31 de março de 2009

CITAÇÕES SOBRE O PRIMADO DA IGREJA ROMANA, O PRIMADO DO PAPA E A NECESSIDADE DE SUBMISSÃO AO SUMO PONTÍFICE PARA A SALVAÇÃO DA ALMA - PARTE III

ENCHIRIDION CITATORUM DOGMATICORUM CIRCA COGNICIONEM PRINCIPATUS PRIMATUSQUE SANCTÆ ROMANÆ ECCLESIÆ ET ROMANI PONTIFICI ATQUE CIRCA NECESSITATEM OBEDIENTIÆ EI PRO SALUTE ANIMÆ

VEL

DE PRIMATU UNIVERSO EPISCOPI ROMÆ

Conditor:
Marcos Vinicius Matke

PARS TERTIA

A SÆCULO VI AD SÆCULUM IX


Compêndio de citações dogmáticas acerca do reconhecimento da primazia e primado da Santa Romana Igreja e do Romano Pontífice e da necessidade de submissão a este para a salvação da alma

ou

Da primazia universal do Bispo de Roma

Organizador: M.V.M.

Parte III

DO SÉCULO VI AO SÉCULO IX

S.S. PELÁGIO I: CARTA “ADEONE TE”, AO BISPO JOÃO. Início de 559.


A ti, posto no mais alto grau do sacerdócio, será que a tal ponto te escapou a verdade da Mãe católica de não perceberes logo que te encontras no cisma, já que te afastaste das Sés Apostólicas?

Colocado para pregar aos povos, não tinhas lido, de modo algum, que a Igreja foi fundada por Cristo, nosso Deus, sobre o príncipe dos Apóstolos, e era de tal modo o fundamento que as portas do inferno não pudessem prevalecer contra ela [Mt. XVI, 18]?


E se tinhas lido isso, onde acreditavas estar a Igreja, senão naquele no qual sozinho estão todas as Sés Apostólicas, às quais, do mesmo modo como àquele que havia recebido as chaves, foi dado o poder de ligar e de desligar? O que queria dar antes de tudo à um só, deu-o também a todos, para que, segundo a afirmação do bem-aventurado mártir Cipriano, quando explica isso, aparecesse que a Igreja é uma. Onde, pois, agora caríssimo em Cristo, andavas errando, separado dela, ou qual a esperança que tinhas da tua salvação?


S.S. PELÁGIO I: CARTA “RELEGENTES AUTEM”, AO PATRÍCIO VALERIANO. De março ou início de abril de 559.


Jamais foi nem será permitido que se reúna um sínodo particular para julgar um sínodo geral. Mas cada vez que para alguns surge alguma dúvida a respeito de um sínodo geral, para receberem explicação sobre o que não compreendem, ou espontaneamente aqueles que desejam a salvação das suas almas vêm à Sé Apostólica para receber a explicação, ou ainda, se casualmente [...] forem obstinados ou contrários a ponto de não quererem ser ensinados, é necessário que, ou pelas mesmas Sés Apostólicas de qualquer modo sejam atraídos à salvação, ou então, para que não possam causar a perda de outros, sejam reprimidos segundo os cânones, por meio dos poderes seculares.


S.S. PELÁGIO II: CARTA “DILECTIONIS VESTRÆ”, AOS BISPOS CISMÁTICOS DE ÍSTRIA. Ano 585 ou 586.


Se bem que seja claro, pela palavra do próprio Senhor no santo Evangelho, onde está o fundamento da Igreja, ouçamos, todavia, o que determinou o bem-aventurado Agostinho, lembrado deste mesmo dito do Senhor. A Igreja de Deus, disse, foi fundada sobre aqueles de quem se reconheceu que presidem as Sés Apostólicas por sucessão dos prepostos; e quem quer que se tenha afastado da comunhão ou da autoridade das mesmas Sés demonstra estar no cisma. E, depois de outras afirmações, diz: “Posto fora, serás morto também para o nome de Cristo. Entre os membros de Cristo, sofre por Cristo, aderindo ao corpo; combate pela Cabeça [Não serás contado entre os membros de Cristo; sofre por Cristo; aderindo ao Corpo, combate pela Cabeça]”.


Mas também o bem-aventurado Cipriano [...] diz entre outras coisas: “O início parte da unidade, e o primado foi dado a Pedro, para que a Igreja e cátedra de Cristo se mostre una”; e pastores são todos, mas o rebanho é mostrado como um só, devendo ser levado ao pasto pelos Apóstolos com unânime acordo.


E pouco depois: “Quem não respeita esta unidade da Igreja acredita que respeita a fé? Quem abandona a cátedra de Pedro, sobre o qual foi fundada a Igreja, e se lhe opõe, pode confiar de estar na Igreja?” [...]

“Não podem permanecer com Deus aqueles que não quiseram viver em unanimidade na Igreja de Deus: e mesmo se arderem levados a ferro e fogo ou derem a própria vida jogados aos animais ferozes, tal coisa não será a coroa da fé, mas o castigo da infidelidade; nem será a chegada gloriosa, mas a perdição desesperada. Uma tal pessoa pode ser morta, ser coroada não pode.”


“O crime do cisma é pior que o daqueles que sacrificaram aos deuses; estes, de fato, uma vez constituídos penitentes por seu crime, suplicam a Deus com pleníssimas satisfações. Lá se procura e se pede à Igreja, aqui se faz oposição à Igreja. Lá quem caiu causou dano somente a si, aqui quem tenta fazer um cisma engana a muitos, levando-os consigo. Lá há o dano de uma só alma, aqui, o perigo para muitos. O penitente compreende que decerto pecou, e lamenta e chora, o outro, inchando-se em seu pecado e comprazendo-se nas próprias culpas, separa os filhos da mãe, subleva as ovelhas contra o pastor, destrói os sacramentos de Deus e, enquanto o que caiu pecou uma só vez, este peca todo dia. Por fim, aquele que caiu, conseguindo mais tarde o martírio, pode receber as promessas do Reino; mas este, se for morto fora da Igreja, não pode chegar aos prêmios da Igreja”.


S.S. NICOLAU I: CARTA “PROPOSUERAMUS QUIDEM”, AO IMPERADOR MIGUEL. De 28 de setembro de 865.


[...] Nem pelo imperador, nem por todo o clero, nem pelo rei, nem pelo povo será julgado o juiz. [...] “A Sé primeira não será julgada por ninguém.” [...]


Onde lestes que os imperadores vossos predecessores tivessem tomado parte em reuniões sinodais, exceto talvez naquelas nas quais se tratava da fé que é universal, que é comum a todos, que interessa não só ao clero, mas também aos leigos e diretamente a todos os cristãos? [...] Quanto mais uma queixa se dirige contra uma autoridade de importante posição social, tanto mais a gente se deve dirigir a uma instância ainda mais alta, até que, passo a passo, se chegue àquela Sé cuja causa jurídica ou é mudada para melhor por ela mesma, quando o mérito da questão o requer, ou reservada ao arbítrio só de Deus, sem apelação.


Além disso, se não Nos escutardes, resulta que necessariamente Vós sois para Nós tais que o Senhor Jesus Cristo ordenou sejam avaliados como recusando-se a escutar a Igreja de Deus, tanto mais que os privilégios da Igreja romana, confirmados pela boca de Cristo no bem-aventurado Pedro, dispostos na mesma Igreja, observados desde os tempos remotos, louvados pelos santos Sínodos universais e venerados continuamente por toda a Igreja, não podem de modo algum ser diminuídos, de modo algum prejudicados, de modo algum mudados, já que tentativas humanas não são capazes de remover o fundamento posto por Deus, e o que Deus estabeleceu subsiste de modo firme e sólido. [...] Aqueles privilégios, pois, que a esta santa Igreja foram doados por Cristo, não doados pelos Sínodos, mas por eles somente louvados e venerados. [...] Nos constrangem e Nos impelem “a ter a solicitude de todas as Igrejas” de Deus [II Cor. XI, 28].

