27 de dezembro de 2013

Oferecimento do coração a Jesus Menino.

Dilectus meus mihi et ego illi, qui pascitur inter lilia. — “O meu amado é meu e eu sou dele, que se apascenta entre as açucenas” (Cant. 2, 16).

I. Alma devota, aviva a tua fé e a tua confiança. O mesmo Jesus que, por nosso amor, baixou do céu à terra e quis nascer numa gruta fria, está agora, abrasado no mesmo amor, escondido no Santíssimo Sacramento. Que é o que faz ali? Respiciens per cancellos (1) — “Olha por entre as grades”. Qual amante aflito pelo desejo de ver seu amor correspondido, Jesus de dentro da Hóstia consagrada, como que por entre uma grade estreita, olha-te sem ser visto, espreita os teus pensamentos, os teus afetos, os teus desejos, e convida-te suavemente achegar-te a si. Eia pois, dá contento ao Amante divino e aproxima-te d'Ele.

Lembra-te, porém, do que ordena:  Non apparebis in conspectu meo vacuus (2) — “Não aparecerás em minha Presença com as mãos vazias”. Quem se chegar ao altar para me honrar, não se chegue sem me presentar alguma oferta. Na noite do Natal, os pastores que foram visitar oMenino Jesus na gruta de Belém, trouxeram-lhe os seus presentes. É pois mister que tu também Lhe ofereças o teu presente. Que poderás oferecer-lhe? O presente mais precioso, que possas trazer  para o Menino Jesus, é um coração penitente e amante:  Praebe, fili mi, cor tuum mihi (3)  — “Meu Filho, dá-me o teu coração”.

Ó meu Senhor, eu não devia ter ânimo de me chegar a Vós, vendo-me tão manchado de pecados. Mas já que Vós, Jesus meu, me convidais com tamanha benevolência e me chamais com tamanho amor, não quero resistir. Não quero fazer-Vos esta nova afronta que, depois de Vos ter tantas vezes virado as costas, deixasse agora por desconfiança de aceder a vosso doce convite. Mas sabeis que sou pobre de tudo e que não tenho nada que oferecer-Vos. Não tenho senão o meu coração, e este Vô-lo dou. Verdade é que este meu coração durante algum tempo Vos tem ofendido, mas agora está arrependido, e contrito como se acha, eu Vô-lo ofereço. Sim, meu divino Menino, peza-me de Vos ter dado desgosto. Confesso-o: tenho sido um traidor, um ingrato, um desumano fazendo-Vos sofrer tanto e derramar tantas lágrimas no presépio de Belém; mas as vossas lágrimas são a minha esperança. Sou um pecador e não mereço perdão, mas dirijo-me a Vós, que, sendo Deus, Vos fizestes criança para me perdoar. — Pai Eterno, se eu mereci o inferno, vêde as lágrimas desse vosso Filho inocente; são elas que Vos imploram o meu perdão. Vós não negaes nada às súplicas de Jesus Cristo. Atendei-O, visto que Vos pede que me perdoeis nestes dias santíssimos, que são dias de alegria, dias de salvação, dias de perdão.

II. Ó meu pequenino Jesus, espero que me perdoareis; mas só o perdão de meus pecados não basta. Neste santo tempo do Natal dispensais às almas graças grandes. Eu também quero uma graça bem grande, e deveis conceder-ma: é a graça de Vos amar. Agora que me chego aos vossos pés, abrasai-me todo em vosso amor e prendei-me a Vós, mas prendei-me de tal modo que eu nunca mais me afaste de Vós. Assim, ó meu Deus amabilissimo, espero que Vos amarei sempre e que Vós sempre me amareis: assim, ó meu amado Jesus, espero que serei sempre todo vosso e que Vós sempre sereis todo meu:  Dilectus meus mihi et ego illi — “O meu amado é para mim e eu sou para ele.” Creio em Vos, ó Bondade infinita; espero em Vós, ó Bondade infinita; amo-Vos, ó Bondade infinita. Amo-Vos, ó meu Deus, feito Menino por meu amor, amo-Vos, e sempre o hei de repetir, amo-Vos, amo-Vos. † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas (4).

Mas, não Vos amo bastante; quero amar-Vos muito, e Vós deveis fazer que assim seja. Ofereço-Vos o meu coração, entrego-o todo inteiro, não o quero mais. Mudai-o e guardai-o para sempre. Não mo entregueis mais, pois, se o entregardes em minhas mãos, tenho medo que Vos tornará a trahir.

Maria Santíssima, vós sois a Mãe desse grande Filho, sêde também minha Mãe; em vossas mãos deposito o meu coração, apresentai-o a Jesus; se Lho apresentardes, Jesus não o rejeitará. Apresentai-o, pois, e rogai que o queira aceitar. Amém. (*III 730.)

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1. Cant. 2, 9.
2. Exod. 23, 15.
3. Prov. 23, 26.
4. 50 dias de indulg. para quem rezar esta jaculatória ou a ensinar aos outros.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 89 - 91.)

Sermão para a Festa da Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo 25.12.2013 – Padre Daniel Pinheiro IBP

[Sermão] Natal: Temos o que admirar, o que amar e o que imitar no Presépio em Belém


Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…


Um Santo e Feliz Natal a Todos.
“Nasceu-nos um Menino e foi-nos dado um Filho.”
Caros católicos, que grande dia de alegria, o dia em que nos nasceu um Menino e nos foi dado um Filho, para nos redimir, nos libertar da escravidão do pecado e nos alcançar graça diante Deus. Aquele que fora desejado por tantos milhares de anos nasceu no dia de hoje há mais de dois mil anos. É um dia de misericórdia, no qual devemos nos alegrar e pelo qual devemos agradecer muitíssimo a Deus. A misericórdia divina é tão marcante nesse dia que, tradicionalmente, cada sacerdote pode celebrar três Missas: a Missa ad primum cantum galli, a Missa ao primeiro canto do galo, tradicionalmente celebrada à meia-noite; a Missa da aurora, celebrada quando surgem os primeiros raios de sol; a Missa do Dia, que agora celebramos. Três Missas para mostrar a abundância da graça no dia em que o Verbo Encarnado nasceu. Três Missas para significar também as três gerações do Verbo, se assim podemos falar. A primeira geração desde toda a eternidade, antes do tempo, que é a geração da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade a partir do Pai. A geração no tempo do Verbo, nascido de Maria Virgem no estábulo em Belém. E, finalmente, a geração do Verbo em nossas almas pela graça, pelo abandono do pecado, para vivermos como imitadores de Cristo.
 São Paulo nos diz (Epístola da Missa) que Deus falou outrora de muitos modos e muitas vezes por meio dos profetas. Agora, nos fala por meio de seu Filho, em quem Ele colocou todas as suas complacências. Não contente de mostrar sua misericórdia e buscar a conversão dos homens por emissários, o próprio Filho de Deus, que é Deus, vem ao mundo.  E o Filho de Deus, o Menino Jesus, nos fala desde o seu nascimento na manjedoura em Belém, nos mostrando o que devemos fazer diante dela.
Diante do presépio, a divina criança nos indica aquilo que devemos admirar, ela indica aquilo que devemos amar e indica aquilo que devemos imitar. Como diz São Bernardo: no presépio, temos o que admirar, o que amar e o que imitar.
Temos o que admirar no presépio e, talvez, se compreendêssemos perfeitamente o que ocorre no presépio, morreríamos, com tamanha maravilha.  Davi se admirava e se espantava nos Salmos (8, 5) que Deus pudesse se lembrar do homem. Assim dizia o rei Davi: “Quem é o homem, para que Deus se lembre dele?” Qual não deve ser, portanto, a nossa admiração diante do Deus Encarnado, diante do Rei da glória, que se humilha tomando a nossa natureza, diante do divino Menino sujeito a todos os sofrimentos e a todas as nossas misérias, com exceção do pecado? Como não se admirar diante desse Menino Deus que sofre e chora? Criador de todas coisas, nascido num estábulo, envolto em pobres e grosseiros panos, reclinado onde os animais comem, com frio. Se temos fé e acreditamos naquilo que Deus nos revelou, como não se admirar diante de cena tão magnífica? Devemos nos admirar e considerar tão sublime cena, como o fizeram N. Sra., São José, os Anjos e os pastores. Sim, temos com o que nos admirar no presépio em Belém.
E considerando essa cena, perceberemos que temos nela o que amar e o que amar profundamente, com todas as nossas forças, com toda a nossa alma. Por que essa divina criança veio ao mundo? Porque Deus amou tanto os homens ao ponto de nos entregar seu próprio Filho. E como cantamos no Credo: ele veio propter nos homines et propter nostram salutem, ele veio por causa de nós homens e para nossa salvação. Assim, podemos realmente cantar como a Igreja manda: “Nasceu-nos um Menino e foi-nos dado um Filho” (Introito da Missa do Dia).  Ele nasceu para nós, para nos salvar. Foi-nos dado um Filho, que é o Filho de Deus. Como não amolecer o nosso coração diante do Deus que quis nascer criança, justamente para atrair o nosso amor, para nos converter a Ele? Como não tomar a resolução definitiva de conversão, de amar a Deus sobre todas as coisas, diante de tal amor? Como cantamos no tradicional cântico do Adeste Fideles: quem não ama em retorno um Deus que assim nos ama? Sim, no presépio em Belém temos o que amar. Ele veio para nós. Se queremos ser salvos, devemos recebê-lo em nossas almas e amá-lo, não com um vago sentimento, mas observando as suas palavras, observando os seus mandamentos. Contemplando deus que se fez visível, devemos elevar nosso coração para as coisas invisíveis, deixando de lado nosso apego a coisas tão pequenas que nos fazem ofender a Deus.
Se temos no presépio motivo para profunda admiração e motivo para amar a Deus sobre todas as coisas com toda as nossas forças e com toda a nossa alma, temos também o que imitar. No presépio, Nosso Senhor nos ensina o remédio para o orgulho, para os prazeres desordenados, para o apego aos bens desse mundo: os três maiores princípios dos pecados. Ele nos ensina a humildade contra o orgulho, a mortificação contra os prazeres desordenados, a pobreza contra o apego aos bens desse mundo. Jesus, antes de falar, já nos ensina. Vinde, católicos, vinde e vede e fazei conforme o exemplar que é mostrado, como diz a Sagrada Escritura (Ex. 25, 40).
Na gruta em Belém, apareceu a bondade e o amor do Salvador nosso Deus pelo homem e apareceu não por nossos méritos, mas por sua misericórdia. Esse acontecimento, aparentemente tão singelo, tão simplório, mudou completamente a história da humanidade. Esse acontecimento e suas consequências, culminando com a paixão, morte, ressurreição e ascensão de Cristo, é o centro da história. Quão vazia e tenebrosa seria a história da humanidade sem o nascimento de Cristo. Não teria havido os patriarcas, os profetas e tantos justos do Antigo Testamento. Não teria havido os santos, imitadores de Cristo, não teria havido tanta virtude e virtude em grau heroico. Não teria havido a Santa Igreja com sua celestial doutrina, com seus sacramentos e com todo o bem que fez e faz ao longo da história, tanto na ordem espiritual quanto material. Quão vazia e tenebrosa seria a história sem esse acontecimento aparentemente singelo e simplório na gruta de Belém.
Precisamos, porém, mudar também a nossa história particular, considerando e admirando o presépio em Belém. Devemos mudar nossa história deixando-nos inflamar de amor por um Deus que se fez homem por nós para nos salvar. Devemos mudar nossa história imitando Nosso Senhor Jesus Cristo. Peçamos a Maria Santíssima, verdadeira Mãe de Deus, que nos alcance de seu Filho, o Menino Jesus, o arrependimento de nossos pecados e a graça da verdadeira alegria no céu.
Feliz e Santo Natal a todos. Que o Menino Deus encha a nossa alma de alegria genuinamente cristã, uma alegria que nos leva ao céu.

Em nome do Pai, e do Filho e do espírito Santo. Amém.

DIA XXVII DEDEZEMBRO.

Festa de São João Evangelista.

Discipulus ille quem diligebat Iesus — “O discípulo a quem Jesus amava” (Io. 21, 7).

Sumário. Consideremos as provas de predileção especial que Jesus deu a seu discípulo João. Chamou-o um dos primeiros, ao apostolado; fê-lo seu confidente, na última ceia permitiu-lhe que reclinasse a cabeça sobre o seu peito; finalmente, no Calvário fê-lo herdeiro do que tinha de mais caro, dando-lhe como mãe a Maria. Nós também temos recebido de Deus muitas provas de pedileçâo; mas que diferença entre a nossa correspondência e a de São João!

I. Considera as provas de predilecção que Jesus deu a São João. Chamou-o um dos primeiros, ao apostolado; e ainda que fosse o mais joven de todos, Jesus lhe comunicou os arcanos mais recônditos do seu coração, fê-lo seu confidente, de sorte que o Príncipe dos Apóstolos, não se animando a interrogar o Senhor na última ceia, rogou a João que o fizesse. Junto com São Tiago, seu irmão, e São Pedro, Jesus o fez testemunha do milagre da ressurreição da filha de Jairo, da sua gloriosa Transfiguração no Tabor e de sua agonia no horto. Também na última ceia, quando Jesus quiz fazer os supremos esforços de seu amor, e deu a todos, pela instituição da santíssima Eucaristia, um penhor especial do seu afeto, deu todavia um penhor especialíssimo para o seu amado João. Fê-lo sentar-se a seu lado e permittiu-lhe reclinasse a cabeça sobre o seu peito. Desse contato, diz Santo Agostinho, João tirou os sublimes conhecimentos de mistérios incompreensiveis, que depois registrou no seu Evangelho e que lhe alcançaram o nome de teólogo divino por excelência, e de águia entre os evangelistas. 

Mas a mostra mais patente de afeto deu Jesus Cristo a este seu Benjamin no Monte Calvário, quando, prestes a expirar, lhe deu Maria por mãe, instituiu-o herdeiro do que havia mais caro, e declarou-o primogênito entre os filhos adotivos da Mãe de Deus. — Detém-te aqui para te alegrar com o Santo; escolhe-o para teu protetor especial, e dá graças a Jesus Cristo por lhe haver concedido tantos favores singulares. Mas ao mesmo tempo dá-lhe graças pelos mesmos benefícios que te fez, chamando-te ao seu seguimento, vindo dentro de teu peito na santa Communhão e dando-te Maria Santíssima por teu refúgio, tua advogada e tua mãe.

