19 de junho de 2013

Dano que causa aos religiosos a tibieza.

Qui spernit modica, paulatim decidet – “Quem despreza as coisas pequenas, pouco a pouco cairá” (Ecclus. 19, 1).

Sumário. São infelizes os religiosos que, sendo chamados à perfeição, fazem as pazes com as suas faltas. Nunca se santificarão e correm mesmo grande risco de se condenarem; porquanto o Senhor ameaça vomitá-los de sua boca e abandoná-los, permitindo que das faltas leves passem às faltas graves e à perda da graça divina e da vocação. Oh! Quantos destes infelizes estão agora queimando no inferno! Meu irmão, põe a mão na tua consciência. És tu porventura uma dessas almas tíbias e imperfeitas?

I. Considera a miséria do religioso que, depois de ter deixado a pátria, os parentes e o mundo com todos os seus prazeres, e depois de se ter dado a Jesus Cristo, consagrando-lhe a sua vontade, a sua liberdade e a si próprio, se expõe em seguida ao perigo de condenação, por ter caído numa vida tíbia e negligente. Não, não está longe de se perder o religioso tíbio, que foi chamado por Deus à sua casa para se fazer santo. Deus ameaça vomitá-lo e abandoná-lo, se não se emenda: Sed quia tepidus es, incipiam te evomere (2). – Santo Inácio de Loyola, vendo um irmão leigo da sua Companhia tépido no serviço de Deus, chamou-o um dia e disse:

- Irmão, dize-me, que vieste fazer na religião?
- Eu vim servir a Deus, - respondeu.
- Ó irmão -, replicou o Santo, - se me tivesses dito que vieste servir a um cardeal, a um príncipe da terra, terias alguma desculpa; mas disseste que vieste servir a Deus, e é assim que o serves?

Diz o Padre Nieremberg que alguns são chamados por Deus a salvar-se unicamente como santos, de modo que, se depois não tratarem de se fazer santos, e quiserem salvar-se como imperfeitos, nem mesmo se salvarão. E Santo Agostinho acrescenta que estes ordinariamente ficam depois abandonados de Deus, que permite que das faltas leves passem depois às graves e à perda da graça divina e da vocação. – Santa Teresa de Jesus viu o lugar para ela preparado no inferno, se não se desprendesse de um afeto terreno, bem que não gravemente culpável. Qui spernit modica, paulatim decidet (3) – “Quem despreza as coisas pequenas, pouco a pouco cairá”.

Muitos querem seguir Jesus Cristo, mas de longe, como fez São Pedro, que, na prisão de Jesus no horto, o seguia de longe, diz São Matheus: Sequebatur eum a longe (4). Mas assim fazendo, facilmente lhes acontecerá o que aconteceu a São Pedro, que, depois exposto à ocasião, negou a Jesus Cristo. – O tíbio se contentará com o pouco que faz por Deus; mas não se dará por contente o Senhor, que o chamará à vida perfeita; e em castigo da ingratidão, não só o privará dos favores especiais, mas permitirá às vezes a perdição do tíbio. Ubi dixisti sufficit, ibi periisti! (5) – “Quando disseste: basta, começou a tua perdição”. A figueira do Evangelho foi destinada ao fogo somente porque não produzia fruto.

II. Desgraçado do religioso que, chamado à perfeição, faz as pazes com seus defeitos! Enquanto alguém detesta as suas imperfeições, há esperança dele se fazer santo; mas quando comete faltas e as despreza, então, diz São Bernardo, está perdida a esperança. Qui parce seminat, parce et metet (6) – “Quem semeia pouco, pouco colherá”. Para fazer um santo, não bastam as graças ordinárias; mas são precisas as extraordinárias. Como há de ser liberal o Senhor com os favores para com aquele que lhe regateia o seu amor? – De mais, para a santidade precisa-se de ânimo e força para vencer todas as repugnâncias; “e não julgue alguém”, diz São Bernardo, “que poderá chegar à perfeição, se não se tornar singular entre os outros na prática das virtudes: Perfectum non potest esse nisi singulare”.

Meu irmão, reflete aqui: para que deixaste o mundo e tudo o mais: para te fazer santo. Mas a vida assim tíbia e imperfeita que levas, será ela o caminho para a santidade? Santa Teresa animava suas filhas, dizendo-lhes: “Irmãs, tendes feito o mais; só vos resta a fazer o menos para serdes santas.” O mesmo te digo a ti: Já tens talvez feito o mais: deixaste a pátria, a casa, os parentes, os bens, os divertimentos; resta fazer o menos, para te fazer santo; faze-o.

Ah, meu Deus, não me vomiteis de vossa boca, embora o mereça, porque quero emendar-me. Reconheço que a minha vida assim descuidada não Vos pode contentar; reconheço que eu mesmo, com a minha tibieza, fecho a porta a tantas graças que desejareis conceder-me. Senhor, não me abandoneis ainda; continuai a usar comigo de piedade, já que quero levantar-me de tão miserável estado. Para o futuro quero estar mais atento em vencer as minhas paixões, em seguir as vossas inspirações, em não deixar por preguiça os meus deveres, senão cumpri-los com mais diligência. Quero, em suma, de hoje em diante, fazer quanto possa para Vos agradar; não quero descuidar-me de coisa alguma que eu saiba ser do vosso gosto.

Vós, ó meu Jesus, tendes sido tão generoso comigo em conceder-me tantas graças e de boa vontade destes por mim vosso sangue e a vida. Não é justo que eu continue a ser reservado para convosco. Vós mereceis toda a honra, todo o amor; mereceis que se sofra com alegria toda a pena, todo o trabalho para Vos agradar. Mas, meu Redentor, conheceis a minha fraqueza, ajudai-me com a vossa poderosa mão; em Vós confio. – Imaculada Virgem Maria, vós, que me ajudastes a deixar o mundo, ajudai-me a me vencer a mim mesmo e a me fazer santo. Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo. (IV 421.)