[...]

Visto que, segundo os cânones, o julgamento de instâncias inferiores deve ser apresentado lá onde haja uma autoridade superior, a saber, para aboli-lo ou para consolidá-lo, fica efetivamente claro que não deve ser rediscutido por ninguém o julgamento da Sé Apostólica, pois não há autoridade superior à sua, e que a ninguém é lícito julgar a respeito de seu veredicto. De fato, os cânones estabeleceram que a ela se apelasse de qualquer parte do mundo, mas apelar dela não é permitido a ninguém”.

[...]

Portanto, se é reconhecido o que temos dito a respeito do juízo do bispo de Roma, juízo que não pode ser rediscutido – o que também o costume não exige –, não negamos que a sentença desta mesma Sé possa ser mudada para melhor, se lhe tiver escapado alguma coisa, ou se ela mesma, em consideração dos tempos e circunstâncias ou de graves exigências, decretou prescrever algo em caráter excepcional, já que também o egrégio apóstolo Paulo, como lemos, fez em caráter algumas coisas que, como sabemos, mais tarde reprovou; todavia, somente a ela, isto é, a Igreja romana, depois de detalhado exame tiver ordenado que isto aconteça, não, porém, se ela tiver rejeitado nova discussão daquilo que foi bem definido.


S.S. ADRIANO II: IV CONCÍLIO DE CONSTANTINOPLA: 10ª SESSÃO. De 28 de fevereiro de 870.


Cân. XXI. A palavra do Senhor que Cristo dirigiu aos santos Apóstolos e aos seus discípulos: “Quem vos acolhe, a mim acolhe” [Mt. X, 40], e “quem vos despreza, a mim despreza” [Lc. X, 16], nós cremos que foi dirigida também a todos aqueles que, depois deles e à sua semelhança, tornam-se Sumos Pontífices e príncipes da Igreja católica. Ordenamos, portanto, que nenhum dos poderosos deste mundo ultraje ou tente remover de seu trono aqueles que ocupam sedes patriarcais, mas os considerem dignos de toda honra e respeito; em primeiro lugar ao santíssimo Papa da antiga Roma, depois ao Patriarca de Constantinopla e finalmente aos de Alexandria, Antioquia e Jerusalém. E também, nenhum outro redija ou componha escritos ou discursos contra o santíssimo Papa da antiga Roma sob o pretexto de pretensos crimes que teria cometido, como têm feito recentemente Fócio e, muito antes dele, Dióscoro.


Quem mostrar tanta presunção e audácia que, a exemplo de Fócio e Dióscoro, dirija, por escrito ou de viva voz, insultas à Sé de Pedro, o príncipe dos Apóstolos, receberá uma condenação igual e idêntica à deles.

Se, pois, qualquer autoridade civil ou qualquer poderoso tentar afastar, da cátedra apostólica, o supra-dito Papa ou qualquer um dos outros patriarcas, seja anátema.


Além disso, se for convocado um sínodo universal e houver qualquer dúvida ou controvérsia a respeito da santa Igreja dos romanos, convirá, com o devido respeito e deferência, informar-se sobre o ponto controverso e acolher uma solução que ajude a si ou aos outros, mas jamais ter a audácia de pronunciar uma sentença contra os Sumos Pontífices da antiga Roma.

29 de março de 2009

TEMPUS PASSIONIS

TEMPO DA PAIXÃO

Do 1º Domingo da Paixão ao Sábado Santo.

EXPOSIÇÃO DOGMÁTICA
No decurso destas duas últimas semanas da Quaresma, que nos vão levar ao limiar da Páscoa, a Igreja esforça-se por nos fazer reviver consigo as circunstâncias, que prepararam e envolveram a morte do Salvador.
Pelo seu estreito nexo com o Tempo Pascal, o Tempo da Paixão é já uma evocação da nossa redenção pelo sangue de Jesus. Antes de celebrar a ressurreição do Salvador, em que nos são aplicados os frutos da redenção, a Igreja deseja fazer-nos seguir passo a passo o duro combate que Ele teve de travar, para no-la merecer. O longo retiro da Quaresma termina, deste modo, no contemplação do combate singular que conseguiu arrancar o homem ao pecado, e merecer-lhe a salvação. Evocação essencial e consoladora. O nosso esforço pessoal de retificação e reparação não é posto de parte, mas o seu valor e eficácia derivam, exclusivamente, da sua união à Paixão d'Aquele que tomou sobre Si os pecados do mundo e os expiou. Em virtude da solidaderiedade misteriosa, que existe entre todos os membros da imensa família humana, Jesus, filho de Deus feito homem, substitui os seus irmãos culposos. "Fez-se pecado por nós", diz São Paulo, "para carregar sobre seus ombros o fardo dos nossos pecados, até ao alto da Cruz."
Mas Cristo triunfa, imolando-se. Triunfa do mal e de Satã, e vinga os direitos de Deus sobre o mundo. O demônio, "príncipe deste mundo", é escorraçado. Realiza-se, enfim, o oráculo de David: "Deus reina pela Cruz". A meio da Semana Santa, naquela mesma hora, em que, na Sexta-Feira das Trevas, ela se recolhe no luto e na meditação da morte do Salvador, a Igreja convida-nos a prostrar-nos diante da Cruz, para a saudar como fonte da nossa alegria: "Eis o madeiro da Cruz, donde esteve suspenso o preço da salvação do mundo; vinde, adoremo-Lo." E, imediatamente a seguir, vem um prenúncio da Ressurreição: "Adoramos, Senhor, a vossa Cruz. Louvamos e glorificamos a vossa Ressurreição."

APONTAMENTOS DE LITURGIA
Vai acentuar-se o caráter austero da Quaresma. A Igreja cobre de véus roxos os crucifixos dos altares e imagens dos santos; na Quinta-Feira Santa, desnudará os altares e imporá silêncio não somente aos órgãos, mas também ao som augusto dos sinos. O interior dos templos, em que tantas graças se distribuem, e em que, ordinariamente, o culto se reveste de fausto, ostenta agora um aspeco de luto desacostumado.

RUBRICAS
I. As férias da primeira semana da Paixão, são semelhantes às da Quaresma;
II. Nas Missas do Tempo, omite-se o salmo Judica me; o Gloria Patri no fim do intróito, do lavabo e no responsório de completas, mas não no fim dos salmos;
III. A Semana Santa tem liturgia própria.

28 de março de 2009

Domingo da Paixão: Quem é de Deus ouve a voz de Deus.

Sobre o Evangelho deste domingo: João VII: 46-59;

18.ª Homilia sobre os Evangelhos, do Papa São Gregório Magno

Pensai, caríssimos irmãos, na mansidão de Deus! Veio tirar os pecados, e dizia: Qual de vós me argüirá do pecado? Não desdenhor apelar à razão de não ser pecador, Aquele Que, em virtude da divindade, podia justificar os pecadores. Mas é bastante terrível o que ele acrescenta: Aquele que é de Deus, ouve a voz de Deus: por isto vós não ouv
is, porque não sois de Deus. Se, portanto, ouve a voz de Deus aquele que é de Deus, e não pode ouvir a Sua voz ninguém que não é d'Ele, então que se interrogue cada um a si mesmo se retém a palavra de Deus nos ouvidos do coração, e assim ficará sabendo de onde ele mesmo é. A Verdade manda desejar a pátria celeste, aborrecer os desejos da carne, evitar a glória do mundo, não apetecer o alheio, doar largamente do próprio.

Pense, portanto, consigo mesmo, cada um de vós, se essa voz de Deus soa audivelmente no ouvido do seu coração, e assim saberá que é de Deus. Porque, pelo contrário, são muitos os que nem mesmo se dignam de receber com os ouvidos do corpo os preceitos de Deus. E são muitos os que, tendo-os recebido com esses mesmos ouvidos do corpo, por nenhum desejo da alma os abraçam. E são muios os que, recebendo as palavras de Deus com gosto, até ao ponto de chorar de compunção, depois do tempo das lágrimas, retornam à iniqüidade. Não ouvem de fato as palavras de Deus aqueles que não cuidam muito de exercê-la em obras. Trazei, pois, diante dos vossos olhos, caríssimos irmãos, a vossa vida, e considerai com temor isto que soa da boca da Verdade: Por isto é que vós não ouvis, porque não sois de Deus.