II. Se São João foi tão amado de Jesus Cristo, é forçoso dizermos que São João amou também muito a Jesus, porque Jesus assegura-nos que ama os que o amamego diligentes me diligo (1). Com efeito, toda a vida do Apóstolo foi um modelo luminoso de amor. Apenas chamado na margem do lago Genezaré, deixou as redes, seu pai e sua mãe e foi em seguimento do Redentor. Chegando a saber que a pureza virginal faz as delicias de Jesus, que é amigo das virgens e se apascenta entre as açucenas (2), resolveu guardá-la sempre em sua pessoa. — Durante a vida do divino Redentor, o amor fez com que São João continuamente contemplasse as amabilidades infinitas de Jesus, e se esmerasse em agradar-Lhe mais e mais, por meio de atos internos e externos das virtudes mais sublimes. —  No tempo da Paixão o amor o fez avantajar-se aos outros apóstolos, impeliu-o a seguir o Senhor até ao Calvário, e a deixar-se ficar intrépido ao pé da Cruz, a fim de lhe trazer, se não defesa, ao menos alívio.

Finalmente, depois da Ascensão de Jesus, o amor estimulou São João a pregar a fé não só na Judéia e na Samaria, mas também em várias partes da Ásia. E como se não lhe bastasse a pregação de viva voz, quis ainda escrever o seu Evangelho, as suas Epistolas e o livro do Apocalipse, livros estes que respiram caridade e amor em todas as páginas. Ademais, quis expôr-se generosamente ao martírio, ainda que o Senhor o livrasse, guardando-o para coisas maiores. Pôde São João responder melhor à predileção da parte de Jesus Cristo?... Que confusão para ti! Depois de teres recebido tantas mostras de afeto especial do Senhor, em vez de amá-Lo, respondeste-Lhe com ingratidões e pecados. Roga a Deus, que te perdoe pela intercessão do santo Apóstolo.

“Ó Senhor, ilustrai benignamente a vossa Igreja para que, instruída com as doutrinas do Bem-aventurado João, vosso Apóstolo e Evangelista, alcance os dons sempiternos.” (3) Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo e de Maria Santíssima.

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1. Prov. 8, 17.
2. Cant. 2, 16.
3. Or. festi.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 86 - 89.)




















Sermão para a Vigília do Natal 24.12.2013 – Padre Daniel Pinheiro IBP

[Sermão] Vigília do Natal: Tudo está pronto para a Vinda do Menino Deus


Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…


Deus vem ao mundo. Aquele que foi esperado pelos homens desde a queda de nossos primeiros pais, Adão e Eva. Aquele que foi esperado durante milhares e milhares de anos, veio ao mundo no dia de amanhã. Em algumas liturgias do Oriente, hoje é justamente a festa de Adão e Eva, que, arrependidos do pecado que cometeram, obtiveram a misericórdia divina e hoje gozam no céu da visão beatífica. Essa salvação só foi possível porque veio ao mundo o Salvador, o Deus que se fez homem para nos salvar. Ele veio para reparar os pecados de nossos primeiros pais e os nossos pecados. Tudo o que eles perderam com o pecado, Deus veio restaurar, assumindo um corpo humano. Ele veio restaurar pelo sofrimento e pela sua caridade infinita: “Amanhã será apagada a iniquidade da terra, e reinará sobre nós o Salvador do mundo.” (Antífona de Laudes)
 A Igreja canta assim no Martirólogio de hoje, no Breviário, sobre a data do nascimento do Salvador: “desde a criação do mundo, quando no princípio Deus criou o céu e a terra, 5199 anos; desde o dilúvio, 2957 anos; do nascimento de Abraão, 2015 anos; de Moisés e da saída do povo de Israel do Egito, 1510 anos. Da unção de Davi como Rei, 1302 anos; na 65ª semana, conforme a profecia de Daniel; na 194ª Olimpíada; no ano 752 da fundação da cidade de Roma; no ano 42 do Império de Otávio Augusto, com todo o orbe em paz; na sexta idade do mundo, Jesus Cristo, eterno Deus e Filho do eterno Pai, querendo santificar o mundo pelo seu advento piíssimo, concebido do Espírito Santo, passados nove meses desde a sua concepção, em Belém de Judá, nasce de Maria Virgem, feito Homem. É a natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo a carne.”
                Hoje, caros católicos, tudo está preparado, tudo está pronto conforme dispôs a divina providência. O Imperador ordenou o recenseamento. Assim, José, Maria e Jesus, no ventre dela, estão chegando em Belém, onde não encontrarão hospedagem e acolhida, mas onde deve nascer o salvador conforme as profecias. O mundo está em paz, para a chegada do Rei da verdadeira paz, que é a união com Deus. O Império Romano estabeleceu a Pax Romana em seus territórios. A facilidade de locomoção dada pelo domínio do Império Romano vai permitir a difusão rápida do Evangelho. A boa filosofia grega permitirá, ainda que com relutâncias, a aceitação da revelação divina. Judeus e pagãos, imersos nas trevas do pecado compreendem a necessidade de um Salvador, a necessidade do Messias. As profecias apontam que é chegada a hora do nascimento dEle em Belém. No período em que a noite é mais longa no hemisfério norte, chegará ao mundo a Luz do mundo. Tudo está pronto para a vinda do Menino Deus. O boi e o burro o esperam no estábulo, para reconhecer o dono deles. Omnia parata sunt. Todas as coisas estão prontas. Basta que aprontemos os nossos corações, a nossa alma, para receber o Deus Menino. Voltemo-nos para Ele, que se voltou primeiro a nós. Amemos a um Deus tão bom e tão misericordioso. Omnia parata sunt. Preparemos também o nosso coração. Nada mais tem importância, somente aquilo que nos faz amar e servir a um Deus tão bom.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Encarnação, Nascimento e Infância de Jesus Cristo - Oitava de Natal e Dias Seguintes até Epifania - Meditação 3

MEDITAÇÃO III.

JESUS ENVOLTO EM PANOS.
Representai-vos Maria que, tendo dado à luz seu divino Fi-lho, o toma respeitosamente em seus braços e, depois de ado-rá-lo como seu Deus, o envolve em panos. Assim atesta o Evangelho, e a Santa Igreja o repete em seus cânticos:
Membra pannis involuta
Virgo Mater alligat.
Vede a Jesus Menino que, obediente, oferece suas mãozinhas, estende seus pézinhos e se deixa envolver. Considerai como cada vez que sua Mãe o apertava assim nos paninhos, o santo Menino pensava nas cordas com que seria ligado um dia no jardim das Oliveiras, depois atado a uma coluna, e nos cravos que deviam prendê-lo na cruz; e como, assim pensando, Ele sofria voluntariamente aqueles laços a fim de livrar nossas almas das cadeias do inferno.
Jesus, estreitamente apertado nos paninhos, dirige-se a nós e convida a nos unirmos estreitamente a Ele pelos doces vínculos do amor; e voltando-se a seu Pai eterno, diz-lhe: Meu Pai, os homens abusaram de sua liberdade e, revoltando-se contra vós, tornaram-se escravos do pecado; para expiar a sua desobediência consinto em ser ligado e apertado nestes panos. Nesse estado, faço-vos o sacrifício de minha liberdade, a fim de que o homem seja libertado da escravidão do demônio. Aceito estes panos; são-me caros, e tanto mais caros porque representam as cordas com as quais me ofereço a ser um dia atado e conduzido à morte para a salvação dos homens.
Os seus vínculos, os de Jesus, são ligadura salutar para curar as chagas de nossa alma. — Meu Jesus, quisestes pois ser ligado em paninhos por amor de mim. Ó divina caridade, direi com S. Lourenço Justiniano, só tu pudeste fazer meu Deus meu prisioneiro. — E eu, Senhor, recusaria ainda deixar-me unir a vós por vosso santo amor? teria ainda a triste coragem de romper vossas doces e amáveis cadeias, e isso, para tornar-me escravo do inferno? Meu Jesus, estais ligado no pre-sépio por meu amor; quero permanecer sempre preso a vós.
S. Maria Madalena de Pazzi dizia que esses panos significam para nós a firme resolução de nos unirmos a Deus pelos laços do amor e de nos desapegarmos de tudo que não é Deus. Para esse mesmo fim, como é evidente, e para ver as almas diletas enlaçadas pelos vínculos de seu amor, é que nosso amantíssimo Jesus quis ficar nos altares como ligado e preso sob as espécies do Santíssimo Sacramento.

