9 de fevereiro de 2009

REFLEXÕES SOBRE A MORTE DE JESUS CRISTO E A NOSSA - Santo Afonso Maria de Ligório

Reflexões sobre a morte de Jesus Cristo e a nossa

Santo Afonso Maria de Ligório


A morte de Jesus é nossa vida.

1. Escreve S. João que nosso Redentor, antes de expirar, inclinou a cabeça: “E tendo inclinado a cabeça, entregou seu espírito” (Jo. 19,30). Inclinou a cabeça para significar que aceitava a morte, com plena submissão, das mãos de seu Pai, a quem prestava humilde obediência. “Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Fl. 2,8). Jesus, estando na cruz com os pés e as mãos nela cravados, não tinha liberdade de mover outra parte do corpo além da cabeça. Diz S. Atanásio que a morte não ousava tirar a vida ao autor da vida e por isso foi preciso que ele mesmo, inclinando a cabeça (única parte que podia mover), chamasse a morte para que viesse tirar-lhe a vida (Qu. 6 Antioc.). Referindo-se a isso, diz S. Ambrósio que S. Mateus, falando da morte de Jesus, escreve: “Jesus, porém, clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito” (Mt. 27,50), para significar que Jesus não morreu por necessidade ou por violência dos carrascos, mas porque o quis espontaneamente, para salvar o homem da morte eterna a que ele estava condenado.


2. Isso já tinha sido predito pelo profeta Oséias: “Eu os livrarei das mãos da morte, eu os resgatarei da morte. Ó morte, eu serei a tua morte; ó inferno, eu serei a tua mordedura” (Os. 13,14). Os santos padres S. Jerônimo, S. Agostinho, S. Gregório e o próprio S. Paulo, como veremos brevemente, aplicam este texto literalmente a Jesus Cristo, que com sua morte nos livrou das mãos da morte, isto é, o inferno, onde se sofre uma morte eterna. No texto hebraico, como notam os intérpretes, em vez da palavra morte, está a palavra “sceol”, que significa inferno. Como se explica que Jesus Cristo foi a morte da morte? “Serei tua morte, ó morte!” Porque nosso Salvador com sua morte veio destruir a morte a nós devida pelo pecado. Por isso escreve o Apóstolo: “Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado” (1Cor. 15,54). O Cordeiro divino Jesus, com sua morte, destruiu o pecado, que era a causa da nossa morte, e esta foi a vitória de Jesus, pois que ele, morrendo, tirou do mundo o pecado e, conseqüentemente, nos livrou da morte eterna a que estava sujeito até então todo o gênero humano. A isso corresponde aquele outro texto do Apóstolo: “Para que pela morte destruísse aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio” (Hb. 2,14). Jesus destruiu o demônio, isto é, destruiu o poder do demônio, o qual em razão do pecado tinha o império da morte, a saber, tinha o poder de dar a morte temporal e eterna a todos os filhos de Adão, contaminados pelo pecado. E esta foi a vitória da cruz, na qual morrendo Jesus, que é o autor da vida, com a sua morte recuperou-nos a vida. Por isso canta a Igreja: “A vida suportou a morte e pela morte produziu a vida”. Isso tudo foi obra do amor divino, que como sacerdote sacrificou ao Eterno Pai a vida de seu Filho unigênito pela salvação dos homens. E assim canta igualmente a Igreja: “O amor, qual sacerdote, imola os membros do corpo sacrossanto”. S. Francisco de Sales exclamou: “Consideremos este divino Salvador estendido sobre a cruz, como sobre seu altar de amor, onde vai morrer por amor de nós. Ah, por que não nos lançamos também em espírito sobre a cruz, para morrer com ele, que quis morrer por amor de nós?” Sim, meu doce Redentor, eu abraço a vossa cruz e a ela abraçado quero viver e morrer, beijando sempre com amor vossos pés chagados e transpassados por mim.


Olhai para a face de vosso Cristo.

1. Mas, antes passar adiante, detenhamo-nos a contemplar o nosso Redentor já morto sobre a cruz. Digamos primeiro a seu divino Pai: “Padre eterno, olhai para a face do vosso Cristo”, vede que é o vosso único Filho, que, para cumprir com o vosso desejo de salvar o homem perdido, veio à terra, tomou a natureza humana e com ela todas as nossas misérias, exceto o pecado. Ele, enfim, se fez homem e quis passar toda a sua vida entre os homens como o mais pobre, o mais desprezado, o mais atribulado de todos, e chegou a morrer, como vedes, depois de os homens lhe haverem rasgado as carnes, ferido a cabeça com os espinhos e atravessado seus pés e mãos com os cravos na cruz. Nesse madeiro ele expira cheio de dores, desprezado como o homem mais vil do mundo, escarnecido como falso profeta, blasfemado como impostor sacrílego, por haver dito que era vosso filho; tratado e condenado a morrer como criminoso e dos mais celerados. Vós mesmo lhe tornastes a morte tão dura e desolada, privando-o de todo o alívio. Dizei-nos que delito cometeu contra vós esse vosso Filho tão querido, para merecer um castigo tão horrendo? Vós conheceis a sua inocência, a sua santidade; por que o tratais assim? Escuto a vossa resposta: “Por causa dos crimes de meu povo eu o feri”. Sim, ele não o merecia, nem podia merecer castigo algum sendo a inocência e santidade mesma. O castigo vos era devido por vossas culpas, pelas quais merecestes a morte eterna, e eu, para não vos ver a vós, minhas amadas criaturas, condenadas eternamente, para nos livrar de tão grande desgraça, entreguei este meu Filho a uma vida tão atribulada e a uma sorte tão acerba. Pensai, ó homens, até que ponto eu vos amei. “Assim Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho unigênito” (1Jo. 4,9).


