28 de julho de 2013

DÉCIMO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

O Fariseu e o Publicano.

Duo homines ascenderunt in templum, ut orarent: unus pharisaeus et alter publicanus – "Subiram dois homens ao templo a· fazer oração; um fariseu e outro publicano" (Luc 18, 10).

Sumário. Da parábola do Evangelho de hoje bem se conclui que, se a virtude de humildade nos é necessária sempre em toda parte, ela nos é mais indispensável ainda na oração; e especialmente quando vamos à igreja, que é casa de oração. Quem não é humilde, não espere ser atendido, pois que o Senhor protesta que "o que se exalta, será humilhado". Lancemos um olhar sobre nós mesmos e, reprovando a altivez do fariseu, procuremos imitar sempre o procedimento tão humilde do publicano.

I. Eis aqui a bela parábola que Jesus Cristo propôs a uns que confiavam em si mesmos como se fossem justos e desprezavam os outros. "Subiram dois homens ao templo a fazer oração, um fariseu e outro publicano. O fariseu, em pé, orava, em seu interior, desta forma: Graças te dou, meu Deus, porque não sou como os demais homens, que são uns ladrões, uns injustos, uns adúlteros, nem como é este publicano. Jejuo duas vezes na semana; pago dízimo de tudo que tenho. O publicano, pelo contrário, posto lá de longe, não ousava nem sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Meu Deus, sê propício a mim, pecador. - Digo-vos que este voltou justificado para sua casa, e não o outro; porque todo o que se exalta será humilhado e todo o que se humilha, será exaltado: "Omnis qui se exaltat, humiliabitur; et qui se humiliat, exaltabitur."

Desta parábola, meu irmão, pode-se deduzir que, se a virtude da santa humildade nos é necessária sempre e em toda parte, ela nos é mais indispensável ainda quando dirigimos a Deus as nossas orações, e especialmente quando estamos na igreja, que é a Casa de oração. – Quem não é humilde, não espere ser atendido; porquanto Deus não pode suportar aqueles orgulhosos que confiam em suas próprias forças e se julgam melhores que os outros. Por isto, como escreve São Tiago (1), resiste aos pedidos dos orgulhosos, não os ouve, não os defere, antes os rejeita. Muitas vezes as próprias orações daqueles orgulhosos, segundo a expressão do Salmista, mudam-se em pecado: Et oratio fiat in peccatum (2) – "A sua oração se lhe impute a pecado".

Ao contrário, o Senhor não sabe desprezar um coração contrito e humilhado, ainda que no passado tenha sido grande pecador; para com este é liberal de suas graças. É-lhe, por assim dizer, impossível deixar de atendê-lo; pois que, como nos assegura o Eclesiástico: "A oração do humilde penetrará as nuvens e não se consolará enquanto não chegar até o Altíssimo e não se retirará até que o Senhor ponha nele os olhos." (3) - Numa palavra, assim conclui Santo Agostinho: Quando alguém se humilha, Deus lhe vai ao encontro para o abraçar; mas quando alguém se exalta e se gloria da sua sabedoria, das suas ações, Deus afasta-se dele e o abandona, de sorte que infalivelmente será humilhado.

II. Eis, pois, meu irmão, o que tens de fazer, se desejas que Deus atenda a teus pedidos, te perdoe as faltas cometidas e te faça sempre progredir mais no caminho da perfeição: Ao passo que reprovas o orgulho e a arrogância do fariseu, procura imitar a humildade do bom publicano, de quem fala a parábola do Evangelho,

Vê como ele fica, o mais possível, longe do altar: a longe stans, reconhecendo-se desta maneira indigno de estar na presença de Deus e na companhia de homens de bem. - O pejo que ele tem de seus pecados, confunde-o a ponto de nem sequer se atrever a levantar os olhos ao céu: Nolebat nec oculos ad coelum levare. Finalmente, batendo nos peitos em sinal de arrependimento, repete incessantemente: Meu Deus, tende piedade de mim, pecador; palavras estas que, em contraste com o fariseu, o fazem voltar para casa justificado: Descendit hic iustificatus in domum suam.

