23 de junho de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 4ª Parte

CAPÍTULO IV
Do grande desejo que teve Jesus de padecer e morrer por nosso amor
1. Muito terna, amorosa e afetuosa foi aquele declaração que fez nosso Redentor quando veio à terra, afirmando que ele tinha vindo para acender nas almas o fogo do amor divino e que não tinha outro desejo senão ver acesa nos corações de todos os homens essa santa chama. “Eu vim trazer fogo à terra e que desejo senão que ele se acenda?” (Lc 12,49). E ajunta imediatamente que desejava ser batizado no batismo de seu próprio sangue, não para lavar seus próprios pecados (pois era impecável), mas os nossos, pelos quais ele vinha satisfazer por seus tormentos. A paixão de Cristo chama-se batismo, porque fomos purificados por seu sangue, diz S. Boaventura. Em seguida nosso amantíssimo Jesus, para nos fazer compreender o ardor desse seu desejo de morrer por nós, acrescenta, com grande expressão de amor, que ele sentia uma imensa aflição por ter de diferir a execução de sua paixão, tão grande era o seu desejo de padecer por nosso amor. Eis suas amorosas palavras: “Tenho de ser batizado em um batismo e quão grande é minha angústia enquanto não o vejo cumprido” (Lc 12,50). 2. Ó Deus, abrasado em amor pelos homens, que podíeis mais dizer e fazer para obrigar-me a vos amar? E que bem vos podia trazer meu amor, que, para obtê-lo, quisestes morrer e desejastes tão ardentemente a morte? Se um meu escravo tivesse apenas desejado morrer por mim, seguramente teria conquistado o meu amor, e poderei viver sem amar com todo o meu coração a vós, meu Rei e meu Deus, que por mim morrestes e com tão grande desejo de obter o meu amor! 3. Sabendo Jesus que chegara a sua hora de se ir deste mundo para seu Pai, tendo amado os seus, amou-os até ao fim (Jo 13,1). Diz S. João que Jesus chamou sua hora a hora de sua Paixão, porque, como escreve um piedoso comentador, foi esse o momento da vida mais ardentemente desejado por nosso Redentor; com padecer e morrer pelo homem, ele queria fazê-lo compreender o amor imenso que lhe dedicava: É aquela hora do amante em que padece pelo amigo (Barrad t. 4. 1. 2., c. 5). É cara ao que ama a hora em que sofre pela pessoa amada, já que o padecer por outrem é a coisa mais própria para manifestar-lhe o nosso amor e ganhar-lhe o seu. Ah! meu caro Jesus, para me patenteardes o vosso grande amor, não quisestes confiar a outrem a obra de minha redenção. Tão caro vos era o meu amor, que quisestes padecer tão grandes penas para conquistá-lo. E que mais poderíeis fazer, se tivésseis de granjear o amor de vosso Eterno Pai? Que mais poderia padecer um escravo para obter o amor de seu senhor, do que aquilo que suportastes para serdes amado por mim, escravo vil e ingrato?
4. Vejamos nosso amado Jesus, já próximo a ser sacrificado sobre o altar da cruz por nossa salvação, naquela noite bem-aventurada que precedeu a sua paixão. Ouçamos o que diz a seus discípulos na última ceia que toma com eles.“Ardentemente desejei comer esta páscoa convosco” (Lc 22,15). S. Lourenço Justiniano, considerando estas palavras, assevera que foram todas expressões de amor. Como se nosso amante Redentor tivesse dito: ó homens, sabei que esta noite, na qual se dará início à minha paixão, é o tempo pelo qual mais suspirei durante toda a minha vida, porque agora com meus sofrimentos e com minha acerba morte vos farei compreender quanto eu vos amo e assim vos obrigarei a amar-me da maneira mais eficaz que me é possível. Diz um autor que na paixão de Jesus a onipotência divina se uniu com o amor; o amor pretendeu amar o homem com toda a extensão da onipotência e a onipotência procurou satisfazer o amor em toda a extensão de seu desejo. Ó sumo Deus, vós me haveis dado tudo, dando-vos a mim, e como posso deixar de amar-vos com todo o meu ser? Eu creio, sim, eu o creio, que vós morrestes por mim e como posso amar-vos tão pouco, esquecendo-me tão a miúdo de vós e do quanto padecestes por mim! E por que, Senhor, não me sinto todo abrasado no vosso amor, ao pensar na vossa paixão e não me rendo todo a vós, como tantas almas santas, que, considerando vossos sofrimentos, tornaram-se presas felizes de vosso amor e deram-se por inteiro a vós? 5. Dizia a esposa dos Cânticos que, cada vez que seu esposo a introduzia na sagrada cela de sua paixão, se via de tal modo assaltada pelo amor divino, que, desfalecida de amor, era obrigada a buscar alívio ao seu coração ferido: “Introduziu-me em sua adega e ordenou em mim a caridade. Confortai-me com flores, alentai-me com pomos, porque desfaleço de amor” (Ct 2,4). E como é possível que uma alma, pondo-se a considerar a paixão de Jesus Cristo, as dores e a agonia que tanto afligiram o corpo e a alma de seu amado Senhor, não se sinta ferida como por outras tantas setas de amor e docemente forçada a amar a quem tanto o amou? Ó Cordeiro sem mancha, como me pareceis belo e amável quando vos contemplo nessa cruz assim dilacerado, ensangüentado e desfigurado! Sim, porque todas essas chamas que em vós eu vejo, são provas e sinais do grande amor que me tendes. Ah, se todos os homens vos contemplassem nesse estado, em que fostes dado um dia em espetáculo a Jerusalém, quem poderia deixar de sentir-se cativo de vosso amor? Meu amado Senhor, aceitai o meu amor, pois eu vos consagro todos os meus sentido e toda a minha vontade. E como vos poderei negar alguma coisa quando vós não me negastes o vosso sangue, a vossa vida e todo o vosso ser?
6.Tão grande foi o desejo de padecer por nós, que na noite anterior à sua morte não somente seguiu espontaneamente para o horto, onde sabia que os judeus o haviam de prender, mas também disse a seus discípulos, sabendo que Judas, o traidor, já estava próximo com a escolta dos soldados: Levantai-vos, vamos; já está próximo quem me vai trair (Mc 14,42). Quis ele mesmo ir ao seu encontro, como se viessem para conduzi-lo não já ao suplício da morte, mas à coroa de um grande reino. Ó meu doce Salvador, fostes ao encontro da morte com tão ardente desejo de morrer, pelo excessivo anseio que tínheis de ser amado por mim. E eu não desejarei morrer por vós, meu Deus, para testemunhar-vos o amor que vos tenho? Sim, meu Jesus, porto por mim, eu também desejo morrer por vós. Eu vos consagro o sangue, a vida, tudo o que tenho! Eis-me pronto a morrer por vós como e quando vos aprouver. Aceitai este mesquinho sacrifício que vos faz um miserável pecador, que antigamente vos ofendeu, mas agora mais vos ama do que a si mesmo.
7. S. Lourenço Justiniano considera aquele Sítio que Jesus proferiu na cruz ao morrer e diz que essa sede não foi uma sede que provinha da necessidade de água, mas que nascia do fogo do amor que Jesus sentia por nós: Essa sede provinha do ardor da caridade. Com essa palavra nosso Redentor quer manifestar-nos, mais que a sede do corpo, o desejo que tinha de sofrer por nós, demonstrando-nos o seu amor e juntamente o desejo que sentia de ser amado por nós depois de tantos sofrimentos suportados por nós. E S. Tomás afirma igualmente: Por este Sítio mostra seu ardente desejo de salvação do gênero humano (In Jo 19,1.5). Ah! Deus de amor, é possível que fique sem correspondência um tal excesso de caridade? Costuma-se afirmar que amor com amor se paga, mas com que amor se poderá pagar o vosso amor? Seria necessário que um outro Deus morresse por nós, para compensar o amor que nos testemunhastes, morrendo por nós. Como, pois, Senhor meu, como pudestes afirmar que vossas delícias consistiram em estar com os homens, se deles não tendes recebido senão injúrias e maus tratos? O amor, pois, vos transforma em delícias as dores e os vitupérios que sofrestes por nós.
8. Ó Redentor amabilíssimo, não quero resistir por mais tendo às vossas finezas: eu vos consagro todo o meu amor. Vós sereis entre todas as coisas e haveis de ser sempre o único amor de minha alma. Fizestes-vos homem para ter uma vida que dar por mim e eu desejaria ter mil vidas para sacrificá-las todas por vós. Eu vos amo, bondade infinita, e quero amar-vos com todas as minhas forças; quero fazer quanto em mim estiver para vos agradar. Vós, inocente, tanto padecestes por mim e eu, pecador, que mereci o inferno, quero sofrer por vós o que vos aprouver. Meu Jesus, auxiliai este meu desejo que vós mesmo me inspirais, pelos vossos merecimentos. Ó Deus infinito, eu creio em vós, em vós eu espero, a vós eu amo. Maria, minha Mãe, intercedei por mim. Amém.

