28 de agosto de 2011

DÉCIMO PRIMEIRO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

O Papado no Evangelho

O Evangelho termina com uma destas frases que o Espírito Santo lança, vez ou outra, como um relâmpago sobre a vida de Jesus Cristo.

Resumindo a sua vida escondida em Nazareth o Espírito Santo diz tudo numa frase: Era-lhes submisso.

Resumindo a sua vida pública é o mesmo relâmpago, curto, mas de uma extensão deslumbrante: Ele fez bem todas as coisas.

Jesus veio neste mundo para salvar a humanidade, comunicar-lhe a sua doutrina divina e estabelecer meios para que esta doutrina se conservasse imutável através dos séculos.

Para conseguir esta imutabilidade, duas coisas eram necessárias: possuir uma autoridade suprema e a sobrevivência desta autoridade.

São estes dois pontos que vamos meditar hoje, vendo pelo Evangelho, como Jesus transmite a Pedro:

1. A autoridade no governo
2. A imortalidade na existência.

Estas duas prerrogativas vão mostrar-nos em todo o seu esplendor a glória do Papado de Pedro e de seus sucessores através dos séculos.

I. A autoridade no governo

Há duas fases nesta autoridade: a promessa e a realização.

Um dia Jesus Cristo pergunta a seus discípulos. Que dizem os homens do Filho do Homem?

Os discípulos respondem: Uns dizem que é João Batista, outros que é Elias e outros que é Jeremias ou algum dos Profetas.

E vós, continua o divino Mestre, que dizeis de mim?

Então, Pedro tomando a palavra, exclama com este acento de fé que lhe era peculiar: - Tu és o Cristo Filho de Deus vivo (Mat. XVI. 16).

A exclamação de Pedro é um relâmpago de fé; a resposta do Mestre é um relâmpago de autoridade.

Bem-aventurado és tu Simão, filho de João, diz Ele, porque não foi a carne, nem o sangue que te revelou isso, mas meu Pai que está no Céu; e Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra (kephas significa: Pedro e pedra, como a palavra francesa Pierre significa Pedro e pedra) edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra Ela.

Além disso: Eu te darei as chaves do reino dos céus: e tudo o que ligares na terra será ligado também nos céus e tudo o que desatares na terra, será também desatado nos céus. (Math.XVI. 19)

Tal é a promessa: Notem bem que é apenas a promessa. É depois da ressurreição que o divino Mestre cumprirá a sua promessa.

A cena é de um encanto sem par, de uma ternura sem medida e de um vigor sem réplica.

Era na ocasião da terceira aparição de Jesus ressuscitado.

Os Apóstolos, depois da pesca milagrosa, tinham terminado a modesta ceia, à qual o próprio Jesus quis participar.

Tendo eles pois jantado, narra o Evangelho, Jesus disse a Simão Pedro:

Simão, filho de João (Bar Jona) tu me amas mais do que estes?

Ele disse-lhe: Sim Senhor: tu sabes que eu te amo.

Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros.

Há uma pausa, repleta de um silêncio misterioso. Então Jesus disse-lhes outra vez: Simão, filho de João, amas-me?

Ele disse-lhe: Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo.

Disse-lhe Jesus: Apascentas os meus cordeiros.

Novo silêncio misterioso, repleto de uma expectativa torturante para Pedro. Jesus pala terceira vez fez a mesma pergunta:

Simão, filho de João, amas-me?

Pedro ficou triste, porque pela terceira vez o Mestre lhe perguntou: Tu amas-me? E disse-lhe: Senhor, tu conheces tudo: tu sabes que eu te amo!

Disse-lhe Jesus: apascenta as minhas ovelhas. (João XXI. 15)

Jesus pergunta três vezes a Pedro se o ama, como para obrigá-lo a reparar com uma tríplice afirmação a tríplice negação no átrio de Caifás (Math. XXVI. 74)

E a medida que Pedro vai afirmando o seu amor, Jesus dá-lhe a investidura da autoridade suprema sobre a Igreja inteira.

De fato, notamos na Igreja três categorias distintas: os fiéis, os sacerdotes, os Bispos.

E todos estes estão sob a autoridade de Pedro.

É como se o divino Mestre dissesse:

- Pedro, tu amas-me mais do que estes?
- Sim; Senhor!
- Pois bem, sê o Pastor dos Bispos da Igreja.
- Pedro, amas-me?
- Sim, Senhor.
- Pois bem, sê o Pastor dos meus sacerdotes.
- Pedro, amas-me?
- Senhor, tu sabes que eu te amo.
- Pois bem, sê o Pastor supremo de todos os fiéis.

Eis Pedro, revestido da autoridade suprema da Igreja inteira: da Igreja docente e discente, dos Bispos, sacerdotes e fiéis.

É a realização do que o divino Mestre havia prometido: haverá um único rebanho e um único Pastor (João X. 16).

II. A imortalidade da existência

Jesus Cristo disse a Pedro: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.

Ora, o fundamento de uma Igreja imortal deve ser igualmente imortal.

As portas do inferno nunca prevalecerão contra a Igreja; logo não prevalecerão tão pouco contra o fundamento desta Igreja: e este fundamento é Pedro, é o Papado.

A Igreja é, pois, imortal, embora os Apóstolos sejam mortais.

A morte ceifa todas as gerações, e não poupa nem os reis, nem os Papas.

O Papa morre, porém, notai bem: a sua primazia não é um privilégio pessoal. Ela sobrevive ao homem que desaparece e passa inteiramente a seu sucessor.

O Papa morreu!

Viva o Papa! diziam os antigos.

Quem sucede a Pedro, sucede a sua autoridade. Ceifado pela morte, Pedro persevera e vive naqueles que lhe sucedem sobre o seu trono.

O homem dura pouco: é uma nuvem que passa.

A verdade e a virtude devem permanecer sempre no mundo: a Igreja não pode morrer.

Logo, é preciso que haja um Papa... que haja cem Papas... duzentos... mil, até chegar ao fim dos tempos. É preciso que o último dos Papas, no fim do mundo, esteja ligado por uma corrente ininterrupta ao primeiro Papa: São Pedro.

Entretanto, o Papa é homem. Tudo pode conspirar contra ele: o tempo, as paixões, os poderes, as baixezas, o inferno.

Estes poderes unir-se-ão para abafar a verdade sobre seus lábios... quebrar-lhe-ão os dentes... cortar-lhe-ão a língua, para que não fale.

Pouco importa: ele falará sempre.

Este ancião idoso, vergado sob a idade e a responsabilidade, sob o ódio e as ameaças, falará sempre e nenhum poder acorrentará a verdade sobre os seus lábios: o Papa é imortal.

A história está repleta das agressões brutais de todos os poderes humanos, e continuadamente temos sob os olhos o triste espetáculo das conspirações contra o trono de Pedro.

Trono do Papa, tantas vezes ameaçado e batido, acabarás tu por ruir? É o brado angustiado de muitos católicos fracos na fé, ouvindo os ruídos sinistros do passado e as imprecações selvagens do presente.

Abram o Evangelho, a resposta está ali:

Tu és Pedro... feito pedra e eu edificarei sobre ti a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

É a dupla auréola da autoridade e da imortalidade.

III. Conclusão

A mudança do nome de Pedro em Pedra encerra o seu título de imortalidade.

Tu eras Pedro: Pedro é mortal.
Tu serás Pedra: a pedra é imortal.

Tu eras Simão, filho de João, disse-lhe o divino Mestre, tu serás doravante Pedro, a pedra fundamental.

E a mesma cena se renova através dos séculos. A cada Papa Jesus Cristo repete:

Tu eras Joaquim Pecci: tu serás Leão XIII.
Tu eras José Sarto: tu serás Pio X.
Tu eras Giacomo della Chiesa: tu serás Bento XV.
Tu eras Achilles Rati: tu serás Pio XI.
Tu eras Eugênio Pacelli: tu serás Pio XII.

E a lista seguir-se-á; de São Pedro até ao último Papa. Cada um deles deixará o seu primeiro nome para tomar o nome da sua transformação em Pedro.

Eis como se nos apresenta Pedro e com ele seus 263 sucessores.

É a mesma autoridade... é a imortalidade através dos séculos...

Pedro recebeu de Jesus Cristo: a autoridade do governo e a imortalidade na existência!

EXEMPLOS

1. Com 1800 anos de idade

Um jovem Padre de Paris foi assistir a uma execução musical do Conservatório. Entrou ali também o grande compositor Gounod, que encontrou todas as cadeiras ocupadas.

O Padre se levanta e apresenta a sua cadeira, dizendo:

- Mestre, faça o favor de tomar o meu lugar.
- Isto não farei, responde Gounod.
- Mas em consideração da sua idade, retorquiu o Padre.
- V. Rvma. me desculpe, respondeu Gounod, mas permita-me citar-lhe uma palavra de Gregório XVI.

Não me lembro qual foi a personagem que disse ao Papa por ocasião de uma audiência: Santo Padre, sou mais velho do que V. Santidade!

- Mais velho do que eu? replicou o Papa, sorrindo. Olhe lá: eu estou com 1800 anos de idade!...

- Senhor Padre, concluiu Gounod, conserve V. Rvma. o seu lugar... é mais velho do que eu... está com 1800 anos, enquanto eu tenho apenas os meus 60 anos.

2. Palavra de Barbaroxa

Barbaroxa era um imperador perverso.

Estando no Oriente, exclamou um dia: “Como o sultão Árabe é feliz!... não tem um Papa para reprimir as suas desordens!”

3. O Papa Pio V

Os médicos aconselharam ao Papa Pio V de cuidar mais da sua saúde e que não trabalhasse tanto.

O santo respondeu: A Santa Sé não é um leito de dormir, mas um trono de trabalho. A saúde, a prolongação da vida, é a última coisa de que um Papa deve ocupar-se! Ele é, antes de tudo, o servo dos servos de Deus!

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(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 314 - 321)

27 de agosto de 2011

CANTOS A MARIA (VI-2)

Maria prefigurada

Ave Rainha celestial,
admiravelmente constituída imperatriz
pela Tripla Majestade Divina.

O Rei dos anjos e dos santos,
atraído e impressionado
pelo perfume de tuas virtudes
desceu dento de ti.

Tu, louvor de Padres e Profetas,
tu, de muitas escrituras
brilhante comentário e encanto dos corações
por causa de tua doçura

Porta fechada, jamais aberta,
transpassada e sempre selada
te descreveu Ezequiel como te viu

A sarça em chamas sem consumir-se,
que foi admiração do profeta
te cantou casta e parturiente

São figuras tuas
a vara seca embora florecida,
a lã de Gedeão
em celestial orvalho embebida

Por ti, Ester, a Mardoqueo
o justo judeu salva o rei
e executa a Hamã o réu
por causa de delito seu

Com a espada de Judite
abates a soberba de Holofernes
que ameaça com a ruína de Judá

Pelo supremo rei coroada
Mãe clemente, doce e cara,
sê nossa advogada, Virgem pia.

Bendigamos e louvemos a Jesus,
que a sua Mãe Maria
bendisse em Deus pela eternidade

O Natal

Todo o mundo esteja em festa
com alegria e coração puro,
sem mancha e sem vícios,
porque é o dia do Senhor,
que da Virgem há nascido

No parto de Maria
Mãe pia,
que o povo se alegre
e cada qual lhe renda
os louvores mais expressivos

Desfruta, homem, na terra
com júbilo e entusiasmo,
dê graças ao Divino Filho
porque por seu auxílio
da culpa fica limpo

Louvores a ti, Mãe feliz
em cujo regaço virginal,
nascido por obra do Paráclito;
sem intervenção de varão,
o supremo Criador do mundo
encontra seu descanso.

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de Maria nunquam satis"
"sobre Maria nunca se falará o bastante"
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(KEMPIS, Tomás de. Imitación de María: Libro Cuarto, Capítulo VI. pág. 127 - 129)

21 de agosto de 2011

DÉCIMO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

Inspiração e assistência

Nosso Senhor nos apresenta o contraste impressionante entre o fariseu orgulhoso e o publicano humilde.

O primeiro dá graças a Deus de ser melhor que os demais homens.

O segundo se reconhece como um pobre pecador e suplica a Deus que tenha misericórdia dele.

É a imagem do pecador orgulhoso e do justo humilde.

A Igreja tem por fim conduzir as almas a esta justiça e afastá-las do mal: é a sua missão divina.

Uma tal missão exige uma assistência divina, que não se deve confundir com: inspiração divina.

Já falamos da inspiração divina, dada por Deus aos profetas a aos Apóstolos; vamos agora tratar da assistência divina para melhor compreendermos a diferença entre o regime antigo e o novo, entre os princípios da Igreja e o seu governo atual.

Examinemos separadamente:

1. Em que consiste a inspiração;
2. Em que consiste a assistência.

A inspiração tinha por fim revelar novas verdades; a assistência tem por fim conservar e explicar as verdades reveladas.

I. A Inspiração

A inspiração é uma ação divina sobre a Escritura ou sobre o escritor; em virtude da qual a escritura tem o próprio Deus como autor.

