26 de setembro de 2013

Da comunhão Espiritual.

Os meum aperui, et attraxi spiritum — “Abri a minha boca, e atraí o alento” (Ps. 118, 131).

Sumário. A comunhão espiritual consiste num desejo ardente de receber Jesus sacramentalmente e num amoroso amplexo, como se fosse recebido realmente. Esta devoção é um meio eficacíssimo para chegar à perfeição e ao mesmo tempo é uma devoção facílima, porque pode ser praticada todos os dias, por todos, e quantas vezes se quiser, sem ser vista ou observada por pessoa alguma. Pratica-a, pois, com frequência, em particular, na oração mental, na visita ao Santíssimo Sacramento e na assistência à Missa à hora da comunhão do sacerdote.

I. Segundo Santo Tomás, a comunhão espiritual consiste num desejo ardente de receber Jesus Cristo sacramentalmente e num amplexo amoroso, como se já fora recebido. O santo Concílio de Trento louva muito a comunhão espiritual e convida todos os fiéis a que a ponham em prática. E Deus mesmo, repetidas vezes, tem dado a entender às almas devotas quanto Lhe agrada esta devoção.

Um dia apareceu Jesus a Soror Paula Maresca, fundadora do convento de Santa Catarina de Sena em Nápoles, e mostrou-lhe dois vasos preciosos, um de ouro e outro de prata, dizendo-lhe que o no primeiro guardava as suas comunhões sacramentais e no segundo as espirituais. Em outra ocasião disse o Senhor também à Venerável Joana da Cruz que, sempre que comungava espiritualmente, concedia-lhe uma graça semelhante à que lhe dava na comunhão sacramental. — Mais tocante é o que um autor fidedigno (1) refere de outro servo de Deus. Quando este fazia na missa a comunhão espiritual, sentira a partícula consagrada levar-se-lhe aos lábios e experimentava na alma uma doçura indizível, querendo o Senhor recompensar desta forma o desejo de seu bom Servo.

Por isso todas as almas devotas costumam praticar com frequência o santo exercício da comunhão espiritual. A Bem-aventurada Angela da Cruz, dominicana, chegou a dizer que, se o confessor não lhe tivesse ensinado este modo de comungar, não teria podido viver. Fazia cem comunhões espirituais durante o dia, e outras cem durante a noite. Nem é de admirar, pois que este modo de comungar, sobre ser uma devoção muito proveitosa, é também facílimo e pode ser praticado cada dia por todos, e quantas vezes se quiser. — A já mencionada Joana da Cruz exclamava: “Ó meu Senhor, que bela maneira de comungar é essa! Sem ser vista por ninguém, sem ter de dar conta a meu diretor espiritual, sem dependência de ninguém senão de Vós, que alimentais minha alma na solidão e lhe falais ao coração!”

II. Procura fazer com frequência a comunhão espiritual; tanto mais que ela é também um meio valiosíssimo para dispor a alma a fazer com mais fruto a comunhão sacramental. Por isso, nas tuas visitas ao Santíssimo Sacramento, na tua oração mental, em cada missa que ouvires, no momento da comunhão do celebrante, faze a comunhão espiritual.

Faze então um ato de , crendo firmemente que na Eucaristia está o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Jesus Cristo, tão vivo como está no céu. Faze também um ato de amor, unido ao arrependimento dos teus pecados; e em seguida um ato de desejo, convidando Jesus Cristo a entrar em tua alma afim de a fazer toda sua. Agradece-lhe, afinal, como se já o tivesses recebido. — Para que essas comunhões espirituais te sejam mais proveitosas, une-as aquelas que fizeram todos os santos e em particular a tua querida Mãe Maria. Quantos frutos colherás desta forma para tua alma! Representa-te que cada uma de tuas comunhões será uma pedra preciosa que ornará a tua coroa no céu.

