29 de maio de 2011

Homilia do V Domingo da Páscoa

QUINTO DOMINGO DEPOIS DA PÁSCOA

As promessas de Deus e a eficácia da oração.

Amen, amen dico vobis: si quid petieritis Patrem in nomine meo, dabit vobis - “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai em meu nome, Ele vo-la dará” (Io. 16, 23).

Sumário. Considera como o divino Redentor engrandece a eficácia da oração: Em verdade, em verdade vos digo: que tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo dará. Nem é só neste lugar, mas em muitos outros lugares do Antigo e Novo Testamento, que Deus promete ouvir a quem o roga. Animo pois, e nunca deixemos de recorrer ao Senhor. Peçamos sempre as graças no nome e pelo amor de Jesus Cristo. E para sermos atendidos mais facilmente, valhamo-nos da intercessão de Maria.

I. Considera como o divino Redentor engrandece no Evangelho deste dia a eficácia da oração. Em verdade, em verdade vos digo: que tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo dará. E não é somente neste lugar, mas em muitos outros, tanto do Antigo como do Novo Testamento, que Deus promete ouvir a quem o roga. Pela boca de Jeremias diz: “Dirigi-te a mim pela orarão, e te atenderei.” (1) Nos Salmos repete: “Chama-me em teu auxílio, e livrar-te-ei.”(2) No Evangelho de São Lucas acrescenta: “Pedi, e dar-se-vos-á ..., porque todo aquele que pede, recebe.”(3) No Evangelho de São João, Jesus diz: “Tudo o que me pedirdes em meu nome, fá-lo-ei.” (3) “Pedi tudo que quiserdes, que logo vos será concedido.” (4) E assim há muitas outras passagens.

Por isso o Profeta nos incita a rezar, afirmando-nos que: "o Senhor é suave e benigno e todo misericórdia para os que o invocam” (5). E mais ainda anima-nos São Thiago, dizendo: "Si quis vestrum indiget sapientia, postulet a Deo, qui dat omnibus affluenter" (6). – “Se alguém de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente”. Diz este Apóstolo que, quando se ora ao Senhor, este abre as mãos e dá mais do que se Lhe pede. Nec improperat, e não impropéra; parece, ao contrário, que se esquece de todas as ofensas que lhe foram feitas. – Numa palavra, é tão grande a eficácia da oração, que nos pode obter tudo; porque, como diz São João Clímaco, a oração faz de algum modo violência a Deus, obrigando-o a conceder-nos tudo o que Lhe pedimos: Oratio pie, Deo vim infert.

A razão desta eficácia, segundo a explicação de São Leão, é que Deus por sua natureza é uma bondade infinita, e por isso tem um extremo desejo de nos fazer participar de seus bens, e é maior o desejo de Deus de nos fazer bem, do que o nosso de receber. Deus, portanto, não pode deixar de atender a quem o roga; o que leva Santa Maria Madalena de Pazzi a afirmar que Deus, por assim dizer, contrai obrigações com a alma que a ele recorre, porque lhe fornece o ensejo de dispensar as graças conforme almeja o seu coração

II. Injustamente se queixam alguns, como se o Senhor não os quisesse atender; muito ao contrário, observa São Bernardo, eles mesmos se acham em falta, deixando de Lhe pedir as graças. - Disso parece exatamente que Jesus Cristo se queixou quando, repreendendo docemente a seus discípulos e na pessoa deles a todos nós, acrescenta: “Até agora não pedistes nada em meu nome; pedi e obtereis, afim de que o vosso gozo seja perfeito”: Petite et accipietis, ut gaudium vestrum sit plenum. Como se dissesse: Não vos queixeis de mim, se não tendes sido completamente felizes; queixai-vos antes de vós mesmos, porque não me pedistes graças.

Animo pois, meu irmão, e não deixemos nunca de recorrer a nosso bom Deus, que, particularmente no Sacramento do altar, dá audiência a todos, e está sempre com as mãos cheias de graças para as distribuir a quem as pede. Notemos, porém, as palavras: in nomine meo – “em meu nome”. Pedir em nome de Jesus, não somente quer dizer pedir com confiança nos merecimentos de Jesus, mas também pedir coisas úteis para a nossa eterna salvação. Pelo que Santo Agostinho diz: Não pede em nome de Jesus Cristo, quem pede coisas prejudiciais a própria salvação.

Ó Pai eterno, adoro-Vos, reconheço-Vos por fonte de todo o bem, e graças Vos dou pelos muitos benefícios que me concedestes. Especialmente Vos agradeço a luz pela qual me fizestes conhecer que toda a minha salvação consiste na oração. Quero responder ao vosso convite e Vos peço em nome de Jesus Cristo que me concedais uma grande dor dos meus pecados e a perseverança na vossa graça. “Fazei também, ó meu Deus, que pela vossa inspiração eu conheça o que é reto, e pela vossa graça o execute” (7). Bem sei que não mereço esses favores, mas vosso Filho os prometeu a quem Vo-los pede pelos seus merecimentos, e é pelos merecimentos de Jesus Cristo que Vo-lo peço, e espero obtê-los. - Ó Maria, vossas orações obtêm tudo quanto pedem; rogai por mim. (*II 136.)

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1. Ier. 33, 3.
2. Sal. 49, 15.
3. Luc. 1, 9 e 10.
4. Io. 14, 14.
5. Io. 15, 7.
6. Sal 85, 5.
7. Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 91 - 93.)

28 de maio de 2011

AMAR MARIA (I)

A Jesus com Maria

1) É justo e lógico que, depois da recordação da santa cruz, se tenha também uma especial lembrança das dores da Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, a qual esteve fielmente ao lado de seu querido Filho Jesus, que pendia da Cruz e morria pela salvação de todo o mundo. Espetáculo dilacerante, o da Mãe e do Filho crucificado; o da Mãe que chora e do Filho que sofre por ela; da Mãe aniquilada de dor e do Filho que lhe fala; da Mãe que esta ao pé da cruz e do Filho que pende da cruz, da Mãe que suspira e do Filho que expira. Abismo de imensa dor, que não deve esquecer-se nunca, senão que deve conservar-se fortemente gravado no coração dos fiéis.

2) Pilatos fez escrever sobre a tala fixada na cruz: “Jesus Nazareno, rei dos judeus” (Jo 1, 19). Escreva-o tu também com letras de ouro em teu coração, contra os escárnios dos homens e o terror dos demônios, e Jesus Cristo, Rei do céu, te livrará de toda perseguição dos malvados. Se assim o fizeres, também estará ao teu lado com suas orações, Maria, a Mãe de Jesus, para que não te desesperes nas angústias e nos últimos instantes de tua vida.

3) Nenhuma Mãe experimentou tanta alegria nem tanto consolo no nascimento do próprio filho, como os que experimentou esta Santíssima Mãe, que mereceu conceber e dar à luz ao Filho de Deus. Do mesmo modo, nenhuma mãe sofreu e suportou tanto abatimento e tão dilacerante dor pela morte do próprio filho, como esta amantíssima Mãe na paixão de seu querido Filho, ao participar em suas dores. Manteve-se firme ao lado de sua cruz e, transpassada pela espada da dor, chorou com imensa amargura.

4) Ao observar tamanhos sofrimentos no Filho, ao que amava de maneira singular e acima de tudo, se deveu a um verdadeiro milagre que haja podido seguir vivendo ainda em seu corpo, enquanto sua alma era transpassada pela espada de dor todas as vezes que viu e ouviu o Filho lamentar-se, dilacerado e escarnecido. Martírio realmente único para a Mãe desolada e para a Virgem terna, com o coração atormentado e sofrendo com o Filho de maneira mais atroz que um mártir pendido sobre o cavalete de tortura.

5) Se vocês, irmãos, amam a Nossa Senhora, e se desejam sua ajuda em todas as tribulações, detenham-se com ela junto à cruz de Jesus, tomando parte de todo coração nos padecimentos de ambos, para que ela, na hora da sua morte, rogue solicitamente a fim de que se lhes perdoem seus pecados e suas faltas. Efetivamente, aquele que roga, recorda e medita com devoção e freqüência a paixão do Senhor e as lágrimas de sua dolorosíssima Mãe, bem pode esperar na misericórdia de Deus e na bondade da Mãe e do Filho, que eles estejam presentes em suas necessidades e o confortem no momento de morrer. Que afortunada aquela alma que amou em vida a Jesus e Maria e meditou diariamente a dolorosa presença dela ao lado da cruz de Jesus! Feliz o religioso que despreza todos os prazeres mundanos e elegeu Nossa Senhora como Mãe consoladora, guardiã e protetora de toda sua vida.

6) Ninguém pode duvidar que a boa e misericordiosa Mãe, consoladora dos pobres e auxiliadora dos órfãos, com gosto pronunciará uma palavra doce e bondosa a favor do fiel servidor que esteja por sair deste mundo. Apaziguará com suas santas orações o rosto de seu amado Filho e nosso Redentor, dizendo: “Amorosíssimo Filho meu, tende piedade de vosso servo que me ama e me louva, como vós mesmo vistes e conheceis. Os santos anjos me anunciavam as freqüentes saudações que brotavam com devoção de seus lábios, ao recordar meus gozos, e como costumava convidar a numerosos irmãos para louvar com ele vosso santo nome. Ele é nosso secretário, e escreve livros de devoção. Indo pela rua e ao ver de longe uma cruz, se recorda de vossa paixão e vos demonstra sua atenção, inclinando-se diante dela. Se trata do mesmo que, ao ver em uma igreja ou em outro lado uma imagem que vos representa descansando sobe meus joelhos ou morto entre meus braços, se punha triste, derramava lágrimas, soluçava, rezava dobrando os joelhos e vos adorava. Ele não se distanciou nunca de nós sem dar-nos um beijo de amor; e melhor, todos os dias e todas as noites manteve vivo em seu coração o sentimento compassivo por vossas santas chagas e pelas lágrimas de meus olhos, procurando efusivamente compadecer-se de mim. Recorde-Vos, pois, de tudo isto, meu querido Filho, e concede-lhe encontrar misericórdia ante Vós. Suplico-Vos fortemente em seu favor, junto com todos vossos anjos e santos”.

7) Obrem assim irmãos, enquanto estão bem e ainda têm tempo para emendar-se. Procurem-se amigos e advogados tais, que possam dizer uma boa palavra, grata a Deus, para desculpar suas ofensas e suas dívidas; e que os possam receber em suas eternas moradas, depois dos perigos e das fadigosas lutas deste mundo, já que é impossível que vocês encontrem amigos mais fiéis e poderosos no céu e sobre a terra que Jesus, Rei dos anjos, e que Maria Nossa Senhora e Rainha do céu. Se amam a Jesus, tomem sua cruz, permaneçam ao lado de sua cruz, abracem-na e não a abandonem até que não estejam junto a Jesus, verdadeira luz, que disse: “O que me segue não caminha nas trevas”. Se desejam ser consolados em qualquer tribulação, aproximem-se de Maria, Mãe de Jesus, que está de pé junto à cruz, dolorida e banhada em lágrimas, e tudo o que os oprime se dissipará ou se tornará mais suportável. Antes de morrer, elejam a esta benigníssima Mãe de Jesus acima de todos os parentes e de todos os amigos, como sua Mãe e Advogada; e saúdem-na freqüentemente com a Ave Maria, que tão agradável lhe é.