Por este exemplo deves modelar a tua oração afim de que seja aceita de Deus; com a única diferença, porém, de que, como o publicano, por temor reverencial, ficou longe do sagrado altar, assim, acedendo ao desejo de Jesus Cristo, te aproximes dele o mais possível, para receber a santa comunhão ou celebrar o sacrifício divino. Lembrado de tua indignidade, aproxima-te sempre, não só com amor, mas também com temor e tremor (4); admirando-te de como Deus se dignou de te admitir entre os convidados à sua mesa eucarística.

Quando tiveres recebido teu Senhor dentro de ti, humilha-te mais ainda na presença de sua Majestade divina e dize com o mesmo publicano: Ó Deus, sê propício a mim, pecador. – "Ó meu Deus, que manifestais a vossa onipotência particularmente em perdoar e usar de misericórdia, multiplicai sobre mim a vossa misericórdia, para que, atraído pelas vossas promessas, me façais participante dos bens celestes." (5) - Fazei-o pelo amor de Maria Santíssima.

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1. Iac. 4, 6.
2. Ps. 108, 7.
3. Ecclus. 35, 21.
4. Eph. 6, 5.
5. Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 303-306.)

DÉCIMO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

Inspiração e assistência

Nosso Senhor nos apresenta o contraste impressionante entre o fariseu orgulhoso e o publicano humilde.

O primeiro dá graças a Deus de ser melhor que os demais homens.

O segundo se reconhece como um pobre pecador e suplica a Deus que tenha misericórdia dele.

É a imagem do pecador orgulhoso e do justo humilde.

A Igreja tem por fim conduzir as almas a esta justiça e afastá-las do mal: é a sua missão divina.

Uma tal missão exige uma assistência divina, que não se deve confundir com: inspiração divina.

Já falamos da inspiração divina, dada por Deus aos profetas a aos Apóstolos; vamos agora tratar da assistência divina para melhor compreendermos a diferença entre o regime antigo e o novo, entre os princípios da Igreja e o seu governo atual.

Examinemos separadamente:

1. Em que consiste a inspiração;
2. Em que consiste a assistência.

A inspiração tinha por fim revelar novas verdades; a assistência tem por fim conservar e explicar as verdades reveladas.

I. A Inspiração

A inspiração é uma ação divina sobre a Escritura ou sobre o escritor; em virtude da qual a escritura tem o próprio Deus como autor.

A inspiração não é simplesmente passiva no sentido que Deus inspira ao escritor o desejo de escrever e o assiste para que não escreva erros, sem sugerir-lhe a verdade a escrever; mas ela é positiva, o que quer dizer que Deus inspira o escritor sacro a escrever, o ajuda enquanto escreve e lhe sugere o que deve escrever e como deve escrevê-lo.

Toda Escritura é divinamente inspirada, diz o Apóstolo. (II. Tim. III. 16)

Um simples raciocínio nos fará compreender isso.

Tudo o que deve ser crido de fé divina deve ser revelado por Deus;

Ora, toda a Sagrada Escritura deve ser crida de fé divina.

Logo, tudo nela é revelado por Deus.

Se a inspiração não fosse positiva, de fato, não existiria nenhuma diferença entre a Sagrada Escritura e as decisões da Igreja.

O Papa Leão XIII destacou bem esta verdade fundamental quando escreveu:

“O Espírito Santo, pela sua virtude sobrenatural, excitou e moveu os Escritores Sacros e os assistiu de tal modo, que lhes inspirou a idéia de escrever; estes escreveram exatamente e expressaram com infalível verdade o que Ele ordenou. Se assim não fosse, o Espírito Santo não seria o autor da Sagrada Escritura inteira”. (Encicl.: De studiis scrip. sacr.)

É provável que a inspiração se estenda até aos pormenores e a cada uma das palavras do texto sagrado e não somente aos objetos que dizem respeito a fé ou a moral, como pretendiam os modernistas.

Sendo, pois, a Sagrada Escritura revelada em seus pormenores, e até em cada uma das suas palavras, é claro que nenhum erro pode se encontrar na Bíblia, pois este erro deveria ser atribuído ao inspirador: o próprio Espírito Santo.

O período de inspiração durou 4000 anos, da primeira linha do Gênesis, até a última do Apocalipse.

Todo o Antigo Testamento foi época de inspiração.

O Novo Testamento o foi desde Jesus Cristo até a última frase do Apocalipse.