Ó meu Redentor amabilíssimo, agradeço-Vos o me haverdes ensinado este grande meio de santificação e com o vosso auxilio quero aproveitá-lo sempre, a começar pelo dia de hoje. Sim, meu Jesus, creio que estais presente no Santíssimo Sacramento. Amo-Vos sobre todas as coisas e desejo possuir-Vos em minha alma. Visto que não posso agora receber-Vos sacramentalmente, vinde ao menos espiritualmente ao meu coração. Abraço-Vos, como se já tivesses vindo, e me uno inteiramente a Vós; não permitais que jamais me aparte de Vós.

Ó Maria, vós que tanto desejais ver vosso Filho amado de todos, se me amais, eis aí a graça que vos peço e que me haveis de alcançar: obtende-me um grande amor a Jesus. Obtende-me também um grande amor a vós, que sois a criatura mais amante, a mais amável e a mais amada de Deus. O amor para convosco é uma graça que Deus não concede senão a quem deseja salvar. (*IV 304.)

----------
1. P. J. Bider O. P.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 144-146.)

25 de setembro de 2013

Pensamentos escolhidos do Cura d'Ars

IV - O mundo presente e o mundo futuro 

O mundo passa; e nós passamos com ele .
Os reis , os imperadores, tudo se vai. Abismamo-nos na eternidade, donde não voltamos mais. trata-se só de uma coisa: salvar a nossa pobre alma. 
Os santos não eram apegados aos bens da terra; só pensavam nos do céu.  A gente do mundo, ao contrário, só pensa no tempo presente.
Deve-se fazer como os reis. Quando vão ser destronados, mandam na frente os seus tesouros; esses tesouros esperam por eles. Assim, também, um bom cristão manda todas as suas boas obras para a porta do céu.
O bom Deus nos pôs na terra para ver como nós nos comportaríamos nela, e se o amaríamos; mas ninguém fica na terra.
Se refletíssemos nisto, elevaríamos incessantemente os nossos olhares para o céu, nossa verdadeira pátria. Mas nós nos deixamos levar para cá e para lá pelo mundo, pelas riquezas, pelos gozos.
Vede os santos: como eram desapegados do mundo e da matéria! como olhavam tudo isso com desprezo! Um religioso, tendo perdido os pais, ficava dono de grandes bens. Quando lhe noticiaram isso, disse ele: "Quanto tempo há que meus pais morreram? - Três  semanas, responderam-lhe. - Dizei-me se uma pessoa que morreu pode herdar? - Não, certamente. - Pois bem! eu não posso herdar dos que morreram há três semanas, eu que morri há vinte anos."
A terra é uma ponte para passar a água; serve só para sustentar-nos os pés...Nós estamos neste mundo, mas não somos deste mundo, já que dizemos todos os dias: - Pai Nosso , que estais no céu...Há portanto, que aguardar a nossa recompensa quando estivermos em nossa casa, na casa paterna.


Imitação de Cristo - Livro 3 Capítulo 29

CAPÍTULO 29

Como, durante a tribulação, devemos invocar a Deus e bendizê-lo

1. A alma: Senhor, bendito seja para sempre o vosso nome! Pois quisestes que me sobreviesse esta tentação e este trabalho. Não lhes posso fugir, mas tenho necessidade de recorrer a vós, para que me ajudeis e tudo convertais em meu proveito. Eis-me, Senhor, na tribulação, com o coração aflito; e quanto me atormenta o presente sofrimento. Pois que direi eu agora, Pai amantíssimo? Apertado estou entre angústias: "Salvai-me nesta hora. Veio sobre mim este transe, só para que vós fôsseis glorificado (Jo 12,17), quando eu estivesse muito abatido e fosse por vós livrado". "Dignai-vos, Senhor, livrar-me" (Sl 39,14); pois, pobre de mim, que farei e aonde irei, sem nós? Daí-me, Senhor, paciência ainda por esta vez. Socorrei-me, Deus meu, e não temerei, por mais que seja atribulado.
2. E que direi em tamanha necessidade? Senhor, seja feita a vossa vontade. Bem mereço ser atribulado e angustiado. Convém-me sofrer, e oxalá seja com paciência, até que passe a tempestade e volte a bonança. Bastante poderosa é, entretanto, vossa mão onipotente para tirar-me esta tentação, e moderar-lhe a violência, a fim de que não sucumba de todo; assim como já tantas vezes tendes feito comigo, ó meu Deus e minha misericórdia. E quanto mais difícil para mim, tanto mais fácil para vós é esta mudança da destra do Altíssimo (Sl 76,11).