2. Permiti que eu agora me volte para vós, Jesus, meu Redentor. Eu vos vejo sobre essa cruz, pálido e abandonado, sem fala e sem respiração, porque já não tendes mais vida; sem sangue, porque já o derramastes todo, como havíeis predito antes de vossa morte: “Este é o sangue do Novo Testamento, que será derramado por vós” (Mc. 14,24). Não tendes mais vida, porque a destes para que minha alma vivesse, porque o derramastes para lavar os meus pecados. Mas por que perdeis a vida e dais todo o vosso sangue por nós, míseros pecadores? S. Paulo dá-nos o porquê: “Ele nos amou e entregou-se a si

mesmo por nós” (Ef. 5,2).


Assim este divino sacerdote, que foi ao mesmo tempo sacerdote e vítima, sacrificando a sua vida pela salvação dos homens que amava, completou o grande sacrifício da cruz e concluiu a obra da redenção do gênero humano. Jesus Cristo, com sua morte tirou o horror à nossa morte: até então ela era unicamente o suplício dos rebeldes, mas, pela graça e méritos de nosso Salvador, tornou-se um sacrifício tão caro a Deus, que, se o unimos como o da morte de Jesus, nos fazemos dignos de gozar da mesma glória que goza Deus e de ouvir um dia como esperamos: “Entra no gozo de teu Senhor”.


Ó morte, onde está o teu aguilhão?

1. Se até então era a morte um objeto de dor e de terror, Jesus, morrendo, transformou-a em um trânsito do perigo de uma ruína eterna para a segurança de uma felicidade eterna e das misérias desta vida às delícias imensas do paraíso. Diz S. Agostinho que os amantes do crucifixo vivem com paciência e morrem com alegria. E, como a experiência nos mostra, as pessoas, que durante a vida foram mais atribuladas pelas perseguições, pelas tentações, pelos escrúpulos ou outros acontecimentos desagradáveis, são na morte as mais consoladas pelo crucifixo, vencendo com grande paz todos os temores e angústias da morte. E se algumas vezes aconteceu que alguns santos, como se lê em suas vidas, morreram com grande pavor da morte, o Senhor o permitiu para maior merecimento deles, pois o sacrifício, quanto mais penoso e duro, tanto mais grato a Deus e mais proveitoso para a vida eterna.


Oh! Como era acerba a morte dos antigos fiéis antes da morte de Jesus Cristo! Não havendo o Salvador ainda aparecido, suspirava-se por sua vinda e esperava-se por ele segundo a sua promessa, mas ignorava-se o quando, e o demônio tinha um grande poder sobre a terra, estando o céu fechado para os homens. Depois da morte do Redentor, porém, o inferno foi vencido, a graça divina foi conferida às almas, Deus se reconciliou com os homens inocentes ou expiaram suas culpas pela penitência. E se alguns, conquanto mortos em graça, não entram imediatamente no céu, isso é devido a seus defeitos ainda não inteiramente expiados: de resto, a morte nada mais faz que romper com seus laços para que livres possam unir-se perfeitamente com Deus, do qual vivem como que separados nesta terra de exílio.


Procuremos, pois, almas cristãs, enquanto neste exílio, olhar a morte, não como uma desgraça, mas como o fim de nossa peregrinação tão cheia de angústias e perigos e como princípio de nossa felicidade eterna, a qual esperamos alcançar um dia pelos merecimentos de Jesus Cristo. E com este pensamento do céu desprendamo-nos quanto possível dos objetos terrenos, que podem fazer-nos perder o céu e condenar-nos às penas eternas. Ofereçamo-nos a Deus, protestando querer morrer quando lhe aprouver, aceitando a morte da maneira e no tempo que para nós destinou, suplicando-lhe continuamente que, pelos merecimentos da morte de Jesus Cristo nos faça sair desta vida na sua graça.


2. Meu Jesus e meu Salvador, que para me obterdes uma boa morte escolhestes para vós uma tão penosa e desolada, eu me abandono inteiramente nos braços de vossa misericórdia. Há mais anos que deveria estar no inferno, pelas ofensas que vos fiz, separado para sempre de vós; vós, em vez de castigar-me, como eu merecia, me chamastes à penitência, e espero que a esta hora já me tenhais perdoado, mas, se ainda não me perdoastes por minha culpa, perdoai-me agora que, cheio de dor, me chego a vossos pés, pedindo misericórdia: desejaria meu Jesus, morrer de dores pensando nas injúrias que vos fiz. “O sangue do inocente lava as culpas do penitente”. Perdoai-me e dai-me a graça de amar-vos com todas as forças até à morte e, quando chegar o fim de minha vida, fazei-me morrer abrasado em amor por vós, para continuar a amar-vos eternamente. Desde já uno a minha morte à vossa santa morte, pela qual espero salvar-me. “Em vós, Senhor, eu esperei; não serei confundido eternamente”. Ó grande Mãe de Deus, vós sereis, depois de Jesus, a minha esperança. “Em vós, Senhora, eu esperei, não serei confundido eternamente”.

8 de fevereiro de 2009

CATECISMO ROMANO - A EUCARISTIA (PARTE 1)


DO SACRAMENTO DA EUCARISTIA
Catecismo Romano

Se entre todos os Sagrados Mistérios que Nosso Senhor e Salvador nos confiou, como meios infalíveis para conferir a divina graça, não há nenhum que possa comparar-se com o Santíssimo Sacramento da Eucaristia: assim também não há crime que faça temer pior castigo da parte de Deus, do que não terem os fiéis devoção e respeito na prática de um Mistério, que é todo santidade, ou antes, que contém em si o próprio autor e fonte da santidade.

Com muita perspicácia, alcançou o Apóstolo esta verdade e sobre ela nos advertiu em termos peremptórios. Tendo, pois, mostrado como era enorme o crime daqueles que não distinguem o Corpo do Senhor, acrescentou logo em seguida: "Por isso é que entre vós há tantos doentes e fracos, e muitos chegam a morrer" (I Cor XI, 30).

Os pastores devem, portanto, esmerar-se na exposição de todos os pontos doutrinários, que mais realcem a majestade da Eucaristia, para que o povo cristão, compreendendo que deve tributar honras divinas a este celestial Sacramento, consiga os mais abundantes frutos da graça, e aparte de si a justíssima cólera de Deus.