Mas isso que a Verdade diz sobre os réprobos, isso mesmo eles próprios o exibem por suas obras iníquas: segue-se pois: Responderam, então, os judeus, dizendo-Lhe: Acaso não dizemos bem que és samaritano, e tens um demônio? Após ouvir tamanha afronta, ouçamos o que respondeu o Senhor: Eu não tenho um demônio, mas honro o Meu Pai, e vós Me desonrais. "Samaritano" quer dizer guardião, e Ele é deveras guardião, de Quem o Salmista diz: Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigiam os que a guardam; e de Quem foi dito por Isaías: Guardião, em que pé está a noite? Guardião, em que pé está a noite?* Por isso o Senhor não quis responder "Eu não sou samaritano", e sim "Eu não tenho um demônio. Duas coisas, na verdade, se Lhe imputavam: uma delas, Ele negou, e com a outra, calando, consentiu.
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* Is XXI, 11

18 de março de 2009

Do excesso de altivez, e de como os orgulhosos muitas vezes chegam às mais profunda humilhação




Certa vez reinava o poderoso Imperador Joviniano; estando ele deitado na sua cama, o coração lhe inchou inacreditavelmente de orgulho, e ele disse para si mesmo: "Haverá outro Deus além de mim?"
Enquanto ainda pensava nisso, o sono o dominou, e quando se ergueu cedo pela manhã, reuniu seus guerreiros, dizendo-lhes:
- Meus caros, será bom comermos alguma coisa. pois hoje tenho vontade de ir à caça. Estavam dispostos a cumprir sua vontade, comeram e partiram para caçar. Contudo, enquanto o imperador cavalgava, assaltou-o um calor intolerável, pareceu-lhe que morreria, se não pudesse banhar-se em água fria. Por isso olhou em torno e viu a distância um grande lago. Falou então aos seus soldados:
- Fiquem aqui, até que eu tenha me refrescado.

