27 de junho de 2011

Restaurar tudo em Cristo - São Pio X


Não, Veneráveis Irmãos - é necessário relembrar com energia nestes tempos de anarquia social e intelectual, em que cada um se coloca como mestre e legislador - não se poderá construir a sociedade de uma maneira diferente da que Deus a instituiu; não se edificará a sociedade se a Igreja não estabelece e dirige os trabalhos; não, a civilização não está para ser inventada, nem uma sociedade nova para ser construída das nuvens. Ela foi, ela é a civilização cristã, é a cidade católica. Trata-se somente de instaurar e restaurar sem cessar a civilização em suas bases naturais e divinas, contra os ataques sempre renascentes da rebelião e da impiedade: "omnia instaurare in Christo".

São Pio X. Notre charge apostolique. §11.

26 de junho de 2011

Homilia do II Domingo depois de Pentecostes

SEGUNDO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

A Santidade da Igreja

A parábola da Ceia, que um homem rico mandou preparar para os seus amigos, vai indicar-nos a segunda qualidade ou caráter distintivo da Igreja de Jesus Cristo, isto é: a santidade.

Este homem é o próprio Salvador; a sala da Ceia é a Igreja. Todos são convidados por Ele a entrar na sala deste festim e a participar da Ceia ali preparada.

Nesta Ceia espiritual são servidos os meios de sustentar a vida da alma, como numa ceia material são servidos os meios de sustentar as forças do corpo: são, sobretudo, os sacramentos.

Muitos se recusaram a participar desta ceia porque faltava-lhes a virtude exigida para se apresentarem a uma Ceia santa.

Três categorias de viciosos são indicadas pelo divino Mestre: os orgulhosos, os avarentos, os libertinos.

A Ceia deve ser uma reunião santa; podem entrar os pobres; não são admitidos os viciados, pois a santidade exclui necessariamente o vício.

Meditemos hoje está nota: a santidade da Igreja, examinando em que e como esta santidade deve manifestar-se:

1. Em seus membros.
2. Em sua doutrina.

Este segundo característico separa a Igreja verdadeira de todas as seitas humanas e lhe dá uma beleza única neste mundo.

I. Nos membros da Igreja

A santidade é uma marca da Igreja de Jesus Cristo, porque, sendo esta obra de Deus, deve ser santa, como é santo tudo o que sai do Coração de Nosso Senhor.

É Ele, de fato, que instituiu a Igreja, escolhendo doze Apóstolos...
É Ele que estabeleceu a hierarquia que constitui o governo da Igreja...
É Ele que ordenou aos Apóstolos que fossem pregar o Evangelho a todas as criaturas.
É Ele que transmitiu a sua autoridade, seus poderes, sua infalibilidade a Pedro e aos apóstolos.
É Ele que assegurou a estabilidade de sua Igreja até o fim dos séculos.
E' Ele, enfim, que prometeu sempre estar com ela e amá-la sempre.

São Paulo diz: Jesus Cristo amou a Igreja e por ela se entregou a si mesmo para a santificar, purificando-a para que se apresente gloriosa, sem mácula, nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e imaculada (Eph. V. 26, 27)

A santidade é, pois, inerente a esta obra que é inteiramente divina.

O princípio desta santidade está na aspiração de assemelhar-se a Jesus Cristo, conforme o desejo do Salvador: Sede perfeitos como meu Pai celeste é perfeito (Math. V. 48)
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Tal santidade deve manifestar-se nos membros da Igreja que são: o seu chefe e os seus súditos unidos a este chefe.

Ora, este chefe é Jesus Cristo; é o seu único fundador, como o prova a história e o Evangelho. No berço das seitas religiosas encontra-se sempre um homem... só para a Igreja Católica se encontra o próprio Jesus Cristo.

Depois de Jesus Cristo ter subido ao céu, os chefes visíveis foram os Apóstolos, dirigidos e continuados pelo seu guia, São Pedro.

São Pedro, foi nomeado para esse fim pele próprio Salvador.

Depois dos Apóstolos, os Bispos seus sucessores, sob a autoridade do Papa, sucessor de S. Pedro, continuam a reproduzir a santidade de seu chefe divino.

Dos 263 Papas, de S. Pedro a Pio XII, 86 são canonizados. Os outros têm sido homens de extraordinárias virtudes, contra quem nada podem as calúnias gratuitas dos inimigos da Igreja.

Entre as Igrejas, só a Igreja Católica possui santos entre os seus membros.

Todos os católicos não são santos, é certo, porém sempre há santos entre eles, e isto é o bastante para provar que a Igreja é santa.

Somente a Igreja Católica tem mártires ou almas generosas que dão a sua vida para ficarem fiéis ao Evangelho e ao Papa.

Somente a Igreja Católica tem apóstolos que abandonam a sua família, o bem estar, para, sem interesse material nenhum, levarem até os confins do mundo o Evangelho de Jesus Cristo.

Somente a Igreja Católica tem religiosos ou almas generosas que juntam ao cumprimento da lei de Deus as sublimes virtudes de castidade perfeita, de obediência completa, de pobreza voluntária.

Somente e Igreja Católica tem milagres, que são a afirmação positiva da ação divina em favor da santidade de seus filhos.

Logo, só a Igreja Católica possui a santidade, em seu chefe e em seus membros; ela é, pois, a única Igreja divina.

II. Em sua doutrina

A Igreja Católica é também a única santa em sua doutrina, só ela conserva em toda a sua integridade a doutrina e a moral de Jesus Cristo.

Toda religião consta de uma doutrina (dogma), de uma moral e de um culto.

De fato, basta percorrer os ensinamentos da Igreja para ver que ela adota integralmente todas as verdades ensinadas por Jesus Cristo.

Os inimigos da religião, guiados pela ignorância e pelo vício, podem acusar a Igreja de ter inventado novos dogmas e novos mandamentos, porém nunca poderão provar as suas asserções.

Não há um único ensinamento da Igreja que não tenha a sua raiz e a sua prescrição na Sagrada Escritura; como não se encontra no Evangelho uma única verdade que a Igreja não adote e não proponha aos fiéis.

O fruto da moral divina, diz S. Paulo, é a pratica de toda a espécie de bem. (Eph. V. 9) E esta espécie de bem é o afastamento do pecado e a prática da virtude.

Ora, não há um único vício que a Igreja não reprove e condene; como não há uma única virtude que ela não exalte, nem uma única boa obra que não aconselhe e favoreça.

O culto é a manifestação pública do dogma e da moral e, como tal, forma uma parte essencial da religião.

O objeto deste culto é Deus, fonte de toda a perfeição; a Virgem Maria, ideal de pureza e de virtude, que Deus elevou ao máximo grau de dignidade: o de Mãe de Jesus Cristo; os Santos, modelos admiráveis de virtude.

As formas deste culto são tocantes de simplicidade e de grandeza, harmonizando-se perfeitamente com as aspirações da alma humana. Pode-se, pois, dizer que a Igreja Católica é tão santa em seu culto, como o é em seu dogma e em sua moral.

III. Conclusão

A santidade é, pois, um dos caracteres distintivos da Igreja verdadeira.

Jesus Cristo fundou a sua Igreja, para formar santos: é a sua grande e sublime finalidade.

Se examinássemos qual é a Igreja que produz santos, verificaríamos este fenômeno estranho, que seria o bastante para dissipar qualquer dúvida..

Somente a Igreja Católica produz santos e os produz aos milhares... Santos ilustres, milagrosos, canonizados, e santos desconhecidos, não menos heróicos talvez, mas que Deus não escolheu para serem os luminares de seu tempo.

Quantos Católicos admiráveis que lutam contra as paixões, que vencem o mal e fazem o bem.

Em toda parte, em todos os países, épocas e idades, encontram-se tais homens, porque a Igreja põe em prática todos os meios de santificação estabelecidos por Jesus Cristo.

Ó santa Igreja, os grandes homens te pertencem! Exclamava José de Maistre.

Contemplando a vida do Catolicismo, a exuberância da sua santidade, dezenove séculos depois da partida de seu fundador, podemos exclamar também:

Ó! santa Igreja, os grandes e pequenas santos te pertencem!

EXEMPLOS

1. Os ladrilhos da Catedral

Um professor de história natural, acostumado a tudo examinar nas minúcias com o microscópio, entrou um dia na Catedral de Reims, para examinar a construção e ver, se de fato, era o monumento artístico tão falado no mundo dos artistas.

Percorreu todas as partes do imenso edifício, examinou tudo com o binóculo, desde as abóbadas da entrada até os ladrilhos de mosaico.

Enquanto estava assim examinando tudo, entrou um engenheiro, igualmente atraído pela mundial fama da Catedral. Este parou no fundo da nave central e examinou longamente o conjunto da arquitetura, das colunas, arcos e arquitraves; com o lápis na mão, anotava, calculava e, no fim, sentiu-se como extasiado diante da ousadia e majestade desta arquitetura inimitável.

Enfim, os dois observadores encontraram-se, e logo se reconheceram como estando a fazer um mesmo exame artístico.

O engenheiro não pôde conter-se.

- É admirável! É inimitável! Exclamou em alta voz... Que ousadia de linhas, que força de concepção! E olhava, embevecido, estas maravilhas da arte.

