30 de abril de 2011

CONHECER MARIA (V)

A comunhão de Maria com Jesus

1) Bendigo-te, te louvo e te dou graças, Santa Mãe de Deus, Virgem Maria, por todos os bens e os dons que o Senhor te concedeu em abundância; por tuas inumeráveis virtudes e pelos extraordinários privilégios de graça, em virtude dos quais de maneira muito insigne e acima de todos os santos resplandeceste na terra; por ser digna Mãe de Deus e alimentar em teu seio, levantar em teus braços, apertar contra o coração e levar ao Verbo de Deus que se encarnou em ti.

2) Bendigo-te, te louvo e te honro, eleita Mãe de Deus e humilde “serva do Senhor” (Luc 1, 38), por todos os carinhosos serviços e as necessárias ajudas que prestaste a Cristo feito homem, teu Filho; pelas múltiplas perseguições, pelas privações, pelos trabalhos e as fadigas que suportaste pacientemente com Ele.

3) Bendigo-te, te louvo e te rendo homenagem, gloriosa Virgem Maria, Mãe e filha do eterno Rei, pelos aprazíveis e freqüentes colóquios com Jesus, pelas divinas palavras que com tanta diligência escutastes de sua boca e que pontualmente conservas e meditas no íntimo do coração (Luc. 3, 51); pelos magníficos consolos que com freqüência recebeste d’Ele.; pelos incomensuráveis gozos e as divinas alegrias proporcionados por sua presença, suscitados pela graça do Espírito Santo e largamente fomentados em teu coração.

4) Bendigo-te, te louvo e te exalto, Santa Maria e minha venerada Senhora, por tua vida transbordante de pureza e santidade, tão grata a Deus e aos anjos, que transcorreste em companhia de Jesus ao longo de muitos anos em pobreza e em silêncio, provada por muitos padecimentos e adversidades, oferecida a todos os seguidores de Cristo como exemplo para imitar devotamente e oferecida de modo admirável até o final dos séculos à Igreja universal como apoio em suas provas.

5) Bendigo-te, te louvo e te glorifico, ó benigníssima e piedosíssima Mãe de Deus, Maria, por todos teus exercícios de devoção e tuas sagradas meditações acerca da lei de Deus, ao quais te dedicavas dia e noite; por tuas muito fervorosas orações, pelas lágrimas e jejuns que ofereceste a Deus com tanto empenho pela conversão dos pecadores e perseverança dos justos; pela tua grande compaixão para com os pobres e enfermos, para com os tentados e oprimidos de angústia; por teu intenso desejo da salvação do gênero humano, que sabias que tinha que ser redimido pela morte de teu Filho.

6) Ademais, embora abrigavas um imenso amor a teu Filho unigênito, contudo não O arrancaste do horrível suplício da cruz, senão que te submeteste totalmente à vontade do Pai. Por outro lado, em todos teus sofrimentos, “consofreste” junto com Ele; e, até chegar à ignomínia da cruz, seguiste com passo firme a Jesus que marchava adiante, sem reparar na fuga dos apóstolos (Mat 2, 56) e sem temer a crueldade dos judeus. Estavas disposta a suportar a morte com Ele, antes que abandoná-Lo em um transe tão extremo.

7) Bendigo-te, te louvo e te exalto com todas minhas forças, ó fidelíssima e amadíssima Mãe de Deus, celestial Maria, por tua perseverança na fé firme e na caridade perfeita, quando tu somente, enquanto os apóstolos fugiam por medo e enquanto também os poucos que seguiam a Jesus se envergonhavam, com extrema constância mantiveste em alto a tocha acesa da fé na paixão do Filho, sem duvidar de sua futura ressurreição ao terceiro dia, como Ele havia predito com bastante clareza.

8) Enquanto todos os amigos de Jesus haviam dispersado, tu, afligidíssima Mãe, com um pequeno grupo de mulheres te transladasse impávida ao Calvário, abrindo caminho através de uma multidão ameaçadora, para aproximar-te o mais rápido possível ao Filho, o qual estavam a crucificar. Querias ver-Lo enquanto estava ainda vivo, a fim de poder receber d’Ele, antes que morresse, a palavra de sua amorosa doação.

9) Bendigo-te, te louvo e com todas as minhas forças me encomendo a ti, Santa e Imaculada Virgem, por tua dolorosa presença junto à cruz de Jesus, onde oprimida e afligida te detiveste por longo tempo, atravessada por uma espada de dor, segundo a profecia de Simão (Luc. 2, 35); pelas abundantes lágrimas derramadas; pela grande fidelidade e inefável coerência que demonstraste a teu Filho em sua extrema necessidade, quando estava por morrer; pela imensa dor de teu coração; pelo sofrimento mais lacerante no momento de sua morte; pela palidez de seu aspecto, quando O viste pender morto diante de ti.

10) Bendigo-te e te louvo pelo piedoso abraço com que O estreitaste entre teus maternais braços; pelo triste trajeto até o lugar de sua sepultura, quando banhada em lágrimas seguias aos que levavam o santo cadáver, e chorando fixaste a mirada em teu Filho depositado no sepulcro e fechado baixo uma grande lápide; pelo doloroso regresso desde o sepulcro à casa em que te hospedavas, onde acompanhada de muitos fiéis ali reunidos te desfizeste em lágrimas pela morte do amado Filho, com repetidos lamentos, e foi tão copioso teu pranto que fizeste também chorar os que estavam ao teu lado.

11) Compadece-te agora, alma minha, da Virgem dolorosa, da Mãe lacrimosa, de Maria amorosa. Se amas a Maria, deves compadecer-te dela por suas dores numerosas, para que te socorra em tuas penas. Que quadro! A Santa Mãe chora a seu único Filho; chora Maria de Cléofas a seu querido parente; chora Maria Madalena ao médico de sua saúde; chora João a seu dulcíssimo Mestre; choram todos os apóstolos a seu Senhor que hão perdido. E quem não choraria entre tantos amigos que choram juntos?

12) É verdadeiramente grande este pranto em Jerusalém. Detém-te, pois, tu também um pouco, e aprende a chorar da Virgem Maria: suas amargas lágrimas poderão comover seu coração no mais profundo. Ei-la aí de pé junto à cruz, atormentada por intensas dores, aquela que um distante dia, frente ao presépio, estava culminada de celestiais harmonias. Sente-se oprimida pelo clamor dos judeus, ela que em outro tempo foi honrada pelos reis magos; está toda salpicada de sangue de seu Filho, ela que havia experimentado a carícia de seu cândido afeto.

13) Vê pender da cruz, entre os ladrões, ao que tantas vezes havia visto operar milagres em meio ao povo; contempla, volto quase como um leproso pelo estrago das feridas, ao que havia concedido a cura a muitos leprosos; olha, oprimido por inumeráveis dores, ao que havia expulsado a dor dos enfermos; contempla, vencido pela morte, ao que havia feito retornar a vida ao defunto Lázaro. Todas as alegrias se trocaram em tristezas, e todas as coisas doces em amarguras.

14) A cintilante Estrela do mar é sacudida por numerosas e angustiantes tempestades; mas sua mente, que permanece fixa em Deus, não é vencida pelas perversidades humanas. Está, pois, erguida junto a cruz, com constância e paciência, com fidelidade e amor, sem temer aos que a ameaçam de morte e sem evadir-se dos que a maldizem. Tudo suporta com tranqüilidade de espírito, e se esforça por competir com seu Filho humilhado, não respondendo nada a seus tão cruéis inimigos. Não utiliza expressões de desdém nem faz gestos de indignação. Somente emite profundos gemidos, chora com amargura, se aflige com ansiedade, se compadece no íntimo e experimenta uma imensa aflição. Não se irrita com os crucifixores, roga, contudo, pelos caluniadores, se entristece e se lamenta a causa dos que se burlam e blasfemam de Cristo. Por isso, está de pé junto à cruz em um mar de lágrimas, e com seu exemplo de mansidão oferece o consolo da paciência a todos os atribulados.

15) Ó, todos vocês, os que passam pelo caminho do Calvário, observem a dolorosa presença da Santíssima Virgem Maria: dirijam a vista à direita da cruz e observem à Maria, Mãe de Cristo. Não pode haver uma dor semelhante à sua; não houve jamais no mundo uma mãe que se haja compadecido de seu próprio filho com tanto amor, já que por quantas feridas recebiam os membros de Jesus, outras tantas se produziam em sua alma; tantas vezes voltava a ser mártir, quantas vezes contemplava as cruentas chagas do Filho.

16) Tenta, por conseguinte, alma devota, gravar estas coisas em teu coração. Seja tranqüilo e forte quando vier o momento da tentação. Não te turbes nem desesperes se chega a faltar-te aquele que tanto amas ou se te nega o que consideras que é necessário para ti. Os amigos de Jesus são freqüentemente provados com gravíssimas aflições, porque, se Deus não economizou penas nem sequer a seu Filho senão que por todos nós o abandonou em gravíssimos tormentos, como pretendes um trato melhor? Se Cristo não buscou a si mesmo, mas foi obediente e propenso a suportar inclusive feitos sumamente vis e dolorosos, porque tu temes tanto a fadiga e a dor, e ao invés, por amor ao Crucificado, não abraças as realidades ásperas e duras? Se Ele reservou à sua Santíssima Mãe numerosas contrariedades na terra; se permitiu que com freqüência passasse por muitas tribulações e sofrimentos, como se entende que tu poderias viver sem provas?

17) Se observas a todos os amigos de Deus, não encontrarás nenhum que haja navegado pelo mar desta vida sem duras provas. Portanto, recolha da imagem do Crucificado e de sua bendita Mãe o exemplo de uma incansável paciência, e não temerás mais suportar sacrifícios por tua salvação e pela recompensa da infinita bondade de Jesus. Obrando assim, poderás gozar da visão de seu rosto por toda a eternidade.

18) A benigníssima Mãe de Jesus sabe bem compadecer-se do que sofre. Aprendeu do que há sofrido a ter afetuosa compaixão dos aflitos. Não se esquecerá de seus pobres devotos, acudirá ao encontro de suas orações, ajudará aos que a invocam com perseverança e será propícia para os que a servem.

19) Misericordiosíssimo Jesus, Filho de Maria, rogo-Vos que me concedas o dom de lágrimas e que firas meu coração com um profundo e compassivo afeto, com aquele que bem sabes esteve angustiada vossa piedosa Mãe. Olha-me com os olhos compassivos com que olhastes a tua Mãe e ao discípulo João, que estavam junto à cruz entre soluços, no momento em que encomendaste sucessivamente um ao outro, dando-lhes este último adeus: “Aqui tens a teu filho, aqui tens a tua Mãe”. Rogo-Vos que me visites com vossa graça quando estiver a ponto de morrer; e fazei-me sentir também as palavras que João ouviu desde a cruz: “Aqui tens a tua Mãe”, para que ao ouvir estas palavras, minha alma não tema ao inimigo rugidor.

20) Ó clementíssima Santa Maria, minha Senhora, advogada dos cristãos, rogo-te por todos teus altíssimos méritos, com os quais comprazeste a Deus em sumo agrado; por todas as atenções que com grande afeto tiveste para com seu Filho, e por todas as lágrimas que derramaste em sua tão dolorosa paixão: digna-te ter compaixão de mim, tomar-me baixo teu cuidado com maternal amor e por-me no número de teus servidores, que de modo particular formam teu entorno e são os mais amados por ti.