Depois esporeou seu cavalo e galopou até à água, saltou do cavalo, tirou todas as roupas, entrou na água e ficou ali até estar totalmente refrescado. Mas enquanto estava na água chegou certo homem, que era parecido com ele em rosto e postura, vestiu sua roupa, montou seu cavalo, e dirigiu-se até os guerreiros do imperador. Foi recebido por todos como o imperador em pessoa, e quando a caça terminara dirigiu-se com eles ao castelo. Depois Joviniano saiu depressa da água, não encontrando seu cavalo nem sua roupa. Admirou-se muito com isso, e ficou muito triste; porém estando nu e não vendo ninguém, pensou: "Que farei agora? Fui miseravelmennte logrado". Por fim voltou a si e disse: "Aqui perto mora um soldado a quem promovi de posto; irei até ele e arranjaarei cavalo e roupas, depois cavalgarei até meu castelo e verei como e por quem fui confundido dessa maneira." Joviniano andou pois inteiramente nu até à moradia daquele soldado e bateu no portão. O porteiro, porém, perguntou pela razão de estar batendo, e Joviniano disse:
- Abre a porta e verás quem sou.
O porteiro abriu a porta e depois de vê-lo, espantou-se e indagou:
- Mas quem és? O outro respondeu:
- Sou o Imperador Joviniano; vai até teu senhor e diz-lhe que me empreste roupas; pois perdi meu cavalo e minhas vestes.
O outro, porém, respondeu:
- Estás mentindo, miserável ladrão, pois antes de ti o senhor Imperador Joviniano passou por aqui a caminho do castelo, com seus guerreiros; meu senhor o acompanhou, já voltou e está sentado à mesa. Mas vou anunciar-lhe que te fazes passar pelo imperador. O porteiro apresentou-se logo ao seu senhor e contou-lhe o que o outro dissera. Assim que escutou tudo, o soldado mandou que lhe trouxessem aquele homem; e contemplanndo-o, o guerreiro não o reconheceu, mas o imperador o reconhecia bem. Então o guerreiro disse:
- Diz-me quem és e como te chamas. O outro respondeu:
- Sou o Imperador Joviniano, e nesse e nesse tempo te promovi a um posto superior.
O outro retrucou:
- Oh, miserável ladrão, com que atrevimento te chamas de imperador? Pois há pouco o meu senhor, o imperador, cavalgou por aqui em direção do castelo. Eu o segui por algum tempo e estou de volta. Mas não escaparás sem castigo por te haveres denominado imperador. E mandou que lhe dessem uma boa surra, e o expulsassem da sua propriedade. Quando Joviniano fora surrado e escorraçado, chorou amargamente e disse: "O meu Deus, como é possível que o guerreiro a quem recentemente promovi não me conheça mais e me tenha mandado surrar tão cruelmente?" Nisso lhe ocorrreu: "Aqui perto mora um dos meus conselheiros,um duque; vou até ele, comunicar-lhe minha aflição. Dele receberei roupas e poderei voltar ao meu castelo." Quando chegou ao portão da moradia do duque, bateu, e o porteiro, escutanndo as pancadas, abriu o portão, e vendo um homem despido, admirou-se e disse:
- Meu caro, quem és e por que chegaste aqui assim nu? O outro porém respondeu:
- Sou o imperador, e por acaso perdi meu cavalo e minhas roupas, por isso venho ver o duque para que ele me ajude na minha aflição; por isso peço que apresentes meu pedido ao teu senhor. Quando o porteiro escutou isso admirou-se, voltou à casa do seu senhor e contou-lhe tudo. O duque, porém, disse:
- Manda-o entrar!
Quando entrou, porém, ninguém o reconheceu, e o duque lhe disse:
- Afinal, quem és? O outro respondeu:
- Sou o imperador, e fiz com que tivesses fortuna e honrarias, fiz de ti um duque, e meu conselheiro.
O duque, porém, disse:
- Miserável demente! pouco antes da tua chegada cavalguei com o imperador, meu senhor, até o seu castelo, e acabo de voltar de lá; mas não vai escapar sem castigo por teres querido apoderar-te de tal honra.
Mandou que o encerrasse numa prisão, a pão e água, depois tiraram-no de lá, deram-lhe uma boa surra, e expulsaram-no dos domínios do duque. Quando estava assim exilado, Joviniano emitiu mais suspiros e lamentações do que se poderia acreditar, e disse de si para si: "Ai de mim, que farei, agora que me tornei objeto de insulto e vergonha do povo? Será melhor ir ao meu castelo, pois os meus certamente me reconhecerão, e se não for assim, ao menos minha mulher me reconhecerá por certos sinais."
Depois disso foi sozinho ao seu palácio, bateu no portão, e quando o porteiro escutou as pancadas abriu. Vendo-o, disse-lhe:
- Mas quem és?
o outro respondeu:
- Admira-me que não me reconheças, pois estás comigo há tanto tempo.
O outro, porém, disse:
- Estás mentindo! Estou há muito tempo com o Immperador, meu senhor.
E o outro retrucou:
- Pois eu sou o imperador, e se acreditas nas minhas palavras, peço por amor de Deus que vás procurar a imperatriz e lhe diga que através desses sinais ela providencie meus trajes imperiais, pois por acaso perdi todos os meus; os sinais que vou te dar ninguém na terra conhece além de nós dois.
E o porteiro disse:
- Não duvido de que estejas louco, pois o meu senhor, o imperador, neste momento está à mesa, e ao lado dele a imperatriz.
Mas vou anunciar a ela que disseste que és o imperador, e estou certo que será severamente punido.
O porteiro foi pois ter com a imperatriz e lhe disse tudo o que ouvira. Ela ficou muito perturbada, virou-se paara o seu marido e disse:
- Senhor, sabeis que seguidamente aconteceram entre nós, em segredo, coisas singulares. Agora um sujeito devasso que está no portão manda-me dizer pelo porteiro que é o imperador.
Quando o falso imperador ouvira isso, mandou que o outro entrasse na presença de todos; quando foi introduzido assim nu, um cão que sempre o amara muito saltou para morder seu pescoço. A criadagem impediu o cão de matar o homem, que não sofreu mais nenhum dano. Também havia um falcão num poleiro, que, assim que o avistou, rebentou sua corrente e fugiu voando da sala.
Nisso o imperador disse a todos que estavam sentados na sala:
- Meus caros, ouçam minhas palavras, que direi a este vagabundo. Quem és, e por que vieste?
O outro porém respondeu:
- Oh, senhor, que pergunta singular. Eu sou o imperador e dono deste lugar.
Então o imperador disse a todos os que estavam sentados à mesa ou postados ao redor dela:
- Dizei-me pelo juramento que me prestastes, quem é quem é vosso imperador e senhor?
E eles responderam:
- Oh, senhor, pelo juramento que vos prestamos, a resposta é simples: nunca vimos aquele ladrão, mas vós sais nosso senhor e imperador, a quem conhecemos desde a juventude, por isso vos pedimos unanimemente que aquele ali seja castigado, para que todos tirem um exemplo dele, e nunnca mais se tente uma tal insolência.
Diante disso o imperador virou-se para a imperatriz e disse:
- Diz-me, minha senhora, pela fidelidade que me dás: conheces aquele homem que se diz imperador e teu senhor?
Mas ela respondeu:
- Oh, caro senhor, porque me perguntas isso? Não estou contigo há mais de trinta anos, e não te dei três filhos? Uma coisa porém me admira, é como esse patife chegou a saber de fatos secretos entre nós dois. E o imperador disse então ao que fora introduzido na sala:
- Meu caro, como ousaste fazer-te passar por um immperador? Decretamos que sejas hoje amarrado à cauda de um cavalo, e se tiveres a ousadia de dizeres isso mais uma vez, vou te condenar à morte mais vergonhosa.
Depois disso chamou seus guardas e disse:
- Ide e amarrai este homem à cauda dum cavalo, mas não o mateis.
E foi o que aconteceu. Mas depois as entranhas daquele homem se moveram mais do que alguém possa imaginar, e duvidando de si mesmo disse:
- Amaldiçoado o dia em que nasci e que meus amigos me abondanaram! Minha mulher e meus filhos não me reconheceram. E enquanto falava assim pensou: "Aqui perto mora meu confessor, vou dirigir-me a ele: talvez me reconheça, pois muitas vezes ouviu minhas confissões."
Depois dirigiu-se ao eremita e bateu na janela da sua ermida. Mas o outro indagou:
- Quem está aí?
E ele respondeu:
- Sou eu, o Imperador Joviniano. Abre tua janela paara que eu possa falar contigo.
Assim que o eremita escutou a voz, abriu a janela, mas vendo o homem bateu-a com força fechando-a de novo, e disse:
- Afasta-te de mim, maldito, pois não és o imperador, e sim o diabo em forma humana! Quando o outro escutou isso caiu no chão de tanta dor, arrancando os cabelos da cabeça e da barba, e disse:
- Ai de mim, que devo fazer?
Dizendo isso lembrou-se de como recentemente, quando jazia na cama, seu coração inchara de orgulho, e que ele dissera:
- Existirá outro Deus além de mim? - Logo bateu na janela do eremita e disse:
- Ouvi, eu vos peço, por amor ao crucificado ouvi minha confissão, mesmo de janela fechada.
E o outro disse:
- Para mim está bem.
Ele então confessou entre lágrimas toda a sua vida, especialmente como se colocara acima de Deus e dissera não acreditar em nenhum outro Deus senão ele próprio. Quando a confissão e a absolvição tinham passado, o eremita abriu a janela, reconheceu-o, e disse:
- Bendito o Altíssimo, agora te reconheço; tenho aqui umas poucas peças de roupa, veste-as e vai ao teu palácio, e espero que lá te reconheçam.
Depois o imperador partiu, dirigiu-se ao seu palácio, e bateu no portão. O porteiro abriu logo e recebeu-o com o maior respeito. Mas o outro disse:
- Então me conheces?
E o porteiro retrucou:
- Ora, sim, meu senhor, e muito bem. Apenas me admiro porque estive o dia inteiro aqui parado e não vos vi sair de casa.
O outro entrou no salão de reuniões, e todos os que o viram baixaram as cabeças. Mas o outro imperador estava com sua mulher.
Porém um guerreiro que saiu do aposento real olhou para ele, voltou para o quarto e disse:
- Meu senhor, na sala está um homem diante do qual todos se curvam honrando-o, e é tão parecido em tudo connvosco, que realmente não sei qual de vós é o imperador. Quando o falso imperador escutou isso, disse à imperatriz:
- Vai até lá e vê se o conheces.
Ela porém saiu depressa e quando o viu admirou-se, voltou ligeiro aos aposentos e falou:
- Oh, senhor, anuncio-vos que há outro lá fora, mas não posso absolutamente distinguir qual de vós é o meu senhor.
O outro então disse:
- Se for assim, quero sair e trazer a verdade à luz do dia.
Mas quando entrava no salão, pegou o outro pela mão, fê-lo parar-se ao seu lado, chamou todos os guerreiros que estavam na sala, e a imperatriz, e disse:
- Pelo juramento que me prestastes, dizei-me agora qual de nós é vosso imperador. E a imperatriz respondeu primeiro:
- Meu senhor, quero responder em primeiro lugar; mas Deus nas alturas seja minha testemunha: não consigo de modo algum afirmar qual de vós é meu senhor.
E assim disseram todos os demais. E ele disse:
- Meus caros, escutai-me. Este é o vosso imperador e senhor; mas uma vez ele se ergueu contra Deus, por isso Deus o puniu, o conhecimento dos homens afastou-se dele, até que ele tivesse compensado ao seu Deus. Eu, porém, sou seu anjo da guarda e guarda da sua alma, administrei seu império enquanto ele estava fazendo penitência; agora, porém, sua penitência está cumprida, ele desagravou seus pecados, por isso obedecei-lhe, e eu vos recomendarei a Deus. Com essas palavras desapareceu diante dos olhos deles, mas o imperador agradeceu a Deus e viveu toda a sua vida em paz, dedicando-a a Deus. Que Este nos permita fazermos o mesmo.

Histórias medievais compiladas por Hermann Hesse. (Geschichten aus dem Mittelalter, hrsg. von Hermann Hesse. Ü.: Lya Luft. São Paulo: Distribuidora Record.

17 de março de 2009

A INTOLERÂNCIA CATÓLICA - CARDEAL PIE

A INTOLERÂNCIA CATÓLICA

LOUIS-ÉDOUARD CARDEAL PIE
Bispo de Poitiers

Sermão pregado na Catedral de Chartres (excertos); 1841.

Meus irmãos (...),

Nosso século clama: “tolerância, tolerância”. Tem-se como certo que um padre deve ser tolerante, que a religião deve ser tolerante. Meus irmãos, não há nada que valha mais que a franqueza, e eu aqui estou para vos dizer, sem disfarce, que no mundo inteiro só existe uma sociedade que possui a verdade e que esta sociedade deve ser necessariamente intolerante. Mas antes de entrar no mérito, distinguindo as coisas, convenhamos sobre o sentido das palavras para bem nos entendermos. Assim não nos confundiremos.

A tolerância pode ser civil ou teológica. A primeira não nos diz respeito, e não darei senão uma pequena palavra sobre ela: se a lei tolerante quer dizer que a sociedade permite todas as religiões porque, a seus olhos, elas são todas igualmente boas ou porque as autoridades se consideram incompetentes para tomar partido neste assunto, tal lei é ímpia e atéia. Ela exprime não a tolerância civil como a seguir indicaremos, mas a tolerância dogmática que, por uma neutralidade criminosa, justifica nos indivíduos a mais absoluta indiferença religiosa. Ao contrário, se, reconhecendo que uma só religião é boa, a lei suporta e permite que as demais possam exercer-se por amor à tranqüilidade pública, esta lei poderá ser sábia e necessária se assim o pedirem as circunstâncias, como outros observaram antes de mim (...).