22 de junho de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 3ª Parte

CAPÍTULO III
Jesus por nosso amor quis desde o princípio de sua vida sofrer as penas de sua Paixão.
1. Para fazer-se amar do homem foi que o Verbo divino veio ao mundo tomar a natureza humana. Veio com tão grande desejo de sofrer por nosso amor, que não quis perder um só momento em dar começo a seus tormentos, ao menos pela apreensão. Apenas concebido no ventre de Maria, já se representou em espírito todos os tormentos de sua Paixão e para nos obter o perdão e a graça divina se ofereceu ao Padre Eterno para satisfazer por nós, sujeitando-se a todas as penas e castigos devidos a nossos pecados. Deste esse instante começou a padecer tudo o que depois veio a sofrer na sua dolorosa morte. Ah! meu amorosíssimo Redentor, e eu até agora que fiz ou que padeci por vós? Se durante mil anos suportasse por vós os tormentos sofridos pelos mártires, seria ainda pouco em comparação daquele só primeiro momento em que vos oferecestes e começastes a padecer por mim.
2. Os mártires sofreram de fato grandes dores e ignomínias, mas unicamente na ocasião de seu martírio. Jesus padeceu sempre, desde os tormentos de sua Paixão, já que, desde o primeiro momento, se pôs diante dos olhos toda a cena horripilante dos tormentos e das injúrias que devia receber dos homens. Por isso ele, por boca do profeta, disse: Minha dor está sempre à minha vista (Sl 37,18).Ah! meu Jesus, vós por meu amor vos mostrastes tão desejoso de padecer, que quisestes sofrer antes do tempo e eu sou tão ávido de prazeres da terra. Quantos desgostos vos dei para satisfazer o meu corpo! Senhor, pelos méritos de vossos padecimentos, tirai-me o afeto aos prazeres terrenos. Eu proponho por vosso amor abster-me de tal satisfação (nomeai-a).
3. Deus, por compaixão conosco, não nos revela antes do tempo os sofrimentos que nos estão preparados. Se a um réu condenado à forca fosse revelado desde o uso da razão o suplício que o esperava, poderia ele ter um só dia de alegria? Se, desde o começo de seu reinado, fosse mostrada a Saul a espada que o deveria traspassar; se Judas previsse o laço que deveria sufocá-lo, quão amarga não lhes seria a vida! Nosso amável Redentor, desde o primeiro instante de sua vida, tinha diante dos olhos os açoites, os espinhos, a cruz, os ultrajes da sua paixão, a morte dolorosa que o esperava. Quando via as vítimas que eram sacrificadas no templo, sabia muito bem que todas elas eram figura do sacrifício que esse Cordeiro imaculado deveria consumar no altar da cruz. Quando via a cidade de Jerusalém, sabia que aí deveria sacrificar sua vida num mar de dores e de vitupérios. Quando olhava para sua querida Mãe, já a imaginava agonizante ao pé da cruz, junto a si moribundo. E assim, meu Jesus, a vista horrível de tantos males em toda a vossa vida vos afligiu sempre e vos atormentou antes do tempo de vossa morte. E vós aceitastes tudo e sofrestes por meu amor.
4. Somente a vista de todos os pecados do mundo, especialmente dos meus, ó meu aflito Senhor, com os quais já prevíeis que eu vos havia de ofender, fez que a vossa vida fosse a mais aflita e penosa de todas as existências passadas e futuras. Mas, ó meu Deus, em que lei bábara está escrito que um Deus ame tanto uma criatura e que depois disso a criatura viva sem amar o seu Deus, antes o ofenda e desgoste? Fazei, Senhor, que eu conheça a grandeza de vosso amor, para que não vos seja mais ingrato. Ó meu Jesus, se eu vos amasse, se eu vos amasse deveras, quão doce me seria o padecer por vós.
5. À Sóror Madalena Orsini, que já há longo tempo vivia atribulada, apareceu uma vez Jesus na cruz, e a animou a sofrer com paciência. A serva de Deus respondeu: Mas, Senhor, vós só por três horas estivestes pregado na cruz e eu já há mais anos sofro este tormento. Repreendendo-a, disse-lhe Jesus Cristo: “Ah! ignorante, que dizes? Eu, desde o primeiro instante em que me achei no seio de minha Mãe, sofri no coração tudo aquilo que mais tarde tolerei na cruz”. E eu, meu caro Redentor, à vista de tantos tormentos que durante toda a vossa vida sofrestes por meu amor, como posso lamentar-me das cruzes que vós me enviais para meu bem? Agradeço-vos haver-me remido com tanto amor e com tanta dor. Vós, para animar-me a sofrer com paciência as penas desta vida, quisestes vos encarregar de todos os nossos males. Ah! Senhor, fazei que tenha sempre presentes as vossas dores, para que eu aceite e deseje sempre padecer por vosso amor.
6. “Grande como o mar é vossa dor” (Lm, 2,13). Como as águas do mar são salgadas e amargosas, assim a vida de Jesus foi toda cheia de amarguras e falta de todo o alívio, como ele mesmo disse a S. Margarida de Cortona. Além disso, como no mar se reúnem todas as águas da terra, assim em Jesus Cristo se reuniram todas as dores dos homens. Pela boca do Salmista ele mesmo o afirma: “Salvai-me, ó meu Deus, porque as águas entraram até a minha alma; cheguei ao alto mar e a tempestade me submergiu” (Sl 68,1). Ah! meu caro Jesus, meu amor, minha vida, meu tudo, se eu contemplo exteriormente o vosso corpo, nada mais vejo senão chagas. Se penetro em vosso coração desolado, não encontro senão amarguras e opróbrios, que vos causam mortais agonias. Ah! meu Senhor, quem, além de vós, que sois uma bondade infinita, se sujeitaria a padecer tanto e morrer por uma criatura vossa? Mas, porque vós sois Deus, amais como Deus, com um amor que não pode ser comparado com nenhum outro amor.
7. S. Bernardo diz: Para remir o escravo, o Pai não poupou a seu Filho e o Filho não se poupou a si mesmo (Serm. de pass. Dom.). Ó caridade infinita de Deus: de um lado o Padre Eterno impôs a Jesus Cristo satisfazer por todos os pecados dos homens (Is 53,6) e doutro lado, Jesus, para salvar os homens da maneira mais amorosa possível, quer tomar sobre si a pena que era devida à divina justiça em todo o seu rigor, do que conclui S. Tomás que ele se submeteu a todas as dores e a todos os ultrajes em sumo grau. Por essa razão, Isaías o chama o homem das dores e o mais desprezado de todos os homens (Is 53,3). E com razão, porque enquanto Jesus era atormentado em todos os membros e sentidos do corpo, sofria ainda maiores tormentos em todas as potências de sua alma, visto que as penas interiores superam imensamente todas as dores externas. Ei-lo, pois, dilacerado, exangue, tratado como enganador, mágico, doido abandonado por seus próprios amigos e finalmente perseguido por todos até findar sua vida sobre um infame patíbulo.
8. Sabeis o que eu fiz para vós (Jo 13,12). Senhor, eu sei quanto fizestes e padecestes por meu amor, e vós sabeis que até agora nada fiz por vós. Meu Jesus, ajudai-me a sofrer qualquer coisa por amor de vós, antes de me atingir a morte. Eu me envergonho de aparecer diante de vós, mas não quero ser mais aquele ingrato que tenho sido para convosco há tantos anos.Vós vos privastes de todo o prazer por mim; eu renuncio por vosso amor a todos os prazeres dos sentidos. Vós sofrestes tantas dores por mim; eu quero sofrer por vós todas as penas de minha vida e minha morte. Vós fostes abandonado e eu consinto em ser abandonado por todos, para que vós não me abandoneis, meu único e sumo bem.Vós fostes perseguido e eu aceito toda sorte de perseguições. Vós finalmente morrestes por mim e eu quero morrer por vós. Ah! meu Deus, meu tesouro, meu amor, meu tudo, eu vos amo, dai-me mais amor.

