26 de janeiro de 2009

SINOS: O TOQUE DO ÂNGELUS

Texto de sua Reverendíssima, Mons. Jean-Joseph Gaune, disponibilizado por Santiago Fernandez, em seu blog Orações e Milagres Medievais.

O Ângelus compõe-se de duas partes essenciais: a oração e o som do sino. O sino dá ao Ângelus uma solenidade excepcional.

Por que o sino toca o Ângelus de manhã, ao meio-dia e à tarde? Por ordem da Igreja Católica, cumpre a palavra do rei profeta: "À tarde, de manhã e ao meio-dia, cantarei os louvores de Deus, e Deus ouvirá a minha voz".

À tarde, canta o princípio da Paixão do Redentor no Jardim das Oliveiras. De manhã, a sua Ressurreição, e ao meio-dia a sua Ascensão.

De manhã, dá o sinal do despertar, da oração e do trabalho. Ao meio-dia, adverte o homem de que a metade do dia é passada, e que a sua vida não é mais que um dia.

À tarde, toca ao recolhimento e ao repouso. Diz ao homem: faze tuas contas com Deus, pois esta noite talvez Ele exigirá a tua alma.

Fazendo ouvir a sua voz três vezes por dia, recorda aos cristãos as lembranças de um glorioso passado, essas belicosas expedições, a honra eterna dos Papas, que salvaram o Ocidente da barbárie muçulmana.

Toca três vezes, para recordar as três Pessoas da Trindade, às quais o mundo é devedor da Encarnação.

Toca nove vezes, em honra dos nove coros de anjos, para convidar os habitantes da Terra a abençoar com eles o seu comum benfeitor.

Entre cada tinido - ou melhor, entre cada suspiro - deixa um intervalo, para que sua voz desça mais suavemente ao coração e desperte com mais segurança o espírito de oração.

Por que, depois do tinido do Ângelus, o sino faz ribombar sua voz? Canta uma dupla redenção: a redenção dos vivos, pelo mistério da Redenção, e a redenção dos finados, pela indulgência ligada ao Ângelus.

Ao Purgatório toca uma felicidade, e a Maria a saudação de uma alma que entra no céu. Assim opera a Igreja da terra, cheia de ternura por sua irmã padecente.

Por que chora o sino na agonia? Se reflete as alegrias deve refletir também as dores.

Para sustentar o jovem cristão nos combates da vida, o sino pede as nossas orações.

Como não solicitá-las nas lutas da morte? Entre todas, estas lutas não são as mais terríveis e as mais decisivas.

No toque da agonia, o sino diz: "Miserere mihi mei saltem vos amici" - Tende piedade de mim, pelo menos vós que fostes meus amigos! Vinde orar por mim, vinde sepultar o meu corpo, vinde acompanhá-lo à igreja, depois ao dormitório, onde ele deve repousar até a ressurreição dos mortos.

O sino, nesse momento, assemelha-se a uma mãe que, na sua terna solicitude, não se permite nem paz nem trégua, para clamar em socorro de seus filhos desgraçados e obter a sua libertação.

Também o sino deve tornar o cristão invencível na sua guerra contra os demônios.
Ao estridor dos sinos - acrescenta um de nossos antigos liturgistas - os espíritos das trevas são penetrados de terror, da mesma forma que um tirano se espanta quando ouve ressoar nas suas terras as trombetas guerreiras de um monarca seu inimigo.

Toque de recolher: no inverno, nos países montanhosos, pelas nove horas da noite, o sino faz ouvir a sua voz mais forte.

Chama o viajante desencaminhado, e indica-lhe a estrada que deve seguir para chegar ao lugar onde achará a hospitalidade. Uma imagem do que também acontece com as almas perdidas no pecado.

Eram inteiramente outros os sentimentos de nossos religiosos antepassados.

Testemunhas inteligentes das bênçãos e das consagrações praticadas pela Igreja no batismo dos sinos, devotavam-lhe um profundo respeito e santo pavor.

