22 de outubro de 2009

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 30

30) Por que o Filho de Deus se fêz homem?
O Filho de Deus fez-se homem para nos salvar, isto é, para nos remir do pecado e nos reconquistar o paraíso.
Deus criou Adão e Eva, cumulando-os de dons maravilhosos: eram imensamente felizes, inclinados ao bem, isentos de enfermidades e da morte. Deu-lhes ainda o maior de todos os dons: a graça, que os fazia filhos de Deus e herdeiros do paraíso.
Para provar-lhes a fidelidade, proibiu-lhes Deus comerem do fruto da árvore do bem e do mal. Mas o demônio, tomando a forma de serpente, tentou Eva para colhê-lo e comê-lo. Eva atendeu ao demônio, comeu daquele fruto e deu-o depois a Adão, que também comeu. Cometeram assim o primeiro pecado e Deus castigou-os imediatamente. Perderam a graça e todos os outros dons, tanto para si como para seus descendentes; foram expulsos do paraíso terrestre e o Senhor fechou-lhes também as portas do Céu.
Como poderia o homem reconquistar a graça, tornar-se novamente filho de Deus e salvar-se do inferno?
O Pai Celeste mandou seu Divino Filho para redimi-lo e reabrir-lhe as portas do Céu.
Santo Agostinho, grande sábio e doutor da Igreja, diz que Deus se fez homem para que nós nos tornássemos semelhantes a Ele. Oh! quanto Jesus é bom e como não devemos amá-lo.!

21 de outubro de 2009

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 29

29) Jesus Cristo é Deus homem?
Sim. Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
Quando Jesus Cristo nasceu em Belém, uma estrela prodigiosa apareceu no céu e foi vista até nos longínquos países do Oriente.
Viviam lá três grandes sábios e diz a tradição que além de sábios, eram reis. Compreenderam logo que a estrela anunciava o nascimento do Salvador do mundo. Desejaram ir vê-lo. Deixaram a pátria e seguindo a estrela que os precedia, chegaram enfim a Belém. A estrela parou justamente em cima da choupana onde estava Jesus, acompanhado de Maria e José.
Entrando com grande júbilo, prostaram-se e O adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-Lhe ouro, incenso e mira. O ouro, dizem os Santos Padres, significava a natureza divina de Jesus; a mirra, a sua natureza humana; e o incenso, a homenagem de adoração a Jesus-Deus e homem.
Jesus é verdadeiro Deus, porque é a segunda Pessoa da Santíssima Trindade e é verdadeiro homem, porque tomou corpo e alma como nós. Tem, porém, uma só e única pessoa, a Pessoa divina.
No Brasil canta-se também com amor o Natal do Senhor:
Glória! Glória! ao Senhor supremo nas alturas!
(Cantam anjos do céu, louvando o Criador)
E gozem santa paz na terra as criaturas,
Nesta hora feliz do Natal do Senhor!...
(Conceição Ferraz, "Névoas").

20 de outubro de 2009

Acta Martyrum Japonensium - Parte 1 de 2

VENERÁVEIS MÁRTIRES DOJAPÃO,

PROTEJEI-NOS, DEFENDEI-NOS, SALVAI-NOS

A HISTÓRIA DO MARTÍRIO CRISTÃO NO JAPÃO 

1597~1873
ALMAS PURAS
MARTYRES JAPONENSES
Pe. Antonio Sermenio
Desenhos: Subaru Yokomichi

Traduzido para o português por Marcos Morita




CENTÉSIMO ANIVERSÁRIO DOS 26 MÁRTIRES DO JAPÃO – 1962

A História do Cristianismo é um belo episódio dentro da História do mundo e, para o povo japonês, a mais preciosa e também, a mais patética.

Os Cristãos perseguidos por causa das incompreensões dos algozes, não obstante terríveis e cruéis torturas, entregaram-se de bom grado pela glória de Deus e salvação das almas.

Ao suportar com heroicidade as provações, a perda de bens e honras, eles deixaram a seus filhos e descendentes o maior bem que poderiam legar: a autêntica Fé. Eis o autêntico espírito Yamato.

Rainha dos Mártires

Somente Deus conhece o número exato de Mártires. Os nomes dos Mártires nos registros conhecidos chegam a 3125. Sabe-se que há um número incalculável de outros Mártires. Somente em 1624 duas mil pessoas foram martirizadas. Em 1638, mais de 4000 Cristãos foram lançados no mar. Segundo Hakuseki Arai, durante o domínio de Iemitsu Tokugawa, de 200000 a 300000 Cristãos pereceram de fome e penúria.

Gostaria de apresentar, aqui, algumas flores desse jardim de Mártires.

Logo após a chegada de S. Francisco Xavier em Kagoshima, em 1549, houve várias opressões contra os Cristãos, mas a perseguição oficial, em escala nacional, foi iniciada no reino de Hideyoshi Toyotomi em 24 de julho de 1587.

S. Francisco Xavier desembarca em Shimonoseki

Depois da inspeção da região Kyushu (sul do Japão) e estimulado pelo monge budista Tokuun-in, Hideyoshi decretou oficialmente a proibição do Cristianismo e uma das suas primeiras vítimas foi o famoso samurai Ukon Takayama.