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1. Apoc. 3, 16.
2. Ecclus. 19, 1.
3. Matth. 26, 58.
4. S. Agostinho
5. 2 Cor. 9, 6.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 203-206.)

18 de junho de 2013

A sentença da alma culpada no juízo particular.

Discedite a me, maledicti, in ignem aeternum, qui paratus est diabolô et angelis eius – “Apartai-vos de mim, malditos para o fogo eterno, que está aparelhado para o diabo e os seus anjos” (Matth. 25, 41).

Sumário. Desgraçada da alma cuja vida no juízo não for achada conforme à de Jesus Cristo! Sem demora, o divino Juiz pronunciará contra ela a sentença de condenação eterna – Aparta-te de mim, maldita, para ires arder eternamente no fogo. Meu irmão, agora vivemos em segurança e com indiferença ouvimos falar do juízo; mas quantos há que assim viveram e agora estão no inferno! E quem nos assegura que o mesmo não sucederá conosco? Se a morte nos surpreendesse na primeira noite, qual seria a nossa sentença?

I. Desgraçada da alma cuja vida no juízo não for achada conforme à de Jesus Cristo! Tendo um dos cortesãos de Filipe II dito uma mentira a seu amo, este o repreendeu dizendo: “É assim que me enganas?” O desgraçado, ao voltar à casa, morreu de pesar. Que fará pois, que responderá o pecador a Jesus Cristo, seu Juiz?... Fará como aquele homem do Evangelho que, apresentando-se no banquete nupcial sem o vestido conveniente, se calou, não sabendo que responder: At ille obmutuit (1). O próprio pecado lhe fechará a boa e o cobrirá de tal forma de vergonha, que, no dizer de São Basílio, a confusão será então para o pecador um tormento mais horrível que o fogo do inferno.

O divino Juiz pronunciará sem demora a sentença inapelável: Discedite a me, maledicti, in ignem aeternum – “Aparta-te de mim, maldito, e vai arder para sempre no fogo eterno.” Oh, que voz aterradora será esta! Santo Anselmo diz que, “quem não treme a uma voz tão terrível, não dorme, mas está morto”. E Eusébio acrescenta que “tamanho será o espanto dos pecadores ao ouvirem a sua condenação, que morreriam de novo, se pudessem morrer outra vez”.

Então já não há suplicar, já não há recorrer a intercessores. Com efeito, a quem recorrerão? Pergunta São Basílio. Porventura a Deus, a quem desprezaram? Aos Santos? Ou a Maria? Não, pois que então as estrelas, que são os Santos, nossos advogados, cairão do céu; e a lua, quer dizer Maria, perderá a sua luz (2). Diz Santo Agostinho: Maria fugirá da porta do paraíso. – Ó Deus, exclama Santo Tomás de Vilanova, com que indiferença ouvimos falar do juízo, como se não pudesse ser nossa a sentença de condenação, ou como se não tivéssemos de ser julgados! Oh! Que demência é viver seguro em tamanho perigo! Se a morte nos colhesse neste instante, que sorte havia de ser a nossa?

II. Meu irmão, assim te avisa Santo Agostinho, não digas: É possível que Deus me queira mandar ao inferno? Não fales assim, diz o Santo, porque tantos réprobos não pensavam que seriam lançados ao inferno; mas afinal veio a hora do castigo: Finis venit, venit finis; ... nunc complebo furorem meum in te, et iudicabo (3) – “O fim vem, vem o fim; ... agora satisfarei em ti o meu furor e te julgarei”. – Como observa São Boaventura, devemos imitar os negociantes prudentes que, para não abrirem falência, revistam e ajustam muitas vezes as contas. Devemos, acrescenta Santo Agostinho, ajustar as contas antes do juízo, porque agora podemos aplacar o juiz, mas não na hora do juízo. Devemos, numa palavra, dizer com São Bernardo: Meu divino Juiz, quero que me julgueis e me castigueis agora durante a vida, porque ainda é tempo de misericórdia e me podeis perdoar, mas, depois da morte, é só tempo de justiça: Volo indicatus praesentari, non iudicandus.

O meu Deus, reconheço, que se agora Vos não aplaco, não terei então tempo para Vos aplacar. Como, porém, Vos aplacarei eu, que tantas vezes desprezei a vossa amizade, por miseráveis prazeres? Paguei com ingratidão o vosso amor infinito. Como pode uma criatura satisfazer dignamente pelas ofensas feitas a seu Criador? Meu Senhor, graças Vos dou que a vossa misericórdia me forneceu o meio de Vos aplacar e satisfazer. Ofereço-Vos o sangue e a morte de Jesus, vosso Filho, e desde já vejo tranquilizada e superabundantemente satisfeita a vossa justiça. É preciso, porém, ajuntar a isso o meu arrependimento. Ah! Sim, meu Deus, de todo o coração me arrependo de todas as injúrias que Vos fiz.

Julgai-me agora, ó meu Redentor. Detesto, mais que todos os males, os desgostos que Vos dei. Amo-Vos sobre todas as coisas, de todo o meu coração, e proponho amar-Vos sempre e antes morrer que ofender-Vos. Prometestes perdoar a quem se arrepende; pois bem julgai-me agora e perdoai-me os meus pecados. Aceito a pena que mereço; mas restabelecei-me na vossa graça, e conservai-me nela até à morte. Assim espero. – Ó Maria, minha Mãe, agradeço-Vos tantas misericórdias que me impetrastes; dignai-vos continuar a proteger-me até o fim. (*II 111.)