21) Ó única esperança, gloriosa Virgem Maria, venha mostrar-me teu rosto, antes que minha alma abandone meu corpo; e “volvei a mim teus olhos misericordiosos”, com os que olhaste muito freqüentemente com intensa alegria a Jesus, “o fruto bendito de teu ventre”: olhos marcados por tantas lágrimas durante sua paixão.

22) Assiste-me nesse momento Santíssima Mãe de Jesus, com a doce comitiva de teus virgens e com a sagrada congregação de todos os santos, como assististe até o final a teu diletíssimo Filho que estava por morrer na cruz, dado que, depois de teu Filho unigênito e Senhor meu Jesus Cristo, não encontro em minhas necessidades um alívio maior e mais solícito que o teu, ó benigníssima Mãe de todos os aflitos.

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de Maria nunquam satis"
"sobre Maria nunca se falará o bastante"
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(KEMPIS, Tomás de. Imitación de María: Libro Segundo, Capítulo IV. pág. 45 - 54)

28 de abril de 2011

A hediondez do homossexualismo - São Pedro Damião, bispo e doutor da Santa Igreja

A HEDIONDEZ DO HOMOSSEXUALISMO
(São Pedro Damião, Liber Gomorrhianus, c. XVI)

Este vício não é absolutamente comparável a nenhum outro, porque supera a todos em enormidade. Este vício produz, com efeito, a morte dos corpos e a destruição das almas. Polui a carne, extingue a luz da inteligência, expulsa o Espírito Santo do templo do coração do homem, nele introduzindo o diabo que é o instigador da luxúria, conduz ao erro, subtrai totalmente a verdade da alma enganada, prepara armadilhas para os que nele incorrem, obstrui o poço para que daí não saiam os que nele caem, abre-lhes o inferno, fecha-lhes a porta do Céu, torna herdeiro da infernal Babilônia aquele que era cidadão da celeste Jerusalém, transformando-o de estrela do céu em palha para o fogo eterno, arranca o membro da Igreja e o lança no voraz incêndio da geena ardente.

Tal vício busca destruir as muralhas da pátria celeste e tornar redivivos os muros da Sodoma calcinada. Ele, com efeito, viola a temperança, mata a pureza, jugula a castidade, trucida a virgindade, que é irrecuperável, com a espada da mais infame união. Tudo infecta, tudo macula, tudo polui, e tanto quanto está em si, nada deixa puro, nada alheio à imundície, nada limpo. Para os puros, como diz o Apóstolo, todas as coisas são puras; para os impuros e infiéis, nada é puro, mas estão contaminados o seu espírito e a sua consciência (Tit. I, 15).

Esse vício expulsa do coro da assembléia eclesiástica e obriga a unir-se com os energúmenos e com os que trabalham com o diabo, separa a alma de Deus para ligá-la aos demônios. Essa pestilentíssima rainha dos sodomitas torna os que obedecem as leis de sua tirania torpes aos homens e odiáveis a Deus, impõe nefanda guerra contra Deus e obriga a alistar-se na milícia do espírito perverso, separa do consórcio dos Anjos e, privando-a de sua nobreza, impinge à alma infeliz o jugo do seu próprio domínio. Despoja seus sequazes das armas das virtudes e os expõe, para que sejam transpassados, aos dardos de todos os vícios. Humilha na Igreja, condena no fórum, conspurca secretamente, desonra em público, rói a consciência como um verme, queima a carne como o fogo.

Arde a mísera carne com o furor da luxúria, treme a fria inteligência com o rancor da suspeita, e no peito do homem infeliz agita-se um caos como que infernal, sendo ele atormentado por tantos aguilhões da consciência quanto é torturado pelos suplícios das penas. Sim, tão logo a venenosíssima serpente tiver cravado os dentes na alma infeliz, imediatamente fica ela privada de sentidos, desprovida de memória, embota-se o gume de sua inteligência, esquece-se de Deus e até mesmo de si.

Com efeito, essa peste destrói os fundamentos da fé, desfibra as forças da esperança, dissipa os vínculos da caridade, aniquila a justiça, solapa a fortaleza, elimina a esperança, embota o gume da prudência.

E que mais direi, uma vez que ela expulsa do templo do coração humano toda a força das virtudes e aí introduz, como que arrancando as trancas das portas, toda a barbárie dos vícios?

Com efeito, aquele a quem essa atrocíssima besta tenha engolido, entre suas fauces cruentas, impede-lhe, com o peso de suas correntes, a prática de todas as boas obras, precipitando-a em todos os despenhadeiros de sua péssima maldade. Assim, tão logo alguém tenha caído nesse abismo de extrema perdição, torna-se um desterrado da pátria celeste, separa-se do Corpo de Cristo, é confundido pela autoridade de toda a Igreja, condenado pelo juízo de todos os Santos Padres, desprezado entre os homens na terra, reprovado pela sociedade dos cidadãos do Céu, cria para si uma terra de ferro e um céu de bronze. De um lado, não consegue levantar-se, agravado que está pelo peso do seu crime; de outro, não consegue mais ocultar seu mal no esconderijo da ignorância, não pode ser feliz enquanto vive, nem ter esperança quando morre, porque, agora, é obrigado a sofrer o opróbrio da derrisão dos homens e, depois, o tormento da condenação eterna.

25 de abril de 2011

Vida de São João Bosco - CARIDADE, MORTIFICAÇÃO, CASTIDADE E HUMILDADE.

Felizmente aí estava a dar-lhe segurança para o seu modo de julgar, o argumento das obras, dessas múltiplas criações partidas do mais tranqüilo dos mortais, do mais simples dos sacerdotes do Piemonte.
Pela audácia da concepção, pela variedade impressionante das formas, pela solidez da estrutura, elas bem atestavam que o autor bebia na fonte de toda a luz e de toda a força: Deus Nosso Senhor em cujos braços se abandonara e em cuja vida abismara sua mesma vida... A verdadeira palavra que define esta alma pronunciou-a o Cardial Alimonda na oração fúnebre: "A virtude intima e divina que punha em movimento esta vida prodigiosa era a caridade celeste".
Era essa e não outra.
Os biógrafos falam de seu espírito de penitência. E foi sem dúvida prodigioso. Dormia só cinco horas por noite e muitas vezes a aurora surpreendia-o sentado à escrivaninha. Nunca se preocupava com a qualidade dos alimentos. Suportava sem se queixar o duro trabalho do confessionário. Encurtou a vida nas peregrinações que teve que fazer para lá e para cá, a fim de arranjar dinheiro para suas empresas. Tolerou com o coração resignado duras cruzes que lhe pesavam sobre os ombros. Desde 1845 até a morte queimava-lhe a epiderme um eczema quase contínuo que fez exclamar ao salesiano que se encarregou de lhe preparar o corpo para a sepultura: "Que cilício! E quando se pensa que ele o conservou sempre escondido!"
Entretanto esse espírito de penitência não era outra coisa senão o seu modo particular de viver desapegado das criaturas, jamais dominado por elas. A não ser que o queiramos imaginar como a oferta íntima com que ele, no segredo da alma, entregava o corpo atormentado ao Mestre a quem tanto amava.
Surpreendem e comovem seus escrúpulos a respeito da pureza, escrúpulos que lhe faziam evitar até a mesma palavra castidade, para não despertar porventura com ela algum mau pensamento. Até o fim da vida jamais soube da existência de certas formas de desonestidade. É o Cardial Cagliero quem nos garante ter verificado isso. Os que o conheceram de perto atestam que ele levou consigo ao túmulo a inocência batismal. Para certos corações insidiados pelas más tendências bastava que ficassem perto dele para se sentirem logo livres da tentação. Um de seus filhos prediletos, o Padre Julio Barberis, nos diz que Dom Bosco desejou fazer dessa virtude e característica, de sua congregação. De sua pessoa, de seu contato, de sua palavra exalava uma como virtude secreta que por contágio penetrava e purificava as almas. Até pelo modo como ele tomava a mão de um menino ou colocava a própria mão na cabeça dele percebia-se seu imenso respeito para com o corpo batizado. E enfim, misericordioso como era para com qualquer falta, era pelo contrário inexoravelmente severo quando eram faltas contra os bons costumes. A pureza de sua alma era mesmo angélica. E não era isso a fidelidade de um coração e de um corpo a uma beleza, a um amor e a uma alegria superior que o tinham dominado completamente?
Dom Bosco expressava a respeito de si mesmo os juízos mais humildes. Dizia por exemplo: "Se Deus tivesse encontrado para suas obras um instrumento mais mesquinho, tê-lo-ia certamente preferido a mim e teria ficado muito mais bem servido".
Ao voltar dos dias triunfais de Paris, opunha-lhes como a honras fúteis, a humildade de sua origem: "Lembras-te, dizia ao Padre Rua, daquela pequena colina, à direita da estrada de Buttigliera? Nessa colina há uma casa muito pobre com um pequeno campo ao lado.
Nesse campo eu tomava conta de duas vaquinhas. Todos esses distintos senhores que me cumularam hoje de gentilezas mal sabiam que estavam homenageando a um camponês!"
"Qual é a coisa mais bela que já viste em tua vida?" perguntou ume dia no pátio a um menino, sem nem sonhar que provocava esta resposta espontânea: "Dom Bosco". "Ora essa! - replicou então – tu me fazes lembrar um campônio que visitou a exposição dos objetos de nossa última rifa. Enquanto todos se extasiavam a contemplar esta ou aquela obra de arte, nosso homem ficou boquiaberto perante um enorme salame. Para os seus olhos não havia nada de mais belo". Essa confissão sincera e repetida de sua pequenez ele a fazia para não subtrair nada à glória de seu Senhor e Mestre e para cantar o poder, a sabedoria e a bondade daquele que o escolhera para sua obra. E é também esta uma forma autêntica de amor.

Do livro Dom Bosco, de A. Auffray SDB
Tradução de D. João Resende Costa,
Arcebispo de Belo Horizonte

Sobre o Vício da Impureza




Retirado, traduzido e adaptado de catholicapologetics.info para fsspx.com.br
por Santo Alfonso Maria de Ligório






Ilustração do local onde queimam eternamente no Inferno os condenados luxuriosos, segundo Dante Alighieri em sua histórica obra literária.


