30 de outubro de 2010

VIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

A filha de Jairo, a hemorroíssa, e a alma pecadora

Domine, filia mea modo defuncta est: sed veni, impone manum tuam super em et vivet – “Senhor, nesta hora acaba de expirar minha filha; mas vem, impõe sobre ela a tua mão, e viverá” (Mat. 9, 18).

Sumário. Meu irmão, se porventura te achares enfermo espiritualmente por causa do pecado, imita a hemorroíssa, da qual nos fala o Evangelho, chega-te a Jesus, na pessoa de seu representante, o sacerdote, no sacramento da penitência. Se, como espero, a consciência não te acusa de pecado grave, imita a confiança de Jairo, e roga ao Senhor faça reviver espiritualmente tantos pecadores teus irmão. Considera, porém, atentamente que não seja daqueles que têm o nome de vivos e estão mortos ou moribundos por causa de sua tibieza.

I. Refere o Evangelho que, “enquanto falava aos judeus, acercou-se um príncipe, e o adorou dizendo: Senhor, nesta hora acaba de falecer minha filha; mas vem, impõe sobre ela tua mão e viverá. E Jesus, levantando-se, o foi seguindo com os seus discípulos. E eis que uma mulher, que havia doze anos padecia um fluxo de sangue, chegou-se por detrás dele e lhe tocou a fimbria do vestido. Porque dizia consigo: Se tocar ao menos o seu vestido, estarei curada. E, voltando-se Jesus e vendo-a, disse: Tem confiança, filha, tua fé te sarou. E ficou sã a mulher desde aquela hora – “Et salva facta est mulier ex illa hora.

Diz Cornélio a Lapide, que tanto a hemorroíssa como a jovem morta são figuras da alma pecadora, a qual Jesus Cristo quer ressuscitar para a vida espiritual e livrar do desregramento da concupiscência, figurado pelo fluxo de sangue. E São Boaventura, refletindo sobre este trecho do Evangelho, dirige-se ao pecador e diz: “Aquela jovem é tua alma, morta há pouco pelo pecado; converte-te já para Deus: Festina conversionem.” – Portanto, meu irmão se porventura tens ofendido a Deus, imita a fé daquela pobre mulher e chega-te a Jesus, na pessoa de seu ministro, no tribunal da penitência. E não tardes em fazê-lo, porque, se fores adiando, virá talvez sobre ti a ira de Deus e te mandará ao inferno (1).

Se, porém, como espero, não tens pecado grave na alma, imita a Jairo, pai da jovem, e roga ao Senhor venha com a sua graça e faça ressuscitar espiritualmente tantos pecadores, teus irmãos. – Considera todavia atentamente não sejas do número daqueles de quem diz São João: “Tem reputação de que vivem, mas estão mortos”, ou quase moribundos por causa de sua tibieza (2).

II. Continua o Evangelista dizendo que “chegado Jesus à casa do príncipe, vendo os músicos e um bando de gente em alarido, disse: Retirai-vos; porque não está morta a menina, mas dorme. E zombavam dele. Tendo saído a gente, entrou Jesus e tomou-a pela mão. E a menina se levantou. E correu esta fama por toda aquela terra.”

Observa, diz São Gregório, que antes de ressuscitar a menina, Jesus manda a gente sair e faz cessar o alarido. Isso nos ensina que para ressurgirmos do pecado ou da tibieza, devemos afastar de nós esse tropel de pensamentos e afetos desordenados, esse tumulto de cuidados terrestres e de conversações supérfluas. – Acrescenta o evangelista São Marcos, que depois da ressurreição da menina, o Senhor a fez andar e ordenou que lhe dessem de comer (3). É o que nós também devemos fazer depois de ressuscitados para a vida da graça. Não devemos ficar parados, senão andar no caminho da perfeição e com este fim alimentar-nos com o Pão dos Anjos. Os santos ensinam unanimemente que não progredir no caminho do Senhor é voltar para trás: In via Domini non progredi retrogredi est.

