25 de janeiro de 2014

Encarnação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo - Meditações Novena de Natal - Meditação 4

MEDITAÇÃO IV.

DA VIDA HUMILDE QUE JESUS LEVOU DESDE SUA INFÂNCIA.
Todas as indicações que o anjo deu aos pastores de Belém para reconhecerem o Salvador recém-nascido, foram si-nais de humildade. Eis o sinal, disse-lhes, pelo qual conhece-reis o Messias: achareis um Menino envolto em pobres paninhos, num estábulo, e reclinado sobre palha num presépio. — Assim quis nascer o Rei do céu, o Filho de Deus, porque vinha destruir o orgulho, que causara a perda do homem.
Os profetas haviam predito que nosso divino Redentor se-ria tratado como o homem mais vil do mundo, e saturado de opróbrios. Quantos ultrajes não teve Jesus de sofrer da parte dos homens! Foi tratado de beberrão, de feiticeiro, de blasfemo e de herege. E quantas outras ignomínias em sua paixão! foi abandonado por seus próprios discípulos; um deles o vendeu por trinta dinheiros, e um outro o renegou, protestando não o conhecer; foi arrastado pelas ruas atado com um malfeitor; foi flagelado como um escravo, escarnecido como um insensato, como um rei de comédia, esbofeteado, coberto de escarros, e por fim condenado a morrer numa cruz entre dois ladrões, co-mo o maior facínora do mundo.
O mais nobre de todos os seres, diz S. Bernardo, é tratado como o mais desprezível de todos! — Mas, meu Jesus, ajunta, quanto mais humilde e desprezado vos mostrais, tanto mais caro e amável vos tornais a mim!

Afetos e Súplicas.
Ah! meu doce Salvador, abraçastes todos esses desprezos por meu amor, e eu, não posso ouvir uma palavra injuriosa sem logo pensar em vingança, eu que tantas vezes mereci ser calcado aos pés dos demônios no inferno! Envergonho-me de aparecer diante de vós tão pecador e orgulhoso. Senhor, não me expulseis de vossa presença, como mereceria. Dissestes que não desprezais um coração que se arrepende e se humilha; arrependo-me de todos os desgostos que vos causei. Per-doai-me, meu Jesus, estou resolvido a não mais vos ofender. Sofrestes tantas injúrias por meu amor; quero sofrer por vosso amor todas as injúrias que me forem feitas. Amo-vos, meu Jesus desprezado por mim, amo-vos, ó meu Bem! amo-vos mais do que todos os bens. Socorrei-me para que vos ame e sofra todas as afrontas para vos comprazer.
Ó Maria, recomendai-me a vosso Filho; pedi a Jesus por mim.

24 de janeiro de 2014

Sermão para o 2º Domingo depois da Epifania – Padre Renato Coelho, IBP.


[Sermão] Bodas de Caná e a oração


          Em nome do Pai e do Filho e do Espírito-Santo. Amém.

Hoje lemos no Evangelho o milagre das bodas de Caná: “Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: Eles já não têm vinho. Respondeu-lhe Jesus: Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou.” (Jo 2, 3-4).” Essa passagem é importante para combater tanto os protestantes como os incrédulos.
Nesse milagre, vemos a intercessão de Maria, que toma a iniciativa de pedir o milagre. Jesus lhe responde que ainda não era a hora formalmente prevista para ele operar milagres, mas Maria, através do seu pedido, consegue obter um milagre como que “fora de hora”. E, segundo São João Crisóstomo (vide Catena Áurea), esse foi o primeiro milagre que Jesus fez, apesar do que dizem falsos videntes sobre Jesus ter feito milagres, sem necessidade, durante sua infância…
Há quem pense que rezar não adianta nada, pois Deus já saberia tudo de antemão, daquilo que precisamos ou não, por isso seria redundante rezar.
Ora, nesse episódio, Deus fala que não iria fazer o milagre, depois, com base no pedido de Maria, Deus opera o milagre. Deus mudou? Isso não vai contra toda a metafísica e toda a lógica?
De modo algum. Deus na sua eternidade continua sempre imutável. Mas no tempo, para os nossos olhos humanos, Deus apenas aparenta ter mudado.
Deus mostra nesse episódio que nossas ações influenciam o futuro, embora Deus já o conheça. Deus quer mostrar que o milagre está intimamente ligado ao pedido de Maria, não havia outra razão para fazê-lo, pois sua hora ainda não tinha chegado. Deus quer mostrar que há graças que ele concede para uma pessoa sob a condição necessária e imprescindível de ela pedir. Se ela não pedir, a graça não será dada e, no caso, se Maria não pedisse, o milagre não seria feito.
Outro episódio semelhante é o de Jonas no Antigo Testamento. Nínive iria ser destruída se não fizesse penitência. Os habitantes aceitaram fazer penitência. A cidade não foi destruída. Mais modernamente, Nossa Senhora de Fátima fez pedidos aos homens, em especial ao clero, para impedir que haja guerras. Os homens ignoraram o pedido de Nossa Senhora e tivemos duas guerras mundiais e os erros da Rússia, isto é, o Marxismo cultural, se espalham pelo mundo a todo vapor.
Deus já conhece o começo e o fim da história, mas nós não. Deus quer, com isso, nos ensinar a agir. Ele busca nos ensinar que podemos escolher entre dois futuros possíveis, o de deixar a “vida correr sozinha naturalmente”, ou o de mudar o futuro, de pedir uma graça. Deus quer que usemos o livre arbítrio para agirmos na história. A história depende das nossas ações, não somos robôs predestinados ao Céu ou ao Inferno como pensam certos protestantes. Deus já sabe quem vai ao Céu ou ao Inferno, mas isso não nos ajuda em nada, pois nós continuamos a não saber. Se deixarmos a “vida correr sozinha”, estamos todos condenados ao Inferno, que merecemos justamente por sermos “filhos da ira”. Mas Deus nos abre uma porta, um meio de chegar ao Céu,, entretanto ele não nos força, ele quer que usemos nossa liberdade.
O principal passo é o da conversão, sem ela não é possível agradar a Deus. Sem a fé as obras são mortas. Mas sem as obras não se chega ao Céu.
Entendam bem, com “obras” quero dizer “boas ações”, e pode ser algo meramente interior, uma contrição perfeita, por exemplo. Não consta que o bom ladrão, São Dimas, tenha dado comida aos pobres, que tenha feito pontes, que tenha feito qualquer uma dessas coisas que hoje entendemos por “obras” no sentido mais concreto e materialista do termo ou como pensam os adeptos da falsa Teologia da Libertação. Ele simplesmente reconheceu a Jesus como Salvador e a si mesmo como pecador. E ele foi canonizado pelo próprio Jesus!
Aprendemos então que é preciso rezar. Santo Afonso mesmo diz, “quem reza se salva, quem não reza se condena”. Se não temos ainda o costume de rezar o terço todos os dias, como pede Nossa Senhora de Fátima, comecemos ao menos com uma oração da manhã e da noite, antes de dormir. A Igreja não obriga sob pena de pecado mortal a oração privada (ao menos se essa falta de oração é por um tempo curto), mas a aconselha vivamente, pois dificilmente se pode permanecer em estado de graça sem a oração. Jesus mesmo diz, “vigiai e orai para não cairdes em tentação”, donde se conclui que quem não reza cairá em tentação. Precisamos da oração para combater a “gravidade” do pecado original e dos pecados que cometemos, que nos levam sempre para baixo.
Jesus nos ensinou a rezar, quando nos ensinou o Pai-Nosso, e mostrou por parábolas que devemos pedir se queremos receber, de onde se deduz que, se não pedimos, não receberemos. A oração é a prova de que somos animais racionais, pois Deus não pede aos animais para rezarem. Se vocês conhecem alguém que não reza, pode se perguntar no que ele se difere de um animal. Deus nos criou com inteligência, e quem tem inteligência sabe que é limitado e precisa pedir ajuda, sabe que precisa rezar.
Há vários tipos possíveis de oração: pode-se pedir um bem material ou espiritual para si ou para outros, pode-se agradecer bens recebidos, pode-se pedir perdão e luz para se corrigir, dentre outras possibilidades. Em todas as orações está implícito o ato de adoração, isto é, o ato de reconhecer que Deus é onipotente (capaz, portanto, do milagre) e que Ele é nosso Senhor.
Isso tudo não quer dizer que vamos receber exatamente o que pedimos. Deus sabe melhor o que nos fará bem do que nós mesmos. Podemos pedir para conseguir uma viagem para a França, por exemplo, mas numa dada viagem o avião pode cair e, embora pareça que Deus não tenha ouvido nossas orações, na verdade ele nos livrou de um perigo.
Tenham bem em mente que todas as orações são escutadas por Deus, mesmo aquela que é feita com imperfeições e sem muita atenção. Rezar não é perder tempo. Claro que quanto mais devoção aplicarmos à oração, melhor e mais eficaz ela será. Jesus mesmo nos diz que certos demônios não saem com poucas orações, mas que seus discípulos tinham que rezar mais e precisavam de jejum para removê-los.
Mas não esperemos estar em condição excelente de saúde e de atenção para rezarmos, mas rezemos a tempo e a contratempo. É bom rezar num oratório, diante do Santíssimo, mas se estamos no trânsito, se estamos numa fila de espera, ganhamos muito se rezarmos mentalmente ou labialmente.
Apesar de tudo o que possamos querer pedir na oração, tenhamos sempre em mente que o fim último a se buscar nelas é o Céu, e que cada oração é um reconhecimento de Deus como sendo superior e de nós como sendo inferiores.
Rezemos frequentemente, rezemos a Nossa Senhora, pois ela sabe pedir a Deus de um modo melhor que o nosso, e sabe pedir aquilo que precisamos e não aquilo que nós pensamos que precisamos.
Os protestantes, uns por ignorância, outros por malícia, ignoram a eficácia da intercessão de Nossa Senhora, que acabamos de ler na Bíblia. Rezemos por eles também para que saiam das trevas e que Nossa Senhora os conduza à posição humilde de católicos e que abandonem a soberba de se acharem “doutores da Bíblia”.