Primeiro Ponto

Ilusão daqueles que dizem que os pecados contra a pureza não são um grande mal


Os impuros dizem que os pecados contra a pureza são um pequeno mal. Como "a porca... chafurdando na lama" (2 Pedro 2:22), eles estão imersos em sua própria sujeira, de modo que não veem a maldade de seus ações e, portanto, não sentem nem abominam o mau odor de suas impurezas, que provocam repulsa e horror a todos os outros. Será que você, que diz que o vício de impureza é apenas um pequeno mal, eu pergunto, será que você poderá negar que isso é um pecado mortal? Se negar, você é um herege, pois, como diz São Paulo: “Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus.” - 1Coríntios 6:9-10. Isto é um pecado mortal, logo, não pode ser um pequeno mal. É um pecado maior que o roubo, que a difamação, que a violação do jejum. Como então você pode dizer que não se trata de um grande mal? Talvez para você o pecado mortal pareça ser um pequeno mal? Será que é um pequeno mal desprezar da graça de Deus, virar as costas para Ele e perder a Sua amizade por causa de um prazer transitório e bestial?
Santo Tomás ensina que o pecado mortal, por ser um insulto contra um Deus infinito, contém de certa forma uma malícia infinita. "Um pecado cometido contra Deus, tem de certa forma uma infinidade, por conta da infinidade da Divina Majestade” - Santo Tomás. Será que o pecado mortal é um pequeno mal? Ele é um mal tão grande que, se todos os anjos e todos os santos, os apóstolos, os mártires, e mesmo a Mãe de Deus, oferecessem todos os seus méritos para expiar um só pecado mortal, a oferta não seria suficiente. Não, porque a expiação ou a satisfação seria finita, mas a dívida contraída pelo pecado mortal é infinita, por conta da infinita majestade de Deus, que foi ofendida. O ódio que Deus tem dos pecados contra a pureza está além do que podemos medir. Se alguém encontrar seu prato sujo, ficará aborrecido e não irá comer. Então, imagine com que desgosto e indignação Deus, que é a própria pureza, verá as impurezas imundas pelas quais Sua lei é violada? Ele ama a pureza com um amor infinito, e consequentemente Ele tem um ódio infinito contra a sensualidade que os homens lascivos e voluptuosos chamam de pequeno mal. Até os demônios, que ocupavam um alto grau no céu antes de sua queda, desdenham de ter que seduzir os homens a cometer pecados da carne.
Santo Tomás diz que Lúcifer, que foi supostamente o diabo que tentou Jesus Cristo no deserto, tentou-O a cometer outros pecados, mas desprezou tentá-Lo a pecar contra a castidade. Seria isto um pecado pequeno mal? Seria então um pequeno mal ver um homem dotado de uma alma racional, enriquecida com muitas graças divinas, cair, pelo pecado de
impureza, ao nível de um bruto? "A Fornicação e o prazer", diz São Jerônimo, "pervertem a compreensão e transformam os homens em bestas". Nos voluptuosos e impuros, são literalmente verificadas as palavras de Davi: "O homem não permanece com o seu esplendor, é como animal que perece."- Salmo 48:13. São Jerônimo diz que não há nada mais vil e degradante, que alguém deixar-se ser conquistado pela carne. "Nihil vilius quam vinci a carne". Poderia ser um pequeno mal se esquecer de Deus e bani-lo da alma, para poder dar ao corpo uma satisfação vil, da qual você sentirá vergonha, quando acabar? O Senhor reclama disso por meio de Ezequiel: “Por isso, assim diz o Senhor Javé: Dado que te esqueceste de Mim e Me voltaste as costas, agora carrega também a tua devassidão e as tuas prostituições” - Ezequiel 23:35. Santo Tomás diz que, devido a todos os vícios, mas especialmente pelo vicio da impureza, os homens são lançados para longe de Deus. "Per luxuriam maxime recedit a Deo".
Além disso, os pecados de impureza, em virtude do seu grande número, são um mal imenso. Um blasfemador nem sempre blasfema, mas só quando está bêbado ou quando é provocado pela ira. O assassino, cujo trabalho é matar os outros, em geral não comete mais que oito ou dez homicídios. Mas os impuros são culpados de uma torrente incessante de pecados, por pensamentos, por palavras, por olhares, por complacências, e por toques, de modo que, quando vão à confissão, eles acham impossível dizer o número de pecados que cometeram contra a pureza. Mesmo durante o sono, o diabo lhes representa objetos obscenos, de modo que ao acordar, eles se deleitem com eles, e porque se fizeram escravos do inimigo, eles obedecem e aprovam as suas sugestões, porque é fácil cair no hábito deste pecado. Para os outros pecados, como a blasfêmia, a difamação e os assassinatos, os homens não estão propensos, mas para este vício, a natureza os inclina. Por isso, Santo Tomás diz que não há pecador tão pronto a ofender a Deus, como o devoto da luxúria, em toda ocasião que lhe ocorre. "Nullus ad Dei contemptum promptior". O pecado da impureza traz em sua formação os pecados da difamação, do roubo, do ódio, e de gostar de suas abominações imundas. Além disso, normalmente envolve a malícia do escândalo. Outros pecados, tais como uma blasfêmia, um perjúrio, um assassinato, criam horror naqueles que os testemunham, mas este pecado induz os outros, que são carnais, a cometê-lo, ou, pelo menos, a cometê-lo com menos horror.
"Totum hominem", diz São Cipriano, "agit in triumphum libidinis". Por meio da luxúria, o Diabo triunfa sobre o homem inteiro, sobre seu corpo e sobre sua alma, sobre sua memória, enchendo-a com a lembrança de prazeres impuros, a fim de fazê-lo gostar deles; sobre o seu intelecto, para fazê-lo desejar ocasiões de cometer o pecado; sobre a vontade, fazendo-o amar as impurezas como seu fim último, e como se não houvesse Deus. “Eu havia feito um pacto com meus olhos: não desejaria olhar nunca para uma virgem. Que parte me daria Deus lá do alto.” - Jó 31:1-2. Jó tinha medo de olhar para uma virgem, porque ele sabia que se consentisse com um mau pensamento, Deus não deveria ter parte com ele. De acordo com São Gregório, a partir da
impureza surgem a cegueira do entendimento, a destruição, o ódio a Deus e o desespero quanto à vida eterna. Santo Agostinho diz que, embora os impuros possam envelhecer, o vício da impureza não envelhece neles. Por isso, Santo Tomás diz que não há pecado em que o Diabo se deleite tanto como neste pecado, porque não há outro pecado a que a natureza se apegue com tanta tenacidade. Ela adere ao vício da impureza tão firmemente, que o apetite por prazeres carnais se torna insaciável. Vá agora, e diga que o pecado da impureza não é mais que um pequeno mal. Na hora da morte, você não dirá isso, todos os pecados dessa espécie lhe aparecerão como um monstro do inferno. Você não será capaz de dizê-lo ante o Juízo de Jesus Cristo, que lhe dirá o que o Apóstolo já lhe disse, "Nenhum fornicador, ou impuro... terá herança no reino de Cristo e de Deus."- Efésios 5:5. O homem que viveu como um animal, não merece assentar-se entre os anjos.
Caríssimos irmãos, continuemos a orar a Deus para nos livrar desse vício, senão perderemos nossas almas. O pecado da impureza traz com ele a cegueira e a obstinação. Todos os vícios produzem sombras no entendimento, mas a impureza produz em maior grau do que todos os outros pecados. "A fornicação, o vinho e a embriaguez acabam com o raciocínio." - Oséias 4:11. O vinho priva-nos da compreensão e da razão, o mesmo faz a impureza. Por isso, Santo Tomás diz que o homem que se entrega aos prazeres impuros, não vive de acordo com a razão. "In nullo procedit secundum judicium rationis". Ora, se os impuros estão privados da luz e já não veem o mal que fazem, como poderão odiar esse mal e mudar de vida? O profeta Oséias diz que, estando cegos devido a sua própria lama, eles nem sequer pensam em voltarem-se para Deus; porque as suas impurezas tiram-lhes todo o conhecimento de Deus. “Seu proceder não lhes permite voltarem ao seu Deus, porque um espírito de prostituição os possui; eles desconhecem o Senhor.” - Oséias 5:4. Por isso, São Lourenço Justiniano disse que este pecado faz os homens se esquecerem de Deus. “Os prazeres da carne induzem ao esquecimento de Deus". E São João Damasceno ensina que "o homem carnal não pode olhar para a luz da verdade”. Assim, os lascivos e voluptuosos não entendem o que quer dizer graça de Deus, julgamento, inferno e eternidade. "Caiu fogo sobre eles, e não viram mais o sol." - Salmo 57:9. Alguns desses cegos meliantes vão tão longe a ponto de dizer que o adultério não é em si pecaminoso. Eles dizem que ele não foi proibido na Antiga Lei, e em apoio a esta doutrina execrável, eles invocam as palavras do Senhor a Oséias: "Vai e desposa uma mulher dada ao adultério, e aceita filhos adulterinos." - Oséias 1:2. Em resposta, digo que Deus não permitiu a Oséias cometer adultério, mas desejava que ele se casasse com uma mulher culpada de adultério, e os filhos deste casamento eram chamados filhos adulterinos, porque sua mãe tinha sido culpada desse crime. De acordo com São Jerônimo, esse é o significado das palavras do Senhor a Oséias. O santo doutor diz: "Id circo fornicationis appellandi sunt filii, quod sunt de meretrice generati". Mas o adultério sempre foi proibido, sob pena de pecado mortal, na Velha
como na Nova Lei. São Paulo diz: “Nenhum fornicador, ou impuro... terá herança no reino de Cristo e de Deus." Efésios 5:5. Perceba a impiedade para a qual a cegueira de tais pecadores os carrega! Por causa desta cegueira, embora eles venham aos sacramentos, suas confissões são nulas por falta de verdadeiro arrependimento, porque como será possível para eles terem verdadeiro arrependimento, quando não conhecem nem detestam seus pecados?
O vício da impureza também traz consigo a obstinação. Para vencer as tentações, especialmente contra a castidade, a oração contínua é necessária. “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação. Pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca.” - Marcos 14:38. Mas como os impuros, que estão sempre procurando novas tentações, poderão orar a Deus para livrá-los da tentação? Eles às vezes, como Santo Agostinho confessou de si mesmo, abstém-se da oração, devido ao medo de serem ouvidos e curados da doença, que eles desejam que não acabe. "Eu temia", disse o santo, “que Vós irieis em breve ouvir-me e curar-me do pecado da concupiscência, que eu desejava ver saciado, em vez de extinto”. São Pedro chama este vício de pecado insaciável. "Têm os olhos cheios de adultério e são insaciáveis no pecar." – 2 Pedro 2:14. A impureza é chamada de um pecado insaciável por conta da obstinação que ela induz. Alguns viciados nela dizem: Eu sempre confesso este pecado. Tanto pior, porque, como você sempre recai no pecado, essas confissões servem para fazer você perseverar no pecado. O medo da punição é diminuído, dizendo: Eu sempre confesso este pecado. Se você pensava que esse pecado certamente merecia o Inferno, você dificilmente diria: eu não vou desistir, eu não me importo de ser condenado. Mas o diabo engana você. Ele diz: Cometa esse pecado depois você o confessará. Mas, para fazer uma boa confissão de seus pecados, você deve ter verdadeira tristeza de coração e um firme propósito de não pecar mais. Onde estão essa tristeza e esse firme propósito de emenda, se você sempre volta ao vômito? Se você tivesse essas disposições, e tivesse recebido a graça santificante em sua confissão, você não teria recaído, ou pelo menos você deveria ter se abstido por um tempo considerável antes de recair. Você sempre caiu no pecado, em oito ou dez dias, e talvez em um tempo menor, após a confissão. Que sinal é esse? É um sinal de que você estava sempre em inimizade com Deus. Se um homem doente imediatamente vomita o remédio que ele toma, é um sinal de que a doença é incurável.
São Jerônimo diz que o vício da impureza, quando habitual, cessará quando o infeliz homem que se entrega a ele for lançado no fogo do inferno. "Oh, fogo infernal, luxúria, cujo combustível é a gula, cujas faíscas são as breves conversas, cujo fim é o inferno". Os impuros se tornam como o abutre que se deixar ser morto pelo caçador em vez de abandonar a podridão dos corpos de que se alimenta. Foi o que aconteceu a uma jovem, que, depois de ter vivido com o hábito do pecado com um rapaz, caiu doente, e pareceu se converter. Na hora da morte, ela pediu a seu confessor para sair e conversar com o rapaz, a fim de exortá-lo a mudar de vida com a visão de sua morte. O confessor muito imprudentemente deu a permissão, e disse-lhe o que
deveria dizer a seu cúmplice em pecado. Mas escute o que aconteceu. Logo que ela o viu, esqueceu sua promessa ao confessor e a exortação a dar ao jovem. E o que ela fez? Ela levantou-se, sentou-se na cama, esticou os braços para ele, e disse: Amigo, eu sempre te amei, e mesmo agora, no fim da minha vida, eu te amo, eu vejo que por você eu irei para o inferno, mas eu não me importo, eu estou disposta, por seu amor, a ser condenada. Após estas palavras, ela caiu de costas na cama e expirou. Esses fatos são relatados pelo Padre Segneri. Oh! Quão difícil é para uma pessoa que contraiu o hábito deste vício mudar de vida e voltar-se sinceramente a Deus! Quão difícil é para essas pessoas não caírem no inferno, como a infeliz jovem de quem acabamos de falar.