Afetos e Súplicas.
Querido Menino, como poderia eu temer os vossos castigos quando vos vejo enfaixado, privado, por assim dizer, do poder de levantar a mão para punir-me? Com isso dais-me a entender que não tendes a intenção de castigar-me, se eu quiser sacudir o jugo de minhas paixões e prender-me a vós. Sim, meu Jesus, quero libertar-me dele. Arrependo-me profunda-mente de me haver separado de vós abusando da liberdade que me destes. Ofereceis-me uma outra liberdade, uma liberdade mais bela, e que me deve livrar das cadeias do demônio e colocar-me no número dos filhos de Deus. Deixastes-vos aprisionar nesses paninhos humildes por seu amor; quero ser prisioneiro do vosso grande amor. Ó felizes cadeias, belos laços de salvação, que prendeis as almas a Deus, vinculai também meu pobre coração; cingi-o tão fortemente que não possa mais separar-me do amor desse bem supremo. Meu Jesus, amo-vos, uno-me a vós, dou-vos todo o meu coração, toda a minha vontade. Meu amado Senhor, estou resolvido a nunca mais deixar-vos. Ah! meu doce Salvador, vós que, para apagar minhas dívidas, quisestes não só vos deixar enfaixar por vossa santa Mãe, mas também ser maltratado como um criminoso pelos algozes e nesse estado arrastar-vos pelas ruas de Jeru-salém para serdes em fim conduzido à morte como um inocente cordeiro que se leva ao matadouro; vós que quisestes ser pregado na cruz e que não deixastes senão com a vossa mor-te, eu vos conjuro, não permitais tenha eu ainda a infelicidade de separar-me de vós e de me ver privado da vossa graça e do vosso amor.
Ó Maria, que outrora enfaixastes em paninhos o vosso Fi-lho inocente, prendei também a mim pecador, prendei-me a Jesus, a fim que não mais me afaste de seus pés, que viva sempre preso a Ele e que morra unido a Ele, para ter a felicidade de entrar um dia na pátria bem-aventurada, onde estarei fora do perigo e do temor de separar-me ainda de seu santo amor.

26 de dezembro de 2013

Blog São Pio V completa 5 (cinco) anos de existência!

Prezados Leitores,

Hoje, 26 de dezembro de 2013, o Blog São Pio V está completando cinco anos de existência.
Cinco anos de dificuldades, dúvidas, questionamentos, mas também de muita alegria.
Alegria de poder compartilhar com todos os nossos leitores a sã doutrina Católica. Doutrina tradicional da Igreja, ensinada por Nosso Senhor Jesus Cristo, pelos Santos Padres e todos os Santos da Igreja.
Mas, cabe salientar, que o nosso objetivo maior sempre foi lutar pela Missa Tridentina, a Missa de Sempre, rezada e assistida por todos os Santos da Igreja. Missa que São Francisco de Assis não achava-se digno de rezar.
Hoje, nós temos a liberdade da Missa Tridentina, mas não temos o apoio daqueles que deveriam zelar pela riqueza da Igreja. Mas a luta continua, com nossas orações e sacrifícios.
Estamos unidos ao Santo Padre, Vigário de Cristo e Doce Cristo na terra.
Pedimos as orações de todos os nossos leitores, para que possamos continuar na fidelidade à Cristo Nosso Senhor, ao Santo Padre e a doutrina católica.
Aproveitamos para desejar uma ano de 2014, de muita Paz e Fé.
Um grande abraço em Cristo para todos que de alguma forma colaboraram com nosso Blog.

Administração do Blog São Pio V


Sermão para o 3º Domingo do Advento – Domingo Gaudete – Padre Daniel Pinheiro IBP