8) Se o inimigo maligno os tenta e lhes impede de invocar a Deus e a Maria, não se preocupem e não deixem de louvá-los e de rezar; porém com mais fervor invoquem a Maria, saúdem a Maria, pensem em Maria, elejam Maria, honrem a Maria, inclinem-se ante Maria, recomendem-se a Maria. Permaneçam em casa com Maria; guardem silêncio com Maria, desfrutem com Maria; sofram com Maria, trabalhem com Maria; velem com Maria, orem com Maria, caminhem com Maria, estejam sentados com Maria; busquem a Jesus com Maria, estreitem entre seus braços a Jesus com Maria. Vivam em Nazaré com Jesus e Maria, vão a Jerusalém com Maria, estejam junto à cruz de Jesus com Maria, chorem com Maria; sepultem a Jesus com Maria, ressuscitem com Jesus e com Maria, subam ao céu com Jesus e com Maria; anseiem viver com Jesus e com Maria.

9) Se meditam bem estes temas, irmãos, e se decidem pô-los em prática, o diabo fugirá à vista de vocês, que progredirão na vida espiritual. Maria, em sua clemência, rogará com gosto por vocês; e Jesus a escutará de muito boa vontade, pelo respeito que tem pela Mãe. É muito pouca coisa o que levamos a cabo. Mas se nos aproximamos do Pai por meio de Maria e de seu Filho Jesus, obteremos misericórdia e graça na terra, e também glória sem fim com eles no céu. Amém.

10) Feliz a alma devota que nesta terra tenha a Jesus e Maria como íntimos amigos: comensais à hora de comer, companheiros nas viagens, solícitos na necessidade, consoladores nos sofrimentos, conselheiros nas incertezas, auxiliadores nos perigos e no momento da morte. Feliz o que se considera peregrino nesta terra e estima com a máxima alegria ter como hóspedes Jesus e Maria no íntimo de seu coração

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de Maria nunquam satis"
"sobre Maria nunca se falará o bastante"
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(KEMPIS, Tomás de. Imitación de María: Libro Tercero, Capítulo I. pág. 73 - 78)

22 de maio de 2011

QUARTO DOMINGO DEPOIS DA PÁSCOA

A tristeza dos apóstolos e as desolações espirituais.

Expedit vobis, ut ego vadam; si non abiero, Paraclitus non veniet ad vos – “É conveniente a vós que eu vá, porque, se não for, não virá a vós o Paráclito” (Io. 16, 7).

Sumário. Posto que as desolações espirituais sejam a provação mais sensível para as almas amantes de Deus, são também lances da divina Providência para promover o maior proveito espiritual, porquanto deste modo as confirma na virtude e as enriquece com merecimentos. Portanto, se jamais te achares no estado de desolação, imagina-te, para teu consolo, que Jesus Cristo te diz o que disse aos apóstolos, como se refere no Evangelho de hoje: É conveniente para vós que eu me afaste com a minha presença sensível.

I. Os apóstolos que se entristeciam ao saber que dentro em breve Jesus Cristo havia de deixá-los com a sua presença sensível, são uma imagem viva daquelas almas eleitas que se julgam abandonadas por Deus, quando se acham desoladas. Consolem-se, porém, essas pobres almas; porque, ainda que as desolações espirituais sejam a provação mais dolorosa para seu coração, não deixam por isso de ser um lance da divina Providência que só deseja o proveito espiritual. Pode-se-lhes, portanto, dizer o que o Senhor disse aos Apóstolos para os consolar: Expedit vobis ut ego vadam – “É conveniente a vós que eu vá.

São Bernardo, escrevendo a uma dessas almas desoladas, diz: “Ó esposa, não temas se o Esposo esconde algum tempo o seu rosto; visto que só o faz para teu proveito espiritual.” – Jesus se retira primeiro para ver se o amamos, porquanto o amor se manifesta não tanto em seguir àquele que nos acaricia, como em correr atrás de quem foge de nós, e em servir a Deus à custa própria, quer dizer, com aridez e sem alguma doçura sensível. – Jesus esconde-Se ainda para melhor nos confirmar na virtude. Por meio disto mortifica o nosso amor próprio que se deleitava naquele gosto sensível, chamado por São João da Cruz gula espiritual. Livra-nos do perigo de nos ensoberbecermos e de nos julgarmos acima dos outros por causa daquelas doçuras. Finalmente fornece-nos a ocasião para suspirarmos por Deus e para O procurarmos com maior anseio.

Numa palavra, com as desolações o Senhor nos faz não somente correr, mas voar no caminho da perfeição, e faz-nos adquirir tesouros imensos de merecimentos para o céu. – Digo francamente o que me ensinou a experiência: pouca confiança tenho nas almas que nadam em doçuras espirituais se primeiro não tiverem passado pelo caminho das penas interiores. Acontece não raras vezes que tais almas vão bem enquanto duram as consolações; mas, quando provadas com aridez, largam tudo e entregam-se à vida tíbia.

II. Meu irmão, se vieres a achar-te no estado de desolação, não dês ouvido ao demônio que te sugerirá que Deus te abandonou. Muito menos deves deixar de fazer as tuas orações e mais exercícios espirituais, muito embora experimentes agonias mortais. – Se receias que Deus te está castigando assim pelas tuas infidelidades, aceita o castigo em paz. Entretanto, remove as causas de tua desolação; tira o afeto às criaturas, tira a dissipação de espírito. Numa palavra, no tempo da desolação, deves humilhar-te pensando que mereceste ser tratado assim. Conforma-te com a vontade de Deus, a quem agrada mais o amor terno; e unindo as tuas penas às que Jesus Cristo padeceu no horto e na cruz, dize-Lhe sinceramente: Fiat voluntas tua (1) – “Faça-se a tua vontade.

Ó meu Pai celestial, se não pode passar este cálice sem que eu o beba, seja feita a vossa vontade! Pobre de mim, ó Senhor, visto que outras trevas, outros tremores, outros abandonos deveriam ser os meus, por causa das injúrias que Vos fiz. Deveria caber-me em sorte o inferno, onde, separado de Vós para sempre, e inteiramente abandonado de Vós, deveria chorar eternamente, sem ainda Vos poder amar. Ó meu Jesus, aceito qualquer pena, mas não esta. Vós sois digno de um amor infinito; demais me obrigastes a Vos amar. Não, não quero viver sem Vos amar. Amo-Vos, Bem supremo; amo-Vos de todo o meu coração, e não quero senão amar-Vos.

Reconheço que esta minha boa vontade é toda uma dádiva da vossa graça. Mas, meu Senhor, completai a vossa obra; amparai-me sempre até à minha morte; dai-me força para vencer as tentações e de me vencer a mim mesmo, e por isso fazei com que sempre me recomende a Vós. – “E Vós, Eterno Pai, concedei-me a graça de amar o que mandais, e de desejar o que prometeis; afim de que, entre as vicissitudes da vida presente, meu coração sempre esteja fixo ali, onde se acham as verdadeiras alegrias.” (2) Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo e pela intercessão de Maria Saníssima. (*IV 208.)

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1. Math. 26, 42.
2. Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 72 - 75.)

21 de maio de 2011

CONHECER MARIA (VIII)

Maria medianeira da graça


1) Queridos irmãos, sejam fiéis servidores de Jesus Cristo e amantes devotos de sua Mãe Santíssima, a Virgem Maria, se querem ser eternamente felizes com eles no céu. Vocês serão gratos a Deus e à sua Bendita Mãe, enquanto forem humildes de coração e castos de corpo; enquanto forem modestos no falar, prudentes, tímidos, controlados e com a condição de que não devem a ninguém ocasião de escândalo ou de justas queixas.

2) É muito útil para sua salvação, para a honra de Deus e para o louvor da Bem-aventurada Virgem, que vocês sejam devotos na oração, empenhados no estudo e no trabalho, mansos frente às repreensões, sóbrios na comida, irrepreensíveis em seus olhares e corretos em todo seu comportamento. Por conseguinte, se desejam louvar de modo digno e venerar adequadamente à Virgem Santa, comportem-se como filhos de Deus: com simplicidade, sem malícia, sem perversidade, sem mentiras, sem ira, sem disputas, sem murmurações, sem suspeitas, suportando por Jesus e Maria qualquer contrariedade com caridade fraterna, com humildade e paciência à imitação da vida dos santos, para a mesma paz de vocês e para a edificação dos demais. Porém, sobretudo para desfrutar a glória da Santíssima Trindade. Efetivamente, todas as coisas amargas se tornam doces e as pesadas leves, quando o amor a Jesus e a lembrança de sua Santa Mãe penetram no íntimo do coração. Se alguém o quer experimentar, basta com que ambos sejam o freqüente objeto de seu pensamento, que fale e leia a respeito deles e que a eles dirija seus cantos e seus rogos.

3) Para que possam logo conhecer um pouco a excelentíssima dignidade da Bem-aventurada Virgem Maria, escutem alguns dos tantos dons e privilégios com os que Deus lha há bendito e exaltado, acima de todos os santos anjos e arcanjos no céu, e acima de todos os homens na terra. Maria é a Virgem Santíssima e a muito querida Mãe de Deus de quem se canta na Igreja amplamente difundida em todo o mundo: “A Santa Mãe de Deus foi exaltada acima dos coros dos anjos”. Reflitam atentamente sobre os antigos episódios concernentes aos patriarcas, de cuja extirpe nasceu Maria como rosa sem espinhos entre os espinhos. Efetivamente, assim como um dia muitos santos homens: patriarcas, profetas, juízes, reis, sacerdotes, levitas, doutores e escribas, anunciaram com palavras, signos e figuras que Cristo, Filho de Deus, nasceria de uma virgem para a redenção do mundo e morreria na cruz, do mesmo modo, em perfeita harmonia e de acordo com o plano divino da salvação, a Bem-aventurada e Virgem Maria foi prefigurada e preconizada por meio das sagradas virgens daquele tempo, através de mulheres ilustres, casas viúvas, devotas profetisas, e mediante honestas matronas, que viviam castamente, e que, para guardar sua pureza, levavam vida de clausura em suas próprias casas junto com suas criadas, longe dos olhares dos homens.