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito-Santo. Amém

Volta de Jesus do Egito.

Consurgens (Ioseph), accepit puerum et matrem eius, et venit in terram Israel — “José, levantando-se, tomou o Menino e sua Mãe e veio para a terra de Israel” (Matth. 2, 21).

Sumário. Depois de um exílio de sete anos, a sagrada Família recebeu afinal ordem de voltar para a Palestina. José toma a ferramenta de seu ofício, Maria a trouxa de roupa e se põem prestes em caminho com Jesus, ora carregando-O alternadamente nos braços, ora conduzindo-O pela mão. Quanto não devem ter sofrido os santos viajantes naquela jornada! Unamo-nos com eles na viagem que estamos fazendo para a eternidade.

I. Depois da morte de Herodes e depois de um exílio de sete anos, que na opinião de Santa Madalena de Pazzi Jesus passou no Egito, aparece novamente o Anjo a São José e manda-lhe que tome o santo Menino e a Mãe, e volte para a Palestina. Com grande satisfação pela notícia recebida, São José vai comunicá-la a Maria. Antes de partirem, os santos esposos vão levar as despedidas aos amigos que tinham granjeado naquela terra. Depois, José ajunta de novo a pouca ferramenta do seu ofício, Maria faz uma trouxa da roupa que possui e tomando o divino Menino pela mão, empreendem, com Jesus no meio, a viagem da volta.

Reflete São Boaventura que esta viagem foi mais penosa para Jesus do que a da fuga; porquanto já estava mais crescido, pelo que Maria e José não podiam carregá-Lo longo tempo nos braços; por outro lado, o santo Menino pela sua idade não podia ainda fazer tão grande viagem a pé; de sorte que Jesus se via obrigado muitas vezes a parar e a descansar por falta de forças. Mas, quer caminhem, quer descansem, José e Maria têm sempre os olhos e os pensamentos fitos no Menino amado, que era todo o objeto do seu amor. Ah, com que recolhimento anda por esta vida a alma feliz que tem sempre diante dos olhos o amor e os exemplos de Jesus Cristo!

Na viagem, os santos peregrinos quebram de quando em vez o silêncio com alguma conversação santa; mas com quem e de que é que falam? Não falam senão com Jesus e de Jesus. Quem tem Jesus no coração, não fala senão com Jesus, nem de outra coisa senão de Jesus.

II. Pondera ainda São Boaventura a pena que sofreu, durante a viagem, o nosso pequeno Salvador, quando, de noite, não tinha mais o colo de Maria para descansar, como na ida, mas sim a terra nua. Para alimentação também não tinha mais leite, mas um bocado de pão duro, duro demais para a sua tenra idade. É bem provável que sofresse também sede naquele deserto onde os Hebreus experimentaram tamanha penúria de água, que foi preciso um milagre de Deus para a remediar. Contemplemos e adoremos com amor todos esses sofrimentos de Jesus Menino.

Meu amado e adorado Redentor, voltais para vossa pátria; mas, ó Deus, para onde voltais? Ides ao lugar onde vossos conterrâneos vos preparam desprezos durante a vossa vida e depois açoites, espinhos, ignomínias e a cruz para a vossa morte. Tudo isso, ó meu Jesus, estava presente aos vossos olhos divinos, e Vós de boa vontade ides de encontro à paixão que os homens vos preparam. Mas, Senhor meu, se Vós não tivésseis vindo a morrer por mim, eu não poderia ir amar-Vos nos paraíso e deveria estar para sempre longe de Vós. A vossa morte é a minha salvação. — Como foi possível, ó Senhor, que eu pelo desprezo de vossa graça me condenasse outra vez ao inferno, mesmo depois da vossa morte por meio da qual me haveis libertado dele? Reconheço que um inferno é pouco para mim.