Ó meu amado Jesus, eu me esqueci de Vós, mas vejo que Vós não Vos esquecestes de mim. Agradeço-Vos as luzes que me comunicais e peço-Vos “queirais absolver-me de todos os meus delitos, para que, por vossa liberalidade, seja livre dos grilhões das culpas que por minha fraqueza contraí.”(4) + Doce coração de Maria, sede minha salvação.

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1. Ecle. 5, 8.
2. Apoc. 3, 1.
3. Marc. 5, 43.
4. Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 225-227.)

23 de outubro de 2010

VIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

O tributo de César e a obrigação de amar a Deus

Reddite quae sunt Caesaris Caesari, et quae sunt Dei Deo – “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mat. 22, 21).

Sumário. Para convencer os fariseus da obrigação de pagarem tributo a César, o divino Redentor mostrou-lhes a imagem estampada na moeda com que costumavam pagar o tributo. Lancemos nós também um olhar sobre nós mesmos: consideremos que fomos criados por Deus à sua imagem e semelhança; lembremo-nos mais que no santo batismo nos foi impresso o caráter indelével de discípulos de Jesus Cristo, e facilmente chegaremos a esta bela conclusão: Dai a Deus o que é de Deus.

I. É esta a bela resposta que no Evangelho de hoje Jesus Cristo dá aos fariseus, que, com o intuito maligno de o apanharem em suas palavras, o interrogavam sobre se era ou não lícito pagar tributo: “Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” Por estas palavras quer ensinar-nos que devemos dar aos homens o que lhes é devido; mas quanto ao amor de nosso coração, ele o quer todo para si.

Isto é de inteira justiça, porque o Senhor não é somente a primeira Verdade, mas, além disso, o supremo Bem. Como, portanto, o nosso entendimento paga a Deus, como à primeira Verdade, o tributo de submissão pela fé, crendo sobre a palavra de Deus coisas que não compreende; assim a nossa vontade deve pagar a Deus, como ao Bem supremo, um tributo de afeto, “amando-o com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças”. Tanto mais que é unicamente para cativar o nosso amor que Jesus se fez homem, nos remiu com o seu preciosíssimo sangue e morreu sobre a cruz nos mais atrozes tormentos.

Ó meu lastimoso Redentor! Quantos são Vos que os amam? Vejo a maior parte dos homens ocupados em amarem, uns os parentes, outros os amigos, outros até os animais; mas Jesus não é amado; ao contrário, é ofendido e pago com a mais negra ingratidão. – Meu irmão, quero crer que te achas em estado de graça e por isso quero crer que amas Jesus Cristo. Podes, porém dizer que O amas de todo o teu coração?... És porventura um daqueles que, levando vida tíbia, nutrem a ilusão de poderem servir ao mesmo tempo a dois senhores inteiramente opostos, como são Deus e o mundo? – Ah! Lembra-te, assim te direi com São Filipe Neri, que todo o amor que consagramos às criaturas é roubado de Deus; se não cuidarmos em séria emenda, acabaremos cedo ou tarde por o roubarmos todo.

II. Observa o Evangelho que, para convencer os fariseus da necessidade de pagar o tributo, Jesus se fez mostrar a moeda do tributo, e referindo-se a ela, disse: “De quem é esta imagem e inscrição?” E tendo eles respondido: “É de César”, o Senhor logo acrescentou: “Dai a César o que é de César.” Como se dissesse: Já que do Imperador recebestes a moeda, justo é que lha restituais pagando o tributo.

É o que tu também deves fazer para que mais facilmente te resolvas a pagar teu tributo a Deus. Pergunta muitas vezes a ti mesmo: Cuius est haec imago et superscriptio?De quem é esta imagem e inscrição?” Quer dizer: Põe-te a considerar que foste criado por Deus à sua imagem e semelhança e para o único fim de o amares; considera mais que no santo Batismo te foi impresso o caráter indelével de discípulo de Cristo; e logo chegarás à conclusão que deves dar a Deus o que é de Deus: Reddite ergo quae sunt Dei, Deo.

