31 de maio de 2010

Festa da Santíssima Trindade - Comentário litúrgico - Dom Gaspar Lefebvre, O.S.B.

Festa da SS. Trindade
D. Gaspar Lefebvre



O Espírito Santo cujo advento celebramos no Pentecostes veio-nos recordar nesta última parte do ano (do Pentecostes ao Advento, 6 meses) o que Jesus nos ensinou já na primeira (do Advento à Santíssima Trindade, 6 meses). O dogma fundamental em torno do qual todo o cristianismo gravita é este da Santíssima Trindade, de Quem tudo nos vem e a Quem todos os que receberam o sinete do Seu nome devem regressar. Depois de nos lembrar no decorrer do ano litúrgico o Pai Criador, o Filho Redentor e o Espírito Santo Santificador e Regenerador das almas, a Igreja recapitula hoje antes de mais os elementos concernentes ao grande mistério em que adoramos a Deus uno em Natureza e trino em Pessoas.
Depois de celebrarmos a efusão do Espírito Santo, dizia S. Roberto no século XII, festejamos logo a seguir, no primeiro Domingo, a Trindade Santíssima; e é bem feita esta escolha, porque logo depois da vinda do Divino Espírito começou a pregação da fé e com a pregação da fé a administração do Batismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
O dogma da Santíssima Trindade aparece constantemente na liturgia. É em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo que se começa e acaba a Missa e o Ofício e se conferem os sacramentos. Todos os salmos fecham pelo Gloria Patri, os hinos pela doxologia, e todas as orações concluem em termos cheios de devoção e de ternura para com as três Pessoas Divinas. O dogma da Santíssima Trindade resplandece ainda nos nossos templos. Os nossos avós compraziam-se em simbolizá-lo na altura, na largura e no comprimento admiravelmente proporcionados das igrejas, no côro, nas naves, no trifório, nas três portas e, muitas vezes, até nas três torres. Sempre e em toda a parte, no mais pequeno pormenor da ornamentação, o número três tem lugar de honra, marca um plano refletido, um pensamento de fé na Santíssima Trindade. A iconografia cristã também nos traduz, de diferente maneira, o mesmo pensamento. Até o século XII era vulgar representar o Pai por uma mão que saía dentre as nuvens do Céu e abençoar. Nos séculos XIII e XIV, começou a aparecer primeiramente a face e depois todo o busto. A partir do século XV começou o Pai a ser figurado por um ancião revestido das vestes pontificais. - Até o século XII a segunda Pessoa da Santíssima Trindade era figurada, com mais freqüência, pela cruz ou pelo cordeiro, e ainda por um gracioso jovem no jeito do Apolo do paganismo. Do século XI ao XV, é o Cristo forte, já no vigor da idade, que nos aparece. A partir do século XVI entra o costumo de lhe pôr a cruz e de o representar freqüentemente pelo cordeiro. - O Espírito Santo aparecia nos primeiros séculos sob a figura tradicional da pomba, tocando com as asas abertas na boca do Pai e na do Filho como argumento de sua precedência. A partir do século XI é na figura dum menino que o encontramos por vezes. No século XV a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, assume as proporções dum homem feito semelhante ao Pai e ao Filho, somente com a pomba na mão ou na cabeça, para se distinguir das outras Pessoas. Depois do século XVI a pomba volta a tomar o lugar exclusivo na representação do Espírito Santo. A geometria concorreu também para simbólica da Santíssima Trindade. O trevo teve, por sua vez, lugar de relevo na simbologia tradicional, e igualmente os três círculos enlaçados com a palavra unidade inscrita no lugar vazio pela intersecção. Foi ainda representada por uma cabeça com três faces distintas. Urbano VIII, porém, em 1628 proibiu reproduzir essa perigosa e ridícula interpretação do grande mistério do cristianismo.
A festa da Santíssima Trindade deve a sua origem ao fato de as ordenações do Sábado das Quatro Têmporas se celebrarem a tarde e se prolongarem até de manhã, não tendo o Domingo por este motivo liturgia própria. Como todos os Domingos são consagrados à Santíssima Trindade, celebra-se no primeiro depois de Pentecostes a Missa Votiva, composta no século VII em honra desse mistério. Façamos hoje, conformando-nos ao espírito da Liturgia, profissão de fé na Santíssima e Eterna Trindade, e na sua indivisível unidade.

Flores da Eucaristia - 31 de Maio

Ao terminar este belo mês que vos consagramos, ó Nossa Senhora do SSmo. Sacramento, depois de havermos meditado as vossas grandezas e admirado a perfeição de vossas adorações e de vosso serviço eucarístico no Cenáculo, resta-nos consagrarmo-nos inteiramente a vós, afim de que nos protejais em nossa vocação de adoradores.
Ó Maria, minha celestial Rainha e divina Mãe, não posso me tornar o feliz servo de Jesus Eucaristia se não consentirdes em me formar, educar e revestir de vosso espírito, de vossos méritos e virtudes, e se não me quiser para o vosso Filho, vós que sois a Rainha e Mãe dos servos de Jesus, que viveis somente para Jesus e que nos amais em Jesus e por Jesus.
A vós me entrego; apresentai-me ao vosso divino filho, e assim apresentado e formado por vós, ó boa Mãe, o meu bom Mestre me acolherá benignamente, amando-me em vós.

Ad Cæli Reginam

Depois de atentas e ponderadas reflexões, tendo chegado à convicção de que seriam grandes as vantagens para a Igreja, se essa verdade solidamente demonstrada resplandecesse com maior evidência diante de todos como luz que brilha mais, quando posta no candelabro, - com a nossa autoridade apostólica decretamos e instituímos a festa de Maria rainha, para ser celebrada cada ano em todo o mundo no dia 31 de maio. Ordenamos igualmente que no mesmo dia se renove a consagração do gênero humano ao seu coração imaculado. Tudo isso nos incute grande esperança de que há de surgir nova era, iluminada pela paz cristã e pelo triunfo da religião.

Clique aqui para ler a encíclica Ad Cæli Reginam, do Santo Padre o Papa Pio XII, explicando a Realeza de Nossa Senhora e instituindo sua festa no dia 31 de maio.

31 de maio: Nossa Senhora Rainha

Sermão de São Pedro Canísio Presbítero (1521-1597)

Da incomparável Virgem Maria Mãe de Deus, livro 15, c. 13

Por que não haveríamos de chamar Rainha a beatíssima Virgem Maria, como fizeram o Damasceno, Atanásio e outros, sendo que o Seu pai, Davi, gloriosamente honrado como rei, e o Seu Filho, como Rei dos reis e Senhor dos senhores imperando sem fim, são louvados sobremaneira pelas Escrituras? É Rainha, sobretudo, se comparada com aqueles [Santos] postos como reis no reino celeste, com Cristo, sumo Rei, como seus co-herdeiros, e colocados como no mesmo trono que Ele, como diz a Escritura. E, como Rainha, ela não está abaixo de nenhum dos eleitos, mas elevada em dignidade tão alta sobre tanto Anjos como homens que nada pode ser maior ou mais alto que Ela, só a Qual tem o mesmo Filho que Deus Pai, e que acima de Si só vê a Deus e Cristo, e abaixo, todas as demais criaturas.

O grande Atanásio disse claramente: Maria não é somente a Mãe de Deus, mas também pode ser chamada em verdade Rainha e Senhora, visto que o Cristo Que nasceu da Virgem Mãe é Deus e Senhor e também Rei. É a Esta Rainha, portanto, que se aplicam as palavras do Salmista: À Vossa destra estava a Rainha num vestido de ouro. Assim, Maria é retamente chamada Rainha, não só do céu mas também dos céus, como Mãe do Rei dos Anjos, e como Esposa e amada do Rei dos céus. Ó Maria, augustíssima Rainha e fidelíssima Mãe, a Quem ninguém reza em vão se reza devotamente, e a Quem todos os homens mortais estão ligados pela memória duradoura de tantos benefícios, repetidamente Vos imploro que aceiteis e Vos agradeis com todas as demonstrações da minha devoção para conVosco, deis valor ao pobre dom que eu ofereço de acordo com o zelo com que é oferecido, e o recomendeis ao Vosso Filho onipotente.

30 de maio de 2010

Flores da Eucaristia - 30 de Maio

No dia de sua gloriosa Assunção ao céu em corpo e alma, a SSma. Virgem recebeu o remate de todas as suas graças.
Podemos nos regozijar com razão, pois, longe de perdemos nossa Mãe, Ela nos precede na glória a fim de nos preparar um lugar e nos adquirir direitos sobre o Coração de Deus.
A Assunção de Maria nos autoriza a dizer:
“Ó Deus, nossa miséria é grande, na verdade, esta terra é um vale de lágrimas, porém vos envia o que possui de mais belo, maravilha que jamais imaginou poder produzir: Maria, vossa Mãe! Olhai-nos, pois, com olhares misericordiosos, em atenção a essa flor bendita de nosso vergel que hoje vos oferecemos; é a mais pura e formosa que nele floresceu”.
Jesus conduz sua mãe ao trono de Deus e diz: Eis aqui, ó pai, Aquele a quem vos associastes de modo particular, escolhendo-A para me dar a Humildade.
E o Pai a coroa com três títulos incomparáveis de rainha, mãe e medianeira. Mas no diadema de Maria brilham três pérolas de maior fulgor: a humildade, a pobreza e o sofrimento. No meio de sua glória, lembra-se de que é nossa Mãe; se soubermos chamá-la em nosso auxílio na hora suprema, virá buscar-nos levando-nos pela mão.

PRIMEIRO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES.

Festa da Santíssima Trindade.

Tres sunt qui testimonium dant in coelo: Pater, Verbum et Spiritus Sanctus, et hi tres unum sunt – "Três são os que dão testemunho no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo, e estes três são um" (1 Jo. 5, 7)

Sumário. A Santíssima Trindade é nosso tudo; e todos os bens que já temos recebido, e ainda esperamos para o futuro, nos vieram e virão da Santíssima Trindade. É, pois, com razão que a Igreja embora lhe consagre todos os Domingos, lhe dedique o dia de hoje de um modo especial. Veneremos devotamente tão augusto mistério, dizendo à miúde o Glória ao Pai; respeitemos também a imagem da Santíssima Trindade, que se acha em nosso própria alma como na do próximo.

I. Posto que todas as homenagens tributadas aos Santos redundem em honra da Santíssima Trindade, cuja imagem se honra na pessoa deles, exigem, contudo, a justiça e a gratidão que, tanto para glória do Altíssimo como para nosso próprio proveito, veneremos tão augusto mistério com obséquios especiais. É-nos isto um dever absolutamente indispensável; porquanto a Santíssima Trindade é o princípio d'onde procedemos, e o fim para o qual havemos de voltar. A primeira graça que nos foi conferida no batismo, veio-nos em nome da Santíssima Trindade, e a glória essencial que se goza no paraíso, é ainda a Santíssima Trindade.

É este o nome que faz tremer o inferno, põe em fuga os demônios, faz cessar as tentações, alegra os céus, beatifica os Santos, consola os justos, derrama a abundância das graças. Numa palavra, a Santíssima Trindade é nosso tudo. Todos os bens, que já temos recebido e ainda esperamos para o futuro, quer na ordem da natureza, quer na ordem graça e da glória, todos nos vieram da Santíssima Trindade.

Eis porque os Ofícios divinos da Igreja abundam em louvores, invocações e súplicas dirigidas expressamente às três Pessoas divinas. Não satisfeita ainda com isto, e apesar de ter consagrado à augustíssima Trindade todos os domingos do ano, dedica-lhe o dia de hoje de um modo especial. Quer nossa boa Mãe que todos os fiéis sejam devotos fervorosos de tão grande mistério; ou, antes, quer que esta seja a sua devoção particular. Todavia é talvez a devoção mais descuidada.

II. Para acharmos e visitarmos à Santíssima Trindade, não é mister que subamos ao céu ou entremos numa igreja; basta que lancemos um olhar de fé sobre nossa própria alma, na qual está impressa a bela e amada imagem de Deus, que ali habita como em seu templo. Recolhe-te, portanto, dentro de ti mesmo, e ali, todo silencioso, adora, louva, ama e bendiga à Santíssima Trindade. Em particular diga freqüente e devotamente o Glória ao Pai, onde, na palavra de São Francisco de Assis, se acha resumida toda a ciência e virtude das Sagradas Escrituras.

Se porventura manchaste por alguma culpa a tua alma, feita à semelhança de Deus, procura purificá-la quanto antes no sacramento da Penitência pelas lágrimas da contrição, e esforça-te por adorná-la com todas as virtudes cristãs. Habitua-te também a ver na alma do próximo outras tantas imagens vivas da Santíssima Trindade, e por este motivo ama-as, compadece-te delas, e ajuda-as conforme puderes, ao menos rezando por elas.

Afim de que esses teus obséquios sejam mais agradáveis à Santíssima Trindade, une-os àqueles que lhe tributam todos os anjos e santos do paraíso, Maria Santíssima, e especialmente o divino Redentor. Imagina que Jesus Cristo te diz o que um dia disse a Santa Gertrudes: "Minha Filha, eis aí o meu Coração, que faz as delícias da Santíssima Trindade. Eu to dou afim de que por ele possas suprir o que te falta".

Ó Santíssima Trindade, objeto, agora de minha fé, e um dia da minha eterna beatitude, creio em Vós, adoro-Vos, amo-Vos; e em união com toda a corte celeste quero sempre dizer: + "Santo, Santo, Santo é o Senhor, Deus dos exércitos. A terra está cheia da vossa glória. Glória ao Pai, glória ao Filho, glória ao Espírito Santo" (1); assim como foi no princípio, agora e sempre, e por todos os séculos dos séculos, Amém. "Ó Deus, que concedeste aos vossos servos conhecer na confissão da verdadeira fé a glória da eterna Trindade e adorar sua Unidade no poder da Majestade; nós Vos rogamos que com a firmeza da mesma fé possamos vencer todas as adversidades".(2) Fazei o pelo amor de Jesus e Maria.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 142-144.)