Deixo porém este campo cheio de dificuldades, e volto-me para a questão propriamente religiosa e teológica, em que exponho estes dois princípios: primeiro, a religião que vem do céu é verdade, e é intolerante com relação às doutrinas errôneas; segundo, a religião que vem do céu é caridade, e é cheia de tolerância quanto às pessoas.

Roguemos a Nossa Senhora vir em nossa ajuda e invocar para nós o Espírito de verdade e de caridade: Spiritum veritatis et pacis. Ave Maria.

Faz parte da essência de toda a verdade não tolerar o princípio que a contradiz. A afirmação de uma coisa exclui a negação dessa mesma coisa, assim como a luz exclui as trevas. Onde nada é certo, onde nada é definido, podem-se partilhar os sentimentos, podem variar as opiniões. Compreendo e peço a liberdade de opinião nas coisas duvidosas: in dubiis, libertas. Mas, logo que a verdade se apresenta com as características certas que a distinguem, por isso mesmo que é verdade, ela é positiva, ela é necessária, e por conseguinte ela é una e intolerante: in necessariis, unitas. Condenar a verdade à tolerância é condená-la ao suicídio. A afirmação se aniquila se duvida de si mesma, e ela duvida de si mesma se admite com indiferença que se ponha a seu lado a sua própria negação. Para a verdade, a intolerância é o instinto de conservação, é o exercício legítimo do direito de propriedade. Quando se possui alguma coisa, é preciso defendê-la, sob pena de logo se ver despojado dela.

Assim, meus irmãos, pela própria necessidade das coisas, a intolerância está em toda a parte, porque em toda parte existe o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, a ordem e a desordem. Que há de mais intolerante do que esta proposição: 2 mais 2 fazem 4? Se vierdes dizer-me que 2 mais 2 fazem 3 ou fazem 5, eu vos respondo que 2 mais 2 fazem 4...

Nada é tão exclusivo quanto a unidade. Ora, ouvi a palavra de São Paulo: “Unus Dominus, una fides, unum baptisma”. Há, no céu, um só Senhor: unus Dominus. Esse Deus, cuja unidade é seu grande atributo, deu à terra um só símbolo, uma só doutrina, uma só fé: una fides. E esta fé, esta doutrina, Ele confiou-as a uma só sociedade visível, uma só Igreja cujos filhos são, todos, marcados com o mesmo selo e regenerados pela mesma graça: unum baptisma. Assim, a unidade divina que esplende por todos os séculos na glória de Deus produziu-se sobre a terra pela unidade do dogma evangélico cujo depósito foi confiado por Nosso Senhor Jesus Cristo à unidade hierárquica do sacerdócio: um Deus, uma fé, uma Igreja: unus Dominus, una fides, unum baptisma.

Um pastor inglês teve a coragem de escrever um livro sobre a tolerância de Jesus Cristo, e certo filósofo de Genebra disse, falando do Salvador dos homens: “Não vejo que meu divino Mestre tenha formulado sutilezas sobre o dogma”. Bem verdadeiro, meus irmãos. Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma, mas trouxe aos homens a verdade e disse: se alguém não for batizado na água e no Espírito Santo, se alguém se recusa a comer a minha carne e a beber o meu sangue, não terá parte em meu reino. Confesso que nisso não há sutilezas; há intolerância, há exclusão, a mais positiva, a mais franca. E mais: Jesus Cristo enviou seus Apóstolos para pregar a todas as nações, isto é, derrubar todas as religiões existentes para estabelecer em toda a terra a única religião cristã e substituir todas as crenças dos diferentes povos pela unidade do dogma católico. E, prevendo os movimentos e as divisões que esta doutrina iria incitar sobre a terra, Ele não se deteve e declarou que tinha vindo para trazer não a paz, mas a espada, e para acender a guerra não somente entre os povos, mas no seio de uma mesma família e separar, pelo menos quanto às convicções, a esposa fiel do esposo incrédulo, o genro cristão do sogro idólatra. A afirmação é verdadeira e o filósofo tem razão: Jesus Cristo não formulou sutilezas sobre o dogma (...).

Falam da tolerância dos primeiros séculos, da tolerância dos Apóstolos. Mas isso não é assim, meus irmãos. Ao contrário, o estabelecimento da religião cristã foi, por excelência, uma obra de intolerância religiosa. No momento da pregação dos apóstolos, quase todo o universo praticava essa tolerância dogmática tão louvada. Como todas as religiões eram igualmente falsas e igualmente desarrazoadas, elas não se guerreavam; como todos os deuses valiam a mesma coisa uns para os outros, eram todos demônios, não eram exclusivos, eles se toleravam uns aos outros: Satã não está dividido contra si mesmo. O Império Romano, multiplicando suas conquistas, multiplicava seus deuses, e o estudo de sua mitologia se complica na mesma proporção que o da sua geografia. O triunfador que subia ao Capitólio fazia marchar diante dele os deuses conquistados com mais orgulho ainda do que arrastava atrás de si os reis vencidos. O mais das vezes, em virtude de um Senatus-Consulto, os ídolos dos bárbaros se confundiam desde então com o domínio da pátria, e o Olimpo nacional crescia como o Império.

Quando aparece o Cristianismo (prestem atenção a isso, meus irmãos, são dados históricos de valor com relação ao assunto presente), quando o Cristianismo surge pela primeira vez, não foi repelido imediatamente. O paganismo perguntou-se se, em vez de combater a nova religião, não devia dar-lhe acesso ao seu solo. A Judéia tinha-se tornado uma província romana. Roma, acostumada a receber e conciliar todas as religiões, recebeu a princípio, sem maiores dificuldades, o culto saído da Judéia. Um imperador colocou Jesus Cristo, como a Abraão, entre as divindades de seu oratório, assim como se viu mais tarde outro César propor prestar-lhe homenagens solenes. Mas a palavra do profeta não tardou a se verificar: as multidões de ídolos que viam, de ordinário sem ciúmes, deuses novos e estrangeiros ser colocados ao lado deles, com a chegada do deus dos cristãos, lançam um grito de terror, e, sacudindo sua tranqüila poeira, abalam-se sobre seus altares ameaçados: ecce Dominus ascendit, et commovebuntur simulacra a facie ejus. Roma estava atenta a esse espetáculo. E logo, quando se percebeu que esse Deus novo era irreconciliável inimigo dos outros deuses; quando se viu que os cristãos, cujo culto se havia admitido, não queriam admitir o culto da nação; em uma palavra, quando se constatou o espírito intolerante da fé cristã, foi então que começou a perseguição.

Ouvi como os historiadores do tempo justificam as torturas dos cristãos. Eles não falam mal de sua religião, de seu Deus, de seu Cristo, de suas práticas; só mais tarde é que inventaram calúnias. Eles os censuram somente por não poderem suportar outra religião senão a deles. “Eu não tinha dúvidas”, diz Plínio, o Jovem, “apesar de seu dogma, de que não era preciso punir sua teimosia e sua obstinação inflexível”: pervicaciam et inflexibilem obstinationem. “Não são criminosos”, diz Tácito, “mas são intolerantes, misantropos, inimigos do gênero humano. Há neles uma fé teimosa em seus princípios, e uma fé exclusiva que condena as crenças de todos os povos”: apud ipsos fides obstinata, sed adversus omnes alios hostile odium. Os pagãos diziam geralmente dos cristãos o que Celso disse dos judeus, com os quais foram muito tempo confundidos, porque a doutrina cristã tinha nascido na Judéia. “Que esses homens adiram inviolavelmente às suas leis”, dizia este sofista, “nisto não os censuro; só censuro aqueles que abandonam a religião de seus pais para abraçar uma diferente! Mas, se os judeus ou os cristãos querem só dar ares de uma sabedoria mais sublime que aquela do resto do mundo, eu diria que não se deve crer que eles sejam mais agradáveis a Deus que os outros”.