[Sermão] Advento: Meios para alegrar a alma – Domingo Gaudete



Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…

Estamos hoje no 3º Domingo do Advento, Domingo chamado Gaudete, em razão da primeira palavra do Introito e em razão da Epístola. Trata-se de uma pequena pausa na penitência do advento, para antecipar a alegria do nascimento do Salvador. Do roxo se passa ao rosa, o órgão toca, pode haver flores sobre o altar.
Lembro aos pais que devem explicar para as crianças o que é o Natal: que é o nascimento de Cristo e não a festa do Papai Noel ou uma simples troca de presentes nas férias.
Lembro também que devemos procurar, no advento, fazer uma boa confissão, para nos voltarmos inteiramente para NSJC. O senhor está próximo, nos diz o Introito, pois o Natal está próximo. Preparemos em nossa alma uma morada para o Menino Deus.
Gaudete semper in Domino, iterum dico, gaudete. Alegrai-vos sempre no Senhor. Digo de novo, alegrai-vos.”
A ordem que nos dá hoje a Igreja, tomando as palavras de São Paulo, é essencial. Gaudete semper in Domino. Alegrai-vos sempre no Senhor. Essa advertência é importantíssima porque a alegria é indispensável para que possamos perseverar no bem, na graça. Nós devemos compreender que devemos ser profundamente alegres, se estamos em estado de graça e nos mantemos, assim, unidos a Deus. Com a graça santificante em nossas almas, sem o pecado mortal, possuímos o maior bem que podemos desejar, possuímos o maior bem que existe, que é a Santíssima Trindade, e não há alegria maior do que possuir o maior bem. Nossa alegria deve ser profunda e grande se estamos unidos a Deus, mesmo em meio a todos os males. É claro que essa alegria não significa estar sempre sorrindo. Não. Nosso Senhor na cruz não sorria, mas estava profundamente alegre na parte superior de sua alma, pois cumpria a vontade de Deus e, com todos os seus sofrimentos, oferecia um sacrifício perfeito à Santíssima Trindade e realizava a nossa redenção. Um católico deve ser profundamente alegre, sempre, no Senhor.
O Padre Ambrósio de Lombez, em seu livro “Tratado da Alegria da alma cristã”, enumera os principais meios para que sejamos alegres no Senhor. Baseado nele, podemos enumerar alguns desses meios. O primeiro deles é manter-se na justiça, quer dizer, na prática da virtude. A alma cuja consciência está tranquila e bem regrada pode ficar continuamente alegre. O segundo meio que podemos enumerar é ocupar o espírito com aquilo que pode alegrar a nossa alma. Isso não diz respeito ao que agrada à sensualidade, à vaidade, à ambição ou outra coisa desordenada. Não, o que devemos considerar aqui é, por exemplo, o amor de Deus por nós, que se encarnou e veio ao mundo para nos salvar, e nos salvar sofrendo e morrendo por nós sobre a cruz. Em particular, nesse tempo do advento, devemos ocupar muitíssimo nosso espírito com a caridade divina, com o Menino Deus que vem ao mundo para nos salvar. O terceiro meio para ter essa verdadeira alegria é pedir a Deus tal alegria. Tudo o que temos de bom, recebemos de Deus. Portanto, também essa alegria nos vem de Deus e devemos pedi-la, se quisermos possuí-la. O Padre Lombez nos diz também que essa alegria não é dada aos covardes e mornos, tíbios. Portanto, buscar amar a Deus sobre todas as coisas com afinco e servi-lo com prontidão da vontade e generosidade é o quarto meio necessário para alcançar essa alegria. Para alcançar essa alegria, é preciso também uma grande confiança em Deus, sabendo que todas as coisas conspiram para o bem daqueles que amam a Deus, mesmo os sofrimentos e as provações. Outro meio necessário é extinguir em nós o apego desordenado aos bens desse mundo. São esses alguns dos meios que o Padre Ambrósio de Lombez enumera e explica em seu livro e que são indispensáveis para a alegria da alma. Se pudéssemos resumir, podemos dizer que a alegria da alma nada mais é que um fruto da santidade, isto é, fruto da união profunda com Deus, fruto da conformidade plena da nossa vontade com a vontade de Deus.
Essa verdadeira alegria, essa alegria de praticar a virtude, de amar a Deus, de servi-lo com prontidão é um grande tesouro, necessário para perseverarmos até o fim e alcançarmos a alegria plena no céu. Poderíamos, porém, acrescentar, aos meios que o Padre Lombez enumera, a liturgia tradicional. Ela é um tesouro que nos conduz à verdadeira alegria e que deve nos alegrar. Não é por acaso que na Missa tradicional fala-se três vezes do “Deus que alegra a nossa juventude”. A nossa juventude que se alegra em Deus é o homem novo, gerado pela graça, pelo abandono do pecado, pela prática das virtudes. Portanto, a Missa Tradicional está distante de ser uma liturgia triste. Ela é, ao contrário, uma liturgia perfeitamente alegre. Ela é alegre porque nos transmite plenamente a verdade ensinada por Cristo. Ela é alegre porque pelos ritos e solenidade sóbria, nos deixa manifesta a majestade divina e sua onipotência, nos fazendo ter grande confiança nEle. Ela é alegre porque de modo claríssimo renova o sacrifício de Cristo na Cruz, aplicando as graças que Ele mereceu no Calvário, nos fazendo, assim, ver a bondade divina. Ela é alegre porque nos converte inteiramente a Deus, desde a posição do padre no altar, até o modo de os fiéis comungarem, passando pelo latim e pelo silêncio. Ela é alegre porque, por seus ritos abundantes e orações perfeitas, alcança de Deus inúmeras graças que nos dispõem a receber devidamente os frutos da Santa Missa. Ela é alegre porque nos conduz ao desapego dos bens terrenos e ao desapego de nossa vontade própria, ao nos centrar inteiramente em Deus, esquecidos de nós e do mundo. Ela é alegre porque nos ensina a rezar bem, como dissemos quando tratamos do silêncio em outro sermão. E quem reza bem se salva. Ela é alegre porque coloca Deus e nós homens nos nossos devidos lugares. Ele, no centro, com sua soberana majestade, com sua onipotência, com todas as suas perfeições, com sua misericórdia e justiça, com sua bondade infinita. Nós, como pobres pecadores, que devemos adorar a Deus, que devemos agradecer-lhe por todos as graças que recebemos,  que devemos pedir perdão por nossos pecados, que devemos implorar as graças que precisamos para nos salvar. Ela é alegre porque ontem, hoje e sempre, nos conduz à santidade com toda segurança. Que grande meio é a liturgia tradicional para sermos felizes sempre no Senhor.
Com muita frequência, todavia, aqueles que buscam com seriedade amar a Deus sobre todas as coisas, e buscam a salvação da própria alma e a salvação do próximo são tentados por uma má tristeza. A má tristeza pode ser de dois tipos. A primeira delas é uma má tristeza em si mesma, quer dizer, quando nos entristecemos por algo que na verdade é um bem. Um exemplo dessa má tristeza seria entristecer-se por ter de vir à Missa no domingo, ou entristecer-se por não poder dizer uma grosseria. A segunda má tristeza, a que atinge principalmente os bons, é uma tristeza que tem razão de ser, mas que tem consequências ruins. Vemos, constantemente, os bons católicos tristes pelas ofensas que se cometem contra Deus, pelas infidelidades dos homens de todas as posições, pelo estado da Igreja e da sociedade, pelo desprezo com o que há de mais sagrado e pelo desprezo para com a lei natural. De fato, como não se entristecer diante de uma sociedade que sacrifica os filhos, pelo aborto, no altar da comodidade e do prazer e que se alegra em aprovar publicamente pecados que clamam aos céus por vingança, como o homossexualismo? Há motivo para que haja tristeza, não tem dúvidas. Todavia, será uma tristeza ruim, se, como consequência, ela nos leva ao abatimento da alma, se ela nos faz perder a confiança em Deus e nos faz perder o desejo de rezar. Ela será uma tristeza ruim, se ela nos faz buscar divertimentos exteriores ilícitos ou se nos faz buscar, mais do que o devido, divertimentos lícitos. Essa tristeza ruim nos impede muitas vezes de fazer o bem que podemos e devemos fazer aqui e agora, sob pretexto de que a situação da Igreja está muito difícil, ou com a desculpa de que já não se pode fazer nada ou porque, às vezes, aqueles que mais deveriam nos ajudar, infelizmente, atrapalham. Essa má tristeza é, lastimavelmente, bastante comum, mesmo entre bons católicos. Ela é uma praga. Como nos diz a Sagrada Escritura (Eclesiástico 30, 24 e 25): Fixa o teu coração na santidade do mesmo Deus e afasta para longe de ti a tristeza, pois a tristeza matou muitos e nela não tem utilidade. A tristeza, dominando muitas almas, matou-as espiritualmente, paralisando-as, levando-as ao desencorajamento, ao desespero. É preciso afastar com toda força para longe de nós essa tristeza. Diante dos verdadeiros males, devemos reagir com uma tristeza cristã, se assim podemos chamá-la: uma tristeza que nos leva à oração e ao fervor no serviço de Deus, que nos leva a buscar a união profunda com Deus, onde está a nossa verdadeira consolação, que não é uma consolação sensível. Essa boa tristeza não nos impede de fazer o bem que podemos e devemos fazer aqui e agora na nossa escala. Ao contrário, ela nos conduz a praticar esse bem com intensidade. A boa tristeza sabe tirar dos males um bem, sempre. Essa boa tristeza é motivo de alegria no fundo, pois ao nos fazer progredir na união com Deus e na prática da virtude, nos leva à alegria. Ela nos fixa em Deus.
Portanto, caros católicos, alegremo-nos sempre no Senhor. Afastemos para longe de nós a tristeza que nos tira as forças e nos conduz à morte espiritual. Devemos servir a Deus com alegria (Salmo 99, 2) e devemos nos rejubilar no Senhor (Salmo 99, 1), como nos diz a Sagrada Escritura. Deus alegrará a juventude da nossa alma, se aplicarmos os meios de que falamos. Deus não nos quer sorrindo o tempo todo, mas Ele quer que sejamos profundamente alegres, de uma alegria e entusiasmo espirituais. O demônio, por sua vez, quer nos fazer acreditar e quer que o mundo acredite que ser católico é algo triste e melancólico, pois o católico renuncia a vários bens desse mundo. Um católico não aproveita a vida, se diz. Que grande ilusão o demônio e o mundo nos apresentam. O católico abandona os bens aparentes desse mundo para possuir o verdadeiro bem, que é a Santíssima Trindade. Um católico aproveita mais do que ninguém a vida e a aproveita muito bem, juntando tesouros eternos. Alegrai-vos sempre no Senhor. Digo de novo, alegrai-vos.