21 de junho de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 2ª Parte

CAPÍTULO II
Jesus quis padecer tanto por nós, para nos fazer compreender o grande amor que nos consagra.
1. Duas coisas fazem conhecer um amigo, escreve Cícero: fazer-lhe bem e padecer por ele, e esta é a maior prova de um verdadeiro amor. Deus já tinha demonstrado seu amor ao homem, dispensando-lhe inúmeros benefícios, mas, segundo S. Pedro Crisólogo, beneficiar unicamente ao homem parecer-lhe-ia muito pouco a seu amor, se não tivesse encontrado o modo de demonstrar-lhe quanto o amava, padecendo e morrendo por ele, como o fez de fato, tomando a natureza humana (Serm. 69). E que maneira mais apta poderia Deus encontrar para manifestar-nos o amor imenso que nos consagra, do que fazer-se homem e padecer por nós? Não poderia se manifestar de outra maneira o amor de Deus para conosco, escreve a esse respeito S. Gregório Nazianzeno. Meu amado Jesus, muito vos tendes esforçado por demonstrar-me vosso afeto e patentear-me vossa bondade. Grande, pois, seria a ofensa a vós feita, se vos amasse pouco ou amasse outra coisa além de vós.
2. Cornélio a Lápide diz que Deus nos deu o maior sinal de amor, deixando-se ver coberto de chagas, pregado à cruz e morto por nós. E antes dele, disse S. Bernardo que Jesus em sua Paixão nos fez conhecer que seu amor para conosco não podia ser maior do que foi (De pass. c. 14). Escreve o Apóstolo que, quando Jesus Cristo quis morrer por nossa salvação, demonstrou até onde chegava o amor de um Deus para conosco, miseráveis pecadores (Tito 3,4). Ah! meu amante Salvador, compreendo: todas as vossas chagas me falam do amor que me tendes. E quem poderá deixar de vos amar, depois de tantos sinais de vossa caridade? S. Teresa tinha razão de dizer, ó amabilíssimo Jesus, que quem não vos ama demonstra que vos desconhece.
3. Jesus Cristo, mesmo sem padecer e levando na terra uma vida agradável e deliciosa, poderia nos obter a salvação. Mas, como diz S. Paulo, havendo-lhe sido proposto o gozo, sofreu na cruz (Hb 12,2). Ele recusou as riquezas, as delícias, as honras terrestres, e escolheu uma vida pobre e uma morte cheia de dores e de opróbrios. E por quê? Não seria suficiente se ele tivesse suplicado ao Padre Eterno, com uma petição simples, que perdoasse ao homem a qual, sendo de valor infinito, bastaria para salvar o mundo e infinitos mundos? por que foi que ele quis suportar tantos tormentos e uma morte tão cruel, havendo se separado a alma de Jesus de seu corpo exclusivamente por pura dor, como nota um autor? (Contens. 1. 10, d. 4 c. 1). Por que tanto esforço para remir o homem? “Se uma prece de Jesus bastava para remir-nos, responde S. João Crisóstomo (Serm. 128), contudo não bastou para nos demonstrar o amor que este Deus nos tinha. O que bastava à redenção não bastava ao amor”. E S.Tomás confirma-o, dizendo: “Cristo, sofrendo por amor, pagou a Deus mais do que exigia a reparação da ofensa do gênero humano” (III q. 48, a. 2). Porque Jesus muito nos amava, desejava também ser muito amado por nós e por essa razão fez o quanto pôde, mesmo a preço de sofrimentos, para conquistar o nosso amor e nos fazer compreender que nada mais lhe restava fazer para ser amado por nós. Ele quis padecer muito, para obrigar-nos a amá-lo muito, diz S. Bernardo.
4. E que maior prova de amor, diz o próprio Salvador, poderá dar um amigo a seu amigo, do que dar a vida por seu amor? (Jo 15,13). Mas vós, ó amantíssimo Jesus, diz S. Bernardo, fizestes mais do que isso, já que quisestes dar a vida por nós, não vossos amigos, mas inimigos e rebeldes. É o que faz notar o Apóstolo, quando escreve: “Deus faz brilhar a sua caridade em nós, porque, quando ainda éramos pecadores, em seu tempo Cristo morreu por nós” (Rm 5,8).Vós, pois, ó meu Jesus, quisestes morrer por mim, vosso inimigo, e eu poderei resistir a tão grande amor? Eia, pois, já que com tanto ardor desejais que vos ame sobre todas as coisas, repelirei todo outro amor e quero amar-vos a vós somente.
5. São João Crisóstomo diz que o fim principal que teve Jesus em sua paixão foi o de manifestar o seu amor e assim atrair os nossos corações com a recordação dos sofrimentos por nós suportados (De Pass. s. 6). E S. Tomás ajunta que, por meio da Paixão de Jesus, chegamos ao conhecimento da grandeza do amor que Deus dedica ao homem. E já antes dele disse S. João: Nisto conhecemos a caridade de Deus, que ele entregou sua alma por nós (1Jo 3,16). Ó meu Jesus, ó cordeiro imaculado, por mim sacrificado na cruz, que não seja baldado o que padecestes por mim, antes fazei que me aproveite de tantos sofrimentos vossos. Prendei-me inteiramente com os doces laços de vosso amor, para que não vos abandone nem me separe mais de vós.
6. Refere S. Lucas que, conversando Moisés e Elias no monte Tabor sobre a Paixão de Jesus Cristo, denominaram-se um excesso: “E falaram de seu excesso, que realizaria em Jerusalém” (Lc 9,31). Com razão, diz S. Boaventura, a Paixão de Jesus foi chamada em excesso, visto ter sido um excesso de dor e um excesso de amor. Um autor piedoso acrescenta: Que mais podia padecer que não sofresse? O sumo excesso de amor atingiu seu zênite (Constens. 1. 10, d. 4). E não é verdade? A lei divina não impõe outra obrigação aos homens a não ser amar a seu próximo como a si mesmo. Jesus, porém, amou os homens mais do que a si mesmo, é expressão de S. Cirilo. Por isso, vos direi com S. Agostinho: Vós, meu amado Redentor, chegastes a amar-me mais do que a vós mesmo, já que para me salvar quisestes sacrificar vossa vida divina, vida infinitamente mais preciosa que as vidas de todos os homens e de todos os anjos juntos.
7. Ó Deus infinito exclama o Abade Guerrico, vós, por amor do homem (se for lícito dizê-lo), vos tornastes pródigo de vós mesmo. E como não? pergunta, se não só quisestes dar os vossos bens, mas até vós mesmo para reaver o homem? Ó prodígio, ó excesso de amor, digno só de um infinito amor! Quem poderá, mesmo de longe, diz S. Tomás de Vilanova, compreender a imensidade de vosso amor em vos amar tanto a nós, míseros vermes, chegando a morrer e a morrer na cruz por nós? Sim, semelhante amor excede toda medida, toda inteligência (In Nat. Dom. c. 3).
8. É coisa agradável ver-se alguém estimado por uma alta personagem, tanto mais se esta estiver disposta a felicitá-lo com uma grande fortuna. Oh! quanto mais agradável e estimável nos deverá ser o ver-nos amados por Deus, que nos pode transmitir uma fortuna eterna? Na antiga lei o homem podia duvidar se Deus o amava com ternura. Depois, porém, de vê-lo sobre um patíbulo derramar seu sangue e morrer, como poderíamos ainda duvidar que ele nos ama com toda a ternura possível? Minha alma, contempla o teu Jesus, como ele está pendente na cruz, todo chagado: eis como ele te demonstra bem claramente por suas chagas o amor de que está repleto seu coração. “O segredo do coração se revela pelas chagas do corpo”, diz S. Bernardo. Meu caro Jesus, aflige-me ver-vos morrer sob a pressão de tantas dores nesse madeiro de opróbrio, mas tudo me consola e me inflama em amor por vós, conhecendo por meio dessas chagas o amor que me tendes. Serafins do céu, que pensais da caridade de meu Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim?
9. Afirma S. Paulo que os pagãos, ouvindo pregar que Jesus foi crucificado por amor dos homens, tinham isso em conta de uma loucura inacreditável: Nós, porém, pregamos a Cristo crucificado, que é para os judeus um escândalo e para os pagãos uma loucura (1Cor 1,23). Como é possível, diziam, crer que um Deus onipotente, que não precisa de ninguém para ser sumamente feliz, tenha querido fazer-se homem para salvar os homens e morrer numa cruz? Seria o mesmo que crer que um Deus se tornou louco de amor pelos homens. E, assim pensando, recusavam aceitar a fé! Esta grande obra da redenção, que os pagãos julgavam e chamavam uma loucura, sabemos nós que Jesus a empreendeu e realizou.Vimos a sabedoria eterna, diz S. Lourenço Justiniano, o Unigênito de Deus tornado como louco, por assim dizer, pelo amor excessivo que tinha aos homens. Sim, porque não deixa de ser uma loucura de amor, ajunta o cardeal Hugo, querer um Deus morrer pelo homem (In 1Cor 1).
10. O beato Jacopone, que no século fora um literato, feito franciscano, parecia haver-se tornado louco de amor por Jesus Cristo. Apareceu-lhe uma vez Jesus e disse-lhe: “Jacopone, por que fazes essas loucuras?” “Por que as faço? Porque vós mas haveis ensinado. Se eu sou louco, vós ainda sois mais, havendo querido morrer por mim”.Também S. Maria Madalena de Pazzi, arrebatada em êxtases, exclamava:“Ó Deus de amor! Ó Deus de amor! É demais o amor que tendes às criaturas, ó meu Jesus” (Vita c. 11). Uma vez, toda fora de si, em êxtases, tomou um crucifixo e se pôs a correr pelo convento, gritando:“ó amor, ó amor; não cessarei jamais de chamar-vos amor, ó meu Deus”. E, voltando-se para as Religiosas, disse: “Não sabeis, caras Irmãs, que o meu Jesus é só amor e até ouso dizer e sempre o direito, louco de amor?” Dizia que, quando chamava Jesus amor, desejaria ser ouvida do mundo inteiro, a fim de que fosse conhecido e amado por todos o amor de Jesus. De quanto em vez se punha a tocar o sino para que todos os povos da terra, como desejava, se possível fosse, viessem amar a seu Jesus.
11. Permiti-me dizê-lo, ó meu doce Redentor, muita razão não tinha em vossa esposa de chamar-vos louco de amor. E não parece uma loucura o terdes querido morrer por mim, um verme ingrato, como sou, de quem já prevíeis as ofensas e as traições que vos deveria fazer? Mas se vós, ó meu Deus, quase enlouquecestes por amor de mim, como é que eu não chego a enlouquecer por amor de um Deus? Depois de vos haver visto morto por mim, como poderei pensar em outro, além de vós? como poderei amar outra coisa além de vós? Oh! sim, meu Senhor, meu sumo bem, mais amável que todos os outros bens, eu vos amo mais do que a mim mesmo. Prometo-vos não amar de hoje em diante outro bem fora de vós e pensar sempre no amor que me haveis demonstrado, morrendo nomeio de tantos tormentos por mim.
12. Ó flagelos, ó espinhos, ó cravos, ó cruz, ó chagas, ó tormentos, ó morte de meu Jesus, vós muito me forçais e obrigais a amar a quem tanto me amou. Ó Verbo encarnado, ó Deus amoroso, minha alma se abrasa em amor por vós. Desejaria amar-vos tanto que não tivesse outro prazer que dar-vos prazer, ó dulcíssimo Senhor meu, e visto que tanto desejais o meu amor, eu protesto que não quero mais viver senão para vós, e fazer tudo o que quereis de mim. Ó meu Jesus, ajudai-me, fazei que eu vos agrade inteiramente e sempre, no tempo e na eternidade. Maria, minha Mãe, rogai a Jesus por mim, para que me conceda o seu amor, já que outra coisa não desejo nesta e na outra vida que amar a Jesus. Amém.

