4 de fevereiro de 2013

O pecador aflige o Coração de Deus.

Exacerbavit Dominum peccator: secundum multitudinem irae suae non quaeret ― "O pecador irritou ao Senhor: não se importa da grandeza de sua indignação" (Ps. 9, 24).

Sumário. Não há dissabor maior do que ver-se pago com ingratidão por uma pessoa amada e beneficiada. Daí infere quanto deve estar amargurado o Coração sensibilíssimo de Jesus, que, não obstante os imensos e contínuos benefícios concedidos aos homens, é tão vilmente ultrajado pela maior parte deles, especialmente neste tempo de carnaval. Jesus não pode morrer; mas, se o pudesse, havia de morrer só de tristeza. Procuremos nós ao menos desagravá-Lo um pouco com os nossos obséquios.

I. O pecador injuria a Deus, desonra-O e por isso amargura-O sumamente. Não há dissabor mais sensível do que ver-se pago com ingratidão por uma pessoa amada e beneficiada. A quem ofende o pecador? Injuria um Deus, que o criou e amou a ponto de dar por amor dele o sangue e a vida. Cometendo um pecado mortal, bane esse Deus de seu coração.

Que mágoa não sentirias, se recebesses injúria grave de uma pessoa a quem tivesses feito bem? É esta a mágoa que causaste a teu Deus, que quis morrer para te salvar. Com razão o Senhor convida o céu e a terra, para de alguma sorte compartilharem com ele a dor que lhe causa a ingratidão dos pecadores: Ouvi, céus, e tu, ó terra, escuta: Criei uns filhos e engrandeci-os; porém, eles me desprezaram. ― Ipsi autem spreverunt me (1). ― Numa palavra, os pecadores, com o pecado, afligem o coração de Deus: Exacerbavit Dominum peccator. Deus não está sujeito à dor, mas, se a pudesse sofrer, um só pecado mortal bastaria para O fazer morrer de tristeza, porque Lhe causaria uma tristeza infinita. Assim, o pecado, no dizer de São Bernardo, por sua natureza é o destruidor de Deus: Peccatum, quantum in se est, Deum perimit.

Quando o homem comete um pecado mortal, dá, por assim dizer, veneno a Deus, faz o que está em si, para tirar-lhe a vida. Segundo a expressão de São Paulo, renova de certo modo a crucifixão e as ignomínias de Jesus e calca-O aos pés, pois que despreza tudo o que Jesus Cristo fez e sofreu para tirar o pecado do mundo: Qui filium Dei conculcaverit (2). Eis porque a vida do Redentor foi tão amargurada e penosa: tinha sempre diante dos olhos os nossos pecados.

II. Se um só pecado basta para afligir o coração de Deus, considera quanto deverá ficar amargurado particularmente no tempo de carnaval, quando se comete um sem-número de pecados. ― Santa Margarida Alacoque, para consolar um pouco o seu divino Esposo de tantas amarguras, alcançara de Deus que cada ano no carnaval lhe sobreviessem dores acerbíssimas, que soíam* durar até a quarta-feira de Cinzas, dia em que parecia reduzida aos extremos. Dando conta desta graça assinalada a seu diretor, a Santa exprime-se assim: "Esses dias são para mim um tempo de tamanho sofrimento, que não posso contemplar senão o meu Jesus sofredor, compadecendo-me das aflições de seu sacratíssimo Coração".

Meu irmão, se não tens suficiente ânimo para imitar aquela amantíssima esposa de Jesus, ao menos, já que agora consideraste a malícia do pecado, afasta-te no futuro bem longe dele. E nestes dias de desenfreada libertinagem, não percas de vista as seguintes belas palavras de Santo Agostinho: "Os gentios", diz ele (e o mesmo fazem os maus cristãos), "regozijam-se com gritos de alegria, mas vós alegrai-vos com a palavra de Deus; eles correm aos espetáculos, vós procurai apressadamente as igrejas; eles embriagam-se, mas vós, sede sóbrios e temperantes".

Se porventura em outros tempos cometeste alguma culpa grave e assim afligiste o teu Deus tão amável, dize-Lhe agora com coração contrito e amoroso: + "Meu amável Jesus, para mostrar-Vos minha gratidão e para reparar as minhas infidelidades, dou-Vos o meu coração e consagro-me inteiramente a Vós, e com vosso auxílio proponho não pecar mais" (3). + Ó doce Coração de Maria, sede a minha salvação. (*II 70.)

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1. Is 1, 2.
2. Heb 10, 29.
3. Indulg. de 100 dias.

*soíam: do verbo soer = costumar.

(Santo Afonso Maria de Ligório. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Primeiro: Desde o primeiro Domingo do Advento até Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 264-266.)