O professor de história natural ficou insensível, e objetou logo: - Não é bonito, não! Há defeitos, falhas! Olhe, lá em cima encontrei seis ladrilhos quebrados e duas janelas sem vidros... é feio isto, a catedral não possui beleza, nem arte.

Custou ao engenheiro fazer compreender ao professor que a arte de um edifício esta no conjunto das linhas, na combinação das partes, e que uns ladrilhos quebrados nada influem no conjunto da obra.

Os inimigos da religião empregam o mesmo método. Olham para a Igreja, examinam uns escândalos locais, bradam que tem havido maus padres, que há abusos, superstições, descobrindo deste modo uns ladrilhos quebrados no imenso edifício da Igreja, e não enxergam a santidade total, universal, que esta Igreja possui e comunica a seus filhos.

Sim, são sombras num quadro artístico... porém, é precisamente tais sombras que fazem sobressair o conjunto da virtude que ali floresce

2. O patrão e o jardineiro

O patrão percorreu o seu vasto jardim em companhia do jardineiro. Encontraram uma macieira carregada de frutos, mas tendo no chão uma dúzia de frutos caídos.

O patrão examinou as maçãs caídas, que estavam bichadas. Indignado, deu ordem ao jardineiro que arrancasse a macieira por ter maçãs bichadas.

- Mas, patrão, exclamou o jardineiro, não é a macieira que está bichada, são apenas umas frutas mordidas por insetos, que amadureceram antes do tempo e caíram. Note, porém, que ao lado de uma dúzia de maçãs caídas, há centenas em condições perfeitas.

Quantos homens, sem espírito de Deus, encontrando um escândalo ou um abuso na Igreja, perpetrado por particulares, acusam logo a Igreja de não prestar.

A culpada não é a Igreja. São certos maus católicos, indignos de pertencer a esta Igreja.

A Igreja é santa, embora não o sejam todos os seus filhos, como a macieira pode ser boa, apesar de todos os seus frutos não serem de primeira qualidade.

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(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 235 – 243)

25 de junho de 2011

AMAR MARIA (V)

Dores e consolos de Maria

1) Deves meditar com grande firmeza os exemplos da amável Virgem Maria, a que, como preciosa mirra, produz perfumados frutos de paciência, e foi enchida de maneira suavíssima, com abundante medida, de consoladoras doçuras divinas.Também tu encontrarás grandíssimos consolos, se levas no coração o nome de Maria. Enquanto estiver bem com ela, obterás muitas vantagens, porque seu amor expulsa todo ardor de concupiscência carnal, dá o alívio da castidade, induz a desprezar o mundo, faz servir a Cristo na humildade, afugenta toda má companhia e educa para uma vida casta e religiosa.

2) Ama Maria, então, e receberás uma graça especial; invoca a Maria, e obterás vitória; honra Maria, e conseguirás a eterna recompensa. Traz consigo dois benefícios especiais o viver com ela: ensina a agradecer a Deus desde o íntimo do coração quando as coisas andam bem, assim como suportá-las com paciência quando andam mal. Ela foi a primeira a agradecer continuamente e com todas as forças a Deus, pelos benefícios que recebeu d’Ele mais que todos os outros; e se portou sempre com mansidão em todos os sofrimentos deste mundo, preferindo constantemente as coisas mais humildes às que conotam jactância. Não viveu um só dia sem dores e, entretanto, em meio às angústias, nunca careceu de grande consolo, porque toda tribulação abraçada por Cristo produz doçura e alegria, e quanto maior a freqüência com que alguém é tomado como alvo e ferido pelo mal, mais merece ser ajudado.

3) A Virgem Bem-aventurada sofreu muitíssimo pelos erros do mundo e pela perversidade de tanta gente; se compadeceu dos que estavam verdadeiramente arrependidos ou duramente tentados. Afligiu-se pela enorme ingratidão dos homens, para quem Deus Pai havia mandado seu Filho unigênito, encarnado por amor, a fim de que reconquistassem o paraíso que um dia haviam perdido pelo pecado de Adão. Teve pesar pela condenação dos maus, que, menosprezando a palavra de Deus, preferiam o mundo antes que o céu e perseguiam as falsas riquezas ao invés das autênticas virtudes. Sofreu pela perseguição dos inocentes e pela violência dos malvados, pelo desprezo dos mandamentos de Deus; e constituía para ela motivo de profundo padecimento o fato de que o mundo inteiro estivesse submergido no mal e fossem poucos os dispostos a receber a luz eterna, acesa no mundo por meio dela, Mãe de imensa piedade. Teve para com todos grandíssima paciência e levou uma vida repleta de sofrimentos, ao mesmo tempo que rogava com lágrimas e soluços pela salvação das almas.

4) Se queres conhecer mais a fundo quais e quantos sofrimentos agüentou Maria an perseguição e na paixão de seu amado Filho, saberás que bebeu até à última gota o cálice de tantos amargos pesares como os que bebeu Jesus em cada instante de sua vida e a causa de todas as feridas infligidas em seu corpo. Efetivamente, quando Jesus teve que sofrer, de parte dos homens, contrariedade e desprezo, sem que também ela os sofresse por compaixão? Se ela sofreu quando perdeu Jesus só por alguns dias, quanto não haverá chorado ao vê-Lo crucificado e logo morto? Os que amam a Jesus sabem bem que o afeto maternal de Maria superou no sofrimento ao de todas as almas piedosas. Por isso, se queres conhecer a violência da dor na Mãe, pensa na veemência do amor na Virgem.

5) Ninguém pode expressar o júbilo de Maria; ninguém está em condições de compreender a abundância de sua doçura e a grandeza de seu consolo, porque onde mais superabunda a graça, mais superabundam a alegria e o consolo, e também Deus com maior freqüência se acostuma a efetuar suas visitas. Do qual se segue que sempre mais fervorosamente aumenta o amor pelo louvor de Deus e se renova toda vida interior do homem. Portanto, a graça celestial não permite que um cristão, que ama a Deus sobre todas as coisas, viva sem consolo interior, senão que o eleva continuamente aos bens celestiais e o ilumina sabiamente sobre o que convém fazer. Inflama-o nas santas meditações e o impulsiona ao agradecimento, posto que quanto maior é a graça e mais pura a vida, tanto mais jubilosa é a consciência e mais devota a oração.

6) Uma vida afastada do alvoroço do mundo e dos maus desejos sente uma sede constante e sempre mais intensa de que se a introduzisse nos coros dos anjos, se eleva acima das realidades presentes e arde em desejos de desfrutar a Suma Trindade na eterna glória. Glória que nenhum santo nesta vida saboreou antecipadamente com maior intensidade que a bendita e gloriosa Virgem Maria, constituída como medianeira mais eficaz que todos aqueles que contemplam e bendizem a Deus.

7) Depois de haver escutado o elogio de seus louvores, imita tu também à Mãe de Deus, para que possas merecer e fazer parte do número de seus devotos. Esforça-te por seguir cuidadosamente à Maria Santíssima em suas celebradas virtudes, e conseguirás a palma da glória celestial. Entristeça-te muito por tuas passadas negligências e pelos defeitos ainda não vencidos, com os que há ofendido a Deus e a todas as criaturas. Obras-te mal nesta terra e te portaste com tibieza no serviço de Cristo, pelo qual deves chorar antes de tudo a causa de ti mesmo e logo, por caridade, a causa do próximo. Portanto, compadece-te daqueles que nos perigos se comportam mal e não o advertem. Muitos, ainda que reconhecendo suas próprias maldades, não se emendam. Por estes é necessário afligir-se e rezar, para que Deus lhes conceda o espírito de compunção para poderem salvar-se.

8) Roga por teus amigos e benfeitores; roga também por teus detratores, para que aos bons, se lhes conceda uma graça adequada, aos inimigos um juízo com equidade, a todos a paz e a misericórdia de Cristo. Roga com o fim de que todos os homens, pelos quais Deus realizou tantas maravilhas e se rebaixou, submetendo-se humildemente a Maria e a José, o amem, pratiquem seus mandamentos e dêem glória a seu Criador.

9) Seja reconhecedor dos benefícios que Deus gratuitamente concedeu a todo gênero humano por meio de sua Santíssima Mãe, e tributa-lhe continuamente gratidão e honra, posto que, se a lei natural ordena ter respeito e amor pelos progenitores carnais, muito mais os filhos da Igreja devem sentir-se agradecidos e obrigados com relação de sua Mãe espiritual, e amar à Mãe de Deus mais que a todos os parentes e amigos. É necessário que aprendas a elevar-se em direção a Deus com Maria por meio de louvores e orações. É necessário que te apóies confiadamente em seu patrocínio, sem crer-te seguro com tuas forças, para que tua mente, dominada pelas paixões, não fique enredada nas baixezas, senão que, inflamada cada dia por novos desejos, possa tender livremente para o alto, onde reina felizmente com Jesus, Rei dos anjos, a doce Virgem Maria, gloriosa rainha do céu.