Daí vem que temiam infinitamente mais jurar sobre um sino consagrado do que sobre os próprios Evangelhos.

(Fonte: Mons. Gaume, “L’Angelus au dix-neuvième siècle”)

23 de janeiro de 2009

NOSSA SENHORA


A FÉ DE NOSSA SENHORA
Santo Afonso de Ligório


A bem-aventurada Virgem, assim como é Mãe do amor e da esperança, também é Mãe da fé. "Eu sou a Mãe do belo amor, do temor e do conhecimento e da santa esperança" (Eclo 24, 24). Acertadamente tal se chama, diz S.Irineu, porque o dano que Eva com sua incredulidade causou, Maria o reparou com sua fé. Palavra essa que Tertuliano confirma, dizendo: Eva deu crédito à serpente, em oposição à palavra de Deus e com isso trouxe a morte; nossa Rainha, ao invés, crendo na palavra do anjo, segundo a qual devia ser Mãe do Senhor e permanecer virgem, gerou ao mundo a salvação. De acordo está com isso a seguinte sentença, atribuída a S.Agostinho: Dando Maria seu consentimento à Encarnação do Verbo, abriu aos homens o paraíso por sua fé. Identicamente exprime-se também Ricardo de S.Vítor, com referência à palavra de S.Paulo: O marido infiel é santificado pela mulher fiel (I Cor 7,7). E Maria, diz Ricardo, essa mulher fiel, porque com sua fé salvou Adão e a toda descendência dele. Por causa desta fé, proclamou-a Isabel bem-aventurada: "E bem-aventurada tu, que creste, porque se cumprirão as coisas que da parte do Senhor te foram ditas" (Lc 1,45). Porque abriu seu coração à fé em Cristo, é Maria mais bem-aventurada do que por haver trazido no seio o corpo de Jesus Cristo.

Via o Filho na manjedoura de Belém e cria-o Criador do mundo. Via-o fugir de Herodes, sem entretanto deixar de crer que era ele o verdadeiro Rei dos reis. Pobre e necessitado de alimento o viu, mas reconheceu seu domínio sobre o universo. Viu-o reclinado no feno e confessou-o onipotente. Observou que ele não falava e venerou-lhe a infinita sabedoria. Ouviu-o chorar e o bendisse como as delícias do paraíso. Viu finalmente como morria vilipendiado na cruz, e, embora outros vacilassem, conservou-se firme, crendo sempre que ele era Deus. "Junto à cruz estava a Mãe de Jesus" (Jo 19, 25). Aqui observa S.Antonino: Maria ficou firme na sua jamais abalada fé na divindade de Cristo. Em memória disso, explica o Santo, é que no Ofício das Trevas se conserva uma única vela acesa. Com muito acerto, S.Leão refere a Maria a seguinte passagem dos Provérbios: A sua candeia não se apagará de noite (31,18). Vem a propósito agora o texto de Isaías: Eu calquei o lagar sozinho, e das gentes não se acha homem algum comigo (63,3). Comentando-o, observa S.Tomás: As palavras "homem algum" devem ser acentuadas por causa da Virgem, cuja fé nunca vacilou. Assim Maria – conclui S.Alberto Magno – exercitou a fé por excelência; enquanto até os discípulos vacilaram em dúvidas, ela afugentou toda e qualquer dúvida.
"Virgem da luz para todos os fiéis", é título que lhe dá S.Metódio, justamente por causa dessa sua inabalável e grande fé. S.Cirilo de Alexandria saúda-a como Rainha da fé ortodoxa. A própria Santa Igreja atribui aos merecimentos de sua fé a extirpação de todas as heresias. "Alegra-te, ó Virgem Maria, porque sozinha extirpaste todas as heresias". Dizem os Cânticos: Feriste o meu coração, minha irmã, esposa minha, com um dos teus olhares (4,9). Na explicação de S.Tomás de Vilanova os olhares de Maria foram a sua fé, pela qual se tornou tão agradável a Deus.

- Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós!

22 de janeiro de 2009

SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS


CULTO AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS
A.Boulenger
(Doutrina Católica - Manual de Instrução Religiosa - O Dogma)

1º. O Culto. Posto que o culto tributado a alguém se refere à pessoa toda, é lícito considerar, na pessoa, esta ou aquela qualidade, e determinada parte, de preferência a outra. Ora, é evidente que todas as partes da natureza humana de Cristo são merecedoras do culto de latria; podem ser adoradas, desde que são todas unidas ao Verbo. Dentre elas, porém, algumas parece-nos terem direito a um culto particular. Será o caso das suas chagas, do seu preciosíssimo sangue, e, acima de tudo, do seu Sacratíssimo Coração.

2º. Sua legitimidade. Considerando o objeto, o fim e os efeitos do culto ao Sagrado Coração de Jesus, vê-se que este culto é perfeitamente legítimo e deve ser recomendado.

a) seu objeto. O objeto "direto" da nossa adoração é o coração físico de Jesus Cristo, unido a sua alma e a sua pessoa divina. O coração de Cristo é, sem dúvida, a parte mais nobre da sua humanidade. Desse coração é que jorrou o sangue preciosíssimo que remiu nossas almas. O objeto "indireto" é o amor, a um tempo divino e humano simbolizado por esse coração. O amor moveu Jesus Cristo a entregar-se por nós (Ef V, 2). O amor fez que instituísse os Sacramentos, muito particularmente a Eucaristia. Logo, por seu objeto, o Coração do nosso Salvador fez jus a um culto especial.

b) seu fim. O culto ao Sagrado Coração, o que quer, é desenvolver em nós o amor mais ardente a Nosso Senhor e compensar, com atos de adoração, de amor e reparação, as injúrias que lhe são feitas.

c) seus efeitos. Com a meditação da imensa caridade de Cristo, com a recordação dos sacrifícios que inspirou, incendiam-se os nossos corações, abrasados por uma caridade recíproca para com Deus e para com o próximo. Lucramos assim graças mais numerosas e mais excelentes para progredirmos no serviço de Deus, no espírito de sacrifício e na generosa dedicação a nossos semelhantes.

3º. Objeções.

A. Os Jansenistas objetaram que era "culto novo", o culto ao Sagrado Coração de Jesus, e por isso, devia ser proibido.

RESPOSTA – Não era justificada a pretensão, pois informam os "Atos dos Mártires" que não foi completamente desconhecido das origens do Cristianismo o culto ao Sagrado Coração de Jesus, mesmo dirigido a seu objeto material, isto é, ao próprio coração de Nosso Senhor transpassado pela lança de um soldado romano. Na Idade Média, já florescia este culto em diversas comunidades, conforme se pode averiguar dos escritos de São Bernardo, de São Boaventura, de Santa Mechtile e de Santa Gertrudes. Está errado pensar que foram as aparições a Santa Margarida Maria Alocoque, "causa" da devoção ao Sagrado Coração. Causa não foram, nem podiam ser. Difundiram-na. Intensificaram-na. Só. Aliás, não constituiriam motivo cabal e suficiente, caso não fosse legitimado em direito, da forma que acabamos de estabelecer, fora daquelas revelações. Dá-se com as devoções o que se dá com os dogmas. Germinam, brotam e espalham-se na hora designada pela Providência e de acordo com as necessidades e aspirações do momento. O culto do Sagrado Coração, desabrochado exatamente no século XVII, apregoando mais alto que nunca o amor infinito do Verbo Encarnado, não será uma como resposta do Céu que condenava a doutrina fria e árida do jansenismo, com seus Deus insensível, sem entranhas e sem afeto, mas se dignando de entreabrir os braços para lançar a bênção?!