Nove anos depois, com o episódio San Felipe, Hideyoshi ordenou o cadastro e prisão de todos os Cristãos da região Sul do Japão, mas graças à intervenção de Mitsunari Ishii, foram escolhidas 26 pessoas para servirem de exemplo.

Ukon Takayama e outros samurais Cristãos, vendo a prisão de Paulo Miki e seus 25 companheiros, se alegraram sinceramente por serem perseguidos por causa do Senhor e os encorajaram.

Por intervensão de Mitsunari Ishida, o sofrimento dos Mártires foi aliviado um pouco. Tiveram cortada uma parte da orelha esquerda e em Kyoto foram colocados em carros para iniciar a longa peregrinação à Nagasaki, passando pela Sakai, Osaka e outras cidades principais do Sul do Japão, num caminho de 1000 km.

Passaram por inenarráveis sofrimentos durante a viagem, pois era inverno, mas os Mártires cantavam e oravam com profunda devoção, encorajando-se mutuamente, influenciando com seus exemplos os futuros companheiros do martírio que encontravam pelo caminho.

O menino de 12 anos, Ludovico Ibaraki, foi gentilmente aconselhado pelo Hachizaburo Terazawa a deixar a Fé, prometendo-lhe um cargo de samurai.

Surpreendente foi a resposta do menino: “Senhor magistrado, és tu que deves te converter ao Cristianismo. Assim poderemos ambos entrar no Paraíso!” Amarrado à cruz no dia seguinte, Ludovico estava radiante de alegria.

Ludovico, Antonio, de 13 anos e Tomás Ozaki e seus companheiros foram amarrados às cruzes e se tornaram vítimas de expiação para Deus e para o Japão na colina de Nagasaki em 5 de fevereiro de 1597.

Após a morte de Hideyoshi, subiu ao poder Ieyasu Tokugawa. Era budista devoto e por causa do seu ódio aos Cristãos, ordenou a proibição do Cristianismo. Muitos senhores feudais começaram, então, a perseguir os Cristãos. Mouri, de Yamaguchi, executou o seu conselheiro Motonao Kumagaya e seus 100 súditos em Hagi, em 1605. Kiyomasa Kato obteve o domínio que pertenceu outrora a Yokinaga Konishie e iniciou dura perseguição aos Cristãos. Tadaoki Hosokawa, embora sua esposa Garasha (Graça) tenha sido Cristã devotíssima, se tornou duro perseguidor após o falecimento de Pe. Cespedes. Miguel Naosumi, filho de Harunobu, de Arima, temendo Ieyasu, matou Francisco e Mateus, seus meio-irmãos e condenou três conselheiros e familiares a serem queimados vivos em 1613: Leão Sukezaemon Hayashida e esposa Marta, seus filhos Magdalena e Tiago; André Mondonojo Takahashi e esposa Ana, Leão Kan-uemon Taketomi e seu filho Paulo.

No campo da execução concentraram-se mais de trinta mil pessoas, que receberam os Mártires com flores, velas e cânticos. Quando as chamas os envolveram, o pequeno Tiago, tendo as cordas desembaraçadas, correu ao encontro da mãe. Chamando os santos nomes de Jesus e Maria, caiu aos pés de sua mãe. Ela confortou-o dizendo, “Filhinho, veja!, o Paraíso se aproxima!”.

Sua irmã Magdalena, de 18 anos, ao sentir a aproximação da morte, tomou nas mãos as lenhas em brasa e colocou-as sobre sua cabeça como se estivesse se divertindo e, assim, adormeceu para a eternidade.

Sob Xogun Hidetada e, especialmente sob Iemitsu, as perseguições se itensificaram e nem os mortos eram poupados. Com a justificativa de que seus túmulos maculavam o “país de deuses”, Japão, os restos dos Cristãos eram queimados e jogados no mar. As mulheres grávidas, além de serem forçadas a se apostatar, eram obrigadas a prometer que seus filhos não se tornariam Cristãos. Dentre os maiores perseguidores de Cristãos que deixaram os registros de crueldade, destacam-se Bungonokami Arima, Gonroku Hasegawa, Kouchi Mizuno, Denshiro Imamura, Saburozaemon Baba, Matazaemon Kanda, etc., todos incentivados pelo Iemitsu. Ao saber que os padres Jeronimo de Angelis e Fancisco Galvez haviam sido presos, Iemitsu disse que o reconhecimento (das virtudes) deles era pior que suportar uma revolução geral no país.

Havia 7 crianças no Grande Martírio de Nagasaki em 1623. Elas percorreram o local da execução distribuindo ao público mechas de seus cabelos. Haviam nascido para buscar um Reino infinitamente mais nobre que este mundo, e, antes de oferecer o pescoço para serem decapitadas, rezaram com a multidão. Alguns Cristãos, em barcos, tocavam instrumentos e cantavam para celebrar a sua vitória final.