10) Lamentavelmente, depois de haver degustado por breve tempo os divinos consolos, a debilidade da carne te empurra uma vez mais a baixar a este vale de lágrimas. Mas então tens que recorrer com todas tuas forças à Mãe das abundantes misericórdias, para que sugira a seu Filho compassivo que tu não tens mais vinho e necessitas o sagrado ungüento da devoção para poder louvá-lo dignamente. É Ele, com efeito, o que toma a seu cuidado os pobres, os que desprezam o mundo e os que no mundo são menosprezados por causa de Jesus e do evangelho do Reino. Por isso é muito útil saber onde encontrar refúgio contra o inimigo, ao reparo dos agudos dardos, e onde refugiar-se do frio e das tempestuosas tribulações. Não há lugar onde refugiar-se mais seguramente que no colo de Maria, nem cavalgadura mais veloz para fugir das mãos do tentador que uma oração dirigida com fé à fortaleza de Maria, nossa Rainha.

11) O mesmo Jesus entrou nesta fortaleza, assumindo dela os sagrados membros de seu corpo, com o fim de vencer o príncipe das trevas. Tu também, então, entra para refugiar-te à sombra desta fortaleza, rogando dia e noite ser salvo pelos méritos da Santíssima Virgem, de todos os males que te ameaçam, mantendo-te bem seguro sob o amplo manto de Nossa Senhora, já que, quando Maria roga, desaparece toda horda maligna. Se Maria te ajuda, te salvarás de todo perigo. Nela encontra refúgio o pobre; acha remédio o enfermo; encontra consolo o aflito; recebe conselho o vacilante; encontra energia o desencorajado. Será um bem, melhor dito, um grande bem para ti, se o mereceras e fora propenso e dócil aos desejos de Maria, porque receberás seus favores aqui na terra e a glória com todos os eleitos no céu. Aproxima-te de Maria e não a soltes, até que te haja conduzido com sua feliz orientação à mansão do céu. Amém.


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de Maria nunquam satis"
"sobre Maria nunca se falará o bastante"
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(KEMPIS, Tomás de. Imitación de María: Libro Tercero, Capítulo V. pág. 95 - 102)

19 de junho de 2011

Homilia do I Domingo depois de Pentecostes - Festa da Santíssima Trindade

DOMINGO DA SANTÍSIMA TRINDADE

A unidade da Igreja

Jesus Cristo manda os seus Apóstolos pregarem o Evangelho a todas as criaturas, prometendo estar com eles até à consumação dos séculos, para que, na multiplicidade de pessoas, de lugares e de séculos, conservem sempre a unidade da fé verdadeira, na unidade da Igreja Verdadeira.

Para conservar esta unidade, é preciso, antes de tudo, poder reconhecer a Igreja única fundada por Jesus Cristo.

Várias igrejas, antigas e novas, intitulam-se Igreja de Cristo; qual delas é a verdadeira?

Jesus Cristo, que conhecia as dúvidas e os erros do futuro como os do presente, deve ter resolvido tais dúvidas, dando à sua Igreja uns característicos tão claros que possam ser conhecidos por todos; tão certos que excluam a possibilidade do erro; e tão decisivos que permita num relance reconhecer a única Igreja por Ele fundada.

Sim, tais caracteres existem; são quatro, os quais vamos analisar sucessivamente nas instruções destes Domingos, a saber: a unidade, a santidade, a catolicidade e a apostolicidade.

A unidade é a forma da Igreja.
A santidade é a sua vida.
A catolicidade é o seu domínio.
A apostolicidade é a sua origem.

Limitemo-nos hoje ao estudo da unidade da Igreja:

1. Em sua fé e em seus sacramentos.
2. Em seu governo e em seu ensino.

Este primeiro caráter é universal, pois a verdade é necessariamente una e imutável. Tudo o que muda perde a unidade, e o que é uno não pode mudar.

I. Unidade da fé e dos sacramentos.

A unidade é a marca especial da verdade, que é una, porque a verdade por excelência é Deus, que é um.

Fomos batizados, diz São Paulo, para formar um só corpo e ter um mesmo espírito. Não deve haver divisões neste corpo... Recebestes todos um mesmo espírito, como fostes chamados a uma mesma esperança. Um só Senhor, uma só fé, um só batismo. (l Cor. XII).

A Igreja é Jesus Cristo continuado. Ora, Jesus Cristo é sempre o mesmo: não muda, nem em sua pessoa, nem em sua doutrina.

A Igreja verdadeira deve, pois, ser una em sua fé, impondo aos seus membros uma única crença, porque duas coisas contraditórias não podem ser ambas verdadeiras. Deus não pode ratificar ao mesmo tempo os mandamentos do Papa, e os de certas autoridades terrenas, impondo uma crença radicalmente oposta.

Do mesmo modo que se reconhecem pela língua que falam, aqueles que pertencem a uma nação, assim se reconhecem pela fé que professam, os que pertencem à religião verdadeira.

Só a Igreja Católica conservou em sua integridade, sem nada suprimir, sem nada ajuntar, a doutrina que recebeu de Jesus Cristo.

Esta fidelidade absoluta em sua crença tem sido violentamente exprobrada, porque todos os hereges, capazes de refletir, devem reconhecer que este fato é decisivo para a conservação da sua autoridade absoluta e exclusiva sobre todas as seitas religiosas.

O Pe. Lacordaire, numa das suas conferências, representa o mundo sob a forma de um viandante que vai bater à porta do Vaticano.

A , sob a forma do Papa, mostra-se na soleira e lhe pergunta:

- Que queres de mim?
- Mudança, responde o mundo.
- Eu não mudo!
- Ora, tudo mudou e continua a mudar na terra. Porque ficas tu sempre o mesmo?
- Porque venho de Deus, e Deus é imutável.

Esta palavra há de ser sempre a última da Igreja: Eu não mudo.

A Igreja deve também ser una em seus sacramentos, porque os sacramentos são meios ordinários, estabelecidos por Jesus Cristo, para obter a graça, sem a qual a salvação é impossível.

O número dos sacramentos, tendo sido fixado por Jesus Cristo, ninguém o pode mudar.

Todos os sacramentos não são absolutamente necessários a todos do mesmo modo, é certo; porém todos eles concorrem a estabelecer e manter a união com Jesus Cristo e dos fiéis entre si de tal modo que cada sacramento estabelece um laço particular, necessário para a santificação do indivíduo e da sociedade.

Suprimir um deles seria ferir gravemente uma das artérias do corpo místico de Jesus Cristo, seria mutilar os meios de santificação

II. Unidade do governo ensino

A esta unidade perfeita de fé e de sacramentos, junta-se necessariamente a unidade do governo e do ensino.

A razão é clara. A Igreja é uma sociedade. Ora, toda sociedade supõe um chefe que a governa.

A diversidade de costumes, de linguagem, de caracteres e mil outras coisas gerais ou particulares trariam fatalmente à uma sociedade sem governo, à divisão e à morte.

Todo reino dividido entre si será destruído, diz o Divino Mestre.

Tal lei não sofre exceção. É por isso que o próprio Jesus Cristo estabeleceu um chefe supremo em sua Igreja, grupando em redor deste outros chefes inferiores para ajudá-lo no governo dos fiéis.

É inútil acrescentar que tal chefe deve ser um só, pois a multiplicidade de autoridades geraria necessariamente a desunião

Tal autoridade una e suprema, só existe na Igreja Católica.

Ali há uma sede suprema, única, que todas as demais sedes escutam: é a sede de Roma, a sede de Pedro, a quem Jesus Cristo confiou o cuidado das ovelhas e dos cordeiros, isto é: dos fiéis e dos seus chefes imediatos.

Pelo Episcopado, a Igreja Romana grupa em redor de si todo o sacerdócio; pelo sacerdócio todos os fiéis; pelos fiéis, o mundo inteiro.

Nada há mais admirável, mais sábio que tal organização.

Nós católicos, recebemos o ensino dos sacerdotes e dos Bispos, eles porém recebem-no do Soberano Pontífice, que o recebe diretamente de Jesus Cristo. O Papa é Jesus Cristo continuado.

Os ramos de uma árvore não têm seiva senão quando estão unidos ao tronco; e a sua diversidade não impede a unidade da sua origem.

E se nesta árvore imensa, à qual Jesus Cristo comparou a sua Igreja, e que deve espalhar-se no mundo inteiro, os fiéis são as folhas e os frutos, eles não podem ter vida senão enquanto estão unidos aos ramos, que são os sacerdotes e os Bispos, unidos ao Soberano Pontífice, que é o tronco tendo as suas raízes fixas no Coração de Jesus Cristo.

Os ensinamentos que a Igreja vai manifestando nas diversas épocas, em nada prejudicam a sua unidade, ao contrário, manifestam-na com mais fulgor.

A Igreja é um corpo vivo, perfeito em sua origem; mas desenvolvendo-se através dos anos, tal uma criança, que não adquire nada de essencial pelo crescimento, mas desenvolve apenas aos olhares, a sua beleza e as suas faculdades.

A Igreja esclarece os dogmas, mas não os cria. A fé propõe verdades, a ciência as explica.

III. Conclusão

Notemos bem este primeiro caráter da Igreja verdadeira de Jesus Cristo: a unidade. E tal unidade deve manifestar-se: na fé, nos sacramentos, no governo e no ensino.