Ó meu Senhor, visto que me quereis todo para Vós, eis que me dou a Vós todo inteiro, sem reserva. Não quero que outro qualquer me roube uma parte deste coração que Vós criastes só para Vós, ó bondade infinita, digna de amor infinito. O meu coração é muito pequeno para Vos amar tanto como mereceis. Que injustiça, pois, não Vos faria, se o quisesse dividir para amar outra coisa que não seja Vós? Não, meu Jesus amabilíssimo, só a Vós quero amar, e nesta vida e na outra nada desejo senão o tesouro de vosso amor, ó Deus de meu coração e minha herança para sempre (1).

Não desprezeis o amor de um pecador que outrora Vos ofendeu; abrasai sempre mais em mim as felizes chamas do amor, e sede em toda ocorrência o meu refúgio e a minha força. – “Ó Pai Eterno, pelo amor de Jesus Cristo atendei-me, pois que sois o mesmo autor da piedade, e fazei que eficazmente consiga o que Vos peço com viva confiança.” (2) + Doce coração de Maria, sede minha salvação.

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1. Sal. 15, 5.
2. Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 207-209.)

23 de outubro: Santo Antônio Maria Claret, Bispo e Confessor


Antônio Maria Claret, nascido de pais piedosos e honestos em Sallent, na Espanha, exerceu a arte da tecelagem quando jovem, mas então, chamado ao sacerdócio, tomou primeiro o misnistério paroquial, e depois veio a Roma para que fosse mandado pela Congregação de Propaganda Fidei para missões em terras extrangeiras. Porém, por disposição divina, retornando à Espanha, tornou-se missionário apostólico na Catalunha e Ilhas Fortunatas. Foi escritor de muitos livros bons, e fundador da Congregação dos Filhos do Imaculado Coração de Maria. Prelado da sede arquiepiscopal de São Tiago em Cuba, refulgiu em virtudes de zeloso Pastor; reformou o seminário, promoveu a disciplina e a doutrina dos clérigos, criou obras sociais, fundou um Convento de Monjas do Ensino de Maria Imaculada para a educação das meninas. Enviado afinal a Madri, para ser confessor da Rainha da Espanha e seu conselheiro nas sérias questões eclesiásticas, foi um exímio exemplo de austeridade e de todas as virtudes. No Concíclio Vaticano [Primeiro], defendeu com todas as forças a infalibilidade do Romano Pontífice. Propagou maravilhosamente a devoção ao Santíssimo Sacramento e ao Imaculado Coração de Maria e ao seu Rosário. Por fim, perseguido, refugiou-se, em Fontfroid, na França, onde morreu, no ano de 1870. Glorificado pelos milagres, foi inscrito pelo Papa Pio XI na lista dos Beator, e por Pio XII naquela dos Santos.


"Santo Antônio Maria Claret foi um grande homem, nascido para suscitar contrastes. Humilde de origem e glorioso aos olhos do mundo. Pequeno de corpo, mas gigante de espírito. De aparência modesta, mas capacíssimo para impor respeito, inclusive aos poderosos da terra. De caráter forte, mas de suave doçura de quem conhece as 'artimanhas' da austeridade e da penitência. Sempre na presença de Deus, ainda que em meio à prodigiosa atividade exterior. Caluniado e admirado, festejado e perseguido. E, entre tantas maravilhas, como uma luz suave que o ilumina todo, sua devoção à mãe de Deus." (Pio XII)

Deus, qui beátum Antónium Maríam Confessórem tuum atque Pontíficem, apostólicis virtútibus sublimásti, et per eum novas in Ecclésia clericórum ac vírginum famílias collegísti: concéde, quæsumus; ut, ejus dirigéntibus mónitis ac suffragántibus méritis, animárum salútem quærere júgiter studeámus. Per Dñum.