A inspiração não é simplesmente passiva no sentido que Deus inspira ao escritor o desejo de escrever e o assiste para que não escreva erros, sem sugerir-lhe a verdade a escrever; mas ela é positiva, o que quer dizer que Deus inspira o escritor sacro a escrever, o ajuda enquanto escreve e lhe sugere o que deve escrever e como deve escrevê-lo.

Toda Escritura é divinamente inspirada, diz o Apóstolo. (II. Tim. III. 16)

Um simples raciocínio nos fará compreender isso.

Tudo o que deve ser crido de fé divina deve ser revelado por Deus;

Ora, toda a Sagrada Escritura deve ser crida de fé divina.

Logo, tudo nela é revelado por Deus.

Se a inspiração não fosse positiva, de fato, não existiria nenhuma diferença entre a Sagrada Escritura e as decisões da Igreja.

O Papa Leão XIII destacou bem esta verdade fundamental quando escreveu:

“O Espírito Santo pela sua virtude sobrenatural excitou e moveu os Escritores Sacros e os assistiu de tal modo, que lhes inspirou a idéia de escrever; estes escreveram exatamente e expressaram com infalível verdade o que Ele ordenou. Se assim não fosse, o Espírito Santo não seria o autor da Sagrada Escritura inteira”. (Encicl.: De studiis scrip. sacr.)

É provável que a inspiração se estenda até aos pormenores e a cada uma das palavras do texto sagrado e não somente aos objetos que dizem respeito a fé ou a moral, como pretendiam os modernistas.

Sendo, pois, a Sagrada Escritura revelada em seus pormenores, e até em cada uma das suas palavras, é claro que nenhum erro pode se encontrar na Bíblia, pois este erro deveria ser atribuído ao inspirador: o próprio Espírito Santo.

O período de inspiração durou 4000 anos, da primeira linha do Gênesis, até a última do Apocalipse.

Todo o Antigo Testamento foi época de inspiração.

O Novo Testamento o foi desde Jesus Cristo até a última frase do Apocalipse.

O vidente de Patmos parece tomar em suas mãos trêmulas de ancião, com perto de 100 anos de idade... de último dos Apóstolos... de último testemunho de Jesus Cristo na terra, os 72 livros inspirados, encerrando a época da inspiração com esta frase sublime a coroar a grande obra divina:

O que da testemunho destas coisas diz: sim,vem depressa: Amém. Vem Senhor Jesus! A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Amém. (Ap. XXII, 20, 21)

É a chave de ouro a fechar o ciclo de 4000 anos de inspiração!

Encerrando a época da inspiração, Deus não quis fazer-nos entender que nada mais tem a comunicar-nos.

Deus é infinito; e o homem é incapaz de conter o infinito de Deus. Deus não se esgotou, mas disse tudo o que tinha de dizer, o que quis dizer e o que nos era necessário.

II. A assistência

À dinastia dos inspirados, que ensinaram aos homens verdades novas, ainda não reveladas, sucede a dinastia dos Assistidos, que nada ensinam de novo, mas que guardam o que foi ensinado.

Esta dinastia é a dos Papas de Roma; centro vivo da Igreja Católica.

Quando Jesus Cristo disse aos Apóstolos: Ide, ensinai a todos os povos, ensinando-os a observar as coisas que vos mandei; (Matheus XXVIII, 19), Ele lhes comunicou nesta ordem a inspiração e a assistência.

A inspiração refere-se à sua pessoa de Apóstolos, é um privilégio pessoal, que os faz, a cada um em particular, infalíveis na revelação da doutrina. Esta inspiração, porém, limitou-se a eles e não foi transmitida a seus sucessores, os Bispos.

Nenhum dos Bispos, nem o próprio Papa, goza da inspiração divina. O que a Igreja recebeu, e herdou dos Apóstolos, é a assistência divina; é por isso que Jesus Cristo completou a ordem de ensinar com estas palavras: Eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos. É a assistência necessária para interpretar, explicar e aplicar o depósito da verdade divina.

A verdade não é um diamante que se esconde: é uma luz que deve iluminar.

Vós sois a luz do mundo!

Sendo a luz das inteligências, a verdade deve penetrar estas inteligências, para o que, duas coisas são necessárias: compreender e interpretar a palavra divina.

Compreender; pois toda Escritura tem necessariamente as suas obscuridades.

Por mais claro e metódico que seja um escritor, ele não é compreendido por todos os seus leitores, pela razão muito simples que o leitor devia estar no mesmo nível intelectual que o escritor para compreender toda a extensão de seu pensamento; sendo-lhe inferior, haverá necessariamente coisas que o escritor compreende bem, procura fazer compreender bem, mas que o leitor não entende.

Uma perfeita compreensão entre escritor e leitor, supõe uma igualdade intelectual.

Ora, a Sagrada Escritura é a palavra da inteligência divina, que supera infinitamente a inteligência humana.

Logo, há e deve haver obscuridades na Sagrada Escritura: não na palavra divina como tal, mas na inteligência do homem.

É o que fez dizer a São Pedro, falando das Epistolas de São Paulo: Há algumas coisas difíceis de entender que os indoutos, inconstantes adulteram, para a sua própria perdição. (2. Pet. III. 16)

A Igreja, encarregada de conservar e interpretar a palavra divina deve, pois, compreendê-la perfeitamente, infalivelmente, e para isso ela precisa da assistência divina: Eis que estou convosco até a consumação dos séculos.

III. Conclusão

Compreendemos agora a distinção tão simples e tão fecunda entre: inspiração e assistência. A confusão destes dois termos é a base das objeções que os protestantes formulam contra a infalibilidade do Papa.

Julgam que o Papa, que a Sagrada Escritura, a tradição e a razão proclamam infalível, é um homem inspirado por Deus, quando é apenas um homem assistido por Deus.

Cada protestante diz-se assistido por Deus na interpretação da Bíblia; só o Papa não o é: Vê-se logo o absurdo da asserção.

Esta distinção nos prepara ao estudo da infalibilidade e nos dá, desde já, a solução do problema.

O plano divino é admirável e lógico. S. João ao terminar o Apocalipse indica claramente o papel da Igreja na interpretação da Sagrada Escritura.

Eu protesto, diz ele, a todos os que virem as palavras da profecia deste livro, que se alguém lhes juntar alguma coisa, Deus o castigará com as pragas escritas neste livro." (Apocalipse, XXII 18)

Vê-se claramente que nada de novo pode ser introduzido: a inspiração está encerrada; o que se deve fazer agora é guardar, interpretar e aplicar a palavra divina pela, assistência do Espírito Santo. S. João diz à Igreja: Guardai este depósito - depositum custodi - Jesus acrescenta: Eu estou convosco até a consumação dos séculos. Eu confio a minha doutrina a Pedro... e tu, Pedro, confirma os teus irmão na fé, na doutrina, na virtude.

EXEMPLO

A perpetuidade da Igreja

O destino das dinastias humanas é nascer, desabrochar e murchar. Filhas do trabalho que são, elas vivem um momento e tombam para sempre no pó.

Para assegurar a sua duração, cercam-nas de garantias, decretam leis de hereditariedade dos tronos, prevêem minoridades e regências... Aqui, consagram os monarcas; acolá, chamam-se as nações a ratificarem num escrutínio universal a fundação de um Império; e todos aplaudem-se de terem feito uma obra imortal... e eis que o tempo a derruba de repente, quando menos o pensam.

Mas há uma dinastia de Príncipes eletivos, cujo número está em 263, e que, ela só, conta mais membros do que todas as dinastias reunidas que hoje reinam no mundo inteiro.

Esta dinastia despreza o exílio, pois todos os Papas voltam para Roma, mortos ou vivos!

Esta dinastia despreza a morte, pois o Papa morrendo, tem a certeza de ter o seu sucessor;

Esta dinastia resiste às vicissitudes, pois ela dura tanto que o tempo, e se o tempo perdurasse ainda séculos e séculos, o último Papa seria, tão bem que o segundo, e com cem mil anos de intervalo, o Sucessor certo, legitimo e reconhecido de São Pedro!

Um dia a Cúpula do Kremlin ruirá, as torres de Notre Dame abismar-se-ão na voragem, o pescador do Tamisa amarrará a sua barca a qualquer arco, ao pé das ruínas de São Paulo...

De todas as catedrais do mundo, somente São Pedro de Roma ainda ficará em pé, Roma será ainda do Papa! O Papa, o único sobrevivente a todas as dinastias de hoje estará ainda em Roma.

Os Bossuet destes tempos remotos dirão como o do século de Luiz, o grande: “Ó Santa Igreja Romana, se eu me esquecer de ti, apegue-se a minha língua à boca; paralise-se a minha destra, se tu não fores o objeto dominante de meus pensamentos e o centro das minhas afeições!” '

Ignoro quais serão os povos que dominarão então o mundo; quaisquer que sejam porém, os seus interesses políticos, a sua língua, a cor e os traços da sua raça, afirmo que sempre haverá entre eles um interesse comum, um amor comum: o amor à Sede apostólica, à língua da Igreja!

Uns segundos serão suficientes à telegrafia aperfeiçoada para levar a todos os recantos do universo, as bênçãos do Pai comum de todos os fiéis, e para trazer a este Pai comum os agradecimentos de todos os fiéis!

E, quando na solenidade da Páscoa ou da Ascensão, o Pontífice destes séculos futuros estender os dois braços sobre o seu rebanho inteiro, espargindo a palavra além dos mares e dos oceanos, nas igrejas onde a centelha elétrica fizer tremular, ao mesmo tempo, o mesmo nome e a mesma prece de todas as igrejas abençoadas pela mesma mão, levantar-se-à para Roma, para Pedro, uma torrente de ação de graças, em que se ouvirão, através das diversidades dos idiomas, estas palavras do Concilio de Nicéia: Credo in unam Catholicam et Apostolicam Ecclesiam. (Mons. Besson)

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(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 288 – 295)

20 de agosto de 2011

CANTOS A MARIA (VI-1)

Quem é Maria

Maria é o translúcido vaso
do Espírito Santo Paráclito,
a gloriosa cidade de Deus,
a mulher das virtudes
que esmagou a cabeça viperina.

Mais esplendorosa que o sol,
mais encantadora que a lua
mais brilhante que a aurora,
com mais claridade que as estrelas.

A ela pecadores e devotos
acudimos, entre golpes de peito,
dizendo: “Santa, Santa, Santa Maria,
Nossa Senhora Clemente e pia,
faça-nos participar por teus rogos
da glória do céu”.

Poesia sobre a Bem-aventurada Virgem

Ave belíssima Rainha,
A quem por graça divina
exaltou a Trindade,
a que nem antes nem depois
outra fez maior.

Em tua juventude
Por tuas provadas virtudes
O Rei dos reis, sumo e eterno Deus,
Te elegeu como esposa.

Um anjo te convidou,
ó maravilha,
tanto lhe agradaste
e quando disse: “Cheia de graça”,
como Virgem concebeste,
e Virgem permaneceste.


E exclamaste: “Faça-se em mim
segundo tua palavra”.

Saudação e louvor de Padres e Profetas,
Comentário de muitas Escrituras,
Porta transpassada y siempre fechada
de Ezequiel

Como a sarça que Moisés observou
incendiada sem consumir-se,
sssim dá à luz Emanuel,
Virgem que não conhece varão.

Como floresceu a vara seca de Arão
contrariando as leis naturais,
como o velo de lã de Gedeão
maravilhosamente se empapou
de orvalho celestial,
assim na salvaguarda do pudor,
na ausência de dor
e da intervenção de varão
tu deste à luz, como atesta Gabriel.

Salve Ester, por teu intermédio
o rei salvou a Mardoqueu,
matando a Hamã o réu.
Tu, Judite, mostras a cabeça
decapitada de Holofernes
que soberbo sonhava em dispersar
ao povo de Judá

Rainha, mãe do sábio Salomão
que governa em Sião,
a cuja destra está sentada
como nossa advogada,
Virgem clemente e pia,
protege-nos Maria. Amém.

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de Maria nunquam satis"
"sobre Maria nunca se falará o bastante"
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(KEMPIS, Tomás de. Imitación de María: Libro Cuarto, Capítulo VI. pág. 124 - 127)

14 de agosto de 2011

NONO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

O depósito da Igreja

O Evangelho nos representa Jesus, chorando sobre a cidade de Jerusalém.

Qual é a razão destas lágrimas?

O olhar profético do Salvador entreviu num futuro próximo os tremendos castigos que iam assolar e arrasar a cidade ingrata, porque não soube conservar o depósito das verdades divinas que Deus lhe havia confiado desde o começo dos tempos.

Jerusalém era o centro da religião verdadeira no antigo Testamento, como Roma é desde S. Pedro, o centro da verdade no novo Testamento.

A religião é um depósito sagrado que Deus entrega à autoridade Espiritual por Ele constituída no meio dos homens. Esta autoridade era a Sinagoga antes de Cristo; e depois dele é a Igreja construída por Ele sobre S. Pedro: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.

A Sinagoga não soube conservar este divino depósito: A Igreja Católica o guarda com escrupulosa fidelidade.

Contemplemos hoje dois aspectos deste divino depósito, examinando:

1. A existência deste depósito;
2. A sua natureza.

Estas duas considerações vão mostrar-nos um novo aspecto da Igreja Católica e fornecer-nos uma nova prova de ser Ela a única Igreja verdadeira fundada por Jesus Cristo.