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

DIA XXVI DE DEZEMBRO.

Uma visita à Gruta de Belém.

Transeamus usque Bethlehem, et videamus hoc verbum, quod factum est — “Cheguemos até Belém, e vejamos o que é isto que sucedeu” (Luc. 2, 15).

I. Tende ânimo, Maria convida todos, os justos e os pecadores, a entrarem na Gruta para adorarem seu divino Filho e beijarem-Lhe os pés. Eia pois, ó almas devotas, entrai e vêde sobre a palha o Criador do céu e da terra, feito Menino pequenino, mas tão encantador, tão radiante que para toda a parte irradia torrentes de luz. Já que Jesus nasceu, a gruta não é mais horrorosa, senão foi feita um paraíso. Entremos e não temamos.

Jesus nasceu, e nasceu para todos. Ego flos campi, et lilium convallium: Eu, assim manda-nos avisar Jesus, eu sou a flor do campo, e a açucena dos vales (1). Jesus se chama açucena dos vales, para nos dar a entender que, assim como Ele nasceu tão humilde, assim somente os humildes o acharão. Por isso o anjo não foi anunciar o nascimento de Jesus Cristo a César nem a Herodes; mas sim a pobres e humildes pastores. Jesus chama-se também flor dos campos, porque, segundo a interpretação do cardeal Hugo, quer que todos o possam achar. As flores dos jardins estão reclusas e não se permite a todos procurá-las e tomá-las. Ao contrário, as flores dos campos estão expostas à vista de todos, e quem quiser as pode tirar: é assim que Jesus Cristo quer estar ao alcance de todo aquele que O desejar.

Entremos, pois a porta está aberta: Non est satelles, qui dicat: non est hora — “Não há guarda”, diz São Pedro Crisólogo, “para dizer que não são horas.” Os príncipes deixam-se ficar fechados nos seus palácios, cercados de soldados, e não é fácil obter-se audiência. Quem deseja falar com os reis, tem de afadigar-se muito, e bastante vezes será mandado embora com o conselho de voltar em outro tempo, por não ser dia de audiência. Não é assim com Jesus Cristo. Está na Gruta de Belém, como criancinha, para atrair a quem vier procurá-Lo. A gruta está aberta, sem guardas nem portas, de modo que cada um pode entrar à vontade, quando quiser, para achar o pequenino Rei, para falar com Ele e mesmo abraçá-Lo, e assim satisfazer a seu amor.

II. Almas devotas, contemplai naquela manjedoura, sobre aquela pobre palha o tenro Menino que está a chorar. Vêde como é formoso; mirai a luz que irradia, e o amor que respira; esses olhos atiram setas aos corações que O desejam, esses vagidos são chamas abrasadoras para os que O amam. No dizer de São Bernardo, a própria gruta e as próprias palhas clamam e vos dizem que ameis aquele que vos ama, que ameis um Deus que é digno de amor infinito, baixou do céu, se fez menino e menino pobre para manifestar o amor que vos tem e para cativar por seus sofrimentos o vosso amor.

Perguntai-Lhe: Ó formoso Menino pequenino, dize-me, de quem és filho? Responde-lhe: Minha mãe é esta linda e pura Virgem, que está a meu lado. E teu pai, quem é? Meu pai é Deus. Mas como? Tu és o Filho de Deus, e és tão pobre, tão humilde? Nesse estado quem te reconhecerá? Quem te respeitará? A santa fé, responde Jesus, me fará conhecer por quem sou, e me fará amar pelas almas que eu vim remir e inflamar em meu amor. Não vim para me fazer temido, senão para me fazer amado, e por isso, quis manifestar-me, a primeira vez que me vedes, como criança tão pobre e humilde, a fim de que assim me ameis com mais ternura, vendo a que estado me reduziu o amor que vos tenho.

Mas dize-me, meu Menino, porque volves os teus olhos para todos os lados? Que estás esperando? Ouço que suspiras, dize-me: para que são estes suspiros? Ó Deus, ouço que estás chorando, dize-me: porque choras?

Ah, responde Jesus, eu olho ao redor de mim, porque estou procurando alguma alma que me queira. Suspiro pelo desejo de ver junto de mim algum coração abrasado em meu amor, assim como estou abrasado em seu amor. Choro, sim, e choro porque não vejo corações, ou vejo-os nimiamente poucos, corações que me procurem e me queiram amar.

Ó Maria, Mãe do belo amor, fazei que o meu coração seja também do número daqueles que buscam e amam Jesus. (*III 729)

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1. Cant. 2, 1

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 84 - 86.)

Festa de Santo Estêvão, Protomártir.

Elegerunt Stephanum, virum plenum fide et Spiritu Sancto — “Elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Epírito Santo.” (Act. 6, 5).

Sumário. Eis aí o belo elogio com que a Sagrada Escritura presta homenagem às virtudes de Santo Estêvão: chama-o cheio de fé, cheio de graça, cheio de fortaleza, em uma palavra, cheio do Espirito Santo. Alegremo-nos com o santo Protomártir, e em seu nome demos graças a Deus. Volvendo depois os olhos a nós mesmos, vejamos se ainda, e em que grau, as mesmas belas virtudes se acham em nossa alma, visto que nos foram infusas pelo sacramento do Batismo.