XXV de Setembro - O Menino Jesus, sobre as palhas, ensina-nos a mortificação.

Et reclinavit eum in praesepior — “E reclinou-o numa manjedoura” (Luc.  2, 7)

Sumário. Visto que Maria não tinha nem plumas nem lã para preparar um leito conveniente para o seu tenro Filhinho, estende um pouco de palha numa manjedoura e nela reclina o Menino recém-nascido. Quão duro não devia ser tal leito aos membros delicados de Jesus Cristo!... Mas Jesus quis sofrer isso afim de remediar assim os pecados, que causaram a perdição do mundo, e começar desde o berço a ensinar-nos o amor dos sofrimentos e a mortificação dos sentidos. E depois de tal exemplo continuaremos a acariciar esta carne rebelde?

I. Jesus nasce na gruta de Belém. Já que a pobre Mãe não tem nem lã nem plumas para preparar um leito conveniente para o seu tenro Filhinho, que faz? Estende um pouco de palha numa manjedoura e nela reclina o Filho recém-nascido: Et reclinavit eum in praesepio. Mas, ó Deus, tal leito é duro e penoso demais para um menino que acaba de nascer. Os membros de uma criança são demasiado delicados, e especialmente os de Jesus, feitos pelo Espírito Santo extremamente delicados, afim de que fossem mais sensíveis às dores: Corpus autem aptasti mihi (1) — “Formaste-me um corpo”. Pelo que lhe foi em extremo doloroso um leito tão duro.

Foi uma dor e uma ignomínia. Pois, que filho de um homem, da mais vil condição que seja, é colocado, logo depois de nascido, sobre a palha? A palha é leito próprio dos animais; e o filho de Deus não tem na terra outro leito senão a palha! Quando um dia São Francisco de Assis estava sentado à mesa, ouviu ler estas palavras do Evangelho: “Reclinou-o numa manjedoura”; e disse: “Como? O meu Senhor está deitado sobre a palha, e eu hei de ficar sentado?” Levantou-se logo, e terminou a sua pobre refeição sentado no chão, entre lágrimas de ternura ao contemplar o quanto devia sofrer Jesus Menino, deitado sobre a palha.

Mas porque é que Maria, que tanto tinha suspirado pelo nascimento do Filho, que tanto o amava, não o guardou nos braços em vez de o expor a tão grande sofrimento num leito tão duro? É um mistério, diz Santo Tomás de Vilhanova: Neque illum tali loco posuisset, nisi magnum aliquod mysterium ageretur. Deste mistério há diversas explicações, mas entre todas mais me agrada a de São Pedro Damião. Jesus recém-nascido quis ser posto sobre a palha para nos ensinar a mortificação dos sentidos: Legem martyrii praefigurabat. O mundo havia-se perdido pelas satisfações dos sentidos; por elas se havia perdido Adão, e depois dele um sem número dos seus descendentes até o dia de hoje. O Verbo eterno desceu do céu para nos ensinar o amor dos sofrimentos, e começou a no-lo ensinar desde criança, escolhendo para si os sofrimentos mais ásperos que uma criança pode suportar. — Foi, pois, Ele mesmo quem inspirou a Maria, que em vez de o guardar nos seus tenros braços, o pusesse sobre aquele leito tão duro, afim de sentir mais o frio da gruta e as picadas da rude palha.

II. Ó terno amante das almas, ó amável Redentor meu, não Vos satisfazem a dolorosa Paixão que Vos aguarda e a morte cruel da cruz que Vos preparam; quereis começar a padecer desde o primeiro momento da vossa existência! Sim, porque desde o vosso nascimento quereis começar a ser meu Redentor e satisfazer pelos meus pecados à divina justiça. Escolheis palha por leito, para que me livreis do fogo do inferno, onde tantas vezes mereci ser precipitado. Chorais e gemeis sobre essa palha para me obterdes do vosso Pai, pelas vossas lágrimas, o perdão das minhas faltas.