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1. Matth. 22, 12.
2. Matth. 24, 29.
3. Ez. 7, 6et 8.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 201-203.)

17 de junho de 2013

O desprezo do tempo e a hora da morte.

Vocavit adversum me tempus – “Chamou contra mim o tempo” (Thren. 1, 15).

Sumário. Grande é a tristeza do viajante ao ver que errou o caminho quando já caiu a noite e não há tempo para reparar o engano. Incomparavelmente maior será, na hora da morte, a tua mágoa, meu irmão, se em via não tiveres aproveitado o tempo, ou, pior ainda, tivesses dele abusado para ofenderes ao Senhor. Como fui insensato! – dirias então chorando. – Ó vida perdida! Em tantos anos, com tão grandes graças podia santificar-me e não o fiz... De que servirão então estas lamentações, quando a cena já estiver no fim e se aproximar o grande momento de que depende a eternidade?

I. Nada há mais precioso que o tempo; e nada há que seja menos estimado e mais desprezado pelos mundanos. É o que fazia São Bernardo chorar: Nihil pretiosius tempore, sed nihil vilius aestimatur. Depois ele acrescenta: Transeunt dies salutis – Passam os dias oportunos para adquirir a salvação eterna e ninguém reflete que os dias que passam lhe são descontados para nunca mais voltarem. – Vê o jogador que gasta dias e noites no jogo. Se lhe perguntares: “Que estás fazendo?” responderá: “Estou passando o tempo.” – Vê o ocioso que se entretem horas inteiras nas ruas, a ver quem passa, ou as desperdiça em conversas indecentes ou inúteis. Se lhe perguntares: “Que estás fazendo?” responder-te-á igualmente: “Procuro passar o tempo.” Pobres cegos, que desperdiçam tantos dias que não voltam mais!

Desdenhado tempo! Tu serás o que os mundanos desejarão mais na hora da morte. Desejarão então mais um ano, mais um mês, mais um dia, mas não o terão, e ouvirão dizer: Tempus non erit amplius (1) – “Não haverá mais tempo”. Quanto não daria então cada um deles para ter mais uma semana, um dia, afim de melhor ajustar as contas da consciência? Ainda que não fosse senão para obter uma só hora, diz São Lourenço Justiniano, ele daria todos os seus bens: Erogaret opes, honores, delicias pro uma horula. Mas essa hora não lhe será dada.

- Apressa-te, lhe dirá o sacerdote que o estiver assistindo, - apressa-te em partir deste mundo; não há mais tempo para ti: Proficiscere, anima christiana, de hoc mundo.

Ó meu Deus, dou-Vos graças por me concederdes o tempo para chorar os meus pecados e compensar pelo meu amor as ofensas que Vos fiz. Ai de mim! Que seria de minha alma, se me viessem agora anunciar a chegada de minha morte!

II. Exorta-nos o Sábio a que nos lembremos de Deus e entremos em sua graça, antes que se nos apague a luz: Memento Creatoris tui, antequam tenebrescat sol et lumen (2). Que tristeza para um viajante o ver que errou o caminho quando já está cabida a noite e não há tempo para reparar o engano! Tal será, na morte, a mágoa de quem tiver vivido muitos anos no mundo sem os empregar no serviço de Deus.

A consciência recordará então àquele homem descuidado o tempo que teve e que empregou em prejuízo da sua alma: todos os convites, todas as graças que recebeu de Deus para se santificar e de que se não quis aproveitar. Depois verá que lhe faltam os meios de fazer qualquer bem. Exclamará gemendo: - Como fui insensato! Ó tempo perdido! Ó vida perdida! Ó anos perdidos, durante os quais me podia santificar e não o fiz! Agora já não é tempo de o fazer... De que servirão, porém, estas lamentações e suspiros, quando a cena já está no fim, quando a lâmpada está próxima a apagar-se e quando o mundo está próximo do momento terrível de que depende a eternidade?

Apressai-Vos, ó meu Jesus, apressai-Vos a me perdoar. Que hei de esperar? Esperarei porventura até chegar ao cárcere eterno, onde com os outros réprobos teria de lamentar eternamente, dizendo: Finita est aestas (3) – “Findou-se o estio?” Passou o tempo, e nós não nos salvámos! Não, meu Senhor, não quero mais resistir a vosso amoroso convite. Quem sabe se a presente meditação não é o último aviso que me dirigis? Ó soberano Bem, pesa-me de Vos haver ofendido e Vos consagro todo o tempo de vida que me resta. Não Vos quero mais causar desgostos; quero Vos amar sempre. Prometo-Vos que, cada vez que disto me lembrar, farei um ato de amor, afim de remir o tempo perdido. Dai-me a santa perseverança. Doce Coração de Maria, sêde minha salvação. (*II 51.)

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1. Apoc. 10, 6.
2. Eccles. 12, 1 et 2.
3. Jer. 8, 20.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 198-201.)

16 de junho de 2013

QUARTO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES.

A pesca milagrosa e o ministério apostólico.

Noli timere: ex hoc iam homines eris capiens – "Não temas; já desde agora serás pescador de homens (Luc. 5, 10).

Sumário. Sob a figura da pesca milagrosa, é representada a pregação do Evangelho, pela qual o Senhor converte e santifica as almas por ele remidas. Os pescadores, porém, não são somente os pregadores, senão também todos os bons cristãos, que de qualquer modo se aplicam à salvação das almas. Seja, portanto, qual for o nosso estado, podemos exercer o ministério apostólico, ao menos pela oração e pelo bom exemplo. Roguemos sobretudo ao Senhor que envie à sua igreja operários zelosos: Mitte operarios in messem tuam.