20 de junho de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 1ª Parte

CAPÍTULO I
Do amor de Jesus Cristo querendo satisfazer a justiça divina por nossos pecados
1. A história narra-nos um caso de um amor tão prodigioso que será a admiração de todos os séculos. Havia um rei, senhor de muitos reinos, que tinha um único filho, tão belo, tão santo, tão amável, que, sendo o encanto do seu pai, este o amava como a si mesmo. Ora, este príncipe se afeiçoou grandemente a um escravo e tendo este cometido um delito, pelo qual fora condenado à morte, o príncipe se ofereceu a morrer por ele. O pai, amante apaixonado da justiça, resolveu condenar seu amado filho à morte, para livrar o escravo do castigo merecido. E assim aconteceu: o filho morreu justiçado e o escravo ficou livre.

2. Este caso, que uma só vez se deu e nunca mais se repetirá no mundo, está consignado nos santos evangelhos, onde se lê que o Filho de Deus, o Senhor do universo, vendo o homem condenado à morte eterna por causa do pecado, quis tomar a natureza humana e pagar com sua morte a pena devida pelo homem. “Foi oferecido porque ele mesmo o quis” (Is 53,7). E o Eterno Pai o fez morrer na cruz para nos salvar a nós, míseros pecadores.“Não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por nós todos” (Rm 8,32). Que vos parece, alma cristã, este amor do Filho e do Pai?

3. Amado Redentor meu, quisestes então com vossa morte sacrificar-vos para obter-me o perdão. E que vos darei em reconhecimento? Muito me obrigastes a amar-vos, muito ingrato serei se não vos amar com todo o meu coração. Vós me destes vossa vida divina; eu, mísero pecador, vos consagro a minha vida. Ao menos a vida que me resta quero empregá-la exclusivamente em amar-vos, obedecer-vos e dar-vos gosto.

4. Ó homens, ó homens, amemos a este Redentor que, sendo Deus, não se dedignou sobrecarregar-se com os nossos pecados para satisfazer com seus sofrimentos pelos castigos que tínhamos merecido. “Em verdade tomou sobre si as nossas fraquezas e carregou com as nossas dores” (Is 53,4). Diz S. Agostinho que o Senhor, criando-nos, o fez em virtude de seu poder, mas, remindo-nos, fê-lo por meio de suas dores (In Joan). Quanto vos devo, ó Jesus, meu Salvador! Se eu desse mil vezes meu sangue por vós, e sacrificasse mil vidas, ainda seria pouco. Oh! se eu pensasse continuamente no amor que nos testemunhastes na vossa Paixão, não poderia certamente amar outro objeto além de vós. Por aquele amor com que nos amastes na cruz, dai-me a graça de vos amar com todo o meu coração. Eu vos amo, bondade infinita, eu vos amo acima de todos os bens e não vos peço outra coisa que o vosso santo amor.
5. Mas como explicar isto, continua a dizer S. Agostinho, que vosso amor tenha chegado a tal ponto, ó Salvador do mundo, que, tendo eu cometido o delito, tenhais vós de pagar a pena? (Medit. c. 7). E que vos importava, pergunta S. Bernardo, que nos perdêssemos e fôssemos castigados como havíamos merecido? Por que quisestes satisfazer por nossos pecados, castigando vossa carne inocente? Por que quisestes, Senhor, sofrer a morte para dela nos livrar? Ó misericórdia que não teve e nem terá jamais semelhante! Ó graça que nunca poderíamos merecer! Ó amor que nunca se poderá compreender!

6. Já Isaías predissera que nosso Redentor deveria ser condenado à morte e levado ao sacrifício como um inocente cordeiro (Is 53,7). Que admiração para os Anjos, ó Deus ver seu inocente senhor ser conduzido como vítima para ser sacrificado sobre o altar por amor do homem! E que espanto para o céu e o inferno ver um Deus condenado à morte como um malfeitor, num patíbulo ignominioso, pelos pecados de suas criaturas!

7. Cristo remiu-nos da maldição da lei, feito por nós maldição, porque está escrito: “Maldito todo aquele que é pendurado no lenho, para que a bênção dada a Abraão fosse comunicada aos gentios por Jesus Cristo” (Gl 3,13). Pelo que se diz S. Ambrósio: “Ele se fez na cruz maldito para que tu fosses bem-aventurado no reino de Deus”, (Ep. 47). Portanto, meu caro Salvador, vós, para que obterdes a bênção divina, vos sujeitastes a abraçar a vergonha de aparecer na cruz como maldito aos olhos do mundo e abandonado até de vosso eterno Pai, tormento que vos obrigou a exclamar em alta voz:“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” Sim, foi por este motivo que Jesus foi abandonado na sua Paixão, comenta Simão de Cássia, para que nós não ficássemos abandonados nos pecados por nós cometidos (Lib. 13 de pass. Dom.). Ó prodígio de misericórdia! Ó excesso de amor de um Deus para com os homens! E como é possível, meu Jesus, haver almas que nisso crêem e não vos amam?
8. Ele nos amou e nos lavou dos nossos pecados em seu sangue (Ap 1,5). Eis, ó homens, até aonde chegou o amor de Jesus por nós: para lavar-nos das manchas de nossos pecados, ele quis preparar-nos um banho de salvação no seu próprio sangue. Oferece seu sangue, diz um douto autor, que brada mais alto que o de Abel: este pedia justiça; o sangue de Cristo, porém, pede misericórdia. Aqui exclama S. Boaventura: “Ó bom Jesus, que fizestes? Até onde vos levou o amor? Que coisa vistes em mim que tanto vos enlevou? Por que quisestes padecer tanto por mim? Quem sou eu, que por tão grande preço quisestes granjear o meu amor? Ah! compreendo que tudo é o resultado de vosso amor infinito? Sede para sempre bendito e louvado.

9. Ó vós todos que passais por este caminho, atendei e vede se há dor como a minha dor (Jr 1,12). O mesmo seráfico doutor, considerando estas palavras de Jeremias como pronunciadas por nosso Salvador, quando se achava na cruz morrendo por nosso amor, diz: Eu já percebo, ó meu amante Senhor, quanto padecestes neste madeiro infame, mas o que mais me obriga a amar-vos é compreender o afeto que me testemunhastes padecendo tanto a fim de ser amado por mim.