Segundo Ponto

Ilusão daqueles que dizem que Deus se apieda deste pecado


Os adeptos da luxúria dizem que Deus se apieda deste pecado, mas não é isso o que diz Santo Tomás de Villanova. Ele diz que nas Sagradas Escrituras nós não lemos sobre qualquer pecado tão severamente castigado como o pecado da impureza. "Luxuriae facinus prae aliis punitum legimus" - Sermão 4. Encontramos nas Escrituras que em punição a este pecado, um dilúvio de fogo desceu do céu sobre quatro cidades e, em um instante, consumiu não só os habitantes, mas até as pedras. "O Senhor fez então cair sobre Sodoma e Gomorra uma chuva de enxofre e de fogo, vinda do Senhor, do céu. E destruiu essas cidades e toda a planície, assim como todos os habitantes das cidades e a vegetação do solo." - Gênesis 19:24-25. São Pedro Damião relata que um homem e uma mulher que haviam pecado contra a pureza foram encontrados queimados e negros como carvão.
Salviano escreve que era em castigo ao pecado de impureza que Deus enviou à Terra o dilúvio universal, que foi causado por contínua chuva durante quarenta dias e quarenta noites. Neste dilúvio, as águas subiram quinze côvados acima dos topos das montanhas mais altas, e apenas oito pessoas, contando com Noé, foram salvas na arca. O resto dos habitantes da Terra, que eram mais numerosos do que os que existem hoje, foram punidos com a morte em
castigo ao vício da impureza. Notem as palavras do Senhor ao falar deste castigo que Ele infligiu por causa deste pecado. "Meu espírito não permanecerá para sempre no homem, porque todo ele é carne." - Gênesis 6:3. "Ou seja", diz Nicolau de Lira, "profundamente envolvidos em pecados carnais". O Senhor acrescentou: "Porque eu me arrependo de tê-los criado." - Gênesis 6:7. A indignação de Deus não é como a nossa, que encobre a mente e nos leva a excessos; Sua ira é um julgamento perfeitamente justo e tranquilo, pelo qual Deus castiga e repara as desordens do pecado. Mas para nos fazer compreender a intensidade de Seu ódio ao pecado da impureza, Ele Se representa como arrependido por ter criado o homem, que o ofendeu tão gravemente por este vício. Nós, nos dias de hoje, vemos mais penas temporais graves infligidas contra esse pecado, do que contra qualquer outro. Vá aos hospitais, e ouça os gritos de tantos rapazes que, em punição a suas impurezas, são obrigados a submeter-se aos mais severos tratamentos e às mais dolorosas operações, e que, se escapam da morte, ficam, de acordo com a ameaça divina, fracos e sujeitos à dor mais excruciante para o resto de suas vidas. "Dado que te esqueceste de Mim e Me voltaste as costas, agora carrega também a tua devassidão e as tuas prostituições."- Ezequiel 23:35.
São Remígio escreve que, excetuadas as crianças, o número de adultos que são salvos é pequeno, por causa dos pecados da carne. "Exceptis parvulis ex adultis propter vitiam carnis pauci salvantur". Em conformidade com esta doutrina, foi revelado a uma santa alma que como o orgulho encheu o inferno de demônios da mesma forma a impureza o enche de homens. Santo Isidoro atribui este motivo: ele diz que não há nenhum vício que tanto escraviza os homens ao Diabo como a impureza. "Magis per luxuriam, humanum genus subditur diabolo, quam per aliquod aliud" - Santo Isidoro. Por isso, Santo Agostinho diz que, com relação a este pecado, o combate é comum, e a vitória rara. Assim, por causa deste pecado, o inferno está cheio de almas.
Tudo o que eu disse sobre este assunto, não foi para que as pessoas afligidas pelo vício da impureza fiquem desesperadas, mas para que possam ser curadas. Vamos, então, estudar os remédios. Existem dois grandes remédios, a oração e a fuga das ocasiões perigosas. A oração, diz São Gregório de Nissa, é a salvaguarda da castidade. "Oratio pudicitiae praesidium et tutamen est". E antes dele, Salomão, falando de si mesmo, disse a mesma coisa. "Sabendo que jamais teria conquistado a continência, se Deus não ma tivesse concedido ... voltei-me então para o Senhor e supliquei-lhe." - Sabedoria 8:21. Assim, a nós é impossível vencer este vício sem a ajuda de Deus. Por isso, tão logo a tentação contra a castidade se apresente, a solução é se voltar de imediato à ajuda de Deus e repetir várias vezes os santíssimos nomes de Jesus e Maria, que têm uma força especial para banir os maus pensamentos desse tipo. Eu disse imediatamente, sem ouvir ou começar a discutir com a tentação. Quando um mau pensamento ocorre na mente, é necessário removê-lo imediatamente, como se fosse uma centelha que voa saindo do fogo, e imediatamente invocar a ajuda de Jesus e Maria.
Quanto à fuga das ocasiões perigosas, São Filipe Néri costumava dizer, que os covardes - ou seja, aqueles que correm das ocasiões – recebem a vitória. Portanto, você deve, em primeiro lugar, ser cauteloso com os olhos e deve abster-se de olhar para as moças. Caso contrário, diz Santo Tomás, você dificilmente poderá evitar este pecado. Por isso, Jó disse: “Eu havia feito um pacto com meus olhos: não desejaria olhar nunca para uma virgem.” - Jó 31:1. Ele tinha medo de olhar para uma virgem, porque a partir de olhares é fácil passar aos desejos e dos desejos aos atos. São Francisco de Sales costumava dizer que olhar para uma mulher não faz tanto mal quanto olhar para ela uma segunda vez. Se o diabo não teve a vitória de primeira, ele a terá na segunda vez. E, se é necessário abster-se de olhar para as mulheres, é muito mais necessário evitar a conversa com elas. "Não te sentes no meio das mulheres." - Eclesiástico 42:12. Devemos estar convencidos de que, para evitar ocasiões deste pecado, nenhuma precaução é suficiente. Por isso, é necessário estarmos sempre atentos e correr das ocasiões. "O sábio é precavido e afasta-se do mal; o insensato segue em frente sem pensar.” - Provérbios 14:16 Um homem sábio é tímido e corre para longe, um insensato é confiante e cai.

A SANTÍSSIMA TRINDADE

A IMUTABILIDADE DAS PESSOAS DIVINAS

Acabamos de descrever, como pudemos, as processões divinas, ou seja, os atos com os quais o Filho é engendrado pelo Pai e o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Tentaremos agora explicar como esses atos são eternos. O que isto quer dizer?

Isto quer dizer que não devemos considerar a geração do Filho e a processão do Espírito Santo como atos passados, mas como atos presentes, que não passam nem jamais passarão. Não podemos dizer, com todo rigor, que o Pai gerou o Filho. Ele o gera agora, hoje, e este hoje permanece sempre, ele não tem nem véspera nem dia seguinte, é o que chamamos de eternidade. A eternidade está toda em um instante, mas num instante que não passa; e é nesse instante imóvel que se produzem as processões divinas.

Assim, o Pai engendra eternamente seu Filho; o Pai e o Filho produzem eternamente o Espírito Santo. Isso não quer dizer que as processões divinas estão sendo realizadas como algo ainda não terminado, incompleto, mas no sentido que, sendo já perfeitas e terminadas, elas se realizam sempre, por atos que não têm fim.

Imaginemos um homem que, eternamente, se olhasse num espelho. Sua imagem estaria sempre nele, nunca deixaria de se reproduzir ali. Assim o Pai não cessa de engendrar seu Filho, e o Espírito Santo não cessa de proceder dos dois. No céu, nossa beatitude consistirá justamente em contemplar para sempre estes atos divinos, que são a vida de Deus nele mesmo, vida imutável e inalterável, que pode ser chamada de eterno movimento no eterno repouso.

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FONTE: EMMANUEL-ANDRÉ, Pe. O mistério da Santíssima Trindade. Niterói: Permanência, 2006. p.18-19.

24 de abril de 2011

Regina cœli, lætare! Alleluia!

REGINA CŒLI

V. Regina cœli, lætare, alleluia.
R. Quia quem meruisti portare, alleluia.

V. Resurrexit, sicut dixit, alleluia.
R. Ora pro nobis Deum, alleluia.

V. Gaude et lætare, Virgo Maria, alleluia.
R. Quia surrexit Dominus vere, alleluia.

Oremus:
Deus, qui per resurrectionem Filii tui, Domini nostri Iesu Christi, mundum lætificare dignatus es: præsta, quæsumus; ut per eius Genetricem Virginem Mariam, perpetuæ capiamus gaudia vitæ. Per eumdem Christum Dominum nostrum. Amen.



Regina Cœli - Canto Gregoriano - Monges da Abadia de Solesmes


Regina Cœli - Polifonia de Dom Pedro de Cristo


V. Rainha do céu, alegrai-vos! Aleluia!
R. Porque quem merecestes trazer em vosso seio. Aleluia!
V. Ressuscitou como disse! Aleluia!
R. Rogai a Deus por nós! Aleluia!

V. Exultai e alegrai-Vos, ó Virgem Maria! Aleluia!
R. Porque o Senhor ressuscitou verdadeiramente! Aleluia.

Oremos. Ó Deus, que Vos dignastes alegrar o mundo com a Ressurreição do Vosso Filho Jesus Cristo, Senhor Nosso, concedei-nos, Vos suplicamos, que por sua Mãe, a Virgem Maria, alcancemos as alegrias da vida eterna. Por Cristo, Senhor Nosso. Amém.
RESURREXI, ET ADHUC TECUM SUM ALLELUIA:

POSUISTI SUPER ME MANUM TUAM, ALLELUIA:

MIRABILIS FACTA EST SCIENTIA TUA, ALLELUIA, ALLELUIA.

DOMINE, PROBASTI ME ET COGNOVISTI ME:

TU COGNOVISTI SESSIONEM MEAM ET RESURRECTIONEM MEAM.








Ressurgi e ainda estou convosco, aleluia: colocastes sobre mim a vossa mão, aleluia; admirável se manifestou a vossa ciência, aleluia, aleluia. Sl. Vós, Senhor, me provastes e conhecestes, Vós conheceis o dia da minha morte e da minha ressurreição. Sl. CXXXVIII, 18 e 5-6.

DOMINGO DA RESSURREIÇÃO

A ressurreição de Jesus Cristo e a esperança do cristão.

Haec dies quam fecit Dominus: exultemus et laetemur in ea – “Este é o dia que fez o Senhor; regozijemo-nos e alegremo-nos nele” (Sal. 117, 24).