4) Maria, como disse a Sagrada Escritura, é verdadeiramente a Virgem mais prudente de todas as virgens, a mais pudica de todas as mulheres, a mais formosa de todas as moças, a mais honesta de todas as Senhoras, a mais graciosa de todas as donzelas e a rainha mais nobre de todas as rainhas. Dela refulgem todo o decoro da virgem, toda a virtude moral, toda especulação teológica, toda amorosa devoção, todo exercício de virtude, toda perfeição de santidade. Ademais, todas estas qualidades se acumulam, residem e resplandecem nela de modo tão perfeito que ninguém a ela se assemelhou antes de sua aparição, nem ninguém foi, é ou será semelhante a ela depois de sua vinda. Como alguma vez o templo material de Salomão foi o mais majestoso de todos os templos da terra, por muito o mais famoso e o mais ornamentado, e era magnificamente venerado pelos reis e os povos, assim também o templo espiritual de Deus, a Bem-aventurada Virgem Maria, limpa de toda mancha, é superior a todos os templos dos santos, e, pelo mesmo, mais que todos deve ser imensamente honrada e amada.

5) Maria é uma muito ilustre filha, nobremente procriada da insigne estirpe dos patriarcas, descendente da ilustre casta sacerdotal, prenunciada pelo coro dos profetas, descendente de estirpe real, descendente em linha reta de Davi, da tribo de Judá, filha do povo de Israel e nascida, por disposição divina, de pais santos e gratos a Deus.

6) Feliz e imaculada Virgem Maria, digníssima de todo louvor e honra, com a que cada um deve sentir a necessidade de se abraçar com todo amor e respeito! Esplêndida pedra preciosa das virgens, predestinada por Deus desde o princípio e antes de todos os séculos para dar à luz, na plenitude dos tempos, ao Redentor do mundo! Desejada pelos patriarcas, prenunciada pelos profetas, eleita de muitos reis e de muitos justos, foi longo tempo esperada pelo devotíssimo povo de Israel e, por fim, visivelmente doada ao mundo enfermo pela misericórdia de Deus.

7) Sagrada e ilustríssima Virgem Maria, quão maravilhoso e louvado em todo mundo é o teu nome! Do oriente ao ocidente, em todas as zonas do orbe, ele é proclamado a judeus e gentios, a gregos e romanos, a latinos e germanos, junto com o Evangelho de Jesus Cristo teu Filho, e assim mesmo é proclamado sem interrupção alguma em todas as Igrejas cristãs, nas capelas e nos claustros, nos campos e nas selvas consagradas a Deus, de parte de pequenos e grandes, de sacerdotes e doutores, dos pregadores de todas as ordens religiosas, que em uníssono se comprazem em poder elevar-te até às estrelas, e exaltar tua santidade e tua beleza acima de qualquer dignidade angélica. Eles, mesmo que cantem, rezem, meditem e celebrem solenemente tuas festas, não se cansam nunca, de acordo com o ditado da sabedoria que proclama: “Quem se alimenta de mim, terá ainda mais fome; e quem me bebe, terá ainda mais sede.”

8) Louvor e glória, pois, ao Deus Altíssimo, que aqui na terra te concedeu, ó Maria, as graças maiores entre todas as filhas dos homens, e que agora pôs teu trono ao lado do de teu Filho no reino dos céus, no lugar mais alto e mais encantador, acima dos coros dos anjos e dos santos, preparado para ti desde toda eternidade e destinado a durar com felicidade para sempre.

9) A ti que és digna de suma veneração, ó Virgem Maria, Mãe e Filha do eterno Rei, te tribute louvor toda boca, venerando-lhe com as mais altas honras, por que é a mais pura das virgens, a mais humilde, a mais caridosa, a mais paciente, a mais misericordiosa, a mais fervorosa na oração, a mais profunda na meditação, a mais excelsa na contemplação, a mais pródiga de conselhos, a mais poderosa para prestar socorro. És o palácio real de Deus, a porta do céu, o paraíso das delícias, o poço das graças, a glória dos anjos, a alegria dos homens, o modelo dos costumes, o esplendor das virtudes, o farol da vida, a esperança dos necessitados, a saúde dos enfermos e a mãe dos órfãos.

10) És a Virgem das Virgens, toda suave e formosa, resplandecente como uma estrela, doce como uma rosa, branca como uma margarida, luminosa como sol e a lua no céu e na terra. És Virgem mansa, inocente como uma cordeirinha, simples como uma pomba, prudente como uma nobre matrona, serviçal como uma humilde criada. És santa raíz, cedro excelso, videira fecunda, fruto dulcíssimo, majestosa palmeira. Em ti se encontram todos os bens e por meio de ti se nos concedem os prêmios eternos. Por conseguinte, enquanto vivemos, todos devemos recorrer a ti, como filhos ao regaço da mãe e como órfãos à casa do pai, a fim de sermos protegidos de todo mal por teus gloriosos méritos e tuas orações.

11) Ouçam o que afirma certo escritor sobre as doze estrelas que adornam a coroa da Bem-aventurada Virgem, pela qual Maria resplandece no céu acima de todos os santos. Estas doze estrelas são as doze características de sua extrema realeza. Com respeito à Igreja militante, ela possui quatro características, que redundam em obras de misericórdia: atende mais benignamente que todos os outros e se inclina com mais humildade; obra com firmeza, mas socorre com freqüência, como nos ensina a experiência nas difíceis necessidades da Igreja. Em relação à Igreja triunfante, Maria possui igualmente quatro características: seu trono no céu está colocado acima de todos os outros e resplandece com mais intensa luz; é amada com mais fervor e honrada com maior difusão, como corresponde aos seus gloriosos méritos. Com respeito à Santíssima Trindade possui também quatro características, ou seja, quatro estrelas que brilham mais que todas: entre os que contemplam a glória da eterna Trindade, nenhum outro a intui com maior limpidez, a ama com mais profunda alegria, a contempla mais intimamente e desfruta dela com mais felicidade no céu. Não há nenhuma dúvida a respeito.

12) Escutem também o que, a propósito destas doze estrelas, disse Bernardo, o ardoroso amante da Bem–aventurada Virgem, o “Doutor Melífluo” e devoto educador de monges: “Sobre sua cabeça uma coroa de doze estrelas:... Quem poderá jamais estimar o valor destas pedras preciosas? Quem poderá jamais contar as estrelas de que se compões a coroa régia de Maria? É impossível que o homem possa explicar como está composta esta coroa.”

13) Em minha modesta opinião e longe da perigosa sondagem dos mistérios divinos, me parece que posso identificar nestas doze estrelas quiçá sem incongruência, as doze prerrogativas com que está adornada Maria: prerrogativas do céu, prerrogativas da carne e prerrogativas do coração. Se este número três for multiplicado por quatro, provavelmente teremos as doze estrelas, que fazem brilhar a coroa de nossa Rainha aos olhos de todos. Para mim, o fulgor resplandece na natividade de Maria, na anunciação, na intervenção do Espírito Santo, na inefável concepção do Filho de Deus. Vocês, na medida de sua diligência, poderão aprofundar melhor o tema. A mim basta ter sinalizado tão somente algumas considerações. Mas, se se quer aprofundar mais no significado místico das doze estrelas, leia-se o discurso de São Bernardo, que começa assim: “Um grande sinal apareceu no céu”.

14) Queridos irmãos, pelo singular respeito e amor que você têm à Santíssima Virgem Maria, evoquem freqüentemente em sua mente estes temas, e inclusive saboreiem-nos com seus lábios. Em agradecimento, entoem com fervor hinos e cantos de alegria em suas festas e em suas solenidades. Mas, sobre tudo descubram-se as cabeças e façam uma inclinação diante do altar de Deus e da imagem da Virgem Bem-aventurada; dobrem os joelhos humildemente, como se na realidade vissem à Maria dialogar com o anjo e levar nos braços o seu Filho. Logo, levantando os olhos com grande confiança de serem salvos, implorem com muito afeto a ajuda compassiva da Mãe da misericórdia, e rezem a seguinte oração:

15) “Clementíssima Mãe de Deus, Virgem Maria, Rainha do Céu, Senhora do mundo, alegria dos santos, alento dos que delinqüem, escuta os gemidos dos pecadores arrependidos; atende aos desejos dos devotos; socorre as necessidades dos enfermos; reanima o coração dos atribulados; assiste aos agonizantes; proteja a teus suplicantes servidores dos assaltos dos demônios; leva contigo os que te amam ao prêmio da eterna bem-aventurança, onde com teu amadíssimo Filho Jesus Cristo reinas com felicidade para sempre. Amém.

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“de Maria nunquam satis"
"sobre Maria nunca se falará o bastante"
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(KEMPIS, Tomás de. Imitación de María: Libro Segundo, Capítulo VII. pág. 62 - 71)

17 de maio de 2011

A PRESENÇA REAL DE CRISTO NA EUCARISTIA – PARTE 3

“A Eucaristia é um Sacramento que, pela admirável conversão de toda a substância do pão no Corpo de Jesus Cristo, e de toda a substância do vinho no seu precioso Sangue, contém verdadeira, real e substancialmente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade do mesmo Jesus Cristo Nosso Senhor, debaixo das espécies de pão e de vinho, para ser nosso alimento espiritual”.
(Catecismo de São Pio X)

Artigo 3 – Do modo como Cristo está na Eucaristia

Resumimos brevemente, em uma série de conclusões, esta matéria interessantíssima, que se estuda amplamente na teologia dogmática, onde tem seu lugar próprio. (Cf. III, 76, 1-8)

CONCLUSÃO I. Sob cada uma das espécies sacramentais e sob cada uma de suas partes quando se separam, está contido Jesus Cristo inteiro, ou seja, seu corpo, sangue, alma e divindade. (de fé divina, expressamente definida)

Prova-se:

1. Pela Sagrada Escritura. Depreende-se com toda evidência das palavras da consagração:Isto é o meu corpo; este é o cálice do meu sangue, já que, em virtude de sua natural concomitância, o corpo vivo de Jesus Cristo não pode estar separado de seu sangue, nem este daquele, nem ambos da alma e da divindade, com a qual formam uma só pessoa em virtude da união hipostática.

2. Pelo Magistério da Igreja. Definiu-o expressamente o Concílio de Trento com as seguintes palavras:

“Se alguém negar que no venerável sacramento da Eucaristia, debaixo de cada uma das espécies e debaixo de cada parte dessas espécies, quando elas se dividem, está presente o Cristo todo — seja excomungado”. (D 885)

3. Pela razão teológica. Acabamos de indicar o argumento principal ao explicar o da Sagrada Escritura. Outro argumento pode colocar-se em virtude da ressurreição de Cristo, que lhe fez para sempre impassível e imortal (Rom. 6, 9) e, por isso mesmo, não pode sofrer a menor separação e alteração de seu corpo, alma e divindade. Do contrário, morreria na Eucaristia pela separação da alma e do corpo, como morreu no alto da Cruz.