Um dos pequeninos era Ignacio. Pe. Spirano não o enxergando, perguntou a sua mãe Isabela, ”Onde está o pequenino?”. Ela, erguendo-o respondeu: “ele está aqui. É uma felicidade podermos morrer juntos”, e receberam a bênção do sacerdote. Logo, a mãe foi decapitada e Ignacio ofereceu também a sua bela flor da vida a Deus.

Uma outra criança chorava. Alguém lhe disse, “Assim, não te tornarás um Mártir”. Logo parou de chorar e começou a sorrir.

Fancisco, de 8 anos, chorava ao lado do corpo de seu pai. Algém disse, “Tu és filho de Magoemon Ishihara. Logo o reencontrarás no Paraíso”. Francisco repetiu, então, “Paraíso! Paraíso!” e acabou adormecendo nos braços do algoz. Este, sentindo pena da criança, deitou-o no chão. Chegou, então, um outro guarda e desferiu-lhe três estocadas de espada no coração.

A um outro menino diziam, “Apostata-te, apostate-te”. Ao ignorar essas palavras colocaram-lhe brasas sobre as mãos. Ele suportou até o fogo se extinguir. Disse então aos guardas, “Mesmo que vocês coloquem brasas sobre todo o meu corpo, não apostatarei!”. Um outro garoto de Sakai pediu aos pais para ser martirizado com eles. Estes lhe responderam, “Tu não és capaz de resistir ao menor calor de fogo. Como poderás ser queimado vivo?” O menino se levantou, foi até a cozinha e segurou uma barra de ferro em brasa. Os pais lhe ordenaram para soltar a barra, mas ele não o fez até eles concordarem em levá-lo junto para o martírio.

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 28

28) Quem é Jesus Cristo?
Jesus Cristo é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho de Deus feito homem.
Narra o Santo Evangelho, que tendo chegado a hora de iniciar a sua vida pública, Jesus despediu-se de sua Mãe, deixou Nazaré e encaminhou-se para as margens do rio Jordão, onde João Batista administrava o batismo de penitência. Contava então Jesus 30 anos de idade. Lá chegando quis também receber o batismo, desceu ao rio e nesse mesmo instante os céus se abriram sobre Ele e o Espírito Santo manifestou-se em forma de pomba e do céu ouviu-se uma voz que dizia: "Tu és o meu Filho amado" (Marcos I,11).
Foi esta uma solene revelação da Divindade e da missão de Jesus. Ele é, portanto, o Verbo Eterno do Pai, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que por amor ao homem, vítima do primeiro pecado, tomou alma e corpo como nós, por obra do Espírito Santo.
Tornou-se desde então o Homem-Deus, que diante do Pai Eterno representa a humanidade, após havê-la resgatado da escravidão do pecado.
Agradeçamos a Jesus, por ter-se dignado assumir a nossa natureza, fazendo-se assim nosso irmão.

19 de outubro de 2009

Calar é consentir? A virtude da Prudência (Exame de consciência para os imprudentes)

"Toda a virtude possui dois erros opostos, que são como uma corrupção daquele bem que nela há. Assim, para a necessidade de comer, o homem pode cometer dois erros: não comer ou comer pouco (a falta), ou então comer muito (o excesso). Para todo o bem, só se pode errar em falta ou em excesso. Em ambos os casos, o fim buscado se distorce na ilusão de um falso agir.

Para agir retamente, alcançando o bem sem distorcê-lo, é preciso ter o dom da sabedoria. A sabedoria no conhecimento facilita e dirige a retidão no agir, que é a virtude da prudência.

Não pretendo escrever um tratado sobre a prudência, o que está muito além dos interesses destas reflexões e da minha capacidade de divagar sobre o tema. As linhas a seguir são apenas pensamentos soltos que condenso na forma de um breve estudo sobre esta virtude indispensável. O objetivo desta análise é conciliar a defesa da Fé—absolutamente necessária para todo o católico batizado, principalmente o crismado—com o calar-se, e para isso tomaremos como guia a virtude da prudência."

"NUNCA CALAR-SE

A Igreja, quando canoniza um Santo, confirma que este viveu as virtudes em grau heróico, isto é, que não se acomodou numa “zona de conforto”, onde era possível permanecer católico e não renunciar ao mundo. O Santo levou a sua Fé até as últimas consequências, e não raras vezes não hesitou em entregar a própria vida, que é o bem natural mais precioso—tudo em troca de um bem sobrenatural, de valor incomensurável: a glorificação de Deus e a salvação das almas. São Josafat, por exemplo, ao lutar pelo retorno dos cismáticos orientais para a única Igreja de Cristo, católica apostólica romana, pagou com o próprio sangue a defesa da Fé, sofrendo o martírio. Mas, como já adverte Santo Agostinho, Deus permite males para deles retirar um bem maior. Além de alcançar a glória do martírio—prova incontestável das virtudes do cristão e da sua confiança em Deus, a quem ele entrega a própria vida—, a morte de São Josafat fez os seus assassinos também se converterem.

Dos Santos sempre nos impressionam não só os exemplos de coragem, como também a sabedoria. Se eles mantiveram uma vida correta, já era de se esperar que isso fosse fruto de uma profunda ciência de espírito. Os escritos dos Santos geralmente são como um “testamento espiritual”, porque traçam a via ao Céu que aquele Santo subiu e nos ensina a subir.