Sumário. Façamos um ato de fé viva na ressurreição de Jesus Cristo; cheguemo-nos a Ele em espírito para Lhe beijar as chagas glorificadas, e regozijemo-nos com Ele por ter saído do sepulcro vencedor da morte e do inferno. Lembrando-nos em seguida que a ressurreição de Jesus é o penhor e a norma da nossa, avivemos nossa esperança, e ganhemos ânimo para suportar com paciência as tribulações da vida presente. Lembremo-nos, porém, que para ressuscitarmos gloriosamente com Jesus Cristo devemos primeiro morrer com Ele a todos os afetos terrestres,

I. O grande mistério que em todo o tempo pascal, e especialmente no dia de hoje, deve ocupar as almas amantes de Deus, e enchê-las de dulcíssima esperança, é a felicidade de Jesus ressuscitado. Já meditamos que Jesus, no tempo de sua Paixão, perdeu inteiramente as quatro espécies de bens que o homem pode possuir na terra. Perdeu os vestidos até a extrema nudez; perdeu a reputação pelos desprezos mais abomináveis; perdeu a florescente saúde pelos maus tratos; perdeu finalmente a vida preciosíssima pela morte mais horrível que se pode imaginar. Agora porém, saindo vivo do fundo do sepulcro, recebe com lucro abundantíssimo tudo quanto perdeu.

O que era pobre, ei-Lo feito riquíssimo e Senhor de toda a terra. O que a si próprio se chamava verme e opróbrio dos homens, ei-Lo coroado de glória, assentado à direita do Pai. O que pouco antes era o Homem das dores e provado nos sofrimentos, ei-Lo dotado de nova força e de uma vida imortal e impassível. Finalmente o que tinha sido morto do modo mais horrível, ei-Lo ressuscitado pela sua própria virtude, dotado de sutileza, de agilidade, de clareza, feito as primícias de todos os que dormem com a esperança de ressuscitarem também um dia à imitação de Cristo: Christus resurrexit a mortuis, primitiae dormientium (1)

Detenhamos-nos aqui para tributar a nosso Chefe divino as devidas homenagens. Façamos um ato de fé viva na sua ressurreição, e cheguemo-nos a ele para beijarmos em espírito os sinais de suas cinco chagas glorificadas. Alegremo-nos com ele, por ter saído do sepulcro, vencedor da morte e do inferno, e digamos com todos os santos: “O Cordeiro que foi imolado por nós, é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a fortaleza, a honra, a glória e a bênção.” (2)

II. Regozijemo-nos com Jesus Cristo; mas regozijemo-nos também por nós mesmos, porquanto a sua ressurreição é o penhor e a norma da nossa, se ao menos, como diz São Paulo, morrermos primeiro interiormente ao afeto das coisas terrestres: Si commortui sumus, et convivemus (3) – “Se morrermos com ele, com ele também viveremos”. Ó doce esperança! “Virá a hora em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus” (4); e então pelo poder divino retomaremos o mesmo corpo que agora temos, mas formoso e resplandecente como o sol. Nós também ressuscitaremos!

A esperança da futura ressurreição é o que consolava o santo Jó no tempo de sua provação. “Eu sei”, disse ele, e nós, digamos o mesmo no meio das cruzes e tribulações da vida presente: “eu sei que o meu Redentor vive, e que no derradeiro dia surgirei da terra; e serei novamente revestido de minha pele, e na minha própria carne verei a meu Deus... esta minha esperança está depositada no meu peito.” (5)

Meu amabilíssimo Jesus, graças Vos dou que pela vossa morte adquiristes para mim o direito à posse de tão grande bem, e hoje pela vossa ressurreição avivais a minha esperança. Sim, espero ressurgir no último dia, glorioso como Vós, não tanto por meu próprio interesse, como para estar para sempre unido convosco, e louvar-Vos e amar-Vos eternamente. É verdade que pelo passado Vos ofendi com os meus pecados; mas agora arrependo-me de todo o coração e pela vossa ressurreição peço-Vos que me livrais do perigo de recair na vossa desgraça: Per sanctam resurrectionem tuam, libera me, Domine – “Pela vossa santa ressurreição, livrai-me, Senhor”.

“E Vós, Eterno Pai, que no dia presente nos abristes a entrada da eternidade bem-aventurada, pelo triunfo que vosso Unigênito alcançou sobre a morte: aumentai com o Vosso auxílio os desejos que a vossa inspiração nos instila” (6). Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo e de Maria Santíssima.

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1. 1 Cor. 15, 20.
2. Ap 5,12.
3. 2 Tim. 2, 11.
4. Io. 5, 28.
5. Iob 19, 25.
6. Or.festi curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 1 - 3.)

23 de abril de 2011

PLANGENT EUM QUASI UNIGENITUM
QUIA INNOCENS DOMINUS OCCISUS EST

Sepultamento do Senhor. Fra Angelico - 1468-40.
Chorá-Lo-ão como a um primogênito, porque foi morto o Senhor, inocente.

SÁBADO SANTO - TARDE

Soledade de Maria Santíssima depois da sepultura de Jesus.

Posuit me desolatam, tota die maerore confectam – “Pôs-me em desolação, afogada em tristeza todo o dia” (Thren. 1, 13).

Sumário: Ah, que noite de dor foi para Maria a que se seguiu à sepultura do seu divino Filho! A desolada Mãe volve os olhos em torno de si, e já não vê o seu Jesus, mas representam-se-lhe diante dos olhos todas as recordações da bela vida e da desapiedada morte do Filho. Como se não pudesse crer em seus próprios olhos: Filho, pergunta a João, aonde está o teu mestre? E à Madalena: Filha, dize-me onde está o teu dileto?... Minha alma, roga a Santíssima Virgem, que te admita a chorar consigo. Ela chora por amor, e tu, chora pela dor dos teus pecados.

I. Diz São Boaventura que, depois da sepultura de Jesus, as mulheres piedosas velaram a Bem-aventurada Virgem com um manto lúgubre, que lhe cobria todo o rosto. Acrescenta São Bernardo, que na volta do sepulcro para a sua casa a pobre Mãe andava tão aflita e triste, que comovia muitos a chorarem, ainda que involuntariamente: Multos etiam invitos ad lacrimas provocabat. De modo que, por onde passava, todos aqueles que a encontravam, não podiam conter as lágrimas. Os santos discípulos e as mulheres que a acompanhavam, quase que choravam mais as penas de Maria do que a perda de seu Senhor.

Quando a Virgem passou por diante da Cruz, banhada ainda com o sangue do seu Jesus, foi a primeira a adorá-la. Ó santa Cruz, disse então, eu te beijo e te adoro, já que não és mais madeiro infame, mas trono de amor e altar de misericórdia, consagrado com o sangue do Cordeiro divino, que em ti foi imolado pela salvação do mundo. – Deixa depois a Cruz e volta à sua casa. Chegada ali, a aflita Mãe volve os olhos em torno, e não vê mais o seu Jesus; em vez da presença do querido Filho, apresentam-se-lhe aos olhos todas as recordações da sua bela vida e da sua desapiedada morte.

Recorda-se dos abraços dados ao Filho no presépio de Belém, da conversação com ele por trinta anos na casa de Nazaré; recorda-se dos mútuos afetos, dos olhares cheios de amor, das palavras de vida eterna saídas daquela boca divina. E depois se lhe representa a cena funesta presenciada naquele mesmo dia; vêem-lhe à memória os cravos, os espinhos, as carnes dilaceradas do Filho, as chagas profundas, os ossos descarnados, a boca aberta, os olhos escurecidos. E com tão funesta recordação, quem poderá dizer qual tenha sido a dor, a desolação de Maria?

II. Ah, que noite de dor foi para a Bem-aventurada Virgem aquela que se seguiu à sepultura do seu divino Filho! Voltando-se a dolorosa Mãe para São João, perguntou-lhe com voz triste: Ah! Filho. Onde está o teu mestre? Depois perguntou à Madalena: Filha, dize-me onde está o teu dileto? Ó Deus! Quem no-Lo tirou?... Chora Maria, e todos os que estão com ela choram também. E tu, minha alma, não choras? Ah! Volta-te a Maria, e roga-lhe que te admita consigo a chorar. Ela chora por amor, e tu, chora pela dor de teus pecados: Fac ut tecum lugeam.

Minha aflita Mãe, não vos quero deixar só a chorar; não, quero acompanhar-vos também com as minhas lágrimas. Eis a graça que hoje vos peço; alcançai-me uma memória contínua, junto com uma terna devoção para com a paixão de Jesus e a vossa; afim de que todos os dias que me restam de vida, não me sirvam senão para chorar as vossas dores e as do meu Redentor. Espero que, na hora de minha morte, essas dores me darão confiança e força para não desesperar à vista das ofensas que tenho feito ao meu Senhor. Elas devem impetrar-me o perdão, a perseverança e o paraíso.

E Vós, + “ó meu Senhor Jesus Cristo, que para resgatar o mundo quisestes nascer, receber a circuncisão, ser condenado pelos judeus, traído por Judas com um ósculo, acorrentado, levado para o sacrifício como inocente cordeiro, arrastado com tanta ignomínia diante de Anás, Caifás, Pilatos e Herodes, acusado por falsas testemunhas, flagelado, esbofeteado, carregado de opróbrios, coberto de escarros, coroado de espinhos, ferido com uma cana, vendado, despojado de vossos vestidos, pregado e levantado na cruz entre dois ladrões, abeberado de fel e vinagre e traspassado por uma lança; suplico-Vos, ó Senhor, em nome dessas santas penas que venero, ainda que indigno, suplico-Vos por vossa santa cruz e morte, livrai-me do inferno e dignai-Vos levar-me para onde levastes o bom ladrão crucificado convosco, ó meu Jesus, que viveis e reinais com o Pai e o Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Assim seja.”(1) (*I 252)

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1. Ajuntando-se 5 Pais-Nosso, Aves Maria, Glória ao Pai e esta oração, pode-se ganhar uma indulgência de 300 dias uma vez por dia.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 423 - 425.)

SÁBADO SANTO - MANHÃ

Sétima Dor de Maria Santíssima – Sepultura de Jesus.

Involvit sindone, et posuit eum in monumento – “Amortalhou-O no sudário, e depositou-O no sepulcro” (Marc. 15, 46).

Sumário. Consideremos como a Mãe dolorosa quis acompanhar os discípulos que levaram Jesus morto à sepultura. Depois de O ter acomodado com suas próprias mãos, diz um último adeus ao Filho e ao sepulcro, e volta para casa, deixando o coração sepultado com Jesus. Nós também, à imitação de Maria, encerremos o nosso coração no santo tabernáculo, onde reside Jesus, já não morto, mas vivo e verdadeiro como está no céu. Para isso é mister que o nosso coração esteja desapegado de todas as coisas da terra.

I. Quando uma mãe assiste a seu filho que padece e morre, sem dúvida ela sente e sofre todas as penas do filho; mas quando o filho atormentado, já morto, deve ser sepultado e a aflita mãe deve despedir-se dele, ó Deus! O pensamento de o não tornar a ver é uma dor que excede todas as outras dores. Essa foi a última espada que traspassou o coração aflito de Maria.

Para melhor considerá-la, voltemos ao Calvário e observemos atentamente a aflita Mãe, que ainda tem abraçado seu Jesus morto e se consome de dor ao beijar-lhe as chagas. Os santos discípulos, temendo que ela expirasse pela veemência da dor, animaram-se a tirar-lhe do regaço o depósito sagrado, para o sepultarem. Com violência respeitosa tiraram-lh’O dos braços, e embalsamand0-O com aromas, envolveram-No em um sudário adrede preparado. – Eis que já O levam à sepultura; já se põe em movimento o cortejo fúnebre. Os discípulos carregam o corpo exânime; inúmeros anjos do céu O acompanham; as santas mulheres O seguem e juntamente com elas vai a Mãe aflitíssima, acompanhando o Filho à sepultura.