Corolário. Se durante os três dias que permaneceu Cristo no sepulcro tivessem consagrado os Apóstolos a Eucaristia, não estaria Cristo nela integralmente em cada uma das duas espécies. No pão consagrado estaria somente o corpo morto, não a alma; no Cálice, o sangue de Cristo separado do corpo e da alma. O Verbo permaneceria em ambas as espécies, porque não se separou nem um só momento do cadáver de Cristo e nem de sua alma santíssima, em virtude daunião hipostática absolutamente indissolúvel. E caso se tivesse consagrado a Eucaristia durante a flagelação ou a crucificação, Cristo teria sentido nela a dor que padecia seu corpo com os açoites ou com a cruz; porque a Eucaristia contém ao próprio Cristo numericamente, tal como é em si mesmo, e, por isso mesmo, segue todas as suas vicissitudes; por isso o contém atualmenteimpassível e imortal, como está no céu. (Cf. III, 76, I ad 1; 81, 4 c e solução às objeções)

Por outro lado, as injúrias ou ataques diretos às espécies sacramentais (p.ex., pisando-as, cuspindo-as, queimando-as) não afetam em nada o próprio Cristo nelas contido, já que as mesmas espécies nem sequer tocam a Cristo (ainda que o contenham realmente). Voltaremos sobre isto na 5ª conclusão.

CONCLUSÃO II. Em virtude das palavras sacramentais (ex vi sacramenti), sob a espécie de pão se contém somente a substância do corpo de Cristo; e sob a espécie de vinho, somente a substância de seu sangue. Mas, em virtude da natural concomitância e da união hipostática, que unem entre si inseparavelmente as distintas partes de Cristo, sob uma e outra espécie está Jesus Cristo inteiro, com seu corpo, sangue, alma e divindade. (Cf. III, 76, 1 c e ad 1)

Eis como expressa esta verdade o Santo Concílio de Trento:

“Foi também sempre esta a fé na Igreja de Deus: que logo depois da consagração estão o verdadeiro corpo de Nosso Senhor e seu verdadeiro sangue conjuntamente com sua alma e sua divindade, sob as espécies de pão e de vinho, isto é, seu corpo sob a espécie de pão e seu sangue sob a espécie de vinho, por força das palavras mesmas; mas o mesmo corpo também [está] sob a espécie de vinho, e o sangue sob a espécie de pão, e a alma sob uma e outra, por força daquela natural conexão e concomitância, com que as partes de Cristo Nosso Senhor, que já ressuscitou dos mortos para nunca mais morrer (Rom 6, 9), estão unidas entre si; e a divindade por causa daquela sua admirável união hipostática com o corpo e a alma [cân. l e3]. Assim, é bem verdade que tanto uma como outra espécie contêm tanto quanto as duas espécies juntas. Pois o Cristo todo inteiro está sob a espécie de pão e sob a mínima parte desta espécie, bem como sob a espécie de vinho e sob qualquer das partes desta espécie”. (D 876)

CONCLUSÃO III. O Pai e o Espírito Santo estão realmente presentes na Eucaristia em virtude da circuminsessão das Pessoas divinas, que as faz absolutamente inseparáveis entre si.

É uma conseqüência necessária e inevitável do fato da circuminsessão entre as Pessoas divinas, que consta expressamente pelos seguintes lugares teológicos:

a) Sagrada Escritura. O próprio Cristo diz:

“Eu e o Pai somos um [...] o Pai está em mim e eu no Pai” (Jo 10, 30 e 38).
“Aquele que me viu, viu também o Pai [...]; o Pai, que permanece em mim, é que realiza as suas próprias obras. Crede-me: estou no Pai, e o Pai em mim” (Jo 14, 9-11). O mesmo deve-se dizer, naturalmente, do Espírito Santo.

b) Magistério da Igreja. Eis aqui, entre outros muitos textos, as palavras do Concílio de Florença em seu decreto para os jacobitas:

“Por razão desta unidade, o Pai está todo inteiro no Filho, todo inteiro no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito Santo; o Espírito Santo está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Filho. Nenhum precede ao outro na eternidade, ou lhe excede em grandeza, ou lhe sobrepuja em poder”. (D 704)

c) Razão Teológica. A circuminsessão (ou mútua inerência ) entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo exige que onde esteja uma Pessoa divina, estejam também as outras duas, já que são absolutamente inseparáveis entre si e da mesma essência divina que é comum às três Pessoas. Logo, na Eucaristia, juntamente com a divindade de Cristo (o Filho de Deus), estão também o Pai e o Espírito Santo.

Corolários. 1) O Verbo divino se faz presente na Eucaristia em virtude de sua união hipostática com o corpo e o sangue de Cristo. O Pai e o Espírito Santo, em virtude da circuminsessão intratrinitária.
2) Logo, a Eucaristia é adorável com adoração de latria, ou seja, com a adoração que corresponde ao verdadeiro Deus. (D 878 888)
3) Ainda que a inabitação trinitária seja patrimônio de toda alma na graça de Deus (Jo 14,23), ao receber a Eucaristia se verifica na alma do justo uma mais penetrante inerência [texto original:inhesión] das Pessoas divinas. (Cf. I, 43, 6 c, ad 2 e ad 4)

CONCLUSÃO IV. Toda a quantidade mensurável do corpo de Cristo está na Eucaristia; mas não em virtude das palavras sacramentais, mas em virtude da real concomitância e ao modo da substância.

Escutemos a Santo Tomás explicando esta maravilhosa conclusão:

“A realidade de Cristo pode estar no sacramento de dois modos: pela força do sacramento e pela concomitância real. Pela força do sacramento, as dimensões do corpo de Cristo não estão neste sacramento. Pela força do sacramento, está neste sacramento aquilo em que a conversão termina diretamente. A conversão eucarística termina diretamente na substância do corpo de Cristo, não, porém, nas suas dimensões. Isso se evidencia pelo fato de que a quantidade mensurável do pão permanece depois da consagração, que converte somente a substância do pão. Porque a substância do corpo de Cristo realmente não se despoja de suas dimensões e dos outros acidentes, daí se segue que pela força da concomitância real estejam presentes neste sacramento todas as dimensões do corpo de Cristo e todos os seus acidentes” (III, 76, 4).

Ora, como pode estar toda a quantidade mensurável do corpo de Cristo – ou seja, Cristo inteiro de tamanho natural – em uma hóstia tão pequena? A dificuldade – aparentemente tão aparatosa – se desvanece por si mesma dizendo-se que a quantidade mensurável do corpo de Cristo não está localizada na Eucaristia (ou seja, não ocupa lugar nela), mas está ali ao modo da substância, que prescinde em absoluto da extensão no lugar. Escutemos de novo o Doutor Angélico ao resolver esta mesma dificuldade:

“Deve-se dizer que o modo de existência de uma coisa se determina em razão do que lhe é essencial e não do que é acidental. Assim, por exemplo, um corpo é visível, porque é branco e não porque é doce, posto que tal coisa possa ser, ao mesmo tempo, branca e doce (p.ex. o açúcar). Por isso, a doçura é visível em razão da brancura e não da doçura. Assim, pois, pela força deste sacramento está presente no altar a substância do corpo de Cristo, enquanto que suas dimensões aí estão por via de concomitância, como que acidentalmente. Por conseguinte, as dimensões do corpo de Cristo estão neste sacramento, não em seu modo próprio, isto é, como se fosse o todo no todo e cada parte em cada parte (o que exigiria um espaço igual ao que ocupa no Céu o corpo natural de Cristo, e não poderia, por conseguinte, caber na hóstia pequena); mas a modo de substância, cuja natureza é de toda ela estar no todo e em cada parte (como a substância de pão está no pão inteiro e em cada uma de suas partículas: todas elas são pão)” (III, 76, 4 ad 1). [os parênteses explicativos são do autor do texto e não de Santo Tomás]

Nova luz sobre a maneira de explicar este fato a encontraremos na seguinte conclusão, relativa à presença de Cristo na Eucaristia sem ocupar nela lugar algum.

CONCLUSÃO V. O corpo de Cristo está realmente presente na Eucaristia, sem ocupar nela lugar circunscritivo algum, ou seja, prescindindo em absoluto da extensão e do espaço.

Eis aqui as principais razões que a provam:

1) Porque para ocupar circunscritivamente um lugar é absolutamente necessário que o lugar sejaigual à coisa localizada. Não pode ser menor, porque então a coisa localizada não poderia caber nele. Ora, o corpo de Cristo, com toda a sua quantidade mensurável, cabe perfeitamente na hóstia eucarística e em qualquer de suas partículas, por pequenas que sejam. Logo, não está nela de uma maneira local, isto é, ocupando circunscritivamente um determinado lugar.

2) Porque o corpo de Cristo, e toda a sua quantidade mensurável, está na Eucaristia ao modo das substâncias, que prescindem diretamente ou per se da extensão e do espaço, ainda que se encontrem indiretamente ou per accidens aprisionadas pela dimensão de seus próprios acidentes. E assim, por exemplo, a substância do pão está integralmente contida seja em um pão muito grande, seja em um outro pequeno, seja em uma pequenina partícula (também ela é pão), porque a substância, enquanto tal, prescinde em absoluto ou per se da extensão e do espaço, se bem que indiretamente ou per accidens se encontra, de fato, aprisionada pela dimensão de seus próprios acidentes, já que é evidente que fora do pão não há pão.

3) O corpo de Cristo, com toda a sua extensão ou quantidade mensurável, está contido realissimamente sob as espécies sacramentais, e neste sentido se diz que Cristo sacramentado está na Eucaristia, ou seja, no mesmo lugar que ocupam as espécies sacramentais, mas de maneira distinta a como estão elas; porque as espécies estão ali localmente, ou seja, ocupando o lugar correspondente à quantidade ou extensão das mesmas, e Cristo está ali substancialmente, ou seja, prescindindo em absoluto da extensão e do espaço.

Corolários. 1) Logo, o lugar em que está o corpo de Cristo na Eucaristia, não está vazio nem cheio da substância do corpo de Cristo, mas cheio e repleto pelas próprias espécies de pão e vinho, que antes continham a substância do pão e agora contêm o corpo de Cristo sem que este ocupe lugar algum. (Cf. III, 76, 5 ad 2)
2) Logo, o corpo sacramentado de Cristo pode estar em muitos lugares ao mesmo tempo (em todos os sacrários do mundo) sem repugnância ou contradição alguma, já que em nenhum desses lugares está localmente, mas somente substancialmente. O corpo de Cristo somente está localmente no Céu.
3) Logo, o corpo de Cristo não está encolhido ou apertado nas espécies eucarísticas, mas com toda a sua natural expansão e amplitude, porque não está nelas ocupando lugar algum. As espécies sacramentais contêm realmente a Cristo, mas nem sequer o tocam, já que o corpo de Cristo não faz, com relação a estes acidentes, o papel sustentador que correspondia antes à substância do pão, mas existe na Eucaristia com inteira independência do acidentes, que ficam por completo no ar, sustentados pela onipotência de Deus.
4) Logo, há uma relação real das espécies com Cristo (porque o contêm realmente), à qual corresponde uma relação de razão do corpo de Cristo às espécies (porque Cristo nem sustenta os acidentes de pão e nem experimenta com a consagração eucarística a menor alteração ou mudança).