Ah! Quanto me afligem essas lágrimas e me consolam também! Afligem-me pela compaixão que sinto ao ver-Vos, Menino inocente, sofrer tanto por crimes que não cometestes. Consolam-me, porque nos vossos sofrimentos vejo a minha salvação e o vosso imenso amor para comigo. Mas, meu Jesus, não Vos quero deixar chorar e sofrer sozinho; quero chorar convosco, pois só eu é que devo chorar os desgostos que Vos causei. Já que mereci o inferno, não recuso sofrimento algum, contanto que recupere a vossa amizade.

Perdoai-me, ó Salvador meu, restitui-me a vossa amizade, fazei que Vos ame e castigai-me segundo a vossa vontade. Livrai-me das penas eternas, e depois disponde de mim como quiserdes. Não Vos peço consolações nesta vida; é indigno delas quem teve a petulância de Vos ofender, ó bondade infinita. Pronto estou a sofrer todas as cruzes que me enviardes; mas quero amar-vos, Jesus meu. Ó Maria, fiel companheira de Jesus em todas as suas dores, alcançai-me a força de suportar as minhas penas com paciência. Ai de mim, se, depois de tantos pecados, não sofrer alguma coisa na vida presente. E feliz de mim, se sofrendo puder acompanhar-vos, ó minha dolorosa Mãe, e ao meu Jesus, sempre aflito e crucificado por meu amor. (II 369.)

----------
1. Hebr. 10, 5.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 413-415.)

Tesouro de Exemplos - Parte 404

POBREZA FELIZ

Corre entre os russos a seguinte novela.
O czar (imperador) caiu gravemente enfêrmo. Não encontrando remédio, disse:
- Darei a metade de meu reino a quem me curar.
Reuniram-se então todos os sábios para uma consulta, cujo tema era:
- Como havemos de curar o imperador?
Depois de muito discutirem, disse um:
- Procurai um homem feliz, tirai-lhe a camisa e levai-a ao czar e, vestindo-a, êle sarará.
Mensagiros percorriam todo o império à procura do homem feliz, mas não o encontravam, porque: um era rico, mas sempre doente; outro era. são, mas pobre; êste, são e rico, mas sem filhos; aquêle são, rico e com filhos, mas atribulado todos, enfim, tinham do que lamentar-se.
Um dia, o filho do czar aproximou-se à noitinha de uma cabana, parou e ouviu que dentro um homem falava assim:
- Graças a Deus, trabalhei, comi e vou para a cama contente de ter cumprido o meu dever. Nada me falta, sou feliz... o filho do czar não cabia em si de contente, pois encontrara afinal o homem feliz e estava disposto a dar-lhe quanto dinheiro quisesse pela camisa, que levaria imediatamente ao czar, seu pai. Bateu à porta, entrou, pôs-se diante do homem feliz para comprar-lhe a cobiçada camisa, mas... que é que viu?
O homem feliz não possuía nem uma camisa!!
Bem-aventurados os pobres...

A morte do justo é a entrada na vida.

Haec porta Domini, iusti intrabunt in eam — “Esta é a porta do Senhor, os justos entrarão por ela” (Ps. 117, 20).

Sumário. A morte, considerada segundo os sentidos, causa pavor e temor, mas considerada segundo a fé, é consoladora e desejável; porque é a porta da vida, pela qual forçosamente deve passar quem quiser entrar no gozo de Deus. Tal é a graça que Jesus Cristo nos alcançou pela sua morte. Pelo que os santos, enquanto estavam na terra, não desejavam senão sair do cárcere do miserável corpo e entrar no reino celestial. Se nós temos tamanho horror à morte, é porque amamos pouco ao Senhor.