29 de maio de 2010

Domingo da Santíssima Trindade: Batizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo

Homilia de São Gregório Nazianzeno

Tratado sobre a fé, após o início

Qual católico ignora que o Pai seja verdadeiramente o Pai, o Filho seja verdadeiramente o Filho, e o Espírito Santo seja verdadeiramente o Espírito Santo, como o mesmo Senhor disse aos Seus Apóstolos: "Ide e batizai todos os Povos em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo."? Essa é a Trindade perfeita consistente na unidade, de que claramente professamos a unidade da substância. Porque não fazemos em Deus divisão segundo a condição dos corpos, mas segundo o poder da divina natureza, que não está na matéria, e cremos que verdadeiramente existem as pessoas correspondentes a cada nome, e somos testemunhas da unidade da essência da divindade. Não dizemos ser o Filho de Deus extensão de uma parte a outra parte de alguma outra pessoa divina, como alguns opinaram, nem dizemos que ele é meramente a "palavra" no sentido do som da voz, mas cremos que os três nomes e as três pessoas sejam unidade de essência, unidade também de majestade e de poder. E do mesmo modo professamos um único Deus, porque a unidade da majestade proibe de chamar "deuses", no plural. Por isso, catolicamente chamamos Pai e Filho, mas dizer que hajam dois Deuses, não podemos nem devemos. Não que o Filho de Deus não seja Deus, senão Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; mas, como conhecemos que o Filho de Deus não provém de outro lugar que não Esse mesmo único Pai, por isso dizemos que Deus é uno. Isso ensinaram os Profetas e os Apóstolos, e isso ensinou o mesmo Senhor, quando disse: "Eu e o Pai somos um". Dizendo "um", refere-se à unidade da divindade, e dizendo "somos", no plural, designa as pessoas.

Louvemos a Santa Trindade e também indivisa unidade, porque fez conosco a Sua misericórdia. (Intr.)

Do livro de São Fulgêncio Bispo (c. 468 - 533) para o diácono Pedro sobre a fé.

Entre as obras de Agostinho, tomo 3

A fé, que os santos Patriarcas e Profetas, antes da encarnação do Filho de Deus, receberam de Deus, a mesma que ouviram os santos Apóstolos d'Esse mesmo Senhor, encarnado, e, instruídos pelo magistério do Espírito Santo, não só pregaram com o sermão, como também deixaram em seus escritos, para salutaríssima instrução da posteridade, essa fé prega a Trindade do Deus único, isto é, Pai e Filho e Espírito Santo. Não seria verdadeiramente uma Trindade se se dissesse que fosse uma e a mesma pessoa o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Se, como é única a substância do Pai e do Filho e do Espírito santo, assim única fosse a pessoa, não haveria em Deus absolutamente nada de que se afirmasse verazmente que fosse Trindade.

Por outro lado, sendo verdadeira a mesma Trindade, essa Trindade não seria um só Deus se, do mesmo modo que o Pai e o Filho e o Espírito Santo distinguem-Se entre Si pela propriedade de cada pessoa, assim também fossem separados pela diversidade das naturezas. Mas, como, na Trindade do único verdadeiro Deus, naturalmente é verdadeiro não só o que Deus é único, mas também o que é Trindade, por isso o verdadeiro Deus é Trindade nas pessoas, e uno na natureza única.

Por essa unidade natural, todo o Pai está no Filho e no Espírito Santo; todo o Filho, no Pai e no Espírito Santo; e todo o Espírito Santo, no Pai e no Filhio. Nenhum d'Eles está fora de qualquer Um d'Eles, porque Nenhum dos Outros O precedeu na eternidade, ou excede em magnitude, ou supera em poder; porque nem que o Filho nem que o Espírito Santo, quanto diz respeito à unidade da natureza divina, é maior ou anterior o Pai; nem a eternidade e imensidão do Filho, como se fosse maior ou anterior, poderia naturalmente exceder a imensidão e eternidade do Espírito Santo.

Sábado da Têmpora de Pentecostes: Ordenou à febre, e ela deixou-a.

Homilia de Santo Ambrósio Bispo sobre o Evangelho de hoje: Lucas, 38, 44.

Lib 4 in cap. IV Lucae, sub finem.

Vê a clemência do Senhor Salvador: não deixou a Judeia, nem quando comovido pela indignação, nem ofendido pelas culpas, nem agredido pelas injúrias: antes esquecido das injúrias e lembrado da clemência, já ensinando, já livrando, já curando, move os corações do povo sem fé. Bem lembrou São Lucas que Ele antes livrou um homem de um espírito imundo, e então curou uma mulher, porque o Senhor veio para ambos os sexos que criou, mas antes deveria ser sanado o que primeiro fora criado, e, depois, não negligenciar aquela que, mais pela inconstância de ânimo que por depravação, pecou.

O início da medicina do Senhor num sábado significa que a nova criação começou onde acabou a velha. Além disso, mostra que o Filho não está sob a lei, mas sobre ela, e que não veio para abolir a lei, mas para cumpri-la. De fato, não foi pela lei, senão pelo Verbo que o mundo foi feito, como se lê: Os céus foram firmados pelo Verbo do Senhor (Salmo 32, 6). Portanto, a lei não é abolida, mas cumprida, de modo que se faça a renovação do homem já decaído. Por isso mesmo o Apóstolo diz: Despojai-vos do homem velho, revesti-vos do novo, que foi criado segundo Deus (Efésios 4, 22).

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 16ª Parte

CAPÍTULO XVI
Do amor do Filho de Deus em querer morrer por nós
1. “Eis aí o teu tempo, o tempo dos que amam... e te tornaste extremamente bela” (Ez 16, 8, 13). Quanto nós, os cristãos, somos devedores ao Senhor, por nos fazer nascer depois da vinda de Jesus Cristo! Nosso tempo não é mais o tempo do temor, como era o dos Hebreus, mas é o tempo do amor, havendo um Deus morrido por nossa salvação e para ser amado por nós. É artigo de fé que Jesus nos amou e por nosso amor se entregou à morte: “Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós” (Ef 5,2). E quem poderia fazer morrer um Deus onipotente se ele não quisesse de livre vontade dar a vida por nós? “Eu entrego a minha vida... Ninguém a tira de mim, mas eu a entrego por mim mesmo” (Jo 10,17-18). Por isso diz S. João que Jesus na sua morte deu-nos a última prova que podia dar-nos do seu amor: “Tendo-os amado, amou-os até ao fim” (Jo 13,1). Afirma um autor devoto que Jesus na sua morte nos deu a maior prova de seu amor, nada mais lhe restando depois disso a fazer para nos demonstrar quanto nos amava (Contens. 1. 10, d. 4, c. 1). Meu amado Redentor, vós vos destes todo a mim por amor e eu por amor me dou todo a vós. Destes a vida por minha salvação, eu por vossa glória quero morrer quando e como vos aprouver. Vós não podíeis fazer mais para conquistar o meu amor e eu, ingrato, entreguei-vos por nada. Meu Jesus, arrependo-me disso de todo o coração: perdoai-me por vossa paixão e em prova do perdão concedeime a graça de amar-vos. Sinto em mim um grande desejo de vos amar e tomo a resolução de ser todo vosso: vejo, porém, minha fraqueza, e vejo as traições que vos fiz: só vós podeis socorrer-me e tornar-me fiel. Ajudai-me, meu amor, fazei que vos ame e nada mais vos peço.
2. Diz o Beato Dionísio Cartusiano que a paixão de Jesus Cristo foi denominada um excesso:“E falavam do excesso que realizaria em Jerusalém” (Lc 9,31), porque foi excesso de piedade e de amor. Ó Deus, qual é o fiel que poderia viver sem amar Jesus Cristo, se meditasse a miúdo na sua paixão? As chagas de Jesus, diz S. Boaventura, são todas chagas de amor, são dardos e chamas que ferem até os corações mais duros e abrasam as almas mais frias. O beato Henrique Suso, para melhor imprimir em seu coração o amor a Jesus crucificado, tomou uma vez um ferro cortante e gravou em seu peito o nome de seu amado Senhor, e estando assim banhado em sangue dirigiu-se à igreja e prostrando-se diante do crucifixo, disse-lhe: Ó Senhor, único amor de minha alma, vede o meu desejo, quereria escrever vosso nome dentro de meu coração, mas não posso.. Vós, que tudo podeis, supri o que falta às minhas forças e imprimi no mais fundo do meu coração o vosso nome adorável, de tal maneira que não possa ser mais dela apagado nem o vosso nome, nem o vosso amor.
“O meu bem amado é cândido e rosado, eleito entre mil” (Ct 5,10). Ó meu Jesus, vós sois todo cândido por vossa ilibada inocência, mas, sobre essa cruz, estais todo vermelho pelas chagas sofridas por mim. Eu vos escolho pelo único objeto de meu amor. E a quem amarei senão a vós? Que objeto entre todos posso eu encontrar mais amável do que vós, meu Redentor, meu Deus, meu tudo? Eu vos amo, Senhor amabilíssimo, eu vos amo sobre todas as coisas. Fazei que eu vos ame com todos os meus afetos e sem reserva.
3. “Oh! se conhecesses o mistério da cruz”, disse S. André ao tirano. Ó tirano, queria ele dizer, se conhecesses o amor que Jesus Cristo te mostrou, querendo morrer sobre uma cruz para salvar-te, deixarias todos os teus bens e esperanças terrenas para te entregares inteiramente ao amor deste teu Salvador. O mesmo deve dizer-se aos fiéis que crêem na paixão de Jesus Cristo, mas nela não meditam. Ah, se todos os homens pensassem no amor que Jesus Cristo lhes testemunhou na sua morte, quem poderia deixar de amá-lo? Diz o Apóstolo que nosso amado Redentor morreu por nós, para que com o amor que nos demonstrou na sua morte se fizesse senhor de nossos corações. “Para isso Cristo morreu e ressuscitou, para ser senhor tanto dos mortos como dos vivos. Quer, pois, morramos, quer vivamos, somos do Senhor” (Rm 14,9). Portanto, quer morramos, quer vivamos, é justo que sejamos todos de Jesus que a tanto custo nos salvou. Oh! que eu pudesse dizer, como o abrasado S. Inácio, mártir, que teve a sorte de dar a vida por Jesus Cristo: “Que venham sobre mim o fogo, a cruz, as feras, e toda a espécie de tormentos, contanto que goze de ti, ó Cristo” (Ep. ad Rom. c. V). Ó meu caro senhor, morrestes para conquistar minha alma, e eu que fiz para vos adquirir, bem infinito? Ah, meu Jesus, quantas vezes eu vos perdi por um nada! Miserável! eu já sabia que com o meu pecado perdia a vossa graça, sabia que vos causava um grande desgosto e contudo eu o fiz. Consolo-me que tenho de tratar com uma bondade infinita, que se esquece das ofensas, mal um pecador delas se arrepende e a ama. Sim, meu Deus, eu me arrependo e vos amo. Perdoai-me e de hoje em diante dominai sobre este coração rebelde. Eu vo-lo entrego e a vós me dou inteiramente: dizei-me o que quereis, que eu quero fazer tudo. Sim, meu Senhor, quero amar-vos, quero contentar-vos em tudo: dai-me força e espero executá-lo.
4. Jesus com sua morte não cessou de nos amar; ama-nos ainda e procura-nos com o mesmo amor com que veio do céu à nossa procura e a morrer por nós. É célebre a fineza de amor que demonstrou o Redentor a S. Francisco Xavier, quando ele viajava. Durante uma tempestade, uma onda do mar havia-lhe roubado o crucifixo. Chegado o santo à praia, sentia-se triste e desejava recuperar a imagem de seu amado Senhor. E ei que vê um caranguejo vir ao seu encontro com o crucifixo alçado entre suas tenazes. Ele correu-lhe ao encalço e com lágrimas de ternura e amor o recebeu e estreitou ao peito. Oh! com que amor Jesus vai ao encontro da alma que busca. “Bom é o Senhor... para a alma que o busca” (Lm 3,25), isto é, para a alma que o busca com verdadeiro amor. Poder-se-á pensar que possuem este amor aquelas que recusam as cruzes que o Senhor lhes envia? “Cristo não procurou agradar a si mesmo” (Rm 15,3). Cristo não buscou sua vontade e cômodos, diz Cornélio a Lápide, mas sacrificou tudo isso e sua própria vida por nossa salvação. Jesus, por amor de nós, não procurou prazeres terrenos, mas os sofrimentos e a morte, apesar de ser inocente. E nós que procuramos por amor de Jesus Cristo? um dia se queixava S. Pedro, mártir, estando encarcerado por uma injusta acusação que lhe fizeram, e dizia: Mas, Senhor, que mal fiz eu para sofrer esta perseguição? E o crucificado lhe respondeu: e eu que mal pratiquei para estar pregado nesta cruz? Ó meu Salvador, perguntais que mal fizestes? Muito nos amastes e por isso quisestes padecer tanto por nosso amor. E nós, que por nossos pecados merecíamos o inferno, recusaremos padecer o que nos enviardes para nosso bem? Vós sois todo amor, ó meu Jesus, para quem vos procura. eu não busco vossas doçuras e consolações, busco só a vós e a vossa vontade; dai-me o vosso amor e depois tratai-me como vos aprouver. Abraço todas as cruzes que me enviardes, pobreza, perseguições, enfermidades, dores: livrai-me unicamente do mal do pecado e em seguida sobrecarregai-me de todos os males. Tudo será pouco em comparação dos males que vós sofrestes por meu amor.
5. “Para remir o servo nem o Pai poupou o Filho, nem o Filho poupou-se a si mesmo”, diz S. Bernardo (Serm. de pass.). E depois de um tão grande amor para com os homens poderá haver alguém que não ame a esse Deus tão amante? Escreve o Apóstolo que Jesus morreu por nós todos, para que nós vivamos somente para ele e seu amor: Por todos morreu Cristo, para que os que vivem, não vivam mais para si, mas para aquele que morreu por eles (2Cor 5,15). A maior parte dos homens, infelizmente, depois de um Deus haver morrido por eles, vive para os pecados, para o demônio e não para Jesus Cristo. Dizia Platão que o amor é o ímã do amor. E Sêneca afirmava: Ama, se queres ser amado. E como é que Jesus, que, morrendo pelos homens, pareceu enlouquecer de amor, na expressão de S. Cregório (Hom. 6), não conseguiu atrair a si os nossos corações depois de tantas provas de amor? Como é possível que amando-nos tanto não chegou a fazer-se amar de nós? Oh! se vos amassem todos os homens, ó Jesus meu amabilíssimo. Sois um Deus digno de um amor infinito. Mas, meu pobre Senhor, permiti que assim vos chame, sois tão amável, fizestes e padecestes tanto para que os homens vos amassem, e quanto são os que vos amam? Vejo quase todos os homens aplicados em amar ou os parentes, ou os amigos, ou as riquezas, ou as honras, ou os prazeres, e mesmo os animais: mas quantos são os que vos amam, bem infinito? Ó Deus, são muito poucos, mas eu quero estar no número destes poucos, apesar de mísero pecador, que durante tanto tempo também vos ofendi, amando o lodo, separando-me de vós. Agora, porém, eu vos amo e vos estimo sobre todos os bens e só a vós quero amar. Perdoai-me, meu Jesus, e socorrei-me.
6. Ó cristão, diz S. Cipriano, Deus está contente contigo, chegando até a morrer para conquistar teu amor, e tu não estarás contente com Deus, visto que amas outros objetos, fora de teu Senhor? (Ap. Cont.) Ah, meu amado Jesus, eu não quero ter outro amor que não seja por vós: estou satisfeito convosco: renuncio a todos os outros afetos, o vosso amor só me basta. Sinto que me dizeis:“Põe-me como selo sobre o teu coração” (Ct 8,6). Sim, meu Jesus crucificado, eu vos ponho e peço-vos que vos ponhais a vós mesmo como um selo sobre o meu coração, para que fique fechado a todo outro afeto que não tenda para vós. No passado eu vos desgostei com outros amores, mas presentemente não há pena que mais me aflija como a recordação de haver com os meus pecados perdido o vosso amor, e no futuro “quem me separará do amor de Jesus Cristo?”
Não, meu amabilíssimo Senhor, depois de me haverdes feito conhecer o amor que me tivestes, não quero mais viver sem vos amar. Eu vos amo, meu amor crucificado, eu vos amo de todo o meu coração e vos entrego esta alma tão procurada e amada por vós. Pelos merecimentos de vossa morte, que tão atrozmente separou vossa bendita alma de vosso corpo, desprendei-me de todo o amor que possa impedir-me de ser todo vosso e de amar-vos de todo o meu coração. Maria, minha esperança, ajudai-me a amar unicamente o vosso dulcíssimo Filho, de tal maneira que eu possa repetir sempre, no decorrer de minha vida: Meu amor foi crucificado. Amém.