CONCLUSÃO VI. O corpo de Cristo está de si imóvel na Eucaristia, posto que está nela ao modo de substância, não localmente; mas se move acidentalmente ao moverem-se as espécies (p.ex.: em uma procissão eucarística).

Um simples exemplo pode ajudar um pouco à imaginação para compreender este mistério. Imaginemos um rei sentado em seu trono, e diante dele, um de seus ministros percorrendo o salão do trono com um espelho na mão direcionado ao rei, de modo que a imagem do rei não deixa um só instante de refletir-se no espelho à medida que este vai se movendo e mudando de lugar. O rei de si está imóvel (sentado em seu trono), mas sua imagem, refletida no espelho, vai se movendo realmente à medida que se move o espelho. Algo parecido ocorre na Eucaristia: o rei é Cristo, sentado no Céu à direita do Pai; o ministro é o sacerdote; o espelho, as espécies eucarísticas. Todavia, o exemplo não é totalmente exato, porque o espelho não contém asubstância do corpo do rei, mas somente sua mera representação ou imagem, enquanto que as espécies eucarísticas contêm realmente a substância do corpo de Cristo, como nos ensina a Fé.

CONCLUSÃO VII. A presença real de Cristo na Eucaristia termina ou desaparece ao corromperem-se as espécies de pão e vinho, sem que o corpo de Cristo sofra com isso a menor alteração.

A razão do primeiro ponto é muito simples. Como o corpo de Cristo e seu sangue sucedem no sacramento à substância do pão e do vinho, se se produz nos acidentes tal alteração que por causa dela se teriam corrompido a substância do pão ou do vinho contida sob estes acidentes antes da consagração, desaparece a substância do corpo e do sangue de Cristo; mas, se a alteração dos acidentes não é tão grande a ponto de que teria corrompido a substância do pão ou vinho, continua a presença real de Cristo na Eucaristia. (Cf. III, 77, 4)

O segundo ponto é também muito claro e simples. Como a consagração eucarística não produz no corpo de Cristo a menor mudança ou alteração – toda a alteração da conversão se realizou somente nas espécies, como já dissemos –, tampouco a corrupção das espécies altera ou afeta em algo ao próprio Cristo, ainda que deixe de estar presente sob estas espécies, “não porque delas dependa, mas porque desaparece a relação do corpo de Cristo àquelas espécies; é assim que Deus deixa de ser Senhor da criatura quando esta desaparece”. (III, 76, 6 ad 3)

Corolários. 1) Logo, Jesus sacramentado está presente no peito [texto original: pecho] do que comunga todo o tempo em que permanecem incorruptas as espécies sacramentais em seu estômago .
2) “A corrupção das espécies não é milagrosa, mas natural. No entanto, pressupõe um milagre o que se passa na consagração, a saber, que as espécies sacramentais retenham sem sujeito o existir que antes possuíam no sujeito; exatamente como um cego que vê de modo normal depois de ser curado milagrosamente”. (III, 77, 4 ad 3) Voltaremos em seguida sobre isto no artigo seguinte.

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FONTE: MARIN, A.R. Teologia Moral para Seglares. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1958. v.II: Los Sacramentos. p.133-138.

16 de maio de 2011

A VIDA DE SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO (1696-1787) COMO BISPO DE SANTA ÁGUEDA

“Depois de despedir-se do Papa e de fazer uma última visita de despedida a seu convento de Pagani, entrou em Santa Águeda, em meio das maiores mostras de deferência dos nobres e das autoridades da cidade e das aclamações do povo. Quase em triunfo foi levado à Catedral, onde, depois de longa oração diante de Jesus Sacramentado, dirigiu aos fiéis sua primeira exortação pastoral, aos que disse que não havia ido ali para levar uma vida cômoda e regalada, mas sim para trabalhar pela saúde de suas ovelhas, que podiam ir buscá-lo em todas as suas necessidades e aflições, embora ele procuraria ser quem as buscaria, como o Bom Pastor, para levá-las ao resguardo da verdade e da vida. Imediatamente anunciou ao seu rebanho que no domingo seguinte começaria a dar uma missão geral na Catedral e um retiro para o Clero, e, dirigindo-se a este, pediu com palavras cortadas pelos soluços, que o ajudasse a levar a pesada carga de suas funções episcopais.

Instalado em seu palácio, rejeitou os quartos que nele haviam sido preparados, escolhendo o aposento mais reduzido e incômodo, onde fez pôr como leito o enxergão de palha que se usava em sua Congregação.

Sua vida em Santa Águeda, segundo o seu biográfo, Pe.Tannoia, achava-se distribuída do seguinte modo:

Assim que se levantava, disciplinava-se rudemente e por longo espaço de tempo; fazia depois, como todos os seus familiares, meia hora de oração, e recitava as horas canônicas; em seguida celebrava o santo sacrifício da Missa e ouvia depois a que rezava seu secretário ou outro cônego da Catedral.

Cumpridos esses piedosos deveres, dava audiência a quantas pessoas quisessem falar-lhe, sem distinção de ricos ou de pobres, pois tinha dado a ordem a seus domésticos de levar à sua presença todas as pessoas que chegassem, segundo fossem se apresentando, por rigoroso controle de chegada. Só existia nesse ponto um privilégio para os sacerdotes empregados no santo ministério, que podiam chegar até ele a qualquer hora sem anunciar-se.

As horas que lhe sobravam livres, até a de comer, dedicava-as a compor seus livros, mas por muito ocupado que estivesse nesse trabalho, deixava a pluma no momento em que qualquer um de seus diocesanos quisesse vê-lo, sem limitar os minutos dos que iam tratar com ele coisas concernentes ao serviço de Deus ou ao bem das almas, e quando algum de seus párocos dizia-lhe, ao abordá-lo: “Monsenhor, não vou dizer-vos mais do que uma palavra”, ele respondia: - Não uma, mas mil.

Por outro lado, aos visitantes que não lhe falavam mais do que futilidades, despedia-os sem nenhum respeito humano, dizendo-lhes: “Basta, não percamos nosso tempo”, ou então: “Encomendai-me a Jesus e a Maria”.

Um mesmo cômodo servia ao santo prelado de oratório, de sala de audiências e de escritório, e nele não havia outra mobília que uma mesa pequena, sobre a qual descansavam uma imagem de Cristo Crucificado e outra de Nossa Senhora do Bom Conselho, a qual nosso bem-aventurado professava grande veneração, sendo uma das devoções mais gratas para ele recitar uma Ave Maria a cada quinze minutos.

Comia frugalmente, e dividia os pratos que se serviam à sua mesa com seus comensais, não comendo ele senão de um. Depois de uma curta recreação e de alguns momentos de repouso requeridos pelo clima, dedicava Santo Afonso uma hora à oração mental, rezava vésperas e completas, e retomava seu trabalho.

Às cinco e meia da tarde ia à Catedral, para fazer a visita ao Santíssimo Sacramento, a qual convidava o povo ao som de sinos. Esse santo exercício durava meia hora, e durante esse período dirigia a palavra aos fiéis para excitar em seus corações fervorosos afetos, e também lhes ensinava cânticos destinados a fazer esquecer as canções profanas e perigosas.

À saída desses exercícios realizava visitas aos doentes, e muito especialmente aos eclesiásticos, e quando regressava a seu palácio escutava ainda aos que queriam falar-lhe, distribuía esmolas aos pobres, rezava as matinas do dia seguinte e fazia, com o irmão leigo, outra meia hora de oração, voltando a trabalhar em seus livros até a hora de jantar, que variava segundo as estações.

Fazia-se em comum a oração da noite, seguida da reza do Rosário, obrigatória para todos os que se encontrassem naquela hora no palácio, fossem clérigos ou seculares e ainda Bispos e Arcebispos, e quando todos se retiravam para descansar, Santo Afonso voltava a trabalhar em suas obras, escrevendo às vezes até às doze da noite.

Nos dias de festa, depois das vésperas, explicava o Catecismo às crianças, assistia, sem exceção alguma, aos ofícios da Catedral, e oficiava como pontifical em todas as grandes festividades. Tal foi a vida de Santo Afonso desde a sua chegada a Santa Águeda até que voltou a reunir-se com seus irmãos da Congregação do Santíssimo Redentor, quer dizer, durante traze anos”.

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FONTE: A vida de Santo Afonso Maria de Ligório. Brasília: Pinus, 2010. p.80-82. (grifo nosso)

A SANTÍSSIMA TRINDADE

A IGUALDADE DAS PESSOAS DIVINAS



As três pessoas divinas são absolutamente iguais entre si. Elas têm a mesma natureza e a possuem completamente. Aliás, essa natureza não comporta nem diminuição, nem alteração, nem divisão: onde ela estiver, ela só pode estar inteira. Por isso reina inteira igualdade entre as três Pessoas divinas.



Logo, elas têm a mesma imensidade, a mesma infinidade, a mesma eternidade, o mesmo poder, a mesma sabedoria, a mesma bondade.



As relações que constituem as Pessoas divinas são eternas. Nunca houve o Pai sem o Filho; nunca houve o Pai e o Filho sem o Espírito Santo, como o fogo não existe nunca sem luz e calor. Logo o Filho não é posterior ao Pai e o Espírito Santo não é posterior ao Pai e ao Filho.



Também não há nenhuma inferioridade do Filho em relação ao Pai, nem do Espírito Santo em relação ao Pai e ao Filho. O Pai, gerando o Filho, lhe dá toda sua natureza, e ele não poderia lhe dar menos, pois todo filho tem sempre a mesma natureza de seu pai. Assim os dois dão ao Espírito Santo a natureza divina: na sua plenitude o Espírito de Deus, que procede de Deus e que subsiste em Deus, não pode ser outra coisa que o próprio Deus. Dos dois lados a comunicação é absoluta e sem reservas. As infinitas perfeições divinas são comuns às três pessoas. Passando de uma à outra não podemos, sem alterar a fé católica, admitir a menor diminuição.