I. A morte, considerada segundo os sentidos, causa pavor e temor; mas considerada segundo a fé, é consoladora e desejável; porque, como observa São Bernardo, não só é o fim dos trabalhos e o remate da vitória, como também a porta da vida, pela qual deve passar forçosamente quem quiser entrar no gozo e contemplação de Deus: “Esta é a porta do Senhor, os justos entrarão por ela.” — São Jerônimo chamava a morte e lhe dizia: Aperi mihi, soror mea — “Ó morte, minha irmã, se me não abres a porta, não poderei entrar no gozo de meu Senhor”. São Carlos Borromeu, vendo em sua casa um quadro que representava um esqueleto com uma foice na mão, mandou chamar um pintor e ordenou-lhe que apagasse a foice e a substituísse por uma chave de ouro. Queria por este meio inflamar-se mais e mais no desejo da morte, porque é a morte que nos deve abrir o paraíso.

Se um rei, diz São João Crisóstomo, tivesse preparado para alguém uma habitação na sua própria morada e no entretanto o deixasse viver num curral, quanto não deveria esse homem desejar sair do curral para passar ao palácio régio? A alma nesta vida vive no corpo como numa prisão, de onde deve sair um dia para entrar no palácio do céu. É por isso que Davi orava assim: Educ de custodia animam meam (1) — “Livrai a minha alma de sua prisão”. E o santo velho Simeão, quando tinha nos braços o menino Jesus, não lhe soube pedir outra coisa senão a morte, para se ver livre das cadeias da vida presente. Nunc dimittis servum tuum, Domine (2) – “Agora, deixas ir o teu servo”. “Pede que o deixem ir”, diz Santo Ambrósio, “como se fosse retido.”

Qual não foi a alegria do copeiro de Faraó, quando soube por José que dentro em pouco devia sair da prisão e voltar a ocupar o seu posto! E não se regozijará uma alma que ama a Deus, sabendo que dentro em breve vai ser livre da prisão deste mundo e entrar na posse de Deus? É, pois, com razão que a morte dos santos se chama o seu nascimento; visto que pela morte nascem para a vida bem aventurada que nunca terá fim.

II. Lê-se na vida de São João o Esmoleiro, que um homem muito rico lhe recomendara seu filho único e lhe dera muitas esmolas, afim de obter longa vida para esse filho; mas pouco tempo depois o moço morreu. Queixando-se o pai amargamente da perda do filho, enviou-lhe Deus um anjo que lhe disse: “Pediste para teu filho longa vida. Pois bem, sabe que já está gozando dela no céu por toda a eternidade.” Tal é a graça que Jesus Cristo nos alcançou, conforme a promessa que nos foi feita pela boca do profeta Oséias: Ero mors tua, o mors (3) — “Ó morte, eu serei a tua morte”. Jesus, morrendo por nós, fez com que a morte se nos tornasse vida.

Ó Deus de minha alma, eu, miserável pecador, merecia uma morte desgraçada, porque Vos desonrei pelo passado, voltando-Vos as costas. Mas vosso Filho Vos honrou, sacrificando a vida na cruz. Pela honra que Vos deu vosso amado Filho, perdoai-me a desonra que Vos causei. Ó meu soberano Bem, arrependo-me de Vos ter ofendido; e prometo-Vos que doravante não hei de amar senão a Vós. A minha salvação, espero-a de vossa bondade. Tudo que atualmente tenho de bom é dádiva de vossa graça; a Vós me reconheço devedor de tudo: Gratia Dei sum id quod sum (4) — “É pela graça de Deus que sou o que sou.” Se pelo passado Vos desonrei, espero honrar-Vos eternamente, abençoando a vossa misericórdia.

Sinto um grande desejo de Vos amar; sois Vós quem me inspirais, e eu Vô-lo agradeço, ó meu amor. Continuai, continuai a ajudar-me do mesmo modo por que tendes começado; para o futuro peço ser vosso, todo vosso. Renuncio a todos os prazeres do mundo. Que maior gozo posso eu ter, do que amar-Vos, a Vós, meu Senhor tão amável e que tanto me tendes amado? É só amor que Vos peço, ó meu Deus, amor, amor. E espero pedir-Vo-lo sempre, até que, morrendo no vosso amor, eu chegue ao reino do amor, onde sem ter que o pedir, estarei cheio de amor e não deixarei nunca mais, um momento, de Vos amar em toda a eternidade e com todas as minhas forças. — Maria, minha Mãe, vós que amais tanto o vosso Deus e tanto O desejais ver amado, fazei com que eu O ame muito nesta vida, afim de O amar muito na outra e para sempre. (II 39.)