Oração de S. Boaventura

Ó Jesus, que por mim não perdoastes a vós mesmo, imprimi em mim a vossa paixão, a fim de que em toda parte para onde me volte veja as vossas chagas e não encontre outro repouso que em vós e em meditar os vossos sofrimentos. Amém.

Flores da Eucaristia - 29 de Maio

O Espírito Santo foi o agente da Incarnação. Preparou Maria para a dignidade de Mãe de Deus, preservando-a de toda mancha em sua Conceição Imaculada, semeando em sua alma desde esse instante as mais belas virtudes e cultivando-a depois.
Ao soar o momento de formar e animar o Corpo de Jesus, tornou fecundo o seio da SSma. Virgem, continuando a habitar n’Ela após a execução desse mistério, e cobriu-a com sua sombra a fim de temperar os ardores do Sol divino que Ela trazia em si.
Ora, a Eucaristia, pela Comunhão, associa-nos à glória de Maria a as alegrias de sua maternidade, e o Espírito Santo desempenha em nós igual mister que a Incarnação.
Procuremos, portanto nos unir ao divino Espírito Santo quando formos comungar, e nos lembremos de que a disposição que Ele espera de nós é a de Maria ao exclamar: “Ecce ancilla Domini”.
Que o Espírito Santo nos prepare para a Comunhão, fale por nós e agradeça a Jesus em nosso nome, e que, por meio d’Ele, se estabeleça o reinado de Jesus em nós.

28 de maio de 2010

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 15ª Parte

CAPÍTULO XV
Do amor do Eterno Pai dando-nos o seu Filho
1. “Assim Deus amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito” (Jo 3,16).Três coisas devemos considerar nesta dádiva: quem é quem dá, que coisa e com que o amor no-la dá. É sabido que, quanto mais nobre o doador, tanto mais apreciável a dádiva; se alguém recebe uma flor de um monarca, estimará essa flor mais que um tesouro. Quanto, pois, devemos estimar este dom que nos vem das mãos de Deus? E que foi o que nos deu? Seu próprio Filho. Não se contentou o amor desse nosso Deus com dar-nos tantos bens nesta terra, mas chegou a dar-se todo inteiro a nós na pessoa do Verbo encarnado. S. João Crisóstomo diz: Deu-nos não um servo, nem um anjo, mas seu próprio Filho (In Jo. Hom. 26). Por isso exclama a Igreja, cheia de júbilo: “Ó maravilhosa condescendência de vossa ternura! Ó inapreciável rasgo de caridade! Para resgatar o escravo, sacrificastes o Filho!” Ó Deus infinito, como pudestes usar para conosco de tão admirável piedade? Quem jamais poderá compreender um excesso tão grande, que, para resgatar o escravo, quisésseis sacrificar vosso único Filho? ah, meu benigníssimo Senhor, desde que me destes o que de melhor possuíeis, é justo que eu vos dê o mais que me for possível. Vós quereis o meu amor e eu nada mais de vós desejo que o vosso amor. Aqui tendes o meu mísero coração que eu consagro inteirinho a vos amar. Criaturas todas, saí do meu coração e dai lugar ao meu Deus, que o merece e quer possuí-lo todo e sem partilha. Amo-vos, ó Deus de amor, amo-vos sobre todas as coisas e só a vós quero amar, meu Criador, meu tesouro, meu tudo.
2. Deus nos deu seu Filho e por quê? Só por amor. Pilatos, por temos humano, entregou Jesus aos judeus (Lc 23,25). O Eterno Pai entrega-nos seu Filho, mas pelo amor que nos consagra (Rm 8,32). S.Tomás afirma que numa dádiva o amor vem em primeiro lugar (I q. 38. a. 2). Quando nos fazem um presente, o primeiro dom que recebemos é o amor que o doador nos oferece na dádiva que faz, porque a única razão de um dom gratuito é o amor: quando se dá com outro fim, que não seja o puro afeto, o dom perde a razão de verdadeiro dom. A dádiva que nos fez de seu Filho o Padre Eterno, foi um verdadeiro dom todo gratuito e sem mérito algum da nossa parte. É por isso que se diz que a Encarnação do Verbo foi obra do Espírito Santo, isto é, efetuada por puro amor, como afirma o mesmo santo doutor: “Que o Filho de Deus se revestiu de carne proveio do mais acendrado amor de Deus” (III q. 32, a. 1).
Mas Deus não somente nos deu seu Filho por puro amor, mas no-lo deu igualmente com amor imenso. Foi justamente o que quis Jesus significar, dizendo: “Assim amou Deus o mundo”. A palavra assim denota a grandeza do amor, diz S. João Crisóstomo, com que Deus nos fez essa grande dádiva (In Jo. Hom. 26). E que maior amor poderia um Deus demonstrar-nos do que condenar à morte seu próprio Filho, inocente, para nos salvar a nós, míseros pecadores? “Não poupou a seu próprio Filho, mas entregou-o por nós todos” (Rm 8,32). Se o Padre Eterno pudesse padecer, que dor não sentiria ao ver-se obrigado por sua justiça a condenar o Filho, que amava como a si mesmo, a uma morte tão cruel e cheia de ignomínias? Quis que morresse consumido pelos tormentos e pelas dores, diz Isaías (53,10).
Imaginai que estais vendo o Padre eterno com Jesus morto nos braços, dizendo-vos: Ó homens, é este o meu Filho muito amado, em que eu encontrei todas as minhas complacências. Vede como eu o quis ver maltratado pelas vossas iniqüidades (Is 53,8). Ei-lo condenado à morte nessa cruz, aflito, abandonado até de mim, que tanto o amo. E tudo isto eu o fiz para que vós me ameis.
Ó bondade infinita! Ó misericórdia infinita! Ó Deus de minha alma, já que por minha causa quisestes a morte do objeto mais caro ao vosso coração, ofereço-vos por mim o grande sacrifício que vos fez de si mesmo este vosso Filho, e por seus merecimentos vos peço o perdão de meus pecados, o vosso amor, o vosso paraíso. São grandes estes favores que eu vos peço, mas é ainda mais valiosa a oferta que vos apresento. Perdoai-me e salvai-me, ó meu Pai, pelo amor de Jesus Cristo. Se vos ofendi pelo passado, arrependo-me disso mais que de todo o mal e agora eu vos estimo e vos amo mais que todos os bens.
3. Quem, a não ser um Deus de infinito amor, poderia nos amar a tal ponto? S. Paulo escreve: “Mas Deus, que é rico em misericórdia, pela excessiva caridade com que nos amou, nos vivificou em Cristo quando estávamos mortos pelo pecado” (Ef 2,4). Chama o Apóstolo amor excessivo esse amor que Deus nos demonstrou, dando aos homens, por meio da morte de seu Filho, a vida da graça que haviam perdido por seus pecados. Para Deus, porém, não foi excessivo esse amor, pois que Deus é o mesmo amor: “Deus é amor” (1Jo 4,16). Diz S. João que nisso quis Deus fazer-nos ver até aonde chegava a grandeza do amor de um Deus para conosco, enviando seu Filho ao mundo para obter-nos com sua morte o perdão e a vida eterna (1Jo 4,9). Estávamos mortos à graça pelo pecado, e Jesus com sua morte os restituiu a vida. Estávamos na miséria disformes e abomináveis, mas Deus, por meio de Jesus Cristo, tornou-nos belos e caros aos seus olhos divinos. Escreve o Apóstolo: “Ele nos fez agradáveis a si no seu amado Filho” (Ef 1,6). O texto grego diz: fez-nos graciosos. Por isso S. João Crisóstomo ajunta que, se houvesse um pobre leproso todo dilacerado e disforme, e alguém o curasse da lepra e o tornasse belo e rico, qual não seria a sua obrigação para com esse benfeitor? ora, imensamente maior é a nossa dívida para com Deus, pois sendo nossas almas disformes digno as de ódio pelas culpas cometidas, ele por meio de Jesus Cristo não só as livrou dos pecados como também as tornou mais belas e amáveis. “Abençoou-nos com toda a bênção espiritual em bens celestes, em Cristo” (Ef 1,3). Cornélio a Lápide comenta esta passagem: “Gratificou-nos com todos os bens espirituais”. A bênção de Deus é gratificar ou fazer bem e o Padre eterno, dando-nos Jesus Cristo, cumulou-nos de todos os bens, não terrenos para o corpo, mas espirituais para a alma. Em bens celestes, “dandonos com seu Filho uma vida celeste neste mundo, e no outro uma glória celeste”. Abençoai-me, pois, fazei-me bem, ó Deus amantíssimo, e que esse benefício seja atrair-me inteiramente ao vosso amor: “Atraí-me pelos laços de vosso amor”. Fazei que o amor que me consagrastes me arrebate em amor pela vossa bondade. Vós mereceis um amor infinito: eu vos amo com o amor de que sou capaz, amo-vos sobre todas as coisas, amo-vos mais do que a mim mesmo. Consagro-vos toda a minha vontade e esta é a graça que vos peço: fazei que de hoje em diante eu viva e faça tudo segundo a vossa vontade, visto que nada mais quereis que o meu bem e minha salvação eterna.
4. “Introduziu-me em sua adega e ordenou em mim a caridade” (Ct 2,4). O meu Senhor, diz a esposa sagrada, conduziu-me à adega, isto é, pôs-me diante dos olhos todos os benefícios que me fez para induzir-me a amá-lo: Ordenou em mim a caridade. Diz um autor que Deus, para conquistar nosso amor, enviou, por assim dizer, contra nós um exército de graças de amor. “Dispôs contra mim a caridade como um exército” (Casp. Sánchez). Segundo o Cardeal Hugo, o dom de si mesmo a nós, que Jesus nos fez, foi a seta reservada predita por Isaías: “Pôs-se como uma seta reservada: escondeu-me na sua aljava” (Is 49,2). Como o caçador reserva a melhor seta para o último tiro que deve abater a fera, assim Deus entre todos os seus benefícios reservou Jesus, até chegar o tempo da graça, e então o enviou como último golpe para ferir de amor os corações dos homens. Ferido por esta seta, dizia S. Pedro a seu Mestre: Senhor, vós bem sabeis que eu vos amo (Jo 21,15).
Ah, meu Deus, vejo-me circundado de todas as partes pelas finezas de vosso amor. Eu também vos amo e se eu vos amo sei que também vós me amais. E quem poderá privar-me de vosso amor? Só o pecado. Mas deste monstro do inferno, vós, pela vossa misericórdia, me haveis de livrar. Prefiro todos os males, a morte mais cruel, mesmo a destruição de meu ser, a ofender-vos com um pecado mortal. Vós, porém, já conheceis minhas quedas passadas, conheceis minha fraqueza, ajudai-me, meu Deus, pelo amor de Jesus Cristo. “Não desprezeis a obra de vossas mãos” (Sl 137,8). Sou a obra de vossas mãos, vós me criastes; não me desprezeis. Se por minhas culpas mereço ser abandonado, mereço não menos que tenhais misericórdia de mim por amor de Jesus Cristo, que vos sacrificou sua vida por minha salvação. Eu vos ofereço os seus merecimentos, que são todos meus, e por eles eu vos peço e espero de vós a santa perseverança com uma boa morte e, entretanto, a graça de viver o resto de minha vida todo consagrado à vossa glória. Basta quanto vos ofendi: eu me arrependo de todo o coração e quero amar-vos quanto posso. Não quero mais resistir ao vosso amor: entrego-me inteiramente a vós. Dai-me a vossa graça e o vosso amor e fazei de mim o que quiserdes. Meu Deus, eu vos amo e quero e peço-vos sempre o vosso amor: Atendei-me pelos merecimentos de Jesus Cristo. Maria, minha Mãe, rogai a Deus por mim. Amém.

Flores da Eucaristia - 28 de Maio

Nossa Senhora correspondia ao estado de humilhação de Jesus no SSmo. Sacramento pela vítima, por sofrimentos atuais; a seu estado de propiciação, pelos sacrifícios voluntários.
A fim de honrar a vida oculta de Jesus, Maria se aniquilava procurando não ser mais do que uma simples aparência humana, da qual todo o ser e toda a substância estão mudados e transformados em Jesus Cristo.
Maria é pobre como Jesus Sacramentado, e até mais do que Ele, porque pôde experimentar as privações reais da indigência.
Á exemplo de Jesus obedece, e honra sua obediência sacramental que O faz se submeter ao último dos ministros da Igreja, e para imitar a docilidade desta obediência tão simples e pronta, considera-se feliz em obedecer, atende pressurosa ao primeiro sinal.
Numa palavra, Maria completa em si própria a vida Eucarística de Jesus Cristo.

Sexta-feira da Têmpora de Pentecostes: Vendo-lhes a fé, disse: "Homem, teus pecados estão perdoados".