Deus, que elevaste o Vosso bem-aventurado Confessor e Pontífice Antônio Maria com apostólicas virtudes, e, por ele, congregastes novas famílias de clérigos e de virgens, concedei-nos, Vo-lo pedimos, que, dirigidos pelos seus conselhos e sufragados pelos seus méritos, sejamos zelosos em procurar continuamente a salvação das almas. Por Nosso.

16 de outubro de 2010

VIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

O servo desumano e o perdão das injúrias

Sic et Pater meus coelestis faciet vobis, si non remiseritis unusquisque fratri suo de cordibus vestris – “Assim vos tratará meu Pai celestial, se do íntimo dos vossos corações não perdoardes cada um a seu irmão” (Mat. 18, 35).

Sumário. O servo descaridoso, a quem o dono perdoou muito e não quis apiedar-se do companheiro que lhe devia pouco, é uma imagem viva daqueles cristãos que não querem perdoar a seu inimigo. Meus irmão, não te creio culpado de tamanho delito; mas considera bem, não sejas do número dos que julgam com severidade os defeitos dos outros e exigem tolerância para os defeitos próprios e talvez maiores. Sendo assim, não tardes em emendar-te; senão, serás julgado com o mesmo rigor e condenado pelo Pai celestial.

I. No evangelho de hoje, Jesus Cristo compara o reino dos céus a um rei que quis tomar contas aos seus servos. E, “tendo começado a tomar as contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos. Como não tivesse com que pagar, mandou o seu senhor que o vendessem a ele e a sua mulher e a seus filhos, e tudo quanto possuí,a para com isto ser pago. O servo, porém, lançando-se-lhe aos pés, o implorava dizendo: Tem paciência comigo, que eu te pagarei tudo. Compadecido então desse servo, o senhor deixou-o em liberdade, e lhe perdoou sua dívida. – Mas tendo saído este servo, encontrou-se com um de seus companheiros que lhe devia cem dinheiros; e, pondo-lhe as mãos, sufocava-o dizendo: Paga-me o que deves. E o companheiro, prostrando-se-lhe aos pés, lhe implorava, dizendo: Tem paciência comigo, que te pagarei tudo. Mas ele não quis; e fez metê-lo em prisão até pagar a dívida: Misit eum in carcerem, done redderet debitum.

Meu irmão, ao ouvir tamanha crueldade, talvez nunca sucedida, sem dúvida te sentes comovido. Quantos há, porém, que se comovem com a parábola e tropeçam na realidade! – Com efeito, Jesus Cristo (figurado pelo rei) mostra-se no tribunal da penitência tão misericordioso para com os cristãos, que basta um ato de contrição para lhes serem perdoadas todas as culpas, representadas pelo débito enorme de dez mil talentos. Ao contrário, os cristãos, (figurados pelo servo descaridoso) são tão exigentes, que, apesar do preceito de Deus, se recusam a perdoar ao próximo as ofensas recebidas, simbolizadas na pequena quantia de cem dinheiros.

Não te quero julgar réu de tamanha desumanidade. Examina, porém, se não és porventura do número daqueles que, deixando-se dominar pela ira, querem que para com eles se use de paciência, sem que eles a tenham de praticar para com os outros; isto é, julgam com rigor os pequenos defeitos dos outros, e exigem condescendência a respeito dos próprios defeitos que são muito maiores.

II. Coisa assombrosa! Diz o Eclesiástico: O homem, um bicho da terra guarda rancor e quer vingar-se de um seu irmão; e depois atreve-se a implorar a misericórdia de Deus. Quem poderá interceder para obter o perdão dos pecados desse temerário: Quis exorabit pro delictis illius? (1) Talvez haverá muitos que rogarão ao Senhor julgue sem misericórdia a quem foi imesiricordioso (2). – É o que parece insinuar Jesus Cristo, quando, continuando a parábola do servo impiedoso, acrescenta: “Os outros servos, porém, seus companheiros, vendo o que se passava, sentiram-no fortemente, e foram dar parte a seu senhor de tudo o que tinha acontecido. Então seu senhor o chamou, e lhe disse: Servo mau, toda a dívida te perdoei, porque me rogaste. Pois, não devias também compadecer-te do teu companheiro, como eu me compadeci de ti? Indignado, entregou-o o seu senhor aos verdugos, até pagar tudo que devia. Assim vos tratará meu Pai celestial, se do íntimo dos vossos corações não perdoardes cada um a seu irmão.”

