28 de maio de 2011

AMAR MARIA (I)

A Jesus com Maria

1) É justo e lógico que, depois da recordação da santa cruz, se tenha também uma especial lembrança das dores da Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, a qual esteve fielmente ao lado de seu querido Filho Jesus, que pendia da Cruz e morria pela salvação de todo o mundo. Espetáculo dilacerante, o da Mãe e do Filho crucificado; o da Mãe que chora e do Filho que sofre por ela; da Mãe aniquilada de dor e do Filho que lhe fala; da Mãe que esta ao pé da cruz e do Filho que pende da cruz, da Mãe que suspira e do Filho que expira. Abismo de imensa dor, que não deve esquecer-se nunca, senão que deve conservar-se fortemente gravado no coração dos fiéis.

2) Pilatos fez escrever sobre a tala fixada na cruz: “Jesus Nazareno, rei dos judeus” (Jo 1, 19). Escreva-o tu também com letras de ouro em teu coração, contra os escárnios dos homens e o terror dos demônios, e Jesus Cristo, Rei do céu, te livrará de toda perseguição dos malvados. Se assim o fizeres, também estará ao teu lado com suas orações, Maria, a Mãe de Jesus, para que não te desesperes nas angústias e nos últimos instantes de tua vida.

3) Nenhuma Mãe experimentou tanta alegria nem tanto consolo no nascimento do próprio filho, como os que experimentou esta Santíssima Mãe, que mereceu conceber e dar à luz ao Filho de Deus. Do mesmo modo, nenhuma mãe sofreu e suportou tanto abatimento e tão dilacerante dor pela morte do próprio filho, como esta amantíssima Mãe na paixão de seu querido Filho, ao participar em suas dores. Manteve-se firme ao lado de sua cruz e, transpassada pela espada da dor, chorou com imensa amargura.

4) Ao observar tamanhos sofrimentos no Filho, ao que amava de maneira singular e acima de tudo, se deveu a um verdadeiro milagre que haja podido seguir vivendo ainda em seu corpo, enquanto sua alma era transpassada pela espada de dor todas as vezes que viu e ouviu o Filho lamentar-se, dilacerado e escarnecido. Martírio realmente único para a Mãe desolada e para a Virgem terna, com o coração atormentado e sofrendo com o Filho de maneira mais atroz que um mártir pendido sobre o cavalete de tortura.

5) Se vocês, irmãos, amam a Nossa Senhora, e se desejam sua ajuda em todas as tribulações, detenham-se com ela junto à cruz de Jesus, tomando parte de todo coração nos padecimentos de ambos, para que ela, na hora da sua morte, rogue solicitamente a fim de que se lhes perdoem seus pecados e suas faltas. Efetivamente, aquele que roga, recorda e medita com devoção e freqüência a paixão do Senhor e as lágrimas de sua dolorosíssima Mãe, bem pode esperar na misericórdia de Deus e na bondade da Mãe e do Filho, que eles estejam presentes em suas necessidades e o confortem no momento de morrer. Que afortunada aquela alma que amou em vida a Jesus e Maria e meditou diariamente a dolorosa presença dela ao lado da cruz de Jesus! Feliz o religioso que despreza todos os prazeres mundanos e elegeu Nossa Senhora como Mãe consoladora, guardiã e protetora de toda sua vida.

6) Ninguém pode duvidar que a boa e misericordiosa Mãe, consoladora dos pobres e auxiliadora dos órfãos, com gosto pronunciará uma palavra doce e bondosa a favor do fiel servidor que esteja por sair deste mundo. Apaziguará com suas santas orações o rosto de seu amado Filho e nosso Redentor, dizendo: “Amorosíssimo Filho meu, tende piedade de vosso servo que me ama e me louva, como vós mesmo vistes e conheceis. Os santos anjos me anunciavam as freqüentes saudações que brotavam com devoção de seus lábios, ao recordar meus gozos, e como costumava convidar a numerosos irmãos para louvar com ele vosso santo nome. Ele é nosso secretário, e escreve livros de devoção. Indo pela rua e ao ver de longe uma cruz, se recorda de vossa paixão e vos demonstra sua atenção, inclinando-se diante dela. Se trata do mesmo que, ao ver em uma igreja ou em outro lado uma imagem que vos representa descansando sobe meus joelhos ou morto entre meus braços, se punha triste, derramava lágrimas, soluçava, rezava dobrando os joelhos e vos adorava. Ele não se distanciou nunca de nós sem dar-nos um beijo de amor; e melhor, todos os dias e todas as noites manteve vivo em seu coração o sentimento compassivo por vossas santas chagas e pelas lágrimas de meus olhos, procurando efusivamente compadecer-se de mim. Recorde-Vos, pois, de tudo isto, meu querido Filho, e concede-lhe encontrar misericórdia ante Vós. Suplico-Vos fortemente em seu favor, junto com todos vossos anjos e santos”.