I. Refere São Lucas que, estando Jesus nas margens do lago de Genesaré e vendo que as turbas vinham em tropel sobre Ele, entrou na barca de Simão, rogou-lhe que a afastasse um pouco da terra e começou a pregar de dentro da barca. Tanto que cessou de falar, ordenou a Simão que se fizesse ao largo e deitasse as redes para a pesca.

"Mestre", respondeu-lhe Simão, "trabalhando toda noite nenhuma coisa apanhamos; porém sobre a tua palavra deitarei a rede". E tendo feito isto, apanhara tão grande quantidade de peixes que encheram duas barcas. E São Pedro, vendo isto, lançou-se aos pés do Redentor dizendo: "Retira-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador". E Jesus disse: "Não temas; Já desde agora serás pescador de homens": Ex hoc iam homines eris capiens.

Explica Santo Ambrósio, e está mesmo claro no Evangelho, que sob a figura das redes e da pesca milagrosa são representadas "as palavras da verdade, que são, por assim dizer, a textura das pregações evangélicas". Os pescadores são todos os pregadores e especialmente os missionários de que o Senhor se serve para a conversão de populações inteiras e santificação de milhares de almas.

Meu irmão, se tu também és um desses instrumentos escolhidos para promover a glória divina, dá graças ao Senhor; e em deitando as tuas redes, imita a São Pedro, reconhece a própria incapacidade e confia no auxílio de Deus.... "Vê", diz o mesmo Santo Ambrósio, "quanto é vã e infrutuosa a confiança temerária nas próprias forças e quão eficaz é, ao contrário, a humildade. Os que primeiro tinham trabalhado em vão, depois, sobre a palavra de Jesus Cristo, encheram suas redes de peixes".

Se o Senhor não te chamou ao ministério apostólico, aproveita-te ao menos da palavra de Deus pregada pelos sacerdotes: estima e reverencia a sua alta dignidade e pede a Jesus Cristo queira aumentar em sua Igreja o número dos ministros zelosos: Mittati operarios in messem suam. (1)

II. Posto que os pescadores de almas sejam principalmente os pregadores e os missionários, não o são, porém, estes só. São-no igualmente todos os bons cristãos, que de qualquer modo promovem o bem espiritual do próximo. Seja qual for o teu estado, podes fazer-te pescador de almas. Podes sê-lo, ajudando teus irmãos com exortações, com conselhos, com o bom exemplo e mais ainda com a oração feita por eles. Quem trata com os próprios pecadores sobre a sua conversão, trabalha às vezes em vão; mas quem trata da conversão dos pecadores com Deus, alcança-a sempre, contanto que o faça assim como se deve. Oh! quantas almas se convertem, não tanto pela pregação dos sacerdotes, como pelas orações dos justos – Figura-te, pois, que Jesus Cristo te diz o que disse a São Pedro: "Faze-te ao largo e deita as tuas redes para a pesca".

Ó Salvador do mundo, ó Cordeiro divino, Vós que à força de dores perdestes a vida sobre a cruz para salvação de todos os homens, por piedade, tende compaixão de nós, e socorrei-nos no meio de tantos perigos de perdição eterna. Ó céus! De todos os que professam a verdadeira fé, quantos estão vivendo como se não cressem, como se não tivessem de morrer um dia e de dar contas de toda a vida perante o tribunal divino. Mas Vós, ó Jesus, que sabeis tirar o bem do mal, mostrai o vosso poder, não nos castigando conforme merecemos, mas subjugando as nossas vontades rebeldes. Aumentai o zelo dos vossos ministros, mandai-lhes, como outrora a São Pedro, que deitem em toda a parte a rede da palavra divina, e, abençoando-lhes o trabalho, fazei com que tenham uma pesca milagrosa de almas, resgatadas pelo vosso preciosíssimo sangue.

"Concedei-nos, ó Senhor, que os sucessos do mundo por vossa ordem corram para nós em paz e que a vossa Igreja se alegre com a tranqüila devoção de seus filhos" (2). - Fazei-o pelos méritos da vossa Paixão, e pelo amor da vossa querida Mãe, Maria.

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1. Matth. 9, 38.
2. Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 196-198.)

QUARTO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES.

A Apostolicidade da igreja

Para terminar os quatro característicos que devem distinguir a Igreja verdadeira das demais seitas religiosas, resta-nos um último a considerar: a apostolicidade, isto é, o fato de ter sido fundada por Jesus Cristo, sobre os Apóstolos.

É o Evangelho que nos fornece mais esta quarta nota. Este Evangelho de hoje narra a pesca milagrosa e a vocação dos Apóstolos.

Esta pesca representa a ação dos Apóstolos no mundo: devem ser pescadores de homens.

Havia lá duas barcas que estavam à margem do lago, diz o Evangelho.

Jesus entrou numa delas, na de Pedro, e dela manda lançar as redes para pescar.

Como tudo é significativo e claro!

Jesus muda o ofício dos Apóstolos: de pescadores de peixes vão tornar-se pescadores de homens.

Jesus estava com eles, na barca de Pedro.
Ele preside: Pedro é o piloto.
Esta barquinha é a Igreja Católica.
Jesus é o chefe supremo.
Pedro é o seu representante.
Os Apóstolos são os seus auxiliares.

A Igreja está fundada. O seu chefe está escolhido, o ofício de seus ministros esta determinado.

Basta agora provar que a Igreja fundada nesta hora solene se tenha perpetuado através dos séculos, continuando a ser a Igreja Apostólica. É o que vamos fazer meditando esta Apostolicidade:

1. No governo da Igreja;
2. Na doutrina que ensina.

Eis dois pontos importantes que devem dissipar as últimas trevas que podem envolver o espírito dos ignorantes ou iludidos.

