cristo, e vos tornastes membro daquela santa Cabeça. Os vossos pais vos geraram para a terra, eles para o céu. Aqueles vos deram uma vida que não podem
defender das doenças que assaltam e muito menos, depois, da morte; estes muitas vezes salvaram vossa alma enferma; já moribunda, antes morta de fato, à graça e já às portas do inferno para ser aí eternamente sepultada, a restituíram à vida, arrancando-a das mãos do demônio, fecharam as portas daquele horrendo cárcere, e reabriram as do céu; nuas, esquálidas, disformes, a revestiram dos primeiros dons e da beleza perdida". Se vós agora já estais crescidos e cheios de riquezas espirituais, são eles que vos alimentaram e ainda vos nutrem com o alimento salutar da divina Palavra,
eles vos preparam cada dia aquele banquete substancial, e pelas suas mãos vos é administrado o pão dos Anjos. Se vós repousais seguros no seio da paz do vosso coração, se não prevalecem vossos inimigos prejudicando vosso espírito, se entre as ameaças de uma justiça divina irritada se apresenta ao mundo com aparência propícia ainda a Misericórdia; são os sacerdotes que apresentam ao Altíssimo preces cotidianas por ofício, eficacíssimas por instituição, pela paz comum e tranqüilidade; eles que oferecem cada dia sobre os altares aquela Hóstia tão aceita ao divino Pai para aplacá-lo enfurecido com os pecadores, para incliná-Lo favorável aos desejos dos justos, para abrir em suma uma inexaurível mina de graças às necessidades espirituais e temporais de todos; eles enfim que velam - talvez os únicos e sós - sobre o bem mais interessante da salvação de vossa alma, da qual se empenharam para prestar detalhada conta ao severo Juiz, como da própria.
6. - Os sacerdotes têm necessidade de serem mantidos pela oração dos fiéis
Se a evidência das razões por mim aduzidas fez nascer em vós um sentimento de grande veneração pelo caráter e autoridade sacerdotal, isto enfim não se torna senão unicamente em vossa vantagem. Os sacerdotes não tiram lucro disso; porque sejam eles reverenciados ou não pelos homens, isto não lhes acrescenta nem diminui "o louvor de Deus, que somente este os recomenda" (2 Cor 10, 18).
Aliás, direi mais. Tornar-se-lhe-ia favorável - se isto pudesse ser desejado sem vosso prejuízo - ser por vós vilipendiado e menos estimados, enquanto a verdade nos faz saber que "Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos ultrajarem, e quando repelirem o vosso nome como infame por causa do Filho do Homem! Porque então grande é vosso galardão no
céu" (Lc 6, 22-23). A nossa única maior utilidade, antes a única que podemos desejar sabeis qual seja? Eu vos direi: se, ajudando nós o nosso próximo a conseguir a salvação, nós também seremos com recíproco esforço ajudados a consegui-la pelas suas orações. Porque se nós somos superiores a vós por dignidade e quase anjos pelo ofício, somos homens por condição, iguais a vós por natureza. Nos oprimem por todos os lados as mesmas tribulações; nos assediam os mesmos inimigos; nos
ameaçam os mesmos perigos, senão maiores. Sim, irmãos, se a vós é impossível obter graça e salvação sem nós, quanto a mim pelo menos, eu não duvido afirmar temer eu muito que a minha negligência e tepidez, debaixo de um cargo tão excedente, não me perca diante daquele Juiz que se protesta querer ter "um juízo duríssimo com aqueles mesmos que Ele elegeu para ser superior" (Sb 6, 6) por dignidade aos outros; a menos que as orações de muitos não precedam para que ele se torne a mim mais propício e mais aplicado. Nós, certamente, diante daquele robusto cedro do Líbano - quero dizer o Apóstolo Paulo - não somos senão frágeis abetos (cf Zc 11, 2); contudo ele em tantas cartas não pede outras coisas aos fiéis, quase como recompensa de tantos trabalhos e solicitudes, senão que rezem incessantemente por ele, como se tivesse necessidade de ser sustentado pelas orações de todo o mundo ele que a todo mundo havia estendido a feliz sombra do seu mais paterno cuidado. Animados, portanto, por um tal exemplo, nós também exortamos vossa caridade para não defraudar as nossas - embora elas quase não existam - pequenas fadigas por vós nesta mercê a nós tão necessária. Rezai, sim, rezai ao Senhor por todos os vossos Sacerdotes de modo especial por aqueles que exteriormente ou interiormente presidem os bens do vosso espírito; nem queirais esquecer deste - embora inútil - ministro que vos fala, como o mais necessitado de todos "a fim de não vir eu mesmo a ser excluído depois de eu ter pregado aos outros" (1Cor 9, 27).

15 de outubro de 2014

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni.

XXI - A CARIDADE PARA COM O PRÓXIMO SUGERIDA PELO EXEMPLO DE
SÃO LUIZ GONZAGA.