Para este fim, é necessário que os pastores comecem por explicar aos fiéis a instituição deste Sacramento. Sigam o exemplo de São Paulo Apóstolo, que afirmava só ter transmitido aos Coríntios o que recebera do Senhor (I Cor XI, 23ss).

Ora, o Evangelho indica-nos, claramente, como se operou essa instituição.

"Como, pois, o Senhor amava os Seus, amou-os até o extremo" (Jo XIII, 1). E, para lhes dar desse amor, uma admirável caução divina, sabendo que chegara a hora de partir deste mundo para o Pai, consumou o Mistério, a fim de que jamais Se apartasse dos Seus; [e fê-lo] por um recurso inexplicável, que transcende todas as leis da natureza.

Com efeito, depois de celebrar com os Discípulos a Ceia do Cordeiro Pascal, para que a figura cedesse lugar à verdade, e a sombra ao fato concreto, "tomou Ele o pão, deu graças a Deus, benzeu-o e partiu-o, distribuiu-o aos Seus Discípulos, pronunciando as palavras: Tomais e comei. Isto é o Meu Corpo, que vai ser entregue por amor de vós. Fazei isto em memória de Mim. Do mesmo modo, tomou também o cálice, depois da ceia, e disse: este Cálice é a nova Aliança no Meu Sangue. Fazei isto em Minha memória, todas as vezes que o beberdes" (Mt XXVI, 26; Lc XXII, 19ss; Mc XIV, 22; I Cor XI, 24ss).

Reconhecendo que uma só palavra não podia, de modo algum, exprimir a sublime dignidade deste admirável Sacramento, procuraram os sagrados autores interpretá-la por meio de várias designações.

Chama-lhe, às vezes, EUCARISTIA. É um termo que se traduz em vernáculo por "boa graça", ou também, "ação de graças". Como propriedade se diz que este Sacramento é "boa graça", não só por prefigurar a vida eterna, da qual está escrito: "A graça de Deus é a vida eterna" (Rm VI, 23): mas também por conter em si a Cristo Nosso Senhor, que é a graça por excelência e a fonte de todas as graças.

Não menos acertado é o sentido que se dá como "ação de graças", pois pela imolação desta Vítima puríssima rendemos, todos os dias, infinitas graças a Deus por todos os benefícios recebidos, sobretudo pelo inefável dom de Sua graça, que nos é outorgada neste Sacramento.

Esse nome condiz, perfeitamente, com tudo o que Cristo Nosso Senhor fez na instituição deste Mistério. É o que lemos na Sagrada Escritura, porquanto Davi, "Ele tomou o pão, partiu-o e rendeu graças" (Lc XXII, 19; I Cor XI, 23ss). O próprio abismado na contemplação [profética] deste grandioso Mistério, cantou o hino: "Misericordioso e compassivo, fez o Senhor um memorial de Suas maravilhas, e deu alimento aos que O temem" (Sl CX, 4); mas julgou necessário antepor-lhe uma ação de graças, e por isso exclamou: "Digna de louvor e grandiosa é a Sua obra" (Sl CX, 3).

É freqüente dar-se-lhe também o nome de SACRIFÍCIO. Só mais tarde é que falaremos deste Mistério com mais vagar.

Chama-se igualmente COMUNHÃO, termo que deriva positivamente da passagem do Apóstolo: "O cálice da bênção, que benzemos, não é porventura a comunhão do Sangue de Cristo? E o pão, que partimos, não é por certo a participação do Corpo de Cristo?" (I Cor X, 16).

Com efeito, no sentir de São João Damasceno, este Sacramento nos liga com Cristo, faz-nos participar de Sua Carne e Divindade, une-nos e congrega-nos uns aos outros, articula-nos, por assim dizer, num só corpo no mesmo Cristo.

Tal é também a razão de chamar-se SACRAMENTO DA PAZ E CARIDADE, para nos dar a entender quanto são indignos do nome cristão os que cultivam inimizades, e quanto se faz mister exterminar radicalmente os ódios, rixas e discórdias, como sendo a mais negra peste entre os cristãos; isto tanto mais, porque no Sacrifício cotidiano de nossa Religião prometemos fazer o maior esforço possível por conservar a paz e a caridade.

Muitas vezes, os autores sagrados dão-lhe também o nome de VIÁTICO, por ser o alimento espiritual que não só nos sustenta na peregrinação desta vida, como também nos prepara o caminho para a eterna glória e felicidade.

Por esta razão, vemos a Igreja Católica observar o antigo preceito, que nenhum dos fiéis deve morrer, sem a recepção deste Sacramento.

Os mais antigos Padres da Igreja estribavam-se na autoridade do Apóstolo, quando deram algumas vezes o nome de CEIA à Sagrada Eucaristia, pelo fato de que Cristo Nosso Senhor a instituiu durante os salutares mistérios da Última Ceia.

Com isso, porém, não se quer dizer que seja lícito consagrar ou receber a Eucaristia, depois que se tenha comido ou bebido alguma coisa. Conforme diziam os antigos escritores, foram os Apóstolos que introduziram o salutar costume, desde então sempre mantido e observado, que as pessoas só recebam a Comunhão em jejum natural.

Santo Inácio de Loyola: Exame de Consciência

Adaptado de Exercícios Espirituais, de Santo Inácio de Loyola: "EXAME GERAL DE CONSCIÊNCIA - PARA SE PURIFICAR E SE CONFESSAR MELHOR".

Modo de Fazer o Exame de Consciência


1.º: dar graças a Deus nosso Senhor pelos benefícios recebidos.
2.º: pedir graças para conhecer os pecados e rejeitá-los.
3.º: pedir conta a si mesmo desde a hora em que se levantou até o exame presente, hora por hora ou tempo por tempo, primeiro dos pensamentos, depois das palavras e em seguida das obras, pela mesma ordem que se disse no exame particular.
4.º: pedir perdão a Deus nosso Senhor das faltas.
5.º: propor emendar-se com a sua graça. Pai-nosso

A) Pensamentos

Pressuponho haver em mim três espécies de pensamentos, a saber: um é propriamente meu, e procede da minha liberdade e querer; e outros dois que vêm de fora, um do bom espírito e o outro do mau.