10. O que mais inflamava S. Paulo a amar a Jesus era o pensar que ele quis morrer não somente por todos em geral, mas também por ele em particular. “Ele me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20). E assim deve exclamar cada um de nós, porque, como afirma S. João Crisóstomo, Deus ama cada homem em particular com o mesmo amor com que ama o mundo universo (In Gl 2). Pelo que cada um de nós não é menos devedor a Jesus Cristo por ter padecido por todos do que se tivesse sofrido por cada um em particular. Ora, se Jesus tivesse morrido para salvar somente a vós, meu irmão, deixando os outros na sua desgraça original, que obrigação não teríeis para com ele? Deveis, porém, compreender que maior obrigação tendes para com ele, dignando-se ele morrer por todos. Se tivesse morrido exclusivamente por vós, que pena sentiríeis ao pensar que vossos próximos, pais, irmãos, amigos, teriam de ser condenados e que depois desta vida viveríeis para todo o sempre separados deles! Se tivésseis sido reduzido à escravidão com toda a vossa família e aparecesse alguém a resgatar-vos a vós somente, com que instâncias não suplicaríeis que, juntamente convosco, resgatasse também vossos pais e irmãos! E que agradecimentos não havíeis de lhe testemunhar, se ele o fizesse para vos contentar? Dizei, pois, a Jesus: Ah! meu doce Redentor, sem que eu vos suplicasse, vós não só me haveis resgatado da morte, com o preço do vosso sangue, mas também os meus parentes e amigos, podendo eu ter toda a esperança de com eles entrar no vosso gozo no paraíso. Senhor, eu vos agradeço e vos amo e espero agradecer-vos e amar-vos eternamente naquela pátria bem-aventurada.
11. Quem poderá explicar o amor que o Verbo divino consagra a cada um de nós, pergunta S. Lourenço Justiniano, se ele supera o amor de todos os filhos para com suas mães e de todas as mães para com seus filhos? (Tr. de Chr. Ag. c. 5) Como revelou o Senhor a S. Gertrudes, ele estaria pronto a morrer tantas vezes quantas são as almas condenadas se fossem ainda capazes de redenção. Ó Jesus, ó bem mais amável que todos os outros bens, por que vos amam os homens tão pouco? Por favor, fazei que eles conheçam o quanto padecestes por um só deles, o amor que lhes tendes, o desejo que vos devora de ser por eles amado, as belas qualidades que possuís para lhes cativar o amor. Fazei-vos conhecer, ó meu Jesus, fazei-vos amar.

12. “Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá sua alma por suas ovelhas” (Jo 10,11). Onde, porém, ó Senhor, se encontram no mundo pastores semelhantes a vós? Os outros pastores dão a morte às suas ovelhas para a conservação da própria vida divina para obter a vida para as vossas amadas ovelhas. E eu sou uma dessas felizes ovelhas, ó meu amabilíssimo pastor. Que obrigação, pois, a minha, de amar-vos e de dar a minha vida por vós, já que vós por amor de mim em particular vos entregastes à morte. E que confiança não devo pôr no vosso sangue, sabendo que foi derramado para pagar os meus pecados. E dirás naquele dia: Eu te confessarei, ó Senhor... Eis aqui o Deus meu Salvador; agirei com toda a confiança e não temerei (Is 12,1-2). E como poderia desconfiar de vossa misericórdia, ó meu Senhor, contemplando as vossas chagas? Eia, pois, ó pecadores, recorramos a Jesus, que está em sua cruz como num trono de misericórdia. Ele aplacou a justiça divina contra nós irritada. Se ofendemos a Deus, ele fez penitência por nós: basta que tenhamos arrependimento.

13. Ah! meu caríssimo Salvador, a que vos reduziu a compaixão e o amor que me consagrastes: peca o escravo e vós, Senhor, pagais a pena. Se penso nos pecados devo, pois, tremer por causa do castigo que mereço; mas, pensando na vossa morte, tenho mais razão de esperar que de temer. Ó sangue de Jesus, tu és toda a minha esperança!
14. Mas este sangue, à medida que desperta confiança, obriga-nos a ser totalmente de nosso Redentor. O Apóstolo exclama: “Não sabeis que não sois vossos? Fostes comprados por um grande preço” (1Cor 6,19). Reconheço, ó meu Jesus, que eu não posso sem injustiça dispor de mim e de minhas coisas, já que sou propriedade vossa, visto me haverdes comprado com vossa morte. O meu corpo, a minha alma, a minha vida não é mais minha, é vossa e inteiramente vossa. Só em vós, portanto, quero por minha esperança, só a vós quero amar, ó meu Deus, por mim morto e crucificado. Não tenho outra coisa para oferecer-vos que esta alma resgatada em vosso sangue, e ela eu vos ofereço. Permiti que vos ame, pois nada mais quero fora de vós, meu Salvador, meu Deus, meu amor, meu tudo. Ao tempo passado fui mui grato para com os homens, mas fui mui ingrato para convosco. Presentemente eu vos amo e não há coisa que mais me aflija que o ter-vos desgostado. Ó meu Jesus, dai-me que eu confie em vossa Paixão e tirai de meu coração todo o afeto que não for para vós. Quero amar-vos exclusivamente, já que mereceis todo o meu amor e de tantas maneiras me obrigastes a vos amar.

15. E quem poderá deixar de vos amar, vendo-vos, como o filho dileto do Eterno Pai, terminar vossa vida com uma morte tão amarga e desumana por nosso amor? Ó Mãe do belo amor, pelos merecimentos de vosso coração abrasado em amor, obtende-nos a graça de viver somente para amar o vosso Filho, que, merecendo um amor infinito, quis a tanto custo conquistar o amor de um mísero pecador. Ó amor das almas, meu Jesus, eu vos amo; dai-me mais amor, mais chamas que me façam viver abrasado em vosso amor. Eu não mereço, mas vós o mereceis, bondade infinita. Amém, assim o espero, e assim seja.

19 de junho de 2014

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - Introdução

Piedosas e edificantes meditações sobre os sofrimentos de Jesus
Por Sto. Afonso Maria de Ligório

INVOCAÇÃO A JESUS E MARIA
Ó Salvador do mundo, ó amante das almas, ó Senhor, o mais digno objeto de nosso amor, vós, por meio de vossa Paixão, viestes a conquistar os nossos corações, testemunhando-lhes o imenso afeto que lhes tendes, consumando uma redenção que a nós trouxe um mar de bênçãos e a vós um mar de penas e ignomínias. Foi por este motivo principalmente que instituístes o SS. Sacramento do altar, para que nos lembrássemos continuamente de vossa Paixão, como diz S. Tomás: ut autem tanti beneficii jugis in nobis maneret memoria, corpus suum in cibum fidelibus dereliquit (Opusc. 57). E já antes dele disse S. Paulo: Quotiescumque enim manducabitis panem hunc... mortem Domini annunciabitis (1Cor 11,26). Como tais prodígios de amor já tendes conseguido que inúmeras almas santas, abrasadas nas chamas de vosso amor, renunciassem a todos os bens da terra, para se dedicarem exclusivamente a amar tão somente a vós, amabilíssimo Senhor. Fazei, pois, ó meu Jesus, que eu me recorde sempre de vossa Paixão e que, apesar de miserável pecador, vencido finalmente por tantas finezas de vosso amor, me resolva a amar-vos e a dar-vos com o meu pobre amor algumas provas de gratidão pelo excessivo amor que vós, meu Deus e meu Salvador, me tendes demonstrado. Recordai-vos, ó Jesus meu, que eu sou uma daquelas vossas ovelhinhas, por cuja salvação viestes à terra sacrificar vossa vida divina. Eu sei que vós, depois de me terdes remido com vossa morte, não deixastes de me amar e ainda me consagrais o mesmo amor que tínheis ao morrer por mim na cruz. Não permitais que eu continue a viver ingrato para convosco, ó meu Deus, que tanto mereceis ser amado e tanto fizestes para ser de mim amado.
E vós, ó SS. Virgem Maria, que tivestes tão grande parte na Paixão de vosso Filho, impetrai-me pelos merecimentos de vossas dores a graça de experimentar um pouco daquela compaixão que sentistes na morte de Jesus e obtende-me uma centelha daquele amor, que constituiu o martírio de vosso coração tão compassivo.
Suplico-vos, Senhor Jesus Cristo, que a força de vosso amor, mais ardente que o fogo, e mais doce que o mel, absorva a minha alma, a fim de que eu morra por amor de vosso amor, ó vós que vos dignastes morrer por amor de
meu amor. Amém.