I. Apostolicidade no governo

A Apostolicidade da Igreja é fundada sobre as palavras de Jesus Cristo que disse que iria fundar a sua Igreja sobre Pedro, o chefe dos Apóstolos: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja (Math. XVI. 18)

Disse-lhes também: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura. (Marcos, XVI. 15)”

Por ordem divina, a Igreja tem, pois, o dever de espalhar a religião de Jesus Cristo no mundo inteiro.

Este ensino deve encontrar-se em todos os tempos, sem interrupção, sempre idêntico e sempre pregado pelos Apóstolos e seus sucessores.

A razão nos demonstra a mesma verdade: a Igreja é uma sociedade, é a significação da palavra: Igreja, significa: reunião.

Ora, em toda sociedade é necessário, para a sua estabilidade, que os governantes recebam o seu poder da autoridade suprema, diretamente ou indiretamente, por um intermediário seguro.

É preciso, pois, que na Igreja verdadeira, em qualquer momento da sua existência, se possam encontrar os Apóstolos, e por eles, Jesus Cristo vivo, falando, agindo, pelo Papa, e pelos Bispos, pois S. Paulo disse: que o Espírito Santo havia posto os Bispos para regerem a Igreja. (Atos XX. 28)

Cada um deles deve poder dizer: não sou eu quem mando ou ensino, mas sim, Pedro, Jesus Cristo.

Examinando de perto o governo da Igreja, achamos necessariamente que o modo de governar que a distingue hoje é o mesmo, sem nenhuma modificação, que aquele estabelecido por Jesus Cristo.

Podemos remontar de Pontífice a Pontífice, de Pio XII governando hoje, até chegar a São Pedro, e até à Jesus Cristo, sem encontrar outra dificuldade a não ser a da eleição do Papa em certas épocas perturbadas.

Nunca alguém pode dizer: “a Igreja Católica não existe mais! Ela mudou o seu modo de governar.”

Os impérios são substituídos pelas monarquias, as monarquias, pelas repúblicas, as repúblicas, pelo totalitarismo, um só governo não muda: é o governo da Igreja.

Sente-se neste fato qualquer coisa de sobre-humano, pois as mudanças de nações, de tempo, de civilização, de idéias, se produzem com uma imperiosidade irresistível, abatendo instituições, homens e reinos, e no meio destas revoluções demolidoras, o governo da Igreja Católica permanece sempre o mesmo.

Não pode ser uma instituição humana: é necessariamente divina.

II. Apostolicidade na doutrina

Eis, porém, uma maravilha mais admirável ainda: A Igreja Católica pode provar que o seu ensino é o mesmo que o dos Apóstolos.

Nesta larga sucessão de Soberanos Pontífices, guardas da doutrina, interroguemos por acaso, a um destes Papas.

Um S. Clemente, do segundo século,
Um S. Victor, do terceiro,
Um S. Marcelino, do quarto,
Um Sto. Anastácio, do quinto,
Um S Símaco, do sexto,
Um S. Bonifácio, do sétimo,
Um S. Sérgio, do oitavo, etc.

Ou aos últimos, do século passado, indaguemos deles qual é a sua doutrina... e cada um deles repetirá a palavra de Jesus Cristo:

Mea doctrina non est mea, sed ejus qui misit me (Joan. VII. 16).

A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou.

É o que o Papa Leão XIII, escreveu numa das suas encíclicas em nome de todos os Papas.

“Esta doutrina não é nossa; transmitimo-la tal qual a temos recebido, e não nos é permitido subtrair ou ajuntar-lhe nem um jota”.

A Apostolicidade da Igreja Católica constitue a sua força principal, pois o dilema é irrefutável. A Igreja remonta até aos Apóstolos, é histórica e evangelicamente certo; ora, Jesus Cristo prometeu estar sempre com a sua Igreja não permitindo que as portas do inferno prevalecessem contra ela.

Logo, das duas uma conclusão deve ser adotada: ou o Cristo foi fiel à sua palavra ou mentiu. Se foi fiel, a Igreja não pode ter caído no erro, e continua a professar a religião verdadeira. Se foi mentiroso, Ele deixa de ser Deus, e então fora com o Cristianismo inteiro, estamos todos iludidos, enganados.

Este argumento impressionava tanto os antigos doutores, que faziam dele o argumento exclusivo contra os hereges.

“D'onde vindes?” perguntavam.

De quem recebestes a vossa missão?

O que anunciais é novo... não sucedestes a ninguém; sois somente de ontem.

No segundo século, certos cristãos diziam-se discípulos de Marcião: Tertuliano os fulminava com estas palavras: “Sois de ontem”.

No 4o e 5o séculos certos cristãos diziam-se discípulos de Ário e de Nestório. Santo Atanásio, S. Leão e Santo Agostinho os confundiam com estas simples palavras: “Sois de ontem”.

Em tempos mais recentes, Lutero, Calvino, Henrique VIII, Knox, Allan Kardec, apareceram na cena do teatro herético. Para confundi-los basta dizer: “Sois de ontem!”.

São novidades, são obras dos homens, pois não têm nenhuma ligação com os Apóstolos e com Jesus Cristo. São ramos decepados do tronco, e o pouco de odor que possuem, devem-no ao pouco de seiva católica que lhes resta.

III. Conclusão

A conclusão é de longo alcance: de consolação para os Católicos, de esmagadora revelação para os dissidentes.

É certo que Jesus Cristo instituiu uma Igreja: “Edificarei a minha Igreja”.

É certo que esta Igreja foi construída sobre Pedro: “Sobre esta pedra (Pedro) edificarei”.

É certo que esta Igreja é uma só: a minha Igreja. E para descobrir esta Igreja, no meio das muitas Igrejas heréticas e cismáticas que pretendem ser a Igreja verdadeira, é preciso remontar aí ao berço destas Igrejas, e escolher aquela que por uma sucessão ininterrupta fique ligada aos Apóstolos e ao próprio Cristo.