I. A existência deste depósito

Será bem certo que existe tal depósito das verdades divinas, confiado à Igreja?

Sim, absolutamente certo.

S. Paulo, numa destas frases decisivas das quais possui o segredo, diz: Deus tendo falada outrora muitas vezes a nossos pais pelos profetas, ultimamente, nestes dias, falou-nos por meio de seu Filho. (Hebr. I. 1-2)

A palavra divina, comunicando aos homens, o que devem crer e fazer, forma este depósito, em outros termos é a revelação.

Esta revelação não se completou, de repente, em uma vez, mas foi-se aperfeiçoando completando-se sucessivamente, gradualmente, de muitos modos e muitas vezes.

Bastaria este texto bem interpretado para fazer ruir a pretensão protestante da inspiração individual.

A inspiração divina pode ser individual enquanto é feita à uma pessoa; mas ela é universal, enquanto deve ser transmitida à humanidade inteira.

Ora, se todos os homens são inspirados igualmente, a quem hão de transmitir os ensinos recebidos do alto?

Se Pedro e Paulo são igualmente inspirados, porque Pedro ensinara a Paulo e porque Paulo devia escutar a Pedro? Todo ensino supõe uma pessoa que saiba o que outra ignora.

Se todos os homens são inspirados, porque Deus chamou Moisés no Sinai, e lhe transmitiu a sua lei, escrita em duas pedras?

Porque os discursos, as Beatitudes de Jesus Cristo, as exortações dos Apóstolos, os próprios Evangelhos?

Tudo isso é inútil, desde que se admite que todos nós somos inspirados por Deus.

É uma das asserções mais ridículas do protestantismo.

Desde que Deus revela a verdade a uns homens determinados, é uma prova de que os outros ignoram o que Ele lhes manda ensinar.

Ora, é certo que Deus tem-se servido de nós homens para comunicar a sua doutrina ao mundo.

És tu, Senhor, diz Isaías (XVII. 21) que falaste por minha boca, eu o teu servo.

O Espírito do Eterno falou por mim, diz Davi, e a sua palavra estava sobre a minha língua. (II Reg. XXIII. 2)

É sob a inspiração do Espírito Santo, que os Santos de Deus falaram, ajunta S. Pedro. (2 Pet. I. 21)

Existe, pois, realmente o depósito divino constando da palavra de Deus revelada a certos homens, no Antigo Testamento, desde Moisés até Jesus Cristo.

Depois Jesus Cristo falou, ensinou, e mandou os seus Apóstolos continuarem este ensino.

O Apocalipse, o livro do futuro, fechou para sempre a época da inspiração que Moisés abriu pelo Gênesis e que S. João fechou em Patmos.

Deus disse tudo, não tudo o que sabe, mas tudo o que o homem devia saber.

Não falará mais!

A fonte da verdade está selada.

E este depósito selado da sua doutrina, Jesus Cristo o entregou à sua Igreja, para guardá-lo, defendê-lo, explicá-lo, aplicá-lo, conforme as necessidades das almas.

II. A natureza deste depósito

É pois certo que o depósito das verdades ensinadas por Deus existe; procuremos agora examinar a natureza deste depósito: será uma nova prova da divindade da Igreja Católica e um novo argumento contra os absurdos protestantes.

A primeira entrada no depósito foi feita por Deus no paraíso, oralmente, para ser transmitida de pai a filho.

A primeira entrada escrita foi feita por Deus a Moisés 2500 anos após a criação do mundo.

Deste modo, vemos que a Bíblia começou pela tradição, e depois tornou-se escrita.

Temos, pois, diante de nós duas fontes da palavra de Deus: a tradição ou palavra falada, e a Bíblia, ou tradição escrita.

Moisés, tendo nascido 1500 anos antes de Jesus Cristo e tendo havido uns 4000 anos, desde a criação até Jesus Cristo, devemos concluir que a primitiva Igreja existiu 2500 anos antes de ter a palavra divina escrita, existindo apenas a tradição.

Como podem os protestantes negar a tradição?

Se não houvesse tradição, não poderia haver Bíblia.

Deus falou a Adão, a Noé, aos patriarcas antediluvianos, a Abrahão e a um certo número de justos que precederam Moisés, e estas palavras transmitidas pela tradição foram escritas parcialmente por Moisés, constituindo a Bíblia, enquanto outra parte, não escrita continuou a ser tradição, sendo pouco a pouco recolhida por outros escritores não inspirados.

Depois que foi inventada a arte de escrever, serviram-se dela os profetas, por ser uma forma, mais estável, porém menos viva, da tradição.

Assim fizeram os Apóstolos, sem abandonar, entretanto, o ensino oral, ou tradição.

Eles escreveram pouco, e não teriam podido escrever tudo.

Durante os três anos que estiveram na convivência de Jesus Cristo, escutando-o, observando-o, viram aparições celestes e ouviram vozes do alto como viram mortos ressuscitados e ouviram surdos falarem.

Como e quando podiam eles contar tantas e tamanhas maravilhas?

É o que fazia dizer a S. João: Se se escrevesse uma por uma todas as coisas que fez Jesus, nem no mundo caberia os livros que seria preciso escrever. (Joan. XXI. 25)

Jesus manda os seus Apóstolos pregarem a verdade, mas não os manda escrever, nem espalhar Bíblias. (Math. XXVIII. 19)

E os Apóstolos pregaram muito: escreveram pouco, e só impelidos por necessidades particulares: o resto do Evangelho, a grande parte da sua doutrina ficou conservada oralmente, pela tradição.

Eis porque eles recomendam manter sempre as tradições recebidas oralmente. Permanecei constantes, irmãos, diz S. Paulo, e conservai as tradições que aprendestes, ou por nossas palavras ou por nossas cartas. (2 Thes. II. 14)

Eis a dupla fonte da Verdade divina claramente indicada pelo Apóstolo: as palavras e as cartas, em outros termos: a tradição oral e a tradição escrita.

Estas duas formas unem-se tão estreitamente que se pode dizer que não existe um único ponto na tradição oral, que não seja pelo menos, indicado implicitamente na Escritura; como não há na Escritura um dogma, um artigo de fé, que não tenha as suas raízes mergulhadas na tradição, são como dois alto-falantes, repetindo a mesma voz de Deus.

III. Conclusão

Eis a natureza do depósito divino, confiado por Deus a sua Igreja.

A Igreja é anterior à Sagrada Escritura, como o depositário de um objeto é anterior a deposição deste objeto.

Deus criou primeiro a sua Igreja, e entregou-lhe depois a verdade a conservar.

Havia tempo que S. Paulo pregava aos fiéis de Corinto, de Atenas, de Éfeso e de Roma, quando apareceu o Evangelho de seu discípulo Lucas; e ele mesmo, nada ainda tinha escrito.

Havia perto de 70 anos que a Igreja existia quando S. João fechou a época da inspiração, pelo Apocalipse.

A Igreja, pois, não está fundada sobre tradição, nem sobre as Escrituras, mas sobre o próprio Jesus Cristo, tendo Ele mesmo escolhido a pedra fundamental desta Igreja: S. Pedro.

Não é, pois o depósito da verdade que sustenta a Igreja: é a Igreja que sustenta o depósito divino.

É o que ditou Santo Agostinho nesta frase certa que tanto escandaliza os protestantes: “Eu não acreditaria no Evangelho, se a Igreja não me dissesse de acreditar.”

É lógico... pois é a depositaria da verdade que deve indicar-nos esta verdade.

Acreditamos com plena certeza nas verdades divinas porque temos a certeza de que Pedro nos apresenta a verdade imutável de Jesus Cristo: Pedro, roguei por ti para que a tua fé não faleça. (Luc. XXII. 32) As portas do inferno nunca prevalecerão contra ela. (Math. XVI. 18)

Existe um depósito divino: é certo. Tal depósito é composto das palavras de Deus e dos Apóstolos, transmitidas pela tradição oral, e parcialmente escritas por inspiração divina: é certo também.

Tal depósito foi confiado à Igreja, para que o comunicasse ao mundo: Ide no mundo inteiro... ensinando lhes a observar todas as coisas que vos mandei. (Math. XXVIII. 20)

Estas verdades fundamentais e irrefutáveis fazem ruir por completo todo o edifício protestante, que quer que a Igreja dependa da Bíblia e não a Bíblia da Igreja, como ensinam os Católicos, e adotando a Bíblia como única regra de fé.

É como se alguém dissesse que um livro existe antes de seu escritor... e que é o livro que produziu o escritor.

Amemos a, Sagrada Escritura como sendo a palavra escrita de Deus, mas não rejeitemos esta outra palavra oral que também é a palavra divina, porque ambas nos são apresentadas como tais pela Igreja, depositaria autorizada da verdade: Quem vos escuta, escuta a mim. (Luc. X. 16)

EXEMPLO

A palavra de Deus

A Igreja conserva a palavra de Deus: é a sua grande missão.

A humanidade é móvel, volúvel: ela destrói hoje o que ontem adorava, e se não vai até destruir, ela o deixa cair das mãos, desiludida. Além do mais, ela tem horror a tudo o que a incomoda.

Toda verdade prática, um dia ou outro, é negada, conspuída, e nenhuma verdade se defende a si mesma. Havia, pois necessidade de uma atalaia invencível, proposta à conservação da verdade revelada; havia necessidade de uma autoridade vigilante, incorruptível, assistida pelo Alto, que conservasse fielmente até o fim a palavra de Deus, e não permitisse a ninguém alterar esta verdade; esta autoridade é a IGREJA

Deus lhe disse: Eu te dou a minha palavra; guarda-a bem, guarda-a toda inteira. Ninguém nela ajunte, nem suprima, nem mude uma palavra, mesmo se um anjo do céu o pedisse. Guarda o depósito intacto: Depositum custodi.

Um dia, durante as lutas da revolução, Kleber quis salvar o seu exército cercado por forças superiores, e disse a um chefe de batalhão que estimava.: Vá para o desfiladeiro lá na extremidade desta planície; tu farás parar o inimigo durante duas horas... tu te farás matar, mas tu salvarás o exército!

- Sim, meu general. respondeu o valente comandante; e marchou para o desfiladeiro, fez-se matar ali... mas salvou o exército!

Eis a Igreja!

Ela guarda a palavra de Deus e sempre imortal, ela morre incessantemente para salvar o depósito divino. Ela se faz matar antes que sacrificar uma vírgula da verdade que lhe foi confiada!

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(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 296 – 304)

13 de agosto de 2011

ROGAR E CANTAR A MARIA (V)

Oração à Bem-aventurada Virgem para a hora da morte

1) Amabilíssima Mãe de Deus, sempre Virgem Maria, rica, além de todo limite, de uma doçura tão notável que a mente humana não pode compreender nem expressar, eu, humilde servido teu, me inclino submisso e com todo o afeto do coração diante de teu gloriosíssimo trono, exaltado por todos os coros angelicais no Reino dos céus.

2) Tu a mereceste, digníssima Mãe de Deus, porque foste achada a mais humilde entre as filhas de Jerusalém e foste agradável aos olhos do Senhor, Virgem estimadíssima, dado que não se encontrou na terra nenhuma outra semelhante a ti. Portanto, me inclino uma vez mais ante teus pés desejando saudar-te e louvar-te como é devido com lábios devotos e coração puro.

3) Mãe excelsa, demasiado sei que não sou digno de alçar meus olhos impuros, com freqüência manchados pela concupiscência da carne e pela soberba da vida, até teu limpidíssimo rosto, radiante de luz divina, admirado por toda milícia celestial. Em tudo tu luzes esplêndida, ornada maravilhosamente de cândidos véus e rosas vermelhas e pequenas flores de ouro. Por isso fico confuso por minha impureza, pensando tristemente em minha indignidade.

4) Por tua clemência e por tua doçura, sinto ainda surgir em mim a grande e forte esperança de poder impetrar quanto antes a graça e o pleno perdão, à mercê de tua intervenção e de tua mediação. E que outra coisa poderia desejar de tua parte, misericordiosíssima Mãe e dulcíssima Virgem, fora sentir-me perdoado de todos os pecados com amor e misericórdia?

5) Em virtude desta clemência e generosidade, me refugio sob seu amparo, onde os débeis adquirem força e os presos obtêm liberdade. Seja para meu coração Mãe boa e misericordiosa, para que possa experimentar com felicidade que és a consoladora de todos e o incentivo dos que te servem.

6) Ademais, ó Maria, gloriosíssima Mãe de Deus, desde este momento e até a última hora de minha vida, rogo-te que não te canses nunca de olhar-me com semblante sereno e propício e também com dulcíssimo afeto, e que jamais sintas fadiga de velar por mim. Põe-me sob tua proteção e estende teus santíssimos braços sobre mim, qualquer que seja o lugar onde eu for.

7) Quando chegar para mim o último dia, que eu ignoro, e a hora de minha morte, que tanto temo mas que não posso evitar, tu, clementíssima Senhora, minha grande confiança em qualquer dificuldade e sobretudo na hora da morte, recorda-te de mim e assiste-me quando terminar minha vida, confortando a minha alma envergonhada.