Há duas maneiras de merecer num mau pensamento que vem de fora:
1.ª: Vem, por exemplo, o pensamento de cometer um pecado mortal. Resisto prontamente a esse pensamento, e ele fica vencido.
2.ª: Quando me vem aquele mesmo mau pensamento e eu lhe resisto, e torna a vir, uma e outra vez, e eu resisto sempre, até que o pensamento fica vencido. Esta segunda maneira é de mais merecimento do que a primeira.

Peca-se venialmente quando vem o mesmo pensamento de pecar mortalmente e a pessoa lhe dá atenção, demorando-se algum tempo nele ou recebendo alguma deleitação sensível, ou havendo alguma negligência em rejeitar esse pensamento.
Peca-se mortalmente de dois modos:
1.º: quando se consente num mau pensamento, com a intenção de agir em seguida conforme consentiu, ou de o realizar se fosse possível.
2.º: quando se executa, de fato, esse pensamento. Isto é mais grave por três motivos: primeiro, por causa de sua maior duração; segundo, pela sua maior intensidade; terceiro, pelo maior dano para as duas pessoas.

B) Palavras

Não se deve jurar nem pelo Criador, nem pela criatura, a não ser com verdade, por necessidade e com reverência. "Por necessidade" entendo, não quando se afirma com juramento uma verdade qualquer, mas quando essa verdade é de certa importância para o proveito da alma, ou do corpo ou dos bens temporais. "Com reverência" entendo, quando o proferir o nome de seu Criador e Senhor se considera e se rende a honra e o respeito que lhe são devidos.

Não devemos dizer nenhuma palavra ociosa. Por palavra ociosa entendo aquela que não tem utilidade nem para mim, nem para outrem, nem se ordena a tal fim. De forma que não pe palavra ociosa falar daquilo que aproveita, ou se diz com intenção de aproveitar à própria alma, ou à de outro, ao corpo ou aos bens temporais, mesmo que se fale de assuntos estranhos a própria profissão, como um religioso a tratar de guerras ou de comércio. Em resumo, podemos dizer que há mérito quando as palavras são inspiradas por uma boa intenção, e pecado quando por uma intenção repreensível ou se se falar em vão.

Nada se deve dizer para difamar ou murmurar, porque se se revela um pecado mortal que não seja público, peca-se mortalmente; e venialmente, se se revela um pecado venial; e se se descobre um defeito, mostra-se um defeito próprio.

Se é reta a intenção, em dois casos se pode falar do pecado ou falta de outrem:
1.º: quando o pecado é público, por exemplo, tratando-se de uma pessoa de má vida e conhecida por tal, ou de uma sentença dada em juízo; ou de um erro público que corrompe as almas daqueles com quem se trata.
2.º: quando se revela a alguém um pecado oculto, para que ele ajude o pecador a levantar-se, desde que haja esperança ou razões fundadas de que ele possa ser útil.

C) Obras

Tomando por objeto de exame os dez mandamentos, os preceitos da Igreja e as ordens dos superiores, tudo o que se faz contra qualquer destas três matérias é pecado mais ou menos grave, conforme for maior ou menor a sua importância.

7 de fevereiro de 2009

REZEMOS PELO PAPA


ORAÇÃO PELO SANTO PADRE
Ó Jesus, cabeça invisível da Santa Igreja, que a fundastes sobre uma firme pedra, e prometestes que as portas do inferno não prevalecerão nunca contra ela, conservai, fortificai e guiai aquele que lhes destes por cabeça visível. Fazei que ele seja o modelo do vosso rebanho, assim como é o seu pastor. Seja ele o primeiro por sua santidade, doutrina e paciência, assim como o é por sua alta dignidade; seja ele o divino Vigário de vossa caridade, assim como o é da vossa autoridade. Inspirai-lhe zelo ardente de vossa glória, da salvação das almas e da santa religião. Dai-lhe coragem invencível para combater os inimigos de Vosso Nome, e firmeza inabalável para opor-se aos estragos do erro e da impiedade. Dai-lhe a plenitude de vosso espírito, para conduzir a barca agitada de vossa Santa Igreja através dos escolhos que a cercam.

Consolai seu coração aflito, sustentai sua alma abatida, fazei voltarem suas ovelhas desgarradas. Ajudai-lhe a levar o peso da sua alta dignidade e de todos os trabalhos que a acompanham. Dignai-Vos, ó meu Deus, escutar benigno os votos que Vos dirigimos por ele, e concedei-lhe longos anos, para aumentar a vossa glória e o triunfo da vossa santa religião.

- Oremos pelo nosso Sumo Pontífice, o Papa BENTO XVI.
- O Senhor o conserve, vivifique e beatifique na terra, e não o entregue às mãos de seus inimigos. Amém.

Pai-Nosso
Ave-Maria
Glória

Jesus, Nosso Senhor, cobri com a proteção do vosso Divino Coração o nosso santíssimo Padre, o Papa BENTO XVI, e sede sua luz, sua força e seu consolo. Amém.