1. - A caridade é a coroa de todas as virtudes
Uma virginal pureza toda angelical, um heróico rigor de penitência, uma altíssima e quase imóvel contemplação de espírito, e outras virtudes semelhantes; eis os dons que vos propondes venerar e imitar em S. Luiz Gonzaga como os mais excelsos e mais perfeitos. Todavia, sustentado, por uma doutrina tão certa quanto clara do Apóstolo, eu venho propor-vos para imitar neste Santo dons maiores e para mostrar-vos uma estrada mais excelente para chegar - quando quiserdes - àquele alto ponto de perfeição a que já mirais, tão felizmente conseguido. Ouvi a palavra do Apóstolo: "Porém a maior delas é a caridade" (1Cor 13, 13). A caridade é de fato a forma, o complemento, a coroa de todas as virtudes.
2. - Definição da caridade
A caridade é uma perfeita amizade que passa entre nós e Deus. Ela, porém, em vista de Deus, se estende ainda ao nosso próximo como coisa toda de Deus, e a Deus pertencente, sendo ele criado por Deus à sua imagem, redimido com seu sangue, e feito por Ele capaz juntamente conosco, da eterna felicidade; em cuja comunhão todo este santo amor é fundado. Desta santa amizade de caridade, em
quanto se estende ao nosso próximo, devo eu unicamente falar; e quero antes mostrá-la como um vivo retrato, como exatamente o Apóstolo no-la descreveu.
3. - Descrição da caridade
A caridade - diz S. Paulo - em primeiro lugar é PACIENTE para suportar os defeitos do próximo. É BENIGNA para ganhar com doçura a Cristo as almas de seus irmãos. Desejando sua eterna salvação, e com esta todo bem, não inveja a sua prosperidade: "Não tem INVEJA". Para não dar a eles ocasião de tropeço no caminho da salvação, guarda-se de agir mal: "não é ORGULHOSA". Não se orgulha
jamais por qualquer dote de alma ou de corpo desprezando os seus irmãos: "não é ARROGANTE". "Não é AMBICIOSA" em dominar e sobrepujar sobre os outros. Antes para servir piamente a eles, toda solícita pela sua vantagem, "NÃO BUSCA SEUS PRÓPRIOS INTERESSES". Provocada pelas injúrias "Não se IRRITA" para vingar-se. "NÃO PENSA MAL de ninguém," mas interpreta tudo do melhor modo, salva a verdade, procurando somente sua emenda. Chorando os pecados do próximo quase como seus próprios, "NÃO SE ALEGRA COM A INJUSTIÇA", mas favorecendo as verdadeiras virtudes do próximo se congratula e se "REJUBILA COM A VERDADE". Enfim tudo ela sofre; tudo crê; tudo espera; tudo suporta" (1 Cor 13, 47), por amor do seu próximo, quando se trata de procurar a ele o verdadeiro bem; que é principalmente a graça nesta vida e a glória na futura; sabendo com isto dar grande prazer a Deus por amor de quem ela é suavemente levada a amar seu
próximo.
4. - Caráter próprio e especial da caridade
Afora destes caracteres contentai-vos que eu escolha um só; mas - segundo o que me parece - o mais próprio e especial: "a caridade não busca seus próprios interesses". Quem ama com verdadeira amizade deve procurar o útil do amigo; enquanto aquele que procura o útil e o prazer próprio no amigo, esta ama a si mesma, mas não o amigo. Não podemos desejar prova mais luminosa do que a que Luiz deu quando, ocorreu em Roma aquele tão mortífero contágio, ele mostrou cuidar muito pouco de sua própria vida, expondo-a para conforto de seu próximo aflito onde justamente com maior força aquele mal enfurecia nos hospitais públicos, de maneira que a perdeu em breve tempo, colhido ele mesmo no morticínio comum. "A caridade não busca seus próprios interesses". Mas que maravilha que ele por amor do seu próximo tenha dado com um ato tão excelso de perfeição naquela vida que ele muito mais de boa vontade desejava trocar com a perfeita união com Cristo? Bem mais é para se admirar que, chamado com extraordinário dom a gozar de uma união toda celestial com Deus também aqui na terra, chegasse até a privar ao menos em parte seu espírito desta doçura por puro zelo da salvação das almas dos seus irmãos. Não outro motivo de fato o fez abandonar o pensamento já formado - segundo a mais doce inclinação dos seus afetos - de entrar em um claustro de pacífica solitária contemplação, se não a caridade; que ao invés o levou a dar seu nome à companhia de Jesus pouco antes instituída por aquele grande Santo e forte campeão de Cristo, Inácio de Loyola; onde novos guerreiros se adestravam, em um quase perfeito exercício de apostólica disciplina, para sair em campo aberto diante dos vícios, e a suster o peso das mais árduas e cansativas expedições. Ó amor! Ó
zelo! Ó caridade não indigna do apostólico coração de um Paulo.
5. - A nossa caridade
Diante de tão grande lume eu não vislumbro mais a nossa caridade. Ela me perece apenas como uma lânguida chama. Quem de fato entre nós que, não direi já esteja disposto a dar também ele deste modo a vida por amor do seu próximo - que é próprio dos perfeitos - mas que dê de boa vontade o supérfluo daquelas riquezas que dissipa, e sustente o seu irmão lânguido pela fome? Não seria senão o simples preceito! Quem é que por zelo de salvação de seus irmãos, não direi renuncie a doçura espiritual e medite extraordinárias empresas; mas que com o uso discreto da correção fraterna, com
bom exemplo ao menos e com as orações cuide de "ajudar o próximo conforme suas posses?" (Eclo 29, 27). Não seria também nesta parte - sem ultrapassá-lo - o preceito tão rigoroso com que Deus "impôs a cada um deveres para com o próximo"(Id, 17,13). Eia, pois, isto só, a que vos obriga o preceito, só este pouco e não mais quero propor-vos; que possais de algum modo imitar em S. Luiz aquela caridade que principalmente se distingue em não procurar "o que é seu" para procurar o útil do
seu próximo. Mas, oh! Deus! Todos hoje em dia nada procuram fora seus interesses, seus
gostos, sua própria utilidade! "Todos procuram sus próprios interesses" (Fl 2, 21). Que farei eu, pois? Desanimarei? Pararei o trabalho? Eis que eu quero prendê-los com suas próprias redes. Vós, pois, nada mais procurais senão vossa utilidade. Pois bem, eu vos digo que jamais podeis ter a vossa utilidade, enquanto não cuideis das do vosso próximo.
6. - Deus ligou todas as nossas vantagens ao cuidado que temos com nosso
próximo