Evidentemente que, se os Santos viveram as virtudes em grau heróico, é porque jamais se calaram ante o erro. São Felix III ensina: “Não se opor ao erro é aprová-lo, e não defender a verdade é suprimi-la, e incluso não confundir homens maus quando nós podemos fazê-lo não é menor pecado do que encorajá-los”, sendo confirmado por São Pio V: “Aquele que conhece a verdade e não a proclama,este é um covarde miserável e não um cristão”.

No Batismo, cada cristão assumiu um compromisso inviolável com a Fé da Igreja, que é confirmado no Sacramento da Crisma, quando os dons do Espírito Santo são aumentados e o caráter de soldado de Cristo é impresso na alma daquele que o recebe. O Sacramento da Crisma torna o cristão preparado para viver a Fé católica sem hesitações. O crismado que nega defender a Fé comete uma grande traição a Deus, porque prometeu amá-Lo com o preço da própria vida, esquecendo-se não só do compromisso do Sacramento, como também da extrema misericórdia de Deus ao nos dar o Seu Filho em Sacrifício para o perdão dos pecados. Quem ama a Deus, está disposto a tudo para agradá-Lo, e a única forma de agradá-Lo é sustentar a Fé, “sem a qual ninguém verá a Deus” (Hebreus XII, 14). Por isso os Santos nunca se calaram, pois “onde não há ódio à heresia, não há santidade” (Padre Frederick William Faber, The precious Blood). O amor a Deus é proporcional à defesa da Fé: “porquanto, se eu evangelizar, não tenho de que me gloriar; pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se eu não evangelizar” (I Coríntios IX, 16).

O SILÊNCIO QUANDO FOR OPORTUNO

A Igreja prescreve a todos os cristãos sete obras de misericórdia corporal (como dar de comer a quem tem fome) e espiritual (como consolar os tristes). Mas seria um absurdo que um católico fosse obrigado a dar de comer a todos os pobres e miseráveis da humanidade. Sabiamente a Igreja ensina que cada um é obrigado a cumprir estas obras de acordo com as circunstâncias: alimentar o mendigo que bate à porta de casa e consolar aquele que está de luto na família são ocasiões necessárias de praticar as obras de misericórdia.

É evidente que seria desastroso se um católico, pretendendo defender a Fé, argumentasse de forma impulsiva e precipitada. Isto certamente seria escandaloso para o não-católico, que se confundiria com o seu modo de agir agressivo. São Paulo queixa-se dos cristãos que dão mau exemplo, pois, por causa destes, muitos pagãos deixam de se converter e blasfemam contra o nome de Deus (cf. Romanos II, 24). Mas como foi afirmado no início das nossas reflexões, toda a virtude ou bem possui dois erros opostos—a falta e o excesso—, e assim como é impossível que um católico faça apostolado dando mau exemplo, do mesmo modo é impossível converter se ele for impulsivo, ainda que procure viver corretamente. Neste caso, o que falta a este católico precipitado é a virtude da prudência.

Se para cumprir uma obra de misericórdia a Igreja pede que o católico avalie as circunstâncias, o mesmo vale para ele defender conveniente e eficazmente a Fé. Sendo assim, calar-se não se torna um mal se for não para negar a Fé, mas para defendê-la sabiamente.

Há, portanto, ocasiões onde a verdade deve ser calada ou dita parcialmente, por uma razão de prudência. É um ato de caridade querer converter os que não vivem conforme a Fé católica, mas também é um ato de caridade falar convenientemente, a fim de que a verdade seja entendida sem escândalos.

Se o Sacramento da Crisma nos convoca a defender a Fé pelos dons do Espírito Santo e pelo caráter de soldado de Cristo que ele confere, no entanto o seu ritual não esquece que o calar-se também se insere nesta defesa.

Quando o Bispo confere o Crisma, ele dá um tapa na face do crismando, dizendo “Pax tecum”, a paz esteja contigo. Se o crismando revidar, comete pecado mortal por agredir fisicamente, e comete sacrilégio pessoal, por ofender uma pessoa sagrada, o Bispo. O tapa, no rito da Crisma, serve exatamente para ensinar a virtude da prudência: aquele que se torna soldado de Cristo deve estar preparado para aguentar as contradições, tribulações e humilhações, a fim de que haja sem se deixar vencer pela concupiscência ou pelo juízo temerário.

No Sermão da Montanha, o próprio Jesus declara: “não resistais ao que é mau, mas se alguém te ferir na tua face direita, apresenta-lhe também a outra” (Mateus V, 39). Cristo ensina que não devemos nos vingar do mau que nos fazem, e é aconselhável dar a outra face quando nos batem. Mas quando Cristo levou uma bofetada, reclamou ao invés de dar a outra face (João XVIII, 23). Estas atitudes, apesar de aparentarem serem contraditórias, possuem uma unidade: a prudência. Há momentos de bradar, mas há momentos de silenciar (cf. Eclesiastes III, 7). Cristo, prudentemente, sabia que não poderia ter dado a outra face ao soldado, que repetiria a bofetada. Se Ele o fizesse, estaria incentivando um pecado mortal. Na verdade, quando Ele manda dar a outra face, é para constranger aquele que bate, a fim de que perceba o seu erro.