É bem verdade que o Filho reconhece no Pai o seu Princípio; o Espírito Santo também reconhece como seu Princípio o Pai e o Filho. Mas este reconhecimento não põe estas duas Pessoas num estado de inferioridade. Ele não faz com que o Filho, como Deus, deva submissão ao Pai, pois toda submissão supõe inferioridade de natureza ou, ao menos, uma inferioridade assumida na natureza. Mas isso não existe entre o Filho e o Pai. Mesmo entre os homens, o filho só deve submissão ao pai durante sua infância; uma vez maior de idade, ele governa sua própria vida. Assim, o Filho de Deus é igual a seu Pai. Reconhecendo-o como seu Princípio, ele o louva e o bendiz numa inefável alegria. O Pai, por seu lado, louva e abençoa seu Filho com infinita complacência. O Espírito Santo completa o concerto unindo os outros dois num laço indissolúvel. A Santíssima Trindade se glorifica, assim, num júbilo sem fim. Mas não poderíamos dizer que haja alguma inferioridade, dependência ou submissão que resultaria das relações de origem. Em Deus tudo é infinito, em Deus tudo é Deus.



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FONTE: EMMANUEL-ANDRÉ, Pe. O mistério da Santíssima Trindade. Niterói: Permanência, 2006. p.19-20.

15 de maio de 2011

TERCEIRO DOMINGO DEPOIS DA PÁSCOA

O pensamento da eternidade.

Cogitavi dies antiquos, et annos aeternos in mente habui – “Pensei nos dias antigos, e tive na mente os anos eternos” (Sal. 76, 6).

Sumário. Feliz de quem vive tendo sempre em mim a eternidade e pensa que em breve o paraíso ou o inferno será a morada de sua alma! Este pensamento infundiu a milhões de mártires a coragem para darem a sua vida por Jesus Cristo; fez tantos jovens, mesmo príncipes e reis, encerrarem-se nos claustros. Quanto mais eficaz não será, pois, para nos desprender dos miseráveis bens da terra e fazer-nos carregar com paciência as cruzes que Deus nos envia? Quem pensa na eternidade e não se converte a Deus, perdeu ou o juízo ou a fé.

I. O pensamento da eternidade é chamado por Santo Agostinho o grande pensamento: Magna cogitatio. Este pensamento fez com que todos os tesouros e grandezas da terra se afigurassem aos santos como que palhas, lodo, fumo e monturo. Este pensamento inspirou tantos anacoretas a retirarem-se para desertos e grutas, tantos jovens nobres e mesmo reis e príncipes reinantes a encerrarem-se nos claustros. Este pensamento deu a tantos mártires coragem para sofrer os cavaletes, as unhas de ferro, as grelhas em brasa e a morte pelo fogo.

Não, não é para esta terra que fomos criados; o fim para o qual Deus nos pôs neste mundo, é que pelas nossas boas obras mereçamos possuir a vida eterna: Finem vero, vitam aeternam (1) – “E por fim a vida eterna”. Pelo que Santo Euquério disse que o único negócio em que devemos cuidar na vida presente , é a eternidade. Se assegurarmos este negócio, seremos felizes para sempre; se o errarmos, seremos para sempre infelizes.

Feliz de quem vive tendo sempre em mira a eternidade, pela fé viva que dentro em breve tem de morrer e entrar na eternidade! Iustus ex fide vivit (2) – “O justo vive pela fé”. A fé faz o justo viver na graça de Deus, dá vida à alma desprendendo-a dos afetos terrenos, e lembrando-lhe os bens eternos que Deus promete aos que o amam. – Dizia Santa Teresa que todos os pecados provêem da falta de fé. Pelo que, a fim de vencermos as paixões e as tentações, é mister que freqüentemente avivemos a nossa fé, dizendo: Credo vitam aeternam – “Creio na vida eterna”. Creio que depois desta vida, que em breve acabará para mim, há a vida eterna, ou cheia de gozos ou cheia de sofrimentos, uma das quais me tocará segundo os meus méritos ou deméritos. Costumava por isso Santo Agostinho dizer que o que crê na eternidade e não se converte a Deus, perdeu o juízo ou a fé.

II. “Ai dos pecadores”, exclama São Cesário, “ai daqueles que entram na eternidade sem a terem conhecido, por não terem querido pensar nela! Ó infelizes! Para eles a porta do inferno se abrirá para os deixar entrar, não para os deixar sair.”Santa Teresa repetia às suas religiosas: Minhas filhas, uma alma, uma eternidade! Queria dizer: Minhas filhas, temos uma só alma; perdida esta, tudo está perdido; e perdida esta uma vez, está perdida para sempre. Numa palavra, de nosso último suspiro na hora da morte dependerá, se seremos felizes para sempre, ou para sempre em desespero.

Roguemos, pois, ao Senhor, que nos aumente a fé: Domine, adauge fidem (3) – “Senhor, aumentai a minha fé", porquanto, se não estivermos firmes na fé, tornar-nos-emos piores do que um Lutero ou um Calvino. Ao contrário, um vivo pensamento da eternidade que nos espera, pode fazer-nos santos. – Quando tivermos que sofrer alguma enfermidade ou perseguição, lembremo-nos do inferno, que temos merecido pelos nossos pecados. Desta maneira toda a cruz se nos afigurará leve, e daremos graças ao Senhor dizendo: Misericordiae Domini, quia non sumus consumpti (4) – “Misericórdias são do Senhor o não termos sido consumidos”. Digamos também com Davi: Se o Senhor não se tivesse compadecido de mim, estaria eu no inferno desde o dia em que o ofendi pelo pecado mortal (5). Eu já estava pedido, mas Vós, ó Deus de misericórdia, estendestes para mim a vossa mão e me tirastes do inferno: Tu autem eruisti animam meam, ut non periret (6) – “Tu livraste a minha alma para ela não perecer”.

Meu Deus, Vós sabeis quantas vezes tenho merecido o inferno; mas apesar disso, quereis que tenha confiança, e quero esperar em Vós. Os meus pecados me atemorizam, mas a vossa morte e a promessa de perdoardes a quem se arrepende inspiram-me confiança. Nos tempos passados Vos desprezei, mas agora amo-Vos sobre todas as coisas e detesto mais que todos os outros males, o ter-Vos ofendido. Meu Jesus, tende piedade de mim; Maria, Mãe de Deus, intercedei por mim. “Ó Deus, que com a luz da vossa verdade iluminais aos que erram, para que possam tornar ao caminho da justiça, concedei a todos os cristãos, que rejeitem quanto se opõe à santidade deste nome, e sigam quanto com ele se conforma” (7).

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1. Rom. 6, 22.
2. Gal. 3, 11.
3. Luc. 17, 5.
4. Thren. 3, 22.
5. Sal. 93, 17.
6. Is. 38, 17
7. Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 54 - 57.)

14 de maio de 2011

CONHECER MARIA (VII)

Maria e o mistério da ressurreição

1) Bendigo-Vos e Vos dou graças, Senhor Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus que Vos encarnaste para nossa salvação no seio da Virgem Maria - por vossa gloriosa e verdadeira ressurreição, que hoje teve lugar; e sobre tudo por vossa aparição sumamente jubilosa e secreta, que Vos dignastes conceder a vossa Santíssima Mãe Maria, enquanto se achava em oração em seu solitário quarto. Estava Vos esperando com imenso desejo, e com a confiança de que Vos apareceríeis a ela - antes que a todos vossos piedosos amigos assim como às santas mulheres que eram dignas de vosso afeto e familiares -, a fim de consolá-la com incomparável doçura e confortá-la mediante vossa presença corporal na roupagem da alegria e na glória de vossa imortalidade.

2) É piedoso e justo pensar nisto por causa de vossa piedade filial, e crê-lo pela honra de vossa Santíssima Mãe, dado que em todas vossas obras sois bom e misericordioso. É o que devem crer devotamente também todos os fiéis, porque Vós ordenastes honrar aos pais e consolá-los quando estão tristes. Por isso, antes que a nenhum outro, visitastes a vossa Santíssima Mãe, afligida por vossa paixão; e com vossa presença a recriastes aliviando-a de toda dor e tristeza, e a fizestes gozar indizivelmente.

3) Ela não foi com as outras mulheres a visitar vosso sepulcro, não por debilidade, por medo ou pela intensidade da dor, senão porque abrigava a total certeza de que iríeis ressuscitar ao terceiro dia. Pelo qual, esperançosa de que acudirias ao seu encontro, ficou em casa, para rezar e aguardar vossa chegada com enorme desejo. Precisamente por isto mereceu ser a primeira em ver-Vos: porque Vos amava e Vos desejava, havia crido em Vós e não havia duvidado jamais de vossas palavras.

4) Por conseguinte, se Maria é chamada Bem-aventurada e recebe louvores, por haver crido nas palavras do anjo Gabriel, que lhe anunciou o sagrado mistério da encarnação, tanto mais deve ser digna desse título e merecer louvores, por haver crido em Vós, o Filho nascido dela, e em todas vossas obras. E enquanto os outros ainda duvidavam, se manteve firme na fé e não vacilou minimamente.

5) De que inefável gozo se sentiu inundada nesse momento Maria, vossa Mãe, quando Vos viu, seu Filho, adornado de claro resplendor, com o corpo glorioso, mais esplêndido que a luminosidade do sol e mais formoso que todas as estrelas?! Que indizível e jubilosamente exultou seu espírito em Vós, Jesus, Deus, seu Salvador: mais que nunca em todos os dias de sua vida terrena?!

6) Com quanta atenção fixou seus olhos em teu corpo glorioso, que antes havia visto duramente chagado por cruéis açoites, cravado no madeiro da cruz, de maneira atroz perfurado no lado direito pela lança de Longino e, em seguida, morto e depositado no sepulcro

7) Por isto, é justo que no dia de hoje, enquanto está diante de Vós, que Vos aparecestes a ela no fulgor de vossa glória, Maria se haja volto mais feliz do que de costume e se sinta culminada de novos consolos, depois de haver sofrido mais cruelmente e chorado com mais amargura que os outros, durante o transcurso da paixão. Agora, Senhor, há cumprido vossa promessa, que fizestes na última ceia aos apóstolos para consolá-los; e a cumpristes da forma mais verdadeira para a vossa aflita Mãe: “Não os deixarei órfãos, voltarei a vocês” (Jo 14, 18); “Eu os voltarei a ver, e terão uma alegria que ninguém lhes poderá tirar” (Jo 16, 22).

8) Obrastes perfeitamente, Ótimo Jesus, quando visitastes com sentimento filial a vossa amadíssima Mãe, a saudastes com respeito, lhe falastes com doçura, a consolastes cordialmente e, ao mostra-lhe a felicidade de vosso rosto, fizestes desvanecer toda sua tristeza e as dolorosas lágrimas de seus olhos. Tão logo chegou a ver-Vos, desapareceram as dores e os gemidos; quando falastes a seu coração, desceu sobre ela o Espírito Santo mais que nos apóstolos, embriagando de alegria a sua alma.