Homilia de Santo Ambrósio Bispo sobre o Evangelho de hoje: Lucas 5, 17-26, sobre o auxílio espiritual que se deve dar aos doentes.

Lib 5 in cap 5 Lucae post initium

Não foi sem razão nem desproposita essa cura que o Senhor operou com o paralítico, pelo fato de ter orado: isso Ele mandou não por que precisasse, mas por causa do exemplo. Fez isso para dar-nos um modelo a ser imitado, e não porque necessitasse da oração para curá-lo. E aos que ali vieram de toda a Galileia e Judeia, e os doutores da lei de Jerusalém, entre os demais remédios dos débeis, é demonstrada a medicina que ele usou com esse paralítico. Primeiro de tudo, segundo o que dissemos antes, que todo doente convide os seus amigos a rezar pela sua salvação, para que reformem-se, pelo remédio do verbo celestial, os defeitos da estrutura da nossa vida e as pegadas coxas dos nossos atos.

Deve haver, também, admoestadores das almas dos doentes, para que, a despeito da debilidade do corpo exterior, elevem o ânimo dos homens às coisas mais altas. Nas costas desses, ele é facilmente erguido e colocado diante de Jesus, digno de ser olhado pelo Senhor. Porque o Senhor volta sua atenção à humildade: "Porque olhou para a humildade da sua serva" (Lucas 2, 48). "Vendo a fé deles, disse: Homem, teus pecados estão perdoados". Grande é o Senhor, Que, pelo mérito de uns perdoa outros; Que, enquanto prova uns, releva os erros de outros. Por que não valorizas o teu igual, ó homem, se, junto de Deus, o servo tem o mérito da intercessão e o direito de impetrar o que pede?

27 de maio de 2010

Flores da Eucaristia - 27 de Maio

A SSma. Virgem, no Cenáculo, vivia da vida Eucarística de Jesus, porque o amor requer a comunhão de vida.
Em Belém e Nazaré, viveu da vida pobre e oculta de Jesus; no Egito, de sua vida perseguida; através das aldeias da Judéia, de sua vida apostólica, e tendo também compartilhado da vida crucificada de seu Divino Filho, devia, conseqüentemente, e com maior razão viver de sua vida eucarística que é a coroa das outras todas.
Por meio da Eucaristia a vida da SSma. Virgem era totalmente interior, silenciosa e oculta, afastada para o mundo, tendo Jesus por única testemunha e confidente. Sua vida transcorre na contemplação e na ação de graças diante da bondade infinita da Eucaristia, e esta visão absorve completamente o seu espírito, alimentando-o com a verdade; penetra suavemente seu coração, que tem por único desejo e necessidade amar sempre melhor, entregando-se totalmente e cada vez mais a Jesus. O próprio corpo de Maria participa dos gozos e da paz celestial dessa vida: está inteiramente espiritualizado.
“Cor meum et caro mea exsultavérunt in Deum vivum” – Meu coração e minha carne exultaram em Deus meu Salvador.”

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 14ª Parte

CAPÍTULO XIV
Da esperança que devemos ter na morte de Jesus
1. Jesus é a única esperança de nossa salvação; fora dele não há salvação, em nenhum outro (At 4,12). Eu sou a única porta, disse ele, e quem entrar por mim encontrará certamente a vida eterna (Jo 10,9). Que pecador poderia esperar perdão se Jesus não tivesse satisfeito por nós a justiça divina com seu sangue e com sua morte? “Ele carregou com suas iniqüidades” (Is 53,11). Por isso, o Apóstolo nos anima, dizendo: “Se o sangue dos bodes e dos touros santifica os imundos para a purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito Santo se ofereceu a si mesmo a Deus como vítima imaculada, purificará a nossa consciência das obras mortas para servir o Deus vivo?” (Hb 9,13-14). Se o sangue dos bodes e dos touros sacrificados tirava nos hebreus as manchas exteriores do corpo, para que pudessem ser admitidos aos sacros misteres, quando mais o sangue de Jesus Cristo, o qual por amor se ofereceu a pagar por nós, tirará os pecados de nossas almas para podermos servir o nosso sumo Deus. Nosso amoroso Redentor, tendo vindo a este mundo somente para salvar os pecadores e vendo já escrita contra nós a sentença de condenação por causa de nossas culpas, que faz? Ele com sua morte pagou o castigo que nos era devido e, cancelando com seu sangue a escritura da condenação, afixou-a na própria cruz em que morre, para que a justiça divina não exigisse de nós a satisfação devida (Cl 2,14).
“Cristo entrou uma só vez no santuário, havendo-nos adquirido uma redenção eterna” (Hb 9,12). Ah, meu Jesus, se não tivésseis encontrado esse modo de obter-me perdão, quem o poderia alcançar? Tinha razão Davi para exclamar: “Publicarei as suas maravilhas” (Sl 9,12). Publicai, ó bem-aventurados, os esforços amorosos que fez nosso Deus para salvar-nos. Visto, pois, ó meu doce Salvador, que me dedicaste tão grande amor, não deixeis de usar de piedade para comigo.Vós me resgatastes das garras de Lúcifer por meio de vossa morte: eu entrego minha alma nas vossas mãos, tendes de salvá-la. “Nas vossas mãos encomendo o meu espírito: vós me remistes, Senhor Deus de verdade” (Sl 30,6).
2.“Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Mas, se alguém pecar, temos um advogado junto do Pai, Jesus Cristo, o justo, e ele é a propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 2,1). Jesus Cristo não cessou com sua morte de interceder por nós junto de seu Pai, e mesmo agora é nosso advogado e parece, como escreve S. Paulo, que no céu não tem outra ocupação que mover seu Pai a usar de misericórdia para conosco.“Vive sempre a rogar por nós” (Hb 7,25). E ele ajunta que para isso subiu ao céu o Salvador: “Para se apresentar agora perante a face de Deus por nós outros” (Hb 9,24). Assim como são expulsos da face dos reis os rebeldes, nós, pecadores, não seríamos mais dignos de ser admitidos na presença de Deus nem mesmo para pedir-lhe perdão. Jesus, porém, como nosso Redentor, apresenta-se por nós perante Deus e por seus merecimentos nos obtêm a graça perdida: “Vós vos chegastes ao mediador do Novo Testamento, Jesus, e à aspersão do sangue mais eloqüente que o de Abel” (Hb 12,24). Oh! quanto melhor por nós implora misericórdia o sangue do Redentor, do que o sangue de Abel exigia castigo contra Caim! A minha justiça, disse Deus a S. Maria Madalena de Pazzi, se transformou em clemência com a vingança exercida sobre a carne inocente de Jesus Cristo. O sangue de meu Filho não exige de mim vingança, como o sangue de Abel, mas pede somente misericórdia e compaixão, e minha justiça não pode deixar de ficar aplacada com essas voz. Esse sangue lhe amarra as mãos de tal maneira que não as pode mover, por assim dizer, para tomar aquela vingança, que deveria, dos pecados.
3. “Não te esqueças da graça que te fez teu fiador” (Eclo 29,20). Ah, meu Jesus, eu era incapaz, depois de meus pecados, de satisfazer a divina justiça, mas vós quisestes com a vossa morte satisfazer por mim. Oh! quão grande seria a minha ingratidão se eu me esquecesse dessa tão grande misericórdia. Não, meu Redentor, não quero esquecer-me mais; quero agradecer-vos sempre e mostrar-me grato, amando-vos e fazendo quanto puder para vos contentar. Socorrei-me com as graças que me merecestes com tantos sofrimentos. Amo-vos, ó meu amor, minha esperança. “Minha pomba nas fendas do rochedo” (Ct 2,13). Oh! que refúgio seguro encontraremos sempre nessas fendas sagradas da pedra, que não as chagas de Jesus Cristo. “As fendas da pedra são as chagas do Redentor, diz S. Pedro Damião; nelas a alma fiel põe a sua esperança” (De S. Mat. serm. 3). Ah, aí nos veremos livres da desconfiança causada pela vista de nossos pecados, aí encontraremos as armas para nos defendermos quando formos tentados a pecar novamente. “Confiai, eu venci o mundo” (Jo 16,33). Se não tendes forças bastantes, exorta-nos o Salvador, para resistir aos assaltos que o mundo vos oferece com seus prazeres, confiai em mim, porque eu o venci e agora vós também o vencereis. Pedi para que meu eterno Pai vos conceda, por meus merecimentos, a força e eu vos prometo que tudo que lhe perdirdes em meu nome, ele vos dará (Jo 16,23). E em outro lugar nos reafirma a promessa, dizendo que qualquer graça que pedirmos a Deus por seu amor, ele mesmo, que é uma só coisa com o Pai, no-la dará: “Tudo que pedirdes a meu pai em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho” (Jo 14,13).
Ah! eterno Pai, confiado nos merecimentos e nessas promessas de Jesus Cristo, não vos peço bens da terra, mas somente a vossa graça. É verdade que eu, pelas injúrias que vos fiz, não mereceria nem o perdão nem graças. Mas se eu não o mereço, mereceu-mas vosso Filho, oferecendo seu sangue e sua vida por mim. Perdoai-me, pois, por amor desse vosso Filho. Dai-me uma grande dor de meus pecados e um grande amor a vós. Alumiai-me para que conheça quanto é amável a vossa bondade e quão grande é o amor que me tendes tido desde toda a eternidade. Fazei-me compreender a vossa vontade e dai-me a força para executá-la perfeitamente. Senhor, eu vos amo, e quero fazer tudo o que de mim exigis.
4. Que grande esperança de salvação nos dá a morte de Jesus Cristo. “Quem é que nos há de condenar? Jesus Cristo, que morreu por nós e que também intercede por nós” (Rm 8,34). Quem será que nos condenará, pergunta o Apóstolo: é aquele mesmo Redentor que, para não nos condenar à morte eterna, condenou-se a si mesmo a morrer cruelmente numa cruz. Isso anima S. Tomás de Vilanova a dizer: “Que temes, ó pecador, se pretendes deixar o pecado? Como há de te condenar aquele Senhor que morrer para te não condenar? Como te há de expulsar, quando voltares a seus pés, aquele que desceu do céu a tua procura, quando fugias dele?” Mas ainda maior coragem nos incute o Salvador mesmo, dizendo por Isaías: “Eis que eu te gravei nas minhas mãos; tuas muralhas estão sempre diante de meus olhos” (Is 49,16). Não percas a confiança, ovelha minha, vê quanto me custaste, eu tenho-te escrita nas minhas mãos, nestas chagas que eu sofri por ti: elas sempre me recordam que devo ajudar-te e defender-te contra teus inimigos: ama-me e confia.
Sim, meu Jesus, eu vos amo e em vós confio. O resgatar-me vos custou tanto, mas o salvar-me nada vos custa. A vossa vontade é que todos se salvem e que ninguém se perca. Se meu pecados me espantam, anima-me a vossa bondade que mais deseja fazer-me bem que eu recebê-lo. Ah, meu amado Redentor, vos direi com Jó. “Mesmo que ele me mate esperarei nele... E ele será meu salvador” (Jó 13,15). Ainda que me expulseis de vossa face, ó meu amor, não deixarei de esperar em vós, que sois meu Salvador. Essas vossas chagas e esse vosso sangue me dão suficiente confiança para esperar todos os bens de vós. Eu vos amo, caro Jesus, eu vos amo e em vós espero.
A glorioso S. Bernardo, achando-se enfermo, viu-se uma vez transportado diante do tribunal de Deus, onde o demônio o acusava de seus pecados e afirmava que ele não merecia o paraíso. O santo respondeu: É verdade que eu não mereço o paraíso, mas Jesus tem duplo direito a esse reino: um por ser Filho natural de Deus, outro por havê-lo conquistado com sua morte; ele se contenta com o primeiro e cede-me o segundo, por isso eu peço e espero o paraíso. O mesmo podemos nós dizer, pois S. Paulo escreve que Jesus Cristo quis morrer consumido de dores para obter o paraíso a todos os pecadores arrependidos e resolvidos a emendar-se. “E, sacrificado, foi feito o autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,9). E o Apóstolo ajunta: “Corramos ao combate que nos está proposto, olhando para o autor e consumador da fé, Jesus, que, sendo-lhe proposto o gozo, suportou a cruz, desprezando a ignomínia” (Hb 12,1-2). Combatamos com coragem os nossos inimigos, olhando para Jesus Cristo que, com os merecimentos de sua paixão, nos oferece a vitória e a coroa.
5. Ele disse que subia aos céus para preparar-nos um lugar:“Não se turbe o vosso coração... porque eu vou preparar-vos um lugar” (Jo 14,1). Ele disse e continua a dizer a seu Pai que, visto o Pai nos ter dado a ele, nos quer ter consigo no paraíso: “Pai, quero que aqueles que me destes estejam comigo onde eu estou” (Jo 17,24). Que maior misericórdia poderíamos esperar do Senhor, diz S. Anselmo, que o Padre Eterno dizer a um pecador já condenado ao inferno por seus crimes e que não tinha meios de livrar-se do castigo: “Toma o meu Filho e oferece-o por ti” e o Filho acrescentar: “Toma-me e livra-te do inferno” (Cur Deus homo l. 2, c. 20).
Ah, meu Pai amoroso, agradeço-vos haver-me dado vosso Filho por meu Salvador, ofereço-vos sua morte e por seus merecimentos vos suplico compaixão. Agradeço-vos sempre, ó meu Redentor, por haverdes dado vosso sangue e vossa vida para livrar-me da morte eterna. Socorrei-nos, pois, a nós, servos rebeldes, os quais com tanto custo remistes. Ó meu Jesus, única esperança minha, vós me amais e porque sois onipotente, fazei-me santo. Se eu sou fraco, dai-me fortaleza, se estou enfermo pelas culpas cometidas, aplicai à minha alma uma gota de vosso sangue e sarai-me. Dai-me o vosso amor e a perseverança final e fazei que eu morra na vossa graça. Dai-me o paraíso. Eu vos amo, ó Deus amabilíssimo, com toda a minha alma, e espero amar-vos sempre: ajudai a um mísero pecador que vos quer amar.
6. “Tendo nós o grande pontífice que penetrou nos céus, Jesus, Filho de Deus, conservemos a nossa confissão. Não temos um pontífice que não possa compadecer-se de nossas enfermidades, tendo experimentado todas as tentações, exceto o pecado” (Hb 4,14). já que temos um Salvador que nos abriu o paraíso, que por um certo tempo nos estava fechado pelo pecado, diz o Apóstolo, confiemos sempre nos seus merecimentos, pois ele sabe se compadecer de nós, tendo querido na sua bondade padecer as nossas misérias.“Vamos, pois cheios de confiança, ao trono da graça, para que consigamos misericórdia e encontremos a graça para sermos socorridos oportunamente” (Hb 4,16). Dirijamo-nos, pois, com confiança ao trono da misericórdia, ao qual temos acesso por meio de Jesus Cristo, para que aí encontremos todas as graças de que necessitamos. E como poderemos duvidar, ajunta S. Paulo, que Deus, tendo-nos dado seu Filho, nos tenha dado com ele todos os bens? “Entregou-o por nós todos: como não nos deu com ele todas as coisas?” (Rm 8,32). O cardeal Hugo comenta este passo: Não nos negará o menos, que é a glória eterna, aquele Senhor que chegou a dar-nos o mais, que é o seu próprio Filho. Ó meu sumo bem, que vos darei por um tal dom que me fizestes de vosso Filho? Dir-vos-ei com Davi: O Senhor retribuirá por mim (Sl 137,8). Senhor, não tenho com que retribuir-vos, vosso próprio Filho é o único que vos poderá agradecer dignamente: ele vos agradece por mim. Pai piedosíssimo, pelas chagas de Jesus, peço-vos que me salveis. Amo-vos, bondade infinita, e, porque vos amo, arrependo-me de vos haver ofendido. Meu Deus, meu Deus, eu quero ser todo vosso; aceitai-me por amor de Jesus Cristo. Ah, meu doce Criador, será possível que, havendo-me dado o vosso Filho, me negueis os vossos bens, a vossa graça, o vosso amor, o vosso paraíso?
7. Assevera S. Leão que foram maiores os bens que nos trouxe a morte de Jesus Cristo, do que os danos a nós causados pelo demônio com o pecado de Adão (Serm. 1, de Asc.). É o que afirma claramente o Apóstolo quando escreve aos Romanos: “Não se deu com o pecado como com o dom. Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20). Explica o Cardeal Hugo: A graça de Cristo é de maior eficácia do que o pecado.“Não há comparação entre o pecado do homem e o dom que Deus fez dando-nos Jesus Cristo; foi grande o delito de Adão, mas muito maior a graça que Jesus Cristo nos mereceu com sua paixão. “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Eu vim ao mundo, atestou o Salvador, para que os homens, mortos pelo pecado, não só recebam por mim a vida da graça, mas uma vida mais abundante do que a que perderam pela culpa. Motivo esse que levou a santa Igreja a chamar feliz a culpa que nos mereceu ter um tal Redentor. “Eis o Deus meu Salvador: agirei com confiança e não recearei” (Is 12,2). Se vós sois um Deus onipotente, ó meu Jesus, e sois também meu Salvador, que receios poderei ter de condenar-me? Se no passado vos ofendi, arrependo-me disso de todo o coração: no futuro quero servir-vos, obedecer-vos e amar-vos: espero firmemente que vós, meu Redentor, que tanto fizestes e padecestes por minha salvação, não me negareis graça alguma necessária para salvar-me (S. Boaventura).
“Tirareis águas com alegria das fontes do Salvador e direis nesse dia: Louvai o Senhor e invocai o seu nome” (Is 12,3). As chagas de Jesus Cristo são essas benditas fontes das quais podemos receber todas as graças se com fé lhas pedirmos.“E sairá da casa do Senhor uma fonte, que regará a torrente dos espinhos” (Joel 3,18). A morte de Jesus é essa fonte prometida que irrigou as nossas almas com as águas da graça e transformou em flores e frutos da vida eterna por seus merecimentos os espinhos do pecado. Como diz S. Paulo, nosso amante Redentor fez-se pobre neste mundo para que nós pelo merecimento de sua pobreza nos tornássemos ricos (2Cor 8,9). Pelo pecado nos fizemos ignorantes, injustos, iníquos, escravos do inferno; Jesus Cristo morrendo e satisfazendo por nós, fez-se por Deus nossa sabedoria, nossa santificação e nossa redenção, diz o Apóstolo (1Cor 1,20). Fez-se nossa sabedoria, instruindo-nos; nossa justiça, perdoando-nos; nossa santidade, com seu exemplo; nosso resgate, com sua paixão, livrando-nos das garras de Lúcifer. Em suma, diz S. Paulo, os merecimentos de Jesus Cristo nos enriqueceram de todos os bens, de maneira que nada mais nos falta para receber todas as graças (1Cor 1,5).
Ó meu Jesus, meu Jesus, que belas esperanças me incute vossa paixão. Quanto vos devo, meu amado Senhor. Ah, não vos tivesse eu ofendido. Perdoai-me todas as injúrias que vos fiz: inflamai-me para sempre. E como posso temer não ser perdoado e receber a salvação de todas as graças de um Deus onipotente que me deu todo o seu sangue? Ah, meu Jesus, minha esperança, para não me condenardes, quisestes perder a vossa vida: não quero perder-vos mais, bem infinito. Se vos perdi no passado, eu me arrependo e no futuro não quero perder-vos mais, vós me ajudareis para que eu não vos perca mais. Senhor, eu vos amo e quero amar-vos sempre. Maria, depois de Jesus sois a minha esperança; dizei a vosso Filho que vós me protegereis e serei salvo. Amém.