I. Considera o belo elogio com que o Espirito Santo presta na Sagrada Escritura homenagem às virtudes do Protomártir Santo Estêvão. Chama-o em primeiro logar cheio de fé: Elegeram Estêvão, homem cheio de féElegerunt Stephanum virum plenum fide (1). Ser cheio de fé, segundo Santo Tomás (2), quer dizer, não somente ter uma firmeza eminente em crer todas as verdades reveladas, junto com um amor ardente à revelação e uma conformidade perfeita com a vontade de Deus que revela; mas quer dizer além disso, possuir o depósito inteiro da fé com o conhecimento explicito de todas as suas partes. Por esta razão São Jerônimo diz que Santo Estêvão era doutíssimo na lei. — O Espirito Santo chama Santo Estêvão em segundo lugar cheio de graça e de fortaleza:  plenus gratia et fortitudine, porque advogava a causa de Jesus Cristo ao mesmo tempo com doçura e com zelo ardentíssimo. Temos a prova naquele sublime discurso que fez antes de morrer. Depois de pedir ao povo e aos anciãos que o escutassem em quanto lhes pregasse a salvação, Santo Estêvão expoz-lhes em seguida todos os favores que tinham recebido de Deus e a negra ingratidão com que lhe haviam pago. Vendo, porém, que com bons modos não conseguia abrandar-lhes o coração, começou a deitar-lhes à cara os seus defeitos, e com coragem heróica concluiu dizendo que eram homens duros de cerviz, e de corações e ouvidos incircuncisos, que sempre resistiam ao Espirito Santo (4).— Afinal a Sagrada Escriptura chama Santo Estêvão cheio de todos os carismas celestiais: Cum autem esset plenus Spiritu Santo (5). Por isso se diz que fazia grandes prodigios e milagres entre o povo (6); que não se podia resistir à sua sabedoria (7); que o seu rosto era refulgente como o de um anjo (8); e que pouco antes de expirar teve a ventura de ver os céus abertos, a glória de Deus, e Jesus à direita de Deus (9). — Alegra-te como santo Diácono e dá graças a Deus por havê-lo enriquecido com tantas virtudes. Volvendo em seguida os olhos à tua própria alma, vê se em ti se acham as mesmas virtudes e o modo como as praticas, visto que te foram infusas no sacramento do Batismo.

II. Muito embora Santo Estêvão se avantajasse em todas as virtudes, distinguiu-se todavia particularmente pelo amor de Deus e do próximo. Deu prova de seu amor de Deus sofrendo, o primeiro entre os fiéis, um doloroso martírio pela pregação da fé. Porquanto os judeus, “ouvindo as suas repreensões e ameaças, se exasperaram em seus corações, e rangeram os dentes contra ele. E levantando um grande clamor, taparam os seus ouvidos, e todos juntos arremeteram contra ele, e expelindo-o para fora da cidade, o apedrejaram.” (10)

Mostrou igualmente o seu amor para com o próximo. Desprezando a desmembração de seu próprio corpo e lamentando unicamente a obcecaçâo dos seus algozes, opôs benefícios a injúria, amor ao ódio, doçura à ira, bondade à mal querença. Com uma palavra, o Santo pôs em prática o ensino do divino Mestre:
Rogae pelos que vos perseguem (11); por isso, “pondo-se de joelhos, clamou em alta voz, dizendo: Senhor, não lhes imputeis este pecado. E tendo dito isto, dormiu no Senhor.” (12) Esta caridade heróica agradou de tal forma a Jesus Cristo, que, na opinião de Santo Agostinho, mereceu a conversão do Apóstolo São Paulo, que “dera consentimento à morte de Estêvão”.

Que lição para ti, se a souberes aproveitar! Examina o teu coração para ver se nutre sentimentos de aversão ou de antipatia contra o próximo, e roga ao Senhor, te dê força para perdoar de boa vontade todas as injúrias, ainda que imerecidas, para suportares os defeitos dos outros, assim como estes suportam os teus, e para te mostrares sempre amável para com todos, sem nenhuma exceção.

“Concedei-nos, Senhor, a graça de imitar o que veneramos neste dia, para que, celebrando o natalício daquele que soube rogar pelos seus perseguidores, aprendamos a amar os nossos inimigos.” (13) Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo e da nossa amada Mãe Maria.

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1. Act. 6, 5.
2. S. theol.2 2, q. 6, a. 4.
3. Act. 6, 8.
4. Act. 7, 51.
5. Act. 7, 55.
6. Act. 6, 8.
7. Act. 6, 10.
8. Act. 6, 15.
9. Act. 7, 55.
10. Act. 7, 54-57.
11. Matth. 5, 44.
12. Act. 7, 59.
13. Or. festi curr.

 (LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 81 - 84.)