9) Vós que nas bodas de Caná, por exortação dela, transformastes a água em excelente vinho, quando regressastes do lugar dos mortos e depois de haver vencido aos inimigos com maio poder e mais eficaz milagre transformastes a morte em vida, a cruz na glória, o pranto materno em alegria e o medo dos discípulos em sempiterno gozo.

10) Não enviastes um anjo, não um arcanjo, não a Miguel, nem a Gabriel, nem a Rafael, vossos mensageiros oficiais, nem a nenhum dos dignitários terrenos, distintos, adornados de ouro, prata e pedras preciosas, a visitar vossa Mãe, Rainha do céu, nossa amada Senhora, senão que acudistes Vós mesmo, Rei da glória, Jesus Cristo. Acudistes pessoalmente de madrugada, sem que ninguém soubesse e sem nenhum aviso prévio

11) Louvo-Vos e Vos honro, com todos os teus santos e com todos os fiéis devotos do mundo, pelo doce colóquio e pelo íntimo encontro que tivestes com vossa amadíssima Mãe Maria em seu aposento, isolado de todo alvoroço exterior, durante o qual conversastes com ela dos sobrenaturais mistérios do Reino de Deus, dos prazeres do paraíso, dos coros dos anjos, das almas santas sacadas do lugar da espera e conduzidas às alegrias do céu, junto com Enoc e Elias.

12) Ó, se eu também houvesse podido estar presente, se houvesse podido ouvir vossas doces palavras, se junto à janela houvesse podido escutar dissimuladamente e captar com diligência as palavras que meu Senhor Jesus Cristo dirigia a vossa Mãe acerca das alegrias dos cidadãos do céu, sem que nenhum outro escutasse comigo! Como se haveria estremecido de gozo meu coração, no Senhor, se eu houvesse podido conservar algumas daquelas palavras, que incentivo me haveriam acrescentado no perigoso desterro deste mundo. Provavelmente se tratavam de palavras que a nenhuma pessoa está permitido repetir, pois devem ser conservadas no íntimo do coração e meditadas com jubilosa intimidade.

13) Feliz o que conhece este júbilo e, mediante a contemplação, se eleva dos temas terrenos e transcorre todo o dia com Jesus e com Maria, desinteressando-se das coisas deste mundo. Creio que nenhum mortal foi digno de estar presente nesse colóquio: somente os santos anjos e as almas dos justos, que seguiam a seu Senhor por todos os lados com grande reverência e enorme alegria.

14) Talvez esta visita e esta intimidade tenham sido tão elevadas e celestiais na casa de Maria, que nem sequer aos apóstolos se permitiu entrar e escutar as excelsas palavras que Jesus, purificado pelo Pai, pronunciou para Maria, vossa bendita Mãe, cheia de graça. Pelo qual, Senhor Jesus, creio que é melhor de minha parte deixá-las confiadas a vossos anjos e, em vista de todos meus pecados e negligências, pedir-Vos humildemente perdão a Vós que revelais vossos segredos aos humildes e alimentais os famintos com o manjar celestial.

15) Ó benigníssimo Jesus Cristo - que depois de vossa amarga paixão e da gloriosa ressurreição Vos aparecestes a vossa Santíssima Mãe Maria, com grande esplendor, e a culminastes de inefável e nova alegria -, tende piedade de mim, pobre e enfermo, com freqüência gravemente atribulado no exílio deste mundo. Prostro-me profundamente diante de Vós, e com intenso afeto golpeio com insistência à porta de vossa piedosa Mãe, para que Vos digne visitar-me interiormente também a mim no tempo de minha aflição, para consolar-me, alentar-me e libertar-me de toda maligna tristeza e vã alegria.

16) Acenda, pois, meu coração com novo fervor, com maior e perseverante devoção ao louvar-Vos para que aprenda a rechaçar os bens terrenos e buscar os celestiais, a gostar e contemplar com Maria as realidades divinas, regozijando-me somente em Vós. Quem poderá ajudar-me, pobre criatura, a meditar profunda e intensamente nestas coisas e viver aqui junto a Jesus, meu Senhor, de tal maneira que o mundo inteiro, com todos seus amantes, perca todo significado e quanto antes desapareça de minha memória?

17) Rogo-Vos, amabilíssimo Jesus, em união com vossa dulcíssima Mãe Maria e com seus anjos e santos, faça que meu coração seja conquistado por Vós, inflamado profundamente, visitado mais freqüentemente e conservado na devoção e que, depois dos sofrimentos desta vida, seja conduzido aos prazeres celestiais.

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de Maria nunquam satis"
"sobre Maria nunca se falará o bastante"
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(KEMPIS, Tomás de. Imitación de María: Libro Segundo, Capítulo VII. pág. 55 - 62)

8 de maio de 2011

SEGUNDO DOMINGO DEPOIS DA PÁSCOA

Jesus, o bom pastor.

Ego sum pastor bonus. Bonus pastor animam suam dat pro ovibus suis – “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas” (Io. 10, 11).

Sumário. O ofício de um bom pastor não é outro senão guiar as suas ovelhas para bons pastos e defendê-las contra os lobos. Mas, ó meu dulcíssimo Redentor, que pastor levou jamais a sua bondade tão longe como Vós, que quisestes dar a vida por nós, vossas ovelhas, e nos livrastes dos castigos merecidos? Não satisfeito com isso, quisestes ainda, depois da morte, deixar-nos o vosso corpo na santa Eucaristia, para sustento de nossas almas. Quem, pois, não Vos amará com todo o afeto? Mas infelizmente muitos Vos pagam com a mais negra ingratidão.

I. Assim diz Jesus Cristo mesmo no Evangelho deste dia: Ego sum pastor bonus – “Eu sou o bom pastor”. O ofício de um bom pastor não é outro senão guiar as suas ovelhas para bons pastos e defendê-las contra os lobos. Mas, ó meu dulcíssimo Redentor, que pastor levou jamais a sua bondade tão longe como Vós, que quisestes dar o vosso sangue e a vida para salvar as vossas ovelhas, que somos nós, e livrar-nos dos castigos merecidos? Vós mesmo, diz São Pedro, levastes os nossos pecados em vosso corpo pregado na cruz, afim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: pelas vossas chagas fomos curados: Cuius livore sanati estis (1). Para nos curar de nossos males, este bom Pastor tomou a si todas as nossas dívidas e pagou-as com o seu próprio corpo, morrendo de dor sobre a cruz.

Este excesso de amor de Jesus para conosco, as suas ovelhas, fazia Santo Inácio Mártir arder do desejo de dar a vida por Jesus Cristo, dizendo, assim como se lê numa carta sua: Amor meus crucifixus est – “O meu amor foi crucificado.” Quis o santo dizer: Como! Meu Deus quis morrer crucificado por meu amor, e eu poderei viver sem desejo de morrer por Ele? – Com efeito, que grande coisa fizeram os mártires dando a vida por Jesus Cristo, que morreu por amor deles! Ah! A morte que Jesus Cristo padeceu por eles, suavizava-Lhe todos os tormentos, os açoites, os cavaletes, as unhas de ferro, as fogueiras e as mortes mais dolorosas.

Não se contentou, porém, o nosso bom Pastor com dar a vida pelas suas ovelhas; ainda depois de sua morte quis deixar-lhes na santíssima Eucaristia o seu próprio corpo, já sacrificado uma vez na cruz, afim de que fosse o alimento e sustento das suas almas. O ardente amor que nos dedicava, diz São João Crisóstomo, levou-O a unir-se a nós e fazer-se uma coisa conosco: Semetipsum nobis immiscuit, ut unum quid simus.

II. “O mercenário”, assim continua o Evangelho, “e o que não é pastor, vê o lobo vindo e deixa as ovelhas e foge; e o lobo rouba e dispersa as ovelhas. O mercenário foge, porque é mercenário e não lhe importam as ovelhas.” Não é assim que faz Jesus Cristo, o bom pastor, ou antes o melhor de todos os pastores. Cada vez que vê as suas ovelhas assaltadas pelo lobo infernal e estas lhe bradam por socorro, logo acode a defendê-las e a combater por elas.

Quando vê uma ovelha tresmalhada, que não faz? Quantos meios não emprega para reavê-las? Jesus Cristo não deixa de buscá-la enquanto não a achar. E depois de a achar, a põe contente sobre seus ombros, chama aos seus amigos e vizinhos (isto é, os Anjos e os Santos), e convida-os a alegrarem-se com Ele, por ter achado a ovelha que se tinha perdido: Congratulamini mihi, quia inveni ovem meam quae perierat (2) – Quem, pois, não amará com todo o afeto a este bom Senhor, que se mostra tão amoroso mesmo para com os pecadores que lhe viraram as costas e quiseram voluntariamente perder-se?

Ah, meu amável Salvador! Eis aqui a vossos pés uma ovelha perdida: afastei-me de Vós, mas Vós não me abandonastes; fizestes todo o empenho para me reaver. Que seria de mim, se Vós não tivésseis pensado em me buscar? Ai de mim, que passei tanto tempo longe de Vós! Pela vossa misericórdia espero agora estar na vossa graça. Se outrora fugia de Vós, já não desejo outra coisa senão amar-Vos e viver e morrer abraçado aos vossos pés. Mas enquanto vivo, estou em perigo de Vos abandonar. Por piedade, prendei-me com os laços de vosso santo amor e não permitais que em tempo algum eu me desprenda de Vós. – “Ó Pai Eterno, que pela humilhação de vosso Filho levantastes o mundo prostrado, concedei-me alegria perpétua, para que, assim como me livrastes da morte eterna, me façais gozar dos prazeres eternos.”(3) Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo e de Maria Santíssima, minha querida Mãe. (*II 288.)

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1. 1 Petr. 2, 24.
2. Luc. 15, 6.
3. Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 37 - 39.)

7 de maio de 2011

CONHECER MARIA (VI)

Orações a Maria que chora junto a cruz

1) Ó, piedosas, santas e dolorosíssimas lágrimas da bem-aventurada, pura e sempre Virgem Maria, que brotaram de seus olhos, no dia da Sexta-feira santa, devido a sua “com-paixão” com Cristo e sua amadíssima paixão e morte na cruz; quando se deslizaram copiosamente ao longo de sua bochecha e de seu peito até a borda do vestido e empaparam o véu de sua sagrada cabeça, e, ao cair sobre seus santos pés, gotejou o empoeirado solo!

2) Ah, se eu pudesse ter seguido então as pegadas dos pés de minha Senhora e pudesse em segredo ter recolhido em um recipiente suas cálidas lágrimas, não para lavar meus pés, que freqüentemente hei manchado em pós de maus pensamentos e de afetos indecentes, senão para lavar-me as mãos e a cabeça, isto é, as palavras e as ações más, para o perdão de todos meus pecados cometidos cada dia!