Vós deveis conceder-me que todas as vossas vantagens estão na mão de Deus, e dependem de Deus. Das espirituais já está manifesto, quanto às temporais, muito claro falou S. Paulo, quando disse que "nem quem planta, nem quem cultiva é alguma coisa" mas sim "aquele que dá incremento", que é Deus (1Cor 3, 7). Na mão de Deus estão as estações propicias ou adversas, as chuvas fecundas ou os granizos desoladores, as guerras mais desastrosas ou a paz amiga das artes e do comércio, e tantas outras coisas semelhantes, independentes de fato do trabalho humano, e sujeitas só à livre vontade providencial do céu, que porém concorrem para nossa utilidade ou prejuízo. Agora que direis se Deus tivesse ligado todas as nossas vantagens ao cuidado que devemos ter com nosso próximo? Mas assim é; e eu recorro às Escrituras, que é o mesmo que dizer ser seus imutáveis decretos. Encontrarei portanto escrito assim nos Provérbios: "o que dá ao pobre, não padecerá penúria" ( 28, 27). Para confirmar vede Malaquias: "Fazei a experiência, diz o Senhor dos exércitos, e vereis se não vos abro os reservatórios do céu e se não derramo a minha bênção sobre vós muito além do necessário" (3,10). Ao contrário nos mesmos Provérbios está igualmente escrito daquele que despreza as orações do seu próximo necessitado, que ", padecerá penúria" (28, 27) ele próprio. Vamos agora às vantagens espirituais que são as mais desejáveis. Deus mesmo falando em Isaías do homem benéfico para com seu próximo aflito, diz que a alma dele será como um belo jardim irrigado por uma fonte de água perene (58, 2). E uma outra vez ainda nos Provérbios, "Quem se faz de surdo aos gritos do pobre" protesta que quando ele mesmo for gritar ao trono das suas misericórdias, "não será ouvido" (21, 1. 3). Ouvi finalmente a Nova Lei: "Na medida em que medirdes os outros sereis medidos" (Mt 7, 2); assim nos Evangelhos. E na epístola católica de S. Tiago: "Orai uns pelos outros para serdes curados". E aí depois de haver mostrado de quanta eficácia seja tal oração, conclui com este motivo: "Saibais que aquele que fizer um pecador retroceder do seu erro, salvará sua alma da morte e fará desaparecer uma multidão de pecados" (Tg 5, 16, 20). E notai aqui onde nós lemos: "salvará a alma
dele", são muitos os que lêem: "sua alma", admitindo o texto grego ambas as leituras. Assim então vem o sentido: "Salvará sua alma quem converter o outro" ou rezando, ou instruindo, ou arrastando pelo exemplo e com outras indústrias caridosas, como também observam os intérpretes. Notai ainda aquelas palavras: "e fará desaparecer uma multidão de pecados", são explicadas pela Escritura em outro lugar onde diz: "A caridade sobre a multidão dos pecados " (1Pd 4, 8), todos sim todos. "Cobre os do próximo - prossegue um douto expositor (2) - passados os presentes com a penitência, e os futuros com a cautela: isto é os veniais se somos justos, e as penas devidas pelos pecados passados; e faz que se afastem as ocasiões e os perigos de cair no futuro. E se nós formos pecadores, este nosso
esforço, esta solicitude e ardor em converter o próximo, provoca, excita, e por assim dizer merece por uma certa conveniência de Deus a graça eficaz com a qual somos nós mesmos excitados a detestar os primeiros pecados e a mudar para uma vida melhor". Daí o Damasceno destas palavras de S. Tiago ensina que "o certíssimo modo de acabar com nossos pecados é o esforço para acabar com os pecados
alheios". Tal é, pois, o sentimento constante de S. João Crisóstomo em muitíssimos
lugares, e dos intérpretes mais acreditados neste ponto. Que vos parece agora, irmãos? que podeis vós querer de mais claro, de mais uniforme, de mais expresso? Fixai bem na mente que quem quer a própria utilidade deve procurar a do seu próximo, e que o "não procurar o que é seu", como ensina a
caridade, é justamente o verdadeiro, antes o único caminho para conseguí-lo.
7. - Sede solícitos uns com os outros como membros do mesmo corpo
Eia, pois, amantíssimos irmãos em Cristo, eu vos falarei mais com o coração que com os lábios; eis, pois, começai desde agora a tomar aquele cuidado amoroso do vosso próximo que vos é tão altamente recomendado pelo vosso Deus. Resolvei-vos pelo menos por utilidade vossa; embora vós o devereis pelo amor de nosso amabilíssimo Pai comum que vos manda. Mas vede, porém, assim urge ao seu providencial afeto este cuidado recíproco, que, quando não fosse suficiente a doçura do seu amor, não duvidou de impeli-los com a própria necessidade do vosso interesse. "Vós sois um só corpo,
concluirei com S. Paulo, como com suas palavras comecei, e como com sua doutrina conduzi este meu simples falar. "Vós sois um só corpo"; portanto como membros deveis ser "solícitos" uns aos outros; solícitos pela salvação corporal, e muito mais pela eterna. Vede, no vosso corpo, como um membro ajuda, carrega, suporta, dirige, defende nutre o outro; desta recíproca solicitude nasce a saúde de todo o corpo não menos que de cada um dos membros. Mas fazei que cada membro não procurasse mais que aquilo que é seu; o pé permanecesse em preguiçoso repouso, recusando carregar os outros membros; do mesmo modo a mão não preparasse a comida ao paladar; e este satisfeito com seu sabor, não o enviasse ao estômago; ou muito ávido o ventre guardasse tudo para si, negasse aos
outros membros o necessário alimento. Que aconteceria? Pereceria o corpo e com ele cada um dos membros. Assim acontecerá também para vós, se não só procurardes unicamente o que é vosso; já que "vós sois um só corpo com Cristo e um de seus membros". Belas palavras! Portanto "sejam solícitos os membros entre si" (1 Cor 12, 25, 27).
8. - Oração
Eis nos agora, ó nosso protetor são Luiz, que tendo proposto a caridade como a mais excelente entre todas as virtudes vossas, eu não deixei, quanto dependia de mim, de toda indústria para dispor as almas acenderem-se deste belo fogo de amor. Não resta agora senão acendê-lo, mas a vós está reservada esta que é a empresa mais nobre, por isso a vós me dirijo. Oh! Caro santo, uma só centelha da vossa acesa caridade ao nosso coração! Oxalá desperte em nós esta chama vivaz, que, dilatando-se a favor do nosso próximo, e, portanto , nutrida, crescida, purificada, mereça depois elevar-se à sua
própria desejada esfera, isto é ao Céu; onde unindo-se a Deus, imenso foco de caridade por essência, de onde ela saiu; Nele, como seu centro, encontre feliz descanso por todos os séculos!