28 de janeiro de 2013

Explicação da Epístola do Domingo da Septuagésima


I Cor IX 24-27; X 1-5.
Tendo-nos exortado à penitência no Introito da Missa, a Igreja deseja indicar-nos, pela leitura desta epístola, o esforço que nós devemos fazer para alcançar o reino dos céus pelo caminho estreito (Mat. VII 13) da penitência e mortificação. São Paulo ilustra isso com três exemplos distintos. Pelo exemplo daqueles que, numa corrida, correm para um ponto, ou, em uma competição, praticam e preparam-se para o prêmio do vencedor com os exercícios mais difíceis, e com a abstinência de tudo o que possa enfraquecer as suas forças físicas. Se, para ganhar uma coroa de louros, que perece, eles se sujeitam aos padecimentos e privações mais severos, quanto mais devemos nós, pelo bem da nossa coroa celeste de eterna felicidade, abster-nos desses desejos impróprios, pelos quais a alma se enfraquece, e praticar aquelas santas virtudes, como a oração, o amor de Deus e dos nossos irmãos, a paciência, às quais a coroa é prometida! Em seguida, pelo seu próprio exemplo, colocando-se diante deles como alguém que corre uma corrida, e luta por uma coroa eterna, não como alguém que corre cegamente sem saber aonde, ou que luta como alguém que não acerta o seu antagonista, mas o ar; pelo contrário, com os seus olhos firmemente fixos na coroa eterna, certo de ser daquele que vive pelos preceitos do evangelho, que reprime o seu espírito e o seu corpo como um valente campeão, com uma mão forte, isto é, pela mais severa mortificação, pelo jejum e pela oração. Se São Paulo, com todas as graças extraordinárias que recebeu, pensava ser necessário reprimir o seu corpo, para que ele não fosse rejeitado, como espera o pecador ser salvo, vivendo uma vida efeminada e luxuriosa, sem penitência e mortificação? O terceiro exemplo de São Paulo é o dos judeus, que pereceram todos na sua caminhada à Terra Prometida, mesmo tendo Deus dado-lhes tantas graças; Ele os escondeu dos seus inimigos com uma nuvem que lhes servia de luz à noite, e de sombra de refrigério pelo dia; Ele dividiu as águas do mar, preparando-lhes uma passagem seca; Ele fez cair maná do céu para ser sua comida, e fez jorrar água da rocha para sua bebida. Esses benefícios temporais que Deus manifestou para os judeus no deserto tinham um significado espiritual; a nuvem e a água eram uma figura do batismo, que ilumina a alma, amansa a concupiscência da carne e a purifica do pecado; o maná era uma figura do Santíssimo Sacramento do Altar, o verdadeiro pão da alma que vem do céu; a água da rocha, o sangue jorrando do lato de Cristo; e ainda com todos esses benefícios temporais que Deus lhes manifestou, e com todas as graças espirituais que eles receberiam pela fé no Redentor vindouro, dos seiscentos homens que deixaram o Egito, apenas dois, Josué e Caleb, entraram na Terra Prometida. Por quê? Porque eles eram inconstantes, murmuravam amiúde contra Deus, e desejavam os prazeres da carne. Quanto, pois, devemos temer ser excluídos da verdadeira terra feliz do Céu, se nós não nos esforçarmos continuamente para nela entrar, pela penitência e pela mortificação!
ASPIRAÇÃO: Ajudai-me, ó Jesus, com a Vossa graça, para que, seguindo o exemplo de São Paulo, eu possa ser desejoso, pela constante prática piedosa da virtude e da oração, de chegar à perfeição e entrar no céu.

Fonte: Rev. Fr. Leonard Goffine. The Church's Year. http://sanctamissa.org/en/spirituality/spirituality-of-the-liturgical-year/goffine-church-year/015-septuagesmia-sunday.pdf

27 de janeiro de 2013

Septuagésima

A Septuagésima é como o prelúdio da Quaresma. A Igreja, pondo-nos diante dos olhos, na Escritura ocurrente, a narração da queda do homem, dos pecados que a seguiram, do dilúvio que a puniu, da vida santa dos Patriarcas, que a expiou, convida-nos a renovar na amargura da alma a memória de todos os nossos pecados, a detestá-los sinceramente, a repará-los com generosa penitência. Os meios que nos propõe são: 1) o trabalho, ou o cumprimento fiel dos deveres de estado por amor de Deus: ite et vos in vineam meam; 2) a luta contra as paixões: na Epístola, compara-nos a atletas que correm ou combatem para obterem uma coroa, e convida-nos a castigar o nosso corpo e a reduzi-lo à servidão; 3) a aceitação voluntária do sofrimento e das provações, a que estamos justamente condenados, com uma humilde súplica para nos aproveitarmos bem delas: "Circumdederunt me gemitus mortis... et in tribulatione mea invocavi Dominum" (Introito da Dominga da Septuagésima).

Fonte: Ad. Tanquerey. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Livraria Apostolado da Imprensa, 6.ª ed. 1961.

14 de janeiro de 2013

Festa da Sagrada Família - Pe. Paulo Iubel

Tesouro de Exemplos - Parte 249

A ÁRVORE CRESCIA

O ermitão Nicolau, de Suíça, estando a ouvir Missa, teve uma visão. Viu uma árvorezinha, que, brotando do piso da igreja, crescia rápidamente e em poucos segundos estava coberta de flôres, resplandecentes como estrêlas. Essas flôres caíam sôbre a cabeça dos fiéis: em alguns murchavam e perdiam o brilho; em outros aumentavam de resplendor, adornando-lhes as frontes como uma cora de luz.
A árvore era figura da benção celeste e as flôres simbolizavam a benção que caía sôbre cada um, frutificando nos fervorosos e murchando nos distraídos e desatentos.

13 de janeiro de 2013

Tesouro de Exemplos - Parte 248

POR UM PECADO MENOS

Voltava da missa um domingo, em Londres, uma dama, irmã dum ministro do reino. Encontrou uma mulher a varrer a rua. Soube que era católica. Perguntou-lhe se tinha ido à missa.
Respondeu a varredoura que não tinha tempo, porque antes do meio-dia tinha de acabar a limpeza. A dama deu-lhe uma moeda e, mandando que fôsse à missa, disse-lhe:
- Cumpra o seu dever de cristã, que eu farei seu  trabalho.
E assim dizendo, pegou da vassoura e pôs-se a  varrer.
Interrogada por que se humilhava assim em lugar tão público, respondeu:
- Por um pecado menos!