8) Nesse momento, protege a minha alma dos espíritos imundos e espantosos, para que não se atrevam a aproximar-se; e digna-te visitá-la com tua doce presença, junto à multidão dos anjos e dos santos. Antes que eu deixe este mundo, compromete-te também a aplacar com teus puríssimos rogos a teu divino Filho, ao que tantas vezes e tão gravemente ofendi com meus pecados.

9) Recebe logo minha alma que se distancia deste desterro, e introduz-la através das portas do céu aos felizes lugares do paraíso. Coloca-me junto a ti e fale em meu favor ao teu Filho, Rei dos séculos, com palavras boas e suaves, tu que recebeste aquela saudação santa e bendita da boca de Gabriel. Por seu poder digna-te proteger-me em vida e na morte, e faça que eu possa manifestar com freqüência, com reconhecimento e com devoto coração, teu louvor e a glória de teu doce e bendito nome.

10) Aceita, então, a oração que teu servidor recita ante ti, e olha-me, misericordiosíssima Mãe de Jesus, amadíssima Virgem Maria. Recorda-te sempre de mim, posto que se eu alguma vez me esqueço de ti, fico por isto muito entristecido. Não te esquece nunca de mim, tu que geraste a misericórdia para todos.

11) Agora te saúdo, ó Virgem Maria, te saúdo de joelhos e com intensa devoção, agradecendo-te uma vez mais com aquela devota homenagem: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo, tu és a bendita entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre, Jesus Cristo. Amém.”

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de Maria nunquam satis"
"sobre Maria nunca se falará o bastante"
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(KEMPIS, Tomás de. Imitación de María: Libro Cuarto, Capítulo V. pág. 121 - 124)

7 de agosto de 2011

O Amor das Almas, S. Afonso de Ligório. CAPÍTULO IV.

O grande desejo que teve Jesus de padecer e morrer por nosso amor.

1. Muito terna, amorosa e obsequiante foi aquela declaração que fez o nosso Redentor da sua vinda à terra, quando disse que veio para acender nas almas o fogo do divino amor, e que outro não era seu desejo senão ver acesa essa santa chama em todos os corações dos homens: Ignem veni mittere in terram, et quid volo nisi ut accendatur? (Luc. XII, 49). Segiu, pois, dizendo imediatamente que ele esperava ser batizado com o batismo do seu mesmo sangue, não já para lavar os seus pecados, enquanto ele era incapaz de culpa, mas para lavar os pecados nossos que ele viera a satisfazer com as suas penas: Passio Christi dicitur baptisma, quia in eius sanguine purificamur (S. Bon.) [1]. E então o nosso amante, Jesus, para fazer-se entender qual era a ardência desse seu desejo de morrer por nós, com a mais doce expressão de amor, ajuntou que ele sentia um afã imenso por aquele tempo, no qual demorava-se a execução da sua Paixão, tanto era o desejo de padecer por nosso amor. Eis as suas amorosas palavras: Baptismo autem habeo baptizari, et quomodo coarctor, usquedum perficiatur? (Luc. XII, 50).

2. Ah, Deus enamorado pelos homens, e que podíeis mais dizer e fazer para pôr-me em necessidade de amar-vos? E que bem voz trazia o meu amor, que para obtê-lo quisestes morrer e tanto desejastes a morte? Se um servo meu tivesse apenas desejado morrer por mim, já teria conquistado o meu amor; e eu poderia viver sem amar com todo o meu coração a vós, meu Rei e Deus, que morrestes por mim e com tanto desejo de morrer para conquistar-vos o meu amor?

3. Sciens Iesus quia venit hora eius, ut transeat ex hoc mundo ad Patrem, cum dilexisset suos... in finem dilexit eos (Io. XIII, 1). Diz S. João que Jesus chamou sua hora a hora da Paixão, porque, como escreveu um devoto expositor, esse foi o tempo do nosso Redentor mais suspirado na sua vida; enquanto então, padecendo e morrendo pelo homem, ele queria fazer-lhe compreender o amor imenso que lhe tinha. Amantis illa hora est, qua pro amico patitur (Barrad. ap. Spondan.) [2]: é cara a quem ama a hora em que padece pelo amado; pois padecer pelo amado é a obra mais apta para manifestar o amor do amante e para cativar para si o amor do amado. - Ah, meu caro Jesus, então para demonstrar-me vós o vosso grande amor não quisestes que outrem senão vós cumprísseis a obra da minha Redenção. Tanto então vos importava o meu amor que tanto quisestes sofrer para conquistar-vo-lo? E que mais poderíeis vós ter feito, se devêsseis ganhar-vos o amor do vosso divino Pai? Que mais poderia padecer um servo para ganhar o afeto do seu senhor, do que o que vós sofrestes para ser amado por mim, escravo vil e ingrato?

4. Mas eis o nosso amoroso Jesus já perto de ser sacrificado sobre o altar da cruz pela nossa salvação, naquela feliz noite precedente à sua Paixão. Ouçamos o que diz aos seus discípulos na última ceia que faz com eles: Desiderio, diz, desideravi hoc pascha manducare vobiscum (Luc. XXII, 15). S. Lourenço Justiniano, considerando essas palavras, afirma que elas foram todas palavras de amor: Desiderio desideravi. Caritatis est vox haec [3]. Como se tivesse dito o nosso amante Redentor: Homens, sabei que esta noite, na qual se dará o princípio à minha Paixão, foi o tempo por mim mais suspirado em toda a minha vida, porque agora, com as minhas penas e com a minha dura morte, far-vos-ei conhecer o quanto vos amo, e com isso vos obrigarei a amar-me do modo mais porte que me é possível. Diz um autor que na Paixão de Jesus a onipotência divina se uniu com o amor: o amor procurou amar o homem até onde pudesse chegar a onipotência, e a onipotência procurou comprazer o amor até onde pudesse chegar o seu desejo.

Ó sumo Deus, vós vos destes todo a mim, e como posso pois eu não amar-vos com todo o meu ser? Eu creio, sim, o creio, que morrestes por mim: e como vos amo tão pouco que tão amiúde me esqueço de vós e de quanto padecestes por mim? E por que, Senhor, eu ainda, pensando na vossa Paixão, não fico todo aceso pelo vosso amor e não me torno todo vosso como tantas almas santas que, considerando as vossas penas, se tornaram presas felizes do vosso amor e se deram todas a vós?

5. Dizia a esposa dos Cânticos que sempre que o seu esposo a introduzia na cela sagrada da sua Paixão, via-se tão acesa por todos os lados do amor divino, que, gemendo toda de amor, era constrangida a procurar alívios para o seu coração ferido: Introduxit me rex in cellam vinariam, ordinavit in me caritatem. Fulcite me floribus, sipate me malis, quia amore langueo (Cant. II, 4, 5) [4]. E como é possível que uma alma, começando a considerar a Paixão de Jesus Cristo, por aquelas dores e aquelas agonias, que tanto afligiram o corpo e a alma do seu amante Senhor, não fique ferida como por tantas setas de amor, e docemente forçada a amar quem tanto a amou?

Ó Cordeiro imaculado, assim lacerado, sangrento e deformado como vos vejo sobre essa cruz, quanto me pareceis belo e amável! Sim, porque todas essas chagas que vejo em vós são todas para mim sinais e provas do grande amor que me tendes. Ah! que se todos os homens frequentemente vos contemplassem naquele estado no qual fostes um dia feito espetáculo a toda Jerusalém, quem poderia não ficar tomado do vosso amor? Meu amado Senhor, aceitai-me a amar-vos, enquanto eu vos dou todos os meus sentidos e toda a minha vontade. E como posso eu negar-vos algo, se vós me não negastes o sangue, a vida e a todo vós mesmo?

6. Foi tanto o desejo de Jesus de padecer por nós, que na noite precedente à sua morte não somente ele de boa vontade foi ao horto, onde já sabia que deviam vir prendê-lo os Judeus, mas, sabendo que Judas, o traidor, com a companhia dos soldados, já se aproximava, disse aos discípulos: Surgite, eamus: ecce qui me tradet prope est (Marc. XIV, 42). Quis ele mesmo ir ao seu encontro, como se viessem para conduzi-lo não já ao suplício da morte, mas à coroa de um grande reino. - Ó meu doce Salvador, vós, portanto, ides ao encontro da morte com tanto desejo de morrer pela ânsia que tendes de ser amado por mim? E eu não terei desejo de morrer por vós, meu Deus, para demonstrar-vos o amor que vos tenho? Sim, meu Jesus morto por mim, eu também desejo morrer por vós. Eis o sangue, a vida, toda vo-la ofereço. Eis-me pronto para morrer por vós como e quando vos agradar. Agrade-vos esse mísero sacrifício que vos rende um mísero pecador, o qual antes vos ofendeu, mas agora vos ama mais do que a si mesmo.

7. S. Lourenço Justiniano contempla que aquele Sitio que proferiu Jesus morrendo na cruz, e diz que essa sede não foi sede que vinha da falta de humores, mas sede que nascia da ardência do amor que Jesus tinha por nós: Sitis haec de ardore nascitur caritatis [5]. Pois com tal palavra quis o nosso Redentor declarar-nos, mais que a sede do corpo, o desejo que tinha de padecer por nós, demonstrando-nos o seu amor e também o desejo que tinha de ser amado por nós, com tantas penas que sofria: Sitis haec nascitur de ardore caritatis. E S. Tomás: Per hoc Sitio ostenditur ardens desiderium de salute generis humani (In c. XIX Io., lect. 3) [6].

Ah, Deus enamorado, é possível que um excesso de tanta bondade fique sem correspondência? Sói dizer-se que amor com amor se paga, mas o vosso amor com que amor se poder pagar? Seria necessário que um outro Deus morresse por vós para compensar o amor que nos tivestes morrendo por nós. E pois, meu Senhor, como pudestes dizer que as vossas delícias eram de estar com os homens, se por eles não recebestes mais do que injúrias e maus tratos? O amor, então, vos fez suportar em delícias as dores e os vitupérios sofridos por nós.

8. Ó Redentor amabilíssimo, eu não quero mais resistir às vossas finezas: eu vos dou todo o meu amor. Vós, entre todas as coisas, sois e haveis de ser sempre o único amado da minha alma. Vós vos fizestes homem para ter uma vida para dar por mim: eu quero mil vidas para sacrificar todas por vós. Amo-vos, bondade infinita, e quero amar-vos com todas as minhas forças. Quero fazer o quanto posso para dar-vos gosto. Vós, inocente, padecestes tanto por mim: eu, pecador, que mereci o inferno, quero padecer por vós o quanto quiserdes. Ajudai-, meu Jesus, pelos méritos vossos, este meu desejo que vós mesmo me dais. Ó Deus infinito, em vós creio, em vós espero, amo-vos.

Maria, minha mãe, intercedei por mim. Amém.

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NOTAS:
[1]: “Passio Christi dicitur baptismus, quia in eius sanguine purificamur quasi in lavacro baptismali.” S. BONAVENTURA, Commentarius in Evang. S. Lucae, cap. 12, n. 71 (in vers. 50). Opera, VII, ad Claras Aquas, 1895, p. 331, col. 1.

[2]: “Hora eius erat hora mortis, quia nos amabat pro quibus moriebatur. Amantis enim hora illa est, qua pro amico patitur.” Sebastianus BARRADAS, S. I., Commentatiorum in concordiam et historiam IV Evangelistarum tom. 4, lib. 2, cap. 5.

[3]: “Vulnerati cordis et flagrantissimae caritatis est vox haec. Habet in se unde pascat ruminantes se.” S. LAURENTIUS IUSTINIANUS, De triumphali Christi agone, cap. 2. Opera, Venetiis, 1721, p. 229.

[4]: Introduxit me rex in cellaria sua. Cant. I, 3. - Introduxit me in cellam vinariam, ordinavit in me caritatem. Fulcite me floribus, stipate me malis: quia amore langueo. Cant. II, 4, 5.

[5]: “Sitis haec de ardore dilectionis, de amoris fonte, de latitudine nascitur caritatis.” S. LAURENTIUS IUSTINIANUS, De triumphali Christi agone, cap. 19. Opera, Venetiis, 1721, pag. 273, col. 2.

[6]: “Per hoc vero quod dicit Sitio... ostenditur eius ardens desiderium de salute generis humani. ” S. THOMAS, Commentaria in Evang. secundum Ioannem, cap. 19, lectio 5, n. 1.

OITAVO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

A Constituição da Igreja

Recolhamos mais uma lição do Evangelho a respeito do assunto que tratamos: a Igreja.

O Evangelho conta que um homem rico tinha um feitor que administrava os seus bens, mas que infelizmente não foi fiel a seu mandato, merecendo ser deposto de seu cargo.

A parábola nos mostra um administrador e seus administrados.

A Igreja também tem uma administração que se chama: Igreja docente ou ensinante e administrados, que formam a Igreja discente ou ensinada.

Estes dois elementos formam a constituição da Igreja.