Quinta-feira na Oitava de Pentecostes: Deu-lhes virtude e poder sobre todos os demônios e para curar enfermidades.

Homilia de Santo Ambrósio Bispo sobre o Evangelho de hoje: Lucas, 9, 1-6.

Lib. 6. in cap. 9. Lucae.

Pelos preceitos do Evangelho é definido como deve ser aquele que anuncia o Reino de Deus: que, sem vara, sem bolsa, sem calçado, sem pão, sem dinheiro, isto é, que, sem requerer nenhum subsídio secular, e, só pela fé, considere-se como quem de menos precisa, e que mais se satisfaz com o que tem. Se quisermos, podemos dar uma interpretação espiritual para essa questão: que se dispa da carne como de uma roupa, não apenas rejeitando o poder das riquezas desprezadas, mas abdicando também dos prazeres da carne. A esses apóstolos, foi dado, por primeiro, o mandamento geral da paz e concordância [constantia], para que tragam a paz*, conservem a constância, observando as obrigações e normas da casa do hospedeiro: é estranho a um pregador do reino dos céus mudar de casa em casa, e mudar as leis invioláveis da hospedaria.

Por outro lado, de modo a recomendar às pessoas o favor de dar-lhes hospedagem, Ele manda também: se não fordes recebidos, batei o pó e saí da cidade. Ensina ainda Ele que não são pequenos os bens com os quais são remunerados os hospedeiros, pois nós não apenas damos paz à hospedagem, como também, se houver aí alguém ofuscado pela leviandade dos delitos terrenos, será libertado recebendo as pegadas do pregador apostólico. Segundo Mateus, a escolha da casa na qual o apóstolo entrará não deve ser descurada**, para que não seja necessário violar os costumes da hospedagem. Mas tanta precaução não é recomendada àquele que oferece abrigo, para que a sua hospitalidade não seja diminuída, se se puser a escolher o hóspede.

* Mateus, 10, 13: Ao entrardes numa casa, dizei: Paz a esta casa!
** Mateus, 10, 11.

26 de maio de 2010

Missa Tridentina em Curitiba: Sermão do Pe. Paulo Iubel no Domingo de Pentecostes (22/05/2010)

Pe. Paulo Iubel
Paróquia Imaculada Conceição
Curitiba/PR



A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 13ª Parte

CAPÍTULO XIII
Das últimas palavras de Jesus na cruz e de sua morte
1. Diz S. Lourenço Justiniano que a morte de Jesus foi a mais amarga e dolorosa dentre todas as mortes dos homens, porque o Redentor morreu na cruz sem o mínimo alívio. Nas pessoas que sofrem, a pena é sempre mitigada por qualquer pensamento ao menos de consolação; mas a dor e a tristeza de Jesus foram inteiramente puras, sem mistura de consolo, como diz o Angélico (III q. 46 a 6). Por isso S. Bernardo, contemplando Jesus agonizando na cruz, exclama: Meu caro Jesus, contemplando-vos sobre esse madeiro, dos pés até à cabeça não vejo senão dor e tristeza. Ó meu doce Redentor, ó amor de minha alma, por que quisestes derramar todo o vosso sangue, por que sacrificar a vossa vida divina por um verme ingrato como eu? Ó meu Jesus, quando será que eu me ligarei tão estreitamente a vós que não possa mais separar-me e deixar de vos amar? Ah, Senhor, enquanto vivo neste mundo, estou em perigo de negar-vos o meu amor e perder a vossa amizade, como tenho feito no passado. Ah, meu caríssimo Salvador, se, continuando a viver, terei de passar por esse grande mal, suplico-vos por vossa paixão, dai-me a morte agora que eu espero estar em vossa graça. Eu vos amo e quero amar-vos sempre.
2. Lamentava-se Jesus pela boca do Profeta que, quando agonizava na cruz, procurava quem o consolasse e não o encontrava (Sl 68,21). Os judeus e os romanos, mesmo quando ele estava para expirar, o maldiziam e blasfemavam. Maria Santíssima, sim, estava aos pés da cruz para dar-lhe algum alívio, se pudesse; mas essa mãe aflita e amorosa, com a dor que suportava pelos sofrimentos de Jesus, mais afligia a esse Filho que tanto a amava. Diz S. Bernardo que os sofrimentos de Maria contribuíram mais para atormentar o coração de Jesus. Quando o Redentor olhava para Maria assim atormentada, sentia sua alma transpassada mais pelas dores da Mãe que pelas suas próprias, como a mesma Santíssima Virgem revelou a S. Brígida: “Ele, vendo-me, mais se doía de mim que de si mesmo”. Do que conclui S. Bernardo: Ó bom Jesus, vós sofreis grandes dores no corpo, mas sofreis ainda mais no coração por compaixão com vossa Mãe.
3. Que sofrimentos, pois, não experimentaram esses corações amorosíssimos de Jesus e Maria, quando chegou o momento em que o Filho, antes de expirar, teve de se despedir de sua Mãe. Eis as últimas palavras com que Jesus se despediu neste mundo de sua Mãe: “Mulher, eis aí teu filho” (Jo 19,26), indicando-lhe João que lhe deixava por filho em seu lugar. Ó Rainha das dores, as recordações de um filho amado que morre são muito caras e não saem mais da memória de uma mãe. Recordai-vos que vosso Filho, que tanto vos amou, vos deixou a mim, pecador, por filho, na pessoa de João. Pelo amor que tendes a Jesus, tende piedade de mim. Eu não vos peço os bens da terra: vejo vosso Filho que morre em tantos tormentos por mim; vejo-vos a vós, minha Mãe inocente, sofrendo tantas dores por mim e vejo que eu, miserável réu do inferno, nada padeci pelos meus pecados por vosso amor. Quero sofrer alguma coisa por vós antes de morrer. Esta é a graça que vos peço e vos digo com S. Boaventura que, se vos ofendi, é de justiça que eu padeça por castigo, e seu eu vos servi, é justo que eu sofra por recompensa. Impetrai-me, ó Maria, uma grande devoção e uma recordação contínua da paixão de vosso Filho. E por aquele tormento que sofrestes, vendo-o expirar na cruz, obtende-me uma boa morte; assisti-me, minha Rainha, naquele último momento e fazei que eu morra amando e proferindo os santíssimos nomes de Jesus e Maria.
4. Vendo Jesus que não encontrava quem o consolasse neste mundo, levantou os olhos e o coração para seu Pai, para pedir-lhe alívio. Mas o eterno Pai, vendo seu Filho coberto com as vestes de pecador: Não, Filho, disse-lhe, não te posso consolar, já que estás satisfazendo a minha justiça pelos pecados de todos os homens; convém que agora eu te abandone aos teus sofrimentos e te deixe morrer sem conforto. E foi então que o nosso Salvador, elevando a voz, disse: “Deus meu, por que me abandonais”? (Mt 27,46). Explicando esta passagem, o Beato Dionísio Cartusiano diz que Jesus proferiu essas palavras com grande brado, para fazer todos compreenderem a grande dor e tristeza em que morria. E quis nosso amantíssimo Redentor morrer privado de toda consolação, acrescenta S. Cipriano, para nos demonstrar seu amor e atrair para si todo o nosso amor. Ah, meu amado Jesus, queixai-vos injustamente, dizendo: Meu
Deus, por que me abandonastes? Perguntas por quê? E eu pergunto-vos: por que quisestes vos encarregar de pagar por nós? Não sabíeis que só pelos nossos pecados merecíamos ser abandonados por Deus? Com razão, pois, vos abandonou o vosso Pai e vos deixou morrer num mar de dores e de tristezas. Ah, meu Redentor, o vosso abandono me aflige e me consola: aflige-me, porque vos vejo morrer com tantos sofrimentos, mas consola-me dando-me confiança de que, pelos vossos merecimentos, não serei abandonado pela misericórdia divina, como eu merecia por vos ter abandonado tantas vezes para seguir os meus caprichos. Fazei-me compreender que, se para vós foi tão cruel o ser privado por breve tempo da presença sensível de Deus, qual seria o meu tormento se tivesse de ficar privado de Deus para todo o sempre. Por esse vosso abandono, suportado com tanta dor, não me abandoneis, ó meu Jesus, especialmente na hora de minha morte. Nesse momento em que todos me abandonarão, não me abandoneis, vós, meu Salvador. Sede então vós, meu Senhor desolado, o meu conforto nas minhas desolações. Bem sei que se vos amasse sem consolação, contentaria o vosso coração; conheceis, porém, a minha fraqueza, ajudai-me com a vossa graça. infundindo-me então perseverança, paciência e resignação.
5. Aproximando-se Jesus da morte, disse: :”Tenho sede”. Dizeime, Senhor, de que tendes sede? pergunta Leão de Óstia. Vós não vos queixais dos imensos tormentos que sofrestes na cruze vos lamentais exclusivamente da sede? “Minha sede é a vossa salvação”, lhe faz dizer S. Agostinho (In ps. 33).Ó almas, diz Jesus, esta minha sede não é outra coisa que o desejo que tenho de vossa salvação. O Redentor amorosíssimo tem um ardente desejo de nossas almas e por isso ardia em se dar todo a nós por meio de sua morte. Foi essa a sua sede, escreve S. Lourenço Justiniano. E S. Basílio de Seleucia diz que Jesus Cristo afirma sentir sede, para dar-nos a entender que, pelo amor que nos tinha, morria com o desejo de padecer por nós mais ainda do que tinha padecido. Ó Deus amabilíssimo, porque nos amais, desejais que nós suspiremos por vós. “Deus tem sede de que tenhamos sede dele”, diz S. Gregório Nazianzeno (Tetr. Sent. 34). Ah, meu Senhor, tendes sede de mim, vilíssimo verme, e eu não sentirei sede de vós, meu Deus infinito? Pelos merecimentos dessa sede suportada na cruz, dai-me uma grande sede de vos amar e de comprazer-vos em tudo. Prometestes que nos atenderíeis em tudo o que vos pedíssemos: Pedi e recebereis. Eu vos peço este dom de vosso amor. Eu não o mereço, mas será essa a glória de vosso sangue, fazer vosso grande amigo um coração que durante tanto tempo vos desprezou; fazer todo chamas de caridade um pecador todo cheio de lama e de pecados. Fizestes muito mais do que isto, morrendo por mim. Ó Senhor infinitamente bom, eu desejaria amar-vos tanto quanto vós o mereceis. Regozijo-me do amor que vos têm tantas almas abrasadas e mais ainda do amor que tendes por vós mesmo, ao qual uno o meu, embora fraquíssimo. Amo-vos, ó Deus eterno, amo-vos, ó amabilidade infinita. Fazei que eu cresça cada vez mais no vosso amor, repetindo sem cessar atos de amor e esforçando-se par vos agradar em todas as coisas sem intermitência e sem reserva. Fazei que, apesar de miserável e pequenino como sou, seja pelo menos todo vosso.
6. Nosso Jesus, já estando para expirar, disse com voz moribunda:“Tudo está consumado”. Enquanto profere essa palavra, rememora em sua mente todo o decorrer de sua vida: viu todas as fadigas que experimentara, a pobreza, as dores, as ignomínias suportadas, oferecendo-as todas novamente a seu eterno Pai pela salvação do mundo. Depois, voltando-se para nós, repetiu: “Tudo está consumado”, como se dissesse: Ó homens, tudo está consumado tudo está completo: concluída a vossa redenção, satisfeita a divina justiça, aberto o paraíso. “Eis o teu tempo, e o tempo dos amantes” (Ez 16,8). É tempo, finalmente, ó homens, de começardes a amar-me. Amai-me, pois, amai-me porque nada mais me resta fazer para ser amado por vós. Vede o que fiz para conquistar o vosso amor: por vós levei uma vida tão cheia de tribulações; no fim de meus dias, antes de morrer, consenti em que me tirassem todo o meu sangue, me escarrassem no rosto, lacerassem as carnes, coroassem de espinhos, chegando até aos horrores da agonia neste lenho, como estais vendo. Que falta ainda? Só falta que eu morra por vós; pois bem: quero morrer:Vem, ó morte, dou-te licença de tirar-me a vida pela salvação de minhas ovelhas. E vós, ovelhas minhas, amai-me, porque nada mais posso fazer para me fazer amar. Tudo está consumado, diz Tauler, tudo o que a justiça exigia, o que requeria a caridade, tudo o que se podia fazer para patentear o amor (De vita et pass. Salv. c. 49). Pudesse dizer também eu ao morrer, meu amado Jesus: Senhor, realizei tudo, fiz tudo que me impusestes, levei com paciência a minha cruz, tudo vos satisfiz. Ah, meu Deus, se tivesse de morrer agora, morreria descontente, porque não poderia repetir nenhuma dessas coisas de verdade. Mas hei de viver sempre assim, ingrato ao vosso amor? Dai-me a graça de contentar-vos nos anos que me restam, para que, quando chegar a morte, possa dizer-vos que ao menos desta data em diante executei a vossa vontade. Se vos ofendi pelo passado, a vossa morte é minha esperança. Para o futuro não quero mais atraiçoar-vos, mas é de vós que espero a minha perseverança. Por vossos merecimentos, ó meu Senhor Jesus Cristo, eu volo peço e espero.
7. Eis Jesus expirando na cruz. Contempla-o, minha alma, nas dores da agonia, a exalar o último suspiro. Contempla esses lhos moribundos, a face pálida, o coração que com lânguido movimento apenas palpita, o corpo que já se entrega à morte e esse bela alma que em breve deixará o corpo dilacerado. Já o céu se escurece, treme a terra, abrem-se os sepulcros. Que significam esses terríveis sinais? a morte do Criador do universo. 8. Por último, nosso Redentor, depois de haver recomendado sua bendita alma a seu eterno Pai, tendo primeiramente dado um grande suspiro partido de seu aflito coração, inclina a cabeça em sinal de obediência, oferece sua morte pela salvação dos homens e expira pela violência de dor, entregando seu espírito nas mãos de seu querido Pai. “E clamando com grande brado, Jesus diz: ‘Pai, em vossas mãos encomendo o meu espírito’. E dizendo isto, expirou” (Lc 23,46). Chega-te, minha alma, aos pés deste santo altar, no qual morreu sacrificado para te salvar o Cordeiro de Deus. Chega-te e pensa que ele morreu pelo amor que te consagrou. Pede quanto desejares ao teu Senhor morto e espera tudo. Ó Salvador do mundo, ó meu Jesus, eis a que estado vos reduziu o amor pelos homens; agradeço-vos o terdes querido perder a vida para que se não perdessem as nossas almas: agradeço-vos por todos, mas particularmente por mim mesmo. Quem mais do que eu se aproveitou do fruto de vossa morte? Eu, por vossos merecimentos, sem nem sequer o saber, tornei-me filho da S. Igreja pelo batismo: por vosso amor fui tantas vezes perdoado e recebi tantas graças especiais; por vós tenho a esperança de morrer na graça de Deus e de chegar a amar-vos no paraíso. Meu amado Redentor, quanto vos devo! Entrego minha pobre alma às vossas mãos traspassadas. Fazei que eu compreenda bem quão grande foi o amor que levou um Deus a morrer por mim. Desejaria morrer também por vós, Senhor, mas que compensação pode dar a morte de um escravo perverso à de seu Senhor e Deus? desejaria ao menos amar-vos quanto estivesse em mim, mas sem o vosso auxílio, ó meu Jesus, eu nada posso. Ajudai-me e pelos merecimentos de vossa morte fazei que eu morra a todos os amores da terra para que eu ame somente a vós, que mereceis todo o meu amor. Eu vos amo, bondade infinita, eu vos amo, meu sumo bem, e vos suplico com S. Francisco: “Morra eu, Senhor, pelo amor de teu amor, que te dignaste morrer pelo amor de meu amor”. Morra eu a tudo, ao menos por gratidão ao grande amor que me mostrastes, dignando-vos morrer por meu amor e para ser amado por mim. Maria, minha Mãe, intercedei por mim. Amém.