7) Obrem assim irmãos, enquanto estão bem e ainda têm tempo para emendar-se. Procurem-se amigos e advogados tais, que possam dizer uma boa palavra, grata a Deus, para desculpar suas ofensas e suas dívidas; e que os possam receber em suas eternas moradas, depois dos perigos e das fadigosas lutas deste mundo, já que é impossível que vocês encontrem amigos mais fiéis e poderosos no céu e sobre a terra que Jesus, Rei dos anjos, e que Maria Nossa Senhora e Rainha do céu. Se amam a Jesus, tomem sua cruz, permaneçam ao lado de sua cruz, abracem-na e não a abandonem até que não estejam junto a Jesus, verdadeira luz, que disse: “O que me segue não caminha nas trevas”. Se desejam ser consolados em qualquer tribulação, aproximem-se de Maria, Mãe de Jesus, que está de pé junto à cruz, dolorida e banhada em lágrimas, e tudo o que os oprime se dissipará ou se tornará mais suportável. Antes de morrer, elejam a esta benigníssima Mãe de Jesus acima de todos os parentes e de todos os amigos, como sua Mãe e Advogada; e saúdem-na freqüentemente com a Ave Maria, que tão agradável lhe é.

8) Se o inimigo maligno os tenta e lhes impede de invocar a Deus e a Maria, não se preocupem e não deixem de louvá-los e de rezar; porém com mais fervor invoquem a Maria, saúdem a Maria, pensem em Maria, elejam Maria, honrem a Maria, inclinem-se ante Maria, recomendem-se a Maria. Permaneçam em casa com Maria; guardem silêncio com Maria, desfrutem com Maria; sofram com Maria, trabalhem com Maria; velem com Maria, orem com Maria, caminhem com Maria, estejam sentados com Maria; busquem a Jesus com Maria, estreitem entre seus braços a Jesus com Maria. Vivam em Nazaré com Jesus e Maria, vão a Jerusalém com Maria, estejam junto à cruz de Jesus com Maria, chorem com Maria; sepultem a Jesus com Maria, ressuscitem com Jesus e com Maria, subam ao céu com Jesus e com Maria; anseiem viver com Jesus e com Maria.

9) Se meditam bem estes temas, irmãos, e se decidem pô-los em prática, o diabo fugirá à vista de vocês, que progredirão na vida espiritual. Maria, em sua clemência, rogará com gosto por vocês; e Jesus a escutará de muito boa vontade, pelo respeito que tem pela Mãe. É muito pouca coisa o que levamos a cabo. Mas se nos aproximamos do Pai por meio de Maria e de seu Filho Jesus, obteremos misericórdia e graça na terra, e também glória sem fim com eles no céu. Amém.

10) Feliz a alma devota que nesta terra tenha a Jesus e Maria como íntimos amigos: comensais à hora de comer, companheiros nas viagens, solícitos na necessidade, consoladores nos sofrimentos, conselheiros nas incertezas, auxiliadores nos perigos e no momento da morte. Feliz o que se considera peregrino nesta terra e estima com a máxima alegria ter como hóspedes Jesus e Maria no íntimo de seu coração

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de Maria nunquam satis"
"sobre Maria nunca se falará o bastante"
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(KEMPIS, Tomás de. Imitación de María: Libro Tercero, Capítulo I. pág. 73 - 78)

22 de maio de 2011

QUARTO DOMINGO DEPOIS DA PÁSCOA

A tristeza dos apóstolos e as desolações espirituais.

Expedit vobis, ut ego vadam; si non abiero, Paraclitus non veniet ad vos – “É conveniente a vós que eu vá, porque, se não for, não virá a vós o Paráclito” (Io. 16, 7).

Sumário. Posto que as desolações espirituais sejam a provação mais sensível para as almas amantes de Deus, são também lances da divina Providência para promover o maior proveito espiritual, porquanto deste modo as confirma na virtude e as enriquece com merecimentos. Portanto, se jamais te achares no estado de desolação, imagina-te, para teu consolo, que Jesus Cristo te diz o que disse aos apóstolos, como se refere no Evangelho de hoje: É conveniente para vós que eu me afaste com a minha presença sensível.