FRUTOS QUE SE COLHEM NA MEDITAÇÃO DA PAIXÃO DE JESUS CRISTO
INTRODUÇÃO
1. O amante das almas, nosso amantíssimo Redentor, declarou que não teve outro fim, vindo à terra e fazendo-se homem, que acender o fogo do santo amor nos corações dos homens. “Eu vim trazer fogo à terra e que mais desejo senão que ele se acenda?” (Lc 12,49). E, de fato, que belas chamas de caridade não acendeu ele em tantas almas, particularmente com os sofrimentos que teve de padecer na sua morte, a fim de patentear-nos o amor imenso que nos dedica! Oh! quantos corações, sentindo-se felizes nas chagas de Jesus, como em fornalhas ardentes de amor, se deixaram inflamar de tal modo por seu amor, que não recusaram consagrar-lhe os bens, a vida e a si mesmos inteiramente, vencendo corajosamente todas as dificuldades que se lhes deparavam na observância da Divina lei, por amor daquele Senhor que, sendo Deus, quis sofrer tanto por amor deles! Foi justamente este o conselho que nos deu o Apóstolo, para não desfalecermos mas até corrermos expeditamente no caminho do céu: “Considerai, pois, atentamente aquele que suportou tal contradição dos pecadores contra a sua pessoa, para que vos não fatigueis, desfalecendo em vossos ânimos” (Hb 12,3). 2. Por isso, S. Agostinho, ao contemplar Jesus todo chagado na cruz, orava afetuosamente:“Escrevei, Senhor, vossas chagas em meu coração, para que nelas eu leia a dor e o amor: a dor, para suportar por vós todas as dores; o amor, para desprezar por vós todos os amores”. Porque, tendo diante dos meus olhos a grande dor que vós, meu Deus, sofrestes por mim, sofrerei pacientemente todas as penas que tiver de suportar, e à vista do vosso amor, de que me destes prova na cruz, eu não amarei nem poderei amar senão a vós. 3. E de que fonte hauriram os santos o ânimo e a força para sofrer os tormentos, o martírio e a morte, senão dos tormentos de Jesus crucificado? S. José de Leonissa, capuchinho, vendo que queriam atá-lo com cordas para uma operação dolorosa que o cirurgião devia fazer-lhe, tomou nas mãos o seu crucifixo e disse: Cordas? que cor
das! eis aqui os meus laços. Este Senhor pregado por meu amor com suas dores obriga-me a suportar qualquer tormento por seu amor. E dessa maneira suportou a operação sem se queixar, olhando para Jesus, que “como um cordeiro se calou diante do tosquiador e não abriu a sua boca” (Is 53,7). Quem mais poderá dizer que padece injustamente vendo Jesus que “foi dilacerado por causa de nossos crimes?” Quem mais poderá recusar-se a obedecer, sob pretexto de qualquer incômodo, contemplando Jesus “feito obediente até à morte?” Quem poderá rejeitar as ignomínias, vendo Jesus tratado como louco, como reide burla, como malfeitor, esbofeteado, cuspido no rosto e suspenso num patíbulo infame?
4. Quem, pois, poderá amar um outro objeto além de Jesus, vendo-o morrer entre tantas dores e desprezos, a fim de conquistar o nosso amor? Um pio solitário rogava ao Senhor que lhe ensinasse o que deveria fazer para amá-lo perfeitamente. O Senhor revelou-lhe que, para chegar a seu perfeito amor, não havia exercício mais próprio que meditar freqüentemente na sua Paixão. Queixava-se S.Teresa amargamente de alguns livros, que lhe haviam ensinado a deixar de meditar na Paixão de Jesus Cristo, porque isto poderia servir de impedimento à contemplação da divindade. Pelo que a santa exclamava: “Ó Senhor de minha alma, ó meu bem, Jesus Crucificado, não posso recordar-me dessa opinião sem me julgar culpada de uma grande infidelidade. Pois seria então possível que vós, Senhor, fôsseis um impedimento para um bem maior? E donde me vieram todos os bens senão de vós?” E em seguida ajuntava: “Eu vi que, para contentar a Deus e para que nos conceda grandes graças, ele quer que tudo passe pelas mãos dessa humanidade sacratíssima, na qual se compraz sua divina majestade”. 5. Por isso dizia o Padre Baltasar Álvarez que o desconhecimento dos tesouros que possuímos em Jesus é a ruína dos cristãos, sendo por essa razão a Paixão de Jesus Cristo sua meditação preferida e mais usada, considerando em Jesus especialmente três de seus tormentos: a pobreza, o desprezo e as dores, e exortava os seus penitentes a meditar freqüentemente na Paixão do Redentor, afirmando que não julgassem ter feito progresso algum se não chegassem a ter sempre impresso no coração a Jesus crucificado. 6. Ensina S. Boaventura que quem quiser crescer sempre de virtude em virtude, de graça em graça, medita sempre Jesus na sua Paixão. E ajunta que não há exercício mais útil para fazer santa uma alma do que considerar assiduamente os sofrimentos de Jesus Cristo.
7. Além disso afirmava S. Agostinho (ap. Bern. de Bustis) que vale mais uma só lágrima derramada em recordação da Paixão de Jesus, que uma peregrinação a Jerusalém e um ano de jejum a pão e água. E na verdade, porque vosso amante Salvador padeceu tanto senão para que nisso pensássemos e pensando nos inflamássemos no amor para com ele? “A caridade de Cristo nos constrange”, diz S. Paulo (2Cor 5,14). Jesus é amado por poucos, porque poucos são os que meditam nas penas que por nós sofreu; que, porém, as medita a miúdo, não poderá viver sem amar a Jesus: sentir-se-á de tal maneira constrangido por seu amor que não lhe será possível resistir e deixar de amar a um Deus tão amante e que tanto sofreu para se fazer amar. 8. Essa é a razão por que dizia o Apóstolo que não queria saber outra coisa senão Jesus e Jesus Crucificado, isto é, o amor que ele nos testemunhou na cruz. “Não julgueis que eu sabia alguma coisa entre vós senão a Jesus Cristo e este crucificado (1Cor 2,2). E na verdade, em que livros poderíamos aprender melhor a ciência dos santos (que é a ciência de amar a Deus) do que em Jesus Crucificado? O grande servo de Deus, Frei Bernardo de Corleone, capuchinho, não sabendo ler, queriam seus confrades ensinar-lhe. Ele, porém, foi primeiro aconselhar-se com seu crucifixo e Jesus respondeu-lhe da cruz: “Que livro! Que ler! eu sou o teu livro, no qual poderás sempre ler o amor que eu te consagro!” Oh! que grande assunto de meditação para toda a vida e para toda a eternidade: um Deus morto por meu amor! 9.Visitando uma vez S.Tomás d’Aquino a S. Boaventura, perguntou-lhe de que livro se havia servido para escrever tão belas coisas que havia publicado. S. Boaventura mostrou-lhe a imagem de Jesus crucificado, toda enegrecida pelos muitos beijos que lhe imprimira, dizendo-lhe: “Eis o meu livro, donde tiro tudo o que escreve; ele ensinou-me o pouco que eu sei”. Todos os santos aprenderam a arte de amar a Deus no estudo do crucifixo. Fr. João de Alvérnia, todas as vezes que contemplava Jesus coberto de chagas, não podia conter a lágrimas. Fr.Tiago de Todi, ouvindo ler a Paixão do Redentor, não só derramava abundantes lágrimas, mas prorrompia em soluços, oprimido pelo amor de que se sentia abrasado por seu amado Senhor.
10. S. Francisco fez-se aquele grande serafim pelo doce estudo do crucifixo. Chorava tanto ao meditar os sofrimentos de Jesus Cristo, que perdeu quase totalmente a vista. Uma vez encontraram-no
chorando em altas vozes e perguntaram-lhe a razão. “O que eu tenho? respondeu o santo, eu choro por causa dos sofrimentos e das afrontas ocasionadas ao meu Senhor e minha pena cresce e aumenta vendo a ingratidão dos homens que não o amam e dele se esquecem”.Todas as vezes que ouvia balar um cordeiro, sentia grande compaixão, pensando na morte de Jesus, Cordeiro imaculado, sacrificado na cruz pelos pecados do mundo. Por isso, esse grande amante de Jesus nada recomendava com tanta solicitude a seus irmãos como a meditação constante da Paixão de Jesus.
11. Eis, portanto, o livro, Jesus Crucificado, que, se for constantemente lido por nós, também nós aprenderemos de um lado temer o pecado e doutro nos abrasaremos em amor por um Deus tão amante, lendo em suas chagas a malícia do pecado que reduziu um Deus a sofrer uma morte tão amarga para por nós satisfazer a justiça divina e o amor que nos manifestou o Salvador, querendo sofrer tanto para nos fazer compreender o quanto nos amava. 12. Supliquemos à divina Mãe Maria, que nos obtenha de seu Filho a graça de entrarmos nessa fornalha de amor onde ardem tantos corações para que aí sejam destruídos nossos afetos terrenos e possamos nos abrasar naquelas chamas bem-aventuradas que fazem as almas santas na terra e bem-aventuradas no céu.