B. Os incrédulos modernos acharam outro terreno, outra tática, contra o culto ao Sagrado Coração. Quiseram abalar-lhe os alicerces, dizendo que a base, o fundamento, era falso, porque o órgão do amor, não é o coração. É o cérebro (...).

RESPOSTA – A objeção é que carece de base. Pouco se importa a Igreja com a questão científica de determinar e provar qual é o "órgão" do amor. O que ela sabe, e com ela todo o mundo, é que não há idioma na terra, em que não seja o coração "símbolo" do amor. Ademais, pode-se afirmar que é a sede das emoções sensíveis. É sabido este fato de experiência pessoal, que o coração se dilata na alegria, e se confrange na tristeza. Portanto, símbolo e sede (...) do amor, bastam estes dois pontos, para a legitimidade do culto ao Sagrado Coração.

C. Mas que necessidade haverá, argüirão alguns ainda, de "recorrer a símbolos" sensíveis para adorar Nosso Senhor?

RESPOSTA – Explica isto a palavra de Pascal: o homem não é animal, nem anjo. Participa de ambos. Têm corpo e alma. Logo, é obrigado, nas suas relações com Deus, a obedecer às condições da sua natureza.

21 de janeiro de 2009

HUMILDADE


OS DOZE DEGRAUS DA HUMILDADE
Santo Tomás de Aquino
(Suma Teológica, II-II, q.161, a.6)
A Regra de São Bento estabelece doze degraus:

1) "ter os olhos sempre baixos, manifestando humildade interior e exterior";
2) "falar pouco e sensatamente, em voz baixa";
3) "não ser de riso pronto e fácil";
4) "manter-se calado, enquanto não for interrogado";
5) "observar o que prescreve a regra comum do mosteiro";
6) "reconhecer-se e mostrar-se o mais indigno de todos";
7) "julgar-se, sinceramente, indigno e inútil em tudo";
8) "confessar os próprios pecados";
9) "por obediência, suportar, pacientemente, o que é duro e difícil";
10) "submeter-se, obedientemente, aos superiores";
11) "não se comprazer na vontade própria";
12) "temer a Deus e ter presente tudo o que ele mandou";

"A humildade está, essencialmente, no apetite, na medida em que alguém refreia os impulsos do seu ânimo, para que não busque, desordenamente, as coisas grandes. Mas a regra da humildade está no conhecimento que impede que alguém se superestime. E o princípio e raiz dessas duas atitudes é a reverência que se presta a Deus. Por outro lado, da disposição interior do homem procedem alguns sinais exteriores de palavras, atos e gestos, que revelam o que está oculto no íntimo, como também ocorre com as outras virtudes, pois, "pelo semblante se reconhece o homem; pelo aspecto do rosto, a pessoa sensata" (Ecl XIX, 26), diz a Escritura.

Por isso, nos alegados graus de humildade figura um que pertence à raiz dela, a saber, o décimo segundo: "temer a Deus e ter presente tudo o que nos mandou".

Mas nesses graus há também algo que pertence ao apetite, como o não buscar, desordenadamente, a própria superioridade, o que se dá de três modos. Primeiro, não seguindo a própria vontade (11º); depois, regulando-a pelo juízo do superior (10º) e, em terceiro lugar, não desistindo em face de situações duras e difíceis (9º).

Aparecem também graus relativos à estima em que alguém deve ter ao reconhecer os próprios defeitos. E isso de três modos: primeiro, reconhecendo e confessando os próprios defeitos (8º). Depois, em vista desses defeitos, julgando-se indigno de coisas maiores (7º). Em terceiro lugar, considerando os outros, sob esse aspecto, superiores a si (6º).

Finalmente, nessa enumeração já também graus relativos à manifestação externa. Um deles, quanto às ações, de modo que, em suas obras, não se afaste do caminho comum (5º). Outros dois referem-se às palavras, quer dizer, que não se fale fora do tempo (4º), nem se exceda no falar (2º). Por fim, há os graus ligados aos gestos exteriores, como , por exemplo, reprimir o olhar sobranceiro (1º) e coibir risadas e outras manifestações impróprias de alegria (3º)" (resp.).