I. Os apóstolos que se entristeciam ao saber que dentro em breve Jesus Cristo havia de deixá-los com a sua presença sensível, são uma imagem viva daquelas almas eleitas que se julgam abandonadas por Deus, quando se acham desoladas. Consolem-se, porém, essas pobres almas; porque, ainda que as desolações espirituais sejam a provação mais dolorosa para seu coração, não deixam por isso de ser um lance da divina Providência que só deseja o proveito espiritual. Pode-se-lhes, portanto, dizer o que o Senhor disse aos Apóstolos para os consolar: Expedit vobis ut ego vadam – “É conveniente a vós que eu vá.

São Bernardo, escrevendo a uma dessas almas desoladas, diz: “Ó esposa, não temas se o Esposo esconde algum tempo o seu rosto; visto que só o faz para teu proveito espiritual.” – Jesus se retira primeiro para ver se o amamos, porquanto o amor se manifesta não tanto em seguir àquele que nos acaricia, como em correr atrás de quem foge de nós, e em servir a Deus à custa própria, quer dizer, com aridez e sem alguma doçura sensível. – Jesus esconde-Se ainda para melhor nos confirmar na virtude. Por meio disto mortifica o nosso amor próprio que se deleitava naquele gosto sensível, chamado por São João da Cruz gula espiritual. Livra-nos do perigo de nos ensoberbecermos e de nos julgarmos acima dos outros por causa daquelas doçuras. Finalmente fornece-nos a ocasião para suspirarmos por Deus e para O procurarmos com maior anseio.

Numa palavra, com as desolações o Senhor nos faz não somente correr, mas voar no caminho da perfeição, e faz-nos adquirir tesouros imensos de merecimentos para o céu. – Digo francamente o que me ensinou a experiência: pouca confiança tenho nas almas que nadam em doçuras espirituais se primeiro não tiverem passado pelo caminho das penas interiores. Acontece não raras vezes que tais almas vão bem enquanto duram as consolações; mas, quando provadas com aridez, largam tudo e entregam-se à vida tíbia.

II. Meu irmão, se vieres a achar-te no estado de desolação, não dês ouvido ao demônio que te sugerirá que Deus te abandonou. Muito menos deves deixar de fazer as tuas orações e mais exercícios espirituais, muito embora experimentes agonias mortais. – Se receias que Deus te está castigando assim pelas tuas infidelidades, aceita o castigo em paz. Entretanto, remove as causas de tua desolação; tira o afeto às criaturas, tira a dissipação de espírito. Numa palavra, no tempo da desolação, deves humilhar-te pensando que mereceste ser tratado assim. Conforma-te com a vontade de Deus, a quem agrada mais o amor terno; e unindo as tuas penas às que Jesus Cristo padeceu no horto e na cruz, dize-Lhe sinceramente: Fiat voluntas tua (1) – “Faça-se a tua vontade.

Ó meu Pai celestial, se não pode passar este cálice sem que eu o beba, seja feita a vossa vontade! Pobre de mim, ó Senhor, visto que outras trevas, outros tremores, outros abandonos deveriam ser os meus, por causa das injúrias que Vos fiz. Deveria caber-me em sorte o inferno, onde, separado de Vós para sempre, e inteiramente abandonado de Vós, deveria chorar eternamente, sem ainda Vos poder amar. Ó meu Jesus, aceito qualquer pena, mas não esta. Vós sois digno de um amor infinito; demais me obrigastes a Vos amar. Não, não quero viver sem Vos amar. Amo-Vos, Bem supremo; amo-Vos de todo o meu coração, e não quero senão amar-Vos.

Reconheço que esta minha boa vontade é toda uma dádiva da vossa graça. Mas, meu Senhor, completai a vossa obra; amparai-me sempre até à minha morte; dai-me força para vencer as tentações e de me vencer a mim mesmo, e por isso fazei com que sempre me recomende a Vós. – “E Vós, Eterno Pai, concedei-me a graça de amar o que mandais, e de desejar o que prometeis; afim de que, entre as vicissitudes da vida presente, meu coração sempre esteja fixo ali, onde se acham as verdadeiras alegrias.” (2) Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo e pela intercessão de Maria Saníssima. (*IV 208.)

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1. Math. 26, 42.
2. Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 72 - 75.)