Flores da Eucaristia - 26 de Maio

Maria não tinha pecado que expiar, nem original nem atual: não recebera de Deus como Jesus, o fardo de nossas iniqüidades, e por que foi então que sofreu tanto em sua vida, durante a qual teve incessantemente diante dos olhos o quadro da morte do seu Filho? E por que, principalmente, teve de suportar o martírio do Calvário?
É que o sofrimento é a lei do amor, foi o amor de Maria que teceu o seu martírio, e porque amava mais do que todas as criaturas, sofreu um martírio incomparável.
Outra razão de ser do sofrimento é que ele é a glorificação atual de Jesus Cristo em nós; padecendo, continuamos e completamos o seu sacrifício. No caso de Maria, existe ainda motivo de que a glória da maternidade deve ser conquistada pelo sofrimento. Ao dar a luz o seu Filho imaculado, foi isenta dessa lei, mas quando se tratou de tornar-se nossa Mãe e nos fazer nascer à vida da graça, teve de experimentar-lhe todo o rigor.
Quanto sofreu Jesus Cristo para nos regenerar! Maria sofrerá com Ele, imóvel ao pé da Cruz, partilhando em seu coração todos os tormentos da Paixão a fim de se tornar nossa Mãe adotiva.

Quarta-feira da Têmpora de Pentecostes: Ninguém pode vir a mim se o Pai não o atrair.

Homilia de Santo Agostinho Bispo sobre o Evangelho de hoje: João 6, 44-52

Tratado 26 sobre João, após o início

Não penses que podes ser atraído à revelia: a alma é atraída pelo amor. Nem devemos temer que os homens, que medem as palavras mas estão maximamente distantes de entender as coisas divinas, nos repreendam com a palavra evangélica destas Escrituras santas, dizendo-nos: Como creio por minha vontade, se sou atraído? Eu digo: Pouco o és pela vontade [voluntate]: mais és atraído pelo prazer [voluptate]. O que é ser atraído pelo prazer? Deleita-te no Senhor, e Ele te dará as petições do teu coração. É um prazer para coração daquele para o qual Ele é um doce pão celeste. Além do mais, se o Poeta [Virgílio] pôde dizer "O prazer de cada um o atrai; não a necessidade, mas o prazer; não a obrigação senão o deleite", com quanto mais razão devemos nós dizer que o homem é atraído para Cristo, aquele que se deleita na verdade, na bem-aventurança, na justiça, na vida sempiterna, em tudo isso que é Cristo? Ou será que os sentidos do corpo têm os seus prazeres, e a alma é desprovida dos seus? Se a alma não tem os seus prazeres, por que se diz: Os filhos dos homens esperarão sob a proteção das tuas asas: inebriar-se-ão com a exuberância da tua casa, e lhes darás de beber da torrente do teu prazer. Porque junto de ti está a fonte da vida, e na tua luz veremos a luz.

Dá-me um amante, e ele sentirá a verdade do que eu digo: dá-me um desejoso, um faminto, um peregrino nesta solidão, e um sedento, e um suspirante pela fonte da pátria eterna: dá-me tal, e ele saberá do que eu falo. Mas se falo a um frio, ignorará o que eu falo. Tais eram aqueles que murmuravam entre si. Aquele que o Pai atrair, disse Ele, vem a Mim. Mas por que "Aquele que o Pai atrair", se o próprio Cristo atrai [a Ele]? Por que Ele quis dizer "Aquele que o Pai atrair". Se somos atraídos, somos atraídos por aquele de quem dizem os que amam: Após o odor dos teus unguentos corremos. Mas quem quiser entender, advirtamos os irmãos, e, o quanto pudermos, entendamos. Atrai o Pai ao Filho aqueles que por isso mesmo creem no Filho, porque creem que o Seu Pai é Deus. Porque Deus Pai gerou o Filho igual a Si; e o Pai atrai ao Filho aquele que, na sua fé, pensa, sente e medita que é igual ao Pai Aquele em Quem crê.

Ario creu na criatura, não o atraiu o Pai, porque não vê o Pai aquele que não crê que o Filho Lhe é igual. Que dizes, ó Ario? Que dizes, herege? Que falarás? O que é Cristo? "Não é, diz ele, verdadeiro Deus, mas Aquele a Quem o verdadeiro Deus fez." Não te atraiu o Pai, porque não entendeste o Pai, Cujo Filho negas. Outra coisa pensas, que não é o Filho, pois não és atraído pelo Pai se não és atraído para o Filho. Uma coisa, pois, é o Filho, e outra coisa é aquilo de que falas. Fotino diz: Cristo é apenas homem, não é também Deus. Quem crê assim, não é o Pai que o atrai. Quem o Pai atrai? Aquele que diz: Tu és o Cristo, Filho de Deus vivo. Mostra um ramo verde a uma ovelha, e a atrairás. Mostra uma noz a um menino, e o atrairás, e todo homem que corre é atraído, amando é atraído, sem injúria do corpo é atraído, pelo laço do coração é arrastado. Se, portanto, essas que estão entre as delícias e prazeres terrenos, quanto mostrados aos amantes, os atraem (já que é verdade que "O prazer de cada um o atrai"), não atrai o Cristo, revelado pelo Pai? O que a alma deseja mais fortemente do que a verdade?

25 de maio de 2010

Flores da Eucaristia - 25 de Maio

Eis o meu modelo, minha Mãe: Maria, primeira adoradora do Verbo Imaculado em seu próprio seio!
Oh! Quanto essa primeira adoração da Virgem deve ter sido perfeita em si mesma, agradável a Deus e rica de graças!
Oxalá pudesse adorar Nosso Senhor como boa Mãe, pois que, na santa Comunhão, eu O possuo do mesmo modo que Ela.
Ó meu Deus, dai-me a SSma. Virgem adoradora por verdadeira Mãe; fazei-me partilhar de sua graça, do estado de contínua adoração em que viveu durante todo o tempo em que vos trouxe em seu puríssimo seio, este céu de virtudes e de amor.
Será esta, ó meu Deus, uma das grandes graças de minha vida. Quero, portanto, de ora em diante, fazer todas as minhas adorações em união com a Mãe dos adoradores.
Oh! Sim, divino Rei! Dignai-vos reinar soberanamente sobre o meu coração e a minha vida como reinastes sobre vossa Mãe Santíssima. Vossa verdade será meu estandarte de honra, vossas virtudes minhas armas, vosso amor minha palavra de ordem, e o fruto de minha vitória, vossa maior glória eucarística.