Chegados que foram ao lugar destinado, a divina Mãe acomoda nele com suas próprias mãos o corpo sacrossanto; e, ó! Com quanta vontade Maria se sepultaria ali viva com seu Jesus! Quando depois levantaram a pedra para fechar o sepulcro, afigura-se-me que os discípulos do Salvador se voltaram para a Virgem com esta palavras: Eia, Senhora, deve-se fechar o sepulcro: tende paciência, vede pela última vez o vosso Filho e despedi-vos dEle. – Ah! Meu querido Filho (assim deve ter falado então a aflita Mãe), não te hei então de tornar a ver? Recebe, pois, nesta última vez que te vejo, recebe o último adeus de mim, tua afetuosa Mãe.

II. Finalmente os discípulos levantam a pedra e encerram no santo sepulcro o corpo de Jesus, aquele grande tesouro, a que não há igual nem na terra nem no céu. Diz São Boaventura, que a divina Mãe, antes de deixar o sepulcro, abençoou aquela sagrada pedra. E assim dando o último adeus ao Filho e ao sepulcro, volta para sua casa, mas deixa o seu coração sepultado com Jesus.

Sim, porque Jesus é todo o seu tesouro, e, como disse Jesus: Ubi thesaurus vester est, ibi et cor vestrum erit (1) – “Onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. E nós, onde teremos sepultado o nosso coração? Talvez nas criaturas? No lodo? E porque não o teremos sepultado com Jesus, o qual, bem que subido ao céu, contudo quis ficar, não morto, mas vivo, no Santíssimo Sacramento do altar, precisamente para ter consigo e possuir os nossos corações? Imitemos, pois, Maria; encerremos os nossos corações no santo Tabernáculo, para não mais o tornarmos a tomar. Entretanto, colocando-nos em espírito com a dolorosa Mãe junto ao sepulcro de Jesus, unamos os nossos afetos com os de Maria e digamos com amor:

Ó meu Jesus sepultado! Beijo a pedra que Vos encerra. Mas ressuscitastes ao terceiro dia. Ah! Pelos méritos de vossa gloriosa ressurreição, fazei com que no último dia eu ressuscite convosco na glória, para estar sempre unido convosco no céu, para Vos louvar e amar eternamente. Eu Vo-lo peço pela vossa paixão, e pela dor que sentiu a vossa querida Mãe, quando Vos acompanhou ao sepulcro. (*I 251.)

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1. Luc. 12, 34.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 420 - 422.)

22 de abril de 2011


IESUS ACETUM DIXIT:
CONSUMMATUM EST.
ET INCLINATO CAPITE TRADIDIT SPIRITUM

Crucifixão (detalhe) - Giotto di Bondone. 1290-1300.
Jesus, provando o vinagre, disse:
Tudo está consumado.
E, inclinando a cabeça, rendeu o espírito. (Jo. XIX, 30)



ECCE LIGNUM CRUCIS
IN QUO SALUS MUNDI PEPENDIT
VENITE ADOREMUS

Crucifixão do Senhor com o lanceiro São Longino e São Domingos. Fra Angélico 142?.
Eis o lenho da Cruz
No qual pendeu a Salvação do mundo
Vinde, adoremos.


POPULE MEUS, QUID FECISTI TIBI?
AUT IN QUO CONTRISTAVI TE?
EGO TE EXALTAVI MAGNA VIRTUTE
ET TU ME SUSPENDISTI IN PATIBULO CRUCIS

Lamentação sobre o Senhor morto. Fra Angélico - 1436.
Povo meu, que é que Eu te fiz?
Em que é que te contristei?
Eu socorri-te com grande poder
e tu suspendestes-me no patíbulo da Cruz.

SEXTA-FEIRA SANTA - TARDE

Sexta Dor de Maria Santíssima – Jesus é descido da Cruz.

Ioseph, deponens eum, involvit sindone – “José, depondo-O da cruz, O amortalhou no sudário” (Marc. 15, 46).

Sumário: Consideremos como, depois da morte do Senhor, dois dos seus discípulos, José e Nicodemos, o descem da cruz e O depõem nos braços da aflita Mãe, que com ternura O recebe e O aperta contra o peito. Se Maria fosse ainda capaz de dor, que pena sentiria vendo que os homens, tendo visto seu Filho morto por amor deles, continuam a maltratá-Lo com os seus pecados? Não atormentemos mais a nossa aflita mãe, e se pelo passado nós também a temos afligido com as nossas culpas, voltemos arrependidos ao Coração aberto de seu Jesus.

I. Temendo a Mãe dolorosa, que depois do ultraje da lançada outras injúrias fossem feitas a seu amado Filho, pede a José de Arimatéia, obtivesse de Pilatos o corpo de seu Jesus, afim de que ao menos morto O pudesse guardar e livrar dos ultrajes. Foi José ter com Pilatos e expôs-Lhe a dor e o desejo da aflita Mãe, e diz Santo Anselmo que a compaixão para com ela enterneceu Pilatos e o moveu a conceder-lhe o corpo do Salvador.

Eis que descem Jesus da cruz. Foi revelado a Santa Brígida que para o descimento encostaram à cruz três escadas. Primeiro, os santos discípulos despregaram as mãos e depois os pés, e os cravos foram entregues a Maria, como refere Metaphrastes. Depois, segurando um o corpo de Jesus por cima, e outro por baixo, o desceram da cruz. Bernardino de Bustis medita como a aflita Mãe se levanta sobre as pontas dos pés, e, estendendo os braços, vai receber o querido Filho; abraça-O e depois senta-se debaixo da cruz.

Ve a boca aberta e os olhos escurecidos; examina aquelas carnes dilaceradas, aqueles ossos descarnados; tira-Lhe a coroa e examina o estrago feito pelos espinhos naquela santa cabeça; observa as mãos e os pés traspassados, e diz: Ah, meu Filho! A que estado te reduziu o amor para com os homens! Que mal lhes fizeste para assim te maltratarem? Ah! Meu Filho, vê como estou aflita, olha-me e consola-me; mas já não me vês. Fala, dize-me uma palavra e consola-me; mas já não falas, porque estás morto... Ó espinhos cruéis, cravos atrozes, bárbara lança, como pudestes atormentar assim o vosso Criador? Mas, que espinhos, que cravos! Ah, pecadores, exclamava, assim tendes maltratado o meu Filho!

II. Ó Virgem Santíssima, depois que vós com tanto amor destes ao mundo o vosso Filho para a nossa salvação, eis que o mundo já vo-Lo restitui. – Mas, ó Deus! Como mo restituis tu? Dizia então Maria ao mundo. Dilectus meus candidus et rubicundus (1). Meu Filho era branco e vermelho, não pela cor, mas pelas chagas que lhe tens aberto. Ele era belo, agora, em vez de belo, é todo deforme; ele encantava com o seu aspecto, agora causa horror a quem o vê.

Assim se expressava então Maria e se queixava de nós. Mas se agora fosse ainda capaz de dor, que diria? E que pena sentiria, ao ver que os homens, depois da morte de seu Filho, continuam a maltratá-Lo e crucificá-Lo com os seus pecados? Não continuemos, pois, a atormentar esta dolorosa Mãe, e se pelo passado nós também a temos afligido com as nossas culpas, façamos o que ela mesma nos diz: Redite, praevaricatores, ad cor (2): Pecadores, voltai ao Coração ferido de meu Jesus; voltai arrependidos, e Ele vos acolherá. – Revelou a mesma Bem-aventurada Virgem a Santa Brígida, que ao Filho descido da cruz ela fechou os olhos, mas não pode fechar-Lhe os braços, dando com isso Jesus Cristo a entender que queria ficar com os braços abertos, para acolher todos os pecadores arrependidos, que voltam para Ele.

Ó Virgem dolorosa, ó alma grande nas virtudes e grande também nas dores, pois que tanto estas como aquelas nascem do grande incêndio de amor que tendes a Deus. Ah, minha Mãe! Tende piedade de mim, que não tenho amado a Deus e o tenho ofendido. As vossas dores me dão grande confiança para esperar o perdão. Mas isto não me basta; quero também amar o meu Senhor, e quem me pode alcançar isto melhor do que vós, que sois a Mãe do belo amor? Ah Maria! Vós consolais a todos; consolai-me também a mim. (*I 249.)

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1. Cant. 5, 10.
2. Is. 46, 8.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 418 - 420.)

SEXTA-FEIRA SANTA - MANHÃ

Morte de Jesus.

Et inclinato capite, tradidit spiritum – “E inclinando a cabeça, rendeu o espírito” (Io. 19, 30).

Sumário. Contempla como depois de três horas de agonia, pela veemência das dores, as forças faltam a Jesus; entrega o corpo ao próprio peso, deixa cair a cabeça sobre o peito, abre a boca e expira. Alma cristã, dize-me: não merece porventura todo o nosso amor um Deus que, para nos salvar da morte eterna, quis morrer no meio dos mais atrozes tormentos? Todavia, como são poucos os que amam e muitos os que, em vez de o amarem, lhe pagam com injúrias e ultrajes.

I. Considera que o nosso amável Redentor é chegado ao fim da sua vida. Amortecem-se-Lhe os olhos, o seu belo rosto empalidece, o coração palpita debilmente, e todo o sagrado corpo é lentamente invadido pela morte. Vinde, anjos do céu, vinde assistir a morte do vosso Deus. Vós, ó Mãe dolorosa, Maria, chegai-vos mais próxima à cruz, levantai os olhos para vosso Filho, e contemplai-O atentamente, porque está prestes a expirar.

Pater, in manus tuas commendo spiritum meum (1) – “Pai em vossas mãos entrego o meu espírito”. É esta a última palavra que Jesus profere com confiança filial e perfeita resignação com a vontade divina. Foi como se dissesse: Meu Pai, não tenho vontade própria; não quero nem viver nem morrer. Se é vossa vontade que eu continue a padecer sobre a cruz, eis-me aqui, estou pronto para obedecer; em vossas mãos entrego o meu espírito; fazei de mim segundo a vossa vontade. – Tomara que nós disséssemos o mesmo, quando temos alguma cruz, deixando-nos guiar pelo Senhor, conforme o seu agrado. Tomara que o repetíssemos especialmente no momento da morte! Mas para bem o fazermos então, devemos praticá-lo muitas vezes em nossa vida.

Entretanto, Jesus chama a morte, que por deferência não ousava aproximar-se do autor da vida, e lhe dá licença para lhe tirar a vida. E eis que finalmente, enquanto treme a terra, se abrem os túmulos e se rasga o véu do templo, eis que pela veemência da dor faltam as forças ao Senhor moribundo, baixa o calor natural, falha a respiração. Jesus abandona o corpo ao próprio peso, deixa cair a cabeça sobre o peito, abre a boca e expira: Et inclinato capite, tradidit spiritum (2). – Parti, ó bela alma do meu Salvador, parti e ide nos abrir o paraíso, fechado até agora, ide apresentar-Vos à Majestade divina, e alcançai-nos o perdão e a salvação.

As pessoas presentes, voltadas para Jesus Cristo, por causa da força com que proferiu as suas últimas palavras, contemplam-No com atenção silenciosa, vêem-No expirar, e notando que não se move mais, dizem: Morreu, morreu. Maria ouve que todos o dizem, e ela também exclama: Ah, Filho meu, já morreste; estais morto.