Todavia, Vós me esperastes para me perdoar. Graças Vos sejam dadas, meu Redentor, e arrependido como estou, detesto todos os desgostos que Vos tenho dado. Por piedade, ó Senhor, livrai-me do inferno. Se por minha desgraça tivesse um dia de condenar-me, o meu inferno mais doloroso seria o remorso de ter conhecido em vida o amor que me tendes havido. Não tanto o fogo infernal, como a falta de vosso amor, ó Jesus meu, seria o meu inferno. Vós viestes ao mundo a fim de acender o fogo de vosso amor; é neste fogo que quero abrasar-me e não naquele que me havia de separar para sempre de Vós. Repito, pois, ó meu Jesus, livrai-me do inferno, porque no inferno não Vos poderia amar. — Ó Maria, minha Mãe, ouço que todos dizem e publicam que aqueles que vos amam e em vós confiam, não irão ao inferno, contanto que se queiram emendar. Amo-vos, Senhora minha, e confio em vós; quero emendar-me; ó Maria, encarregai-vos de livrar-me do inferno. (II 382.)

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 167 - 169)

Encarnação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo - Meditações Novena de Natal - Meditação 3

MEDITAÇÃO III.

DA VIDA POBRE QUE JESUS ABRAÇA AO NASCER.
Deus dispusera que no momento em que seu Filho devia nascer sobre a terra, cada qual fosse obrigado, por ordem do imperador, a ir ao lugar de sua origem para lá ser inscrito; as-sim José teve de ir com sua Esposa a Belém para se alistar segundo o decreto de César. Chegou então a hora em que Ma-ria devia dar à luz o seu divino Filho; não podendo achar lugar em nenhuma casa, nem mesmo nas hospedarias públicas em que ficavam os pobres, foi obrigada a retirar-se de noite a uma gruta, e lá deu à luz o Rei do céu. Se Jesus tivesse vindo ao mundo em Nazaré, é certo que teria também nascido em pobreza, mas ao menos teria tido um quarto salubre, um pouco de lume, paninhos quentes, e um berço mais cômodo. Mas não: ele quis nascer na gruta fria e sem lume; quis que um pre-sépio lhe servisse de berço, e que um pouco de palha rude lhe servisse de leito a fim de sofrer mais.
Entremos no estábulo de Belém, mas entremos com fé. Se lá entrarmos sem fé, que veremos? Uma pobre criancinha que treme e chora, atormentada pelo frio e pela rudeza da palha em que está deitada; vendo-a tão bela teremos, sim, um sentimento de compaixão, e nada mais. Se ao contrário lá entrarmos com fé refletiremos que essa criança é o Filho de Deus, que veio ao mundo por nosso amor, e que sofre para expiar os nossos pecados: como então nos será possível não lhe termos gratidão e amor?

Afetos e Súplicas.
Ah! caro e doce Menino, como pude ser tão ingrato, e causar-vos tantos desgostos, sabendo o que sofrestes por mim? Mas as lágrimas que derramais e a pobreza que escolhestes por amor de mim, fazem-me esperar o perdão das ofensas que cometi contra vós. Ó Meu Jesus, arrependo-me de vos haver tantas vezes voltado as costas, e amo-vos sobre todas as coisas. Deus, meus, et omnia: Meu Deus, doravante sereis o meu único tesouro e todo o meu bem: Dai-me o vosso amor, dirvos-ei com S. Inácio, dai-me vossa graça, e serei rico. Não quero, não desejo outra coisa: vós só me bastais, meu Jesus, minha vida, meu amor.

23 de janeiro de 2014

Encarnação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo - Meditações Novena de Natal - Meditação 2

MEDITAÇÃO II.

DO AMOR QUE DEUS NOS MOSTROU NASCENDO MENINO.
Fazendo-se homem por nosso amor, podia o Filho de Deus aparecer no mundo em estado de homem perfeito, como Adão, quando foi criado; mas como as crianças ganham ordinariamente mais o afeto dos que as vêm, quis mostrar-se na terra sob a forma duma criancinha, e até da mais pobre e abjeta de todas as crianças que jamais nasceram. “O nosso Deus quis nascer assim, diz S. Pedro Crisólogo, porque se queria fazer amar”. O profeta Isaías havia predito que o Filho de Deus nasceria criança e assim se daria todo a nós, por amor. Nasceu-nos um Menino, foi-nos dado um Filho.
Ah! meu Jesus, meu soberano Senhor e verdadeiro Deus, quem vos moveu a deixar o céu e a nascer numa gruta senão o vosso amor pelos homens? Quem vos fez descer do vosso trono elevado acima dos astros, para vos estender sobre palha? Porque vejo-vos agora deitado entre dois animais quando antes vos rodeavam os coros dos anjos? Abrasais de santo amor os Serafins, e eis que tremeis de frio num estábulo! Dais movi-mento aos céus e aos sóis, e eis que não podeis mudar de lugar sem o concurso de um braço estranho! Provedes ao ali-mento dos homens e dos animais, e tendes necessidade dum pouco de leite para sustentar a vida! Sois a alegria do céu, co-mo pois vos ouço gemer e chorar? Dizei-me: quem vos reduziu a tanta miséria? “Quem é o autor de todas essas mudanças? pergunta S. Bernardo; é o amor”, responde ele, é o vosso amor para com os homens.
Afetos e Súplicas.
Ó caro Menino, dizei-me: que viestes fazer na terra? dizei-me: que viestes aqui buscar? Ah! eu vos entendo: viestes mor-rer por mim a fim de livrar-me do inferno; viestes procurar-me, que sou ovelha perdida, a fim que para o futuro me não afaste mais de vós e vos ame. Ó meu Jesus, meu tesouro, minha vi-da, meu amor, meu tudo, se vos não amar a quem amarei? Onde posso achar um pai, um amigo, um esposo, mais amável do que vós, e que mais do que vós me tenha amado? Amo-vos, meu Deus, amo-vos, meu único Bem! Pesa-me de ter vivi-do tantos anos, não só sem vos amar, mas ofendendo-vos e desprezando-vos. Perdoai-me, meu amado Redentor, arrependo-me de vos haver tratado assim, arrependo-me de toda a minha alma. Perdoai-me e dai-me a graça de me não separar mais de vós e de vos amar no resto de minha vida. Ó meu a-mor, dou-me todo a vós; aceitai-me, e não me repitais como mereço.
Maria, sois minha Advogada, e por vossas preces, obtendes de vosso divino Filho tudo o que desejais; pedi-lhe que me perdoe e me conceda a santa perseverança até a morte.

Estada de Jesus no Egito.

Consugens (Ioseph), accepit puerum et matrem eius nocte, et secessit In Aegyptum — “Levantando-se (José) tomou consigo, ainda de noite, o Menino e sua Mãe, e retirou-se para o Egito” (Matth. 2, 14).

Sumário. Durante a sua estada no Egito, a sagrada Família se nos mostra modelo perfeitíssimo de uma família cristã e de uma comunidade religiosa. Quão bem ordenadas estavam todas as ocupações dessas santas pessoas, quão bem dividido o tempo entre o trabalho e a oração! Com o seu trabalho José ganha o pão para si e para os outros; Maria cuida principalmente de seu Filho; e Jesus começa a prestar a seus pais os primeiros leves serviços. Lancemos um olhar sobre nós mesmos e examinemos como temos imitado esses grandes modelos.