Assim, meus irmãos, o principal agravo contra os cristãos era a rigidez absoluta do seu símbolo, e, como se dizia, o humor insociável de sua teologia. Se só se tratasse de um Deus mais, não teria havido reclamações; mas era um Deus incompatível, que expulsava todos os outros: aí está o porquê da perseguição. Assim, o estabelecimento da Igreja foi obra de intolerância dogmática. Toda a história da Igreja não é senão a história dessa intolerância. Que são os mártires? Intolerantes em matéria de fé, que preferem os suplícios a professar o erro. Que são os símbolos? São fórmulas de intolerância, que determinam o que é preciso crer e que impõem à razão os mistérios necessários. Que é o Papado? Uma instituição de intolerância doutrinal, que pela unidade hierárquica mantém a unidade de fé. Por que os concílios? Para frear os desvios de pensamentos, condenar as falsas interpretações do dogma, anatematizar as proposições contrárias à fé.

Nós somos então intolerantes, exclusivos em matéria de doutrina; disto fazemos profissão; orgulhamo-nos da nossa intolerância. Se não o fôssemos, não estaríamos com a verdade, pois que a verdade é uma, e conseqüentemente intolerante. Filha do céu, a religião cristã, descendo à terra, apresentou os títulos de sua origem; ofereceu ao exame da razão fatos incontestáveis, e que provam irrefutavelmente sua divindade. Ora, se ela vem de Deus, se Jesus Cristo, seu autor, pode dizer: Eu sou a verdade: Ego sum veritas, é necessário, por uma conseqüência inevitável, que a Igreja Cristã conserve incorruptivelmente esta verdade tal qual a recebeu do céu; é necessário que repila, que exclua tudo o que é contrário a esta verdade, tudo o que possa destruí-la. Recriminar à Igreja Católica sua intolerância dogmática, sua afirmação absoluta em matéria de doutrina, é dirigir-lhe uma recriminação muito honrosa. É recriminar à sentinela ser muito fiel e muito vigilante, é recriminar à esposa ser muito delicada e exclusiva.

Nós ficamos muitas vezes confusos com o que ouvimos dizer sobre todas estas questões até por pessoas sensatas. Falta-lhes a lógica, desde que se trate de religião. É a paixão, é o preconceito que os cega? É um e outro. No fundo, as paixões sabem bem o que querem quando procuram abalar os fundamentos da fé, pondo a religião entre as coisas sem consistência. Elas não ignoram que, demolindo o dogma, preparam para si uma moral fácil. Diz-se com justeza perfeita: é antes o decálogo que o símbolo o que as faz incrédulas. Se todas as religiões podem ser postas num mesmo nível, é que se equivalem todas; se todas são verdadeiras, é porque todas são falsas; se todos os deuses se toleram, é porque não há Deus. E, se se pode aí chegar, já não sobra nenhuma moral incômoda. Quantas consciências estariam tranqüilas no dia em que a Igreja Católica desse o beijo fraternal a todas as seitas suas rivais!

Jean-Jacques [Rousseau] foi entre nós o apologista e o propagador desse sistema de tolerância religiosa. A invenção não lhe pertence, se bem que ele tenha ido mais longe que o paganismo, que nunca chegou a levar a indiferença a tal ponto. Eis, com um curto comentário, o ponto principal desse catecismo, tornado infelizmente popular: todas as religiões são boas. Isto é, de outra forma, todas as religiões são ruins (...).

A filosofia do século XIX se espalha por mil canais por toda a superfície da França. Esta filosofia é chamada eclética, sincrética, e, com uma pequena modificação, é também chamada progressiva. Esse belo sistema consiste em dizer que não existe nada falso; que todas as opiniões e todas as religiões podem conciliar-se; que o erro não é possível ao homem, a menos que ele se despoje da humanidade; que todo o erro dos homens consiste em julgar-se possuidores exclusivos de toda a verdade, quando cada um deles só tem dela um elo e quando, da reunião de todos esses elos, se deve formar a corrente inteira da verdade. Assim, segundo essa inacreditável teoria, não há religiões falsas, mas são todas incompletas umas sem as outras. A verdadeira seria a religião do ecletismo sincrético e progressivo, a qual ajuntaria todas as outras, passadas, presentes e futuras: todas as outras, isto é, a religião natural que reconhece um Deus; o ateísmo, que não conhece nenhum; o panteísmo, que o reconhece em tudo e por tudo; o espiritualismo, que crê na alma, e o materialismo, que só crê na carne, no sangue e nos humores; as sociedades evangélicas, que admitem uma revelação, e o deísmo racionalista, que a rejeita; o Cristianismo, que crê no Messias que veio, e o judaísmo, que o espera ainda; o Catolicismo, que obedece ao Papa, o protestantismo, que olha o Papa como o Anticristo. Tudo isto é conciliável. São diferentes aspectos da verdade. Da união desses cultos resultará um culto mais largo, mais vasto, o grande culto verdadeiramente católico, isto é, universal, pois que abrigará todas as outras no seu seio.

Esta doutrina que qualificais de absurda não é de minha invenção; ela enche milhares de volumes e de publicações recentes; e, sem que seu fundo jamais varie, toma todos os dias novas formas sob a caneta e sobre os lábios dos homens em cujas mãos repousam os destinos da França. — A que ponto de loucura chegamos então?Chegamos ao ponto a que deve logicamente chegar todo aquele que não admite o princípio incontestável que estabelecemos, a saber: que a verdade é uma, e por conseqüência intolerante, apartada de toda a doutrina que não é a sua. E, para resumir em poucas palavras toda a substância deste meu discurso, eu vos direi: Procurais a verdade sobre a terra? Procurai a Igreja intolerante. Todos os erros podem fazer-se concessões mútuas; eles são parentes próximos, pois que têm um pai comum: vos ex patre diabolo estis. A verdade, filha do céu, é a única que não capitula.

Vós, pois, que quereis julgar esta grande causa, tomai para isto a sabedoria de Salomão. Entre essas diferentes sociedades para as quais a verdade é objeto de litígio, como era aquela criança entre as duas mães, quereis saber a quem adjudicá-la. Pedi que vos dêem uma espada, fingi cortar, e examinai as caras que farão os pretendentes. Haverá vários que se resignarão, que se contentarão da parte que vão ter. Dizei logo: Essas não são as mães! Há uma cara, ao contrário, que se recusará a toda composição, que dirá: a verdade me pertence, e devo conservá-la inteira, jamais tolerarei que seja diminuída, partida. Dizei: Esta aqui é a verdadeira mãe!

Sim, Santa Igreja Católica, Vós tendes a verdade, porque tendes a unidade, e porque sois intolerante; não deixais decompor esta unidade.

[Marcações nossas]

*Agradecemos a ruirmachado pela correção referente à autoria do sermão.

16 de março de 2009

CITAÇÕES SOBRE O PRIMADO DA IGREJA ROMANA, O PRIMADO DO PAPA E A NECESSIDADE DE SUBMISSÃO AO SUMO PONTÍFICE PARA A SALVAÇÃO DA ALMA - PARTE II

ENCHIRIDION CITATORUM DOGMATICORUM CIRCA COGNICIONEM PRINCIPATUS PRIMATUSQUE SANCTÆ ROMANÆ ECCLESIÆ ET ROMANI PONTIFICI ATQUE CIRCA NECESSITATEM OBEDIENTIÆ EI PRO SALUTE ANIMÆ

VEL

DE PRIMATU UNIVERSO EPISCOPI ROMÆ

Conditor:
Marcos Vinicius Matke

PARS SECUNDA

SÆCULUM V


Compêndio de citações dogmáticas acerca do reconhecimento da primazia e primado da Santa Romana Igreja e do Romano Pontífice e da necessidade de submissão a este para a salvação da alma

ou

Da primazia universal do Bispo de Roma

Organizador: M.V.M.