Deixar de defender a Fé é trair a Deus, mas há pessoas que se escandalizariam se soubessem a verdade. Com estas pessoas, é indispensável que o católico haja com prudência. Então não se trata propriamente de “calar a verdade”, mas de dizê-la na medida exata e na ocasião propícia.

Jesus, no início da sua pregação, não permitia que os demônios que Ele expulsava dissessem que Ele era o Filho de Deus: “E de muitos saíam os demônios, gritando e dizendo: Tu és o Filho de Deus; mas ele, repreendendo-os, não lhes permitia dizer que sabiam que ele era o Cristo” (Lucas IV, 41). E, quando curava, não permitia que contassem o que Ele fez (cf. Mateus VIII, 4; IX, 30). Mas, ao fim do seu ministério, quando discutia com os doutores da Lei, Ele se proclamou ser Deus: Em verdade, em verdade vos digo que, antes que Abraão fosse feito, eu sou” (João VIII, 58). Claramente percebemos que Cristo oculta a sua Divindade no início da pregação, porque está preparando o povo para ouvir uma verdade que não seria compreendida desde cedo. Ele anunciou o Reino, fez milagres, profetizou e confirmou profecias que se cumpriam nEle, para assim poder, finalmente, se proclamar o Filho de Deus. Jesus, o Deus-Homem, usa da virtude da prudência: Ele não se calou, mas soube falar a verdade na ocasião exata, medindo as palavras de acordo com a capacidade de entendimento do povo.

E, quando pregava, Jesus dizia tudo em parábolas: “E, chegando-se a ele os discípulos, disseram-lhe: Por que razão lhes fala por meio de parábolas? E ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é concedido conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é concedido” (Mateus XIII, 10-11).

Certamente Deus quer que todos cheguem ao conhecimento da verdade (cf. I Timóteo II, 4), mas se um homem que vive em pecado ou falsidade souber a verdade tal qual ela é, ficaria escandalizado e não se converteria. O choque sofrido o faria repugnar o ensino da Igreja. Para evitá-lo, é necessário ensinar com prudência, para que a conversão seja eficaz.

Cristo foi prudente ensinando por parábolas, porque os humildes e puros de coração entendiam, enquanto que os maus se confundiam. Quem aprende a verdade e não pratica, será culpado do seu erro; mas um mal menor comete aquele que erra sem ter culpa (cf. Lucas XII, 47-48). Se Jesus ensinasse abertamente a verdade, muitos se escandalizariam e fugiriam da sua pregação. Mas, por parábolas, Cristo guardava o que é santo aos santos, evitando as blasfêmias dos maus. É um ato de caridade calar-se quando sabemos que ensinar determinada verdade vai escandalizar de tal modo a pessoa que ela jamais irá aceitá-la. Pela virtude da prudência, o ensino da verdade deve ser feito com paciência, a fim de que a doutrina da Igreja não choque.

Deus quer a salvação de todos, mas, para converter, devemos ensinar a verdade observando as circunstâncias. Pessoas apegadas ao mundo não mudarão seus hábitos com uma simples condenação que proferirmos de que ela comete pecado mortal e irá para o inferno. É necessário um ensino paciente e zeloso, a fim de que a conversão seja eficaz, e não traumática.

Quando os apóstolos perguntaram por que Cristo ensinava por parábolas, Ele respondeu: “porque a vós é concedido conhecer os mistérios do reino dos céus”. Jesus explicava o significado das parábolas aos apóstolos porque eles saberiam acatar os seus ensinamentos. O povo, porém, não ficaria sem a compreensão das verdades reveladas por Cristo.

Ao falar da vigilância, Jesus advertiu os apóstolos que sempre estes deveriam estar preparados, cuidando convenientemente dos bens do Senhor para não serem pegos de surpresa quando Ele voltar. Pedro pergunta se esta parábola era para eles ou para todos. “E o Senhor disse-lhes: Quem julgas que é o dispenseiro fiel e prudente que o Senhor pôs na sua família, para dar a cada um a seu tempo a ração de trigo?” (Lucas XII, 42).

Neste versículo Jesus profetiza a missão da Igreja: enquanto o Senhor não está entre seus filhos, a Igreja é a responsável em ensinar a verdade até que Ele venha. E assim como ninguém engole um pão por inteiro, porque irá se afogar, do mesmo modo, a verdade deve ser ensinada aos poucos, em migalhas, para que possa ser entendida. O mesmo Jesus que se proclamou Pão da vida (cf. João VI, 35) ensina a prudência aos sacerdotes, para que distribuam a ração de trigo, isto é, o alimento da verdade, de acordo com o tempo de cada um.

Não podemos fazer com que os relaxados e os ignorantes aprendam num só golpe. Calamos, quando vemos que não haverá fruto uma discussão. Falamos, quando é justo defender a Fé. Explicamos com parcimônia, para não escandalizar o próximo. Saber agir no momento oportuno, tendo controle sobre a própria língua é usar da prudência.