É uma verificação relativamente fácil.

O protestantismo em bloco, sem falar das suas centenas de denominações ou seitas, não remonta além de Lutero.

É em 1518 que Lutero lança o seu protesto contra a autoridade da Igreja e funda o seu triste protestantismo.

É em 1847 nos Estados Unidos, que as irmãs Fox protestantes lançaram as bases do louco espiritismo.

E quando nasceu a Igreja Católica?

Quem foi o seu fundador?

A história emudece, os séculos emudecem... e só uma voz: a da verdade, exclamou: Ela nasceu à beira do lago de Genesaré, sob a voz de Cristo dizendo: “Farei de vós pescadores de homens... Pedro, apascenta as minhas ovelhas, apascenta os meus cordeiros... Dou-te as chaves do reino do céu... Quem vos escuta, a mim escuta... Ide no mundo inteiro, pregai o Evangelho à toda criatura”.

Eis o fundamento da Igreja Católica, posto por Jesus Cristo, sobre os Apóstolos.

Somente esta Igreja é Apostólica...

Somente ela é a Igreja verdadeira de Jesus Cristo.

EXEMPLO - O engano é impossível

Incalculável é o número dos inimigos da Igreja. Ela é o objeto do ódio dos escravos do pecado, por causa do zelo com que persegue o vício - dos hereges, por causa do testemunho que dá a verdade - dos incrédulos, por causa da perseverança com que põe a calvo os sofismas da sua falsa sabedoria e da sua profunda ignorância.

E estes inimigos não se apresentam isolados contra a Igreja; embora estejam eles mesmos, continuadamente em guerra entre eles, fazem causa comum, desde que se trate da Igreja.

Luterano e reformado, mytho e racionalista, herege e cismático, maçom, panteísta, ateu, livre-pensador, todos contrataram uma aliança sagrada contra a Igreja. Mais de um príncipe empresta a esta liga de ódio a espada que lhe foi confiada por Deus para castigar os criminosos.

Esta liga de ódio tem nas mãos a imprensa, que se enche de calúnias contra a Igreja, e tem também recursos pecuniários imensos.

E apesar de toda esta potência que se levanta contra ela, a Igreja Católica, tão ultrajada, tão caluniada, nos jornais, nas escolas, nos livros, apresentada como um cadáver em putrefação, despojada de todo esplendor terrestre, esta Igreja Católica permanece sempre a mesma, faz cada dia novas conquistas.

Mais ela é perseguida por causa da verdade, mais ela se firma na verdade.

Os Impérios caem e ela fica em pé no meio das ruínas.

É bem diante de tal cena que se deve exclamar: o dedo de Deus está aí!... e dizer com Ricardo de São Victor: “Se nós nos enganamos, Senhor, és tu que nos enganaste, pois todas estas coisas têm sido confirmadas por tantos prodígios e por milagres tão estupendos, que não podem se ter realizados sem Vós”.

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(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 252 – 259)

15 de junho de 2013

Do grande amor que nos tem Maria Santíssima.

Ego diligentes me diligo; et qui mane vigilant ad me, invenient me — “Eu amo os que me amam, e os que vigiam desde a manhã por me buscarem, me acharão” (Prov. 8, 17)

Sumário. Se uma mãe não pode deixar de amar seus filhos, quanto mais não nos amará a Santíssima Virgem, que no Calvário, juntamente com Jesus Cristo, nos gerou para a vida da graça, entre as mais acerbas dores? Ah! Se fosse reunido em um só o amor que todas as mães têm a seus filhos, não igualaria o amor que Maria tem a uma só alma. É justo portanto que ao amor da divina Mãe corresponda o nosso. Sim, minha santa Mãe, depois de Deus, amo-vos de todo o coração mais que a mim mesmo, e pronto estou a fazer tudo por vosso amor.

I. Afim de compreendermos de algum modo o muito que nos ama nossa boa Mãe, Maria, consideremos as principais razões deste amor. — A primeira razão é o grande amor que ela tem a Deus. O amor para com Deus e para com o próximo, como diz São João, se contém no mesmo preceito, de sorte que, quanto cresce um, tanto o outro se aumenta. Hoc mandatum habemus a Deo: ut qui diligit Deum, diligat et fratrem suum (1) — “Nós temos de Deus este mandamento, que o que ama a Deus, ame também a seu irmão”. Pelo que, assim como entre todos os espíritos bem-aventurados não há quem ame a Deus mais do que Maria, assim tampouco temos, nem podemos ter, quem, depois de Deus, nos ame mais do que esta nossa Mãe amorosíssima.

Além disso, Maria nos ama, porque, afim de nos gerar à vida da graça, sofreu a pena de ela mesma oferecer à morte o seu querido Jesus, consentindo em o ver morrer diante dos seus olhos, à força de tormentos. Como frutos, portanto, da oferta dolorosa da Virgem, somos-lhe excessivamente caros, porque lhe custamos tantas angústias e dores. — E mais ainda, porque o próprio Jesus Cristo, antes de expirar, nos entregou a ela por filhos, na pessoa de São João, dizendo-lhe como último adeus: Mulher, eis aí teu filho (2).

Disto nasce uma terceira e mais poderosa razão pela qual somos tão amados de Maria: vem a ser que todos nós somos o preço da morte de Jesus Cristo. Se uma mãe visse um servo remido por um seu filho à custa de trinta anos de prisão e de trabalhos, quanto estimaria o servo por esta só consideração! Quanto mais deverá então a divina Mãe estimar nossas almas, vendo que o Verbo Eterno não desceu do céu à terra e se fez seu Filho, senão para as salvar à custa de todo o seu sangue! Eu vim salvar o que estava perdido (3) — “Salvum facere quod perierat”.