Desde que não há unidade não há mais coordenação do conjunto, e toda agregação se dissolve.

Pode haver igrejas, não há mais uma Igreja; pode haver bispos; não há mais Episcopado; pode haver padres, não há mais Sacerdócio.

Deste modo, não havendo mais Papa, não há unidade; não havendo unidade, não há autoridade, não há mais fé. É o efeito definitivo do cisma e da heresia, a vida está na unidade: fora da unidade é a morte.

A fé permanece a mesma, embora se desenvolva, em seus motivos, suas relações e suas conseqüências; fica a mesma, embora neste desenvolvimento se introduzam certas opiniões ou sistemas, mais ou menos plausíveis. Santo Agostinho diz muito bem:

Nas coisas da Fé: unidade; nas coisas duvidosas, liberdade; em todas caridade.

A mudança de certos pontos disciplinares prescritos pela autoridade, não muda tão pouco nem a moral, nem a hierarquia; como a mudança de uns regulamentos da polícia, não altera a constituição de um país.

A Igreja conserva ciosamente a doutrina de Jesus Cristo, sem nada ajuntar, mudar ou suprimir; e se um cristão dos primeiros séculos, cujos ossos embranquecidos repousam nas catacumbas, voltasse em nossa época, entrando na primeira Igreja Católica que encontrasse, poderia ali unir-se aos fiéis e cantar o mesmo símbolo que havia aprendido em sua infância, o qual nunca variou.

EXEMPLOS

1. Testemunho de Guizot

Guizot era protestante, mas tinha bom senso. Eis o que ele escreveu: "O Catolicismo é a maior e a mais santa escola de respeito que existe no mundo. Temos precisão dela. Respeito profundamente a Igreja Católica, e admiro a sua unidade perfeita através dos séculos e das nações. Considero a sua dignidade, a sua liberdade, a sua autoridade moral, como essenciais à sorte da cristandade inteira".

2. Reflexões de um protestante

Há pouco tempo, um protestante, ex-senador dos Estados Unidos, M. Lorimer, converteu-se ao Catolicismo. Interrogado por um jornalista a respeito de sua conversão, respondeu:

Durante 15 anos, li todos os livros de controvérsia religiosa que pude adquirir, e cheguei à conclusão de que somente uma coisa me restava a fazer: tornar-me católico.

No começo, a idéia de entrar no seio da Igreja romana me repugnava; resolvi, porém, examinar a religião, e, à medida que ia estudando, as minhas convicções se tornaram mais nítidas, de modo que me tornei católico quase mau grado meu.

Nasci na Escócia. Meu pai era pastor presbiteriano, muito rígido. Segui os cursos de religião até os meus 20 anos, e, durante todo este tempo, não ouvi senão invectivas contra a Igreja Católica.

Cresci no ódio contra esta Igreja; ora, foi precisamente este ódio que provocou a minha conversão. Muitas vezes eu disse de mim para mim: Como é que a Igreja Católica, se é tão perversa como dizem, pode continuar a existir?

Comecei uma investigação com idéias pré-concebidas e como defensor decidido do protestantismo.

O resultado não se fez esperar; descobri uma Igreja diametralmente oposta a tudo o que havia lido a seu respeito. Averigüei a unidade perfeita de seus ensinamentos através dos séculos, a sua conformidade perfeita com o Evangelho, a legitimidade da sua autoridade, etc.

Em vez de protestante, tornei-me desde então um católico decidido, de fé, e convencido de que não se pode procurar a religião verdadeira sem terminar na Igreja Católica.

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(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 227 – 234)

18 de junho de 2011

Maomé e sua falsa religião - São João Bosco

por Dom Bosco, no livro História Eclesiástica.

Nasceu este famoso impostor em Meca, cidade da Arábia, de família pobre, de pai gentio e mãe judia. Errando em busca de fortuna, encontrou-se com uma viúva negociante em Damasco, que o nomeou seu procurador e mais tarde casou-se com ele. Como era epilético, soube aproveitar-se desta enfermidade para provar a religião que tinha inventado e afirmava que suas quedas eram outros tantos êxtases, durante os quais falava com o arcanjo Gabriel. A religião que pregava era uma mistura de paganismo, judaísmo e cristianismo. Ainda que admita um só Deus, não reconhece a Jesus Cristo como filho de Deus, mas como seu profeta.

Como dissesse com jactância que era superior ao divino Salvador, instavam com ele para que fizesse milagres como Jesus fazia; porém ele respondia que não tinha sido suscitado por Deus para fazer milagres, mas para restabelecer a verdadeira religião mediante a força. Ditou suas crenças em árabe e com elas compilou um livro que chamou Alcorão, isto é, livro por excelência; narrou nele o seguinte milagre, ridículo em sumo grau. Disse que tendo caído um pedaço da lua em sua manga, ele soube fazê-la voltar a seu lugar; por isso os maometanos tomaram por insígnia a meia lua. Sendo conhecido por homem perturbador, seus concidadãos trataram de dar-lhe morte; sabendo disto o astuto Maomé fugiu e retirou-se para Medina com muitos aventureiros que o ajudaram a apoderar-se da cidade. Esta fuga de Maomé se chamou Egira, isto é, perseguição; e desde então começou a era muçulmana, correspondente ao ano 622 de nossa era.

O Alcorão está cheio de contradições, repetições e absurdos. Não sabendo Maomé escrever, ajudaram-no em sua obra um judeu e um monge apóstata da Pérsia chamado Sérgio. Como o maometismo favorecesse a libertinagem teve prontamente muitos sequazes; e como pouco depois se visse seu autor à frente de um formidável exército de bandidos, pode com suas palavras e ainda mais com suas armas introduzi-lo em quase todo o Oriente. Maomé depois de ter reinado nove anos tiranicamente, morreu na cidade de Medina no ano 632.

AMAR MARIA (IV)

Recordação e Devoção à Maria

1) Maria é amiga da pobreza, o caminho da humildade, o modelo da paciência e da perfeição em tudo. Desde o nascimento de Jesus levou uma vida muito pobre e, até a morte dele na cruz, foi sempre paciente. É doce segui-la, é justo honrá-la com humilde e devota homenagem; deve-se pensar cada dia no que se pode oferecer-lhe dignamente em sinal de gratidão e amor.

2) Seguramente queiras desfrutar o céu com Maria, mas tens que suportar de boa vontade com Maria também a pobreza e o desprezo na terra. Reflita sobre seus humildes costumes e sua virginal reserva com as amigas; refreia tuas leviandades e fuja do alvoroço. Não ofendas a Jesus e Maria com discursos frívolos e com ações indignas, porque não é assunto de pouca monta ofender a amigos tão queridos. Eles estão ao teu lado em tudo o que fizeres; e, na medida do empenho com que te esforças em emendar-te, acudirão ao teu encontro com auxílio. Sua prudência é superior à tua malícia e sua benignidade te conduzirá à penitência.

3) Se reconheces teus erros, mude sua vida para melhorá-la; persevera no bem e dá devotamente graças a Deus por seus dons. Fez outro tanto a Bem-aventurada Virgem Maria, culminada do Espírito Santo, quando gestava a Jesus em seu ventre. A exemplo de sua mansidão, aprende a suportar com paciência as cruzes que encontres, submetendo-te à vontade de Deus, tal como Ele o estabeleceu desde toda eternidade. Jesus será tua força e Maria tua fidelíssima Mãe, se te comportas como filho dócil e como servo devoto, sempre disposto a fazer o bem. Queres praticar o que agrada à Virgem Bem-aventurada? “Seja humilde, paciente, sóbrio, casto e pudico; fervoroso, manso, profundamente devoto, sejam raras tuas saídas, lê e escreva, porém com mais freqüência roga.”

4) Que o serviço a Maria nunca te pareça longo nem pesado, porque servir com o coração e com a palavra à semelhante Rainha proporciona deleite e alegria. Ademais, te procurará uma notável recompensa por qualquer ato, mesmo que mínimo, que fizeres em sua honra. A humilde Mãe não menospreza as humildes atenções; a piedosa Virgem aceita de bom grado mesmo os modestos obséquios, quando são oferecidos com espontaneidade e devoção. A doce Rainha e Senhora misericordiosa sabe bem que não somos aptos para oferecer-lhe grandes coisas, nem exige de seus pobres servidores atitudes impossíveis. Maria, de cuja indicação obedece o paraíso, não busca nem necessita nossos bens. Ela quer nosso bem, quando busca nosso serviço; deseja nossa salvação, quando nos pede que a louvemos; persegue a ocasião de ajudar-nos, quando nos incita a honrar seu nome, posto que se compraz em renovar a seus servidores. Em suma, é fidelíssima nas promessas e muito generosa nos dons.

5) Maria está culminada de delícias e sempre é alegrada pelos cantos dos anjos; no entanto, desfruta quando os crentes se põem a seu serviço, porque assim se difundem em maior escala a glória de Deus e a salvação para muitos. Comove-se pelas lágrimas dos indigentes; compadece os sofrimentos dos atribulados; socorre nos perigos aos que são tentados, e escuta as orações dos devotos. Se alguém se dirige a ela sem vacilações e com humildade, invocando seu doce e glorioso nome, não se distanciará com as mãos vazias.