CONCLUSÃO

Defender a Fé não significa falar de forma intransigente, implacável e brutal. Porque, se não podemos nos calar sobre o que vimos e ouvimos (cf. Atos IV, 20), no entanto, a virtude da prudência nos ensina a falar com mansidão, paciência e sabedoria, dando de comer com o pão da verdade na ocasião certa.

A imprudência também está não só na intransigência, como no juízo temerário. Julgar ou pensar mal de alguém que faz o bem, esperando uma heresia ou falsidade só porque a pessoa não vive o Catolicismo em sua plenitude, também é imprudência, além de falta de caridade. O prudente julga corretamente as circunstâncias, e observa que até o herege é capaz de fazer o bem, pois, se objetivamente ele está errado, subjetivamente ele não percebe a sua heresia e pensa estar com a verdade.

Por último, uma das raízes da imprudência está na concupiscência. Depois do pecado de Adão, todos os homens herdam uma natureza decaída, com dificuldade de conhecer a verdade, inclinação para o mal e inexatidão para o cumprimento do bem. “Prudência é a faculdade de julgar retamente. Uma pessoa temperamentalmente impulsiva, propensa a ações precipitadas, a juízos instantâneos, terá de enfrentar a tarefa de tirar essas barreiras para que a virtude da prudência possa atuar nela efetivamente” (Padre Leo J. Trese, a Fé explicada). Neste caso, o imprudente deve pedir a Deus em suas orações o dom da sabedoria, pois quem tem sabedoria, tem os outros dons. Para julgar corretamente, é necessário pensar corretamente. Para que então a inteligência e a vontade hajam sem estar ofuscadas pelas suas paixões, a virtude da sabedoria serve de guia para a prudência.

BREVE EXAME DE CONSCIÊNCIA PARA O IMPRUDENTE

1) Examino a mim mesmo, e procuro descobrir os meus próprios defeitos e pecados nas minhas atitudes diárias. Sou impulsivo, agindo com precipitação, sem pensar calmamente? Deixo-me levar pelo entusiasmo? Sou implacável e intransigente, sem saber ter paciência com os outros?

2) Avalio as circunstâncias quando ajo? Quando quero defender a Fé, avalio se a pessoa que ouve entenderá e acatará o que falarei? Quando falo, avalio se a pessoa vai aceitar ou se escandalizar? Quando falo, avalio se aquela é a ocasião oportuna?

3) Meço as minhas palavras? Quero ensinar a Fé num só golpe ou procuro ensinar aos poucos, na medida em que a pessoa pode acatar? As pessoas com quem converso entenderão do que falo ou podem se confundir?

4) Penso o mal das outras pessoas quando as vejo fazendo o bem? Consigo aceitar o bem que as outras pessoas fazem, mesmo quando não praticam profundamente o Catolicismo? Suponho maldades de pessoas que estão se convertendo? Julgo sem ter como provar? Avalio as circunstâncias antes de julgar? Crio confusões e divisões por causa do que falo, o que leva as pessoas a permanecerem afastadas da Religião? Sempre espero o mal daqueles que praticam a Religião com menos fervor do que eu?

5) Deixo que meu “espírito cruzado” de defender a Fé aniquile em mim o bom senso? Suponho das coisas muito mais do que elas aparentam ser? Crio conspirações e invento hipóteses para supor um mal que não tenho como provar? Baseio-me nos fatos ou maquino explicações fantasiosas?

6) Penso no grau de consciência da verdade que as outras pessoas têm? Avalio o conhecimento e o desconhecimento da verdade que os outros possuem quando vou lhes explicar a Fé? Avalio se o que eu vou falar vai piorar ou melhorar a situação? Avalio se o que tenho a dizer constrói aos outros tanto quanto constrói a mim?

7) Peço, nas minhas orações, a virtude da sabedoria e da prudência? Procuro superar as minhas más inclinações? Procuro viver em mansidão e com espírito resignado? Falo mais do que devo ou guardo silêncio quando necessário?"

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 27

27) Como se chama o Filho de Deus feito homem?
O Filho de Deus feito homem chama-se Jesus Cristo.
Entre as muitas coisas que o anjo Gabriel disse a Maria, quando foi anunciar-lhe que ela seria a mãe do Filho de Deus, disse-lhe também estas: "Porlhe-ás o nome de Jesus" (Lucas 1,31).
A Virgem cumpriu esta ordem divina, porquanto, no oitavo dia do nascimento do Menino, foi Ele circuncidado e recebeu então o nome de Jesus.
Jesus significa Salvador, nome que exprime claramente a missão do Verbo encarnado entre os homens, pois Jesus veio para salvar os que estavam perdidos.
Jesus é também o Cristo, palavra grega que significa Messias, isto é, Enviado de Deus, Ungido do Senhor. É o nome mais santo, mais glorioso e mais suave que jamais foi pronunciado na Terra. É bálsamo para o coração, doçura para os lábios nas horas de dor e nas horas solenes da vida.
Em nome de Jesus, realizou São Pedro o prodígio que este quadro ilustra. Pedro e João ao saírem do templo, encontraram um pobre aleijado, que sempre o fora desde seu nascimento. Com as mãos estendidas pedia esmolas. Pedro olhou-o compadecido e disse-lhe: "Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: "Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda. E, dando um salto, pôs-se em pé e andava; e entrou com eles no templo, andando, saltando e louvando a Deus" (Atos, 3).
É sobre-humano, o poder do nome de Jesus!
"Porque sob o céu - afirma São Pedro - nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual nós devamos ser salvos" (Atos 4,12).