BREVE HISTÓRIA DA RELIGIÃO

PRINCÍPIOS E NOÇÕES FUNDAMENTAIS
Catecismo Maior de São Pio X

1. Deus, sapientíssimo Criador de todas as coisas, ordenou-as todas a Si, como fim último; isto é, para que Lhe dessem glória manifestando as perfeições divinas que Ele lhes comunicou. O homem, criatura principal deste mundo vísivel, devia também promover e realizar este fim, conforme sua natureza racional, com os atos livres de sua vontade, conhecendo, amando e servindo a Deus, para alcançar depois, deste modo, o prêmio que do mesmo Senhor havia de receber. Este vínculo moral ou lei universal, pelo qual o homem se acha naturalmente ligado a Deus, chama-se "Religião natural".

2. Mas, tendo a bondade divina preparado para o homem uma recompensa muito superior a quanto ele pudesse pensar ou desejar, isto é, querendo fazê-lo participante de sua própria bem-aventurança, como não bastasse já para fim tão elevado a "Religião natural", foi preciso que o próprio Deus o instruísse nos deveres religiosos. De onde se segue que a Religião, desde o princípio tivesse de ser "revelada", isto é, manifestada por Deus ao homem.

3. De fato foi assim que Deus revelou a Religião a Adão e aos primeiros Patriarcas, os quais, sucedendo-se uns aos outros e vivendo juntos muitíssimo tempo, a podiam transmitir facilmente uns aos outros, até que Deus Nosso Senhor formou para si um povo que a guardasse até a vinda de Jesus Cristo, nosso Salvador, Verbo de Deus Encarnado, que não a aboliu, senão que a cumpriu, aperfeiçoou e confiou à custódia da Igreja, por todos os séculos.

Tudo isto pode ser demonstrado pela História da Religião, a qual, podemos dizer, se confunde com a História da humanidade. Donde é coisa manifesta que todas as que se proclamam "religiões", fora da única verdadeira revelada por Deus, de que falamos, são invenções dos homens e desvios da verdade, da qual algumas conservam uma parte, misturada porém com muitas mentiras e absurdos.

4. Quanto às seitas ou divisões que se fizeram da Igreja Católica, Apostólica, Romana, foram elas suscitadas e promovidas por homens presunçosos, que abandonaram o sentir da Igreja universal, para irem voluntária e obstinadamente atrás de algum erro próprio ou alheio contra a Fé, e são os "hereges"; ou, então, homens orgulhosos e ávidos de mando, que, tendo-se por mais iluminados que a Santa Igreja, lhe arrancam uma parte de seus filhos, dilacerando, contra a palavra de Jesus Cristo, a unidade católica, separando-se do Papa e do Episcopado a ele unido, e estes são os "cismáticos".

Enquanto isso, o fiel católico – que inclina sua razão à palavra de Deus, pregada em nome da Santa Igreja pelos legítimos Pastores, e cumpre fielmente a santa lei divina – caminha com segurança pela estrada que o conduz a seu último fim e, quanto mais se instrui na Religião, mais é levado a ver quanto é racional a santa Fé.

5. O modo estabelecido cabalmente por Deus para a perpétua tradição da Religião foi, pois, o seguinte: a sucessiva e contínua comunicação dos homens entre si, de modo que a verdade ensinada pelos mais velhos se transmitisse do mesmo modo aos descendentes; o que durou mesmo depois que no decurso do tempo o Espírito Santo moveu diversos escritores a registrar em livros compostos sob Sua inspiração uma parte da lei divina.

Estes livros escritos com a inspiração de Deus chamam-se "Sagrada Escritura", "Livros Santos" ou "Bíblia Sagrada". Chamam-se livros do "Antigo Testamento" os que foram escritos antes da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo; os que foram escritos depois constituem o "Novo Testamento".