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 12ª Parte

CAPÍTULO XII
Da crucifixão de Jesus
1. Eis-nos chegados à crucificação, ao último tormento que deu a morte a Jesus Cristo, eis-nos no Calvário, feito teatro do amor divino, onde um Deus deixa a vida num mar de dores. “E depois de chegados ao lugar chamado Calvário, aí o crucificaram” (Lc 23,33).Tendo o Senhor chegado com grande dificuldade, mas ainda vivo ao monte, arrancaram-lhe pela terceira vez com violência suas vestes pegadas às chagas de sua carne dilacerada e o estenderam sobre a cruz. O cordeiro divino deita-se sobre esse leito de tormentos, apresenta aos carnífices suas mãos e seus pés para serem pregados e, levantando os olhos ao céu, oferece ao seu eterno Pai o grande sacrifício de sua vida pela salvação dos homens. Cravada uma mão, contraem-se os nervos, sendo por isso necessário que à força e com cordas se puxassem a outra mão e os pés ao lugar dos cravos, como foi revelado a S. Brígida, o que ocasionou a contorção e rompimento com dores horríveis dos nervos e das veias (Liv. 1, c. 10), de tal maneira que se podiam contar todos os ossos, como já predissera Davi: Atravessaram minhas mãos e meus pés e contaram todos os meus ossos (Sl 21,17). Ah, meu Jesus, por quem foram cravados vossas mãos e vossos pés sobre esse madeiro senão pelo amor que tínheis aos homens? Vós quisestes com a dor de vossas mãos traspassadas pagar todos os pecados que os homens cometeram pelo tato e com a dor dos pés quisestes pagar todos os passos que demos para vos ofender. Ó meu amor crucificado, abençoai-me com essas mãos traspassadas. Cravai aos vossos pés este meu coração ingrato, para que eu não me separe mais de vós e fique sempre minha vontade obrigada a amar-vos, já que tantas vezes se revelou contra vós. Fazei que nada me mova além de vosso amor e do desejo de dar-vos gosto. Ainda que vos veja suspenso nesse patíbulo, eu vos reconheço por senhor do mundo, pelo Filho verdadeiro de Deus e Salvador dos homens. Por piedade, ó meu Jesus, não me abandoneis mais no resto de minha vida e especialmente na hora de minha morte: nessa última agonia e combate com o inferno assisti-me e confortai-me para morrer no vosso amor. Eu vos amo, amor crucificado, eu vos amo de todo o meu coração.
2. Diz S. Agostinho não haver morte mais acerba que a morte da cruz (Tract. 36 in Jo), pois, como nota S. Tomás (P. III q. 46, a. 6), os crucificados têm os pés e as mãos transpassados, partes essas que sendo compostas de nervos, músculos e veias, são extremamente sensíveis à dor: e o só peso do corpo pendido faz que a dor seja contínua e se aumente sempre mais até à morte. Mas as dores de Jesus ultrapassavam todas as outras dores, pois, como diz o Angélico, o corpo de Jesus Cristo, sendo de delicadíssima compleição, era mais sensível e sujeito às dores: corpo que foi expressamente preparado pelo Espírito Santo para sofrer como ele predissera e conforme o atesta o Apóstolo: “Vós me preparastes um corpo” (Hb 10,5). Além disso, S.Tomás diz que Jesus Cristo suportou uma dor tamanha que só ela seria suficiente para satisfazer a pena que mereciam temporalmente os pecados de todos os homens. Afirma Tiepoli que na crucifixão deram vinte e oito marteladas sobre suas mãos e trinta e seis sobre seus pés. Minha alma, contempla o teu Senhor, contempla tua vida que pende desse madeiro: “E será tua vida quase pendente diante de ti” (Dt 28,66).Vê como naquele patíbulo doloroso, suspenso desses cravos cruéis, não encontra posição nem repouso. Ora se apóia sobre as mãos, ora sobre os pés, mas onde se firma aumenta a dor. Ora volve a dolorosa cabeça para uma parte, ora para outra, se a deixa cair sobre o peito, as mãos e os pés rasgam-se mais com o peso, se a deita sobre os ombros, estes ficam feridos pelos espinhos; se a apóia sobre a cruz, enterram-se os espinhos ainda mais na sua cabeça. Ah, meu Jesus, que morte horrível é a que sofreis. Meu Redentor crucificado, eu vos adoro nesse trono de ignomínia e de dores. Leio que está escrito nessa cruz que sois rei: “Jesus Nazareno, Rei dos judeus”. Mas afora este título de escárnio, qual outro sinal de vossa realeza? Ah, essas mãos cravadas, essa cabeça coroada de espinhos, esse trono de dores, essas carnes dilaceradas vos fazem conhecer por rei, mas rei de amor. Aproximo-me, pois, humilhado e contrito, para beijar vossos pés sagrados trespassados por meu amor; abraço essa cruz, na qual, vítima de amor, quisestes sacrificar-vos à justiça divina por mim, “feito obediente até à morte de cruz”. Ó feliz obediência, que nos obtém o perdão dos pecados. E que seria de
mim, ó meu Salvador, se vós não tivésseis pago por mim? Agradeço-vos, meu amor, e pelos merecimentos dessa sublime obediência vos peço que me concedais a graça de obedecer em tudo à vossa divina vontade. Desejo o paraíso unicamente para sempre vos amar e com todas as minhas forças.
3. Eis que o rei do céu, suspenso naquele patíbulo, começa a expirar. Perguntemos-lhe com o profeta: “Que são essas chagas no meio de tuas mãos?” (Zc 13,6). Responde por Jesus o Abade Roberto: São sinais do grande amor que vos tenho, são o preço pelo qual eu vos livro das mãos dois inimigos e da morte. Ama, pois, ó alma fiel, ama a teu Deus que tanto te amou, e, se ainda duvidas de seu amor, olha, diz S. Tomás de Vilanova, olha para aquela cruz, para aquelas dores e aquela morte acerba que ele sofreu por ti e essas provas te farão conhecer claramente quanto te ama o teu Redentor (Conc. 3 dom. 17 p. Pent.). S. Bernardo ajunta que a cruz clama, clama cada chaga de Jesus que ele vos ama com verdadeiro amor. Ó meu Jesus, como vos vejo cheio de dores e triste! Tendes muita razão em pensar que vós tanto sofrestes, chegando até a morrer de dores nessa madeiro e que afinal tão poucas alas vos amarão. Ó Deus, ainda agora, quantos corações, apesar de a vós consagrados, não vos amam ou vos amam muito pouco. Ah, belas chamas de amor, vós que consumistes a vida de um Deus sobre a cruz, consumi-me também, consumi todos os afetos desordenados que vivem no seu coração e fazei que eu viva ardendo e suspirando exclusivamente por esse meu amado Senhor, que quer acabar a vida consumido pelos tormentos, por meu amor, num patíbulo infame. Meu amado Jesus, quero amar-vos sempre, e quero amar unicamente a vós, meu amor, meu Deus, meu tudo. tudo.
4.“Teus olhos verão o teu preceptor” (Is 30,20). Foi prometido aos homens poderem ver com os próprios olhos seu divino Mestre. A vida inteira de Jesus foi contínuo exemplo e escola de perfeição, mas sem nenhuma parte nos ensinou melhor suas mais belas virtudes do que sobre a cátedra da cruz. Como daí nos ensinou bem a paciência, especialmente no tempo das doenças, já que na cruz Jesus sofreu corajosamente com suma paciência as dores de sua atrocíssima morte. Aí, com seu exemplo nos ensinou uma estrita obediência aos divinos preceitos, uma perfeita resignação com a vontade de Deus e sobretudo ensinou-nos como se deve amar. O P. Paulo Segneri, o moço, escreve a uma penitente sua que escrevesse aos pés do Crucifixo: “Eis aqui como se ama”.
Eis aqui como se ama, é o que parece dizer a todos o próprio Redentor do alto da cruz, quando nós, para não sofrer qualquer desgosto, abandonamos as obras de seu agrado e por vezes chegamos a renunciar até à sua graça e ao amor. Ele nos amou até à morte e não desce da cruz senão depois de ter deixado de viver. Ah, meu Jesus, vós me amastes até à morte: até à morte vos quero amar. No passado eu vos ofendi e traí muitas vezes. Senhor, vingai-vos de mim, mas com vingança de compaixão e amor: dai-me uma tal dor de meus pecados, que me faça viver sempre contrito e aflito por vos haver ofendido. Eu protesto preferir sofrer todos os males no futuro e vos desgostar. E que maior desgraça poderia suceder-me que vos desgostar a vós, meu Deus, meu Redentor, minha esperança, meu tesouro, meu tudo.
5. “E eu, quando for exaltado da terra, atrairei tudo a mim. Ora, isso ele dizia para indicar de que morte havia de morrer” (Jo 12,32). Jesus Cristo afirmou que, quando fosse levantado na cruz, ele com seus merecimentos, com seu exemplo e com a força de seu amor, haveria de atrair para si os afetos de todas as almas, segundo o comentário de Cornélio a Lápide. O mesmo escreve S. Pedro Damião: “O Senhor apenas foi suspenso na cruz e já atraiu todos a si pelo desejo de seu amor” (De inv. cruc.). E quem deixará de amar a Jesus que morre por nós na cruz, pergunta o mesmo Cornélio. Vede, ó almas remidas, assim nos exorta a S. Igreja, vede o vosso Redentor pregado naquela cruz, onde toda a sua figura respira amor e convida a amá-lo: a cabeça inclinada, para nos dar o ósculo de paz, os braços estendidos para abraçar-nos, o coração aberto para nos amar. Ah, meu amado Jesus, como minha alma podia ser tão cara aos vossos olhos, conhecendo vós as injúrias que de mim haveis de receber? Vós, para cativar o meu afeto, quisestes dar-me as provas extremas de amor.Vinde, ó flagelos, espinhos, cravos e cruz, que atormentastes as sagradas carnes de meu Senhor, vinde e feri meu coração. Recordai-me sempre que todo o bem que eu recebi e que eu espero, tudo me vem dos merecimentos de sua paixão. Ó mestre de amor, os outros ensinam com a voz, ao passo que vós, nesse leito de morte, ensinais com o sofrimento; os outros ensinam por interesse, vós por afeto, não buscando outra recompensa que a minha salvação. Salvaime, amor meu, e que minha salvação seja a graça de sempre vos amar e agradar. Amar-vos é a minha salvação. 6. Enquanto Jesus agonizava sobre a cruz, os homens não cessavam de atormentá-lo com impropérios e zombarias. Uns lhe diziam: “Salvou os outros e não pode se salvar a si mesmo”. Outros: “Se é o rei de Israel, desça da cruz”. E que faz Jesus na cruz, enquanto o injuriam? Talvez pede a seu Pai que os castigue? Não, ele pede que lhes dê o perdão: “Pai, perdoai-lhes; não sabem o que fazem” (Lc 23,32). Para demonstrar seu imenso amor pelos homens, diz S. Tomás (p. III q. 47, a. 4), o Redentor pediu a Deus perdão para seus perseguidores. Pediu-o, pois eles depois de o verem morto se arrependeram de seus pecados: “Voltavam batendo no peito”.
Ah! meu caro Salvador, eis-me aos vossos pés: eu fui um dos vossos mais ingratos perseguidores: pedi a vosso Pai para que ele me perdoe também a mim. É verdade que os judeus e os algozes não sabiam, ao crucificar-vos, o que faziam; eu, porém, muito bem sabia que, pecando, ofendia a um Deus crucificado e morto por mim. Mas o vosso sangue e a vossa morte me mereceram também a mim a divina misericórdia. Eu não posso duvidar de ser perdoado vendo-vos morrer para me obter o perdão. Ah, meu doce Redentor, lançai sobre mim um daqueles olhares amorosos que me dirigistes ao morrer por mim na cruz: olhai-me e perdoai-me todas as ingratidões com que tratei o vosso amor. Arrependo-me, ó meu Jesus, de vos ter desprezado. Amo-vos de todo o meu coração e, à vista de vosso exemplo, porque vos amo, amo também todos aqueles que me ofenderam. Desejo-lhes todo o bem e proponho servi-los e socorrê-los quanto me for possível por amor de vós, meu Senhor, que quisestes morrer por mim que tanto vos ofendi.
7.“Lembrai-vos de mim”, vos disse, ó meu Jesus, o bom ladrão, e foi consolado com vossa resposta: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43). Lembrai-vos de mim, digo-vos também eu; recordai-vos, Senhor, que eu sou uma daquelas ovelhas pelas quais vós destes a vida. Consolai-me, fazendo-me sentir que me perdoastes, dando-me uma grande dor de meus pecados. Ó grande sacerdote, que vos sacrificastes a vós mesmo por amor das vossas criaturas, tende compaixão de mim. Sacrifico-vos de agora em diante a minha vontade, os meus sentidos, as minhas satisfações e todos os meus desejos. Eu creio que vós, meu Deus, morrestes pregado na cruz por mim. Caia sobre mim, vos suplico, o vosso sangue divino: ele me lave de todos os meus pecados; ele me abrase em vosso santo amor e me faça todo vosso. Eu vos amo, ó meu Jesus, e desejo morrer crucificado por vós que morrestes crucificado por mim.
Eterno Pai, eu vos ofendi, mas eis vosso Filho que, preso a esse madeiro, vos satisfaz por mim oferecendo-vos o sacrifício de sua vida divina. Eu vos ofereço seus merecimentos que são todos meus, visto que ele mos deu; por amor deste Filho vos peço tenhais piedade de mim. A maior compaixão que vos suplico é que me concedais a vossa graça, que eu infelizmente tantas vezes desprezei de livre vontade. Arrependo-me de vos haver ultrajado e vos amo, meu Deus, meu tudo, e para vos satisfazer estou pronto a suportar toda espécie de opróbrios, de dores, de miséria e de morte.

Terça-feira na Oitava de Pentecostes: Eu sou a porta das ovelhas.

Homilia de Santo Agostinho Bispo sobre o Evangelho de hoje: João, 10, 1-10.

Tratado 45 sobre João, após o início

Na leitura de hoje, o Senhor propôs uma comparação do Seu próprio rebanho, e da porta pela qual se entra ao aprisco. Digam, então, os pagãos: Bem vivemos! Se não entram pela porta, de que lhes serve aquilo de que se gloriam? Para uma só coisa aproveita viver bem: para que se lhe dê viver para sempre - de que adianta, pois, viver bem, àquele a quem não é dado viver para sempre? Porque não são dignos de se dizer que vivam bem os que, pela cegueira, ignoram, ou, pela soberba, desprezam qual seja o fim de um viver bem. Mas ninguém tem por verdadeira e certa a esperança de viver para sempre, senão quem conhece a vida, que é Cristo, e, pela porta, entre no aprisco.

Muitos desses homens procuram até persuadir os homens a viver bem, e não são cristãos. Por outra parte querem entrar, roubar e matar; não querem, como o bom pastor, conservar e salvar. Houveram certos filósofos que, muito detalhadamente, das virtudes e vícios trataram, dividiram, definiram, com agudíssimos raciocínios concluíram, livros encheram, sua sabedoria com estrondo espalharam pelos ventos, que chegaram a dizer aos homens: Segui-nos, guardai a nossa seita, se quereis viver bem-aventuradamente. Mas não entravam pela porta: queriam perder, sacrificar e assassinar.

Que direi desses? Eis que os próprios fariseus liam, e, no que liam, de Cristo diziam, esperavam-n'O por vir, mas, presente, não O reconheceram. Jactavam-se de estar entre os Videntes, ou seja, entre os sábios, e negavam Cristo, e não entravam pela porta. Também esses, se acaso seduzirem alguns, o será para sacrificá-los e assassiná-los, e não para livrá-los. Deixemo-los, e vejamos se talvez entram pela porta os que se gloriam do próprio nome de Cristo. Mesmo entre esses, são inumeráveis os que não apenas se jactam de ser Videntes, mas querem ser vistos como iluminados por Cristo; no entanto, são hereges.