ROMANO PONTÍFICE


PRIMAZIA E INFALIBILIDADE DO PAPA
A.Boulenger
(Doutrina Católica – Manual de Instrução Religiosa – O Dogma)



I. PRIMAZIA


a) Jesus Cristo deu a São Pedro primazia de jurisdição, não apenas de honra. Foi São Pedro nomeado chefe supremo da Igreja. Isso consta:


1. das palavras que pronunciou Nosso Senhor prometendo esta supremacia. Certa ocasião, São Pedro acabava de confessar a divindade de Jesus. Este então respondeu: "E eu te digo que tu és Pedro, e sobre ti edificarei a minha Igreja e nunca jamais prevalecerão contra ela as portas do Inferno. E dar-te-ei as chaves do reino dos céus. Tudo quanto ligares na terra será ligado nos céus, e quanto desligares na terra, será desligado nos céus" (Mt XVI, 18-19). Se há de ser Pedro o fundamento da Igreja, se há de receber as chaves, emblema do poder, logo se vê que isto é mesmo primazia que se lhe promete;


2. das palavras Nosso Senhor pronuncia cumprindo a promessa. Era depois da Ressurreição. Cristo dirige-se a São Pedro por duas vezes dizendo: "Apascenta meus cordeiros". Na terceira vez fala: "Apascenta minhas ovelhas". Assim recebe São Pedro o encargo de tomar conta do rebanho todo: cordeiros e ovelhas. Logo, é feito pastor e chefe supremo da Igreja inteira;


3. do próprio exercício da primazia. Depois da Ascensão, o papel assumido por São Pedro é de chefe. Propõe a eleição de outro apóstolo para substituir Judas (At I, 15, 22). Antes de todos, prega o Evangelho no dia de Pentecostes (At II, 14). Embora seja São Tiago o bispo de Jerusalém, é São Pedro quem preside ao Concílio celebrado nesta cidade (At XV). Os Evangelistas o nomeiam primeiro. E também o grande São Paulo , o Apóstolo, pensa que se deve apresentar a ele, como subordinado a seu superior hierárquico (Gl I, 18; II, 2). Evidentíssimo, portanto, que os Apóstolos não tiveram nunca a mínima dúvida acerca da primazia de São Pedro (nas pinturas, baixos relevos e monumentos do 1º século, São Pedro vem representado com as insígnias que simbolizam a primazia: chaves e tiara. Ele a traz sempre, quando os demais Apóstolos estão com a cabeça descoberta).


b) Os Bispos de Roma são sucessores de São Pedro relativamente à primazia. Este artigo de fé foi definido pelo Concílio do Vaticano, sessão IV. Tem como base um duplo argumento:


1. a natureza das coisas. A meta de Nosso Senhor, quanto estabeleceu a primazia de Pedro, era assegurar a unidade e a estabilidade de sua Igreja. Ora, esta não havia de sumir-se com a morte de São Pedro, é claro. Logo, devia passar o encargo a seus sucessores. E está certo historicamente que São Pedro tomou, para sede episcopal, a cidade de Roma. Daí resulta que é o Bispo de Roma quem lhe deve herdar o privilégio;


2. o testemunho da história. Com efeito, por ela sabemos que a primazia dos bispos de Roma foi aceita e acatada:


a) elos escritores eclesiásticos como Santo Inácio (t 107). Santo Irineu (t 202), Tertuliano (t 245), etc.; declarando todos que o bispo de Roma possui a supremacia, porque é sucessor de Pedro;


b) pelos concílios. Por exemplo, os Padres do Concílio de Calcedônia, em 451, enviam ao Papa Leão uma carta pedindo confirmação dos decretos por eles emitidos. Sucessivamente os concílios de Constantinopla, o 3º realizado em 680, o 4º, em 869, o concílio de Florença em 1439, composto de Padres gregos e latinos, proclamam a primazia do sucessor de São Pedro e dizem que Jesus Cristo deu a este sucessor, na pessoa de Pedro, "plenos poderes para apascentar, dirigir e governar a Igreja inteira";


c) pelo costume de apelar para o Bispo de Roma, afim de terminar contendas. Assim, já no primeiro século, São Clemente escreve à Igreja de Corinto, para acabarem com uma discussão, e isto fez o Papa, estando vivo ainda o Apóstolo São João. Santo Atanásio e São Crisóstomo recorrem ao Papa para defesa e amparo de direitos. Amiudadas vezes, os próprios bispos do Oriente dirigiram-se ao bispo de Roma reclamando a proteção dele;


d) a história certifica, mais, que os Papas sempre tiveram consciência deste papel de sucessores de São Pedro na primazia e sempre timbraram em exercer a jurisdição que tinham sobre toda a Igreja. No século II, o papa Vítor ordena aos bispos da Ásia, sob pena de excomunhão, que adotem o uso comum da Igreja para a celebração da festa da Páscoa. No século III, o papa Estêvão proíbe aos bispos da África e da Ásia que tornem a batizar os que já tinham sido batizados pelos hereges.


II. INFALIBILIDADE


Jesus Cristo deu a São Pedro e a seus sucessores o privilégio da infalibilidade. É, com efeito, este privilégio um corolário da primazia. Decorre:


a) da missão confiada a Pedro por Nosso Senhor. A obrigação de São Pedro é apascentar todo o rebanho (Jo XXI, 16); é confirmar seus irmãos na fé (Lc XXII, 32). Na mesma hora em que Jesus coloca à frente da Igreja, afirma-lhe que orou por ele "afim de que não desfaleça a sua fé" (Lc XXII, 32) e que nada tem que temer pela sorte da Igreja entregue a seus desvelos, porque nunca jamais hão de prevalecer contra ela as portas do Inferno ( Mt XVI, 18). Promessas tão positivas falhariam, caso fosse sujeito a errar no ensino, esse mesmo que tem de ser base do edifício;


b) da crença da antigüidade. É fato histórico averiguado que a infalibilidade doutrinal do Papa foi reconhecida na Igreja desde as origens. Limitemo-nos a poucos exemplos. Santo Irineu declara que todas as igrejas precisam afinar com a de Roma, única que possui a verdade integral; a mesma prerrogativa atribui São Cipriano à Igreja de Roma. A convicção de Santo Agostinho, no tocante à infalibilidade das definições do Pontífice Romano, não era menos forte. Num discurso que fez ao povo, vemos que não hesitou em afirmar que terminou a controvérsia sobre o pelagianismo graças à sentença que o Papa Santo Inocêncio I tinha pronunciado.


Logo, concluir-se-á com os argumentos da razão e da história que Jesus Cristo realmente fundou uma Igreja e que esta Igreja é uma sociedade hierárquica a cuja frente Ele colocou um chefe único e infalível.