14 de outubro de 2014

Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem - Parte 3

Artigo II

Conseqüências

Primeira conseqüência. – Maria é a Rainha dos corações

37. Do que ficou dito, deve-se concluir evidentemente que:
Primeiro, Maria recebeu de Deus um grande domínio sobre as almas dos eleitos; pois ela não pode estabelecer neles sua residência, como Deus Pai lhe ordenou; não pode formá-los, nutri-los, fazê-los nascer para a vida eterna, como sua mãe, possuí-los como sua herança e partilha, formá-los em Jesus Cristo e Jesus Cristo neles; não pode implantar em seus corações as raízes de suas virtudes, a ser a companheira inseparável do Espírito Santo em todo os seus trabalhos de graça; não pode, repito, fazer todas estas coisas, se não tiver direito e domínio sobre suas almas, por uma graça singular do Altíssimo. E esta graça, que lhe deu autoridade sobre o Filho único e natural de Deus, lhe foi concedida também sobre seus filhos adotivos, não só quanto ao corpo, o que seria pouco, mas também quanto à alma.

38. Maria é a Rainha do céu e da terra, pela graça, como Jesus é o rei por natureza e conquista. Ora, como o reino de Jesus Cristo compreende principalmente o coração ou o interior do homem, conforme a palavra: “O reino de Deus está no meio de vós” (Lc 17, 21), o reino da Santíssima Virgem está principalmente no interior do homem, isto é, em sua alma, e é principalmente nas almas que ela é mais glorificada com seu Filho, do que em todas as criaturas visíveis, e podemos chamá-la com os santos a Rainha dos corações.
Segunda conseqüência. – Maria é necessária aos homens para chegarem ao seu último fim

39. Em segundo lugar, é preciso concluir que a Santíssima Virgem, sendo necessária a Deus, de uma necessidade chamada hipotética, devido à sua vontade, é muito mais necessária aos homens para chegarem a seu último fim. Não se confunda, portanto, a
devoção à Santíssima Virgem com a devoção aos outros santos, como se não fosse mais necessária que a destes, e apenas de superrogação.
§ 1. A devoção à santa Virgem é necessária a todos os homens para conseguirem a salvação.

40. O douto e piedoso Suárez, da Companhia de Jesus, o sábio e devoto Justo Lípsio, doutor da universidade de Lovaina, e muitos outros, provaram incontestavelmente, apoiados na opinião dos Santos Padres, entre outros, Santo Agostinho, Santo Efrém, diácono de Edessa, São Cirilo de Jerusalém, São Germano de Constantinopla, São João de Damasco, Santo Anselmo, São Bernardo, São Bernardino, Santo Tomás e São Boaventura, que a devoção à Santíssima Virgem é necessária à salvação, e que é um sinal infalível de condenação – opinião do próprio Ecolampádio e vários outros hereges, – não ter estima e amor à Santíssima Virgem. Ao contrário, é indício certo de predestinação, ser-lhe inteira e verdadeiramente devotado.

41. As figuras e palavras do Antigo e do Novo Testamento o provam; a opinião e os exemplos dos santos o confirmam; a razão e a experiência o ensinam e demonstram; o próprio demônio e seus asseclas, premidos pela força da verdade, riram-se muitas vezes constrangidos a confessá-lo a seu pesar. De todas as passagens dos Santos Padres e doutores que compilei para provar esta verdade, cito apenas uma para não me alongar: “Tibi devotum esse, est arma quaedam salutis quae Deus his dat quos vult salvos fieri...” S. João Damasc.) – Ser vosso devoto, ó Virgem Santíssima, é uma alrma de salvação que Deus dá, àqueles que quer salvar.

42. Eu poderia repetir aqui várias histórias que provam o que afirmo. Entre outras, primeiro aquela que vem narrada nas crônicas de São Francisco, em que se conta que o santo viu, em êxtase, uma escada enorme, em cujo topo, apoiado no céu, avultava a Santíssima Virgem. E o santo compreendeu que aquela escada ele devia subir para chegar ao céu; segundo a outra, narrada nas crônicas de São Domingos: Quando o santo pregava o rosário nas proximidades de Carcassona, quinze mil demônios, que possuíam a alma de um infeliz herege, foram obrigados, por ordem da Santíssima Virgem, a confessar muitas verdades grandes e consoladoras, referentes à devoção a Maria. E eles, para própria confusão, o fizeram com tanto ardor e clareza que não se pode ler essa autêntica narração e o panegírico, que o demônio, embora a contragosto, fez da devoção mariana, sem derramar lágrimas de alegria, ainda que pouco devoto se seja da Santíssima Virgem.
§ 2. A devoção à Santíssima Virgem é mais necessária ainda àqueles chamados a uma perfeição particular.

43. Se a devoção à Virgem Santíssima é necessária a todos os homens para conseguirem simplesmente a salvação, é ainda mais para aqueles que são chamados a uma perfeição particular; nem creio que uma pessoa possa adquirir uma união íntima com Nosso Senhor e uma perfeita fidelidade ao Espírito Santo, sem uma grande união com a Santíssima Virgem e uma grande dependência de seu socorro.

44. Só Maria achou graça diante de Deus (Lc 1, 30) sem auxílio de qualquer outra criatura. E todos, depois dela, que acharam graça diante de Deus, acharam-na por intermédio dela e é só por ela que acharão graça os que ainda virão. Maria era cheia de graça quando o arcanjo Gabriel a saudou (Lc 1, 28) e a graça superabundou quando o Espírito Santo a cobriu com sua sombra inefável (Lc 1, 35). E de tal modo ela aumentou essa dupla plenitude, de dia a dia, de momento a momento, que chegou a um ponto imenso e inconcebível de graça, de sorte que o Altíssimo a fez tesoureira de todos os seus bens, dispensadora de suas graças, para enobrecer, elevar e enriquecer a quem ela quiser, para
fazer entrar quem ela quiser no caminho estreito do céu, para deixar passar, apesar de tudo, quem ela quiser pela porta estreita da vida eterna. E para dar o trono, o cetro, e a coroa de rei a quem ela quiser. Jesus é em toda parte e sempre o fruto e o Filho de Maria; e Maria é em toda parte a verdadeira árvore que dá o fruto da vida, e a verdadeira mãe que o produz.

45. A Maria somente Deus confiou as chaves dos celeiros do divino amor, e o poder de entrar nas vias mais sublimes e mais secretas da perfeição, e de nesses caminhos fazer entrar os outros. Só Maria dá aos miseráveis filhos de Eva infiel a entrada no paraíso terrestre, para aí espairecerem agradavelmente com Deus, para aí, com segurança, se ocultarem de seus inimigos, para aí, sem mais receio da morte, se alimentarem deliciosamente do fruto das árvores da vida e da ciência do bem e do mal, e para sorverem longamente as águas celeste desta bela fonte que jorra com tanta abundância; ou melhor, como ela mesma é esse paraíso terrestre ou essa terra virgem e abençoada, da qual Adão e Eva, pecadores, foram expulsos, ela só dá entrada àqueles, que lhe apraz deixar entrar e para torná-los santos.

46. Todos os ricos do povo, para me servir da expressão do Espírito Santo (Sl 44, 13), suplicarão, conforme a explicação de São Bernardo, vossa face em todos os séculos, e particularmente no fim do mundo; isto é, os mais santos, as almas mais ricas em graça e em virtudes serão as mais assíduas em rogar à Santíssima Virgem que lhes esteja sempre presente, como seu perfeito modelo a imitar, e que as socorra com seu auxílio.

47. Disse que isto aconteceria particularmente no fim do mundo e em breve, porque o Altíssimo e sua santa Mãe devem suscitar grandes santos, de uma santidade tal que sobrepujarão a maior parte dos santos, como os cedros do Líbano se avantajam às pequenas árvores em redor, segundo revelação feita a uma santa alma.

48. Estas grandes almas, cheias de graça e de zelo, serão escolhidas em contraposição aos inimigos de Deus a borbulhar em todos os cantos, e elas serão especialmente devotas da Santíssima Virgem, esclarecidas por sua luz, alimentadas de seu leite, conduzidas por seu espírito, sustentadas por seu braço e guardadas sob sua proteção, de tal modo que combaterão com uma das mãos e edificarão com a outra (cf. Ne 4, 17). Com a direita combaterão, derrubarão, esmagarão os hereges com suas heresias, os cismáticos com seus cismas, os idólatras com suas idolatrias, e os ímpios com suas impiedades; e com a esquerda edificarão o templo do verdadeiro Salomão e a cidade mística de Deus, isto é, a Santíssima Virgem que os Santos Padres chamam “o templo de Salomão” e “a cidade de Deus”. Por suas palavras e por seu exemplo, arrastarão todo o mundo à verdadeira devoção e isto lhes há de atrair inimigos sem conta, mas também vitórias inumeráveis e glória para o único Deus. É o que Deus revelou a São Vicente Ferrer, grande apóstolo de seu século, e que se encontra assinalado em uma de suas obras.