18 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO III

Aquele que se conserva unido à vontade de Deus, goza, mesmo neste mundo, de paz admirável e constante. “Não se contrista o justo por coisa que lhe aconteça” (Pr 12,21), porque uma alma se alegra e se satisfaz ao ver todos os seus desejos cumpridos; ora, quem só quer o que Deus quer, tem tudo o que deseja, pois que tudo o que acontece é por efeito da vontade de Deus. Quando a alma resignada, diz Salviano, recebe humilhações, quer ser humilhada; quando cai na pobreza, compraz-se em ser pobre; em suma, fica contente com tudo quanto lhe sucede e por isso goza de felicidade nesta vida. Faça frio ou calor, caia chuva ou sopre o vento, com tudo ela se conforma e se alegra, porque assim Deus o quer. Quando sofre reveses, perseguições, enfermidades e até lhe sobrevenha a própria morte, quer ser pobre, perseguida, enferma, quer morrer, porque tudo é da vontade de Deus. Aquele que deste modo descansa na vontade de Deus e se compraz naquilo que a Providência dispuser, é como se estivesse sobranceiro às nuvens do céu e visse a seus pés furiosa tempestade, sem recear perturbação ou dano. Esta é aquela paz que — como disse o Apóstolo — supera a todas as delícias do mundo (Fp 4,7); paz constante, serena, imutável.
“O néscio é inconstante como a lua, o sábio se mantém na sabedoria como o sol” (Ecl 27,12). O pecador é variável como a luz da lua, que hoje cresce e noutros dias míngua. Hoje o vemos rir; amanhã, chorar; ora se mostra alegre e tranqüilo; ora, aflito e furioso. Varia, enfim, à mercê das coisas prósperas ou adversas que lhe sucedem.
O justo, pelo contrário, se mantém sempre com igualdade e constância.
Nenhum acontecimento o priva de sua feliz tranqüilidade, porque essa paz de que goza é filha de sua conformidade perfeita com a vontade de Deus. “Paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2,14).
Santa Maria Madalena de Pazzi, só com o ouvir falar na vontade de Deus, já sentia consolação tão profunda, que ficava arrebatada em êxtases de amor... É verdade que as faculdades de nossa parte inferior não deixarão de fazer-nos sentir alguma dor na ocorrência de coisas adversas; mas em nossa vontade superior, se estiver unida a Deus, reinará sempre paz profunda e inefável. A vossa alegria, nin-guém vo-la tirará (Jo 16,22).
Indizível loucura é a daqueles que se opõem à vontade de Deus. O que Deus quer não pode deixar de acontecer. Quem é que resiste à sua vontade? (Rm 9,19). De sorte que esses desgraçados, quer queiram, quer não, têm de levar a sua cruz, mesmo que seja sem paz nem proveito.
Quem é que lhe resistiu e teve paz? (?).
E, afinal, que quer Deus senão o nosso bem? Quer que sejamos santos para fazer-nos felizes nesta vida e bem-aventurados na outra.
Persuadamo-nos de que as cruzes que Deus nos envia concorrem para o nosso bem (Rm 8,28) e de que os próprios castigos temporais não são enviados para a nossa ruína, mas para nos corrigir e alcançar a eterna felicidade (Jt 8,27).
Deus ama-nos todos, que não somente deseja nossa salvação, mas é todo solícito em procurar-nos (Sl 39,18). E que nos poderá recusar quem nos deu o seu próprio Filho?... (Rm 8,32) Entreguemo-nos, portanto, sem reserva às mãos de Deus, que jamais deixa de atender ao nosso bem (1Pd 5,7). “Pensa tu em mim, — dizia o Senhor a Santa Catarina de Sena — que eu pensarei em ti”. Digamos sempre como a Esposa: “Meu amado para mim e eu para ele” (Ct 2,16). Meu amado trata do meu bem, e eu não hei de pen-sar noutra coisa que em agradar-lhe e unir-me à sua santa vontade. Não devemos pedir, dizia o santo abade Nilo, que Deus faça o que desejamos, mas sim que façamos o que ele quer.
Quem proceder assim, passará uma vida feliz e terá morte santa.
Aquele que morre inteiramente resignado com a vontade divina nos deixa certeza moral de sua salvação. Mas aquele que não vive unido à vontade de Deus, também não estará resignado na hora da morte e não se salvará. Procuremos, pois, familiarizar-nos com certas passagens da Sagrada Escritura, que nos podem ajudar a conservar essa união incomparável: “Dizei-me, Senhor, o que quereis que eu faça, pois desejo fazê-lo (At 9,6). “Eis aqui a vossa serva: mandai e sereis obedecido” (Lc 1,38). “Salvai-me, Senhor, e fazei de mim o que quiserdes. Sou vosso e não meu” (Sl 118,94). E quando nos suceda alguma adversidade, digamos logo: “Seja assim, meu Deus, porque assim o quereis” (Mt 11,26). Não nos esqueçamos especialmente do terceiro pedido da oração dominical: “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”.
Digamo-lo a miúdo, com grande afeto, e repitamo-lo muitas vezes...
Felizes de nós se vivermos e morrermos, dizen-do: Fiat voluntas tua!

AFETOS E SÚPLICAS

Ó Jesus, meu Redentor, à força de dores, con-sumistes na cruz a vossa vida, a fim de salvar-me e remir-me... Tende compaixão de mim e não permitais que uma alma por vós resgatada a preço de tantos trabalhos e com tanto amor seja condenada a odiar-vos eternamente no inferno.
Nada deixastes de fazer para me obrigar a amar-vos, o que manifestastes claramente momentos antes de expirar no Calvário com estas palavras amorosas: Consummatum est! E como tenho eu correspondido ao vosso amor?... Bem posso dizer que por minha parte nada omiti para ofender-vos e obrigar-vos a aborrecer-me... Graças vos dou pela paciência com que me tendes aturado e pelo tempo que me concedeis para reparar a minha ingratidão e amar-vos e servir-vos antes de morrer... Sim, meu Deus, quero amar-vos, quero fazer tudo quanto quiserdes; dou-vos toda a minha vontade, minha liberdade e tudo o que me pertence. Consagro-vos, desde já, a minha vida e aceito a morte que me destinardes, com todas as suas dores e circunstâncias que a acompanharem, unindo este sacrifício ao grande sacrifício da vossa vida, que vós, meu Jesus, oferecestes por mim na cruz. Quero morrer para cumprir a vossa vontade... Ó Senhor, pelos merecimentos da vossa Paixão sacra-tíssima, dai-me a graça de que nesta vida seja sem-pre resignado e obediente às vossas disposições e, na hora de minha morte, fazei, Senhor, que abrace e aceite com inteira conformidade a vossa vontade santíssima! Quero morrer, ó Jesus, para agradar-vos; quero morrer dizendo: Fiat voluntas tua..
Maria, nossa Mãe, foi assim que vós morrestes; alcançai-me a dita inefável de que também eu termine assim os meus dias!

Pensamentos Consoladores de São Francisco de Sales.

6/14  -  Não desejamos nem recusemos os alívios na doença.