Parte II

SÉCULO V


S.S. INOCÊNCIO I: CARTA “IN REQUIRENDIS”, AOS BISPOS DO SÍNODO DE CARTAGO. De 27 de janeiro de 417.


(Cap. 1) Na procura das coisas de Deus [...] seguindo os exemplos da antiga tradição [...] confirmastes de modo veraz o vigor de nossa religião, não menos agora, ao consultardes, que antes, quando exprimíeis as vossas decisões, vós que reconhecestes que se deve recorrer ao nosso julgamento, sabendo o que é devido à Sé Apostólica, já que todos os que fomos postos nesta Sé desejamos seguir o Apóstolo mesmo do qual emergiu o próprio episcopado e toda a autoridade da sua função. Seguindo o seu exemplo, tanto sabemos condenar prontamente as coisas más quanto aprovar as louváveis, como decerto isto: que observando por ofício sacerdotal as disposições dos Padres não julgueis que possas ser desprezadas; pois eles decidiram, não com humana, mas com divina sentença, que qualquer coisa que fosse tratada, também nas províncias mais longínquas e remotas, não a levassem a definição antes que chegasse ao conhecimento desta Sé, para que seja confirmada com toda a autoridade qualquer decisão justa, e de lá as outras Igrejas possam haurir – assim como todas as águas brotam de sua nascente originária e de cabeceira pura fluem incorruptas pelas diversas regiões do mundo inteiro – o que prescrever, a quem purificar, e a quem, como que sujos de lama impossível de limpar, a água digna de corpos limpos deve evitar.


S.S. INOCÊNCIO I: CARTA “INTER CŒTERAS ECCLESIÆ ROMANÆ”, A SILVANO E AOS OUTROS PADRES DO SÍNODO DE MILEVE. De 27 de janeiro de 417.


(Cap. 2) Com diligência, pois, e em devido ato, consultais os arcanos do honorífico múnus apostólico – múnus, digo, daquele a quem incumbe, “além das coisas exteriores, a solicitude por todas as Igrejas” [II Cor. XI, 28] –, acerca da posição a tomar nas coisas duvidosas, tendo seguido nisto o modelo da antiga regra que sabeis ter sido comigo observada sempre por todo o orbe. [...] Por que motivo tendes confirmado essa regra com a vossa conduta, senão porque sabeis que sempre da fonte apostólica fluem para todas as províncias respostas aos que as solicitam? Particularmente, cada vez que é discutido a doutrina da fé, julgo que todos os nossos irmãos e coepíscopos devem referir-se somente a Pedro, isto é, ao detentor do seu nome e do seu múnus honorífico, assim como agora vossa caridade perguntou que coisa possa ser proveitoso ao conjunto de todas as Igrejas no mundo inteiro. De fato, é precioso que se tornem mais cautos, vendo que os autores do mal, em resposta aos atos do duplo sínodo, pelas disposições do nosso julgamento foram separados da comunhão eclesiástica.


S.S. ZÓSIMO: CARTA “QUAMVIS PATRUM”, AO SÍNODO DE CARTAGO. De 21 de março de 418.


(n. 1) Embora a tradição dos Padres tenha atribuído à Sé Apostólica tamanha autoridade que ninguém ousaria colocar em discussão o seu juízo e tenha sempre conservado isso por meio de cânones e regras, e embora a disciplina eclesiástica até agora em vigor assegure com as suas leis a devida veneração ao nome de Pedro, do qual esta autoridade deriva: [...] (3) enquanto, pois, tão grande autoridade tem sua origem em Pedro e as subseqüentes decisões de todos os antepassados confirmam que a Igreja Romana é firmada por todas as leis e costumes humanos e divinos – e não vos é oculto, mas o sabeis, irmãos caríssimos, e como sacerdotes o deveis saber, que Nós governamos o seu território e também exercemos o poder do seu nome – , (4) todavia, mesmo tendo autoridade tão grande que ninguém possa rediscutir as nossas decisões, nada temos feito sem, de própria vontade, levá-lo a vosso conhecimento por nossa carta, concedendo isto à fraternidade e realizando consulta em comum, não porque não soubéssemos o que deveria ser feito ou porque fizéssemos algo que desagradasse por ir de encontro à utilidade da Igreja, mas queríamos que a questão dele [do acusado Celéstio] fosse tratado juntamente convosco.


S.S. BONIFÁCIO I: CARTA “RETRO MAIORIBUS”, AO BISPO RUFO DA TESSÁLIA. De 11 de março de 422.


(Cap. 2) [...] Dirigimos direto ao Sínodo de Corinto um escrito com o intuito de fazer compreender a todos os irmãos [...] que não se pode deliberar de novo sobre um julgamento nosso. De fato, nunca é lícito deliberar outra vez a respeito do que uma vez foi estabelecido pela Sé Apostólica.


S.S. BONIFÁCIO I: CARTA “INSTITUTO”, AOS BISPOS DA TESSÁLIA. De 11 de março de 422.


(Cap. 1) A instituição da nascente Igreja universal tomou início no múnus honorífico do bem-aventurado Pedro, no qual está seu governo e ápice. Da sua fonte fluiu, à medida que crescia a veneração da religião, a disciplina eclesiástica em todas as Igrejas. As disposições do Concílio de Nicéia não testemunham outra coisa, a tal ponto que não ousou definir nada sobre ele, vendo que era impossível propor algo acima do seu mérito, pois sabia, afinal, que tudo lhe era concedido pela palavra do Senhor. É certo que esta Igreja romana é, para as Igrejas espalhadas pelo orbe inteiro, como a cabeça de seus membros: quem dela se desliga seja banido da religião cristã, já que deixou de estar inserido nela.


S.S. BONIFÁCIO I: CARTA “MANET BEATUM”, A RUFO E AOS OUTROS BISPOS DA MACEDÔNIA ETC. De 11 de março de 422.


Pertence ao bem-aventurado apóstolo Pedro, com base na afirmação do Senhor, o cuidado, por ele assumido, da Igreja universal, que, segundo o testemunho do evangelho, sobre si sabia fundada. E jamais este seu múnus honorífico pode ser livre de cuidados, pois é certo que as últimas decisões dependem da sua deliberação. [...] Esteja longe dos sacerdotes dos Senhor que algum deles caia na culpa de, em nova tentativa ilícita, tornar-se inimigo das deliberações dos antepassados, sabendo ter como rival de modo particular aquele junto ao qual o nosso Cristo estabeleceu o ápice do sacerdócio; se alguém ousar ultrajá-lo, não poderá habitar no reino dos céus. “A ti”, diz ele, “darei as chaves do reino dos céus” [Mt. XVI, 19], e neste ninguém entrará sem o favor do porteiro.


[...]


Já que o lugar o exige, se parecer bem, passai em resumo as disposições dos cânones; encontrareis qual é a segunda sé depois da Igreja romana, ou qual é a terceira. [...] Ninguém jamais levantou com arrogância a mão contra o vértice apostólico, cujo julgamento não é lícito submeter a nova discussão; ninguém se revoltou contra ele, exceto quem quisesse por ele ser julgado. As acima referidas grandes Igrejas mantêm, por força dos cânones, sua posição de dignidade: a de Alexandria e de Antioquia [conforme I Concílio de Nicéia, cânon 6], tendo conhecimento do direito eclesiástico. Elas guardam os estatutos dos antepassados, em tudo deferindo – e em troca recebendo – os favores que reconhecem devido a Nós, no Senhor, que é a nossa paz.


Mas, como o assunto o requer, devemos demonstrar com documentos que particularmente as Igrejas Orientais, para as grandes questões nas quais fosse necessário maior investigação, sempre têm consultado a Sé Romana e que, toda vez que necessário, têm pedido o seu auxílio.


S.S. CELESTINO I: CONCÍLIO DE ÉFESO: 1ª SESSÃO DOS CIRILIANOS. SENTENÇA CONCILIAR CONTRA NESTÓRIO. De 22 de junho de 431.