II. Morreu! Ó Deus! Quem é que morreu? O Autor da vida, o Unigênito de Deus, o Senhor do mundo. Ó morte, que fizeste pasmar o céu e a natureza! Um Deus morrer pelas suas criaturas! – Vem, minha alma, levanta os olhos e contempla esse Homem crucificado. Contempla o Cordeiro divino já imolado sobre o altar da dor; lembra-te de que Ele é o Filho dileto do pai Eterno, e que morreu pelo amor que te tem dedicado. Vê esses braços abertos para te acolherem; a cabeça inclinada para te dar o ósculo de paz; o lado aberto para te receber. Que dizes? Não merece ser amado um Deus tão bom e tão amoroso? Ouve o que do alto de sua cruz te diz o Senhor: Meu Filho, vê se há alguém no mundo que te tenha amado mais do que eu, teu Deus!

Ah meu Jesus, já que para minha salvação não poupastes a vossa própria pessoa, lançai sobre mim esse olhar afetuoso com que me olhastes um dia, quando estáveis em agonia sobre a cruz; olhai-me, iluminai-me, e perdoai-me. Perdoai-me em particular a ingratidão que tive para convosco no passado, pensando tão pouco na vossa paixão e no amor que nela me haveis mostrado. Dou-Vos graças pela luz que me concedeis de compreender através de vossas chagas e de vossos membros dilacerados, como por entre umas grades, o afeto tão grande e tão terno que ainda guardais para comigo.

Ai de mim, se depois de receber estas luzes deixasse de Vos amar, ou amasse outra coisa que não a Vós. Morra eu, assim Vos direi com São Francisco de Assis, morra eu por amor de vosso amor, ó meu Jesus, que Vos dignastes morrer por amor de meu amor. Ó Coração aberto de meu Redentor, ó morada feliz das almas amantes, não Vos dedigneis receber agora minha misera alma.

Ó Maria, ó Mãe de dores, recomendai-me a vosso Filho, a quem vedes morto sobre a cruz. Vede as suas carnes dilaceradas, vede o seu Sangue divino derramado por mim, e conclui disto quanto lhe agrada que lhe recomendeis a minha salvação. A minha salvação consiste em que eu O ame, e este amor vós mo deveis impetrar, mas um amor grande, um amor eterno. (*I 623)

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1. Luc. 23, 46.
2. Io. 19, 30.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 415 - 418.)