6. A palavra "Testamento" significa, aqui, "Aliança" ou "Pacto" feito por Deus com os homens, a saber: de salvá-los por meio de um Redentor prometido, com a condição de que prestassem fé à sua palavra e obediência a suas leis.

A "Antiga Aliança", Deus a fez primeiro com Adão e Noé, e depois mais especialmente com Abraão e sua descendência; esse pacto exigia a fé no futuro Redentor ou Messias e a guarda da Lei dada no princípio por Deus e promulgada mais tarde para seu povo por meio de Moisés.

A "Nova Aliança", depois da vinda de Jesus Cristo, nosso Redentor e Salvador, Deus a estabelece com todos os que recebem o sinal que Ele instituiu, o Batismo, e guardam a Lei que o próprio Cristo veio aperfeiçoar e completar, pregando-a em pessoa e ensinando-a de viva voz aos Apóstolos.

Estes receberam de seu divino Mestre a ordem de pregar por todas as partes o Santa Evangelho, e o pregaram realmente de viva voz, antes que fosse escrito por inspiração divina, como depois o foi. Porém nem todos os Apóstolos escreveram, e é certo que nem uns nem outros escreveram tudo o que haviam visto e ouvido.

7. Pelo que acabamos de dizer, e pelo que indicamos atrás (nº5), compreende-se a suma importância da "Tradição" divina, que é a própria palavra de Deus, declarada por Ele mesmo de viva voz a seus primeiros ministros, e transmitida deles até nós por uma contínua sucessão. Donde nela também se estriba justamente nossa Fé, como em solidíssimo fundamento.

8. Esta Tradição divina, junto com a Sagrada Escritura, ou seja, toda a palavra de Deus, escrita e transmitida de viva voz, foi confiada por Nosso Senhor Jesus Cristo a um Depositário público, perpétuo, infalível, a saber, a "Santa Igreja Católica e Apostólica".

Essa Igreja – fundada precisamente naquela Tradição, apoiada na autoridade que Deus lhe deu, e reforçada com a promessa da assistência e direção do Espírito Santo – define quais são os livros que contêm a Revelação divina, interpreta as Escrituras, fixa o sentido nas dúvidas que surgem a respeito delas, decide sobre as coisas que se referem à Fé e aos costumes, e julga com sentenças inapeláveis sobre todas as questões que nestes pontos de suprema importância possam de algum modo extraviar a inteligência e o coração dos fiéis.

9. Mas advirta-se que este julgamento compete àquela parte escolhida da Igreja que se chama "docente" ou "ensinante", formada primeiramente pelos Apóstolos, e depois pelos seus sucessores, os Bispos, com o Papa, que é o Romano Pontífice, sucessor de São Pedro, à sua cabeça.

O Sumo Pontífice – dotado por Nosso Senhor Jesus Cristo da mesma infalibilidade de que está adornada a Igreja, e que é necessária para conservar a unidade e a pureza da doutrina, pode, quando fala "ex cathedra", isto é, como Pastor e Doutor de todos os cristãos, promulgar os mesmos decretos e pronunciar os mesmos julgamentos que a Igreja, no que toca à Fé e aos costumes. E ninguém pode recusar essas sentenças sem prejuízo de sua fé. Além disso, o Papa pode exercer sempre o supremo poder em todo o concernente à disciplina e bom governo da Igreja, e todos os fiéis devem obedecer-lhe com sincero obséquio da mente e do coração.

Na obediência a esta suprema autoridade da Igreja e do Sumo Pontífice – por cuja autoridade nos são propostas as verdades da Fé, nos são impostas as leis da Igreja e nos é mandado tudo o que quanto ao bom governo dela é necessário – consiste a regra de nossa Fé.