Como o ilustríssimo Nestório, entre outras coisas, não quis nem obedecer a nossa convocação, nem acolher os santíssimos e piíssimos bispos mandados por nós, fomos obrigados a proceder ao exame de suas ímpias expressões; e como, por suas cartas, pelos escritos que foram lidos e pelas afirmações recentemente proferidas nesta metrópole, como ficou atestado, o flagramos pensando e pregando impiamente, obrigados pelos cânones e pela carta do nosso santíssimo pai e colega no ministério Celestino, bispo da Igreja de Roma, chegamos, muitas vezes com lágrimas, a esta dolorosa condenação dirigida contra ele: Nosso Senhor Jesus Cristo, por ele blasfemado, estabeleceu, pela boca deste santíssimo Sínodo, que o mesmo Nestório está excluído da dignidade episcopal e de todo e qualquer colégio episcopal.


S.S. LEÃO I MAGNO: CARTA “QUANTA FRATERNITATI”, AO BISPO ANASTÁSIO DE TESSÁLIA. Ano 446 (?).


(Cap. 11) [...] A coesão de todo o corpo realiza uma só saúde, uma só beleza; e esta coesão de todo o corpo requer, certamente, a unanimidade, mas exige particularmente a concórdia dos sacerdotes. Embora gozem de comum dignidade, a sua ordem, porém, não é genérica. De fato, também entre os beatíssimos Apóstolos, na igualdade de honra, houve certa diferença de poder; e se bem que a eleição fosse comum a todos, a um somente foi dado ter a primazia sobre os outros. De tal modelo surgiu também a diferenciação dos bispos e, com notável ordem, providenciou-se que nem todos assumissem tudo, mas que em cada província houvesse alguns cujo juízo entre os irmãos fosse tido como prioritário; e que, por sua vez, alguns constituídos nas cidades maiores assumissem uma responsabilidade mais ampla e através deles confluísse para a única Sé de Pedro o cuidado da Igreja universal e nada em nenhum lugar ficasse separado de sua cabeça.


S.S. LEÃO I MAGNO: CONCÍLIO DE CALCEDÔNIA: 7ª SESSÃO: CARTA SINODAL “ἘΠΛἩΣΘΗ ΧΑΡἎΣ”, AO PAPA LEÃO I MAGNO. Início de novembro de 451.


Que coisa, de fato, dá alegria mais sublime que a fé? [...] Desde antigamente no-la transmitiu, para a salvação, o próprio Salvador, dizendo: “Ide, ensinai a todas as gentes...” [Mt. XXVIII, 19]; tu mesmo a tens conservado, qual corrente de ouro descida do céu até nós por ordem de quem rege, fazendo-te para todos o intérprete da voz do bem-aventurado Pedro e atraindo sobre todos a bem-aventurança de sua fé. Por isso, também nós, usando-te como guia para o aproveitamento deste bem, mostramos aos filhos da Igreja a herança da verdade, [...] tendo dado a conhecer, em unânime concórdia e comunhão de sentimentos, a profissão de fé. E nos encontrávamos num comum canto coral, entregando-nos, como nos banquetes imperiais, ao gozo dos alimentos espirituais que Cristo mediante o teu escrito [(especialmente o Tomus Leonis)] preparou para os convidados; também nos parecia o esposo celeste estar participando de nosso convívio. Se, de fato, ele disse que, onde estão dois ou três reunidos em seu nome, lá está no meio deles [Mt. XVIII, 20], que grande familiaridade mostrou ele aos quinhentos e vinte sacerdotes que puseram acima da pátria e trabalho o entendimento da profissão de fé nele; dos quais tu, qual cabeça em relação aos membros, és o guia, demonstrando teu excelente conselho por meio dos que te representavam.


S.S. GELÁSIO I: CARTA “FAMULI VESTRÆ PIETATIS”, AO IMPERADOR ANASTÁSIO I. Ano 494.


São dois, na verdade, ó augusto imperador, os poderes pelos quais, principalmente, este mundo é dirigido: a sagrada autoridade dos pontífices e o poder do rei; e, entre estes, o dos sacerdotes pesa tanto mais, porque também deverão dar conta, no julgamento divino, dos próprios reis da humanidade.


De fato, filho clementíssimo, tu sabes que, se bem que sejas o primeiro em dignidade entre os homens, todavia abaixas devotamente a cabeça para aqueles que são responsáveis das coisas divinas e procuras junto deles o que serve para a tua salvação; e reconheces que, para receber os celeste sacramentos e administrá-los como convém, tu deves submeter-te à ordem da religião antes que estar à sua frente. Sabes, portanto, que neste âmbito, tu dependes do julgamento deles e não podes querer que eles sejam submetidos à tua vontade.


Se, de fato, no que se refere à ordem da disciplina pública, sabendo que por superior disposição o governo foi confiado a ti, também os mesmos antístites da religião obedecem às tuas leis, para que não pareçam nas coisas mundanas subtrair-se a [uma por Deus a ti permitida ou obedecer a] uma decisão excluída, com quanto mais amor, te peço, será preciso e conveniente obedecer àqueles que foram destinados a conferir os venerandos mistérios?


Por isso, como os bispos correm o não leve risco de terem calado o que convém fazer a favor do culto da divindade, assim existe – Deus nos livre! – um perigo não medíocre para aqueles que, devendo obedecer, desdenham fazê-lo. E se convém que em geral os corações dos fiéis sejam submissos a todos os sacerdotes que tratam corretamente as coisas divinas, quanto mais se deve prestar anuência ao chefe daquela Sé que a suma divindade quis tivesse o primado sobre todos os sacerdotes, como em seguida a piedade da Igreja inteira sem interrupção tem celebrado?


Aqui, a tua piedade constata claramente que jamais alguém dentro de qualquer projeto puramente humano pode elevar-se ao privilégio e à profissão de fé daquele que a palavra de Cristo prepôs a todos e que a veneranda Igreja sempre reconheceu e devotamente tem como primaz. As realidades que foram constituídas por juízo divino podem ser agredidas pela humana temeridade; não podem, porém, ser vencidas pelo poder de ninguém.


S.S. GELÁSIO I: “DECRETUM GELASIANUM”, SOBRE A APROVAÇÃO OU A REJEIÇÃO DE LIVROS. De data incerta.


Depois de todos estes escritos proféticos e evangélicos e apostólicos que acima elencamos, nos quais a Igreja católica pela graça de Deus está fundada, julgamos dever sublinhar também o seguinte: embora para a universal Igreja católica esparsa pelo orbe o tálamo de Cristo seja único, a santa Igreja romana foi anteposta às outras Igrejas não por quaisquer decisões conciliares, mas obteve seu primado da palavra evangélica do Senhor e Salvador: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela, e te darei as chaves do reino dos céus, e tudo o que tiveres ligado na terra será ligado também no céu e tudo o que desligares na terra será desligado também no céu [Mt. XVI, 18].

A isso acresce a presença do beatíssimo Apóstolo Paulo, vaso eleito, que não em tempo diferente, como tagarelam os hereges, mas, agonizando juntamente com Pedro ao mesmo tempo e no mesmo dia, sob o imperador Nero, foi coroado por gloriosa morte na cidade de Roma; e eles consagraram de igual modo a supracitada santa Igreja romana ao Cristo Senhor, e com a sua presença e venerando triunfo a colocaram à frente de todas as cidades do mundo inteiro.

Por isso, a primeira sé do Apóstolo Pedro é a Igreja romana, que não tem mancha, nem ruga, nem qualquer coisa do gênero [Ef. V, 27]. A segunda sé, depois, foi consagrada em nome do bem-aventurado Pedro em Alexandria, por Marcos, seu discípulo e evangelista. Como terceira foi honrada, por sua vez, a sé do beatíssimo apóstolo Pedro em Antioquia, porque ali esteve antes de ir para Roma e ali apareceu pela primeira vez o nome de cristãos para designar o novo povo.