Sermão para o 4º Domingo do Advento – Padre Daniel Pinheiro IBP

[Sermão] Advento: Os Símbolos do Natal do Menino Jesus




Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…

Reforço a grande conveniência de se fazer uma boa confissão nesse tempo do advento em preparação para a festa do Natal. Estarei à disposição após a Missa e no dia 24 a partir das nove e meia da manhã, uma hora antes da Missa, para os que desejam se confessar.
“Vinde, Senhor, e não tardeis, perdoai os crimes de Israel, vosso povo.”
Caros católicos, estamos a três dias do Nascimento de NSJC. A esperança e a verdadeira alegria começam já a encher nossa alma, ao considerarmos que o próprio Deus se fez homem para nos salvar. O desejado das nações, o desejado das colinas eternas, o salvador prometido desde o pecado original de Adão e Eva, o messias esperado durante tantos séculos pelo povo judeu vem ao mundo. O Menino Deus vai nascer no estábulo de Belém. Ele se faz homem, Ele se faz criança, Ele se faz servo, para nos salvar. E o mundo caminha esquecido dEle, mesmo nesses dias de Natal, mesmo no dia em que festejamos a vinda dEle entre nós. Deus vem ao mundo, mostrando todo o seu amor pelos homens. E os homens não o recebem.
O mundo comemora o dia 25 de dezembro sem saber exatamente o porquê. Ele decora suas casas e mesmo os locais públicos com árvores de natal e com luzes sem saber a razão disso. Às vezes, até mesmo o presépio, a cena do nascimento de Cristo, é colocada em locais públicos, mas sem que as pessoas se deem conta do que realmente aconteceu naquela madrugada fria de 25 de dezembro. O jornal de maior circulação em Brasília dá a seguinte explicação para alguns dos símbolos do Natal: (1) árvore de Natal seria simplesmente sinal da vida que surge, sinal de um novo ciclo; (2) as bolas da árvore de natal representariam os frutos de nossas ações durante o ano; (3) os sinos anunciariam a chegada de um novo tempo e as mudanças que vêm com esse novo tempo; (4) as luzes significariam que a alma e as emoções das pessoas estão mais claras ou significariam o despertar de bons sentimentos e boas ações no coração de cada pessoa; (5) o presépio representaria simplesmente a valorização do núcleo familiar e também a simplicidade, por meio do nascimento de Cristo no estábulo; (6) os presentes seriam a manifestação da vontade de se doar aos outros, num gesto de filantropia. Constatamos, pela simples explicação desses símbolos do Natal, o quanto a nossa sociedade está perdida e imersa em um profundo naturalismo, incapaz de compreender as realidades sobrenaturais, ainda que significadas de maneira clara nesses símbolos. O acontecimento mais importante na história da humanidade se encontra reduzido a explicações simplórias, às vezes sem sentido. O nascimento do Menino Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, se encontra diluído num difuso espírito natalino puramente humano, de alegria sem causa e, no fundo, de algo puramente sentimental e irracional.
Os símbolos do Natal, surgidos ao longo da história, nos ajudam, na verdade, a compreender mais profundamente o mistério do nascimento de Cristo, o mistério da redenção, desde o seu início. Assim, (1) a árvore de Natal nos remete às árvores do paraíso terrestre, onde habitavam Adão e Eva quando foram criados. Ela nos remete à árvore da ciência do bem e do mal, da qual nossos primeiros pais estavam proibidos de comer. Ao comerem, enganados pelo demônio, o pai da mentira, introduziram o pecado, a morte, o sofrimento, a concupiscência desordenada. Com o pecado, os homens já não podiam obter a salvação, nem satisfazer pelo pecado, pois a ofensa a Deus foi infinita e nós somos pobres criaturas, portanto, finitas. Precisávamos de um redentor, que pudesse reparar pelo pecado com um ato infinitamente agradável a Deus. Só um homem-Deus poderia fazer isso.   A árvore de Natal nos lembra, assim, o motivo da encarnação de Cristo: o pecado e a consequente necessidade da redenção. Cristo vem ao mundo nos redimir do pecado, satisfazer pelo nosso pecado, alcançar graça de Deus e nos possibilitar a vida eterna. A árvore de Natal nos faz também compreender que Cristo é o fruto da vida eterna, é o alimento da vida eterna, em oposição ao fruto proibido da árvore da ciência do bem e do mal. Ele é o fruto da vida eterna, se somos fiéis à graça que Ele nos dá para acreditar firmemente em tudo o que nos disse e para fazermos a vontade d’Ele em todas as coisas. As (2) bolas da árvore de Natal devem nos lembrar, por um lado, o fruto proibido, que levou nossos primeiros pais ao pecado, mas, por outro, devem nos fazer compreender que Cristo é o fruto que dá a vida eterna. Assim, na Ave Maria, dizemos que Cristo é o bendito fruto do ventre de Nossa Senhora. A árvore de Natal nos lembra também a profecia de Isaías que afirma que o Messias sairá do tronco de Jessé, pai de Davi, e que uma flor brotará da raiz de Jessé. Finalmente, a árvore de Natal nos lembra outra árvore importantíssima que é a Cruz, o madeiro da Cruz. É na Cruz que a redenção se completa, após o nascimento do menino Deus, após sua vida escondida e sua vida pública. A árvore de Natal já nos anuncia a árvore da Cruz, árvore gloriosa que mereceu portar os membros do Deus feito homem. E, na árvore de Natal, vemos, tradicionalmente, no topo, uma estrela, que nada mais é do que a Estrela de Belém, que conduziu os reis Magos ao Menino Deus. Se a estrela está parada, ela nos indica onde está Cristo. A estrela nos diz que aquela árvore, árvore da vida, árvore que nos redime e que nos salva é Cristo.
Os (3) sinos, que são também um símbolo bastante presente no tempo do Advento e do Natal anunciam a alegria da vinda do Salvador, aliado ao canto dos anjos, o Gloria in excelsis Deo. Por isso, na Missa do Galo, os sinos tocam durante todo o Gloria in excelsis Deo da Missa, transbordando de alegria.
As (4) luzes do Natal, que brilham nas noites desse período do ano, são um símbolo manifesto da Luz (com L maiúsculo) que vem ao mundo e que brilha no meio das trevas. As luzes de Natal se veem, sobretudo, à noite, para mostrar que Cristo é a luz do mundo, que apareceu no mundo quando todo o mundo estava imerso nas trevas do pecado e da morte. Cristo é a Luz do mundo não de modo vago ou esotérico. É muito comum ouvirmos as pessoas desejarem às outras muita luz. O que elas querem dizer com isso, porém, é difícil saber. Cristo é a Luz do mundo que ilumina as inteligências com as sublimes verdades divinas e que faz arder nossa vontade com a caridade, com o amor a Deus e o amor ao próximo por amor a Deus. Cristo ilumina a nossa inteligência ao nos mostrar claramente a bondade divina, que envia seu próprio Filho para nos salvar, para sofrer por nós. Ao mesmo tempo, ao mostrar seu amor por nós, Ele inflama a nossa vontade para que o amemos em retorno, que o amemos efetivamente, fazendo aquilo que lhe agrada. Cristo é a Luz do mundo de modo claro, sem ambiguidade. Ele nos traz a salvação, a união com Deus.  É esse um pensamento que deve acompanhar todos os passos de nossa vida: “O Verbo se fez carne para me salvar, para me levar para o céu. Como tenho retribuído tamanho amor?” As luzes do Natal têm, portanto, um belo significado: nos apontam para a verdadeira luz do mundo, que é Cristo, para a única esperança de salvação e de redenção. Fora de Cristo e de sua Igreja, que nada mais é do que o Corpo Místico de Cristo, só há trevas e escuridão. As luzes do Natal são também um convite para que a Sagrada Família entre em nossas casas, é a afirmação de que aqui eles poderão encontrar a hospedagem que não encontraram em Belém.
O (5) presépio não é simplesmente a evocação do núcleo familiar ou da simplicidade. O presépio nos lembra o momento mais importante da história da humanidade, que é o nascimento do Verbo Encarnado, o acontecimento que divide a história da humanidade. O presépio deve nos fazer considerar a caridade infinita de Deus para conosco e também a virtude dos que estão ali representados, desde Nossa Senhora e São José até os Reis Magos, passando pelos pastores. Sem dúvida, o presépio nos lembra a importância da família, e da verdadeira família – homem, mulher, prole – e nos lembra a simplicidade, mas, sobretudo, deve nos fazer considerar a vinda do Verbo Encarnado para nos salvar, o momento central da história. Deus se faz menino, Deus se faz servo, deus se faz homem. O presépio deve nos lembrar esse sublime fato sobrenatural.
Também os (6) presentes trocados no período de Natal, em algumas culturas no dia da Epifania ou no dia da Festa de São Nicolau, são um símbolo da graça que Deus nos deu no dia 25 de dezembro. Deus nos deu a maior graça possível: a vinda da Segunda pessoa da Santíssima Trindade ao mundo. Os presentes devem servir para lembrar essa graça que nos foi dada.   Os presentes devem ser também um símbolo da caridade para com o próximo. Não um símbolo de simples filantropia, de amor ao homem por amor ao homem, mas de caridade, isto é, de amor ao próximo por amor a Deus. Eles servem, assim, como símbolo de nossa vontade de cooperar com a salvação do próximo. Devemos afastar o espírito consumista do Natal.
As guirlandas de Natal, que vemos por toda a parte também têm seu significado. Na verdade, nada mais são do que coroas. Essas guirlandas remetem às coroas de louro, dadas aos vencedores na Antiguidade.  Elas representam, então, a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, o triunfo do Menino Deus sobre a serpente.
O Natal que se aproxima é um tempo de verdadeira alegria espiritual. É o tempo do Senhor, que vem ao mundo para nos redimir com a força de seu braço. É o tempo da Raiz de Jessé, que vem para nos libertar do jugo do pecado. É o tempo da chave de Davi, pois só Cristo pode nos abrir o céu, com seus méritos e nos tirar do cárcere das trevas e da sombra da morte. É o tempo do Oriente, quer dizer, da Luz, que é Cristo, que nasce para iluminar as nossas inteligências e inflamar a nossa vontade. É o tempo do Rei das Nações, da pedra angular, que quer unir todos os povos pela fé e pela caridade e que vem para salvar o homem que Ele mesmo formou do limo da terra. É o tempo Emanuel, isto é, do Deus conosco, nosso rei e legislador que vem para nos salvar. É um tempo sublime. É tempo de misericórdia de Deus e tempo de conversão. Aproveitemos, portanto, a vinda do Menino Deus para nos convertermos inteiramente a Ele, para fazermos tudo por Ele, com Ele e Nele. Peçamos a Deus a graça de sermos participantes da vida divina, assim como Ele participou da nossa natureza ao se encarnar.  Não deixemos passar tão grande graça que nos é concedida no tempo do Natal. Alegremo-nos com grande esperança e façamos uma boa confissão, para que essa alegria não seja puramente exterior.

Em nome do Pai e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.