Examinemos hoje este duplo aspecto da Igreja, isto é, a autoridade governativa dos chefes e a submissão amorosa dos fiéis, meditando:

1. A forma deste governo;
2. A natureza deste governo.

São dois pontos importantes que é necessário pôr em plena luz, para compreender as belezas deste governo, instituído por Jesus Cristo, e compenetrar-nos da submissão que lhe devemos.

I. A forma deste governo

A forma do governo da Igreja é a monarquia eletiva temperada.

Esta forma de monarquia temperada faz do governo da Igreja o melhor dos governos, porque é o único que corresponde plenamente à sua finalidade.

De fato, a Igreja tem por fim reunir sob o seu poder, não somente um povo, mas todos os povos, para fazer deles uma única sociedade, ou melhor: uma única família, e isso sem perturbar-lhes a vida social, mas levando-os a uma mesma fé e a uma mesma vida moral.

Para alcançar isto, é preciso que a Igreja possua o governo que melhor se adapte a este fim sublime.

Ora, só a monarquia eletiva temperada pode alcançar este fim.

Tal monarquia evita as revoluções, que uma república gera necessariamente entre nações de língua, costumes e educação diferentes.

Ela afasta também a dissolução, que é praga do protestantismo, ou a autoridade tirânica, que tão facilmente os governos aristocráticos ou as monarquias absolutas produzem.

Digo que o governo da Igreja é monárquico, porque possui um único chefe, supremo, independente, chamado: o Santo Padre o Papa, ou Soberano Pontífice, tendo poder absoluto sobre a Igreja inteira.

O Papa é um verdadeiro monarca, cujo poder não é limitado, nem reconhece superior ou igual. O Papa reina e governa, sem ter precisão de assembléia ou de conselheiros: ele manda, todos obedecem.

Esta monarquia é eletiva, neste sentido que, nem o chefe supremo e único: o Papa; nem os chefes inferiores: os Bispos, adquirem a sua dignidade por uma sucessão hereditária.

Cada autoridade é tirada indiferentemente de todas as classes sociais, ao ponto que cada fiel, sendo apto a esta dignidade pela vocação sobrenatural, pode ser chamado a tornar-se Sacerdote, Bispo e Papa.

Tal forma de governo é ainda temperada, pois examinando-a de perto, notamos que ela ao mesmo tempo:

Monárquica, porque consta d'um único chefe.

Aristocrática, porque auxiliada por príncipes que são os Bispos, governando cada um a sua Diocese, em seu próprio nome, sob a autoridade suprema do Papa.

Democrática porque os seus chefes são recrutados em todas as classes.

O conjunto do governo da Igreja é chamado hierarquia ou autoridade sagrada, porque esta autoridade foi instituída pelo próprio Jesus Cristo, para manter na Igreja a sua doutrina e o seu espírito.

Esta hierarquia consta de Bispos, de Sacerdotes e de ministros inferiores como são: os diáconos, e subdiáconos.

Esta hierarquia tem isto de especial, diz Bossuet, que cada membro age com a força do todo; e o todo respeite a função de cada membro.

II. A natureza deste governo

Como acabamos de ver: a forma do governo da Igreja é admirável de harmonia e de força.

A natureza deste governo é mais admirável ainda, pois está em relação com a missão que a Igreja recebeu de Jesus Cristo.

Esta missão é conservar o depósito das verdades reveladas, como o seu fim é conduzir as almas para o Céu:

Ora, para cumprir uma tal missão, a Igreja tem um tríplice dever:

a) Ensinar as verdades reveladas;
b) Administrar os sacramentos;
c) Velar sobre a sua conservação.

Deste tríplice dever resulta um tríplice poder para ser possível cumpri-lo:

a) De ensinar;
b) De administrar;
c) De governar.

A Igreja tem o dever e o poder de ensinar as verdades que lhe foram confiadas por Jesus Cristo: Ide, ensinai todas as criaturas... ensinando-lhes a observar todas as coisas que vos mandei. (Math. XXVIII. 19)

O segundo dever é administrar os sacramentos, por serem estes os canais transmissores da graça, sem a qual não há salvação.

O Apóstolo diz que Jesus Cristo os fez, a eles, Apóstolos, dispensadores dos mistérios de Deus. (1. Cor. IV. 1)

A Igreja tem, pois, o poder de batizar... Ide... batizando-os - de perdoar os pecados pela confissão: A quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados (Joan. XX. 13), De oferecer o Santo Sacrifício da Missa: Fazei isto, em memória de mim, (Luc. XXII. 19) de dar a Extrema Unção: Está alguém enfermo, chame os sacerdotes... e estes ungindo-o com óleo... (Th V. 14) numa palavra tem o poder de administrar os sete sacramentos.

Enfim, tem o poder de governar, a Igreja. Isto é: de fazer leis, pronunciar sentenças, reformar abusos e castigar os delinqüentes, quando isto for necessário.

Este poder foi dado aos Apóstolos: O que desligardes na terra será des1igado no Céu (Math. XVI. 19)

A S. Pedro Jesus deu a ordem de apascentar os cordeiros e as ovelhas, (Joan. XXI. 17) e ordenou que todos obedecessem à Igreja sob pena de ser considerado como um publicano ou um pagão (Math. XVIII. 17)

Eis, pois, a Igreja revestida divinamente de seu sublime magistério, que exerce pela sua hierarquia de ordem e de jurisdição, na mais suave harmonia e na mais suave união que pode existir num governo.

O governo da Igreja é uma instituição divina e por isso é imutável.

Jesus Cristo é o seu fundador e a sua cabeça, e como é imutável, os membros participam necessariamente desta imutabilidade. Ele era ontem, Ele é hoje, Ele ficará sempre o mesmo em todos os séculos; como diz S. Paulo (Hebr. XII. 8)

Os governos humanos podem alterar-se porque são feitos para o povo, e devem adaptar-se às necessidades do povo.

O governo da Igreja, sendo um governo divino, são os povos que devem submeter-se a ele enquanto ele fica o que foi desde a origem.

Esta imutabilidade constitui a glória, a força e o principio da imortalidade da Igreja.

Em razão da diversidade dos tempos, a Igreja pode modificar a sua disciplina sobre vários pontos, porém não muda os princípios de seu governo, que são invariáveis.

III. Conclusão

Tal é a bela, fecunda e harmoniosa constituição da Igreja; constituição única entre todos os governos, porque só ela é divina.

A Igreja não mendiga eleições, ninguém apresenta candidatos para os altos cargos; é o Espírito Santo que suscita as vocações, que as orienta e eleva até as mais altas funções.

Não fostes vós quem me escolhestes, disse Nosso Senhor aos Apóstolos, mas fui eu que vos escolhi (Joan. XV. 16) e Ele repete esta palavra a cada um de seus eleitos.

Destas considerações podemos inferir, como conclusão, os direitos e deveres da Igreja discente ou ensinada.

Em suas relações exteriores com a Igreja docente, os fiéis devem professar a mesma fé, participar dos sacramentos que lhes são próprios e obedecer à autoridade, ao único chefe da Igreja, o Soberano Pontífice, e a seus representantes na hierarquia da Igreja.

Em suas relações interiores devem ficar unidos a Jesus Cristo pela graça santificante, que é como a seiva divina que percorre toda a Igreja de Cristo.

EXEMPLOS

I. Submissão de Fenelon

Fenelon havia escrito um livro intitulado: As máximas dos Santos, que O Papa Inocêncio XII condenou em 1699, por achar várias máximas um tanto ambíguas, com interpretações um tanto quietistas.

A notícia da condenação foi remetida ao piedoso Prelado no dia 25 de Março, no momento que ia subir ao púlpito.

Deixando de lado o sermão que tinha preparado, Fenelon falou sobre a submissão à Igreja, com uma unção que arrancou lágrimas ao numeroso auditório.

Em 7 de Abril publicou uma Carta Pastoral na qual aceitou, sem reserva, a condenação de seu livro, e onde dizia:

“Oxalá nunca se fale de nós, senão para se lembrar que um Pastor deve ser mais submisso à autoridade da Igreja que a última das ovelhas; nunca porei o mínimo limite à minha submissão à Igreja”.

Mandou fabricar um ostensório, sustentado por dois anjos, dos quais um carregava vários maus livros, entre os quais figurava um, com a inscrição: “Máximas dos Santos, por Fenelon”.

Admirável exemplo de submissão à Igreja!

2. Carlos Magno e seu Filho

Carlos Magno, o maior príncipe de quem a França e a Europa podem gloriar-se, grande pelas suas conquistas, grande pelo seu amor às ciências, grande pela sabedoria das suas leis, grande pelas suas virtudes e grande pelo seu amor à Igreja acabava de passar por provações cruéis, no fim da vida; viu morrer a sua filha e dois de seus filhos, ficando-lhe apenas o príncipe Luiz, que resolveu associar ao Império.

Chamou-o para junto de seu leito, onde jazia doente, e disse-lhe:

- Filho querido de Deus, de teu pai e de todo nosso povo, tu que Deus me deixou para minha consolação, tu o vês: a minha idade está adiantada, a minha própria velhice me vai escapando, o tempo da minha morte se aproxima.

Prometes-me de temer sempre a Deus, de observar a sua lei, de proteger a sua Igreja?

Luiz o promete, soluçando de emoção.

Vai, pois, meu Filho, tome a coroa lá em cima do altar, põe-na sobra a tua cabeça, e não te esqueças de teus compromissos.

Grandes e sublimes lições que todos os pais deviam dar a seus filhos antes de morrer!

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(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 288 – 295)

6 de agosto de 2011

O Amor das Almas, S. Afonso de Ligório. CAPÍTULO III.

Jesus por nosso amor quis desde o princípio da sua vida sofrer as penas da sua Paixão.

1. Veio o Verbo divino ao mundo tomar carne humana para fazer-se amar pelo homem, porquanto veio com tanta fome de sofrer por nosso amor que não quis perder nem um instante em começar a atormentar-se, ao menos com a apreensão. Apenas foi concebido no seio de Maria, ele imaginou todos os padecimentos da sua Paixão, e para obter-nos o perdão e a divina graça, ofereceu-se ao Eterno Pai para satisfazer por nós com as suas penas todos os castigos devidos pelos nossos pecados; e, desde então, começou a padecer tudo o que depois sofreu na sua amaríssima morte. - Ah, meu amorosíssimo Redentor, e eu, até agora, que fiz, que tenha padecido por vós? Se eu, por mil anos, tolerasse por vós todos os tormentos que sofreram todos os mártires, ainda seria pouco, em vista só daquele primeiro momento no qual vós vos oferecestes e começastes a padecer por mim.

2. Padeceram tão bem os mártires grandes dores e ignomínias, mas as padeceram só no tempo do seu martírio. Jesus padeceu sempre desde o primeiro instante da sua vida todas as penas da sua Paixão, pois que desde o primeiro momento pôs diante dos olhos toda a horrível cena dos tormentos e das injúrias que devia receber dos homens. Por isso ele disse pela boca do profeta: Dolor meus in conspectu meo semper (Ps. XXXVII, 18). Ah, meu Jesus, vós por meu amor ficastes tão ávido de penas que quisestes sofrê-las antes do tempo, e eu sou assim tão ávido de prazeres desta terra? Quantos desgostos vos dei para contentar o meu corpo? Senhor, pelos méritos dos vossos afãs, tirai-me o afeto aos diletos terrenos. Eu por vosso amor proponho abster-me daquela satisfação (nomear qual).

3. Deus, por sua piedade, costuma não nos fazer saber antes do tempo destinado a sofrê-las, as penas que nos esperam. Se a um réu condenado à forca fosse-lhe revelado desde o uso da razão o suplício que lhe tocava, seria ele, em algum momento, capaz de alegria? Se a Saul, desde o princípio do seu reino, fosse-lhe revelada a espada que lhe devia transpassar; e se Judas tivesse previsto o laço que devia sufocá-lo, quão amargas teriam sido suas vidas? O nosso amável Redentor, desde o primeiro instante da sua vida, fez-se sempre presentes os flagelos, os espinhos, a cruz, os ultrajes da sua Paixão, a morte desolada que lhe esperava. Quando olhava as vítimas que se sacrificavam no templo, bem sabia que todas eram figuras do sacrifício que ele, Cordeiro imaculado, devia consumar sobre o altar da cruz. Quando via a cidade de Jerusalém, bem sabia que aí devia deixar a vida num mar de dores e vitupérios. Quando olhava sua querida Mãe, já se imaginava a vê-la agonizante pela dor ao pé da cruz. Quando via a cidade de Jerusalém, perto de si, moribundo. - Assim é, ó meu Jesus, que a vista horrível de tantos males em toda a vossa vida vos atormentou e afligiu sempre antes do momento da vossa morte. E vós tudo aceitastes e sofrestes por meu amor.

4. A vista somente, ó meu Senhor apaixonado, de todos os pecados do mundo, e especialmente dos meus, com os quais já prevíeis que eu vos ofenderia, fez com que a vossa vida fosse mais aflita e penosa do que todas as vidas que já existiram e que existirão. Mas ó Deus, e em que bárbara lei está escrito que um Deus ame tanto uma criatura e que depois disso a criatura viva sem amar o seu Deus, aliás, que o ofende e desgoste? Senhor, fazei-me conhecer a grandeza do vosso amor, para que não seja mais ingrato. Ó, se vos amasse, meu Jesus, se vos amasse deveras, quão doce ser-me-ia padecer por vós!