3) Ó piedosa Mãe de Deus!, Virgem Maria, rogo-te que me seja propícia: cancela todos meus vícios com tuas dores e com tua devotíssima intercessão. Caríssima Maria, socorre minha alma na última hora de minha vida, e acode com a multidão dos anjos e dos santos a defender-me contra os terrores do inimigo e os sofrimentos do inferno. Recorda-te do sangue precioso e inocente na morte de seu amado Filho Jesus Cristo, sofrida por causa de mim pecador; de seu lado ferido e de todas as lágrimas que derramaste em tua vida inteira; e tenha compaixão de mim. A ti suspiro, em teus méritos confio, “ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria”. Amém.

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de Maria nunquam satis"
"sobre Maria nunca se falará o bastante"
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(KEMPIS, Tomás de. Imitación de María: Libro Segundo, Capítulo VI. pág. 54 - 55)

4 de maio de 2011

Martinho Lutero, homicida e suicida

Martinho Lutero, homicida e suicida

Eis alguns dados históricos da triste vida do fundador do protestantismo, e de seu fim trágico, depois de uma de suas muitas bebedeiras serestais com príncipes amigos.

Martinho Lutero nasceu em Eisleben, na Saxônia (Alemanha) em 1483, e pôs fim à próprio vida em 1546, cerca de 25 anos após a sua revolta contra a Igreja de Nosso Senhor. Sua mãe Margarida foi muito religiosa, porém, muito supersticiosa e dada a bruxarias e encantamentos, o que influiu muito no comportamento do filho. O jovem Lutero, depois de seus estudos de humanidades nas escolas locais de Mansfeld, foi estudar filosofia e direito na Universidade de Erfurt, onde se formou, no ano de 1505. Em junho deste ano entrou para o Convento dos Agostinianos, "não por vocação, mas por medo da morte". Ele mesmo falou várias vezes desse "medo da morte" que determinou a sua entrada na religião, como o veremos.

LUTERO HOMICIDA

O Dr. Dietrich Emme, em seu livro: "Martinho Lutero - sua juventude e os seus anos de estudos, entre 1483 e 1505", Bonn, 1983, afirma que Lutero entrou no Convento só para não ser submetido à justiça criminal, cujo resultado teria sido, provavelmente, a pena de morte, por ter matado em duelo um seu colega de estudos chamado Jerônimo Buntz. Daí o seu "medo da morte" ao qual se referia freqüentemente. Então um amigo o aconselhou a se refugiar no Convento dos Eremitas de Santo Agostinho, que então gozava do direito civil de asilo, que o colocava ao abrigo da justiça. Foi aí que se tornou monge e padre agostiniano.

Lutero parecia ter-se convertido. Mas não. Sempre perturbado e contraditório, ele se declara réu confesso em uma prédica em 1529: "Eu fui monge, eu queria seriamente ser piedoso. Ao invés, eu me afundava sempre mais: eu era um grande trapaceiro e homicida" (WAW, 29, 50, 18). E um discurso transcrito por Veit Dietrich, afirma: "Eu me tornei monge por um desígnio especial de Deus, a fim de que não me prendessem; o que teria sido muito fácil. Mas não puderam porque a Ordem se ocupava de mim" (isto é, os superiores do Convento o protegiam) (WA Tr 1, 134, 32). Portanto, Lutero foi réu de um homicídio que cometeu quando era estudante em Erfurt. E segundo os seus biógrafos, o motivo teria sido despeito por ter o seu colega obtido melhor nota nos exames.

LUTERO ÉBRIO E ÍMPIO

Ele o confessa: "Eu aqui me encontro insensato, e endurecido, ocioso e bêbado de manhã à noite... Em suma, eu que devia ter fervor de espírito, tenho fervor da carne, da lascívia, da preguiça e da sonolência". No entanto, chamava o Papa de "asno".


Sobre a oração dizia: "Eu não posso rezar, mas posso amaldiçoar. Em lugar de dizer 'santificado seja o vosso nome', direi: 'maldito e injuriado seja o nome dos papistas..., que o papado seja maldito, condenado e exterminado'. Na verdade é assim que rezo todos os dias sem descanso".


Sobre os mandamentos, dizia: "Todo o Decálogo deve ser apagado de nossos olhos, de nossa alma e de nos outros tão perseguidos pelo diabo... Deves beber com mais abundância, e cometer algum pecado por ódio e para molestar ao demônio...". Lutero não só afirmava que as boas obras nada valem para a salvação como as amaldiçoava.


Mas sobre o pecado, ele dizia: "Sê pecador e peca fortemente, mas crê com mais força e alegra-te com Cristo vencedor do pecado e da morte... Durante a vida devemos pecar".


Sobre a castidade, Lutero incentivou os monges, sacerdotes e religiosas a saírem de seus Conventos e se casarem. "O celibato - dizia - é uma invenção maldita" - "Do mesmo modo que não posso deixar de ser homem, assim não posso viver sem mulher".


Sobre a Virgem Maria, "a caneta" recusa a escrever as blasfêmias que proferiu contra a sua pureza (originalmente este texto foi publicado em forma de folheto, Nota do Editor).


Sobre Jesus Cristo, afirma que "cometeu adultério com a samaritana no poço de Jacó, com a mulher adúltera que perdoou..., e com Madalena...".


Sobre Deus: "Certamente Deus é muito grande e poderoso, bom e misericordioso..., mas é muito estúpido; é um tirano".


Seu último sermão em Wittenberg, em maio de 1546, foi um furioso ataque contra o Papa, o sacrifício da Missa e o culto a Nossa Senhora.


LUTERO SUICIDA

Lutero tinha um temperamento extremamente mórbido e neurótico. Depois de sua revolta contra a Igreja, a sua neurose atingiu os limites extremos. Estudos especializados lhe atribuem uma "neurose de angústia gravíssima", do tipo que leva ao suicídio (Roland Dalbies, em "Angústia de Lutero").

O suicídio de Lutero é afirmado tanto por católicos como por protestantes. Eis o depoimento do seu criado, Ambrósio Kudtfeld, que mais tarde se tornou médico:


"Martinho Lutero, na noite que antecedeu a sua morte, se deixou vencer por sua habitual intemperança, e com tal excesso, que fomos obrigados a carregá-lo totalmente embriagado, e colocá-lo em seu leito. Depois nos retiramos ao nosso aposento sem pressentir nada de desagradável. Pela manhã voltamos ao nosso patrão para ajudá-lo a vestir-se, como de costume. Mas, que dor! Vimos o nosso patrão Martinho pendurado de seu leito e estrangulado miseramente.


"Tinha a boca torta e a parte direita do rosto escura; o pescoço roxo e deformado. Diante de tão horrendo espetáculo, fomos tomados de grande terror. Corremos sem demora aos príncipes, seus convidados da véspera, para anunciar-lhes aquele execrável fim de Lutero. Eles ficaram aterrorizados como nós. E logo se empenharam com mil promessas e juramentos, que observássemos, sobre aquele acontecimento, eterno silêncio, e que colocássemos o cadáver de Lutero no seu leito, e anunciássemos ao povo que o 'Mestre Lutero' tinha improvisamente abandonado esta vida".

Este relato do suicídio de Lutero foi publicado em Anversa, no ano de 1606, pelo sensato Sedúlius. Dois médicos comprovaram os sintomas de suicídio relatados pelo seu doméstico Kudtfeld. Foram eles Cester e Lucas Fortnagel. As informações desse último foram publicadas pelo escritor J. Maritain, em seu livro: "Os Três Reformadores". Nesse livro o autor oferece ainda uma impressionante lista de amigos e companheiros de Lutero que se suicidaram.

Portanto, irmãos separados da Igreja Católica por esse falso e ébrio reformador, abram os olhos, e voltem à verdadeira Igreja de Jesus Cristo. É fácil de reconhecê-la. Está claro nos Santos Evangelhos que a verdadeira Igreja de Cristo é uma só (Mt. 16, 16). E o que aí lemos: "Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja". (Cf "Folhetos Católicos" - nº 1).

Inútil imaginar que Cristo apontava para Si quando falava a Pedro. Sabemos que Cristo é a "Pedra Angular" principal da sua Igreja. Mas Ele tornou a Pedro participante dessa sua condição. Suas palavras "são palavras de vida e de verdade". Só Ele, como único Mediador "de Redenção" (1 Tim 2, 5-6), pôde fundar, e realmente fundou a sua única e verdadeira Igreja tendo também por fundamento visível, neste mundo, a Pedro e seus sucessores, os Papas. Como há um só Senhor, uma só Fé, um só batismo (E.F. 4, 5), também uma só tem que ser a Igreja desse único Senhor. É a Igreja dos primeiros cristãos, é a Igreja dos mártires, é a Igreja católica de sempre, a única que é Apostólica, porque é a única que vem desde os Apóstolos.

É a única que existiu desde Cristo e dos Apóstolos até Lutero, e até hoje, e que existirá "até o fim dos séculos" (Mt 28, 28-30). Ao passo que as dos protestantes são "uma legião". Elas começaram a partir desse falso reformador, no ano 1521, que foi o primeiro a se atrever a fazer o que só Deus pode fazer: fundar uma religião. A 1ª das religiões dessa "legião" de igrejas chamou-se igreja luterana. Mas, já no tempo de Lutero, alguns luteranos imitaram o seu mau exemplo.

Assim, Calvino fundou o calvinismo em Genebra. Logo surgiram os anabatistas, os anglicanos, os batistas, os metodistas, etc.etc. (Cf. "Folhetos Católicos", nº 14). Calcula-se hoje em vários milheiros o número de seitas oriundas dos erros luteranos. E hoje a sua nova versão, com as suas "Lojas da bênção", praticando um verdadeiro curandeirismo de Bíblias na mão. A má semente semeada pelo ébrio e neurótico monge continua a produzir seus maus frutos.

Mas a tentação de se pretender reformar a irreformável obra de Nosso Senhor Jesus Cristo, a sua Igreja, continua. E até nos meios católicos ditos progressistas, se está pretendendo reformar, não os homens da Igreja, mas a própria Igreja. Eles se assemelham hoje aos "católicos reformados" dos tempos de Lutero, com a sua falsa reforma. No entanto, a Bíblia afirma que a única Igreja de Cristo, em si mesma, "é... santa e imaculada" (Ef. 5, 27).


Nota: Os dados desse folheto são de "Martinho Lutero, homicida e suicida", Pe. Luigi Villa, rev. "Chiesa Viva", nº 258, Brescia, Itália; e de "Lutero", Pe. Pedro de I. Muños, rev. "Tradicion Católica", nº 137, Barcelona, Espanha.
Dom Licínio Rangel
Campos/RJ
Publicado neste blog pela primeira vez em novembro/2009.