I. Jesus quis passar a sua infância no Egito, a fim de levar uma vida mais dura e desprezada. Segundo a opinião de Santo Anselmo e de outros escritores, a sagrada Família morou em Heliópolis. Contemplemos, com São Boaventura, a vida que Jesus levou no Egito, durante os sete anos que, conforme à revelação feita a Santa Maria Madalena de Pazzi, ali passou. A casa é muito pobre, porque São José só pode pagar um aluguel muito baixo; pobre é a cama, pobre a alimentação, pobre, em uma palavra, é toda a sua vida, porque, com o trabalho de suas mãos, só conseguem ganhar o necessário de dia em dia, e vivem num país onde são desconhecidos e desprezados, sem parentes nem amigos.

A sagrada Família vive, pois, em grande pobreza, mas como são bem ordenadas as ocupações desses três moradores! O santo Menino não fala com a boca, mas fala continuamente e eloqüentemente com o coração a seu Pai celestial, oferecendo-Lhe todos os seus padecimentos e todos os instantes de sua vida para nossa salvação. Maria tampouco fala, mas, vendo o seu caro Filhinho, contempla o amor divino e a graça que lhe fez escolhendo-a para sua Mãe. José trabalha igualmente em silêncio, mas vendo o divino Menino agradece-Lhe por tê-lo escolhido para companheiro e guarda de sua vida.

Foi naquela casa que Maria desabituou o menino Jesus de alimentar-se só com o leite e começou a alimentá-Lo com suas próprias mãos. Põe o Filho no colo, toma da tigelinha um pouco de pão amolecido em água e põe-Lho na sagrada boca. Naquela casa faz Maria para seu Filhinho o primeiro vestido e chegado o tempo de Lhe tirar as faixas, começa a vesti-Lo. Naquela mesma casa ainda começa Jesus a dar os primeiros passos e a falar. Começa ali a fazer o ofício de aprendiz, ocupando-se com os pequenos serviços que pode prestar uma criança.

Ó desmame! Ó vestidinho! Ó primeiros passos! Ó palavras balbuciadas! Ó pequenos serviços de Jesus Menino! Vós demasiadamente feris e abrasais os corações daqueles que amam Jesus e vos contemplam! Um Deus a andar vacilando e caindo! Um Deus a balbuciar! Um Deus feito tão débil, que não pode ocupar-se senão em pequenas coisinhas de casa, que não pode levantar um pão cujo peso excede as forças de uma criança. Ó santa fé, ilumina-nos a fim de que amemos um Senhor tão bom, que por nosso amor se sujeitou a tantas misérias.

II. Dizem que, quando Jesus entrou no Egito, caíram por terra todos os ídolos daquele povo. Roguemos a Deus que nos faça amar Jesus de todo o coração, porque, quando o amor de Jesus entra numa alma, caem todos os ídolos de afetos terrestres.

Ó Menino santo, que viveis nessa terra de bárbaros, pobre, desconhecido e desprezado, eu Vos reconheço por meu Deus e Salvador, e Vos dou graças por todas as humilhações e dores que sofrestes no Egito por meu amor. Com essa vossa vida ensinastes-me a viver como peregrino nesta terra, fazendo-me compreender que a minha pátria não é este mundo, senão o paraíso, que Vós viestes adquirir-me com a vossa morte. Ah, Jesus meu! Tenho pensado no que fizestes e padecestes por meu amor. Quando me lembro que Vós, ó Filho de Deus, tivestes nesta terra uma vida tão atribulada, pobre e desprezada, como é possível que eu ande à procura de prazeres e bens terrestres?

Ó meu amado Redentor, permiti que me associe convosco, admiti-me a viver nesta terra sempre unido a Vós para que unido a Vós chegue um dia a amar-Vos no céu, gozando de vossa companhia para sempre. Dai-me luz, aumentai a minha fé. Que bens e prazeres! Que dignidades e honras! Tudo é vaidade e loucura. A única riqueza, o único bem é possuir-Vos, ó meu Jesus, e a ninguém quero senão a Vós. Vós me quereis e eu Vos quero. Se possuísse mil reinos, renunciá-los-ia todos para Vos dar gosto: Deus meus et omnia — “Meu Deus e meu tudo!” Se em outros tempos corri atrás das vaidades e prazeres do mundo, agora detesto-os e estou arrependido. Meu Salvador amado, de hoje em diante, Vós sereis o meu único Bem, o meu único Amor, o meu único Tesouro. Maria Santíssima, rogai a Jesus por mim; rogai-Lhe que me faça rico de seu amor, e nada mais desejo. (II 388.)

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 164 - 167)

22 de janeiro de 2014

O Diabo, Lutero e o Protestantismo - Pe. Júlio Maria - Capítulo 11

CAPÍTULO XI

ÚLTIMOS DIAS E MORTE DE LUTERO
Atingimos ao fim desta vida tão agitada. Os anos e as moléstias foram aos poucos lhe abalando a saúde; hábitos torpes e animalescos estavam de há muito estragando o seu rude organismo.
No entanto, se o corpo se lhe depauperava, o espírito ainda estava lúcido e a chama do ódio, “mola-mestra” da sua ação, não decaíra de intensidade.
Ele reage contra todas as inquietações e leva para frente a sua obra de demolição, até que a morte o prostre e o torne conhecido para sempre, diante das gerações futuras, como heresiarca do século dezesseis, o triste sucessor daqueles que, através dos tempos, perturbaram a Igreja católica pelas mais variadas cisões, e cuja memória é a expressão do ódio e do vício: Ário, Pelágio, Nestório, Eutíquio, Maomé, Fócio e o pai do protestantismo.
Sigamos Lutero nos seus últimos dias de vida.