21 de abril de 2011

Passio Domini Nostri Iesu Christi Secundum Ioannem




Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (partitura gregoriana: DOWNLOAD)
(São João. XVIII, 1-40; XIX, 1-42)
...
In illo tempore: Egressus est Iesus cum discipulis suis trans torrentem Cedron, ubi erat hortus, in quem introivit ipse, et discipuli eius.
Sciebat autem et Iudas, qui tradebat eum, locum: quia frequenter Iesus convenerat illuc cum discipulis sui.
Iudas ergo cum accepisset cohortem, et a pontificibus et pharisaeis ministros, venit illuc cum laternis, et facibus, et armi.
Iesus itaque sciens omnia quae ventura erant super eum, processit, et dixit eis: Quem quaeritis? 
Responderunt ei: Iesum Nazarenum.Dicit eis Iesus: Ego sum. Stabat autem et Iudas, qui tradebat eum, cum ipsi. Ut ergo dixit eis: Ego sum: abierunt retrorsum, et ceciderunt in terram.
Iterum ergo interrogavit eos: Quem quaeritis? Illi autem dixerunt, Iesum Nazarenum.
Respondit Iesus: Dixi vobis, quia ego sum: si ergo me quaeritis, sinite hos abire.
Ut impleretur sermo, quem dixit: Quia quos dedisti mihi, non perdidi ex eis quemquam.
Simon ergo Petrus habens gladium eduxit eum: et percussit pontificis servum: et abscidit auriculam eius dexteram. Erat autem nomen servo Malchu.
Dixit ergo Iesus Petro: Mitte gladium tuum in vaginam. Calicem, quem didit mihi Pater, non bibam illum?
Cohors ergo, et tribunus, et ministri Iudaeorum comprehenderunt Iesum, et ligaverunt eum: et adduxerunt eum ad Annam primum; erat autem socer Caiphae, qui erat pontifex anni illiu.
Erat autem Caiphas, quo consilium dederat Iudaeis: Quia expedit unum hominem mori pro populo. Sequebatur autem Iesum Simon Petrus, et alius discipulu. Discipulus autem ille erat notus pontifici, et introivit cum Iesu in atrium pontifici Petrus autem stabat ad ostium fori.
Exivit ergo discipulus alius, qui erat notus pontifici, et dixit ostiariae: et introduxit Petrum. Dicit ergo Petro ancilla ostiaria: Numquid et tu ex discipulis es hominis istius?Dicit ille: Non sum.
Stabant autem servi, et ministri ad prunas, quia frigus erat, et calefaciebant se. Erat autem cum eis et Petrus stans, et califaciens se.
Pontifex ergo interrogavit Iesum de discipulis suis, et de doctrina eius.
Respondit ei Iesus: Ego palam locutus sum mundo: ego semper docui in synagoga, et in templo, quo omnes Iudaei conveniunt: et in occulto locutus sum nihil. Quid me interrogas? interroga eos, qui audierunt quid locutus sim ipsis: ecce hi sciunt quae dixerim ego. Haec autem cum dixisset, unus assistens ministrorum dedit alapam Iesu, dicens: Sic respondes pontifici?
Respondit ei Iesus: Si male locutus sum, testimonium perhibe de malo: si autem bene, quid me caedis?
Et misit eum Annas ligatum ad Caipham pontificem. Erat autem Simon Petrus stans, et calefaciens se. Dixerunt ergo ei: Numquid et tu ex discipulis eius es? Negavit ille, et dixerit: Non sum.
Dicit ei unus ex servis pontificis, cognatus eius, cuius abscidit Petrus auriculam: Nonne ego te vidi in horto cum illo?
Iterum ergo negavit Petrus: et statim gallus cantavit.
Adducunt ergo Iesum a Caipha in praetorium. Erat autem mane: et ipsi non introierunt in praetorium, ut non contaminarentur, sed ut manducarent pascha.
Exivit ergo Pilatus ad eos foras, et dixit: Quam accusationem affertis adversus hominem hunc? Responderunt, et dixerunt ei: Si non esset hic malefactor, non tibi tradidissemus eum.
Dixit ergo eis Pilatus: Accipite eum vos, et secundum legem vestram iudicate eum. Dixerunt ergo ei Iudaei: Nobis non licet interficere quemquam.
Ut sermo Iesu impleretur, quem dixit, significans qua morte esset morituru Introivit ergo iterum in praetorium Pilatus et vocavit Iesum, et dixit ei: Tu es Rex Iudaeorum?
Respondit Iesus: A temetipso hoc dicis, an alii dixerunt tibi de me?
Respondit Pilatus: Numquid ego Iudaeus sum? Gens tua, et pontifices tradiderunt te mihi: quid fecisti? Respondit Iesus: Regnum meum non est de hoc mundo. Si ex hoc mundo esset regnum meum, ministri mei utique decertarent ut non traderer Iudaeis: nun autem regnum meum non est hinc.
Dixit itaque est Pilatus: Ergo Rex es tu?
Respondit Iesus: Tu dicis quia Rex sum ego. Ego in hoc natus sum, et ad hoc veni in mundum, ut testimonium perhibeam veritati: omnis, qui est ex veritate, audit vocem meam. Dicit ei Pilatus: Quid est veritas? Et cum hoc dixisset, iterum exivit ad Iudaeos, et dicit eis: Ego nullam invenio in eo causam.
Est autem consuetudo vobis ut unum dimittam vobis in Pasha: vultis ergo dimittam vobis Regem Iudaeorum?
Clamaverunt ergo rursum omnes, dicentes: Non hunc, sed Barabbam. Erat autem Barabbas latro.
Tunc ergo apprehendit Pilatus Iesum, et flagellavit.
Et milites plectentes coronam de spinis, imposuerunt capiti eius: et veste purpurea circumdederunt eum.
Et veniebant ad eum, et dicebant: Ave Rex Iudaeorum. Et dabant ei alapa.
Exivit ergo iterum Pilatus foras, et dicit eis: Ecce adduco vobis eum foras, ut cognoscatis quia nullam invenio in eo causam.
(Exivit ergo Iesus portans coronam spineam, et purpureum vestimentum.) Et dicit eis: Ecce homo. Cum ergo vidissent cum pontifices et ministri, clamabant, dicentes: Crucifige, crucifige eum. Dicit eis Pilatus: Accpipte eum vos, et crucifigite: ego enim non invenio in eo causam.
Responderunt ei Iudaei: Nos legem habemus, et secundum legem debet mori, quia Filium Dei se fecit.
Cum ergo audisset Pilatus hunc sermonem, magis timuit. Et ingressus est praetorium iterum: et dixit ad Iesum: Unde es tu? Iesus autem responsum non dedit ei. Dicit ergo ei Pilatus: Mihi non loqueris? Nescis quia potestatem habeo crucifigere te, et potestatem habeo dimittere te?
Respondit Iesus: Non haberes potestatem adversum me ullam, nisi tibi datum esset desuper. Propterea qui me tradidit tibi, maius peccatum habet.
Et exinde quaerebat Pilatus dimittere eum. Iudaei autem clamabant, dicentes: Si hunc dimittis, non es amicus Caesari. Omnis enim qui se regem facit, contradicit Caesari.
Pilatus autem cum audisset hos sermones, adduxit foras Iesum, et sedit pro tribunali, in loco qui dicitur Lithostrotos, hebraice autem Gabbatha.
Erat autem Parasceve Paschae, hora quasi sexta, et dicit Iudaeis: Ecce Rex vester.
Illi autem clamabant: Tolle, tolle, crucifige eum. Dicit eis Pilatus: Regem vestrum crucifigam? Responderunt pontifices: Non habemus regem, nisi Caesarem.
Tunc ergo tradidit eis illum ut crucifigeretur.
Susceperunt autem Iesum, et eduxerunt. Et baiulans sibi crucem, exivit in eum, qui dicitur Calvariae, locum, hebraice autem Golgotha:
 ubi crucifixerunt eum, et cum eo alios duos hinc et hinc, medium autem Iesum.
Scripsit autem et titulum Pilatus: et posuit super crucem. Erat autem scriptum: Iesus Nazarenus, Rex Iudaeorum.
Hunc ergo titulum multi Iudaeorum legerunt, quia prope civitatem erat locus ubi crucifixus est Iesu Et erat scriptum hebraice, graece et latine.
Dicebant ergo Pilato pontifices Iudaeorum: Noli scribere, Rex Iudaeorum, sed quia ipse dixit: Rex sum Iudaeorum.
Respondit Pilatus: Quod scripsi, scripsi. Milites ergo cum crucifixissent eum, acceperunt vestimenta eius (et fecerunt quatuor partes: unicuique militi partem), et tunicam. Erat autem tunica inconsutilis, desuper contexta per totum.
Dixerunt ergo ad invicem: Non scindamus eam, sed sortiamur de illa cuius sit. Ut Scriptura impleretur, dicens: Partiti sunt vestimenta mea sibi: et in vestem meam miserunt sortem. Et milites quidem haec fecerunt.
Stabant autem iuxta crucem Iesu mater eius, et soror matris eius Maria Cleophae, et Maria Magdalene.
Cum videsset ergo Iesus matrm, et discipulum stantem, quem diligebat, dicit matri suae: Mulier, ecce filius tuu Deinde dicit discipulo: Ecce mater tua. Et ex illa hora accepit eam discipulus in sua.
Postea sciens Iesus quia omnia consummata sunt, ut consummaretur Scriptura, dixit: Sitio.
Vas ergo erat positum aceto plenum. Illi autem spongiam plenam aceto, hyssopo circumponentes, obtulerunt ori eiu Cum ergo accepisset Iesus acetum, dixit: Consummatum est. Et inclinato capite, tradidit spiritum.
(hic genuflectitur)
Judaei ergo (quoniam Parasceve erat) ut non remanerent in cruce corpora sabbato (erat enim magnus dies ille sabbati), rogaverunt Pilaum, ut frangerentur eorum crura, et tollerentur. Venerunt ergo milites: et primi quidem fregerunt crura, et alterius qui crucifixus est cum eo. Ad Jesum autem cum venissent, ut viderunt eum iam mortuum, non fregerunt eius crura: sed unus militum lancea latus eius aperuit, et continuo exivit sanguis et aqua.
Et qui vidit, testimonium perhibuit: et verum est testimonium eius. Et ille scit, quia vera dicit: ut et vos credatis. Facta sunt enim haec ut Scriptura impleretur: Os non comminuetis ex eo.
Et iterum alia Scriptura dicit: Videbunt in quem transfixerunt.
Post haec autem rogavit Pilatum Joseph ab Arimathaea (eo quod esset discipulus Iesu, occultus autem propter metum Iudaeorum), ut tolleret corpus Jesu. Et permisit Pilatus. Venit ergo, et tulit corpus Iesu.
Venit autem et Nicodemus, qui venerat ad Jesum nocte primum, ferens mixturam myrrhae, et aloes, quasi libras centum. Acceperunt ergo corpus Iesu, et ligaverunt illud linteis cum aromatibus, sicut mos est Iudaeis sepelire.
Erat autem in loco, ubi crucifixus est, hortus: et in horto monumentum novum, in quo nondum quisquam positus erat. Ibi ergo propter Parasceven Iudaeorum, quia iuxta erat monumentum, posuerunt Jesum.
Naquele Tempo: Jesus saiu com os seus discípulos para além da torrente de Cedron, onde havia um jardim, no qual entrou com os seus discípulos.
Judas, o traidor, conhecia também aquele lugar, porque Jesus ia freqüentemente para lá com os seus discípulos.
Tomou então Judas a coorte e os guardas de serviço dos pontífices e dos fariseus, e chegaram ali com lanternas, tochas e armas.
Como Jesus soubesse tudo o que havia de lhe acontecer, adiantou-se e perguntou-lhes: A quem buscais?
Responderam: A Jesus de Nazaré. Sou eu, disse-lhes. (Também Judas, o traidor, estava com eles.)
Quando lhes disse Sou eu, recuaram e caíram por terra.
Perguntou-lhes ele, pela segunda vez: A quem buscais? Disseram: A Jesus de Nazaré.
Replicou Jesus: Já vos disse que sou eu. Se é, pois, a mim que buscais, deixai ir estes.
Assim se cumpriu a palavra que disse: Dos que me deste não perdi nenhum (Jo 17,12).
Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. (O servo chamava-se Malco.)
Mas Jesus disse a Pedro: Enfia a tua espada na bainha! Não hei de beber eu o cálice que o Pai me deu?
Então a coorte, o tribuno e os guardas dos judeus prenderam Jesus e o ataram.
Conduziram-no primeiro a Anás, por ser sogro de Caifás, que era o sumo sacerdote daquele ano.
Caifás fora quem dera aos judeus o conselho: Convém que um só homem morra em lugar do povo.
Simão Pedro seguia Jesus, e mais outro discípulo. Este discípulo era conhecido do sumo sacerdote e entrou com Jesus no pátio da casa do sumo sacerdote,
Porém Pedro ficou de fora, à porta. Mas o outro discípulo (que era conhecido do sumo sacerdote) saiu e falou à porteira, e esta deixou Pedro entrar.
A porteira perguntou a Pedro: Não és acaso também tu dos discípulos desse homem? Não o sou, respondeu ele.
Os servos e os guardas acenderam um fogo, porque fazia frio, e se aqueciam. Com eles estava também Pedro, de pé, aquecendo-se.
O sumo sacerdote indagou de Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina.
Jesus respondeu-lhe: Falei publicamente ao mundo. Ensinei na sinagoga e no templo, onde se reúnem os judeus, e nada falei às ocultas.
Por que me perguntas? Pergunta àqueles que ouviram o que lhes disse. Estes sabem o que ensinei.
A estas palavras, um dos guardas presentes deu uma bofetada em Jesus, dizendo: É assim que respondes ao sumo sacerdote?
Replicou-lhe Jesus: Se falei mal, prova-o, mas se falei bem, por que me bates?
(Anás enviou-o preso ao sumo sacerdote Caifás.)
Simão Pedro estava lá se aquecendo. Perguntaram-lhe: Não és porventura, também tu, dos seus discípulos? Negou-o, dizendo: Não!
Disse-lhe um dos servos do sumo sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha: Não te vi eu com ele no horto?
Mas Pedro negou-o outra vez, e imediatamente o galo cantou.
Da casa de Caifás conduziram Jesus ao pretório. Era de manhã cedo. Mas os judeus não entraram no pretório, para não se contaminarem e poderem comer a Páscoa.
Saiu, por isso, Pilatos para ter com eles, e perguntou: Que acusação trazeis contra este homem?
Responderam-lhe: Se este não fosse malfeitor, não o teríamos entregue a ti.
Disse, então, Pilatos: Tomai-o e julgai-o vós mesmos segundo a vossa lei. Responderam-lhe os judeus: Não nos é permitido matar ninguém.
Assim se cumpria a palavra com a qual Jesus indicou de que gênero de morte havia de morrer (Mt 20,19).
Pilatos entrou no pretório, chamou Jesus e perguntou-lhe: És tu o rei dos judeus?
Jesus respondeu: Dizes isso por ti mesmo, ou foram outros que to disseram de mim?
Disse Pilatos: Acaso sou eu judeu? A tua nação e os sumos sacerdotes entregaram-te a mim. Que fizeste?
Respondeu Jesus: O meu Reino não é deste mundo. Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus súditos certamente teriam pelejado para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu Reino não é deste mundo.
Perguntou-lhe então Pilatos: És, portanto, rei? Respondeu Jesus: Sim, eu sou rei. É para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo. Todo o que é da verdade ouve a minha voz.
Disse-lhe Pilatos: Que é a verdade?... Falando isso, saiu de novo, foi ter com os judeus e disse-lhes: Não acho nele crime algum.
Mas é costume entre vós que pela Páscoa vos solte um preso. Quereis, pois, que vos solte o rei dos judeus?
Então todos gritaram novamente e disseram: Não! A este não! Mas a Barrabás! (Barrabás era um salteador.)
Pilatos mandou então flagelar Jesus.
Os soldados teceram de espinhos uma coroa e puseram-lha sobre a cabeça e cobriram-no com um manto de púrpura.
Aproximavam-se dele e diziam: Salve, rei dos judeus! E davam-lhe bofetadas.
Pilatos saiu outra vez e disse-lhes: Eis que vo-lo trago fora, para que saibais que não acho nele nenhum motivo de acusação.
Apareceu então Jesus, trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Pilatos disse: Eis o homem!
Quando os pontífices e os guardas o viram, gritaram: Crucifica-o! Crucifica-o! Falou-lhes Pilatos: Tomai-o vós e crucificai-o, pois eu não acho nele culpa alguma.
Responderam-lhe os judeus: Nós temos uma lei, e segundo essa lei ele deve morrer, porque se declarou Filho de Deus.
Estas palavras impressionaram Pilatos.
Entrou novamente no pretório e perguntou a Jesus: De onde és tu? Mas Jesus não lhe respondeu.
Pilatos então lhe disse: Tu não me respondes? Não sabes que tenho poder para te soltar e para te crucificar?
Respondeu Jesus: Não terias poder algum sobre mim, se de cima não te fora dado. Por isso, quem me entregou a ti tem pecado maior.
Desde então Pilatos procurava soltá-lo. Mas os judeus gritavam: Se o soltares, não és amigo do imperador, porque todo o que se faz rei se declara contra o imperador.
Ouvindo estas palavras, Pilatos trouxe Jesus para fora e sentou-se no tribunal, no lugar chamado Lajeado, em hebraico Gábata.
(Era a Preparação para a Páscoa, cerca da hora sexta.) Pilatos disse aos judeus: Eis o vosso rei!
Mas eles clamavam: Fora com ele! Fora com ele! Crucifica-o! Pilatos perguntou-lhes: Hei de crucificar o vosso rei? Os sumos sacerdotes responderam: Não temos outro rei senão César!
Entregou-o então a eles para que fosse crucificado.
Levaram então consigo Jesus. Ele próprio carregava a sua cruz para fora da cidade, em direção ao lugar chamado Calvário, em hebraico Gólgota.
Ali o crucificaram, e com ele outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio.
Pilatos redigiu também uma inscrição e a fixou por cima da cruz. Nela estava escrito: Jesus de Nazaré, rei dos judeus.
Muitos dos judeus leram essa inscrição, porque Jesus foi crucificado perto da cidade e a inscrição era redigida em hebraico, em latim e em grego.
Os sumos sacerdotes dos judeus disseram a Pilatos: Não escrevas: Rei dos judeus, mas sim: Este homem disse ser o rei dos judeus.
Respondeu Pilatos: O que escrevi, escrevi.
Depois de os soldados crucificarem Jesus, tomaram as suas vestes e fizeram delas quatro partes, uma para cada soldado. A túnica, porém, toda tecida de alto a baixo, não tinha costura.
Disseram, pois, uns aos outros: Não a rasguemos, mas deitemos sorte sobre ela, para ver de quem será. Assim se cumpria a Escritura: Repartiram entre si as minhas vestes e deitaram sorte sobre a minha túnica (Sl 21,19). Isso fizeram os soldados.
Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena.
Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho.
Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa.
Em seguida, sabendo Jesus que tudo estava consumado, para se cumprir plenamente a Escritura, disse: Tenho sede.
Havia ali um vaso cheio de vinagre. Os soldados encheram de vinagre uma esponja e, fixando-a numa vara de hissopo, chegaram-lhe à boca.
Havendo Jesus tomado do vinagre, disse: Tudo está consumado. Inclinou a cabeça e rendeu o espírito.
(aqui ajoelha-se)
Os judeus temeram que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque já era a Preparação e esse sábado era particularmente solene. Rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados.
Vieram os soldados e quebraram as pernas do primeiro e do outro, que com ele foram crucificados.
Chegando, porém, a Jesus, como o vissem já morto, não lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água.
O que foi testemunha desse fato o atesta (e o seu testemunho é digno de fé, e ele sabe que diz a verdade), a fim de que vós creiais.
Assim se cumpriu a Escritura: Nenhum dos seus ossos será quebrado (Ex 12,46).
E diz em outra parte a Escritura: Olharão para aquele que transpassaram (Zc 12,10).
Depois disso, José de Arimatéia, que era discípulo de Jesus, mas ocultamente, por medo dos judeus, rogou a Pilatos a autorização para tirar o corpo de Jesus. Pilatos permitiu. Foi, pois, e tirou o corpo de Jesus.
Acompanhou-o Nicodemos (aquele que anteriormente fora de noite ter com Jesus), levando umas cem libras de uma mistura de mirra e aloés.
Tomaram o corpo de Jesus e envolveram-no em panos com os aromas, como os judeus costumam sepultar.
No lugar em que ele foi crucificado havia um jardim, e no jardim um sepulcro novo, em que ninguém ainda fora depositado. Foi ali que depositaram Jesus por causa da Preparação dos judeus e da proximidade do túmulo.