II. Numquid oblivisci potest mulier infantem suum (4) — “Acaso pode uma mulher esquecer-se de seu filhinho”. Se uma mãe, assim nos diz a Virgem, não pode deixar de amar o fruto de suas entranhas, quanto menos poderei eu esquecer-me de vós, meus filhos diletíssimos, eu, que tantas razões especiais tenho de vos amar? Ah! se o amor que todas as mães têm aos seus filhos, todos os esposos a suas esposas, e todos os anjos e santos a seus devotos, se unisse em um só amor, não chegaria a igualar o amor que Maria tem a uma só alma. É pois de justiça que ao amor de Maria respondamos com o nosso.

Sim, minha Mãe amabilíssima, é mais que justo que eu vos ame! Não quero descansar, enquanto não estiver certo de ter alcançado o amor, mas um amor constante e terno para convosco, ó minha Mãe, que com tanta ternura me tendes amado, ainda quando eu vos era tão ingrato. Que seria agora de mim, se não me tivésseis amado e alcançado tantas misericórdias?

Eu vos amo, minha Mãe, e quisera ter um coração capaz de vos amar por todos aqueles infelizes que não vos amam. Quisera ter uma língua que pudesse louvar-vos por mil, afim de fazer conhecer a todos a vossa grandeza, a vossa santidade, a vossa misericórdia e o amor com que amais aqueles que vos amam. Se eu tivesse riquezas, todas as dispenderia em honra vossa. Se tivesse súditos, quereria fazê-los todos amantes vossos. Quereria finalmente, por vosso amor e para glória vossa, dispender até a vida, se necessário fosse.

Em suma, minha Mãe, desejo primeiro aqui na terra, e em seguida no céu, ser, depois de Deus, quem mais vos ame. Se este desejo é por demais audaz, é porque vossa amabilidade e o amor especial que me haveis demonstrado, m'o inspiram. Aceitai-o, pois, ó Senhora, e em prova de que o aceitastes, obtende-me de Deus o amor que vos peço, visto que tanto agrada a Deus que se vos tem. (*I 23.)

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1. 1 Io 4, 21.
2. Io 19, 26.
3. Luc 19, 10.
4. Is 49, 15.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Segundo: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 193-195.)

14 de junho de 2013

Quão útil é meditar na Paixão de Jesus Cristo.

Recogitate eum qui talem sustinuit a peccatoribus adversus semetipsum contradictionem, ut ne fatigemini, animis vestris deficientes – “Não deixeis de pensar naquele que dos pecadores suportou contra si uma tal contradição; para que não vos fatigueis, desfalecendo em vossos ânimos” (Hebr. 12, 3).

Sumário. Não há meio mais eficaz para alcançar a salvação eterna do que a lembrança quotidiana dos sofrimentos de Jesus Cristo: tem mais valor uma lágrima derramada pela recordação da Paixão do Senhor, do que um ano de jejum a pão e água. Foi nesta meditação que os santos acharam coragem e força para suportar as tribulações, os tormentos e a morte. Se queremos progredir na virtude, lancemos cada dia ao menos um olhar sobre a Paixão do Redentor, contemplando especialmente a pobreza, os desprezos e as dores.

I. Diz Santo Agostinho: “Não há coisa mais apropriada para nos fazer adquirir a salvação eterna do que a lembrança quotidiana dos sofrimentos de Jesus Cristo.” Ao que São Boaventura acrescenta: “Quem quiser crescer sempre em virtude e em graça, deve meditar todos os dias na Paixão de Jesus, porque não há exercício mais útil para santificar uma alma do que a consideração freqüente das penas do Salvador.”

Com efeito, onde é que os santos acharam a coragem e a força para sofrer as tribulações, os tormentos, os martírios e a morte, senão nos sofrimentos de Jesus Cristo? São José de Leonissa, vendo que o queriam ligar com cordas para uma operação dolorosa que o cirurgião lhe queria fazer, tomou em suas mãos o crucifixo e disse: “Que cordas, cordas? Eis aqui as minhas cordas; meu Senhor pregado na cruz por meu amor. É Ele quem, pelas suas dores, me liga e me constrange a suportar todas as dores por seu amor. E assim sofreu a operação sem se queixar, contemplando a Jesus, que não abriu a boca qual cordeiro que cala debaixo da mão que o tosquia (1).

Quem poderá ainda dizer que sofre injustamente quando olha para Jesus ferido pelas nossas iniqüidades e dilacerado pelos nossos pecados? (2) Quem poderá ainda escusar-se de obedecer por causa de qualquer incômodo, havendo-se Jesus feito obediente até à morte e até à morte de crus? (3) Quem ousará subtrair-se às ignomínias, vendo Jesus tratado como louco, como um rei de teatro, como um malfeitor; esbofeteado, coberto de escarros e preso a um patíbulo infame? Finalmente, quem poderá amar senão a Jesus, vendo-O morrer no meio de tão grandes dores e desprezos, afim de cativar o nosso amor? Conclui Santo Agostinho que vale mais uma só lágrima vertida na consideração da Paixão de Jesus, que uma peregrinação a Jerusalém e um ano de jejum a pão e água.

II. Com razão o Ven. Padre Baltazar Alvares afirmava que a ignorância dos tesouros que temos em Jesus é a causa da ruína dos cristãos. Pelo que o assunto predileto e mais freqüente de suas meditações era a Paixão de Jesus Cristo, considerando em Jesus especialmente três sofrimentos: a pobreza, o desprezo e a dor. Exortava seus penitentes a que fizessem o mesmo, dizendo que não pensassem haver feito progresso algum enquanto não chegassem a trazer Jesus crucificado sempre gravado no coração.