1. O HOMEM TERRÍVEL
Aos seus seguidores Lutero queria deixar o seu testamento de ódio contra o Suma pontífice. Cameçous, mas não o levou a termo, pois a moléstia, viagens urgentes e, afinal, a morte, não lhe deixaram o tempo necessário para completar esta obra, a última prova de seus desvarios espirituais.
A ardência do ódio, em vez de arrefecer perante as ameaças da morte, parecia tornar-se mais violenta, tentando envolver todos quantos discordassem de sua orientação.
Os teólogos da Universidade de Lovaina tiveram a inaudita coragem de refutar, em 32 artigos, os principais erros do inovador. Lutero viu nisto um crime imperdoável e disse: “Estou furioso contra estes quadrúpedes de Lovaina, que pretendem ensinar, a mim, um velho e tão insigne teólogo; quero dar uma lição a estes monstros de satanás, mesmo que isso me custe o último suspiro”.
E, de fato, a resposta não se fez esperar; apareceu grosseira, orgulhosa, em 76 teses, com este título: “CONTA OS TEÓLOGO DE LOVAINA”. “Tais teses”, diz Kohler, “são mais insultuosas que instrutivas”, e deixam entrever o declive da inteligência de seu autor.
“O homem terrível”, como o chama Melanchton em uma carta a Camerário, “com seus ataques violentos, não suporta a mínima oposição; enerva-se, insulta, esbraveja como um endemoninhado.
Oh, se pelo menos Lutero se calasse, continua Melanchton, “mas não há jeito. Eu esperava que a velhice e a experiência dos erros cometidos lhe abrandassem o gênio, porém acontece o contrário, ele se torna cada vez mais violento na luta e na oposição” (Corresp. Ref. I. p. 794).
Pouco depois os teólogos da Universidade de Paris levantaram também a voz, para combater as doutrinas errôneas do reformador.
Nova lute ia suceder à primeira; Lutero se esforçou para responder, mas chegou apenas a escrever a epígrafe do escrito e curtas observações. A moléstia lhe fez cair a pena das mãos.
O título do novo pasquim, que não foi feito, é sugestivo e nos permite avaliar o estado de nervosidade do autor: “CONTRA OS ASNOS DE PARIS E LOVAINA”
O reformador sente-se abatido, neurastênico, irritado contra si e contra os outros: “Tenho nojo dos homens”, exclamou ele um dia, “e o mundo tem nojo de mim”.
“Ninguém é capaz de imaginar, dizia ainda, quanto custa e que suplício é, para um homem, persuadir a crer numa doutrina que os Padres da Igreja não admitem. Que agitações em seus corações ao pensar que tantos homens excelentes, esclarecido, doutos e, por assim dizer, a maior
e melhor parte do mundo cristão, acreditaram e ensinaram tal e tal artigo, e com eles tantas almas sadias: os Ambrósios, os Jerônimos, os Agostinhos!
Parece-me ouvi-los, em grito de angústia, repetir em coro: A Igreja! A Igreja!...
E a alma se me confrange em dor suprema. Oh,na verdade é uma prova rude separar-se alguém de tantos personagens santos!... romper com a própria Igreja, e não ter mais fé e confiança nos próprios ensinamentos”.
Ele escreve alhures: “Enche-me de espanto não ter plena confiança em minha doutrina. Por causa dela tornei-me inimigo de mim mesmo, enquanto os meus discípulos pensam sabê-lo na ponta do dedo”.
Tais eram os pensamentos íntimos de Lutero, nas horas de calma e de reflexão. Logo, porém, voltava ao estado anterior.
Punha-o sobretudo em desespero a visão do mal cada vez maior, que penetrava na sociedade.
“O mundo está repleto de satã e de homens satânicos”, escreve ele em carta íntima.
“O negócio irá mal, quando eu não estiver mais aqui. Mais de um „mane, tecel‟ está gravado nas paredes da reforma. Examinados, um por um, os meus auxiliares, não encontro nenhum merecedor de confiança”

2. DESGOSTOS E REMORSOS
Externando os seus desgostos e remorsos, ele escreve a cada instante, no fim de sua vida: “O mundo piora todos os dias e mais malvado fica. Os homens estão hoje mais açulados às vinganças, mais avarentos, mais sem misericórdia, menos modestos, mais incorrigíveis e piores do que no papismo. Quanto é escandaloso ver-se, depois do advento da reforma, o mundo andar diariamente de mal a pior.
Os nobres e os rústicos chegam a dizer não precisar de pregação, nem terem de pagar sequer um vintém por todos os nossos sermões juntos... Vivem como crêem: são e ficam porcos, e morrem como tais.
Há ainda chaga mais deplorável: os pastores, sim, os próprios pastores que sobem ao púlpito, são hoje os mais vergonhosos exemplos da perversidade e de outros vícios.
Daí vem não terem os seus sermões nem mais crédito, nem mais autoridade do que as fábulas recitadas por um histrião. E esses senhores ousam queixar-se de ser desprezados e cair no ridículo.
Por mim, admiro-me da paciência do povo e não sei como as crianças e o povo não os cobrem de lama”. Falando da corrupção do povo de Wittemberg ele esclamou um dia publicamente: “Fujamos desta Sodoma. Prefiro andar mendigando o meu pão a envenenar os meus últimos dias, vendo as desordens de Wittemberg.
Tenho nojo do mundo... e o mundo tem nojo de mim; e isto me alegra. É já tempo de retirar-me”
Sair de Wittemberg era o seu desejo.
Em 1544 ele tentou afastar-se, mas os seus amigos o persuadiram a desistir do plano, porém foi apenas por pouco tempo, e, em fins de julho, sem avisar, deixou sorrateiramente a cidade acompanhado de seu filho Hans e de uns dois amigos: Fernando von Maups e Cruciger seus companheiros de viagem até à próxima cidade de Zeitz.
De Zeitz escreveu à sua amásia: “Meu coração está um pouco refrescado; não gosto mais de ficar aí!” Nesta mesma carta exprime a vontade de vender a casa e jardim que possuía em Wittenberg e ir residir em Zulsdorf onde tinha uma pequena propriedade.
Desejava terminar ali a sua vida, porque, dizia mais tarde, “após minha morte, o povo não suportará a minha viúva em Wittemberg.”
Quando os chefes protestantes tiveram o conhecimento destes planos, instantemente, foram pedir-lhe que voltasse, sendo a sua presença em Wittemberg absolutamente necessária para manter a paz e favorecer a extensão da reforma.
Lutero deixou-se convencer e voltou para aquela cidade. Mais tarde saiu outra vez, indo para Mansfeld, tratar de negócios com o landgrave.
No meio destas idas e vindas, as suas cartas exprimem o mesmo tédio, os mesmos desesperos da vida. Lutero sente m mal estar inexplicável, que outra coisa não é senão o remorso cada vez mais feroz em sua consciência perturbada, com a aproximação da morte.

3. ÚLTIMA VIAGEM
Em 23 de janeiro de 1546, Lutero foi terminar umas negociações na família do landgrave Alberto Mansfeld, em Eusleben. Viajou em companhia de seus três filhos, o professor particular destes e o seu amigo Aurifaber, o futuro compilador dos seus discursos de mesa.
Durante três dias se deteve em Halle, na casa de seu amigo Jonas, por causa da inundação do rio Saale. Daí escreveu a Catarina, em 25 de janeiro:“Não quisemos lançar-nos à correnteza e tentar a Deus, pois o diabo, nosso inimigo, reside na água, e, depois, não quero ver o Papa alegrar-se com a notícia de minha morte” (Cartas 5. p. 780).
No dia seguinte ele pregou em Halle, com toda a veemência permitida pela sua idade e moléstia, contra o Papa, os cardeais, os monges, que apesar de todas a suas exortações e ameaças, haviam ficando fiéis aos seus deveres e à sua religião.
Baixando as águas do rio, no dia 28, Lutero o atravessou em companhia de Jonas, e prosseguiu a viagem para Eisleben; notando estar a enchente ainda bastante forte, o reformador gracejou para Jonas: “Caro amigo, não seria muito agradável ao demônio, se eu, Doutor Martinho, com meus três filhos e o senhor morrêssemos aqui afogados?”
Não morreu afogado, mas a morte mandou-lhe um aviso da sua venda próxima.
O tempo estava frio, e um vento gelado soprava sobre os viajantes, causando arrepios ao velho Lutero que se sentiu incomodado, com tonteiras e dificuldade de respiração. Consolou-se, entretanto, e falou ao companheiro: “É o diabo que me fez isso; ele costuma proceder desse modo, cada vez que pretendo fazer coisa de importante” (Hausrath 2, p. 493).
Chegados a Eisleben, escreveu em tom zombeteiro e supersticioso aos judeus, numerosos no lugar, onde lhe acontecera o resfriar-se: “Vós me suscitastes esta friagem, que soprou detrás no carro e penetrou, através do meu barrete, até ao cérebro” (Cartas à Catarina, 5, p.783-1).
Durante sua estadia em Eisleben, Lutero vinha quase diariamente observar os patinadores do lago. Daí escreveu cartas humorísticas, incitando uma iminente repressão aos judeus, sempre avessos à sua reforma.
Pregou ali 4 vezes e ordenou dois padres, por ocasião da Ceia, “conforme o uso apostólico” diz ele.
Em 14 de fevereiro, à sua amiga e querida Catarina comunicou estar terminado o negócio do landgrave, de que fora tratar, tencionando voltar naquela mesma semana.
No dia 16 entretendo-se à mesa, sobre a sua viagem de volta, exclamou, em tom zombeteiro, algo que se realizou, parece, por castigo divino: “Quando estiver de volta a Wittemberg, me deitarei num cadafalso e darei de comer aos vermes um gordo doutor!” (Erling. 6l. 437).
No dia seguinte, 17, declararam-se os primeiros sintomas do ataque de apoplexia que, no dia seguinte o fulminaria repentinamente.
Passou o dia perturbado, inquieto, sentindo como que uma mão de ferro a lhe apertar a garganta, sem deixá-lo quase respirar.
Passeava de uma lugar para outro, ora estava em pé, ora deitado, ora inclinado à janela para melhor conseguir respiração.
Viu como que estender-se diante de si um pano fúnebre; ruídos estranhos atordoavam-lhe os ouvidos; espectros lquméricos povoavam-lhe a imaginação.
Tudo lhe dava a impressão de ser o último aviso de Deus.
Então ele disse: “Eu fui batizado aqui em Eisleben, quem sabe se não devo ficar aqui?”
A última hora, o instante da “grande viagem”, se aproximava...