Matrimônio Cristão - Católico - Final 14/14

As leis civis
131. As leis civis podem, de fato, beneficiar muito esta gravíssima missão da Igreja, se em suas normas tiverem em conta o que prescreve a lei divina e eclesiástica e estabelecerem penas contra os transgressores. Há, em verdade, muitas pessoas que julgam ser-lhes lícito, ainda segundo a lei moral, o que é permitido pelas leis do Estado ou, pelo menos, por elas não é punido; há-as também que praticam ações, ainda contra a voz da consciência, por não temerem a Deus nem verem motivo para temer as leis humanas, pelo que freqüentemente são causa da ruína própria e de muitos outros.
132. Nem é de recear algum perigo ou diminuição nos direitos e na integridade da sociedade civil por virtude deste acordo com a Igreja, porque são insubsistentes e completamente vãs tais suspeitas e receios, como teve já ocasião de o demonstrar eloqüentemente Leão XIII: “Não há dúvida”, diz, “que Jesus Cristo, fundador da Igreja, quis o poder religioso distinto do civil e que um e outro tivessem no seu campo próprio completa e perfeita liberdade de ação, com a condição todavia de existir entre eles a união e a concórdia em mútua vantagem e da mais alta importância para todos os homens [...]. Se o poder civil estiver plenamente de acordo com o poder sagrado da Igreja, não pode deixar de daí derivar grande utilidade para ambos. De fato aumenta a dignidade do primeiro, e, sob a guia da religião, o seu governo nunca será injusto; ao do segundo oferecem-se auxílios de tutela e de defesa no interesse comum dos fiéis” (Enc. Arcanum, 10 de fevereiro de 1880).
Exemplo luminoso
133. E, para citar o exemplo luminoso de um fato recente que se deu de acordo com a ordem devida e a lei de Cristo, lembraremos que nas solenes convenções felizmente estipuladas entre a Santa Sé e o reino da Itália, ainda no que respeita ao matrimônio, se efetuou um acordo pacífico e uma cooperação amigável, como o exigiam a gloriosa história e as antigas tradições religiosas do povo italiano. E assim, de fato, se lê decretado nos Pactos Lateranenses o seguinte: “O Estado italiano, querendo restituir à instituição matrimonial, que é a base da família, a dignidade conforme às tradições do seu povo, reconhece efeitos civis ao Sacramento do matrimônio, regulado pelo direito canônico” (Concord., Art. 34: Acta Apost. Sed. XXI 1929, pág. 290), norma fundamental esta à qual posteriormente e de mútuo acordo se acrescentaram outras determinações.
134. Sirva isto de exemplo e argumento, nos mesmos tempos atuais (em que infelizmente com freqüência se vem pregando uma absoluta separação entre a autoridade civil e a da Igreja, ou antes, de qualquer religião), para demonstrar que os dois supremos poderes, sem detrimento algum recíproco dos próprios direitos e garantias soberanas, podem juntar-se e associar-se concordemente em pactos amigáveis, no interesse comum de uma e de outra sociedade, e que pode existir da parte dos dois poderes, a respeito do matrimônio, um cuidado comum, em virtude do qual sejam afastados das uniões conjugais cristãs perigos perniciosos, ou até a ruína já iminente.
CONCLUSÃO
135. Tudo isto, Veneráveis Irmãos, que convosco ponderamos atentamente, movidos pela solicitude pastoral, quereríamos que fosse largamente divulgado, segundo as normas da prudência cristã, entre todos os nossos diletos filhos diretamente confiados aos vossos cuidados, entre todos os membros da família cristã, a fim de que todos conheçam plenamente a sã doutrina acerca do matrimônio, se acautelem diligentemente dos perigos semeados pelos divulgadores de erros e, sobretudo, “renegada a impiedade e os desejos do mundo, vivam nesse mundo com temperança, com justiça e com piedade, ansiando pela bem-aventurada esperança e pela vinda da glória do grande Deus e Salvador nosso, Jesus Cristo” (Tito 2, 12-13).
136. Conceda-Nos o Pai Onipotente, “de quem toda a paternidade, tanto no céu como na terra, recebe o nome” (Ef 3, 15), que ajuda os débeis e anima os pusilânimes e os tímidos; conceda-Nos Cristo Senhor e Redentor, “instituidor e aperfeiçoador dos veneráveis Sacramentos” (Conc. Trident., sess. XXIV), que quer e fez o matrimônio à mística imagem da sua inefável união com a Igreja; conceda-Nos o Espírito Santo, Deus Caridade, fogo dos corações e vigor das inteligências, que o que expusemos na Nossa presente carta acerca do santo sacramento do matrimônio, da admirável lei e vontade divina que lhe diz respeito, dos erros e perigos que sobrevêm, e das medidas com que se podem evitar, seja perfeitamente compreendido, prontamente aceito e posto em prática com o auxílio da graça divina, de forma que floresça e prospere nos matrimônios cristãos a fecundidade oferecida a Deus, a fidelidade sem mancha, a inconcussa estabilidade, a santidade do sacramento e a plenitude das graças.
137. E para que Deus, que é o autor de todas as graças e a quem pertence todo o querer e realizar (Filip 2, 13), realize e se digne liberalizar tudo isto segundo a sua benignidade e onipotência, enquanto Nós, com toda a humildade, elevamos calorosas preces ao trono da sua graça, como penhor de copiosa bênção do mesmo Deus Onipotente, a Vós, Veneráveis Irmãos, ao clero e ao povo entregues aos vossos cuidados vigilantes e assíduos, concedemos de todo o coração a Bênção Apostólica.
138. Dado em Roma, junto de S. Pedro, no dia 31 de dezembro de 1930, nono ano do Nosso Pontificado.
Pio PP. XI.