Ó Jesus, meu divino Redentor, visto que por palavras e por exemplos me ensinastes a amar os seus inimigos, a fazer bem aos que me odeiam, a rogar aos que me perseguem e caluniam (3): eis que agora, prostrado na vossa presença, resolvo seguir sempre, e em todas as coisas, esses ensinos santíssimos. Sim, meu Jesus, por amor de Vós perdôo a quem me haja ofendido, e peço-Vos que também lhe perdoeis. Dai-lhe prosperidade nas empresas, aumentai-lhe as riquezas, cumpri-lhe os desejos, e sobretudo inspirai-lhe no coração sentimentos de caridade e de paz, afim de que, extinta toda discórdia, possamos unanimemente servi-Vos neste mundo e gozar de vossa presença no outro.

Perdoai-me, pois, as minhas dívidas, assim como eu perdôo aos meus devedores, e “guardai-me com piedade contínua, para que, sob a vossa proteção, fique eu livre de todas as adversidades, e, para glória de vosso nome, seja sempre fervoroso no exercício das boas obras.” + Doce coração de Maria, sede minha salvação.

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1. Ecl. 28, 5.
2. Jac. 2, 13
3. Mat. 5, 44.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 188-191.)

11 de outubro de 2010

11 de outubro: Festa da Maternidade da Bem-Aventurada Virgem Maria

Homilia de São Bernardo Abade
Hom. 1 de Laudibus Virg. Matris

Maria chama seu Filho o Deus e Senhor dos Anjos, dizendo: Filho, por que nos fizeste isso? Qual Anjo ousou fazer isso? Basta-lhes, e o têm em muita estima, que, sendo espíritos em sua condição, pela graça sejam feitos e chamados Anjos, como o atesta Davi: Que faz dos espíritos seus Anjos. Maria, porém, reconhecendo-Se Mãe, com confiança chama de filho aquela majestade que eles servem com reverência, porque Deus, tendo- Se dignado sê-lo de fato, não desdenha ser assim chamado. Um pouco adiante, pois, diz o Evangelista: E Ele lhes era submisso. Quem e a quem? Deus a homens; Deus, é certo, ao Qual os Anjos se submetem, que obedecem os Principados e Potestades, era submisso a Maria.

Admira as duas coisas, e escolhe qual das duas é mais maravilhosa: se a benigníssima condescendência do Filho, ou a excelentíssima dignidade da Mãe. Ambas nos estupefazem, e ambas são milagres. Que Deus obedeça uma mulher, é humildade ímpar; que uma mulher reja Deus, uma elevação incomparável. Em louvor às virgens, canta-se, particularmente, que seguem o Cordeiro por onde quer que Ele vá. De que louvor, portanto, é digna Aquela que até vai diante d'Ele? Aprende, ó homem, a obedeceres! Aprende, ó terra, a te submeteres! Aprende, ó pó, a seres submisso! O Evangelista, falando de teu Criador, disse : "E Ele lhes era submisso". E não há dúvida de que isso nos evidencia que Deus era submisso a Maria e José. Que vergonha para ti, ó ser de pó e cinzas! Deus Se abaixou, e tu, ó criatura tirada da terra, te exaltas? Deus Se submeteu ao homem, e tu, sempre tão ávido por te fazer senhor dos homens, ousas desmandar teu próprio Criador?