49. Por meio de Maria começou a salvação do mundo e é por Maria que deve ser consumada. Na primeira vinda de Jesus Cristo, Maria quase não apareceu, para que os homens, ainda insuficientemente instruídos e esclarecidos sobre a pessoa de seu Filho, não
se lhe apegassem demais e grosseiramente, afastando-se, assim, da verdade. E isto teria aparentemente acontecido devido aos encantos admiráveis com que o próprio Deus lhe havia ornado a aparência exterior. São Dionísio, o Areopagita, o confirma numa página que nos deixou22 e em que diz que, quando a viu, tê-la-ia tomado por uma divindade, tal o encanto que emanava de sua pessoa de beleza incomparável, se a fé, em que estava bem confirmado, não lhe ensinasse o contrário. Mas, na segunda vinda de Jesus Cristo, Maria deverá ser conhecida e revelada pelo Espírito Santo, a fim de que por ela seja Jesus Cristo conhecido, amado e servido, pois já não subsistem as razões que levaram o Espírito Santo a ocultar sua esposa durante a vida e a revelá-la só pouco depois da pregação do Evangelho.

* * *

50. Deus quer, portanto, nesses últimos tempos, revelar-nos e manifestar Maria, a obra-prima de suas mãos:
1º Porque ela se ocultou neste mundo, e, por sua humildade profunda, se colocou abaixo do pó, obtendo de Deus, dos apóstolos e evangelistas, não ser quase mencionada.
2º Porque, sendo a obra-prima das mãos de Deus, tanto aqui em baixo, pela graça, como no céu, pela glória, ele quer que, por ela, os viventes o louvem e glorifique sobre a terra.
3º Visto ser ela a aurora que precede e anuncia o Sol da justiça, Jesus Cristo, deve ser conhecida e notada para que Jesus Cristo o seja.
4º Pois que é a via pela qual Jesus Cristo nos veio a primeira vez, ela o será ainda na segunda vinda, embora de modo diferente.
5º Pois que é o meio seguro e o caminho reto e imaculado para se ir a Jesus Cristo e encontrá-lo plenamente, é por ela que as almas, chamadas a brilhar em santidade, devem encontrá-lo. Quem encontrar Maria encontrará a vida (cf. Prov 8, 35), isto é, Jesus Cristo, que é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14, 6). Mas não pode encontrar Maria quem não a procura; quem não a conhece, e ninguém procura nem deseja o que não conhece. É preciso, portanto, que Maria seja, mais do que nunca, conhecida, para maior conhecimento e maior glória da Santíssima trindade.
6º Nesses últimos tempos, Maria deve brilhar, como jamais brilhou, em misericórdia, em força e graça. Em misericórdia para reconduzir e receber amorosamente os pobres pecadores e desviados que se converterão e voltarão ao seio da Igreja católica; em força contra os inimigos de Deus, os idólatras, cismáticos, maometanos, judeus e ímpios empedernidos, que se revoltarão terrivelmente para seduzir e fazer cair, com promessas e ameaças, todos os que lhes forem contrários. Deve, enfim, resplandecer em graça, para animar e sustentar os valentes soldados e fiéis de Jesus Cristo que pugnarão por seus interesses.
7º Maria deve ser, enfim, terrível para o demônio e seus sequazes como um exército em linha de batalha, principalmente n esses últimos tempos, pois o demônio, sabendo bem que pouco tempo lhe resta para perder as almas, redobra cada dia seus esforços e ataques. Suscitará, em breve, perseguições cruéis e terríveis emboscadas aos servidores fiéis e aos verdadeiros filhos de Maria, que mais trabalho lhe dão para vencer.

* * *

51. É principalmente a estas últimas e cruéis perseguições do demônio, que se multiplicarão todos os dias até ao reino do Anticristo, que se refere aquela primeira e célebre predição e maldição que Deus lançou contra a serpente no paraíso terrestre. Vem a propósito explicá-la aqui, para glória da Santíssima Virgem, salvação de seus filhos e confusão do demônio.
“Inimicitias ponan inter te et mulierem, et semen tuum et semen illius; ipsa conteret caput tuum, et tu insidiaberis calcaneo eius” (Gn 3, 15): Porei inimizades entre ti e a mulher, e
entre a tua posteridade e a posteridade dela. Ela te pisará a cabeça, e tu armarás traições ao seu calcanhar.

52. Uma única inimizade Deus promoveu e estabeleceu, inimizade irreconciliável, que não só há de durar, mas aumentar até ao fim: a inimizade entre Maria, sua digna Mãe, e o demônio; entre os filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e sequazes de Lúcifer; de modo que Maria é a mais terrível inimiga que Deus armou contra o demônio. Ele lhe deu até, desde o paraíso, tanto ódio a esse amaldiçoado inimigo de Deus, tanta clarividência para descobrira malícia desta velha serpente, tanta força para vencer, esmagar e aniquilar esse ímpio orgulhoso, que o temor que Maria inspira ao demônio é maior que o que lhe inspiram todos os anjos e homens e, em certo sentido, o próprio Deus. Não que a ira, o ódio, o poder de Deus não sejam infinitamente maiores que os da Santíssima Virgem, pois as perfeições de Maria são limitadas, mas, em primeiro lugar, Satanás, porque é orgulhoso, sofre incomparavelmente mais, por ser vencido e punido pela pequena e humilde escrava de Deus, cuja humildade o humilha mais que o poder divino; segundo, porque Deus concedeu a Maria tão grande poder sobre os demônios, que, como muitas vezes se viram obrigados a confessar, pela boca dos possessos, infunde-lhes mais temor um só de seus suspiros por uma alma, que as orações de todos os santos; e uma só de suas ameaças que todos os outros tormentos.

53. O que Lúcifer perdeu por orgulho, Maria ganhou por humildade. O que Eva condenou e perdeu pela desobediência, salvou-o Maria pela obediência. Eva, obedecendo à serpente, perdeu consigo todos os seus filhos e os entregou ao poder infernal; Maria, por sua perfeita fidelidade a Deus, salvou consigo todos os seus filhos e servos e os consagrou a Deus.

54. Deus não pôs somente inimizade, mas inimizades, e não somente entre Maria e o demônio, mas também entre a posteridade da Santíssima Virgem e a posteridade do demônio. Quer dizer, Deus estabeleceu inimizades, antipatias e ódios secretos entre os verdadeiros filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e escravos do demônio. Não há entre eles a menor sombra de amor, nem correspondência íntima existe entre uns e outros. Os filhos de Belial, os escravos de Satã, os amigos do mundo (pois é a mesma coisa) sempre perseguiram até hoje e perseguirão no futuro aqueles que pertencem à Santíssima Virgem, como outrora Caim perseguiu seu irmão Abel, e Esaú, seu irmão Jacob, figurando os réprobos e os predestinados. Mas a humilde Maria será sempre vitoriosa na luta contra esse orgulhoso, e tão grande será a vitória final que ela chegará ao pontro de esmagar-lhe a cabeça, sede de todo o orgulho. Ela descobrirá sempre sua malícia de serpente, desvendará suas tramas infernais, desfará seus conselhos diabólicos, e até ao fim dos tempos garantirá seus fiéis servidores contra as garras de tão cruel inimigo.
Mas o poder de Maria sobre todos os demônios há de patentear-se com mais intensidade, nos últimos tempos, quando Satanás começar a armar insídias ao seu calcanhar, isto é, aos seus humildes servos, aos seus pobres filhos, os quais ela suscitará para combater o príncipe das trevas. Eles serão pequenos e pobres aos olhos do mundo, e rebaixados diante de todos como o calcanhar em comparação com os outros membros do corpo. Mas, em troca, eles serão ricos em graças de Deus, graças que Maria lhes distribuirá abundantemente. Serão grandes e notáveis em santidade diante de Deus, superiores a toda criatura, por seu zelo ativo, e tão fortemente amparados pelo poder divino, que, com a humildade de seu calcanhar e em união com Maria, esmagarão a cabeça do demônio e promoverão o triunfo de Jesus Cristo.
2. Os apóstolos dos últimos tempos

55. Deus quer, finalmente, que sua Mãe Santíssima seja agora mais conhecida, mais amada, mais honrada, como jamais o foi. E isto acontecerá, sem dúvida, se os predestinados puserem em uso, com o auxílio do Espírito Santo, a prática interior e perfeita que lhes indico a seguir. E, se a observarem com fidelidade, verão, então, claramente, quanto lho permite a fé, esta bela estrela do mar, e chegarão a bom porto, tendo vencido as tempestades e os piratas. Conhecerão as grandezas desta soberana e se consagrarão inteiramente a seu
serviço, como súditos e escravos de amor. Experimentarão suas doçuras e bondades maternais a amá-la-ão ternamente como seus filhos estremecidos. Conhecerão as misericórdias de que ela é cheia e a necessidade que têm de seu auxílio, e há de recorrer a ela em todas as circunstâncias como à sua querida advogada e medianeira junto de Jesus Cristo. Reconhecerão que ela é o meio mais seguro, fácil, mais rápido e mais perfeito de chegar a Jesus Cristo, e se lhe entregarão de corpo e alma, sem restrições, para assim também pertencerem a Jesus Cristo.