6) Conta com numerosos aliados e a obedecem os coros dos anjos, aos que pode mandar em ajuda dos abandonados. Ordena aos demônios para que não se atrevam a tentar nenhum dos que lhe hão pedido auxílio e se puseram sob sua proteção. Os espíritos malignos têm terror à Rainha do céu e empreendem a fuga apenas ouvem seu santo nome, como se fugissem do fogo. Sentem espanto do sagrado e temível nome de Maria, enquanto ele resulta sumamente amável e invocado em todas partes pelos cristãos; não ousam fazer-se visíveis nem exercer seu nefasto poder ali onde sabem que brilha o nome de Maria Santíssima porque, somente ao ouvir este nome, tombam violentamente ao chão, como se caísse um raio do céu e quanto mais freqüentemente se invoca este nome com amor e fervor, tanto mais velozmente e mais longe eles fogem.

7) Por conseguinte, o nome de Maria deve ser venerado e amado por todos os fiéis, preferido pelos religiosos, recomendado pelos leigos, inculcado aos pecadores, sugerido aos enfermos e invocado por todos nos perigos, posto que Maria é a mais próxima de Deus e a mais cara a seu bendito Filho Jesus. É, portanto, onipotente por graça para interceder a favor dos desgraçados filhos de Adão, a fim de que o Senhor possa perdoar-lhes as culpas e socorrê-los nas ocasiões de risco. Se a ocasião se apresenta, Maria não deixará por certo de pronunciar uma boa palavra ao ouvido de seu Filho e de implorar misericórdia pelos necessitados. E, em toda causa confiada a ela, é imediatamente escutada por sua singular dignidade, dado que seu amoroso Filho Jesus, autor da salvação do gênero humano, a honra não negando-lhe nada.

8) Por isso, qualquer fiel e devoto, que deseja evitar os naufrágios do mundo e alcançar a porta da salvação eterna, tem que refugiar-se em Maria, Nossa Senhora, cuja incomensurável bondade é experimentada de modo particular e com maior força pelos desgraçados. Por isto mesmo, é justo esperar dela inclusive os maiores dons. Em realidade, a misericórdia cresceu nela desde a infância. E, por certo, não a abandonou quando subiu ao céu, antes bem, a culminou de si com maior abundância e suavidade, pela qual não poderá jamais esquecer-se de seus pobrezinhos. Mesmo que seja a maior de todos e se encontre imersa em júbilos que a fazem tão feliz, não se esquece jamais de sua humildade, pela que mereceu ser enaltecida acima dos demais. Ela sabe inclinar-se ainda até os mais pequeninos entre seus servidores e é feliz ao ser considerada advogada dos desgraçados e ao ser invocada como Mãe dos órfãos. Amém.

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de Maria nunquam satis"
"sobre Maria nunca se falará o bastante"
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(KEMPIS, Tomás de. Imitación de María: Libro Tercero, Capítulo I. pág. 90 - 95)

15 de junho de 2011

A palavra é viva quando são as obras que falam

Quem está repleto do Espírito Santo fala várias línguas. As várias línguas são os vários
testemunhos sobre Cristo, a saber: a humildade, a pobreza, a paciência e a obediência;
falamos estas línguas quando os outros as vêem em nós mesmos. A palavra é viva
quando são as obras que falam. Cessem, portanto, os discursos e falem as obras.
Estamos saturados de palavras, mas vazios de obras. Por este motivo o Senhor nos
amaldiçoa, como amaldiçoou a figueira em que não encontrara frutos, mas apenas
folhas. Diz São Gregório: “Há uma lei para o pregador: que faça o que prega”. Em vão
pregará o conhecimento da lei quem destrói a doutrina por suas obras.

Os apóstolos, entretanto, falavam conforme o Espírito Santo os inspirava (cf. At 2,4).
Feliz de quem fala conforme o Espírito Santo lhe inspira e não conforme suas idéias!
Pois há alguns que falam movidos pelo próprio espírito e, usando as palavras dos
outros, apresentam-nas como suas, atribuindo-as a si mesmos. Destes e de outros
semelhantes, diz o Senhor por meio do profeta Jeremias: Terão de se haver comigo os
profetas que roubam um do outro as minhas palavras. Terão de se haver comigo os
profetas, diz o Senhor, que usam suas línguas para proferir oráculos. Eis que terão de
haver-se comigo os profetas que profetizam sonhos mentirosos, diz o Senhor, que os
contam, e seduzem o meu povo com suas mentiras e seus enganos. Mas eu não os
enviei, não lhes dei ordens, e não são de nenhuma utilidade para este povo – oráculo
do Senhor (Jr 23,30-32).

Falemos, portanto, conforme a linguagem que o Espírito Santo nos conceder; e
peçamos-lhe humilde e devotamente que derrame sobre nós a sua graça, a fim de
podermos celebrar o dia de Pentecostes com a perfeição dos cinco sentidos e na
observância do decálogo. Que sejamos repletos de um profundo espírito de contrição e
nos inflamemos com essas línguas de fogo que são os louvores divinos. Desse modo,
ardentes e iluminados pelos esplendores da santidade, mereceremos ver o Deus Uno e
Trino.

Dos Sermões de Santo Antônio de Pádua, presbítero, Ofício das Leituras da Memória do santo.

12 de junho de 2011

DOMINGO DE PENTECOSTES

A Igreja divina

O Evangelho deste dia de Pentecostes é inteiramente consagrado à vinda e à obra do Espírito Santo.

O dia de Pentecostes relembra-nos, de fato, não só as promessas, mas a vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos, de modo que, é realmente este o dia em que nasceu a Igreja Católica pela virtude do Espírito Santo.

Foi pela luz e a força deste mesmo Espírito Santo, que a Igreja se expandiu triunfante, penetrando no mundo inteiro, regenerando-o e levando- o a Deus.

Como estamos meditando sobre a organização da Igreja como sociedade, o nosso tema corresponde plenamente ao assunto da festa de Pentecostes.

Esclareçamos hoje dois pontos apologéticos de suma importância no assunto:

1. O corpo da Esteja.
2. A alma da Igreja.

Estes dois aspectos nos darão, num relance, a fisionomia inteira da Igreja, e nos mostrarão a sua união suave, harmoniosa e forte.

I. O corpo da Igreja

São Paulo diz que a reunião dos fiéis forma um corpo único.—Unum tamen corpus sunt. (1 Cor. XII. 12)

E continuando a sua magistral aplicação, o Apóstolo diz que nós somos o corpo de Cristo e membro de seus membros (1 Cor. XII. 27) e que o Cristo é a cabeça da Igreja. (Col. I. 18)

A Igreja é, pois, o corpo místico de Jesus Cristo, sendo Ele mesmo a cabeça deste corpo vivo.

Havendo um corpo, deve haver também uma alma. Pois, todo corpo vivo é vivificado por uma alma:

alma vegetativa para as plantas;
alma sensitiva para os animais;
alma racional para os homens;
alma divina para a Igreja.

Por isso dizemos que as plantas têm uma vida vegetativa; os animais, uma vida sensitiva; o homem, uma vida racional; e a Igreja, uma vida divina. E esta vida é o próprio Espírito Santo.

O corpo da Igreja é a organização social, visível, de que o sucessor de São Pedro, o Papa é a cabeça visível.

E fazem parte deste corpo todos aqueles que são batizados e estão submissos aos chefes que governam a Igreja.

Esta submissão é exterior e interior, pois, os fiéis têm, necessariamente, relações externas e internas com a Igreja docente.

As relações externas constam da profissão de uma mesma fé, da participação dos mesmos sacramentos e da obediência ao único Vigário de Jesus Cristo na terra: o Papa.

Estas três relações externas são necessárias para se pertencer ao corpo da Igreja; mas não bastam para alguém ser um bom Cristão.

A relação interna com a Igreja docente é o característico dos que pertencem à alma da Igreja: é a união com Jesus Cristo, pela graça santificante, não podendo ser unido aos demais membros da Igreja que desconhece.

Desta distinção, ressalta que, para pertencer, ao mesmo tempo, ao corpo e à alma da Igreja, é preciso ter interiormente a graça de Deus, e exteriormente fazer profissão de fé imposta pela Igreja docente, participar dos sacramentos que ela reconhece, e obedecer a Jesus Cristo, Chefe invisível da Igreja, representado visivelmente na pessoa do Santo Padre, o Papa.

Um católico deixa de pertencer à alma da Igreja, separando-se dela publicamente, pela apostasia, a heresia, o cisma, ou sendo separado dela pela excomunhão.

Os pecadores, mesmo públicos, conhecidos como tais, e os hereges ocultos, pertencem ainda ao corpo da Igreja, mas deixam de pertencer à sua alma.

Pode-se também pertencer à alma da Igreja, sem pertencer ao seu corpo. Nesta condição estão aqueles que não podem conhecer exteriormente a Igreja, como são as crianças batizadas; e, de modo secundário, aqueles que, pela fé e a esperança, possuem o gérmen da graça, como são os hereges e cismáticos de boa fé.

Quando a boa fé de uma alma encontra a graça divina, realiza-se o mistério da Justificação.