Feliz de Maria, à qual não faltou a humildade nem a virgindade! E que virgindade especiosa, da qual não se furtou, mas a honrou, a fecundidade. E não menos singular humildade, não diminuída, mas aumentada pela fecunda virgindade. E fecundidade de todo incomparável, acompanhada ao mesmo tempo pela humildade e pela virgindade. Qual dessas prerrogativas não é admirável? Qual não é incomparável? Qual não é especial? É estranho que não se hesite na sua ponderação, escolhendo qual seja digna de tua admiração, isto é, se é mais estupenda a fecundidade numa Virgem, ou a integridade numa Mãe; a sublimidade na prole, e, a par com tanta sublimidade, a humildade. Indubitavelmente, ainda melhor do que cada uma das prerrogativas em particular, são todas elas juntas, e incomparávelmente mais excelente e mais feliz é que tenha recebido todas, do que qualquer uma delas. E o que há de estranho nisso, que Deus, mostrando-Se admirável nos seus Santos, ainda mais admirável Se ostente na sua Mãe? Venerai, portanto, cônjuges, na carne corruptível a integridade da carne; venerai vós, sagradas virgens, a fecundidade na Virgem. E imitai, todos os homens, a humildade da Mãe de Deus.

9 de outubro de 2010

VIGÉSIMO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

O filho do régulo e as utilidades das doenças

Credidit ipse et domus eius tota – “Creu ele e toda a sua família” (Jo. 4, 53).

Sumário. Em nossas tribulações não nos é proibido pedirmos a Deus que nos livre delas; mas é necessário que nos conformemos com a sua vontade. Estejamos certos de que Deus não nos envia as cruzes para nossa perdição, mas para nossa salvação e para nos comunicar as suas graças. Vede o bom régulo de quem nos fala o Evangelho. Talvez nunca tivesse pensado em ser discípulo de Jesus Cristo; mas o Senhor atraiu-o a si por meio da enfermidade do filho, e comunica-lhe, a ele e a toda a família, o mais precioso de seus dons, a fé.

I. Refere São João que, tendo certo régulo vindo pedir a Jesus Cristo, que quisesse acompanhá-lo até a casa dele para lhe curar um filho moribundo, o Senhor lhe respondeu: Vai, teu filho está vivo. O régulo creu nesta palavra, e, voltando à casa, soube pelos seus criados que a febre deixara o filho na mesma ora em que Jesus dissera: Teu filho está vivo. Pelo que creu ele e toda a sua família: Credidit ipse et domus eius tota.

Admiremos neste trecho do Evangelho uma disposição amorosa da divina Providência, que “toca de uma extremidade à outra e dispõe todas as coisas com suavidade” (1). Aquele bom régulo talvez nunca tivesse pensado em fazer-se discípulo de Jesus Cristo; mas o Senhor atraiu-o a si por meio da doença do filho e comunica-lhe, bem com à toda a família, o mais precioso dos seus dons, que é o da fé. – É o que Deus quer fazer também a nosso respeito, quando nos envia tribulações e, em particular, a enfermidade.

Em primeiro lugar, Deus no-las envia a fim de que nos emendemos de alguma falta; porquanto, na palavra de São Jerônimo, “assim como as coisas materiais são lavadas com sabão, assim as almas se purificam por meio das enfermidades e tribulações”. – Deus no-las envia também para nos consolidar mais na virtude. Por esse meio nos faz, por assim dizer, tocar com a mão a nossa fraqueza, esclarece-nos acerca da nossa vaidade e desapega-nos das coisas terrestres. – Mas, o que é mais importante, as enfermidades, ao passo que diminuem as forças do corpo, reprimem os apetites de nosso maior inimigo, a carne; ao mesmo tempo que nos recordam que a terra é para nós um lugar de desterro, fazem-nos levar uma vida digna de um cristão e estar preparados para a passagem à eternidade. Por isso é que o Eclesiástico disse: Infirmitas gravis sobriam facit animam (2) – “Uma grave enfermidade faz a alma sóbria”.