O vidente de Patmos parece tomar em suas mãos trêmulas de ancião, com perto de 100 anos de idade... de último dos Apóstolos... de último testemunho de Jesus Cristo na terra, os 72 livros inspirados, encerrando a época da inspiração com esta frase sublime a coroar a grande obra divina:

O que da testemunho destas coisas diz: sim, vem depressa: Amém. Vem Senhor Jesus! A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Amém. (Ap. XXII, 20, 21)

É a chave de ouro a fechar o ciclo de 4000 anos de inspiração!

Encerrando a época da inspiração, Deus não quis fazer-nos entender que nada mais tem a comunicar-nos.

Deus é infinito; e o homem é incapaz de conter o infinito de Deus. Deus não se esgotou, mas disse tudo o que tinha de dizer, o que quis dizer e o que nos era necessário.

II. A assistência

À dinastia dos inspirados, que ensinaram aos homens verdades novas, ainda não reveladas, sucede a dinastia dos Assistidos, que nada ensinam de novo, mas que guardam o que foi ensinado.

Esta dinastia é a dos Papas de Roma; centro vivo da Igreja Católica.

Quando Jesus Cristo disse aos Apóstolos: Ide, ensinai a todos os povos, ensinando-os a observar as coisas que vos mandei; (Matheus XXVIII, 19), Ele lhes comunicou nesta ordem a inspiração e a assistência.

A inspiração refere-se à sua pessoa de Apóstolos, é um privilégio pessoal, que os faz, a cada um em particular, infalíveis na revelação da doutrina. Esta inspiração, porém, limitou-se a eles e não foi transmitida a seus sucessores, os Bispos.

Nenhum dos Bispos, nem o próprio Papa, goza da inspiração divina. O que a Igreja recebeu e herdou dos Apóstolos é a assistência divina; é por isso que Jesus Cristo completou a ordem de ensinar com estas palavras: Eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos. É a assistência necessária para interpretar, explicar e aplicar o depósito da verdade divina.

A verdade não é um diamante que se esconde: é uma luz que deve iluminar.

Vós sois a luz do mundo!

Sendo a luz das inteligências, a verdade deve penetrar estas inteligências, para o que, duas coisas são necessárias: compreender e interpretar a palavra divina.

Compreender; pois toda Escritura tem necessariamente as suas obscuridades.

Por mais claro e metódico que seja um escritor, ele não é compreendido por todos os seus leitores, pela razão muito simples que o leitor devia estar no mesmo nível intelectual que o escritor para compreender toda a extensão de seu pensamento; sendo-lhe inferior, haverá necessariamente coisas que o escritor compreende bem, procura fazer compreender bem, mas que o leitor não entende.

Uma perfeita compreensão entre escritor e leitor, supõe uma igualdade intelectual.

Ora, a Sagrada Escritura é a palavra da inteligência divina, que supera infinitamente a inteligência humana.

Logo, há e deve haver obscuridades na Sagrada Escritura: não na palavra divina como tal, mas na inteligência do homem.

É o que fez dizer a São Pedro, falando das Epistolas de São Paulo: Há algumas coisas difíceis de entender que os indoutos, inconstantes adulteram, para a sua própria perdição. (2 Pet. III. 16)

A Igreja, encarregada de conservar e interpretar a palavra divina deve, pois, compreendê-la perfeitamente, infalivelmente, e para isso ela precisa da assistência divina: Eis que estou convosco até a consumação dos séculos.

III. Conclusão

Compreendemos agora a distinção tão simples e tão fecunda entre: inspiração e assistência. A confusão destes dois termos é a base das objeções que os protestantes formulam contra a infalibilidade do Papa.

Julgam que o Papa, que a Sagrada Escritura, a tradição e a razão proclamam infalível, é um homem inspirado por Deus, quando é apenas um homem assistido por Deus.

Cada protestante diz-se assistido por Deus na interpretação da Bíblia; só o Papa não o é: Vê-se logo o absurdo da asserção.

Esta distinção nos prepara ao estudo da infalibilidade e nos dá, desde já, a solução do problema.

O plano divino é admirável e lógico. S. João ao terminar o Apocalipse indica claramente o papel da Igreja na interpretação da Sagrada Escritura.

Eu protesto, diz ele, a todos os que virem as palavras da profecia deste livro, que se alguém lhes juntar alguma coisa, Deus o castigará com as pragas escritas neste livro." (Apocalipse, XXII. 18).