5 de fevereiro de 2009

TEMPO LITÚRGICO


DOS DOMINGOS DA SEPTUAGÉSIMA, SEXAGÉSIMA E QÜINQUAGÉSIMA
Catecismo Maior de São Pio X

Chamam-se domingos da Septuagésima, da Sexuagésima e da Qüinquagésima o sétimo, o sexto e o quinto Domingo antes do domingo da Paixão.

A Igreja, desde o Domingo da Septuagésima até o Sábado Santo, omite nos ofícios divinos o Aleluia, que é o grito de alegria, e usa os paramentos de cor roxa, cor de tristeza, para com estes sinais de tristeza afastar os fiéis das vãs alegrias do mundo, e para levá-los ao espírito de penitência.

Nos ofícios da semana da Septuagésima a Igreja apresenta-nos a queda dos nossos primeiros pais, e o seu justo castigo; nos da semana da Sexagésima apresenta-nos o dilúvio universal, mandado por Deus para castigo dos pecadores; nos dos três primeiros dias da semana da Qüinquagésima apresenta-nos a vocação de Abraão, e a recompensa concedida por Deus à sua obediência e à sua fé.

Neste tempo mais do que em qualquer outro, vêem-se tantas desordens em muitos cristãos por maldade do demônio, que, desejando contrariar os desígnios da Igreja, faz seus maiores esforços para levar os cristãos a viver segundo os ditames do mundo e da carne.

Para nos conformarmos com os desígnios da Igreja no tempo do carnaval, devemos afastar-nos dos espetáculos e divertimentos perigosos, e aplicar-nos com maior diligência à oração e à mortificação, fazendo alguma visita extraordinária ao Santíssimo Sacramento, sobretudo quando está exposto à adoração pública; e isto para reparar as grandes desordens com que Deus é ofendido neste tempo.

Quem por necessidade tiver de assistir a algum divertimento perigoso do carnaval, deve implorar o auxílio da graça, para evitar todo o pecado; depois ir ao divertimento com grande modéstia e recato, e recolher o espírito na consideração de algum máxima do Evangelho.

SANTÍSSIMA EUCARISTIA

A SANTÍSSIMA EUCARISTIA
Catecismo Maior de São Pio X

1. DA NATUREZA DA SANTÍSSIMA EUCARISTIA E DA PRESENÇA REAL DE JESUS CRISTO NESTE SACRAMENTO
A Eucaristia é um Sacramento que, pela admirável conversão de toda a substância do pão no Corpo de Jesus Cristo, e de toda a substância do vinho no seu precioso Sangue, contém verdadeira, real e substancialmente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade do mesmo Jesus Cristo Nosso Senhor, debaixo das espécies de pão e de vinho, para ser nosso alimento espiritual.

Na Eucaristia está verdadeiramente o mesmo Jesus Cristo que está no Céu e que nasceu, na terra, da Santíssima Virgem Maria.

Eu acredito que no Sacramento da Eucaristia está verdadeiramente presente Jesus Cristo porque Ele mesmo o disse, e assim no-lo ensina a Santa Igreja.

A matéria do Sacramento da Eucaristia é a que foi empregada por Jesus Cristo, a saber: o pão de trigo e o vinho de uva.

A forma do Sacramento da Eucaristia são as palavras usadas por Jesus Cristo: ‘Isto é o meu Corpo; este é o meu Sangue.

A hóstia antes da consagração é pão de trigo. Depois da consagração, a hóstia é o verdadeiro Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, debaixo das espécies de pão.

No cálice antes da consagração está vinho com algumas gotas de água. Depois da consagração, há no cálice o verdadeiro Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, debaixo das espécies de vinho.

A conversão do pão no Corpo e do vinho no Sangue de Jesus Cristo faz-se precisamente no ato em que o sacerdote, na Santa Missa, pronuncia as palavras da consagração.

A consagração é a renovação, por meio do sacerdote, do milagre operado por Jesus Cristo na última Ceia, quando mudou o pão e o vinho no seu Corpo e no seu Sangue adorável, por estas palavras: ‘Isto é o meu Corpo; este é o meu Sangue’.

Esta miraculosa conversão, que todos os dias se opera sobre os nossos altares, é chamada pela Igreja transubstanciação.

Foi o mesmo Jesus Cristo Nosso Senhor, Deus onipotente, que deu tanta virtude às palavras da consagração.

Depois da consagração ficam só as espécies do pão e do vinho. Dizem-se espécies a quantidade e as qualidades sensíveis do pão e do vinho, como a figura, a cor e o sabor. As espécies do pão e do vinho ficam maravilhosamente sem a sua substância por virtude de Deus Onipotente.

Tanto debaixo das espécies de pão, como debaixo das espécies de vinho, está Jesus Cristo vivo e todo inteiro com seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Tanto na hóstia como no cálice está Jesus Cristo todo inteiro, porque Ele está na Eucaristia vivo e imortal como no Céu; por isso onde está o seu Corpo, está também o seu Sangue, sua Alma e sua Divindade; e onde está seu Sangue está também seu Corpo, sua Alma e Divindade, pois tudo isto é inseparável em Jesus Cristo.

Quando Jesus está na hóstia, não deixa de estar no Céu, mas encontra-se ao mesmo tempo no Céu e no Santíssimo Sacramento.

Jesus Cristo está em todas as hóstias consagradas por efeito da onipotência de Deus, a quem nada é impossível. Quando se parte a hóstia, não se parte o Corpo de Jesus Cristo, mas partem-se somente as espécies do pão. O Corpo de Jesus Cristo fica inteiro em todas e em cada uma das partes em que a hóstia foi dividida. Tanto numa hóstia grande como na partícula de uma hóstia, está sempre o mesmo Jesus Cristo.

Conserva-se nas igrejas a Santíssima Eucaristia para que seja adorada pelos fiéis, e levada aos enfermos, quando necessário.