4. A MORTE MISTERIOSA
Nada mais difícil que descrever a morte do reformador.
Correm tantas legendas e histórias acerca desta fato; muitos escritores trataram do assunto, de modo que o historiador imparcial não sabe em quem acreditar. Paira um mistério sobre este falecimento.
A razão desta balbúrdia é a seguinte: No tempo de Lutero, como ainda hoje, já estava arraigada a idéia de que um perverso deve necessariamente ter uma morte agitada, dolorosa, cruel; e o povo não admite possa uma pessoa reprovada morrer quieta e sossegada em seu leito de dores.
“Tal vida, tal morte”
É certo; é, porém, bom notar-se; tal morte se refere à sorte da alma e não ao gênero de morte do corpo.
É possível um criminoso, às vezes, ter uma morte suave, consolada, e perder a sua alma; como um predestinado, um santo, poder ter um trespasse doloroso, agoniado, e sua alma voar direito para o céu. Não se pode negar tenha sido Lutero um homem perverso, corrupto, vingativo, revoltoso, entregue aos mais baixos instintos; e, segundo a opinião citada, estava-lhe reservada a morte equivalente.
Os protestantes acusam os católicos de terem cercado os últimos instantes de seu reformador com pormenores ainda não bastante provados, exagerando talvez a verdade.
É possível. Não se pode atestar tenha sido aumentadas as proporções do caso, como não se tem certeza do contrário.
De outro lado, os protestantes, tanto os que assistiram à morte de seu chefe, como os que surgiram mais tarde, tinham todas as razões para apresentá-la como desenlace de um predestinado.
Os católicos tendiam a um rigor excessivo, e os protestantes, a uma indulgência exagerada. Para evitar discussões sem provas, cada um adotou, pois, a opinião mais coerente com as próprias idéias.
Desejo ser imparcial; por isso, sem adotar definitivamente esta ou aquela narração a respeito, citarei com brevidade os diversos modos de pensar.
A primeira opinião, a mais seguida entre católicos e protestantes, é a seguinte: Tendo Lutero resolvido voltar para Wittemberg, embora estivesse já alquebrado, doente e cansado, convidou os amigos para um banquete.
Pela tarde do dia 17 o chefe manifestara ligeira melhora, recobrando passageiramente o seu velho bom humor e espírito zombeteiro.
Comeram, beberam, cantaram; e, para agradar aos convidados, Lutero não deixou de beber bastante do bom vinho de Eisleben. Parecendo, entre os vapores do álcool, esquecer-se do seu estado doentio.
Alta noite os comensais se retiraram, ficando, somente Lutero, Justo Jonas, dono da casa, seu criado particular e um filho.
Conduzido ao seu quarto, Lutero sentou-se num sofá, mandando ao criado retirar-se, por não carecer mais dos seus serviços.
Que aconteceu nesta noite tremenda?
Só Deus o sabe.
De manhã, demorando-se Lutero mais que de costume em seu quarto, o criado foi bater-lhe à porta, mas não obteve resposta, nem notou o mínimo ruído. Conhecendo o servo o estado de seu mestre e receando qualquer catástrofe, chamou Justo Jonas e o filho de Lutero, e abriram a porta, não fechado por dentro. E uma cena mais horrenda e tétrica se ofereceu então aos seus olhos.
No meio do quarto, entre o móvel e o leito, o corpo de Lutero estava estendido no chão.... o rosto lívido, azulado, de olhar e boca desmedidamente abertos, os braços estendidos, o abdome intumescido, saindo-lhe as entranhas em redor do corpo.
Era um cadáver.
A mão justiceira de Deus havia prostrado aquele que durante tantos anos o blasfemara, na pessoa de seu representante visível na terra.
Lutero já estava na eternidade: excomungado, herege, apóstata, sacrílego, levando as mãos tintas de sangue e tendo a alma envolta em rancores ao Papa e à Igreja de Cristo.
Triste... Tristíssima bagagem para comparecer perante o Tribunal de Deus!
Justo Jonas e o criado, à vista do cadáver, já em começo de decomposição, com as entranhas derramadas pelo chão, recuaram de espanto, enquanto Hans Lutero soltou um grito estridente, caindo de joelhos perto de seu pai, para examinar se realmente estava morto.
Não havia dúvida; tinham diante de si um corpo frio e rígido; levantaram-no e deitaram-no sobre o sofá, indo um deles chamar o farmacêutico Landau para verificar a morte. Lutero falecera, vitimado por um ataque de apoplexia fulminante, proveniente talvez da indigestão dos alimentos e bebidas ingeridos no derradeiro banquete.
O pretenso reformador da Igreja morrera como vivera: como um trivial gastrônomo.
A medida da justiça divina estava repleta, e aquele que em vidas se intitulara “uma peste” para o Papa, e que, ao morrer seria a sua morte, foi apenas a peste da seita fundada por ele, em cuja história representa uma negra mancha: o seu desaparecimento não foi a morte do Papa, mas a desgraça espiritual de seus sectários.
Lutero morreu; o Papado não morre, porque Cristo é eterno.
O padre Leonel Franca, cuja sinceridade e ciência histórica são indiscutíveis, adota a mesma opinião e conclui: “Assim se calou, como um gastrônomo e libertino vulgar, o apóstata que se arrogava em reformador do cristianismo” (A Igreja, a reforma e a civilização. Pg. 200, citando Paulus: Lutero lebesende. Mainz 1896 p. 5).
“Na hierarquia dos anjos rebeldes, ainda que cause pesar aos seus amigos”, diz outro escritor de renome, “Lutero ocupa o grau mais baixo, mais próximo do lodo e do pântano” (Th. Mainage: Témoignages dês apostats. Paris 1916, p. 76).