Vê-se claramente que nada de novo pode ser introduzido: a inspiração está encerrada; o que se deve fazer agora é guardar, interpretar e aplicar a palavra divina pela, assistência do Espírito Santo. S. João diz à Igreja: Guardai este depósito - depositum custodi - Jesus acrescenta: Eu estou convosco até a consumação dos séculos. Eu confio a minha doutrina a Pedro... e tu, Pedro, confirma os teus irmãos na fé, na doutrina, na virtude.

EXEMPLO

A perpetuidade da Igreja

O destino das dinastias humanas é nascer, desabrochar e murchar. Filhas do trabalho que são, elas vivem um momento e tombam para sempre no pó.

Para assegurar a sua duração, cercam-nas de garantias, decretam leis de hereditariedade dos tronos, prevêem minoridades e regências... Aqui, consagram os monarcas; acolá, chamam-se as nações a ratificarem num escrutínio universal a fundação de um Império; e todos aplaudem-se de terem feito uma obra imortal... e eis que o tempo a derruba de repente, quando menos o pensam.

Mas há uma dinastia de Príncipes eletivos, cujo número está em 263, e que, ela só, conta mais membros do que todas as dinastias reunidas que hoje reinam no mundo inteiro.

Esta dinastia despreza o exílio, pois todos os Papas voltam para Roma, mortos ou vivos!

Esta dinastia despreza a morte, pois o Papa morrendo, tem a certeza de ter o seu sucessor!

Esta dinastia resiste às vicissitudes, pois ela dura tanto que o tempo, e se o tempo perdurasse ainda séculos e séculos, o último Papa seria, tão bem que o segundo, e com cem mil anos de intervalo, o Sucessor certo, legitimo e reconhecido de São Pedro!

Um dia a Cúpula do Kremlin ruirá, as torres de Notre Dame abismar-se-ão na voragem, o pescador do Tamisa amarrará a sua barca a qualquer arco, ao pé das ruínas de São Paulo...

De todas as catedrais do mundo, somente São Pedro de Roma ainda ficará em pé, Roma será ainda do Papa! O Papa, o único sobrevivente a todas as dinastias de hoje estará ainda em Roma.

Os Bossuet destes tempos remotos dirão como o do século de Luiz, o grande: “Ó Santa Igreja Romana, se eu me esquecer de ti, apegue-se a minha língua à boca; paralise-se a minha destra, se tu não fores o objeto dominante de meus pensamentos e o centro das minhas afeições!” '

Ignoro quais serão os povos que dominarão então o mundo; quaisquer que sejam porém, os seus interesses políticos, a sua língua, a cor e os traços da sua raça, afirmo que sempre haverá entre eles um interesse comum, um amor comum: o amor à Sede apostólica, à língua da Igreja!

Uns segundos serão suficientes à telegrafia aperfeiçoada para levar a todos os recantos do universo as bênçãos do Pai comum de todos os fiéis e para trazer a este Pai comum os agradecimentos de todos os fiéis!

E, quando na solenidade da Páscoa ou da Ascensão, o Pontífice destes séculos futuros estender os dois braços sobre o seu rebanho inteiro, espargindo a palavra além dos mares e dos oceanos, nas igrejas onde a centelha elétrica fizer tremular, ao mesmo tempo, o mesmo nome e a mesma prece de todas as igrejas abençoadas pela mesma mão, levantar-se-à para Roma, para Pedro, uma torrente de ação de graças, em que se ouvirão, através das diversidades dos idiomas, estas palavras do Concilio de Nicéia: Credo in unam Catholicam et Apostolicam Ecclesiam. (Mons. Besson)

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(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 288 – 295)

Tesouro de Exemplos - Parte 345

S. Tomás Moro disse muitas vêzes a um libertino: "Muda de vida, que já é tempo!" e o outro respondia: "Não temas, amigo, em caso de morte repentina tenho esta jaculatória: Perdão, Senhor!"
Uma vez ao passar a cavalo a ponte do rio Tâmisa, o cavalo empacou e atirou o infeliz ao rio, onde, não sabendo nadar, pereceu afogado. Os amigos, que o acompanhavam, ouviram-lhe as últimas palavras, que, por certo, não eram uma jaculatória, mas uma blasfêmia. Dirigindo-se ao cavalo disse: "Que o diabo te carregue a ti e a mim!"
Com Deus não se brinca impunemente, diz S. Paulo. Por isso é temerário pretender na hora da morte aquela graça que agora repeles e desprezas.