Nosso Senhor, estando na cruz, fez-nos compreender bem como devemos mortificar os sentimentos naturais que nos tornam muito compassivos conosco; porque, tendo grande sede, não pediu para beber, mas manifestou somente a sua necessidade: "Tenho sede". E depois fez um ato de grande submissão, porque sendo-lhe apresentada na ponta duma lança uma esponja embebida em fel e vinagre, colou a ela os seus benditos lábios.
Caso estranho! Não ignorava que era uma bebida que aumentaria o seu tormento; contudo bebeu simplesmente sem nada dizer, para nos ensinar com que submissão devemos receber o que nos dão, quando estamos doentes, sem mostrarmos repugnância, desgosto, ou enfado. Ah! se estamos um pouco incomodados, em vez de imitarmos o nosso doce Mestre, não cessamos de nos lamentar e queixar; o nosso mal, seja qual for, é incomparável, e o que os outros sofrem nada é; estamos impacientes e tristes o mais possível e nada achamos que nos possa prontamente aliviar. Enfim custa a ver como imitamos tão pouco a paciência do nosso Salvador, que esquecendo as suas dores não procurava torná-las conhecidas, mas contentava-se em que seu Pai celeste, por cuja ordem sofria, as considerasse e derramasse o fruto sobre os homens por quem sofria.
A humildade, a paciência e o amor d'Aquele que nos envia as cruzes, requerem que as recebamos sem nos queixar; mas, notai há muita diferença entre contar os seus males e lamentar-se deles. Podemos contá-los assim em muitas ocasiões, somos obrigados a contá-los e a dar-lhes remédios; mas isto deve-se fazer com calma, sem o exagerarmos por palavras ou por lamentações.
É isto que diz a Santa Tereza; porque lamentar-se não é narrar o seu mal, mas contá-lo com lamentações e testemunhos de aflição.
Narrai pois simples e verdadeiramente, sem escrúpulo; mas de maneira que proveis sujeitar-vos a ele docemente. Gravai na vossa memória estas duas queridas frases que tantas vezes vos tenho recomendado: Nada desejeis e nada recuseis. Nestas duas palavras esta dito tudo. Contemplai o Menino Jesus no presépio; recebeu a pobreza, a nudez, a companhia dos animais, e as injúrias do tempo, o frio e tudo que seu Eterno Pai permitiu que lhe acontecesse. Não esta escrito que estendesse as mãozinhas para pedir o seio de sua Mãe. Entregava-se completamente ao seu cuidado e previdência. Não recusava os pequenos alívios que ela proporcionava e recebia os serviços de São José, as adorações e presentes dos pastores e dos reis, e tudo isto com igualdade perfeita. Devemos fazer o mesmo, e a exemplo do divino Salvador, nada pedirmos e nada recusarmos, mas sofrer e receber igualmente tudo o que a Providência de Deus permitir que nos suceda. Conceda-nos Deus esta graça.
Encontro no Evangelho um modelo perfeito desta virtude na sogra de São Pedro. Esta boa enferma, atacada por uma grande febre, ficara tranquila e sem inquietação alguma, e mesmo sem a causar aos que a serviam. Contentava-se com sofrer o seu mal com paciência e doçura. Oh! Deus quanto era ela feliz e como merecia que cuidassem dela, como fizeram os Apóstolos, que trataram dela sem que lhes pedisse, mas por caridade e compaixão!
Esta boa, enferma, bem sabia que Nosso Senhor estava em Cafarnaum e que curava os doentes; contudo não se apressou a ir dizer-lhe que sofria... Mas o que é ainda mais admirável é que o viu em sua casa, onde Jesus a viu e ela a Ele, e contudo não lhe disse uma única palavra para o excitar à compaixão, nem o tocou com intenção de ser curada.
Ainda mais: parece não fazer caso da doença, não se enternece a contá-la, não se lamenta, nem pede que lamentem e lhe busquem o remédio. Contenta-se com que Deus o saiba e os que a governam. Considera a Nosso Senhor, não só como o seu soberano médico mas ainda como Deus, a quem pertence tanto na saúde como na doença, estando tão contente, sã como enferma. Oh! quantas pessoas teriam usado de finura para serem curadas por Nosso Senhor, e teriam dito que pediam a saúde para o servir melhor, temendo que lhe não faltasse alguma coisa. Mas esta Santa mulher não pensava nisto; fazendo ver a sua resignação, e nada pedindo a Nosso Senhor senão a sua santíssima vontade.
Não quero com isto dizer que a não possamos pedir a Deus como a quem no-lo pode dar, com a condição de nos submetermos à sua vontade.
Não basta estar doente, porque Deus o quer, mas também como Deus o quer, quando Deus o quer, e da maneira que quiser, não escolhendo doença alguma, por abjeta e humilhante que seja; porque muitas vezes o mal sem abjeção entumece o coração em vez de o humilhar: mas quando padecemos o mal e a confusão ao mesmo tempo, que ocasião para exercermos a paciência, a humildade e a doçura da alma!
Tenhamos um grande cuidado, imitando aquela santa mulher, mantendo nosso coração em doçura, aproveitando-nos como ela das nossas doenças; porque ela se levantou logo e serviu a Nosso Senhor, não usando da sua saúde senão para seu serviço. E nisto não fez como os mundanos, que tendo estado doente alguns dias, precisam de semanas e meses inteiros para se restabelecerem.
Não vos lamenteis pois, obrigai vosso coração a sofrer tranquilamente; e se tiverdes alguma impaciência, logo que notardes, conservai o vosso coração em paz e doçura. Crede-me; Deus ama as almas agitadas pelas ondas e tempestades do mundo, contanto que recebam das suas mãos os trabalhos e como guerreiros valentes, se exercitem a guardar fidelidade entre os assaltos e combates.
Se estais algumas vezes pouco tratável nas vossas enfermidades, isso passará pouco a pouco. O espírito humano muda muitas vezes sem que o pensemos e aquele que menos perturbações sente, é o melhor.
Quanto a vós, suponho que agora a idade e a fraqueza da vossa compleição vos tornarão fraco e lânguido; é por isso, que vos aconselho que vos exerciteis em acatar a amabilíssima vontade de Deus, e na abnegação das alegrias exteriores e na doçura entre as amarguras; é este o sacrifício mais excelente que podeis fazer.
Praticai não só o amor sólido, mas o amor terno, doce e suave para com os que vos cercam; o que eu digo pela experiência que tenho, que as doenças, não nos tirando a caridade, tiram-nos contudo a suavidade para com o próximo, se nos não prevenirmos.
É preciso que nos soframos a nós próprios até que Deus nos conduza ao céu, e enquanto nos suportamos, nada que presta suportamos... Tenhamos pois paciência. As doenças do espírito, bem como as do corpo, chegam as corridas, mas vão-se a passo. Convém pois, ó Filotéia que sejas corajosa e paciente nesta empresa.
Estas doenças longas são uma escola de caridade para os que lhes assistem e de amorosa paciência para os que as sofrem; porque uns estão aos pés da cruz como Nossa Senhora e São João, cuja compaixão imitam, e outros estão na cruz como Nosso Senhor, imitando-lhe a paixão.
Muitas vezes sai-se destes acidentes com uma vantagem dupla, porque a febre dissipa os maus humores do corpo e purifica os do coração.

17 de junho de 2014

Preparação para a Morte

PONTO II

Devemos conformar-nos com a vontade divina, não apenas nas coisas que recebemos diretamente de Deus, como sejam enfermidades, desolações espirituais, reveses de fortunas, morte de parentes, mas também nas que só indiretamente vêm de Deus e que ele nos envia por intermédio dos homens, como, por exemplo, a desonra, desprezos, injustiças e toda sorte de perseguições. E note-se que quando alguém nos ofende em nossa honra ou nos causa dano em nossos bens, não é Deus que quer o pecado de quem nos ofende ou causa dano, mas sim a humilhação ou a pobreza que dele resulta. É certo, portanto, que tudo quanto sucede acontece por vontade divina. “Eu sou o Senhor que formo a luz e as trevas; faço a paz e crio a desdita” (Is 45,7). E no Eclesiástico le-mos: “Os bens e os males, a vida e a morte vêm de Deus”. Tudo, em suma, de Deus procede, tanto os bens como os males.
Chamam-se males certos acidentes porque nós assim os denominamos e em males os transformamos; entretanto, se os aceitássemos como era devido, resignando-nos à mão de Deus, seriam para nós bens em vez de males. As jóias que mais resplandecem e mais valorizam a coroa dos Santos são as tribulações que aceitaram das mãos de Deus.
Quando o santo homem Jó soube que os sabeus lhe haviam roubado os bens, não disse: “O Senhor nos deu e os sabeus nos tiraram, mas “O Senhor nos deu e o Senhor nos tirou” (Jó 1,21). E, dizendo-o, bendizia a Deus porque sabia que tudo sucede por vontade divina (Jó 1,21). Os santos mártires Epicteto e Aton, atormentados a ferro e fogo, exclamavam: Senhor, cumpra-se em nós a vossa santa vontade! Ao expirarem, foram estas as suas últimas palavras: “Bendito sejais, ó eterno Deus, por nos terdes dado a graça de cumprir a vossa vontade santíssima”.
Refere Cesário que certo monge, cuja vida não era mais austera que a dos outros, operava muitos milagres. Maravilhado, o abade perguntou-lhe quais eram as devoções que praticava. O monge respondeu que, sem dúvida, era mais imperfeito que os outros e que unicamente se aplicava, com especial cuidado, em conformar-se em todas as coisas com a vontade de Deus. “E aquele prejuízo — acrescentou o abade — que há dias o inimigo causou em nossas terras, não te causou pena alguma?” — “Ó Padre — disse o monge — antes dou graças a Deus, que tudo faz ou permite para nosso bem”. Estas palavras descobriram ao abade a grande santidade daquele bom religioso.
O mesmo devemos fazer quando nos sucedam contrariedade: recebamo-las todas da mão de Deus, não só com paciência, mas até com alegria, imitando o exemplo dos apóstolos, que se regozijavam de ser maltratados por amor de Cristo. “Saíram alegres do sinédrio, porque foram achados dignos de sofrer afrontas pelo nome de Jesus” (At 5,41).
Pois que maior contentamento pode haver do que sofrer alguma cruz e saber que, abraçando-a, podemos ser agradáveis a Deus?... Se quisermos viver em paz contínua, procuremos unir-nos à vontade divina e dizer sempre, aconteça o que acontecer: “Se-nhor, se assim for do vosso agrado, faça-se assim” (Mt 11,26). Para este caminho devemos dirigir todas as nossas meditações, comunhões, orações e visitas a Jesus Sacramentado, rogando continuamente a Deus, que nos conceda essa preciosa conformidade com sua vontade divina. Ofereçamo-nos sempre a ele, dizendo: Aqui me tendes, meu Deus; fazei de mim o que vos agrade... Santa Teresa se oferecia ao Senhor mais de cinqüenta vezes por dia, a fim de que dispusesse dela à sua vontade.

AFETOS E SÚPLICAS

Amantíssimo Redentor, divino Rei de minha alma, reinai nela, doravante!... E só vós unicamente!... Aceitai minha vontade inteiramente, de modo que não deseje nem queira senão o que vós quiserdes.
Bem sei quantas vezes vos tenho ofendido, o-pondo-me à vossa santa vontade. Desses delitos me sinto profundamente magoado e arrependo- me de todo o coração. Mereço castigo e não o recuso: aceito-o com o pedido único de que não me imponhais a pena da privação do vosso amor. Concedei-me esta graça e fazei de mim o que vos agrade. Amo-vos, meu Redentor, amo-vos, Senhor, e porque vos amo quero fazer tudo o que quiserdes. Ó vontade divina, sois o meu amor!... Ó sangue de Jesus Cristo, sois a minha esperança! por vós espero que desde agora ficarei sempre unido à vontade de Deus. Ela será meu norte e guia, meu amor e minha paz. Nela dese-jo viver e repousar. Em tudo o que me acontecer, direi sempre: Meu Deus, nada quero senão o que vós quiserdes; cumpra-se em mim a vossa vontade: Fiat voluntas tua...
Concedei-me, meu Jesus, pelos vossos merecimentos a graça de que 119 repita sempre essa súplica amorosíssima: Fiat voluntas tua...
Ó Maria, Mãe e Senhora nossa, que cumpristes sempre a vontade divina! Fazei que também eu doravante a possa cumprir! Rainha da minha vida, alcançai-me esta graça, que espero pelo amor que tendes a Jesus Cristo.