----------
1. Ps. 141, 8.
2. Luc 2, 29.
3. Os. 13, 14.
4. I Cor. 15, 10.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 141-144.)

24 de setembro de 2013

Imitação de Cristo - Livro 3 Capítulo 28

CAPÍTULO 28

Contra as línguas maldizentes

1. Filho, não te aflijas se alguém fizer de ti mau conceito ou disser coisas que não gostas de ouvir. Pior ainda deves julgar de ti mesmo, e avaliar-te o mais imperfeito de todos. Se praticares a vida interior, pouco te importarás de palavras que voam. É grande prudência calar-se nas horas da tribulação, volver-se interiormente a mim, e não se perturbar com os juízos humanos.
2. Não faças depender tua paz da boca dos homens; porque, quer julguem bem, quer mal de ti, não serás por isso homem diferente. Onde está a verdadeira paz e a glória verdadeira? Porventura não está em mim? Quem não procura agradar aos homens, nem teme desagradar-lhes, esse gozará grande paz. É do amor desordenado e do vão temor que nascem o desassossego do coração e a distração dos sentidos.

Tesouro de Exemplos - Parte 403

A CRUZ DO ROSÁRIO

Sôbre S. Pedro, o chaveiro do céu, há várias lendas, sendo a seguinte bastante interessante e instrutiva.
Dizem que, um belo dia, S. Pedro fechou a porta do céu por fora e veio dar umas voltas pelo mundo para ver como andavam as coisas por aqui. Parecia-lhe que estava chegando pouca gente ao céu e era preciso conhecer a causa dessa triste situação.
Terminado o seu inquérito, e achando mais prudente não conceder entrevista aos jornais bisbilhoteiros, dirigiu seus apressados passos lá para cima. Aconteceu, porém, que, ao chegar à porta do paraíso, meteu a mão nos bolsos e, ai! não encontrou mais a chave. Perdera-a e não sabia nem onde nem como. Que
fazer em tamanha aflição?
- Descerei de novo à terra, disse, e procurarei um bom serralheiro que me faça uma nova chave.
De fato, não custou a encontrar um muito entendido e, disse-lhe:
- Olhe, eu preciso com urgência de uma chave para abrir a porta do céu. Você pode fazê-la?
- Perfeitamente; mas custará mais, porque há de ser uma chave extraordinária.
- Que homens! disse consigo S. Pedro, nem para o céu fazem uma chave de graça!... Bem! Não há dúvida; vamos lá para cima.
Subiu o serralheiro ao céu e, orgulhoso de sua arte, examinou o modêlo, tirou as medidas e voltou à terra. Tomou dos instrumentos, talhou a chave, limou-a, poliu-a e, triunfante, apresentou-se à porta do céu. Mas, ai! a chave entrava no buraco da fechadura, dava voltas, mas... nada! não abria.
- Venha outro serralheiro, mas depressa, disse S. Pedro.
Chegou outro, mais presumido que o primeiro, fêz as mesmas manobras e . . . nada! a chave não abria.
Assim foram fracassando, uns após outros, todos os serralheiros.
Entretanto, as almas que vinham chegando, dos quatro cantos do mundo, começavam a impacientar-se, porque demorava muito a entrada no céu. S. Pedro suava frio, pois, por seu descuido, já ninguém podia entrar na glória. Por fim, uma humilde velhinha se ofereceu para abrir a porta.
- Bem. Experimente, vamos ver, disse S. Pedro.
E a velhinha,que, na terra, fôra devotíssima de Nossa Senhora, meteu a cruz de seu rosário na fechadura, deu meia volta à chave improvisada e a porta estava aberta.
- Bravo! Bravo! exclamaram todos, é o rosário de Nossa Senhora que nos abre o céu.
E lá entraram cheios de alegria e contentamento