27 de julho de 2013

Imitação de Cristo - Livro 1 Capítulo 6

CAPÍTULO 6

Das afeições desordenadas

1. Todas as vezes que o homem deseja alguma coisa desordenadamente, torna-se logo inquieto. O soberbo e o avarento nunca sossegam; entretanto, o pobre e o humilde de espírito vivem em muita paz. O homem que não é perfeitamente mortificado facilmente é tentado e vencido, até em coisas pequenas e insignificantes. O homem espiritual, ainda um tanto carnal e propenso à sensualidade, só a muito custo poderá desprender-se de todos os desejos terrenos. Daí a sua freqüente tristeza, quando deles se abstém, e fácil irritação, quando alguém o contraria.
2. Se, porém, alcança o que desejava, sente logo o remorso da consciência, porque obedeceu à sua paixão, que nada vale para alcançar a paz que almejava. Em resistir, pois, às paixões, se acha a verdadeira paz do coração, e não em segui-las. Não há, portanto, paz no coração do homem carnal, nem no do homem entregue às coisas exteriores, mas somente no daquele que é fervoroso e espiritual.

Maria Santíssima é o refúgio dos pecadores.

Convenite et ingrediamur civitatem munitam; et sileamus ibi — “Ajuntai-vos, e entremos na cidade fortificada, e guardemos aí silêncio” (Ier. 8, 14).

Sumário. Nas cidades antigas de refúgio, não achavam abrigo todos os delinqüentes, nem para toda a espécie de delitos. Mas debaixo do manto da proteção de Maria, todo o pecador acha refúgio, seja qual for o crime cometido; porquanto foi esta a vontade de Deus constituindo-a Refúgio dos pecadores. Não desanimemos, pois, meu irmão; mas, seja qual for o nosso estado, chamemos a divina Mãe em nosso auxílio e acha-la-emos sempre pronta a ajudar-nos em todas as necessidades. Invoquemo-la especialmente sob o título que ela preza tanto, de Mãe do Perpétuo Socorro.

I. Um dos títulos com que a santa Igreja nos manda recorrer a Maria, e que mais anima os pobres pecadores, é o titulo de Refúgio dos pecadores. Antigamente havia na Judéia umas cidades de refúgio, aonde iam parar os delinqüentes para ficarem livres do castigo que mereciam. Agora não há tantas cidades de refúgio como então, mas há uma só, que é Maria, da qual está escrito: Gloriosa dicta sunt de te, civitas Dei (1) — “Coisas gloriosas se têm dito de ti, ó cidade de Deus”. Há, porém, uma diferença. Nas cidades antigas não havia refúgio para todos os delinqüentes, nem para toda a espécie de delitos; mas, debaixo do manto de Maria todos os pecadores acham refúgio; seja qual for o delito que hajam cometido: basta que a ela recorram para se refugiarem. Pelo que São João Damasceno a faz dizer: “Eu sou a cidade de refúgio para todos aqueles que vêm a mim.” O Bem-aventurado Alberto Magno aplica à Virgem Maria estas palavras de Jeremias: Ajuntai-vos, e entremos na cidade fortificada.

Logo que alguém entrar nesta cidade mística, recuperará a graça divina. Nem sequer lhe é preciso falar para ser salvo. Et sileamus ibi — “Guardemos aí silêncio”. Sim, porque a Virgem piedosa, vendo-nos sem ânimo de pedir ao Senhor, falará por nós, e tão eficazmente, que, conforme a revelação de Jesus Cristo à Santa Brígida, ela obteria o perdão mesmo para Lúcifer, se (coisa aliás impossível) o espírito orgulhoso se humilhasse a pedir-lhe proteção.

Numa palavra, conclui São Bernardo, que Maria não tem horror de qualquer pecador, por imundo e abominável que seja. Contanto que recorra a Maria e lhe implore misericórdia, ela, o Refúgio dos pecadores, não hesitará em lhe dar a mão piedosa, afim de o arrancar do fundo da desesperação. Oh! seja sempre bendito e louvado nosso Deus, que nos deu uma Mãe tão doce e tão benigna. — ó Maria, infeliz de quem não vos ama! Infeliz de quem não recorre a vós, não confia em vós.