II. A alma da Igreja

A Igreja, sendo um corpo vivo, possui também uma alma.

A alma é o princípio da vida.

Lembremo-nos da cena magnífica da criação de Adão. Há uma tocante analogia entre a criação do homem e a criação da Igreja.

Depois de ter tomado um pouco de barro, e de ter formado dele o corpo do homem, Deus tira de seu Coração um sopro de amor, e eis que a estátua de barro se anima, abre os olhos, o coração bate... e a humanidade começa a existir!

É a imagem do que aconteceu no berço da Igreja.

Com suas mãos divinas, Jesus Cristo dispôs o corpo da Igreja, criou-lhe, formou-lhe as artérias, e, inclinando-se amoroso sobre esta Igreja em formação, lhe insuflou um sopro de vida.

No começo do mundo Deus soprou sobre a fronte de Adão, e criou nele uma alma vivente. (Gen. II. 7)

Aqui, Jesus Cristo sopra sobre a fronte de sua Igreja, representada pelos Apóstolos sob a direção de Pedro: et insufflavit in eos, e faz deles uma sociedade vivente: Accipite Spiritum Sanctum.

Eis porque, logo em seguida, com a sua palavra onipotente, Ele lança a Igreja no espaço, como Deus lançara Adão no espaço do mundo.

Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra e sujeitai-a (Gen. 28), disse Deus a Adão.

Ide, pois, ensinai a todas as gentes, disse Jesus aos Apóstolos.

Sob o sopro de Deus, Adão levantou-se e começou a cantar em êxtases.

A Igreja levanta-se igualmente sob o sopro do Espírito Santo, e começa a falar, a agir, a converter o mundo.

O corpo da Igreja é belo, harmonioso; mas o que é mais harmonioso ainda e mais belo é a sua alma: é o Espírito Santo que a anima.

Os inimigos da Igreja estão bem iludidos a este respeito. Dizem e predizem que vão destruir a Igreja, que vão sepultá-la.

Desde Juliano o Apostata, até Hitler, a mesma canção tem sido entoada sob diversos tons e melodias: mas o fiasco tem sido e será sempre o mesmo.

Que podem eles fazer? Podem matar o corpo, mas não matam a alma!

Podem encarcerar o Papa!
Podem exilar os Bispos!
Podem assassinar os Padres!
Podem demolir as Igrejas!

Mas, que é isso? Só atacam o corpo da Igreja: a alma lhes escapa.

O que seria preciso era estrangular a alma.

Mas, como fazê-lo, quando não se pode nem tocar a alma de uma criança?

A alma do homem foge quando o corpo é incapaz de hospedá-la. E a alma da Igreja, está no Papa, nos Bispos, nos Padres, nos fiéis, mas ela não está ligada a ninguém: é o Espírito Santo.

Oh, perseguidores, oh, iconoclastas! Oh comunistas! Cerrai os punhos contra a Igreja! Despedaçai-a com a vossa foice afiada!... Batei-a sobre a bigorna dos vossos erros, com a massa do vosso ódio! Podeis matar o corpo... a alma vos escapa, ela é divina!

Há 19 séculos que a impiedade, o vício e a loucura procuram estrangular a alma da Igreja.

Que conseguiram eles?

Caíram! E sobre o seu túmulo desonrado a Igreja sempre triunfante, canta o seu <>, e lança o seu perdão.

A Igreja não morre! Ela é divina, porque a sua alma é divina: é o próprio Espírito Santo.

Ela está sempre viva, sempre radiante, sempre gloriosa... Ela triunfa no sangue de seus filhos, nas fogueiras, sob a espada de seus perseguidores, como triunfa sobre os túmulos de seus carrascos.

Eis a alma da Igreja: a alma divina da Igreja; a alma que diviniza o corpo da Igreja e faz dela o farol da humanidade, o rochedo indestrutível, onde todos os náufragos da vida encontram abrigo e salvação.

III. Conclusão

Tal é a obra admirável, fundada por Jesus Cristo: obra divina, inteiramente divina.

Ele mesmo, com as suas mãos divinas, formou o corpo da Igreja e insuflou neste corpo o sopro divino, que é o Espírito Santo.

O que precede é o bastante para excitar em nós um grande amor à Igreja divina de Cristo, coluna e firmamento da verdade.

Os nossos pais chamavam-na, com lágrimas nos olhos: Sancta Mater Ecclesia - A nossa Santa Mãe Igreja, como expressão da veneração e do amor que lhe dedicavam.

De fato, ela é Mãe, ela é a Esposa de Jesus Cristo; ela é o sopro de seu Coração, ela é o próprio Espírito Santo, fecundando e salvando a humanidade em demanda para o céu.

Ela merece, pois, todo o nosso amor e toda a nossa fidelidade, tanto ao seu corpo como à sua alma.

EXEMPLOS

1. Testamento de O'connell

O'connell, sentindo aproximar-se o termo da sua vida, depois de seus grandes empreendimentos, depois de ter feito triunfar a fé cristã em sua pátria, a Irlanda, desejava ir morrer em Roma, e depositar os seus restos mortais aos pés do representante de Deus na terra.

Não teve a felicidade de chegar à Roma. A moléstia prostrou-o em Genova, onde morreu nos mais admiráveis sentimentos de fé e de amor à Igreja Católica.

Em seu Testamento deixou o seu corpo para a Irlanda, seu coração para Roma e sua alma para o céu.

Seu coração devia ficar em Roma. De fato é ali que permanecem as afeições do cristão.

2. Santa Teresa

Chegando ao fim da sua carreira laboriosa e fecunda, Santa Teresa de Ávila, em presença das suas Irmãs, reunidas em redor de seu leito, agradecia a Nosso Senhor em alta voz de tê-la feito filha da Santa Igreja, e de permitir que morresse como tal, - Sim, Senhor, disse ela com um acento de imensa gratidão, sou verdadeiramente a filha da vossa Santa Igreja. É suave morrer na fé da Igreja romana, fortalecida pelos socorros com que ela abre as portas do céu para os seus filhos.

3. Santa Catarina

Quando se trata da Igreja, cada cristão deve saber defendê-la. Santa Catarina era filha de um humilde tintureiro de Sena; consagrou a sua vida em exaltar a Santa Igreja.

Não receava para este fim, ir ao palácio dos reis da Europa, de visitar os Cardeais e até o Soberano Pontífice para combinar meios de trabalhar pela prosperidade da Igreja.

Foi ela que decidiu o Papa a deixar Avinhão e a voltar para Roma.

Se não nos é dado fazer tanto como esta santa, pelo menos rezemos pela exaltação da Santa Igreja e a conversão de seus inimigos.

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(MARIA, P. Júlio. Comentário Apologético do Evangelho Dominical. O Lutador, 1940, p. 219 – 226)

11 de junho de 2011

AMAR MARIA (III)

Efeitos da devoção à Maria

1) “Minha lembrança é mais doce que o mel” (Ecl 24, 19). Estas palavras da Eterna Sabedoria se aplicam decorosa e oportunamente à Mãe da misericordiosa, da que nasceu Cristo, sol da justiça. Doce é Jesus doce é Maria, porque neles não há amargura alguma, senão suma piedade, mansidão, caridade e imensa misericórdia. Feliz o que segue as pegadas do humilde Jesus e se dirige com devoção à sua Mãe, para encontrar graça ante eles. Portanto, fidelíssimo servidor de Deus, reúne em um caderno o que fez e ensinou Jesus, e te será mais útil que todos os tesouros do mundo. Medita freqüentemente nas ações e nas palavras de sua Santíssima Mãe, que serão de enorme consolo para a alma e mais perfumadas que todos os aromas.

2) O corpo ama os bons odores e se reanima com o sustento dos alimentos; a alma em troca se nutre, se robustece e se regozija com sólidas virtudes e santas meditações. Por isso, quanto maior for a dedicação para aperfeiçoar-se sob a guia e na escola dos mais nobres mestres, tanto mais eficazmente se aprende e, em breve tempo, se chega ao ápice da felicidade. Agora bem, os maiores mestres das virtudes e as mais destacadas luzes de toda santidade são Jesus e Maria, e são os que tens que propor a tua pequenez para modelos de imitação, como se estivessem diante de ti. A ambos deves unir-te, fazendo-te familiar seu, dedicando-te a eles; e, em qualquer circunstância em que ouças falar dos mesmos, detém-te a escutar com diligência cada ponto, e logo reflita-o longo tempo, e medita atentamente sobre o que suscita edificação e doçura.

4) Cada vez que estejas por recitar os divinos louvores ou por realizar qualquer ação, a só ou com os outros, eleva primeiramente os olhos ao céu e invoca com ternura Jesus e Maria, pondo-te entre súplicas sob sua vigilante proteção, fazendo a oferenda de si mesmo a seu beneplácito, a fim de que tua ação seja grata a Deus, útil ao próximo e meritória para ti. Que tua mente seja sempre pura, tua vontade decidida, discreto seu trabalho, controladas tuas palavras, bem acabadas suas ações. Que tudo se desenvolva para louvor de Jesus e de sua bendita Mãe.