* "Segundo um testemunho privado mas seguro, Pio XI se arrependeu de haver escrito esta frase na sua encíclica ao ver os abusos a que ela se prestava. Mas, examinando-a, vê-se que em absoluto não contradiz o que acabamos de expor: um filósofo distinguiria, apenas, a causa formal da causa final. No que se relaciona formalmente ao matrimônio, à união consumada e à vida de amor de dois seres humanos, o importante, diz-nos Pio XI, não é o elemento carnal, mas a edificação recíproca, o aperfeiçoamento mútuo. Apenas, não é esta a finalidade profunda da instituição como tal... Ainda que tivéssemos de concordar — e não cremos que seja este o caso — com a possibilidade de subsistir um equívoco na leitura desta passagem, isolada do conjunto da Encíclica, seu grande contexto esclareceria suficientemente. E, além disto, sua autêntica interpretação é dada pela tomada de posição posterior da Santa Sé. Deve-se considerar encerrado o debate.

Uma alma católica conservará reconhecida, dessas palavras, a perspectiva de luz aberta pela verdade básica do principado do filho na vida conjugal: o verdadeiro interesse por este é o critério decisivo na solução exata da maioria dos problemas e dos casos de consciência que possam a este respeito surgir

O pensamento católico sobre este ponto é, muitas vezes e em certos países, violentamente combatido. Talvez por não ser compreendido em sua pureza. Diminuirá ele, com efeito, a grandeza do amor conjugal não reconhecendo nele mesmo seu próprio fim? Como se este amor pudesse ser introvertido! A experiência psicológica prova a verdade da doutrina. As mais sadias almas sentem assim. É conhecida a famosa frase de Saint-Exupéry: ‘Amar não é olhar um para o outro, é um e outro olharem na mesma direção’. Gustave Thibon diz, igualmente: ‘Só um amor comum pode pôr em prova um amor recíproco’. E o mesmo filósofo faz esta terrível reflexão a propósito dos esposos malthusianos: ‘Um amor que tem o vazio como essência recusa, logicamente, ter o ser como resultado’" (M. A. Genevois O.P., O Casamento no Plano de Deus, 2a. ed., Rio de Janeiro, Agir, 1962, pp. 122-123.)

18 de outubro de 2009

"Deixai vir a mim as criancinhas ..." (Mateus, 19, 14) - Parte 26

26) Das três Pessoas da Santíssima Trindade houve alguma que encarnou e se fez homem?
Sim. Das três Pessoas da Santíssima Trindade encarnou e fez-se homem a segunda, isto é, o Filho.
A criação é obra de amor. Desde toda a eternidade, vivem as três divinas Pessoas imensamente felizes; mas quiseram que outras criaturas também participassem da sua beatitude. Foi então criado o homem, dotado de dons maravilhosos, colocado num paraíso de delícias, elevado à dignidade de filho de Deus e feito rei de toda a criação.
Deu-se, contudo, na história do homem, um lamentável acontecimento. Logo à primeira prova, deixou-se ele seduzir pelo diabo, desobedeceu ao Criador, tornando-se, pois, indgno da graça e da amizade de Deus. Foi por isso expulso do paraíso.
Tanto o pecado original como o mortal, sendo ofensa a um Deus infinito, revestem-se de malícia infinita, provocando da Justiça divina um castigo eterno. Poderia o homem, pobre criatura culpada, repará-lo? Nunca!
Só o amor infinito de Deus, que já criara o homem, poderia redimi-lo. A segunda Pessoa da Santíssima Trindade - o Filho de Deus - desceu à terra, revestiu-se da natureza humana, tomou um corpo e uma alma imortal e, tornando-se em tudo semelhante ao homem, sacrificou-se por ele, oferecendo-se ao Eterno Pai como vítima de expiação.
"Mas quando apareceu a bondade e o amor do Salvador, nosso Deus - diz São Paulo - salvou-nos mediante o batismo de regeneração e de renovação do Espírito Santo, que Ele difundiu sobre nós, abundantemente por Jesus Cristo, nosso Salvador" (Tito 3,4-5).