5. OUTRAS OPINIÕES
Entre as diversas narrações dos antigos, a que acabo de citar é a mais universalmente aceita quer por protestantes sinceros, quer pelos católicos.
Uma segunda opinião acha que Lutero SE ENFORCOU: baseia-se numa CARTA DO CRIADO que o assistiu no dia da morte.
Segundo tal carta, todos os presentes, no dia seguinte ao em que encontraram Lutero ENFORCADO, haviam obrigado por JURAMENTO, em honra da nova doutrina, a nunca falar da cena presenciada.
Havendo, mais tarde abjurado o erro protestante asseveram ter o criado revelado o fato.
Foi no começo do século 17, em 1606, quando pelo primeira vez se encontrou o texto da carta do criado de Lutero, mencionado num livro do franciscano Henrique Edúlio, publicado em Antuérpia.
Qual é o VALOR deste documento?
É difícil dizê-lo; é certo não ter ele sido geralmente aceito pelos historiadores pósteros; nem a sua autenticidade, nem a sua falsidade foram bastante provadas.
Os protestantes rejeitam tal opinião como caluniosa; é natural, pois seria para eles uma nódoa sombria na vida e na morte, já tão torvas de seu fundador. Seriam filhos espirituais de um suicida, de um enforcado pelas próprias mãos.
O franciscano divulgador desta carta, além de um historiador de valor, é um homem de virtude reconhecida de modo a não se poder suspeitar da sua sinceridade, porém é possível que o documento publicado por ele tenha uma fonte menos sincera. Não nos cabe discutir esta opinião, por não dispormos de documentos bastante comprobativos, pró ou contra.
Uma terceira opinião foi emitida pelo médico do landgrave, dr. RATZBERG, chamado na ocasião da morte de Lutero. Este médico, conforme a primeira opinião, admite o ataque de apoplexia, a queda e o derramamento dos intestinos, mas ajunta que, na véspera do dia de sua morte, antes de deitar-se, à noite, escrevera com giz na parede de seu quarto o já conhecido verso:"Papa, eu fui a tua peste durante a minha vida; morrendo, serei a tua morte"
Tal pormenor, omitiram-nos os demais. Se a existência da inscrição não foi provada, é certo ter sido pronunciada e escrita por ele em outras circunstâncias já conhecidas sendo a expressão verídica de seus sentimentos odiosos ao Papa. (Na biblioteca de Groningen [Holanda] existe ainda um comentário sobre o Novo Testamento de Erasmo, no qual Lutero escreveu, com seu próprio punho, no lado interior da capa, esta execrada blasfêmia).
Um quarta opinião, de origem visivelmente protestante, pretende que Lutero faleceu de morte natural, sem acidente agravante, recitando versículos da Bíblia.
Dizem que, após o banquete, onde comera e bebera fartamente, sem nada sentir de anormal, ele se retirara cedo ao seu quarto, sendo ali subitamente atacado por uma perturbação cardíaca.
Tendo-se friccionado com panos quentes, melhorou, e dormiu sossegado uma parte da noite. Pela madrugada a mesma inquietação manifestou-se de novo. Foram chamados dois médicos, mas,
quando estes entraram, já o acharam estendido sobre o sofá, com um pulso imperceptível e a fronte coberta pelo suor da morte.
Voltando a si, momentos depois, asseveram ter dito: "Meu Deus, sinto-me tão agoniado, vou morrer".
Jonas, seu assistente, conta que, depois fez uma oração, dando graças a Deus de lhe ter dado Jesus Cristo, que ele havia pregado, enquanto o miserável Papa e todos os ímpios blasfemam.
Tendo Jonas perguntado se queria perseverar na religião que havia pregado, Lutero respondeu que sim: e pronunciando esta última palavra, morreu logo em seguida, às 3 horas da madrugada do dia 18 de fevereiro de 1546.
Vê-se claramente a falsidade destá última opinião fabricada pelos seus amigos, para esconder qualquer coisa que não queriam fosse conhecida.
Esta opinião protestante em vez de enfraquecer, confirma a opinião dos escritores católicos.
As palavras citadas não são de um moribundo, e a morte instantânea, que as segue, não combina com as palavras proferidas; pois há sempre um momento de agonia, a menos que seja um ataque apoplético que prostra a pessoa.
Aparecem reticências visíveis... e palavras ditadas pelo interesse para impressionar.
Lutero deixou neste mundo, como fruto de seu casamento sacrílego, 5 filhos, sendo 3 homens e 2 mulheres, havendo falecido uma menina com 8 meses de idade.
Conforme uma notícia do "Catholic Reviera", existem na América do Norte 20 famílias com o nome de Lutero, sendo elas católicas.
Um beneditino, Luis Lutero, celebrou ultimamente a missa de Requiem, para seu pai Sebastião Lutero, descendente em linha reta, de Martinho Lutero, quarto filho do próprio "reformador".

6. O ENTERRO DE LUTERO
O corpo de Lutero, bastante desfigurado e mal suportado pelos circunstantes, foi transportado no dia 20 para HALLE, e no dia 22, pelo madrugada, para WITTEMBERG, onde, por ordem do landgrave, devia ser sepultado na igreja, junto ao púlpito donde havia lançado a semente da revolta.
Dizem os escritores da época que, ao ser ele para lá transportado, o mau cheiro do cadáver se tornou tão penetrante e insuportável que, diversas vezes, os carregadores foram coagidos e deixá-lo por algum tempo, só, no meio dos campos, para poderem respirar um pouco de ar puro.
Contam ainda ter um bando de corvos, aliciados pela putrefação, seguido o cortejo lúgubre, como se fossem demônio montando guarda de honra a um de seus chefes.
Foram tais as diversas opiniões veiculadas a respeito da morte e do enterro do fundador do protestantismo.
Haverá qualquer exagero nestas narrações?
É difícil dizê-lo; só me foi possível reproduzir o que os contemporâneos narraram a respeito.
Que Justo Jonas, Célio, Aurifaber e, provavelmente, os filhos de Lutero tenham guardado silêncio sobre o fato é natural, pois a verdade seria a desmoralização da pessoa de seu amigo, de seu pai e até da reforma que este havia pregado e que eles mesmos seguiam.
E por isso, conforme o testemunho citado, que todos juraram nada revelar da morte de seu chefe; é por isso também que ficou envolta em tantos mistérios e incertezas uma morte que devia ser notória para todos.