56. Mas quem serão esses servidores, esses escravos e filhos de Maria?
Serão ministros do Senhor ardendo em chamas abrasadoras, que lançarão por toda a parte o fogo do divino amor.
Serão “sicut sagittae in manu potentis” (Sl 126, 4) – flechas agudas nas mãos de Maria toda-poderosa, pronta a traspassar seus inimigos.
Serão filhos de Levi, bem purificados no fogo das grandes tribulações, e bem colados a Deus, que levarão o ouro do amor no coração, o incenso da oração no espírito, e a mirra da mortificação no corpo e que serão em toda parte para os pobres e os pequenos o bom odor de Jesus Cristo, e para os grandes, os ricos e os orgulhosos do mundo, um odor repugnante de morte.

57. Serão nuvens trovejantes esvoaçando pelo ar ao menor sopro do Espírito Santo, que, sem apegar-se a coisa alguma nem admirar-se de nada, nem preocupar-se, derramarão a chuva da palavra de Deus e da vida eterna. Trovejarão contra o pecado, e lançarão brados contra o mundo, fustigarão o demônio e seus asseclas, e, para a vida ou para a morte, traspassarão lado a lado, com a espada de dois gumes da palavra de Deus (Cf. Ef 6, 17), todos aqueles a quem forem enviados da parte do Altíssimo.

58. Serão verdadeiros apóstolos dos últimos tempos, e o Senhor das virtudes lhes dará a palavra e a força para fazer maravilhas e alcançar vitórias gloriosas sobre seus inimigos; dormirão sem ouro nem prata, e, o que é melhor, sem preocupações no meio dos outros padres, eclesiásticos e clérigos, “inter medios cleros” (Sl 67, 14) e, no entanto, possuirão as asas prateadas da pomba, para voar, com a pura intenção da glória de Deus e da salvação das almas, aonde os chamar o Espírito Santo, deixando após si, nos lugares em que pregarem, o ouro da caridade que é o cumprimento da lei (Rom 13, 10).

59. Sabemos, enfim, que serão verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, andando nas pegadas da pobreza e humildade, do desprezo do mundo e caridade, ensinado o caminho estreito de Deus na pura verdade, conforme o santo Evangelho, e não pelas máximas do mundo, sem se preocupar nem fazer acepção de pessoa alguma, sem poupar, escutar ou temer nenhum mortal, por poderoso que seja. Terão na boca a espada de dois gumes da palavra de Deus; em seu ombros ostentarão o estandarte ensangüentado da cruz, na direita, o crucifixo, na esquerda o rosário, no coração os nomes sagrados de Jesus e de Maria, e, em toda a sua conduta, a modéstia e a mortificação de Jesus Cristo.
Eis os grandes homens que hão de vir, suscitados por Maria, em obediência às ordens do Altíssimo, para que o seu império se estenda sobre o império dos ímpios, dos idólatras e dos maometanos. Quando e como acontecerá?... Só Deus o sabe!... Quanto a nós, cumpre calar-nos, orar, suspirar e esperar: Exspectans exspectavi (Sl 39, 2).

Sermão para a Solenidade da Festa do Santo Rosário – Padre Daniel Pinheiro

[Sermão] O Santo Rosário: arma de nossa esperança

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria.
“Que, meditando nos mistérios do Sacratíssimo Rosário da Santíssima Virgem, aprendamos a viver as lições que eles encerram, para alcançarmos as graças que prometem.” (Coleta da Missa)
Caros católicos, os tempos não são fáceis. Diante de tantas dificuldades e diante dos maiores absurdos contra a lei divina, natural e revelada, diante das afrontas a Nosso Senhor Jesus Cristo e a sua Igreja, diante dos ataques constantes à família e às verdadeiras virtudes individuais e sociais, existe uma grande tentação de desespero ou de profundo desânimo da parte da alma católica. Dirigindo-se a Deus em um lamento, essa alma pode chegar ao excesso de dizer: “Meu Deus, é impossível ser um bom católico nesse mundo atual, é impossível educar bem, para a virtude, para o céu, os nossos filhos.” Diante de tantos males, essa é uma grande tentação.
Todavia, caros católicos, face a essa situação quase incompreensível para quem guarda um pouco de bom senso, é preciso manter a esperança. A esperança é uma das três virtudes teologais, ao lado da fé e da caridade. São chamadas de virtudes teologais porque se referem diretamente a Deus. A fé se refere a Deus enquanto Ele é a verdade primeira, que não se engana nem nos engana, e à qual devemos aderir. A caridade se refere a Deus enquanto Ele é o Sumo Bem, que deve ser por nós amado em si mesmo. A esperança se refere a Deus enquanto Ele é a nossa bem-aventurança eterna. A esperança é a virtude sobrenatural infundida por Deus em nossas almas pela qual esperamos com confiança firmíssima que Deus nos dará a bem-aventurança eterna e os meios necessários para alcançá-la. Essa esperança é fundada na onipotência e na misericórdia divinas. E, claro, precisamos nós fazer a nossa parte, sendo fiéis às graças que Deus nos dá e procurando sermos católicos fiéis. Sem a esperança, ficaremos paralisados diante do triunfo aparente do mal.
Podemos e devemos, então, caros católicos, ter essa confiança firmíssima de que Deus nos dá os meios para alcançarmos o céu. Mesmo nas circunstâncias mais difíceis, mesmo nesse estado atual da sociedade, Deus nos dá os meios e meios abundantes para nos convertermos, para perseverarmos na graça. Podemos ter essa esperança firme porque Deus é onipotente e misericordioso. Se Ele é onipotente, Ele tem, efetivamente, os meios para nos ajudar. Se Ele é misericordioso, Ele quer realmente nos ajudar, nos tirando de nossas misérias. Não poderíamos esperar em alguém que pode nos ajudar, mas que não quer nos ajudar, assim como não podemos esperar em quem quer nos ajudar, mas que não tem os meios para isso. Mas devemos esperar em Deus que é onipotente e misericordioso. Ele pode e quer nos ajudar.
Deus Nosso Senhor quis que vivêssemos nessas circunstâncias em que nos encontramos atualmente. E mesmo nessas circunstâncias, Ele não nos abandona, Ele nos dá os meios para sermos bons católicos, para educarmos as crianças. Do contrário, precisaríamos afirmar que Deus é um Deus cruel, que nos colocou em situação na qual é impossível nos salvarmos. Um Deus que exige que sejamos santos, mas não nos dá os meios para tanto, seria um Deus cruel. Deus nos dá, mesmo nessa sociedade corrompida nos seus mais profundos fundamentos, meios abundantes para nossa santificação. Não devemos ceder ao desânimo, nem nos desesperar, nem nos exasperar. Devemos, isso sim, manter essa esperança sobrenatural e fazer a nossa parte, esforçando-nos para vivermos como bons católicos.
Para preservar essa esperança, é preciso, primeiramente, ter uma fé viva. A esperança é esperar da onipotência divina e da sua misericórdia o céu e os meios para alcançá-los. Para ter esperança em alguém, eu preciso, antes, acreditar nesse alguém. Antes de ter esperança, preciso ter uma fé viva. Uma fé viva não é um sentimento. Uma fé viva é aquela que, pela adesão às verdades reveladas, nos possibilita realmente ter uma visão sobrenatural das coisas, enxergá-las sempre a partir da eternidade. Não devemos reduzir – e seria erro grave fazê-lo – nossa vida a algo puramente natural, como se não contássemos com a ajuda de Deus ou como se nossa vida se limitasse a esse mundo. Devemos ver as coisas com espírito de fé, com espírito sobrenatural, sabendo que Deus governa todas as coisas, permitindo os males como castigo e para tirar deles um maior bem. É Deus quem governa todas as coisas, mesmo quando tudo parece perdido. Na Cruz, quando tudo parecia perdido, na visão ainda muito terrena dos apóstolos e da maioria dos discípulos, Nosso Senhor triunfava. Devemos saber que estamos nesse mundo para alcançar a vida eterna. Portanto, espírito de fé e visão sobrenatural das coisas. Não olhar as coisas com uma lupa e com uma visão humana, mas olhá-las a partir da visão divina, o que nos é possível pela fé e pela esperança.
Além da fé viva e da consequente visão sobrenatural das coisas, é preciso, para ter uma esperança sobrenatural, que procuremos, seriamente, exercer as virtudes, que procuremos seriamente amar a Deus, praticando os seus mandamentos. Não podemos esperar realmente de Deus se não fizermos a nossa parte. E, claro, é preciso oração. É preciso rezar sempre, nos diz Nosso Senhor.
Os meios de se preservar a esperança estão contidos no Santo Rosário, caros católicos. Os remédios para vencermos esses nossos tempos difíceis estão resumidos no Santo Rosário. O Papa Leão XIII, pontífice durante longos anos no final do século XIX e bem no início do século XX, costumava escrever no mês de outubro uma Encíclica sobre o Rosário. Ele o fazia porque entendia que era o Rosário remédio muito eficaz contra os males do tempo. E quais eram os males do tempo de Leão XIII? Exatamente os mesmos males que nós temos hoje. A diferença é que naquela época os males ainda estavam nas sementes, nos princípios. Hoje, nós vemos esses males nas suas consequências concretas e claras: o indiferentismo religioso, a Igreja em pé de igualdade com outras religiões, o relativismo moral, o laicismo. E não há dúvida, caros católicos, ao lado do Santo Sacrifício da Missa, ao lado dos sacramentos, a nossa grande arma é o Santo Rosário. O Santo Rosário é a arma da nossa esperança.
O Santo Rosário é a arma da nossa esperança, antes de tudo, porque ele é uma oração excelente. Excelente porque é composta das mais perfeitas orações, que são o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Credo. Excelente na sua origem porque nos foi dado por Nossa Senhora, há vários séculos, por meio de São Domingos, cuja relíquia está sobre o altar.
O Santo Rosário é a arma da Nossa Esperança porque ele nos traz uma fé viva e uma visão sobrenatural das coisas a partir da consideração dos mistérios da vida de Nosso Senhor e de Nossa Senhora.
O Santo Rosário é a arma da nossa esperança porque ele nos incita à virtude, nos fazendo meditar o exemplo perfeito de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, contido nos mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos.
O Santo Rosário é a arma da nossa esperança porque a história mostra a sua eficácia. Foi por ele que são Domingos converteu os hereges cátaros. Foi por ele que os católicos venceram, na batalha de Lepanto, o flagelo maometano, que ameaçava a cristandade.
O Santo Rosário é a arma de nossa esperança porque é a oração mais agradável a Nossa Senhora, nossa medianeira e nossa Mãe. Nossa Senhora não ficará surda ao terço bem rezado. E Nossa Senhora esmaga todas as heresias e todos os erros. Ela há de esmagar também os erros dos nossos tempos, se recorrermos a Ela pelo Santo Terço. Ela há de esmagar o modernismo, ela há de esmagar o laicismo, ela há de esmagar o relativismo.
É urgente, caros católicos, pegarmos esse objeto simples, de 59 contas e um crucifixo, e começarmos a rezar com confiança em Nossa Senhora e em Deus. É urgente e obrigação nossa rezar o Terço diariamente. Não adianta lamentar os males de nossa época, se não recitamos essa oração simples, mas eficaz, que é o Santo Terço. É urgente e necessário recitar o Terço diário, caros católicos, e procurar rezá-lo em família. Pai, mãe e filhos. Não é exortação piedosa piegas, caros católicos. É meio para se guardar a fé, a esperança e a caridade. É meio de perseverarmos no bem nesses tempos de calamidade religiosa e moral.
Aqueles que ainda não rezam o Santo Terço diariamente, aproveitem o mês de outubro, mês do rosário, instituído como tal justamente por Leão XIII, para tomar a resolução de recitar o Terço diariamente. Aqueles que já o rezam diariamente poderiam tentar, com generosidade, rezar o Rosário, que, tradicionalmente, são três Terços.
É preciso rezar o Terço, caros católicos. Ele é a arma da nossa esperança.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Páginas de Vida Cristã - Pe. Gaspar Bertoni.