5. À Irmã Madalena Orsini, que estava há longo tempo com uma tribulação, apareceu um dia Jesus na cruz e a animou a sofrê-la com paz. A serva de Deus respondeu: “Mas, Senhor, vós só por três horas estivestes na cruz, mas para mim são vários anos que sofro esta pena.” Então disse-lhe, reprovando-a, Jesus Cristo: “Ah, ignorante, que dizes? Eu desde o primeiro momento que estive no seio da minha mãe, sofri no Coração aquilo que depois na morte tolerei sobre a cruz” [1]. - E ei, meu caro Redentor, como, à vista de tantos afãs que sofrestes por meu amor em toda a vossa vida, posso lamentar-me daquelas cruzes que vós me enviais para padecer pelo meu bem? Agradeço-vos por me haverdes redimido com tanto amor e com tanta dor. Vós, para me animar a sofrer com paciência as penas desta vida, quisestes tomar para vós todos os nossos males. Ah, Senhor, faze-me recordar-me frequentemente das vossas dores, a fim de que eu aceite e deseje sempre padecer pelo vosso amor.

6. Magna velut mare contritio tua (Thren. II, 13), Como as águas do mar são todas salgadas e amargas, assim a vida de Jesus foi toda cheia de amarguras e priva de todo alívio, como ele mesmo disse a S. Margarida de Cortona [2]. Demais, como no mar se unem todas as águas da terra, assim em Jesus Cristo se uniram todas as dores dos homens; por isso pela boca do Salmista ele disse: Salvum me fac, Deus, quoniam intravenerunt aquae usque ad animam meam. Veni in altitudinem maris, et tempestas demersit me (Ps. LXVIII, 2, 3): Salvai-me, ó meu Deus, porque os afãs entraram no íntimo da minha alma; e eu fui submerso por uma tempestade de ignomínias e de dores externas e internas. - Ah, meu caro Jesus, meu amor, minha vida, meu tudo, se eu olho de fora o vosso sagrado corpo, não vejo nada além de chagas. Se entro, então, no vosso Coração desolado, eu não encontro outra coisa além de amarguras e fãs que voz fazem padecer agonias de morte. Ah, meu Senhor, e quem mais além de vós, porque sois uma bondade infinita, podia chegar a padecer tanto e morrer por uma vossa criatura? Mas porque vós sois Deus, amais como Deus, com amor que não pode igualar-se a qualquer outro amor.

7. Diz S. Bernardo: Ut servum redimeret nec Pater Filio, nec Filius sibi ipsi pepercit(Ser. fer. 4) [3]. Ó caridade infinita de Deus! De uma parte o Eterno Pai impôs a Jesus Cristo o satisfazer por todos os pecados dos homens: Posuit in eo iniquitatem omnium nostrum (Is. LIII, 6). De outra, Jesus, para salvar os homens, e do modo mais amoroso que pudesse, quis pagar sobre si, com todo o rigor, à divina justiça as penas a eles devidas; donde, como afirma S. Tomás, ele se sobrecarregou com todas as dores e todos os ultrajes em sumo grau: Assumpsit dolorem in summo, vituperationem in summo [4]. Por isso Isaías chamo-o o homem das dores e o mais desprezado entre todos os homens: Despectum et novissimum virorum, virum dolorum (Ibid., 3). E com razão, enquanto Jesus foi atormentado em todos os membros e sentidos do corpo, e mais amargamente foi afligido em todas as potências da alma, de modo que as penas internas superaram imensamente as dores externas. Ei-lo, portanto, lacerado, exangue, tratado como enganador, mago, louco, abandonado pelos próprios amigos e perseguido finalmente por todos, até acabar a fina sobre um infame patíbulo.

8. Scitis quid fecerim vobis? (Io. XIII, 12). Senhor, já sei quanto fizestes e padecestes por meu amor; mas vós sabeis que eu até agora não fiz nada por vós. Meu Jesus, ajudai-me a sofrer algo por vosso amor antes que me venha a morte. Eu me envergonho de comparecer diante de vós; mas não quero mais ser aquele ingrato que fui tantos anos convosco. Vós vos privastes de todo prazer por mim: eu renuncio por vosso amor todos os diletos dos sentidos. Vós sofrestes tantas dores por mim: eu por vós quero sofrer todas as penas da minha vida e da minha morte, como vos agradará. Vós fostes abandonado: eu me contento de que me abandonem todos, desde que não me abandoneis vós, meu único e sumo bem. Vós fostes perseguido: eu aceito qualquer perseguição. Vós, finalmente, morrestes por mim: eu quero morrer por vós. Ah, meu Jesus, meu tesouro, meu amor, meu tudo, eu vos amo: dai-me mais amor. Amém.

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NOTAS:

[1]: “Enquanto era ainda secular, lamentava-se frequentemente com o seu Senhor que uma tal tribulação, por durar tempo muito longo, tornasse-se-lhe insuportável. Uma noite, em sonho, pareceu-lhe ver diante de si Cristo pregado na cruz, o qual a exortava com seu exemplo à paciência, e ela, com movimento natural, respondeu: ‘Senhor, a vossa cruz durou só três horas, mas esta minha dura muitos anos’. Aqui o Redentor, com voz severa, replicou dizendo: ‘Ah ingrata, como ousas falar dessa maneira, sabendo que desde o princípio por toda a vida vivi em fadigas e sofrimentos, terminando finalmente a minha vida numa cruz?’ Com tal resposta, ficando confusa, procurou dali em diante tolerar com paciência aquele trabalho.” P. BONAVENTURA BORSELLI, O. P., Vita della Ven. Madre Suor M. Maddalena Orsini, domenicana, Roma, Tinassij, 1668, cap. XV, pag. 66.

[2]: “Audivit (Margarita) Christum dicentem sibi: “... Tu clamare non cesses meam per ordinem Passionem, et quod semper in hac vita, pro amore humani generis, vixi in laboribus et in poenis.” Fr. IUNCTA BEVEGNAS, Vita, cap. 5, § 13. - “Audivit Christum dicentem sibi: “Tu vis esse filia lactis; sed tu eris filia fellis in poenis quas patieris. Sed per eas efficieris filia mea electa et soror, et similabunt te mihi.” Ibid., § 18. - “In festo protomartyris Stephani, post fletum indicibilem et multas cum Christo allocutiones factas, intulit natus ex Virgine Filius Dei, dicens: “... In huius saeculi vita misera, gloriam meam desideras possidere. Sed nolo quod habeas laetitiam in hoc mundo, ad instar mei, sequendo me in degustatione poenarum mearum. Quare, para te ad tribulationes, quia in via non est patria obtinenda.” Ibid. § 33. - “Quodam die post festum Ascensionis Christi, dixit oranti Dominus: “... Para te ad infirmitates et tribulationes, et recordare quod pro te aspera passus sum; et sicut in hac vita quietem non habui, ita et tu habitura non es.” Ibid., § 34.

[3]: S. BERNARDUS, In feria IV Hebdomadae Sanctae, Sermo de Passione Domini, n. 4. ML 183-264.

[4]: “Dolor in Christo fuit maximus inter dolores praesentis vitae.” S. THOMAS, Sum. Theol., III, qu. 46. art. 6, c. - “(Ex Augustino) Nihil enim erat, inter omnia genera mortis, illo genere (nempe morte crucis) exsecrabilius et formidabilius.” Ibid., art 4, c. - “Christus fuit novissimus: primo propter doloris acerbitatem.... secundo propter mortis turpitudinem.” In Isaiam, cap. 53, 3. - “ Humiliavit semetipsum factus obediens usque ad mortem, mortem autem crucis: in quo ostenditur et cruciatus acerbitas.... et mortis vilitas et ignominia.” In Epist. ad Hebr. , cap. 12, lectio 1, v. 2. - “Convenit etiam (mors crucis) quantum ad exemplum perfectae virtutis. Homines enim quandoque non minus refugiunt vituperabile genus mortis quam mortis acerbitatem: unde ad perfectionem virtutis pertinere videtur, ut propter bonum virtutis etiam aliquis vituperabilem mortem non refugiat pati... (Mors autem crucis) mors turpissima videbatur.” Compendium theologiae, ad Reginaldum. Opusculum 2 (al. 3), cap. 228: Operum tom. 17, Romae, 1570.

ROGAR E CANTAR A MARIA (IV)

Oração à Bem-aventurada Virgem Maria quando surge uma tribulação

1) Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo, Virgem serena. Ave, particular esperança dos necessitados. Ave, Mãe benigna dos órfãos. Ó Maria, quando estão fechadas todas as portas do céu e me é negado aproximar de Deus por causa de meus pecados; quando o bom ânimo e a força da mente me abandonam e em nada posso encontrar ajuda; quando o tédio da vida presente e a ansiedade do coração me forçam de tal modo que já nada me agrada nesse mundo; quando desaparece o estímulo do consolo celestial e me oprime a opressiva desolação; quando surgem os ventos das tentações e se levantam os movimentos das paixões; quando sobrevém uma imprevista enfermidade ou outras adversidades; quando todos estes feitos se precipitam sobre mim, para onde fugirei e a quem me dirigirei fora du, benigníssima Consoladora dos pobres? A quem pedirei ajuda para chegar ao porto da salvação, senão à fulgidíssima Estrela do mar, sempre esplendorosa, que não oculta jamais a graça de sua luz?

Ó Maria, doce e querida Mãe: és a fulgidíssima Estrela do mar, que consola aos que te olham e invocam, e nos conduz com rapidez ao porto da serenidade. Portanto, hoje me dirijo a ti, e te suplico que me ajudes, posto que tudo o que pedires o obterás facilmente de teu Filho.

3) Se tu, minha muito gloriosa Senhora, estiveres comigo, quem poderia estar contra mim? E se me concedes a graça, quem poderá ma rechaçar? Abre amplamente teus braços para mim neste momento e neles encontrarei refúgio. Diz à minha alma: “Eu sou tua advogada, não temas. Como uma mãe consola a seu filho, assim eu te consolarei”. Esta é tua voz, doce Maria.

4) Mas, quem ajudará meu coração a escutá-la sempre? Quão doces são tuas palavras! Fala, Senhora minha, ao coração de teu servidor, pois teu servidor te escuta. Eu sou servidor teu e servidor de teu Filho. Mas digo mais: tu és minha Mãe e Jesus meu irmão. Atrevo-me a acrescentar isto, porque tu o geraste não somente para ti, senão para todo o mundo.

5) Por isto mesmo, não quero chamar “mãe” a nenhuma outra na terra. Recuso-me a ter outra fora de ti, Mãe de Deus. Não há outra que possa se comparar contigo, por virtude, por beleza, por caridade e mansidão, por piedade e doçura, por fidelidade e consolo maternal, por misericórdia e por tantos gestos de compaixão.

6) Hoje me entrego confiadamente a ti e desejo que isto seja confirmado para sempre por meio de ti. Para vencer minha debilidade, basta manter-me em estreita união contigo. Por isso, me alegrarei e me consolarei profundamente em ti, e cantarei com júbilo os louvores de teu santo nome.

7) Que bela e amável és, minha Senhora, Santa Maria, cheia de toda graça! Se alguém pudesse contar as estrelas do céu, poderia também enumerar tuas virtudes, já que assim como são distantes os céus da terra, igualmente dista tua vida da vida dos homens, e o brilho de tua glória resplandece muito acima dos coros angelicais.

8) Suba a ti, então, minha pobre oração, ó nobilíssima Senhora, e possa voar até teus ouvidos meu clamor, para que te dignes patrocinar minha cause ante teu Filho, já que, de per si, ninguém pode constar como justo por seu próprio juízo. Ó clementíssimo Senhora, pelo imenso amor e pela profunda confiança que sinto por ti, te manifestei minhas necessidades e as manifestarei ainda. Experimento efetivamente que dimana de ti um grande poder, e a lembrança de teu nome será sempre o incentivo de minha alma.

9) Ó dulcíssimo Nome de Maria, Nome de salvação e de graça, que deve ser sempre recordado, pensado, pronunciado e venerado! Nome celestial e verdadeiramente angélico, que da boca do evangelista foi piedosamente revelado aos fiéis: “E seu nome é Maria” (Lc. 1, 27). Ó Maria, santíssima e digníssima de todo louvor, tu és a porta do céu, o templo de Deus, o sacrário do Espírito Santo.

10) O que noto de formoso e atrativo nas criaturas, o que admiro de grande e de virtuoso nos santos, tudo desejo comparar com tua excelsa grandeza, porque é justo, como também para todas as outras criaturas junto a mim, que o transfira em perpétuo louvor a ti, a quem elegi como minha singular Mãe e também fidelíssima advogada, a fim de merecer, depois desta vida, a glória de teu bendito Filho Jesus Cristo. Amém.

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de Maria nunquam satis"
"sobre Maria nunca se falará o bastante"
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(KEMPIS, Tomás de. Imitación de María: Libro Cuarto, Capítulo IV. pág. 117 - 120)

5 de agosto de 2011

O Amor das Almas, S. Afonso de Ligório. CAPÍTULO II.