II. Meu irmão, seja qual for o estado da tua alma, ouve como São Basílio te anima: “Não desanimes”, diz o Santo, “mas em todas as tuas necessidades recorre a Maria; chama-a em teu auxílio, sempre a acharás pronta a te socorrer; pois que é esta a vontade de Deus, que ela socorra a todos e em todas as necessidades.

Invoca-a especialmente sob o título que lhe é tão caro, o de Mãe do Perpétuo Socorro. — Esta Mãe de misericórdia tem tão grande desejo de salvar os pecadores mais perdidos, que ela mesma os vai procurando para os auxiliar. Quanto mais, portanto, não auxiliará aos que a ela recorrem! Só se perde quem não recorre a Maria; mas quem jamais se perdeu depois de ter recorrido a ela e posto nela a sua confiança?

Ó Mãe do Perpétuo Socorro, eis aqui a vossos pés um pobre pecador, que recorre a vós e em vós confia, ó Mãe de misericórdia, compadecei-vos de mim. Eu ouço como todos vos chamam refúgio e esperança dos pecadores; sede, pois, meu refúgio e esperança minha. Socorrei-me pelo amor de Jesus Cristo; estendei a mão a um pobre pecador que se vos recomenda e para sempre se consagra ao vosso serviço. Eu dou graças e louvores a Deus, que na sua misericórdia me inspirou esta confiança em vós, a qual eu considero como penhor da minha eterna salvação. Se até agora tantas vezes tenho caído, foi por não ter recorrido a vós. Sei que por meio do vosso auxílio vencerei, e também que vós me acudireis, sempre que vos invocar; mas o que temo é esquecer-me de vós nas ocasiões do pecado, e assim me perder. Eis, pois, a graça que vos peço e encarecidamente vos suplico, de recorrer sempre a vós em todos os assaltos do inferno, dizendo: Ó Maria, valei-me; ó Mãe do perpétuo socorro, não permitais que eu perca a meu Deus (2). (*I 57.)

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1. Ps. 86, 3.
2. Indulgência de 100 dias.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Segundo: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 301-303.)

Tesouro de Exemplos - Parte 344

BATISMO DE SANGUE

S. Emerenciana, ainda catecúmena, (portanto, ainda não batizada), ia orar junto ao sepulcro de S. Inês. Ali a encontraram os pagãos e a mataram a pedradas. Pelo batismo de sangue voou para o céu, e a Igreja venera-a como mártir, isto é, como santa.

26 de julho de 2013

Imitação de Cristo - Livro 1 Capítulo 5

CAPÍTULO 5

Da leitura das Sagradas Escrituras

1. Nas Sagradas Escrituras devemos buscar a verdade, e não a eloquência. Todo livro sagrado deve ser lido com o mesmo espírito que o ditou. Nas Escrituras devemos antes buscar nosso proveito que a sutileza da linguagem. Tão grata nos deve ser a leitura dos livros simples e piedosos, como a dos sublimes e profundos. Não te mova a autoridade do escritor, se é ou não de grandes conhecimentos literários; ao contrário, lê com puro amor a verdade. Não procures saber quem o disse; mas considera o que se diz.
2. Os homens passam, mas a verdade do Senhor permanece eternamente (Sl 116,2). De vários modos nos fala Deus, sem acepção de pessoa. A nossa curiosidade nos embaraça, muitas vezes, na leitura das Escrituras; porque queremos compreender e discutir o que se devia passar singelamente. Se queres tirar proveito, lê com humildade, simplicidade e fé, sem cuidar jamais do renome de letrado. Pergunta de boa vontade e ouve calado as palavras dos santos; nem te desagradem as sentenças dos velhos, porque eles não falam sem razão.

Tesouro de Exemplos - Parte 343

AMOR AOS INIMIGOS

O arcebispo de Paris, Mons. Darboy, prêso e injustamente condenado a ser fuzilado pelos revolucionários de 1870, enquanto aquêles desumanos lhe apontavam contra o peito os fuzis, gritou: "Meus filhos, esperai um momento, que pela última vez vou dar-vos a bênção pastoral". Ainda estava dando a bênção, quando uma descarga prostrou por terra o bondoso arcebispo.