A Eucaristia deve ser adorada por todos, porque Ela contém verdadeira, real e substancialmente o mesmo Jesus Cristo Nosso Senhor.
2. DA INSTITUIÇÃO E DOS EFEITOS DO SACRAMENTO DA EUCARISTIA

Jesus Cristo instituiu o Sacramento da Eucaristia na Última Ceia que celebrou com seus discípulos, na noite que precedeu sua Paixão. Jesus Cristo instituiu a Santíssima Eucaristia por três razões principais:
1. para ser o sacrifício da Nova Lei;
2. para ser alimento da nossa alma;
3. para ser um memorial perpétuo da sua Paixão e Morte, e um penhor precioso do seu amor para conosco e da vida eterna.

Jesus Cristo instituiu este Sacramento debaixo das espécies de pão e de vinho porque a Eucaristia devia ser nosso alimento espiritual, e era por isso conveniente que nos fosse dada em forma de comida e de bebida.

Os principais efeitos que a Santíssima Eucaristia produz em quem a recebe dignamente são estes:
1. conserva e aumenta a vida da alma, que é a graça, assim como o alimento material sustenta e aumenta a vida do corpo;
2. perdoa os pecados veniais e preserva dos mortais;
3. produz consolação espiritual.

A Santíssima Eucaristia produz em nós outros três efeitos, a saber:
1. enfraquece as nossas paixões, e em especial amortece em nós o fogo da concupiscência;
2. aumenta em nós o fervor e ajuda-nos a proceder em conformidade com os desejos de Jesus Cristo;
3. dá-nos um penhor da glória futura e da ressurreição do nosso corpo.
3. DAS DISPOSIÇÕES NECESSÁRIAS PARA BEM COMUNGAR

Para fazer uma comunhão bem feita, são necessárias três coisas:
1. estar em estado de graça;
2. estar em jejum desde a meia-noite até o momento da comunhão* (*esta lei não está mais em vigor, bastanto, atualmente, o jejum de uma hora);
3. saber o que se vai receber e aproximar-se da sagrada comunhão com devoção";

"Estar em estado de graça" quer dizer: ter a consciência limpa de todo o pecado mortal.

Quem sabe que está em pecado mortal deve fazer uma boa confissão antes de comungar; porque para quem está em pecado mortal, não basta o ato de contrição perfeita, sem a confissão, para fazer uma comunhão bem feita. A Igreja ordenou, em sinal de respeito a este Sacramento, que quem é culpado de pecado mortal não ouse receber a Comunhão sem primeiro se confessar.

Quem comungasse em pecado mortal receberia a Jesus Cristo, mas não a sua graça; pelo contrário, cometeria sacrilégio e incorreria na sentença de condenação.

O jejum eucarístico consiste em abster-se de qualquer espécie de comida ou bebida** (**exceto a água natural). Quem engoliu restos de comida presos aos dentes pode comungar, porque já não são tomados como alimentos ou perderam tal condição. Comungar sem estar em jejum é permitido aos doentes que estão em perigo de morte, e aos que obtiveram permissão especial do Papa em razão de doença prolongada. A comunhão feita pelos doentes em perigo de morte chama-se Viático, porque os sustenta na viagem que eles fazem desta vida à eternidade.

"Saber o que vai receber" quer dizer: conhecer o que ensina com respeito a este Sacramento a Doutrina Cristã e acreditá-lo firmemente.

"Comungar com devoção" quer dizer: aproximar-se da sagrada Comunhão com humildade e modéstia, tanto na própria pessoa como no vestir, e fazer a preparação antes e a ação de graças depois da Comunhão.

A preparação antes da Comunhão consiste em nos entretermos algum tempo a considerar quem é Aquele que vamos receber e quem somos nós; e em fazer atos de fé, de esperança, de caridade, de contrição, de adoração, de humildade e de desejo de receber a Jesus Cristo.

A ação de graças depois da Comunhão consiste em nos conservarmos recolhidos a honrar a presença do Senhor dentro de nós mesmos, renovando os atos de fé, de esperança, de caridade, de adoração, de agradecimento, de oferecimento e de súplica, pedindo sobretudo aquelas graças que são mais necessárias para nós e para aqueles por quem somos obrigados a orar.

No dia da Comunhão deve-se manter, o mais possível, o recolhimento, e ocupar-se em obras de piedade, bem como cumprir com grande esmero os deveres de estado.

Depois da sagrada Comunhão, Jesus Cristo permanece em nós com a sua graça enquanto não se peca mortalmente; e com a sua presença real permanece em nós enquanto não se consomem as espécies sacramentais.
4. DA MANEIRA DE COMUNGAR

No ato de receber a sagrada Comunhão, devemos estar de joelhos, com a cabeça medianamente levantada, com os olhos modestos e voltados para a sagrada Hóstia, com a boca suficientemente aberta e com a língua um pouco estendida sobre o lábio inferior. Senhoras e meninas devem estar com a cabeça coberta.

A toalha ou a patena da Comunhão deve-se segurar de maneira que recolha a sagrada Hóstia, caso ela venha a cair.
Devemos procurar engolir a sagrada Hóstia o mais depressa possível, e convém abster-nos de cuspir algum tempo. Se a sagrada Hóstia se pegar ao céu da boca, é preciso despegá-la com a língua, nunca porém com os dedos.
5. DO PRECEITO DA COMUNHÃO

Há obrigação de comungar todos os anos pela Páscoa, na própria paróquia, e, além disso, em perigo de morte. O preceito da Comunhão pascal começa a obrigar na idade em que a criança é capaz de recebê-la com as devidas disposições.

Aqueles que, tendo a idade capaz para serem admitidos à Comunhão, não comungam, ou porque não querem ou porque não estão instruídos por sua própria culpa, pecam sem dúvida. Pecam igualmente os seus pais, ou quem lhes faz as vezes, se o adiamento da Comunhão se dá por sua culpa, e hão de dar por isso severas contas a Deus.

É coisa ótima comungar freqüentemente e até todos os dias, contanto que se faça com as devidas disposições. Pode-se comungar tão freqüentemente quanto o permita o conselho de um confessor piedoso e douto.