Jesus quis sofrer muito por nós, a fim de dar-nos a conhecer o grande amor que nos tem.

1. Duas coisas, escreveu Cicerone, dão a conhecer um amante, o fazer bem ao amado e o padecer pelo amado; e isso é o maior sinal de um verdadeiro amor: Duo sunt quae amantem produnt, amato benefacere, et pro amato cruciatus ferre, et hoc est maius [1]. Deus já havia bem demonstrado o seu amor ao homem com tantos benefícios a ele dispensados; mas apenas beneficiar o homem ele julgou ser muito pouco para o seu amor, se não tivesse encontrado o modo de demonstrar-lhe quanto o amava também padecendo e morrendo por ele, como fez tomando carne humana: Sed parum esse credidit, si affectum suum non etiam adversa sustinendo monstraret [2]. E que modo mais adaptado poderia Deus encontrar para mostrar-nos o amor imenso que tem por nós do que fazendo-se homem e padecendo por nós? Non aliter Dei amor erga nos declarari poterat, escreve a tal propósito S. Gregório Nazianzeno [3]. - Meu amado Jesus, muito suportastes para declarar-me o vosso afeto e para enamorar-me da vossa bondade. Muito, pois, seria o erro que vos faria, se vos amasse pouco ou amasse outra coisa que não vós.
2. Ah, que fazendo-se ver por nós como um Deus chagado, crucificado e moribundo, bem ele deu, diz Cornélio de Lápide (In 1. Cor.), o maior sinal do amor que nos tem: Summum Deus in cruce ostendit amorem [4]. E antes dele dissera S. Bernardo que Jesus, na sua Paixão, deu-nos a conhecer que o seu afeto para conosco não poderia ser maior do que o quanto era: In Passionis rubore maxima et imcomparabilis ostenditur caritas (De Pass. c. 41) [5]. Escreve o Apóstolo que quando Jesus Cristo quis morrer pela nossa salvação, apareceu, então, até onde chegava o amor de um Deus a nós, míseras criaturas: Apparuit benignitas et humanitas Salvatoris nostri Dei (Ad Tit. III, 4). - Ah, meu enamorado Senhor, entendo já que todas as vossas chagas falam-me do amor que me tendes! E quem é que, em vista de tantos sinais da vossa caridade, poderá resistir e não vos amar? Tinha razão em dizer S. Teresa, ó amabilíssimo Jesus, que quem não vos ama dá sinal de que não vos conhece [6].
3. Bem podia Jesus Cristo obter-nos a salvação sem padecer e levando na terra uma vida doce e deliciosa; mas não, diz S. Paulo: Proposito sibi gaudio, sustinuit crucem (Hebr. XII, 2). Recusou ele as riquezas, as delícias, as honras terrenas, e elegeu para si uma vida pobre e uma morte cheia de dores e de opróbrios. E por quê? Não bastava, porventura, que ele tivesse suplicado ao Eterno Pai que perdoasse o homem com uma simples oração, a qual, sendo de infinito valor, era suficiente para salvar o mundo e infinitos mundos? E por que quis, então, escolher para si tantas penas com uma morte tão cruel que bem diz um autor (Contens. theol. t. 2. 1. 10, dis. 4) que por pura dor a alma de Jesus se separou do corpo: Inter agones purus dolor animam e corpore disiunxit [7]? Para que tanto gasto para redimir o homem? Responde S. Jo. Crisóstomo: Bastava sim uma oração de Jesus para redimir-nos, mas não bastava para demonstrar-nos o amor que esse Deus nos tem: Quod sufficiebat Redemptioni non sufficiebat amori (Ser. 128) [8]. E o confirma S. Tomás dizendo: Christus ex caritate patiendo magis Deo exhibuit, quam exigeret recompensatio offensae humani generis (3. p. q. 48. a. 2) [9]. Porque Jesus nos amava assaz bastante, queria ser muito amado por nós; e por isso fez o quanto pôde também padecendo para conquistar o nosso amor e para fazer-nos conhecer que ele não tinha quase nada mais para fazer para fazer-se amar por nós. Multum fatigationis assumpsit, diz S. Bernardo, quo multae dilectionis hominem teneret [10]. Ele tomou muito a padecer para muito obrigar o homem a amá-lo.
4. E que prova maior de afeto, disse o próprio nosso Salvador, pode dar um amante à pessoa amada, que dar a vida por seu amor? Maiorem hac dilectionem nemo habet, ut animam suam ponat quis pro amicis suis (Io. XV, 13). Mas vós, ó amantíssimo Jesus, diz S. Bernardo, fizestes mais do que isso, enquanto quisestes dar a vida por nós, não amigos, mas vossos inimigos e rebeldes: Tu maiorem habuisti, Domine, caritatem, ponens animam pro inimicis [11]. E é isso que advertiu o Apóstolo, quando escreveu: Commendat caritatem suam in nobis, quia cum adhuc peccatores essemus, secundum tempus Christus pro nobis mortuus est (Rom. V, 8, 9). Então, meu Jesus, vós por mim, vosso inimigo, quisestes morrer, e eu poderia resistir a tanto amor? Eis-me, já que vós com tanta pressa desejais que eu vos ame, eu vos amo sobre todas as coisas, expulso de mim todo outro amor e só a vós quero amar.
5. Diz S. Jo. Crisóstomo que o fim principal que teve Jesus na sua Paixão foi mostrar-nos o seu amor, e assim atrair para si os nossos corações com a memória dos males por nós sofridos: Haec prima causa Dominicae Passionis, quia sciri voluit, quantam amaret hominem Deus, qui plus amari voluit quam timeri [12]. Acrescenta S. Tomás que nós, por meio da Paixão de Jesus, conhecemos a grandeza do amor que Deus tem ao homem: Per hoc enim homo cognoscit, quantum Deus hominem diligat [13]. E antes já o dissera S. Jo.: In hoc cognovimus caritatem Dei, quoniam ille animam suam pro nobis posuit [14]. Ah, meu Jesus, ó Cordeiro imaculado sacrificado sobre a cruz por mim, tantus labor non sit cassus [15], não seja perdido tudo o que padecestes por mim; atingi em mim o fim das vossas tantas penas! Ligai-me com as doces cadeias do vosso amor, para que eu não vos deixe e não me separe mais de vós. Iesu dulcissime, ne permittas me separari a te: ne permittas me separari a te.
6. S. Lucas refere que, falando Moisés e Elias sobre o monte Tabor, sobre a Paixão de Jesus Cristo, chamavam-na um excesso: Dicebant excessum eius quem completurus erat in Ierusalem (Luc. IX, 31). Sim, diz S. Boaventura, com razão a Paixão de Jesus foi chamada um excesso, pois que foi um excesso de dor e um excesso de amor: Excessus doloris, excessus amoris [16]. E um devoto autor acrescenta: Quid ultra pati potuit, et nun pertulit? Ad summum pervenit amoris excessus (Contens) [17]. E como não? A divina lei não impõe aos homens outra coisa além de amar o próximo como a si mesmos; mas Jesus amou os homens mais do que a si mesmo: Magis hos, quam seipsum amavit, diz S. Cirilo [18]. - Então, meu amado Redentor, dir-vos-ei com S. Agostinho, vós chegastes a amar-me mais do que a vós mesmo, enquanto para me salvar quisestes perder a vossa vida divina, vida infinitamenet mais preciosa do que as vidas de todos os homens e de todos os anjos juntos: Dilexisti me plus quam te, quoniam mori volutisti pro me [19].
7. Ó Deus infinito, exclama o abade Guerrico, vós por amor do homem, se se pode dizê-lo, tornastes-vos pródigo de vós mesmo: O Deum, si fas est dici, prodigum sui prae desiderio hominis! E como não?, acrescenta, já que não só quisestes dar os vossos bens, mas também a vós mesmo para recuperar o homem perdido? An non prodigum sui, qui non solum sua, sed seipsum impendit, ut hominem recuperaret? [20] Ó prodígio, ó excesso de amor digno só de uma bondade infinita! E quem, diz S. Tomás de Vilanova, poderá, Senhor, mesmo de longe, entender a imensidade do vosso amor em haver tanto amado a nós, míseros vermes, que por nós tenhais querido morrer e morrer na cruz? Quis amoris tui cognoscere vel suspicari posset a longe caritatis ardorem; quod sic amares, ut teipsum cruci et morti exponeres pro vermiculis? Ah, que esse amor, conclui o mesmo santo, excede toda medida, toda inteligência: Excedit haec caritas omnem modum, omnem sensum [21].
8. É doce coisa e ver-se alguém amado por alguma grande personagem, tanto mais se aquela pode elevá-lo a um grande destino. Ora, quanto mais doce e caro deve ser-nos ver-nos amados por Deus, que pode elevar-nos a um destino eterno? Na antiga lei, podia um homem duvidar se Deus o amasse com terno amor; mas depois de tê-lo visto sobre um patíbulo a derramar sangue e morrer, como nós podemos ainda duvidar se ele nos ama com toda a ternura e afeto? Alma minha, olha o teu Jesus que penda daquela cruz todo chagado; eis como, por aquelas feridas, ele bem de demonstra o amor do seu Coração enamorado. Patent arcana cordis per foramina corporis, fala S. Bernardo [22]. - Meu querido Jesus, aflige-me tanto o ver-vos morrer com tantos afãs sobre este lenho de opróbrio, mas muito me consola e me enamora de vós o conhecer por meio dessas chagas o amor que me tendes. Serafins do céu, que vos parece a caridade do meu Deus, qui dilexit me, et tradidit semetipsum pro me? (Galat. II, 20).
9. Diz S. Paulo que os Gentis, ouvindo pregar Jesus crucificado por amor dos homens, julgavam-no uma loucura a não se poder crer: Nos autem praedicamus Christum crucifixum, Iudaeis quidem scandalum, Gentibus autem stultitiam (I Cor. I, 23). E como é possível, diziam eles, crer que um Deus onipotente, que não tem necessidade de ninguém para ser felicíssimo que é, tenha querido, para salvar os homens, fazer-se homem e morrer na cruz? Isso seria o mesmo, diziam, que crer em um Deus que se tornou louco por amor dos homens: Gentibus autem stultitiam [23]. E com isso recusavam crê-lo. - Mas essa grande obra da Redenção que os gentios julgavam e chamavam loucura, nós sabemos pela fé que Jesus a empreendeu e terminou. Agnovimus sapientem amoris nimietate infatuatum [24]: nós vimos, diz S. Lourenço Justiniano, a sabedoria eterna, o Unigênito de Deus, tornado, por assim dizer, louco pelo amor excessivo que tem pelos homens. Sim, por que não parece outra coisa além de uma loucura de amor, acrescenta o cardeal Hugon, ter Deus querido morrer pelo homem: Stultitia videtur, quod mortuus fuerit Deus pro salute hominum [25].
10. O Bem-Aventurado Giacopone, homem que no século foi letrado e depois se tornou franciscano, parecia que se havia tornado louco pelo amor que tinha por Jesus Cristo. Um dia apareceu-lhe Jesus e disse-lhe: "Giacopone, por que fazes estas loucuras?" - "Por que as faço?, respondeu, porque vós mas ensinastes. Se eu sou louco, disse, vós fostes muito mais louco que eu, querendo morrer por mim: Sultus sum, quia stultior me fuisti" [26]. Assim também S. Maria Madalena de' Pazzi, elevada em êxtase, exclamava (In vita, c. 11): Ó Deus de amor! ó Deus de amor! É demais, meu Jesus, o amor que tendes às criaturas [27]. E um dia, estando raptada fora de si num, tomou uma imagem do Crucifixo e se pôs a correr pelo monastério, gritando: Ó amor! ó amor! não cessarei jamais, meu Deus, de chamar-te amor. Então, dirigindo-se às religiosas, disse: "Não sabeis vós, caras irmãs, que o meu Jesus não é outra coisa além de amor? aliás, louco de amor? Louco de amor digo que és, ó meu Jesus, e sempre o direi" [28]. E dizia que, chamando Jesus de amor, teria querido ser ouvida por todo o mundo, para que por todos fosse conhecido e amado o amor de Jesus [29]. E umas vezes se punha a tocar o sino, para que viessem todas as pessoas da terra, como desejava, se fosse possível [30], para amar o seu Jesus [31].
11. Sim, meu doce Redentor, permiti-me dizê-lo, bem tinha razão essa vossa esposa em chamar-vos louco de amor. E não parece uma loucura que vós tenhais querido morer por mim? morrer por um verme ingrato qual eu sou, cujas ofensas e traições, que eu devia fazer-vos, já víeis? Mas se vós, meu Deus, como que enlouquecestes por meu amor, como eu não enlouqueço por amor de um Deus? Depois que eu vos vi morto por mim, como posso pensar em outra coisa além de vós? como posso amar outra coisa além de vós? Sim, meu Senhor, meu sumo bem, amável sobre todo bem, eu vos amo mais do que a mim mesmo. Prometo-vos não amar, de hoje em diante, outra coias além de vós, e pensar sempre no amor que me demonstrastes morrendo entre tantas penas por mim.
12. Ó flagelos, ó espinhos, ó pregos, ó cruz, ó chagas, ó afãs, ó morte do meu Jesus, vós muito me constrangis e obrigais a amar quem tanto me amou. Ó Verbo Encarnado, ó Deus amante, a minha alma enamorou-se de vós. Quero amar-vos tanto, que não encontre outro gosto que em dar-vos gosto, dulcíssimo meu Senhor. Visto que vós tanto anseais o meu amor, eu atesto que não quero viver senão por vós. Quero fazer quanto quereis de mim. Meu Jesus, ajudai-me, fazei que eu vos agrade inteiramente e sempre, no tempo e na eternidade.
Maria, minha mãe, orai a Jesus por mim, a fim de que me dê o seu amor, porque não desejo outra coisa nesta e na outra vida, além de amar a Jesus. Amém.