II. Tenhamos a persuasão de que Deus não nos envia as cruzes para nossa perdição, mas para nossa salvação. Quando, pois, o Senhor nos visita por alguma doença ou outra aflição, examinemos logo a nossa consciência, e reconheçamos que temos merecido essa cruz, e, mais ainda, humilhemo-nos em sua presença e digamos com o bom ladrão: Digna factis recipimus (3) – “Recebemos o que merecemos pelas nossas obras”. – Entretanto, sem esperarmos que outros no-lo digam, aproximemo-nos espontaneamente dos santos sacramentos, lembrados do que nos diz o Espírito Santo: Nas doenças deve-se, antes de mais nada, recorrer ao médico da alma, a fim de que nos livre da doença (4).

Não te é proibido rogar a Deus, como o régulo do Evangelho, que te alivie os sofrimentos. Se, porém, aprouver a Deus deixar-te na tribulação, dize então o que Jesus Cristo, muito mais aflito do que tu, não deixava de dizer no Horto: “Pai meu, se não pode passar este cálice sem que eu beba, faça-se a tua vontade”- Fiat voluntas tua (4). Entretanto, consolemo-nos com a esperança do paraíso, que é um bem tão grande, que, para o ganharmos, todo o trabalho é leve. “Eu tenho por certo”, diz o Apóstolo, “que os sofrimentos da vida presente não têm proporção alguma com a glória futura que se manifestará em nós (5). A tribulação que nos vem no presente, momentânea e leve, produz em nós, de modo incomparável e maravilhoso, um peso eterno de glória.” (6)

Meu Jesus, agradeço-Vos as luzes com que me iluminais agora. Arrependo-me, sobre todo o mal, de Vos ter ofendido, e proponho de hoje por diante conformar-me sempre com a vossa vontade santíssima. – “Dignai-Vos, Senhor, conceder-me benignamente, com o perdão dos pecados, a paz da consciência; para que, limpo de toda a culpa, Vos sirva com a confiança alegre e firme” (7), nos dias de vida que ainda me restam. + Doce coração de Maria, sede minha salvação. (*IV 197.)

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1. Sap. 8, 1.
2. Ecl. 31, 2.
3. Luc. 23, 41.
4. Ecl. 38, 9.
5. Mat. 26, 42.
6. Rom. 8, 18.
7. 2 Cor. 4, 17.
8. Or. Dom.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 170-173.)

3 de outubro de 2010

Homilia do XIX Domingo depois de Pentecostes

XIX Domingo depois de Pentecostes
Pe. Paulo Iubel
Paróquia Imaculada Conceição

Homilia do XVIII Domingo depois de Pentecostes

XVIII Domingo depois de Pentecostes
Pe. Paulo Iubel
Paróquia Imaculada Conceição

Homilia do XVII Domingo depois de Pentecostes

XVII Domingo depois de Pentecostes
Pe. Paulo Iubel
Paróquia Imaculada Conceição

DÉCIMO NONO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES

A parábola do banquete nupcial e a Igreja católica

Simile factum est regnum caelorum homini regi, qui fecit nuptias filio suo – “O reino dos céus é semelhante a um rei que fez núpcias para seu filho” (Mat. 22, 2).

Sumário. Pelo banquete do qual fala o Evangelho de hoje, entende-se a doutrina católica, os sacramentos e a abundância das graças celestiais. Como filhos da Igreja católica, somos do número dos convidados, e portanto, agradeçamos sempre a Jesus Cristo tão grande favor que nos foi concedido com preferência a tantos outros. Cuidemos, porém, que estejamos vestidos da veste nupcial, isto é, da graça santificante, afim de não sermos, cedo ou tarde, lançados às trevas exteriores, no inferno. Quantos cristãos não se perdem, porque as obras na respondem à fé que professam!

I. “O reino dos céus, diz Jesus Cristo, “é semelhante a um rei que fez núpcias para o seu filho, e mandou seus servos chamarem os convidados para as bodas. Mas eles desprezaram o convite, e lá se foram, um para sua casa de campo, outro para o seu negócio. Os outros prenderam os servos que enviara, e, depois de os cobrirem de ultrajes, mataram-nos. Mas o rei, tendo ouvido isto, ficou indignado, e enviando os seus exércitos, exterminou aqueles homicidas, e pôs fogo à sua cidade. Disse então aos seus servos: As bodas estão preparadas; mas os que haviam sido convidados não foram dignos. Ide, pois, às embocaduras das estradas, e a quantos encontrardes, convidai-os para as bodas. E, tendo sabido os seus servos pelas ruas, reuniram todos os que encontraram, bons e maus, e a mesa do banquete ficou cheia de convidados: “Et impletae sunt nuptiae discumbentium.