24 de maio de 2010

Flores da Eucaristia - 24 de Maio

Oh! quanto haveis de ser amados por Maria se servirdes bem ao seu Jesus! Quanto vos protegerá, se trabalhardes somente para a glória de Jesus! Quanto haverá de vos enobrecer vendo que viveis unicamente do amor de Jesus! Torna-lA-eis assim duplamente Mãe, porque A colocais de um modo mais perfeito na sua graça missão de Mãe dos adoradores de Jesus.
Sêde porém modestos como a SSma. Virgem: lembrai-vos de sua modéstia diante do Anjo e imaginai quão modestamente Ela servia a seu Filho no SSmo. Sacramento.
Sêde puros como a vossa boa Mãe, que teria mesmo renunciado à glória da maternidade divina para conservar a flor de sua virgindade.
Sêde humildes, a seu exemplo, pois se abismava no seu nada inteiramente entregue à graça de Deus. Sêde amáveis e mansos visto que Maria era suave expressão do Coração de Jesus. Revestí-vos das virtudes e méritos da SSma. Virgem quando fordes à Sagrada Mesa, e assim comungareis com a sua fé e o seu coração.
Oh! quão feliz sentir-se-á Jesus encontrando em vós a imagem e a reprodução de sua Mãe amabilissima.

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - 11ª Parte

CAPÍTULO XI
Da condenação de Jesus Cristo e sua ida ao Calvário
1. Continuava Pilatos a escusar-se perante os judeus que não podia condenar à morte aquele inocente. Estes, porém, o atemorizaram, dizendo: “Se soltares a este, não és amigo de César” (Jo 19,12). Cego pelo temor de perder as graças de César, esse juiz desgraçado, depois de ter reconhecido e declarado Jesus Cristo tantas vezes inocente, o condenou finalmente à morte da cruz: “Então ele lhes entregou Jesus para que fosse crucificado”. Ó meu amado Redentor, suspira S. Bernardo, que delito cometestes para ser condenado à morte e morte de cruz? Mas eu bem compreendo, replica o santo, o motivo de vossa morte; sei que pecado cometestes:“O vosso pecado é o vosso amor”. O vosso delito é muito amor que consagrastes aos homens; é ele e não Pilatos que vos condenou à morte. Não, eu não vejo justo motivo de vossa morte, acrescenta S. Boaventura, senão o afeto excessivo que nos tendes (Stim. div. am. p. 1 c. 2). Ah, um tal excesso de amor muito nos constrange, ó Senhor amabilíssimo, a consagrar-vos todos os afetos de nossos corações, diz S. Bernardo (In CT serm. 20). Ó meu caro Salvador, só o conhecimento de que vós me amais deveria fazer-me esquecido de todas as coisas para procurar exclusivamente amar-vos e contentar-vos em tudo. “Forte como a morte é o amor”. Se o amor é forte como a morte, pelos vossos merecimentos, ó meu Senhor, dai-me um tão grande amor para convosco que me faça detestar todas as afeições terrenas. Fazeime compreender bem que toda a minha felicidade consiste em agradar a vós, Deus todo bondade e todo amor. Maldigo aquele tempo em que não vos amei; agradeço-vos porque me dais ainda tempo para vos amar. Amo-vos, Jesus meu, infinitamente amável e infinitamente amante; amo-vos com todo o meu ser e prometo-vos querer antes mil vezes morrer, que deixar de vos amar. 2. Lê-se a iníqua sentença de morte ao condenado Jesus: ele a ouve e humildemente a aceita. Não se queixa da injustiça do juiz, não
apela para César, como fez S. Paulo; mas, inteiramente manso e resignado, se submete ao decreto do Pai Eterno, que por nossos pecados o condena à cruz.“Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2,8). E pelo amor que dedica aos homens contenta-se com morrer por nós. “Amou-nos e entregou-se a si mesmo por nós” (Ef 5,2). Ó meu compassivo Salvador, quanto vos agradeço! quanto vos sou obrigado! Desejo, ó meu Jesus, morrer por vós, pois que vós com tão grande amor aceitastes a morte por mim. Mas se não me é dado derramar o meu sangue por vós e sacrificar-vos a minha vida pelas mãos do carrasco, como o fizeram os mártires, aceito ao menos com resignação a morte que me está reservada, e aceito-a no modo e tempo que vos aprouver. Desde já eu vo-la ofereço em honra de vossa majestade e em desconto de meus pecados, e peço-vos pelos merecimentos de vossa morte que me concedais a dita de morrer amando-vos e na vossa graça.
3. Pilatos entrega o inocente cordeiro às mãos daqueles lobos para que com ele façam o que quiserem: “Entregou Jesus à sua vontade” (Lc 23,25).Os algozes agarraram-no com fúria, arrancam-lhe dos ombros o farrapo de púrpura, como lhes insinuaram os judeus, e restituem-lhe suas vestes (Mt 27,31). Isso fizeram, diz S. Ambrósio, para que Jesus fosse reconhecido ao menos pelas vestes, visto estar seu belo rosto tão deformado pelo sangue e pelas feridas, que sem as suas vestes dificilmente poderia ser reconhecido. Tomam, entretanto, dois toscos pedaços de madeira, formam com eles às pressas uma cruz de quinze pés (como afirmam S. Boaventura e S. Anselmo) e colocam-na sobre os ombros do Redentor. Mas, segundo S.Tomás de Vilanova, Jesus não esperou que a cruz lhe fosse imposta pelos algozes: ele mesmo a tomou avidamente com suas mãos e a pôs sobre os ombros chagados (Conc. 3 de uno M.). Vem, disse então, vem, cruz querida! Há trinta e três anos por ti suspiro e te busco; eu te abraço, te aperto ao meu coração, já que és o altar em que desejo sacrificar a minha vida por amor de minhas ovelhas. Ah! meu Senhor, como pudestes fazer tanto bem a quem vos fez tantos males? Ó Deus, quando eu penso que fostes obrigado a morrer pela veemência dos tormentos para me obter a amizade divina e que eu a perdi tantas vezes voluntariamente por minha culpa, quereria morrer de dor. Quantas vezes me haveis perdoado e eu tornei a vos ofender. Como poderei esperar perdão se não soubesse que morrestes para perdoar-me? Por essa vossa morte, pois, eu espero o perdão e a perseverança no vosso amor. Arrependo-me, meu Redentor, de vos haver ofendido; perdoai-me por vossos merecimentos, que eu vos prometo não vos dar mais desgosto. Eu estimo e amo a vossa amizade mais do que todos os bens do mundo. Por isso não permitais que eu venha a perdê-la de novo; dai-me, Senhor, qualquer castigo afora esse. Jesus meu, não quero mais perder-vos, prefiro perder a vida, quero amar-vos sempre.
4. A justiça sai com os condenados e entre eles caminha para a morte o rei do céu, o Unigênito de Deus, carregado com a cruz: “Levando sua cruz às costas, saiu para aquele lugar que se chama Calvário” (Jo 19,17). Saí também do céu, ó bem-aventurados Serafins, e vinde acompanhar o vosso Senhor que sobe ao Calvário, para aí ser justiçado em um patíbulo infame juntamente com os malfeitores. Ó espetáculo horrendo! um Deus supliciado! Este é o Messias que poucos dias antes foi aclamado Salvador do mundo e recebido pelo povo com aplausos e bênçãos, exclamando todos: “Hosana ao Filho de Davi, bendito o que vem em nome do Senhor” (Mt 21,9). Ei-lo agora preso, escarnecido e amaldiçoado por todos, com uma cruz às costas para morrer como um malfeitor. Ó excesso de amor divino! Um Deus supliciado pelos homens. Encontrar-se-á ainda um homem que não ame este Deus! Ó meu amoroso Jesus, tarde comecei a amar-vos, fazei que no restante de minha vida compense o tempo perdido. Já sei que tudo o que eu fizer é pouco em comparação do amor que vós me tendes tido, mas ao menos quero amar-vos com todo o meu coração. Grande injúria eu vos faria se, depois de tantas finezas, eu dividisse o meu coração e o repartisse com qualquer objeto além de vós. Eu vos consagro de hoje em diante toda a minha vida, a minha vontade, a minha liberdade. Disponde de mim como vos agradar. Peço-vos o paraíso, para lá amar-vos com todas as minhas forças. Muito quero amar-vos nesta vida, para muito vos amar na eternidade. Socorrei-me com a vossa graça; peço-vos e o espero pelos vossos merecimentos. 5. Imagina, minha alma, que vês passar Jesus nesse doloroso caminho. Assim como um cordeiro é levado ao matadouro, o amantíssimo Redentor é conduzido à morte (Is 53,7). Ele está tão esgotado e enfraquecido pelos tormentos, que apenas pode ter-se em pé. Ei-lo todo dilacerado pelas feridas, com a coroa de espinhos sobre a cabeça, com o pesado madeiro sobre os ombros e com um algoz que o puxa por uma corda. Caminha com o corpo curvado, com os joelhos trêmulos, gotejando sangue; anda com tanta dificuldade, que parece que a cada passo vai exalar a vida. Pergunta-lhe: Ó cordeiro divino, não estais ainda farto de dores? se com isso pretendeis conquistar o meu amor, deixai de sofrer que eu quero amar-vos como desejais. Não, responde-te, ainda não estou satisfeito: só então estarei contente quanto estiver morto por teu amor. E agora aonde ides, meu Jesus? Vou morrer por ti, não mo impeças; uma só coisa eu peço e recomendo: quando me vires morto sobre a cruz por ti recorda-te do amor que te dediquei; lembra-te disso e ama-me.
Ó meu aflito Senhor, quanto vos custou o fazer-me compreender o amor que me consagrastes. Que vantagem vos poderia trazer meu amor, que para conquistá-lo quisestes sacrificar vosso sangue e a vida? E como pude eu, objeto de tão grande amor, viver tanto tempo sem vos amar, esquecido de vosso afeto? Agradeço-vos a luz que me dais agora e que faz conhecer o quanto me tendes amado. Eu vos amo, bondade infinita sobre todas as coisas; desejaria, se pudesse, sacrificar-vos mil vidas, que quisestes sacrificar a vossa vida divina por mim. Concedei-me aqueles auxílios que me haveis merecido com tantas penas para vos amar de todo o coração. Dai-me aquele santo fogo que viestes acender na terra, morrendo por nós. Recordai-me sempre da vossa morte, para que nunca mais me esqueça de vos amar.
6.“Foi posto o principado sobre o seu ombro” (Is 9,6). Diz Tertuliano que a cruz foi o nobre instrumento com que Jesus Cristo se adquiriu tantas almas, porque, morrendo nela, pagou a pena de nossos pecados e assim as resgatou ao inferno, fazendo-as suas. “O qual levou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro” (1Pd 2,24). Portanto, ó meu Jesus, se Deus vos carregou com os pecados de todos os homens: “Deus colocou nele a iniqüidade de todos nós” (Is 53,6), eu com os meus pecados vos tornei mais pesada a cruz que levastes ao Calvário.
Ah, meu dulcíssimo Salvador, já então vistes todas as injúrias que eu vos faria e apesar disso não deixastes de me amar e de preparar-me tantas misericórdias que usastes para comigo. Se, pois, vos fui tão caro, apesar de vilíssimo e ingrato pecador que tanto vos ofendi, é justíssimo que vós também me sejais caro, vós, meu Deus, beleza e bondade infinitas, que tanto me tendes amado. Ah, se nunca vos tivesse desgostado! Conheço agora, ó meu Jesus, o mal que vos fiz. Malditos pecados, que fizestes? Fizeste-me contristar o coração amoroso de meu Redentor, coração que tanto me amou. Ó meu Jesus, perdoai-me que eu me arrependo de vos haver desprezado. Para o futuro sereis o único objeto de meu amor. Amo-vos, ó amabilidade
infinita, como todo o meu coração, e estou resolvido a não amar a ninguém mais fora de vós. Senhor, perdoai-me e dai-me o vosso amor e nada mais vos peço. Digo-vos com S. Inácio: “Dai-me unicamente o vosso amor coma vossa graça e estou bastante rico”.
7. “Se alguém quiser vir após mim, abnegue-se a si mesmo e tome sua cruz e siga-me”(Mt 16,24). Visto que vós, inocente, meu amado Redentor, me precedeis com a vossa cruz e me convidais a seguir-vos com a minha, ide adiante que eu não quero deixar-vos só. Se no passado vos abandonei, confesso que procedi mal. Dai-me agora a cruz que vos aprouver, que eu a abraço, seja qual for, e com ela quero acompanhar-vos até à morte: “Saiamos fora dos arraiais, levando o seu impropério” (Hb 13,13). E como é possível, Senhor, que não amemos por vosso amor as dores e os opróbrios, se vós tanto os amastes por nossa salvação? Já que nos convidais a seguir-vos, queremos, sim, seguir-vos e morrer convosco, mas dai-nos, força para executá-lo: essa força vos pedimos por vossos merecimentos e a esperamos. Amo-vos, meu Jesus amabilíssimo, amo-vos com toda a minha alma e não quero mais deixar-vos. Basta-me o tempo em que andei longe de vós; ligai-me agora à vossa cruz. Se eu desprezei o vosso amor, disso me arrependo de todo o coração e agora vos estimo mais que todos os bens. 8. Ah, meu Jesus, quem sou eu que me quereis para vosso discípulo e me ordenais que vos ame e me ameaçais com o inferno se não quiser vos amar? E de que serve, dir-vos-eis com S. Agostinho, ame-açar-me com as penas eternas? Pois que maior desgraça me poderá assaltar do que não vos amar, Deus amabilíssimo, meu Criador, meu Redentor, meu paraíso, meu tudo? Vejo que por um justo castigo das ofensas que vos fiz mereceria estar condenado a não poder mais vos amar; mas vós, porque ainda me amais, continuai a mandar que eu vos ame, repetindo-me sempre ao coração: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente”. Agradeço-vos, ó meu amor, este doce preceito e para obedecer-vos eu vos amo com todo o meu coração, com toda a minha alma, com toda a minha mente. Arrependo-me de não vos haver amado pelo passado e no presente prefiro toda pena à de viver sem vos amar, e proponho sempre procurar o vosso amor. Ajudai-me, ó meu Jesus, a fazer sempre atos de amor e a sair desta vida com um ato de amor, para que eu chegue a amar-vos face a face no paraíso, onde vos amarei sem imperfeição e sem intervalo, com todas as minhas forças por toda a eternidade. Ó Mãe de Deus, rogai por mim. Amém.