19 de janeiro de 2009

FILOSOFIA TOMISTA

O DESENHO NATURAL DE VER DEUS
Santo Tomás de Aquino
(Suma Teológica, I-II, q.3, a.8)

"A última e perfeita felicidade só pode encontrar-se na visão da essência de Deus. Duas observações o provam. Em primeiro lugar, o homem não é perfeitamente feliz enquanto lhe resta algo para desejar e para conseguir. Em seguida, a perfeição duma faculdade é determinada pela natureza do seu objeto. O objeto da inteligência é o "quod quid est", ou seja, a essência duma coisa. Por conseqüência, a perfeição da inteligência procede do conhecimento que ela tem da essência duma coisa. Se, portanto, uma inteligência conhece a essência dum efeito sem poder conhecer a essência da sua causa ou, por outras palavras, sem atingir essa causa naquilo que ela é ("quid est"), não se pode dizer que essa inteligência capta diretamente a causa, embora saiba partindo do efeito que essa causa existe. Eis porque aquele que conhece um efeito e sabe que esse efeito tem uma causa experimenta ainda naturalmente o desejo de conhecer essa causa naquilo que ela é. Tal é a curiosidade que suscita a pesquisa e que está em questão no início da Metafísica de Aristóteles. Por exemplo, vendo um eclipse do sol, pensa-se na causa dele, e enquanto não se sabe em que consiste essa causa, fica-se tomado de espanto; levados pelo espanto, investigamos e a pesquisa só é interrompida quando se chega a conhecer a essência desta causa.

Suponhamos, pois, uma inteligência humana que, conhecendo a essência dum efeito criado, não sabe mais nada de Deus além de que Ele existe. Esta inteligência não atinge esse ponto de perfeição em que ela conheceria diretamente e absolutamente a causa primeira. Resta ainda nela o desejo natural de procurar conhecer essa causa, enquanto não está perfeitamente satisfeita. Para obter a felicidade perfeita, é preciso que ela chegue a conhecer a própria essência da causa primeira. Nessa altura, ela possuirá a sua perfeição graças à sua união com Deus, único objeto em que reside a felicidade do homem".

18 de janeiro de 2009

Sobre o comportamento durante a Oração e a Santa Missa - S. Thomas More

A Tristeza de Cristo

traduzido por Patricia Medina

(Sobre o comportamento durante a Oração e a Santa Missa)


Imagine, por sua vez, que você cometeu um crime de alta traição contra este ou aquele príncipe deste mundo [mortal] que tem a sua vida nas mãos, mas que é tão misericordioso que está preparado a abrandar sua ira por causa de seu arrependimento e humilde súplica e que, para comutar a pena de morte numa multa pecuniária ou mesmo para suspendê-la completamente, exige que você dê sinais convincentes de grande vergonha e arrependimento.


Ora, quando você for trazido a presença do príncipe, fale com ele despreocupadamente, casualmente, sem a menor apreensão. Enquanto o príncipe permanece no mesmo lugar e o escuta com atenção, passeie aqui e ali enquanto discorre sobre seu pedido. Então, quando estiver cansado de andar para cima e para baixo, sente-se numa cadeira ou, se a cortesia lhe exigir que conceda ajoelhar-se, o faça, não sem antes mandar que alguém venha e lhe ponha uma almofadinha sob os joelhos ou, melhor ainda, lhe traga um genuflexório com um lugar para descansar os cotovelos.


Em seguida, boceje, se espreguice, espirre, cuspa sem se importar, ou mesmo arrote os resquícios de sua gula. Resumindo, aja de tal forma que ele possa ver claramente pelo seu rosto, sua voz, seus gestos e toda sua conduta corporal que, enquanto fala com ele, você pensa em outra coisa. Agora, me digam, que sucesso você poderia esperar de tal pedido?


Certamente deveríamos considerar uma loucura defender-nos de tal modo perante um mero príncipe mortal contra uma acusação que traz consigo a pena de morte. E, no entanto, tal príncipe, uma vez tendo destruído nosso corpo, já não poderia fazer mais nada. E nós achamos razoável, após ter cometido toda espécie de crimes ainda mais sérios, implorar o perdão - de forma tão desprezível - do rei dos reis, Deus mesmo, que quando tiver destruído nossos corpos tem o poder de mandar, corpo e alma, ao inferno?