Segundo a interpretação dos doutores, o rei da presente parábola é o Pai Eterno; o esposo é seu Filho Jesus Cristo; a e a esposa, a Igreja Católica. Pelo banquete nupcial entendem-se a doutrina evangélica, os santos sacramentos e a abundância de todas as graças celestiais. Para este banquete místico fez o Senhor convidar primeiramente os Hebreus, por meio dos profetas e dos apóstolos. Mas, eles, desprezando o convite, maltrataram e mataram os ministros de Deus, e por isso foram expulsos e pereceram na destruição de Jerusalém. E em lugar dos Hebreus foram chamados os gentios, que andavam no caminho largo que leva ao inferno.

Meu irmão, também tu, descendente de antepassados pagãos e sem algum merecimento próprio, pertences ao número destes felizes convidados. Considera, portanto, atentamente o amor especial que Deus te mostrou, agradece-lhe e repara como até agora lhe tens correspondido. Oh! Quantos se tornariam santos, e grandes santos, se lhes tivesse sido dada a mesma abundância de recursos espirituais como a ti! Ao passo que tu há muitos anos talvez estais dormindo na tibieza, e sabe lá Deus se talvez no pecado!

II. Diz ainda a parábola do Evangelho que “entrando o rei para ver os que estavam à mesa, viu aí um homem que não estava vestindo a veste nupcial. E disse-lhe: Amigo, como entraste aqui, não tendo a veste nupcial? Mas ele emudeceu. Então disse o rei aos seus ministros: “Atai-o de mãos e pés, e lançai-o nas trevas exteriores: aí haverá choro e ranger de dentes.”

Explicando este trecho, São Gregório diz que “a veste nupcial significa a santa caridade. De modo que os cristãos que pela fé são membros da Igreja, mas não possuem a caridade (isto é, não estão na graça de Deus) são semelhantes àquele homem que quis assistir às bodas, mas sem vestir a veste nupcial”. Por isso, no dia do juízo universal será pronunciada contra eles a mesma sentença daquele infeliz, e serão lançados ao inferno para sofrerem no corpo e na alma o tormento do fogo. – E prouvesse a Deus que fosse pequeno o número desses cristãos insensatos que não põem as obras em harmonia com a fé! Mas o mal está grassando em toda a parte. E por isso o Senhor conclui o Evangelho com estas palavras: Multi sunt vocati, pauci vero electi – “São muitos os chamados e poucos os escolhidos”.

Meu amabilíssimo Jesus, agradeço-Vos o me haverdes chamado com tamanho amor ao banquete místico de vossa Igreja e me haverdes tolerado tanto tempo, apesar de não estar vestido com a veste nupcial. Vejo, ó meu Senhor, que enquanto eu me esquecia de Vós, Vós não esquecíeis de mim. Pesa-me de Vos ter voltado as costas, e resolvido estou a dar-me todo a Vós e a levar uma vida conforme à santa fé que professo. Porque esperar mais? Esperarei porventura até que venha a morte e Vós me condeneis às trevas exteriores, a chorar juntamente com os réprobos?

Não meu Jesus, não Vos quero mais desagradar; quero amar-Vos com todas as minhas forças para ter um dia parte em vossas núpcias celestiais na pátria bem-aventurada. Ó Deus onipotente e misericordioso, ajudai-me com a vossa divina graça e “apartai de mim, propício, todas as adversidades; para que, expedito na alma e no corpo, com liberdade de espírito eu cumpra o que é de vosso serviço” (1). + Doce Coração de Maria, sede minha salvação.

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1. Or. Dom.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 152-154.)