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NOTAS:

[1]: Esta sentença, não a encontramos nem em Cicerone, nem em nenhum dos antigos.

[2]: “Sed adhuc parum esse credidit, si affectum suum erga non praestando prospera tantum, et non etiam adversa sustinendo monstraret.” S. PETRUS CHRYSOLOGUS, Sermo 69. ML 52-397.

[3]: “Non aliter Dei erga nos amor testatus esse poterat, quam ex eo quod caro in memoria fuerit, (cioé che non si dicesse: Verbum homo vel anima factum est) et quia nostri causa ipse etiam usque ad deteriorem partem sese demisit. Carnem enim anima viliorem esse nemo sanae mentis indiciabitur. Itaque hic locus, Verbum caro factum est, eamdem vim et significationem mihi habere videtur cum eo, quod peccatum quoque ipsum et maledictum factus esse dicitur; non quod Dominus in haec immutatus sit: qui enim id fieri posset? sed quia per id quod haec suscepit, iniquitates nostras sustulit, et morbos portavit.” S. GREGORIUS NAZIANZENUS, Epistola 101, ad Cledonium presbyterum, contra Apollinarium. MG 37-190.

[4]: CORNELIUS A LAPIDE, S. I., Commentaria in I Epist. ad Corinthios, cap. 1, v. 25.

[5]: Vitis mystica seu tractatus de Passione Domini, cap. 41, n. 132. Inter Opera S. Bernardi, ML 184-715. - “In Passione ac Passionis rubore ardor maximae et incomparabilis ostenditur caritatis.” Vitis mystica seu tractatus de Passione Domini, cap. 23. Opera S. BONAVENTURAE, VIII, ad Claras Aquas, 1898, pag. 186. - Veja Appendice, 2, 9°.

[6]: “Oh, Senor y verdadero Dios mio! Quien no os conoce, no os ama. Oh qué gran verdad es ésta!” S. TERESA, Exclamaciones del alma a Dios. XIV. Obras, IV, 287.

[7]: “Inter has languoris luctas, inter obruentes agones, purus dolor animam a corpore disiunxit.” Vincentius CONTENSON, Theologia mentis et cordis, lib. 10, dissertatio 4, cap. 1, speculatio 1, (tertius excessus, in fine).

[8]: S. PETRUS DAMIANUS, sermo 47, De exaltatione S. Crucis, ML 144-172. - S. Io. CHRYSOSTOMUS, in Epist. ad Ephes., hom. 3, n. 3. MG 62-27. - Veja Appendice 4.

[9]: “Ille proprie satisfacit pro offensa qui exhibet offenso id quod aeque vel magis diligit quam oderit offensam. Christus autem, ex caritate et obedientia patiendo, maius aliquid Deo exhibuit quam exigeret recompensatio totius offensae humani generis.” S. THOMAS, Sum. Theol., III, qu. 48, art. 2, c.

[10]: “Multum fatigationis assumpsit, quo multae dilectionis hominem debitorem teneret.” S. BERNARDUS, In Cantica, sermo 11, n. 7. ML 183-827.

[11]: “Maiorem, inquit, caritatem nemo habet, quam ut animam suam ponat quis pro amicis suis (Ioan. XV, 13). Tu maiorem habuisti, Domine, ponens eam etiam pro inimicis.” S. BERNARDUS, Sermo de Passione Domini, in feria IV Hebdomadis Sanctae, n. 4. ML 183-264.

[12]: “Haec prima causa est Dominicae Passionis: quia sciri voluit quantum amaret hominem Deus, qui plus amari voluit quam timeri.” Inter Opera S. Io. Chrysostomi, III, Venetiis, 1574, De Passione Domini sermo sextus, fol. 297, col. 4. - Porém esses Sermões sobre a Paixão não são lembrados nem na edição Beneditina. Mas, nas suas obras genuínas, desenvolve mais vezes esse pensamento o Crisóstomo. - Veja Appendice, 5.

[13]: S. THOMAS, Sum. Theol., III, qu. 46, art. 3, c.

[14]: Esse texto de S. João (III, 16) falta nas edições de 1751 (Pellecchia, Paci) e na Romana (De' Rossi, 1755).

[15]: Sequentia Dies irae.

[16]: “Excessus recte nominat Passionem, quia in ea fuit excessus humilitatis... Fuit etiam excessus paupertatis... Fuit excessus doloris.... Fuit etiam excessus amoris.” S. BONAVENTURA, Commentarius in Evangelium S. Lucae, cap. XI, n. 54 (in vers. 31). Opera, VII, ad Claras Aquas, 1895, pag. 234.

[17]: Vincentius CONTENSON, Theologia mentis et cordis, lib. 10, dissertatio 4, cap. 1, speculatio 1, Reflexio ( in fine).

[18]: “Vides dilectionis erga nos novitatem? Lex enim praecepit diligere fratrem sicut seipsum: Dominus autem noster Iesus Christus dilexit nos plus quam seipsum: nec enim in forma et aequalitate Dei ac Patris exsistens, ad nostram humilitatem descendisset, neque tam acerbam corporis mortem pro nobis pertulisset, non colaphos iudaicos, non sannas et contumelias, uno verbo cetera omnia, ut ne singula quae passus est numrando in infinitum sermonem proferamus, pertulisset; sed neque dives cum esset pauper fieri voluisset, nisi nos magis dilexisset quam seipsum. Inauditus itaque ac novus est huius dilectionis modus.” S. CYRILLUS ALEXADRINUS, In Ioannis Evangelium liber 9, in Io. XIII, 34. MG 74-162, 163.

[19]: Soliloquia animae ad Deum, cap. 13. Inter Opera S. Augustini, ML 40-874. - Obrazinha, não de S. Agostinho, mas de um compilador mais recente, talvez Alchero, monge de Claraval.

[20]: “Dedit (Pater) Filium in pretium redemptionis; dedit Spiritum in privilegium adoptationis; se denique totum servat haereditatem adoptatis. O Deum, si fas est dici, prodigum sui, prae desiderio hominis! An non prodigum, qui non solum sua, sed et seipsum impendit, ut hominem recuperaret, non tam sibi quam homini ipsi?” GUERRICUS Abbas, In festo Pentecostes, sermo 1, n. 1. ML 185-157.

[21]: “Quis enim, non dicam hominum, sed angelorum, qui a saeculo vident te, amoris tui immensum pondus et ardentissimam vim tam plene cognosceret? Quis eorum vel suspicari posset a longe tantae caritatis ardorem: quod sic amares, ita diligeres, ut teipsum cruci et morti exponeres pro vermiculo? S. THOMAS A VILLANOVA, In festo Natalis Domini concio 3, n. 7. Conciones, Mediolani, 1760: II, 52. - “Excedit, exsuperat supra modum haec caritas tua, Domine, quam in nostra redemptione monstrasti, omnem scientiam, et omnem sensum, non solum humanum, sed etiam angelicum.” Ibid.

[22]: “Patet arcanum cordis per foramina corporis.” S. BERNARDUS, In Cantica, sermo 61, n. 4. ML 183-1072.

[23]: A repetição do texto latino de S. Paulo "Gentibus autem stultitiam" foi acrescentada nas edições posteriores a 1755.

[24]: “Adeamus cum fiducia, non ad thronum gloriae, sed ad diversorium humanitatis eius (specum nempe Bethleemiticum).... Ibi namque agnoscemus exinanitam maiestatem. Verbum abbreviatum, solem carnis nube obtectum, et sapientiam amoris nimietate infatuatam.” S. LAURENTIUS IUSTINIANUS, Sermo in festo Nativitatis Domini, Opera, Venetiis, 1721, pag. 328, col. 1.

[25]: “Cum uno verbo posset omnes homines salvare, stultitia videtur, procedentibus secundum naturales rationes, quod mortuus fuerit (Deus) propter salutem hominum.” HUGO DE SANCTO CHARO, Cardinalis primus O. P., In Epist. I ad Cor., cap. 1, v. 23. Opera, VII, fol. 75, col. 3, post medium. Venetiis, 1703.

[26]: Este amoroso divérbio entre si e Cristo refere o mesmo B. JACOPONE DA TODI nas suas Lauda XC, Amor de caritate: Le laude, reimpressão integral da primeira edição (1490), Florença, 1923.
(Parla Cristo):

Tutte le cose qual aggio ordenate

si so fatte con numero e misura,

e molto più ancora caritate



si è ordenata nella sua natura.

Donqua co per calura, - alma, tu sé empazita?

For d' orden tu se' uscita, - non t' è freno el fervore.



(Risponde Jacopone):

Cristo, che lo core si m' hai furato,

dici che ad amor ordini la mente,

come da poi ch' en te si so mutato

de me remasta, fusse convenente?



A te si può imputare - non a me quel che faccio;

però, se non te piaccio, - tu a te non piaci, amore.



Questo ben sacci che, s' io so empazito,

tu, somma sapienza, si el m' hai fatto.



Ad tal fornace perché me menavi,

se volevi ch' io fossi en temperanza?

Quando sì smesurato me te davi, tollevi da me tutta mesuranza.



Onde, se c' è fallanza, - amor, tua è, non mia,

però che questa via - tu la facesti, amore.



Tu, sapienzia, non te contenesti

che l' amor tuo spesso non versasse,

d' amor non de carne tua nascesti,

umanato amor che ne salvasse;

per abbracciarne en croce tu salesti,

e credo che per ciò tu non parlasse.

[27]: "Tendo, então, nos seus raptos, fixado o seu puríssimo intelecto na contemplação do infinito amor que moveu Deus a fazer tanto pela vilíssima criatura do homem, não podia segurar-se e não dizer em voz alta: "Ó Amor, ó Amor, ó Deus, que amas as criaturas com amor puro! Ó Deus de amor! ó Deus de amor! Ó meu Senhor, não mais amor, não mais amor: é demais, ó meu Jesus, o amor que tendes às criaturas." PUCCINI, Vita, Florença, 1611, parte 1, cap. 11.

[28]: "Uma vez, estando em rapto, pegou um crucifixo na mão, e pôs-se a correr pelo convento, e, desafogando com o Verbo divino amorosos avisos e intensos afetos, exclamava: "Ó Amor, ó Amor, ó Amor!" Isso fazia com doces sorrisos, e com o semblante tão cumulado de alegria, que olhá-la causava grandíssima consolação. Ora fixava os olhos no céu, ora no Crucifixo, ora apertava-o no peito, e o beijava com excessivo fervor, enquanto não cessava de replicar: "Ó Amor, ó Amor! não cessarei jamais, ó meu Deus, de chamar-te Amor, júbilo do meu coração, esperança e conforto da minha alma". - "Depois, voltando-se às irmãs que a seguiam, acrescentava: 'Não sabeis vós, caras irmãs, que o meu Jesus não é outra coisa além de Amor, aliás, louco de amor? Louco de amor digo que és, ó meu Jesus, e sempre o direi. Tu és todo amável e gracioso: tu recreativo e confortativo; tu nutritivo e unitivo. És pena e refrigério, fadiga e repouso, morte e vida ao mesmo tempo: finalente, o que não há em ti?'" PUCCINI, Vita, Florença, 1611, parte 1, cap. 11.

[29]: "Outra vez exclamava: "Ó Amor, ó Amor", e, voltando-se ao céu, dizia: "Dai-me tanta voz, ó meu Senhor, que, chamando-te Amor, seja ouvida do Oriente ao Ocidente, e por todas as partes do mundo, até no inferno; para que tu sejas conhecido e reverenciado como verdadeiro Amor." PUCCINI, Vita, Florença, 1611, parte 1, cap. 11.

[30]: Este inciso que restringe o sentido tão amplo da frase, se encontra acrescentado nas edições posteriores a 1754.

[31]: "No meio daquele (incêndio de amor), bem amiúde corria com enorme velocidade, ora pelo convento, ora por todo o horto, dizendo que andava procurando almas que conhecessem e amassem o Amor. Por isso, encontrando-se uma vez com uma Irmã, a segurava pela mão, e, apertando-a muito fortemente, dizia-lhe: 'Ó alma, amais vós o Amor? como fazeis para viver? não vos sentis consumir e morrer por amor ?'. Quando, então, havia caminhado por bom espaço de tempo, pegava as cordas dos sinos, e, tocando-os, em alta voz exclamava: 'Vinde, almas, amar, vinde amar o Amor, pelo qual fostes tanto amadas'." PUCCINI, Vita, Florença, 1611, parte 1, cap. 12.