7. CONCLUSÃO
Lutero desceu ao túmulo, como qualquer mortal; e, infelizmente, parece que acabou impenitente: a alma envenenada por sentimentos rancorosos, o coração transviado pelas paixões humanas, o espírito obcecado pela falsa idéia de um desígnio que o destinava para reformador.
A existência do herói de Wittemberg desconcerta o mais arguto psicólogo; é um complexo contraditório e um triste acúmulo de ócio e de atividade, de obsessão e de força, de baixezas e de elevação, mas tudo isso, tão entrelaçado, que querendo-se delinear a sua fisionomia, chega-se necessariamente à de um de seus contemporâneos:"Lutero é um tresloucado, ou, então, vítima de influência diabólica"
Cada vez se robustece em minha mente este mesmo conceito sobre o pai das seitas protestantes.
Iludido por sucessos passageiros, que as circunstâncias favoreceram, ele se julgou um gênio, um astro, um arauto do céu.
A morte implacável deitou no túmulo a sua audácia de deformador, porém o espírito de revolta que havia insuflado no mundo, o ódio ao Papa, que acendera nas almas, continuou, firmando o credo fundamental do protestantismo.
Um homem que se ufana de raciocinar sem preconceitos teria de parar diante deste quadro horripilante, como se detém diante da forca de Judas, e exclamar instintivamente: Não, a verdade não está aqui; só posso estar diante do mal, diante do vício, da perdição... e a verdade continua estar ao lado de Jesus Cristo, mesmo estando ele diante de Caifaz, de Pilatos ou de Herodes... A verdade está com ele, exclusivamente com ele e com seus sucessores: o Papa imortal de Roma, sucessor de S. Pedro, representante visível do Cristo invisível.
Para tornar esta verdade palpável, permitiu Deus fosse Lutero, sepultado no mesmo dia em que o povo católico celebrava a festa da "Cathedra Petri", dia comemorativo da fundação da primazia do Papa... data em que a Igreja canta as palavras do Salvador a Pedro: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela” (São Mateus 16, 18).
Lutero procurou prevalecer contra a Igreja... mas terminou esmagado sob o peso da rocha de Pedro; e o Papa continua, como sempre, abençoando os seus filhos e suplicando que Deus se compadeça dos seus perseguidores.

Encarnação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo - Meditações Novena de Natal - Meditação 1

OUTRAS MEDITAÇÕES PARA A NOVENA DE NATAL.

Coroinha a recitar-se antes de cada meditação

1. Meu dulcíssimo Jesus, que nascestes numa gruta, e que depois fostes colocado num presépio sobre palha, tende piedade de nós. — Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória Patri.
2. Meu dulcíssimo Jesus, que fostes apresentado e oferecido no templo por Maria, para serdes um dia imolado por nós na cruz, tende piedade de nós. — Tende piedade de nós, Se-nhor, tende piedade de nós.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória Patri.
3. Meu dulcíssimo Jesus, que fostes perseguido por Herodes e constrangido a fugir para o Egito, tende piedade de nós. — Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória Patri.
4. Meu dulcíssimo Jesus, que permanecestes sete anos no Egito, pobre, desconhecido e desprezado por aquele povo bárbaro, tende piedade de nós. — Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória Patri.
5. Meu dulcíssimo Jesus, que voltastes à vossa pátria, para lá ser um dia crucificado entre dois ladrões, tende piedade de nós. — Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória Patri.
237
6. Meu dulcíssimo Jesus, que, aos doze anos de idade, ficastes no templo, discutindo com os doutores, e fostes encontrado ao terceiro dia por vossa santa Mãe, Maria, tende piedade de nós. — Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória Patri.
7. Meu dulcíssimo Jesus, que vivestes na obscuridade tantos anos na oficina de Nazaré, obedecendo a Maria e a José, tende piedade de nós. — Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória Patri.
8. Meu dulcíssimo Jesus, que, três anos antes de vossa paixão, vos apresentastes ao mundo para pregar e ensinar o caminho da salvação, tende piedade de nós. — Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória Patri.
9. Meu dulcíssimo Jesus, que enfim terminastes a vossa vida morrendo na cruz por nosso amor, tende piedade de nós. — Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.
Padre Nosso, Ave Maria, Glória Patri.

MEDITAÇÃO I.

DO AMOR QUE DEUS NOS MOSTROU FAZENDO-SE HOMEM.
Consideremos o amor imenso que Deus Filho nos mostrou fazendo-se homem para obter-nos a salvação eterna.
Adão, nosso primeiro pai, cai no pecado, e revoltando-se contra Deus, é expulso do paraíso terrestre e condenado à morte eterna com todos os seus descendentes. Mas o Filho de Deus, vendo perdido o homem, oferece-se, para livrá-lo da morte, a tomar a natureza humana e a padecer o suplício da cruz. — Mas, meu Filho, parece ter-lhe dito então o Pai celeste, pensa que terás de levar na terra uma vida cheia de humilhações e sofrimentos. Terás de nascer numa fria gruta e ser reclinado na manjedoura dos animais. Terás logo depois de fugir para o Egito a fim de escapares às mãos de Herodes. Voltando do Egito, terás de viver na oficina de operário, como um simples artífice, pobre e desprezado. Finalmente terás de morrer na cruz, coberto de opróbrios e abandonado por todos. — Não importa, meu Pai, responde o Filho de Deus; estou pronto a tudo, contanto que o homem se salve.
Que é que se diria, se um príncipe, tocado de compaixão por um verme, que acabasse de morrer, se quisesse transformar num verme, preparar ao miserável verme um banho de seu sangue, e morrer para lhe restituir a vida? O Verbo eterno fez bem mais por nós, pois era Deus e quis tornar-se um verme semelhante a nós, e morrer por nós, a fim de nos restituir a vi-da da graça, que tínhamos perdido. Vendo que nenhum de seus dons podia conquistar-lhe o nosso amor, revestiu-se de nossa humanidade, e deu-se todo a nós: O Verbo de fez carne — e entregou-se por nós.
O homem mostra seu desprezo a Deus, exclama S. Ful-gêncio, afastando-se dele; Deus mostra seu amor ao homem descendo do céu à sua procura! Mas qual é o seu intento nesse passo? Quer que o homem, sabendo quanto é amado por Deus, o ame por sua vez, ao menos por gratidão. Mas ah! amamos um animal que se chega aos nossos pés; como pois não seremos gratos para com um Deus, que desce do céu à terra para que o amemos?
Um homem, assistindo uma vez à missa, não manifestou nenhum ato de respeito às palavras que o sacerdote recita no fim: Et Verbum caro factum est. “O Verbo se fez carne”. Imediatamente o demônio lhe deu uma terrível bofetada, dizendo: “In-grato, se Deus tivesse feito por mim o que fez por ti, eu ficaria eternamente prostrado em terra para lhe agradecer”.

Afetos e Súplicas.
Ó Filho eterno de Deus, fizestes-vos homem para ganhar o coração do homem; mas onde está o amor que os homens vos têm? Destes o vosso sangue e a vossa vida para salvar vossas almas; como pois vos somos tão pouco reconhecidos? ah! em vez de vos amarmos, levamos ao desprezo a nossa ingratidão! Senhor, eis a vossos pés aquele que vos ultrajou mais do que todos. Mas a vossa paixão é a minha esperança. Ah! pelo amor que vos levou a tomardes a natureza humana e a morrerdes na cruz pela minha salvação, perdoai todas as minhas ofensas. Amo-vos, ó Verbo encarnado, amo-vos, ó meu Deus, amo-vos, bondade infinita, arrependo-me de vos haver desgostado tanto, quisera morrer de dor. Meu Jesus, dai-me o vosso amor; não permitais que continue a pagar com ingratidão a afeição que me mostrastes. Quero amar-vos toda a minha vida. Dai-me a santa perseverança.
Ó Maria, Mãe de Deus e minha Mãe, obtende-me de vosso Filho a graça de o amar cem cessar até a morte.