SANTA MISSA


A SANTA MISSA E COMO SE DEVE OUVÍ-LA
São Francisco de Sales

A Eucaristia é, na verdade, a alma da piedade e o centro da religião cristã, à qual se referem todos os seus mistérios e leis. É o mistério da caridade, pelo qual Jesus Cristo, dando-se a nós, nos enche de graças dum modo tão amoroso quão sublime.

A oração feita em união com este sacrifício divino recebe uma força maravilhosa, de sorte que a alma, Filotéia, cheia das graças de Deus, da suavidade de seu espírito e da influência de Jesus Cristo, se acha naquele estado de que fala a Escritura quando diz que a Esposa dos Cantares estava reclinada sobre o seu Dileto, inundada de delícias e semelhante a uma nuvem de fumaça que o incenso mais precioso levanta o céu, aromatizando o ar.

Faze o possível para arranjar o tempo necessário de ouvir todos os dias a Santa Missa, a fim de oferecer juntamente com o sacerdote o sacrifício do teu divino redentor a Deus, seu Pai, por ti mesma e por toda a Igreja. São João Crisóstomo nos afirma que os anjos a ele assistem em grande número, para honrar com sua presença este mistério adorável.

Não devemos duvidar que, unindo-nos com ele num mesmo espírito, tornemos o Céu propício a nós, enquanto a Igreja triunfante e militante se ajunta com Jesus neste ato divino, para ganhar-nos nele e por ele o Coração de Deus, seu Pai, e merecer-nos todas as suas misericórdias.

Que dita para uma alma poder concorrer para isso algum tanto, por uma devoção sincera e afetuosa!

Se absolutamente não poder ir à igreja, é necessário então suprires a falta da presença corporal pela espiritual; nunca omitas, numa hora da manhã, ir em espírito aos pés do altar, identificar a tua intenção com a do padre e dos fiéis e ocupar-te com este santo sacrifício, em qualquer parte que estiveres, como o farias, se estivesses na igreja.

Proponho-te em seguida um método de ouvir a Missa devotamente:

a) Desde o começo da Missa até o padre subir ao altar, faze com ele a preparação, que consiste em te apresentares a Deus, em confessares a tua indignidade e em pedires perdão de teus pecados.

b) Depois de subir o padre ao altar, até o Evangelho, considera a vinda e a vida de Nosso Senhor neste mundo, lembrando-te delas com uma representação simples e geral.

c) Do Evangelho até depois do Credo considera a pregação de Nosso Senhor; protesta-lhe sinceramente que queres viver e morrer na fé, na prática de sua palavra divina e na união da santa Igreja Católica;

d) Do Credo ao Pater Noster aplica teu espírito à meditação da Paixão e morte de Jesus Cristo, as quais se representam atual e essencialmente neste santo sacrifício, que oferecerás em união com o padre e com todo o povo a Deus, o Pai de misericórdia, para sua glória e nossa salvação.

e) Do Pater Noster à comunhão, excita teu coração, por todos os modos possíveis, a querer ardentemente unir-se a Jesus Cristo pelos laços mais fortes do eterno amor.

f) Da Comunhão ao fim, agradece à sua divina majestade, por sua encarnação, vida, paixão e morte e também pelo amor que nos testemunhou neste santo sacrifício, conjurando-o por tudo isso a ser propício a ti, a teus parentes e amigos e a toda a Igreja e, ajoelhando-te em seguida com profunda humildade, recebe devotamente a bênção que Nosso Senhor te dá na pessoa de seu ministro.

Querendo, no entanto, fazer no tempo da Santa Missa a tua meditação habitual, escusa-te seguir este método. Será suficiente fazer no começo a intenção de assistir a este santo sacrifício, tanto mais que quase todas as práticas deste método se acham sintetizadas numa meditação bem feita.