XX - O AMOR PARA COM DEUS.

1. - O amor se funda sobre a semelhança
Não existe talvez outro nome que com igual dileção chegue a ferir um coração gentil quanto o doce nome do Amor; nem mais agradável espetáculo como ver outros corações feridos igualmente e ligados, seguir o triunfo de um amor vitorioso. Vós já bem percebestes que vos falo de um amor celeste, sobre-humano e divino.
A todos é conhecida por cotidiana experiência aquela secreta admirável força que usa o ímã para atrair o ferro e uni-lo a si mesmo. Uma força semelhante exerce também o Bem sobre o apetite humano. Porque tão logo ele é proposto pelo intelecto à vontade, imediatamente esta o atrai para si e obriga docemente a unir-se. Este movimento da vontade para o bem é exatamente isto que se chama amor. Vede que coisa maravilhosa, mas verdadeira. Acontece às vezes que um Bem, embora grande em si mesmo - que tem maior força, pois, para atrair - menos mova a vontade, antes efeito totalmente contrário a afaste de si. De fato também o Sábio apresenta, como principal causa do amor, a proporção, ou seja a semelhança: "Todo ser vivo ama seu semelhante" (Eclo 13, 19). Ora este é justamente o nosso caso. De fato eu vos fiz um doce convite ao amor divino; mas vós, contemplando a Divindade como um bem na sua soberana excelência muito desproporcionado à vossa extrema baixeza e miséria, que maravilha pois se os pensamentos e os vossos afetos retornem para si mesmos tímidos e confundidos? Descoberta a causa do vosso temor, é-me coisa fácil destruí-la para colocar o
vosso coração em plena liberdade.
2. - Semelhança da alma com Deus
Nós somos formados de duas substâncias diferentes entre si; de alma e de corpo. Quanto ao corpo, eu bem concedo que não encontraremos entre Deus e nós senão desproporção e inconveniência. Deus não é de fato - diria aqui S. Agostinho - nem cor para ser natural aos nossos olhos, nem sabor para fazer-se gostar pelo nosso paladar, nem som para ser ouvido pelas nossas orelhas, nem outra qualidade material para ter a mínima conveniência com nossos sentidos. Mas se do exterior sensível nos voltarmos para nossos mais justos reflexos da alma, que é a melhor e a formal parte de nós mesmos, oh! aqui sim há possibilidade de encontrar muita proporção e conveniência.
A nossa alma é espiritual; Deus também é espírito. O ser Dele é simples, imutável, eterno; a essência da alma é simples, incorruptível, imortal. Deus é puro intelecto, e benigna a sua vontade; a alma também é inteligente e dotada de livre arbítrio. Que adianta ficarmos aqui combinando outras semelhantes particulares correlações? Deus mesmo se manifesta nas Escrituras ter Ele, ao criar a alma, entendido formar sua imagem: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança" (Gn 1, 26); daí como a alma na unidade da sua, substância representa a unidade da Divina Natureza, assim nas suas três distintas potências representa a Trindade augusta das Pessoas, ainda mais perfeitamente: porque Deus conhece a si mesmo e se ama como o mais perfeito Bem, assim alma é capaz de conhecer Deus e de amá-lo. Uma tão grande relação de semelhança não será bastante para despertar
nela o mais sensível afeto de complacência e de amor?
3. - A própria indigência da alma atrai a divina liberalidade
Mas já percebo o que alguém quer me opor. Deus é um Bem supremo, nós somos míseros pecadores. Observai, porém, como eu me sirvo desta mesma objeção para concluir a meu favor. Deus é um bem Sumo, dizeis; portanto, eu prossigo sumamente comunicável; pois entende também o filósofo como o Bem, quanto mais é perfeito, tento mais comunicável. Nós somos miseráveis, e também - se quiserdes - miseráveis ao extremo. Portanto necessitados ainda ao extremo de auxílio e de bens. Por outro lado a nossa potência espiritual tem uma maravilhosa capacidade sendo perfectível a um
indeterminado sinal, segundo a palavra: "o justo faça a justiça e o santo santifique-se ainda mais". (Ap 22, 11). Ora que coisa mais conveniente, mais consentânea a uma Bondade infinita, que deseja direi quase - comunicar sem fim suas perfeições, que encontrar uma alma quanto capaz tanto necessitada e indigente de todo tipo de bens? Também entre os homens, aqueles que são verdadeiramente liberais não gostam de encontrar quem igual a eles seja rico, mas também os mais pobres e necessitados, para distribuir com alegria no meio deles as suas riquezas. Quanto mais Deus! Tão contente ele de fato de atendê-los ou de encontrá-los, vai a procura dos mais necessitados e os chama gritando forte por meio de Isaías: "Todos vós que estais sedentos, vinde à nascente das águas, vinde comer, vós que não tendes alimento. Vinde comprar trigo sem dinheiro, vinho e leite sem pagar. Por que despender vosso dinheiro naquilo que não alimenta, e o produto de vosso trabalho
naquilo que não sacia? Se me ouvis, comereis excelentes manjares, uma suculenta comida fará vossas delícias (Is 55, 1-2). "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mt 15, 24), "e para salvar aquilo que já estava perdido (Mt 18, 21) para que tenham a vida, e para que a tenham em abundância, (Jo 10, 10).
4. - O nosso coração é feito somente para Deus
E se tudo isto vos parece ainda pouco, eu acrescentarei mais que nosso coração foi feito de tal modo para Deus, que fora de Deus não existe nada que possa ter proporção com ele. De fato aqueles desejos tão vastos, aquele não saciar-se jamais com algum bem ou prazer, mas sempre acender-se com maior apetite, outra coisa não quer significar, se não que os bens deste mundo são de fato
desproporcionais à grandeza do nosso coração, e que a um coração quase infinito nos seus desejos, outra coisa não convém sendo um bem igualmente infinito.
5. - Exemplo de S. Luiz Gonzaga
Mas concitemo-nos com um exemplo. Bem se pode dizer que S. Luiz Gonzaga apenas começou em seus primeiros momentos de razão a conhecer a Deus, já começou a amá-Lo. Vós o vereis ainda tenra criança, nos cantos mais escondidos de sua casa, procurar na solidão o seu Deus. E corno Deus está pronto para manifestar-se a quem o procura na simplicidade do coração, assim é Luiz laborioso em fazer que nenhum outro pensamento e afeto lhe distraísse a mente ou lhe ocupasse o coração; portanto cinge de rigorosa custódia todos os sentidos. O seu espírito se levanta pronto para uma altíssima contemplação da divina Beleza, e crescendo o conhecimento, cresce igualmente o amor. Gostaria de poder mostrar-vos aos pés dos altares depois que lhe foi concedido receber em si, debaixo das espécies sacramentais, o seu Deus; do aceso vivo da sua face, ao tépido rio de lágrimas que lhe sai dos olhos, bem podereis conhecer que chama, que fogo arde e inflama no seu peito juvenil. Que rápidos progressos não fez este fogo em Luiz! Fecha, todavia, o mundo com fortes obstáculos todos os caminhos para segurá-lo nas suas cortes; o amor forte e vigoroso lhe abre em breve o caminho pelo qual voará para unir-se mais estreitamente com seu Bem no seguro recinto de um claustro.
Aí seu amor cresceu tão alto que nos poucos anos que sobreviveu não se saberia dizer se fosse Luiz, ou melhor, Deus que vivesse em Luiz. Na sua mente não havia senão Deus; na sua vontade, em seus afetos não havia senão Deus; se ele olhava, em tudo não via senão Deus, nem outra coisa apreciava senão Deus. Enfim todas as suas obras exteriores não somente eram feitas por Deus, mas delas
transparecia ainda um não sei que de divino; de em qualquer exercício que fizesse a sua simples visão levava mais para as coisas divinas o coração de muitos que o contemplavam por devoção, que não qualquer outro meio, por quanto eficaz, ele pudesse usar para excitar-se ao fervor. Eis, portanto, a que ponto Luiz levou seu amor.
6. - Amemos Deus, Amemos Deus!
Ah! Irmãos, se conhecêssemos um pouco só quem é Deus! Que grande felicidade seria a nossa de poder amar uma Bondade tão grande! De que imenso bem seria para nós fecundo um amor tão santo! Eu bem sei que olvidaríamos de tudo e de nós mesmos, para que todos os nossos pensamentos e todos os nossos afetos fossem de Deus e em Deus. Oh! Sacudamos de uma vez estas trevas que se adensam tão espessas ao redor dos nossos olhares, aceitando oportunamente aquele raio tão vivo de luz, que
a fé já vibra neste ponto sobre nosso espírito. Deus nos ordena amá-Lo, e nos ameaça de morte eterna se negamos a Ele este amor; promete vida eterna e a Si mesmo em prêmio a quem o ama. Ele preveniu nos amando. Antes que nós existíssemos, Ele já nos amou; não podíamos ainda pensar Nele, e Ele já tinha todo o mais terno cuidado para conosco. Lançou grande cópia de bens de natureza e de graça sobre nós, embora não fosse ainda possível a nós reconhecer o benefício e muito menos a mão benéfica de quem nos abençoava. Finalmente o conhecemos, e foi então que a sua Bondade foi paga
pela mais negra ingratidão. Ingratos e inimigos, não deixou, porém, de nos amar, antes parece que seu amor mais se reforçou. Ah! Irmãos! Um olhar só a esta cruz; ela vos dirá como este Homem-Deus já
comprou o vosso coração pelo caro preço de todo seu Sangue. A nossa alma é filha adotiva de Deus de quem trás impresso o ilustre semblante e a clara imagem; tornou-se por graça superior à sua natureza, divinizada, deificada, à qual se prestam os Anjos para servir com cobiçado cortejo. Cristo é seu irmão, e a alma tem em comum com Ele a herança e o reino. Uma alma, portanto , de tão alta origem, ornada de inefáveis qualidades, a quem a daremos nós como esposa? A quem mais, senão ao Amor divino? Amemos a Deus, amemos a Deus!