SERMO XIV: DAS VESTES SAGRADAS, POR OCASIÃO DE UM SÍNODO, OU DA FESTA DE SACERDOTES CONFESSORES - HUGO DE SÃO VICTOR

HUGO DE SÃO VICTOR
SERMO XIV
DAS VESTES SAGRADAS, POR OCASIÃO DE UM SÍNODO, OU DA FESTA DE SACERDOTES CONFESSORES
(Sermone Centum)

"Revistam-se, ó Senhor, os teus sacerdotes de justiça".
Salmo 131, 9

É necessário, irmãos caríssimos, que nós que exercemos o sacerdócio na casa de Deus vivamos neste sacerdócio uma digna justiça e nos revistamos, neste ofício, com vestes honestas, ou melhor, que exerçamos as virtudes que são significadas por estas vestes. De que nos aproveitará, efetivamente, que nos ornamentemos com as vestes, se não nos ornamentarmos com as virtudes?

Se víssemos um sacerdote celebrar a missa sem as vestimentas sacerdotais, sem alba, sem estola, sem insígnias sacerdotais, certamente isto nos admiraria muito e com grande horror detestaríamos semelhante ministro. Se, portanto, deve ser detestado quem se aproxima do altar sem as vestes adequadas, quão detestável e quão horrível não será quem presumir aproximar-se dele repleto de vícios e carecendo de virtudes?

Tanto quanto difere qualquer prato da comida, tanta é a diferença entre o que significa e o significado. As vestes significam, as virtudes são significadas. As vestes ornamentam exteriormente diante do povo, as virtudes recomendam o ministro interiormente diante de Deus. Assim como, portanto, não ousamos aproximar-nos do altar sem as vestes, assim também não presumamos aproximar-nos sem virtudes.

Examinemos, portanto, quais são estas vestes, e quais são as virtudes por elas significadas.

As vestimentas são a alba interior e a alba exterior; o amito sobre os ombros, que podemos chamar de super humeral; o cíngulo, a estola, o manípulo, a casula.

Antes de tudo o mais o sacerdote deve depor suas vestimentas habituais, lavar as mãos e revestir-se de vestimentas brancas. Depor as vestimentas habituais significa a renúncia ao homem velho, a ablução das mãos significa a confissão dos crimes e a tomada das novas vestimentas a prática das virtudes.

A alba interna é o interior, a externa o exterior. Aquela permanece oculta, esta é manifesta. Aquela se esconde, esta se revela. Por causa disto a interior significa a pureza do coração, a exterior a pureza do corpo.

O super humeral, que é colocado sobre os ombros, onde costumam colocar-se os pesos, significa a paciência nos trabalhos presentes, que nos é necessária se quisermos ser verdadeiros sacerdotes. De onde que, dos que a perderam está escrito:

"Ai dos que perderam a paciência".
Ecl. 2, 16

E o Senhor, louvando no Evangelho a paciência, diz:

"Na vossa paciência possuireis as vossas almas".
Luc. 21, 19

Sustentemos, portanto, irmãos, tudo o que nos suceder de adverso, para que

"assim como recebemos os bens da mão de Deus, assim também haveremos de receber os males".
Jó 2, 10

O cíngulo, que circunda os rins e estreita as vestimentas para que não esvoacem, sugere a virtude da continência, que refreia o fluxo lascivo de nossa luxúria.

A estola, que é colocada ao pescoço, designa o suave jugo do Senhor, do qual o Senhor nos diz no Evangelho:

"O meu jugo é suave e o meu fardo é leve".
Mat. 11, 30

Segue-se-lhe o manípulo, que pende do braço esquerdo, que nada mais denota do sacramento, senão ser ali colocado como uma cautela, para que o sacerdote não faça nada em seu ministério sem cautela e com negligência, mas realize tudo com diligência, como alguém que está na presença de Deus e dos santos anjos. Significa, portanto, a cautela pela qual evitamos o que devemos evitar e fazemos o que devemos fazer.

O ministro do Senhor, revestido e adornado com todas estas coisas, ainda não está apto para o ofício sacerdotal, nem presume cumprí-lo se não acrescentar e superpor a todas estas uma sétima, que é dita casula. Esta vestimenta é mais excelente que as demais e mais eminente do que todas. Que virtude diremos ser significada por ela, senão a caridade, da qual diz o Apóstolo:

"Vou mostrar-vos um caminho ainda mais excelente. Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como um bronze que soa ou como um címbalo que tine",
I Cor. 12, 31-13, 1

palavras que vossa fraternidade bem conhece. Ele, de quem era bem evidente possuir tantos dons espirituais e virtudes, diz todavia da caridade:

"Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, ainda que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, ainda que tivesse toda a fé, a ponto de transportar os montes, ainda que distribuísse todos os meus bens e entregasse meu corpo para ser queimado, se não tivesse caridade, nada me aproveitaria".
1 Cor. 13, 1-3

Bem aventurada virtude da caridade! E bem aventurado será somente aquele que até o fim nela perseverar. Quem, portanto, com as demais virtudes possuir a caridade, este é sacerdote. E quem, ainda que possua as demais sem ela, sacerdote não é.

Se queremos, portanto, e o devemos, ser verdadeiros sacerdotes, tenhamos a alba interior pela pureza do coração e a exterior pela pureza do corpo; o super humeral pela paciência, o cíngulo pela continência, a estola pela obediência, o manípulo pela cautela, a casula pela caridade fraterna. Armados com tudo isto, ofereçamos santa e religiosamente o holocausto ao Senhor e de nós será dito o que está escrito:

"Vós sois gente eleita, sacerdócio real".
1 Pe. 2, 9

Tais foram os santos cuja solenidade hoje celebramos. Tais, irmãos caríssimos, procuremos ser, para que nos revistamos de justiça, e tornados com eles participantes dos méritos, mereçamos também tornar-nos sócios dos prêmios.

Que pelos seus méritos e por sua intercessão aquele que vive e reina se digne vir em nosso auxílio.