4) Começa na terra a louvá-los, a venerá-los e a amá-los, para que possas merecer a graça de reinar com eles, bendizê-los e exaltá-los eternamente em união com os anjos e os santos. É bonito e suave louvar Jesus, e amável e gracioso louvar Maria. Louvá-los na alegria, louvá-los na tristeza, porque são dignos de todo louvor e devem ser igualmente invocados em qualquer circunstância. Quanto mais freqüente te exercitas em louvá-los, tanto mais crescerás em seu amor e te robustecerás na graça de sua devoção.

5) Eles não se esquecerão jamais de ti, enquanto tu não esquecê-los. Mas se desgraçadamente te esqueceres ou te comportares mal, se tua devoção de antes houver esfriado, terás que punir-te com oportunos castigos, deplorar com amargura teus maus passos, aprender a falar mais freqüentemente com Deus e custodiar com maior vigilância a graça que te foi dada. Recorda-te, pois, dos benefícios de Jesus e Maria, e lamenta tua negligência e a grave ingratidão em que insensatamente incorreste.

6) Feliz o que escuta com atenção as admoestações que Jesus lhe dirige, para que se corrija e, depois do amargo pranto, se sinta novamente arrebatado pelos felizes êxtases da alma. A compaixão de Jesus é maior que todos os pecados, e a benignidade de Maria não poderá esgotar-se jamais. Ó, se tu pudesses progredir muito no amor de Jesus, e servir digna e devotamente à sua bendita Mãe Maria! Mas, que poderias fazer tu, que nem sequer és digno de pronunciar seu nome, já que és frágil, tíbio, negligente e, em acréscimo, os ofende com freqüência de muitas maneiras? Como poderias louvá-los, se o louvor na boca de um pecador não é aceito, dado que santos podem ser somente os que são justos e dignos? Mas então, deves calar-te ou falar? Ai de ti, se não falas, mas ai de ti também se falas com lábios indignos. Em suma, que deves fazer para achar misericórdia e não incorrer em pecado?

7) Para conseguir a benevolência do benigníssimo Jesus e de sua muito misericordiosa Mãe, nada melhor há que humilhar-te em qualquer circunstância, submetendo-te a todos, mantendo-te sempre no último lugar e considerando-te sinceramente indigno e ruim. Se em troca te crês capaz de levar a cabo algo bom, toma consciência de tua nulidade. Somente assim poderás aplacar Deus, Jesus terá compaixão de ti e também Maria rogará por ti. Serás consolado em tua humildade, e não serás confundido diante deles, senão que receberás copiosos dons, enquanto elevas cantos de louvor. Se não és apto para louvá-los dignamente, procede do melhor modo possível, oferecendo o que tenhas, já que a boa intenção te ajudará até que estejas em condições de proporcionar melhores obséquios.

8) Os maiores e mais devotos louvam magnificamente; os que só têm um pouco de azeite, que o ofereçam de boa vontade ao Filho e o consagrem à Mãe da graça. Havia que fazer calar ante a excelência da glória e da dignidade do magnífico Filho de uma Mãe Virgem, mas como Maria não deprecia aos pequenos nem aos pecadores, admitirá misericordiosamente teu louvor dentro do coro dos que a louvam, como afirma o santo profeta: “O pobre e o miserável louvarão seu nome”. Isto devia dizer-se, mesmo que brevemente, segundo as próprias modestas possibilidades, mas com linguagem humilde e com sinceridade.

9) Acaso Jesus e Maria não foram os mais humildes sobre a terra? E, no entanto, não são os maiores do céu? Jesus se fez servo e Maria se chamou serva. Porém, o mundo inteiro experimentou a caridade de ambos; os santos exaltam sua dignidade; o coro dos anjos os venera. Oxalá te encontres também com eles, para que juntos, com incansável ritmo, entoemos hinos em honra do doce nome de Jesus e da dulcíssima Virgem Maria.

10) É belo e doce pôr-se ao serviço de Jesus e de Maria. Eles foram os primeiros em pôr-se a nosso serviço com muita fidelidade e humildade. Filhos dos homens, sirvam ao Senhor, que se dignou servi-los em tão grande medida; sirvam à Mãe de Deus, que tantos exemplos de santo serviço lhes deixou. É justo honrar a estes sumos patronos que podem ajudar-nos, posto que por meio deles se conhece e se executa a vontade de Deus.

11) Em cada momento implora a Jesus e Maria, que te defendam dos inimigos da alma e do corpo, e concedam os gozos eternos a quem são seus servidores. Recorre a Jesus e Maria em toda necessidade, manifestando-lhes teus pedidos, confessando-lhes tuas culpas e deplorando os pecados cometidos. Peça perdão, abrace a penitência, recupera a esperança, prometa emendar-te e tenha confiança na ajuda da graça. Se cais facilmente em pecado, esforça-te com diligência em levantar-te de novo. Jesus e Maria atenderão com gosto às orações do que os invoca, e não menosprezarão o lamento dos necessitados. Até os anjos estarão de festa quando, de todo coração, te hajas convertido de qualquer pecado e hajas abraçado uma vida melhor, como agrada a Cristo e sua bendita Mãe. Procura tão somente não ofendê-los, e eles não te negarão sua ajuda, rende-lhes a devida honra e te tomarão em seu cuidado com o maior esmero.

12) Oração: A ti, Senhor Jesus, e a vossa santíssima Mãe Maria, encomendo minha alma e meu corpo para que os guardem para a vida eterna. Ó Jesus e Maria, minha única esperança, que em toda tribulação e angústia me socorra sua piedade. Vocês são meus poderosíssimos patronos, dignos de serem amados mais que todos os santos. Eu, pobre e peregrino nesta terra, não tenho a ninguém, entre todos meus amigos e conhecidos, que seja tão fiel e tão amado como vocês, em quem confio.

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de Maria nunquam satis"
"sobre Maria nunca se falará o bastante"
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(KEMPIS, Tomás de. Imitación de María: Libro Tercero, Capítulo I. pág. 84 - 90)

5 de junho de 2011

DOMINGO NA OITAVA DA ASCENSÃO

O amor é uma água que apaga a sede.


Qui biberit ex aqua, quam ego dabo ei, non sitiet in aeternum – “Aquele que beber da água que eu lhe der, não terá jamais sede” (Io. 4, 13)

Sumário. É com razão que Deus se queixa de tantas almas que vão mendigar junto às criaturas alguns miseráveis e curtos prazeres, e o abandonam, Bem infinito e fonte de todas s alegrias. Nós ao menos não sejamos tão insensatos: apaguemos a nossa sede com as águas do santo amor de Deus, e o nosso coração estará perfeitamente satisfeito. Lembremo-nos, porém, de que a chave que nos abre os canais desta água desejável é a santa oração, que nos alcança todos os bens em virtude da promessa de Jesus Cristo: Pedi e recebereis.

I. O amor é chamado também fonte de água viva – “fons vivus, ignis, caritas”. O nosso Redentor disse à mulher Samaritana: Aquele que beber da água que eu lhe der, não terá jamais sede non sitiet in aeternum (1) . O amor é, pois, uma água que mata a sede; aquele que ama a Deus sinceramente, não busca nem deseja coisa alguma fora de Deus, porque em Deus acha todos os bens. Assim, contente com possuir a Deus, repete sempre na alegria de seu coração: Deus meus et omnia – “Meu Deus e meu tudo”. Ó meu Deus, Vós sois o meu único bem. – Mas Deus queixa-se de tantas almas que vão mendigar junto das criaturas alguns miseráveis e curtos prazeres, e o abandonam, Bem infinito e fonte de todas as alegrias: Me dereliquerunt, fontem aquae vivae, et foderunt sibi cisternas; cisternas dissipatas, quae continere non valent aquas (2) – “Eles me abandonaram, a mim que sou a fonte de água viva, e cavaram para si cisternas, que não podem reter a água”.

Aí está, porque o Senhor que nos ama, e deseja ver-nos contentes, nos clama a todos: Si quis sitit, veniat ad me (3) – “Se alguém tem sede, venha a mim”. Quem deseja a verdadeira felicidade, venha a mim, dar-lhe-ei o Espírito Santo, que o fará feliz nesta vida e na outra: Qui credit in me, sicut dicit Scriptura, flumina de ventre eius fluent aquae vivae – Sentirá correr de seu próprio seio rios de água viva, como os profetas anunciaram.

Aquele, pois, que crê em Jesus Cristo, e o ama, será enriquecido de tantas graças, que de seu coração, ou de sua vontade, que é como seio da alma, fluirão fontes de santas virtudes, que o ajudarão não somente a conservar a própria vida, mas ainda a comunicá-la aos outros. A água misteriosa de que fala Nosso Senhor, é precisamente o Espírito Santo, o amor substancial, que Jesus prometeu enviar-nos do céu depois da sua ascensão: Hoc autem dixit de Spiritu, quem accepturi erant credentes in eum; nondum enim erat Spiritus datus, quia Iesus nondum erat glorificatus (4) – “Isto disse ele acerca do Espírito, que haviam de receber os que cressem nele; porque ainda o Espírito não fora dado, por não ter sido ainda Jesus glorificado”.