13 de outubro de 2014

Sermão para o XVI Domingo depois de Pentecostes – Padre Daniel Pinheiro .

[Sermão] O modernismo, a pior das heresias

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ave Maria.
Caros católicos, no último dia 3 de setembro, a Igreja comemorou a festa do Papa São Pio X. Giuseppe Sarto foi pároco de uma pequena cidade, Bispo de Mântua, cardeal Patriarca de Veneza e, finalmente, Papa, de 1903 a 1914. Nós estamos, então, no ano do centenário de seu falecimento. São Pio X foi um Papa Santo, que soube governar a Igreja com as virtudes de um verdadeiro chefe e pai. Dentre os melhores e mais importantes atos de São Pio X está o combate veemente que ele fez ao pernicioso erro do modernismo, que ele chamou de síntese de todas as heresias ou, segundo outras traduções, de esgoto coletor de todas as heresias. Esse erro que São Pio X combateu com tanta força resistiu ao tempo e triunfou mesmo no seio da Igreja, com tantos danos para as almas.
O modernismo, síntese de todas as heresias, destrói a religião católica, caros católicos. O modernismo se baseia em dois princípios da filosofia moderna: o agnosticismo e o imanentismo. O modernismo se baseia no agnosticismo. Isto significa que o modernismo nega que nós possamos conhecer a verdade objetiva tal como ela é. Não podemos conhecer as coisas tais como elas são, mas temos simplesmente impressões das coisas nos diz esse erro. Assim, também não podemos conhecer se Deus existe ou não. Deus não pode se revelar aos homens, nos dizendo verdades a crer ou coisas a fazer. Enfim, não temos acesso a Deus. Não podemos saber se Ele existe e Ele não pode se revelar a nós. Esse erro do agnosticismo é próprio da filosofia moderna, e tem seu início com Descartes, passando por Kant e outros filósofos modernos.
Essa impossibilidade de conhecer a realidade exterior – que a filosofia moderna afirma erroneamente – fecha o homem em si mesmo, no mundo das suas ideias. Assim, para o homem só tem valor o que sai dele mesmo, passa a ser verdade unicamente o que tem origem nele. Só serve para o homem o que emana dele mesmo. É o princípio da imanência. O modernismo nega, então, que a religião seja revelada por Deus aos homens e afirma que a religião vem do próprio homem, de um confuso sentimento religioso que está no homem. A religião não seria nada mais do que esse sentimento que está no homem. Os dogmas nada mais seriam do que a expressão imperfeita e sempre inadequada desse sentimento que está no homem. A doutrina católica nada mais seria do que uma invenção dos homens para satisfazer esse sentimento religioso. Mas, como o sentimento é algo que muda ao longo do tempo, seria preciso mudar também a doutrina católica, os dogmas, para adaptar tudo isso ao sentimento religioso que muda. Os dogmas devem evoluir. Se hoje, por exemplo, as pessoas já não aceitam mais a indissolubilidade do matrimônio, seria preciso mudar isso, para satisfazer o sentimento religioso das pessoas. Nós vemos, então, que o modernismo torna a religião algo puramente subjetivo, ao negar que nós podemos conhecer a existência de Deus, ao negar que Deus pode se revelar a nós e ao afirmar, em contrapartida, que só tem valor o que vem de nós. Cada um faz a sua própria religião, desde que se sinta bem na religião que fabricou ou escolheu. Assim, se a pessoa já não se sente bem na Igreja Católica porque ela quer se divorciar e casar novamente, ela passará para uma seita qualquer, onde pode fazer o que bem entende e se sentir bem com isso, achando que, se sentindo bem, estará em união com Deus. O homem toma o lugar de Deus e faz a sua própria religião, define as suas verdades. Tudo, no modernismo, deve ser voltado para o homem. A religião não é mais para aderir às verdades que Deus revelou e para amá-lo fazendo a vontade dEle. Não, a religião passa a ser simplesmente algo para satisfazer o homem, em função do homem. A religião passa a ser algo para fazer o homem se sentir bem e ela tem que se adaptar à mentalidade dos homens para que eles se sintam bem. É exatamente isso que nós vemos hoje em dia. Muitos querem adaptar a Igreja Católica à mentalidade moderna. Já não se aceita mais a noção de uma sociedade hierárquica: é preciso igualar sacerdotes e leigos. Esses últimos devem distribuir a comunhão, devem fazer as leituras, devem usar roupas de distinção, etc. Já não se aceita mais a diferença entre homem e mulher: é preciso que a mulher seja ordenada sacerdotisa. Já não se aceita mais a noção de sacrifício: é preciso tentar reduzir a Missa a uma mera ceia, a uma mera refeição. Já não se aceita mais o teocentrismo: é preciso colocar a liturgia em vernáculo, é preciso que o padre esteja virado para o povo. Já não se aceita mais a indissolubilidade do matrimônio: é preciso dar a comunhão aos católicos divorciados recasados. Já não se aceita mais a possibilidade do pecado: não é preciso mais confessar e o padre não deve falar sobre o pecado no sermão.  Já não se aceita mais a presença real de Cristo em corpo, sangue, alma e divindade nas espécies consagradas: é preciso dizer que se trata de uma presença simbólica. Já não se aceita mais um estado que confesse a religião católica: é preciso defender o estado laico. E assim por diante, caros católicos. Quantas consequências funestas do modernismo que nós vemos por toda parte mesmo nos meios católicos.
Além disso, caros católicos, é forçoso constatar que cada um tem um sentimento religioso distinto, de forma que alguns podem satisfazer esse sentimento religioso com o catolicismo, outros com o protestantismo, outros com o islamismo, outros com a umbanda, etc. E tudo o que satisfaz o sentimento religioso é verdadeiro. Consequentemente, todas essas religiões ou doutrinas são verdadeiras, na medida em que satisfazem o sentimento religioso de uma pessoa ou de um grupo. Esse entendimento da fé como sentimento, entendimento que é próprio do modernismo, leva à mais completa indiferença religiosa: todas as religiões passam a se equivaler, todas as religiões são boas, pois há pessoas que se sentem bem nelas. Quantas vezes ouvimos: o importante é a pessoa se sentir bem. O importante não é a pessoa se sentir bem. Se sentir bem ou mal não tem muita importância. O importante é a pessoa fazer o bem, seguindo a vontade de Deus, cumprindo os mandamentos. Nosso Senhor, no Jardim das Oliveiras, ao dizer que sua alma estava triste até à morte, não estava se sentindo bem, caros católicos. Mas fazia a vontade de Deus. Na cruz, Nosso Senhor, ao dizer “Meu Deus, Meu Deus por que me abandonaste?”, não estava se sentindo bem, mas estava fazendo um grande bem, Ele estava fazendo a vontade de Deus para nos redimir.
O quanto o modernismo e suas consequências são opostas à realidade das coisas deve estar muito claro para todos nós. O modernismo, baseando-se na filosofia moderna, destrói tudo. Não sobra pedra sobre pedra, como vimos. Vejamos a verdade das coisas, baseada na sã filosofia e na doutrina católica. Que Deus existe, caros católicos, nós podemos conhecer pela nossa razão. Aristóteles, filósofo pagão, já havia provado a existência de Deus. Do nada, nada se faz. Do caos ou do acaso não pode vir a ordem. Do menor ou do menos perfeito não pode vir o maior ou o mais perfeito. É preciso um ser que criou tudo o que existe e que não foi criado. Com coisas tão perfeitas na natureza e com tanta ordem, é preciso uma inteligência que pensou e executou tudo quanto existe. É irracional negar ou duvidar da existência de Deus. Como nos diz a Sagrada Escritura: dixit insipens in corde suo, non est Deus (disse o tolo em seu coração, Deus não existe). É preciso realmente ser tolo ou estar cego pelas paixões desordenadas para não chegar à conclusão de que Deus existe. Deus existe e sendo um ser inteligente e onipotente, Ele pode se comunicar a nós, Ele pode se revelar a nós. E nós, sendo também seres inteligentes, podemos receber a revelação divina e podemos ser elevados por ela. E nossa razão nos mostra que se Deus nos fala, devemos aderir de modo absoluto, com certeza absoluta e sem nenhuma dúvida, porque Deus não pode se enganar nem nos enganar. E Ele, de fato, se revelou a nós. Deus nos falou e enviou seu próprio Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos mostra sua missão divina ao longo de todo o Evangelho, com obras divinas, com ensinamentos divinos. Nosso Senhor nos falou e Ele fundou sua Igreja, sobre Pedro, para perpetuar até a consumação dos séculos a sua obra redentora, para guardar intactos os seus ensinamentos. É a Igreja católica. Não somos nós, caros católicos, que criamos a religião, segundo nossos gostos. É Deus que no-la dá. Foi Deus que se dignou em obra de infinita misericórdia nos falar de si mesmo. A nós cabe agradecer a Deus tão imensa bondade e aderir de toda a nossa alma e de todo o nosso coração a Ele que é imutável e que nos comunicou verdades imutáveis. Não podemos mudar aquilo que nos foi dado por Cristo. Não podemos mudar o credo, não podemos mudar a doutrina da Igreja, a moral da Igreja, não podemos mudar a constituição da Igreja. Não podemos querer adaptar a Igreja ao mundo, mas devemos querer converter o mundo à Igreja.
O Papa São Pio X, de quem comemoramos o centenário de nascimento para o céu nesse ano de 2014, em sua Carta chamada Notre Charge Apostolique, dirigida aos Bispos franceses, a respeito de um movimento chamado Sillonafirmou: “os verdadeiros amigos do povo não são os revolucionários nem os inovadores, mas os tradicionalistas.”
Tradição não quer dizer, porém, imobilismo completo. A Tradição da Igreja compreende diferentes aspectos. Alguns podem mudar outros não. O depósito da fé, os ensinamentos infalíveis de fé e moral não podem ser mudados. Aquilo que foi revelado aos apóstolos por Cristo ou pelo Espírito Santo e que se transmite de geração em geração não pode ser mudado. Essa tradição chama-se tradição divina. Ela não pode ser mudada. Existe também a tradição eclesiástica, que são todas as coisas que não são intrínsecas ao depósito da fé, mas que são o patrimônio e a herança das gerações precedentes transmitidas para as gerações subsequentes pela Igreja. Na tradição eclesiástica pode haver certas mudanças. Não se exclui a aceitação de mudanças legítimas naquelas partes da tradição que podem mudar. Na medida em que uma mudança não é uma novidade, na medida em que a mudança é feita por quem tem autoridade para fazê-la, na medida em que não se rejeita a legitimidade do que veio antes e na medida em que a mudança é realmente necessária, a mudança pode ser possível e legítima. Em algumas coisas a tradição pode ser mudada em outras não. Nos aspectos em que a tradição eclesiástica pode ser mudada, a mudança deve ser baseada na própria natureza desse aspecto da tradição. Por exemplo, os ritos litúrgicos só podem ser mudados quando as mudanças são realmente orgânicas, sem rupturas, sem fabricações artificiais, e quando as mudanças servem para expressar mais perfeitamente a fé e quando a composição das orações expressa melhor a intenção da Igreja e quando as orações são tornadas, desse modo, mais eficazes (para estudo mais completo sobre o assunto, ver Topics on Tradition, do Padre Chad Ripperger). Assim, podemos citar como exemplo de mudança bem feita a introdução na idade média da elevação das espécies logo após a consagração, para expressar mais perfeitamente a fé na presença real e substancial de Cristo. Uma mudança na liturgia não pode destruir todo
o edifício litúrgico desenvolvido sabiamente ao longo dos séculos, nem amenizar a profissão de fé, diminuindo, por exemplo, os gestos que confessam a presença de Cristo na Eucaristia, diminuindo as genuflexões do padre, diminuindo o cuidado com as partículas consagradas, etc. Coisa que, infelizmente, aconteceu com a liturgia nos últimos 40 anos. Enfim, nenhuma parte da tradição deve ser mudada, exceto quando a mudança favorece realmente o crescimento na fé daqueles que são os destinatários da tradição e quando essa mudança está de acordo com a natureza daquilo que vai ser mudado. A fé é o princípio constante que deve sempre guiar qualquer mudança nesses aspectos passíveis de mudança na tradição. Se a mudança diminui a expressão da fé ou se ela diminui a fé dos membros da Igreja, não será uma mudança boa.
Diante de tal grave erro, que é o modernismo – a pior das heresias – devemos ter uma fé sólida, profunda, viva. Devemos com alegria aderir à revelação de Deus, que nos falou pelos profetas e por seu próprio Filho. Devemos ter uma fé viva, que age pela caridade, pelo amor a Deus e ao próximo. Para ter essa fé, devemos, antes de tudo, pedi-la a Deus. Devemos ter uma vida séria de oração e devemos buscar conhecer, segundo nosso estado e nossa condição, a doutrina da Igreja. Devemos também ter um amor profundo pela tradição eclesiástica, por essas coisas que se foram formando ao longo dos séculos a partir do conhecimento profundo que a Igreja tem de nossa natureza humana e da doutrina de Cristo. Como diz São Paulo: “que Cristo habite pela fé em nossos corações, para que, fundados na caridade possamos compreender a latitude e a longitude, a altura e a profundidade do amor de Cristo para conosco.”
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.