Eis aqui, meu irmão, o que tu também deves fazer se desejas ser santo, como aliás tens obrigação de ser. Lança todos os dias um olhar sobre a Paixão do Redentor, meditando de preferência no que dizem os santos Evangelhos. – São muito edificantes e bonitas as meditações sobre a paixão, escritas por devotos autores; mas um cristão levará impressão mais profunda de uma só palavra das sagradas Escrituras do que mil contemplações e revelações atribuídas a certas pessoas devotas; porquanto as Escrituras são a própria palavra de Deus e nos dão a garantia de que tudo que referem tem a certeza da fé divina.

E como quem é devoto do filho não pode deixar de ser devoto igualmente da mãe; não nos esqueçamos, em nossas meditações sobre a Paixão de Jesus Cristo, de contemplar também as dores de Maria Santíssima. Pede a esta boa Mãe que te dê uma parte da compaixão que tanto a afligiu na morte de Jesus e constituiu todo o martírio de seu amantíssimo Coração. (* 538.)

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1. Is. 53, 7.
2. Is. 53, 5.
3. Phil. 2, 8.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Segundo: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 191-193)

13 de junho de 2013

A santa comunhão nos faz perseverar na graça divina.

Qui manducat meam carnem, et bibit meum sanguinem, habet vitam aeternam – “Quem come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna” (Io. 6, 55).

Sumário. Como o pão terrestre sustenta a vida do corpo, assim o pão celeste da santíssima Eucaristia sustenta a vida da alma, fazendo-a perseverar na graça de Deus. Mais, é este o efeito principal do Santíssimo Sacramento: alimentar a caridade e comunicar à alma grande vigor para progredir na perfeição e resistir a todos os inimigos. Se, pois, desejas a graça preciosa da perseverança, resolve comungar freqüentes vezes com as devidas disposições e nunca deixar de fazê-lo por qualquer negócio terrestre. Que negócio pode haver mais importante do que o da salvação eterna?

I. Quando Jesus visita uma alma pela santa comunhão, lhe traz todos os bens, todas as graças e especialmente a graça da santa perseverança. O efeito principal do Santíssimo Sacramento do altar é: alimentar com este sustento da vida a alma que O recebe, comunicando-lhe grande vigor para progredir na perfeição e resistir aos inimigos que desejam a nossa morte eterna. Por isso é que Jesus escondido no Sacramento se chama pão celeste: Ego sum panis vivus qui de coelo descendi (1) – “Eu sou o pão vivo, que desci do céu”.

Como o pão terrestre sustenta a vida do corpo, assim este pão celeste sustenta a vida da alma, fazendo-a perseverar na graça de Deus. Com esta vantagem, porém: o pão material sustenta e prolonga a vida do corpo até certo ponto e detém a morte só por breve tempo; por muito que alguém se alimente, afinal há de morrer. Ao contrário, Jesus disse que, se a alma se alimentar devidamente com o pão eucarístico, vivera eternamente e nunca mais estará sujeita à morte espiritual, que consiste na perda da graça: Este é o pão que desce do céu, para que o que dele comer, não morra (2).

Numa palavra, a comunhão, como nos ensina o santo Concílio de Trento (3), é a medicina que nos livra dos pecados veniais e nos preserva dos mortais.

E Inocêncio III acrescenta que, pela sua Paixão, Jesus Cristo nos livra dos pecados cometidos e pela Eucaristia dos que podemos cometer. – Pelo que diz São Boaventura que os pecadores não se devem afastar da comunhão pela razão que forem pecadores; muito antes, por terem sido pecadores devem tomá-la com mais frequência; pois, quanto mais alguém se sente doente, tanto mais precisa de médico: Magis eget medico, quanto quis senserit se aegrotum.

II. Se desejas obter a graça preciosa da perseverança e assegurar a tua salvação eterna, resolve-te a comungar as mais vezes que te for possível, conforme o conselho de teu diretor e a nunca deixar por causa de algum negócio terrestre. Lembra-te que não há negócio mais importante que o da salvação eterna. Se não pertences a uma ordem religiosa e vives no mundo, terás ainda mais precisão de te aproximar de Jesus Cristo, porque estás exposto a tentações mais graves e corres mais risco de cair.

Não basta, porém, só o comungar: se queres tirar proveito da comunhão, mister é que a recebas com as devidas disposições. São Luiz Gonzaga empregava três dias em preparar-se para comungar e outros três dias para dar ações de graças ao Senhor; por isso é que se tornou santo.

Infeliz de mim, ó Senhor! Porque me queixo da minha fraqueza ao ver as minhas quedas tão freqüentes? Como podia eu resistir aos assaltos do inferno, afastando-me de Vós, que sois a nossa fortaleza? Se me tivesse chegado mais à santa comunhão, não teria sucumbido tantas vezes diante de meus inimigos. Para o futuro não há de ser mais assim. In te, Domine, speravi, non confundar in aeternum (4) – “Em ti, Senhor, esperei, não serei jamais confundido”. Não quero mais fiar-me em meus propósitos; a minha esperança sois Vós, meu Jesus; Vós me deveis dar a força para não recair no pecado. Eu sou fraco, mas pela santa comunhão me tornareis forte contra os meus inimigos.

Meu Jesus, perdoai-me todas as injúrias que Vos fiz e que agora detesto de toda a minha alma. Antes quero morrer do que tornar a ofender-Vos e pela vossa Paixão espero que me ajudarei a perseverar na vossa graça até à morte: Em ti, Senhor, esperei, não serei jamais confundido. – É o que com São Boaventura vos digo também, ó minha Mãe Maria: Senhora, em vós ponho todas as minhas esperanças e não serei jamais confundido. (*II 407.)

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1. Io. 6, 51.
2. Io. 6, 50.
3. Sess. 13, c. 2.
4. Ps. 70, 1.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Segundo: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 188-191.)