II. A chave que abre os canais desta água desejável, é a oração, pela qual obtemos todos os bens em virtude da divina promessa: Petite et accipietis (5) – “Pedi e recebereis”. Somos cegos, pobres e fracos; mas a oração nos consegue a luz, a riqueza e a força da graça. Com a oração só podemos tudo, dizia São Teodoreto. Oratio, cum una sit, omnia potest. Aquele que ora, recebe tudo que deseja. Deus quer dar-nos suas graças, mas quer ser rogado.

Domine, da mihi hanc aquam (6). Meu Jesus, dir-Vos-ei com a Samaritana, dai-me desta água de vosso amor, que me faça esquecer a terra, e viver para Vós, ó amável Infinito. Riga quod est aridum – “Regai o que é seco”. Minha alma é uma terra seca, que não produz senão abrolhos e espinhos de pecados; ah! Inundai-a com as águas da vossa graça, para que produza algum fruto para vossa glória, antes que a morte me arrebate deste mundo.

Ó fonte de água viva, ó Bem supremo, quantas vezes Vos deixei pelas águas lodosas desta terra, que me privaram do vosso amor! Ah! Não ter eu morrido antes de Vos ofender! Mas, no futuro, não quero mais buscar nada fora de Vós. Ó meu Deus, socorrei-me e fazei com que Vos seja fiel. – Maria, minha Esperança, cobri-me sempre com vosso manto.

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1. Io. 4, 13.
2. Ier. 2, 13.
3. Io. 7, 37.
4. Io. 7, 39.
5. Io. 16, 24.
6. Io. 4, 15..


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 109 - 111)

4 de junho de 2011

AMAR MARIA (II)

A eficácia da Ave Maria

1) Primeiro exemplo: Um irmão havia extraviado em sua cela um livreto e, apesar de prolongadas e cuidadosas buscas não logrou encontrá-lo. Estava muito entristecido por esta perda e se desvanecia sua esperança, até que se refugiou na oração e invocou à Bem-aventurada Virgem com a Ave Maria. Aconteceu que, começando a Ave Maria e continuando em sua aflição pela perda, lhe ocorreu esta inspiração: “Busca aqui, diante de ti, abaixo da palha do leito onde te encontras rezando frente à imagem de Maria”. Esticou em seguida a mão para averiguar se estava ali embaixo e foi aí que, apenas levantou um pouco a palha, encontrou o livreto e o retirou. Emocionado o beijava, agradecendo a Deus e a Bem-aventurada Virgem; e acabou de rezar a Ave Maria, que havia só começado. Pensava: “Talvez Nossa Senhora desejasse receber algumas Ave Marias. Por isso não pode achar de imediato o livreto”. Está bem, então, recitar freqüentemente a Ave Maria, invocando devotamente à Mãe de Jesus.

2) Segundo exemplo. Outro irmão, enquanto estava escrevendo um livro em sua cela, era molestado pelo demônio com maus pensamentos. Por isso se levantou indignado, com a intenção de sair da cela. Mas, antes de fazê-lo, teve uma inspiração divina: olhou para a imagem da Virgem Bem-aventurada, que tinha consigo e costumava saudar com devoção. Ajoelhou-se e começou a repetir a Ave Maria com as mãos juntas. Subitamente foi ajudado pela graça divina. Com efeito, lhe acudiram Maria, Nossa Senhora e seu divino Filho. Então concluiu a Ave Maria que, devido a agitação, só havia começado. Quando disse: “... Jesus Cristo. Amém”, sentiu em si mesmo o poder de Deus e desapareceu toda tentação. Maravilhou-se de haver sido atendido com tanta rapidez e compreendeu a grande utilidade da Ave Maria contra qualquer tentação do inimigo. Agradeceu, pois, a Deus e disse para si: “Agora entendo que Nossa Senhora Santa Maria é poderosa, e pode ajudar a todos os que recorrem a ela”. A noite seguinte lhe apareceu em sonho esta visão: parecia que caminhava só pelo horto adjacente ao limite da cidade. Satanás lhe apareceu e começou a espantá-lo e a pô-lo em fuga. O frei, impressionado de seu aspecto, começou a correr para salvar-se dele. Não atrevendo-se a sair fora dos confins do monastério, deixou logo de correr e caiu em um foco de água, cheio de lodo. Tinha medo de se afogar, pois não havia uma alma viva que lhe estendesse a mão para ajudá-lo. Então começou a recitar a Ave Maria e pedir auxílio. Profundamente aliviado, quase liberado do laço da morte, voltou a si. Levantando-se do leito começou a chorar de alegria e, de joelhos, rezou muitas Ave Marias, acrescentando também estas palavras: “Ave Maria, doce Senhora nossa, cheia de graça, o Senhor esteja contigo, porta da misericórdia”.

3) Terceiro exemplo: Dois freis regulares caminhavam juntos em direção a uma montanha, para visitar parentes e fiéis em Cristo. Sucedeu que se desviaram um tanto do caminho certo. Então, o monge mais velho disse ao mais jovem: “Irmão, parece-me que nos equivocamos; portanto, voltemos atrás”, e começou a rezar e a invocar a Virgem Bem-aventurada, para que lhes enviasse um guia que lhes indicasse o caminho correto. Havendo recitado algumas “orações, hinos e coletas em honra da Bem-aventurada Virgem, eis então que se lhes apresentou de improviso um homem com aspecto de peregrino, que levava sobre seus ombros um bastão e uma bolsa de viagem. Este saudou aos dois freis e com gosto se uniu a eles. Sem demorar seguiram ao guia pelo caminho certo durante um longo trajeto, até que chegaram ao lugar onde tinham que ir. Então, o frei mais velho, compreendendo que se lhes havia concedido uma ajuda divina, agradeceu à Virgem Santa por haver enviado um guia que lhes conduzisse a meta, recordando as palavras de São Pedro: “Descarreguem n’Ele todas suas inquietudes, e Ele se ocupará de vocês (1 Ped 5, 7)

4) Quarto exemplo: Um frei, quando tinha tribulações, costumava invocar Jesus e a piedosíssima Mãe Maria e quando era tentado por alguma viciosa paixão ou tristeza, se refugiava na meditação da paixão de Jesus, rezando a Ave Maria e invocando o auxílio de Jesus e Maria contra a tentação. Uma noite viu em sonhos ao diabo, que se aproximava e queira causar-lhe dano. Temendo que se lhe sucedesse o pior, sem possibilidade de escapatória, começou a recitar em voz baixa a Ave Maria. Quando o diabo o ouviu invocar a Jesus, imediatamente se afastou dele e começou a fugir a toda velocidade. Ao ver isto, o irmão começou a gritar-lhe de atrás: “Jesus, Jesus”, e quanto mais forte gritava esse nome, tanto mais velozmente se afastava Satanás aterrorizado pelo doce nome de Jesus e de Maria sua Mãe. E desapareceu. Frente ao feito sonhado, o monge despertou pela inesperada alegria e exclamou: “Se com uma Ave Maria posso por em fuga ao diabo, que tenho que temer?

5) Quinto exemplo: Em nosso convento havia um frei ancião chamado Egberto. Era devoto a Deus e à Bem-aventurada Virgem, como também fervoroso amante da santa pobreza. Na medida em que permitiam suas forças, trabalhava intensamente, lavrando a terra com a enxada ou arando. Enquanto transpirava em seu duro labor, pensava nas dores da paixão de Cristo. Logo, cansado pelo trabalho e com o fim de dar alívio ao corpo, insistia na oração. Longo tempo o diabo o tentou para que abandonasse o monastério e fosse mendigar pelo mundo, dizendo-lhe que isso era mais agradável a Deus e que assim se despojaria das comodidades das que ele se considerava indigno. Mas, abandonou este projeto por conselho do prior e pelas recomendações dos co-irmãos, evitando deste modo afrontar perigos e cometer erros ao andar vagando pelo mundo. Com freqüência o astuto tentador engana sob as aparências de um anjo e distancia as almas do caminho do bem. De qualquer modo, como não estava contente de permanecer no convento, mas tampouco queria abandoná-lo sem a devida permissão, se dirigiu à Bem-aventurada Virgem mediante a oração. Um dia, cansado pelo trabalho, ajoelhou-se para rezar segundo seu costume. Enquanto se achava só prostrado no chão, dormiu docemente e viu a Venerável Senhora que estava ao seu lado e lhe dizia estas palavras: “Fica neste lugar e faz o que te hão dito o prior e os co-irmãos”. Depois desta indicação, a Senhora desapareceu e o frei, tendo voltado a si, chorou copiosamente. Dirigiu-se com rapidez para onde estava o prior e entre gemidos e pranto lhe relatou o que havia visto e ouvido. O prior, como bom pastor, respondeu com palavras de alento à triste ovelha: “Isso me agrada, querido Egberto. Fica conosco, tal como há um momento te há recomendado Nossa Senhora”. O frei não seguiu vivendo muito tempo, mas em troca de um breve labor receberia o prêmio da vida eterna. Perseverando na paciência e na obediência, dormiu no Senhor na manhã da oitava de São João Apóstolo e Evangelista, do ano 1420.


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de Maria nunquam satis"
"sobre Maria nunca se falará o bastante"
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(KEMPIS, Tomás de. Imitación de María: Libro Tercero, Capítulo I. pág. 79 - 84)